quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

PARE DE RETARDAR SUA MUDANÇA!

 Missa do 3º dom. comum. Palavra de Deus: Jonas 3,1-5.10; 1Coríntios 7,29-31; Marcos 1,14-20.

 

            O que você faria se recebesse um diagnóstico médico de que tem somente dois meses de vida? Normalmente, quando as pessoas se dão conta de que têm pouco tempo de vida, decidem fazer mudanças que nunca tiveram coragem de fazer: decidem perdoar ou pedir perdão, decidem admitir verdades que nunca admitiram, decidem se abrir para Deus, decidem falar o que nunca tiveram coragem de falar, decidem romper com uma situação de pecado que sempre as acompanhou durante toda a vida...

            Ao longo da nossa existência, vamos tomando consciência de que precisamos mudar, precisamos nos corrigir, precisamos abandonar certos hábitos que fazem mal a nós mesmos, à nossa família, ao mundo em que vivemos. No entanto, a maioria protela a mudança, seja porque não quer perder os ganhos secundários que as atitudes erradas lhe proporcionam, seja porque mudar dá trabalho; exige firmeza, perseverança, renúncia, luta consigo mesmo.

            Só um choque de realidade é capaz de nos tirar da nossa fantasia; só a evidência da destruição pode nos fazer mudar as atitudes que estão nos destruindo; só a consciência da morte pode nos fazer repensar a maneira como vivemos nossa vida até hoje; só a certeza de que o tempo que temos aqui é muito mais curto do que imaginamos pode nos fazer rever nossos valores e nossas atitudes.

            Nínive, capital da poderosa Assíria, fazia e acontecia; achava-se imune a qualquer calamidade, a qualquer risco de destruição. Mas ela foi derrubada da sua ilusão de onipotência ao ouvir a pregação de Jonas: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída” (Jn 3,4). Jonas deixou os ninivitas conscientes de que, se não mudassem suas atitudes, seriam destruídos pelo mal que causavam com o seu estilo de vida egoísta e individualista. Os ninivitas aceitaram fazer um doloroso processo de mudança e salvaram a si mesmos e à cidade.  

            Muitas coisas ruins têm acontecido. No entanto, mesmo com o mundo “desabando” à nossa volta, nós seguimos na correria da nossa vida com a ilusória pretensão de achar que o mal que atinge os outros nunca nos atingirá. Esquecemos do alerta de Jesus: “Se vocês não se converterem, morrerão todos do mesmo modo” (Lc 13,3). Todos nós sabemos que algo precisa mudar no mundo, nas pessoas, nas empresas, nas famílias, nas igrejas, mas quem de nós está disposto a mudar? Mudar dá trabalho e exige esforço, constância, paciência, perseverança, e a nossa geração não tem tolerância com processos. Os ninivitas tiveram um tempo de quarenta dias para mudar suas atitudes, e souberam aproveitar esse tempo. Nós, muitas vezes, não tomamos a decisão de mudar porque achamos que vamos ter tempo para isso depois, e nos esquecemos de que “o tempo está abreviado” (1Cor 7,29).

            O que o apóstolo Paulo quer dizer com “tempo abreviado”? O mesmo que Jesus: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,15). A história humana não está nas mãos do acaso, nem das pessoas que pensam determinar os rumos da humanidade. Deus é o Senhor do tempo e da história. Quando Jesus afirma que o Reino de Deus está próximo está se referindo à intervenção final que Deus fará na história humana, intervenção que consiste em exercer um julgamento, separando o justo do injusto e pondo fim ao mal. Portanto, essa intervenção significa condenação para os injustos e salvação definitiva para os justos.

            “O tempo está abreviado” (1Cor 7,29). Nós não temos o tempo que pensamos ter para somente depois fazermos as mudanças que sabemos serem necessárias em nossa vida. Daí o apelo de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,15). Não há ninguém que não precise mudar em algum aspecto da sua vida. Essa mudança deve ser guiada pelo Evangelho. Ele é “força de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16). Se “a figura deste mundo passa” (1Cor 7,31), o Evangelho é Palavra eterna e também palavra de Vida eterna.

            Três questões: 1) O que está correndo o risco de ser destruído em minha vida por falta de uma decisão firme da minha parta de mudar? 2) O que eu tenho feito do meu tempo? 3) Diante da certeza de que Deus intervirá na história, como Ele me encontrará: como uma pessoa justa a ser levada para o seu Reino ou como uma pessoa injusta a ser condenada à destruição?

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi



quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

TORNE-SE QUEM VOCÊ FOI CHAMADO(A) A SER!

 Missa do 2º dom. comum. Palavra de Deus: 1Samuel 3,3b-10.19; 1Coríntios 6,13c-15a.17-20; João 1,35-42.

 

            Os textos bíblicos que hoje ouvimos nos colocam diante da vocação do profeta Samuel e dos três primeiros discípulos de Jesus: André, João e Pedro. A vocação desses homens nos lembra que a nossa existência é fruto de uma escolha, de um chamado da parte de Deus: “Desde o ventre materno o Senhor me chamou, desde o ventre de minha mãe pronunciou o meu nome” (Is 49,1). A razão de ser da nossa existência não é uma escolha humana, mas divina; não é fruto do acaso, mas de uma vontade: Deus nos desejou, nos quis, nos chamou à vida em vista de uma tarefa, de uma missão, de uma vocação, e devemos estar cientes de que “a nossa vocação nunca é em função de nós mesmos. Deus não nos chama para nos promover ou nos privilegiar, mas para nos enviar para junto de situações que precisam ser mudadas” (José Lisboa M. Oliveira).

            “Samuel, Samuel!” (1Sm 3,4). Samuel era adolescente quando foi chamado por Deus e foi chamado num contexto de degradação da religião: “Os filhos de Eli (sacerdote) eram vagabundos” (1Sm 2,12) e “se deitavam com as mulheres que permaneciam à entrada da Tenda da Reunião” (1Sm 2,23). Séculos mais tarde, um outro jovem ouviria o Crucificado lhe chamar para uma difícil missão: “Francisco, reconstrói minha Igreja, que está em ruínas!”. Hoje Deus chama você para reconstruir a unidade da Igreja, cujo Pontífice (ponte e ponto de unidade) é sistematicamente agredido e desacreditado nas redes sociais por grupos “católicos” conservadores; você é chamado a reconstruir famílias, a fortalecer escolas, a desenvolver a boa Política e a justa Justiça; a defender o meio ambiente; a proteger crianças abusadas dentro de casa; enfim, a revitalizar sua Paróquia, envelhecida e necessitava de “sangue novo nas suas veias” (Pe. Zezinho).

            Samuel teve dificuldade em entender que era o Senhor Deus quem o chamava, e não o sacerdote Eli (cf. 1Sm 3,5.6). Deus não fala diretamente aos nossos ouvidos, mas através da realidade na qual estamos inseridos. Ele nos fala, sobretudo, através da dor de pessoas e de situações que precisam ser mudadas! Mas, como ouvir o chamado do Senhor quando estamos voltados unicamente para nós mesmos, ignorando a realidade à nossa volta, buscando apenas os nossos interesses financeiros ou afetivos, vivendo uma espiritualidade que nos mantém distantes do mundo, enquanto Deus “grita” a nós do meio desse mesmo mundo: “Essas pessoas precisam ser salvas!”?

            Samuel foi orientado a responder ao chamado de Deus com essas palavras: “Senhor, fala, que teu servo escuta!” (1Sm 3,9). Qual tem sido a nossa resposta ao chamado diário que Deus nos faz, por meio da realidade na qual estamos inseridos? Estamos tendo coragem de ouvir o Senhor, ou temos mantido nossos ouvidos e nossa consciência ocupados, cheios de barulho, atordoados por inúmeras desinformações, distanciados da realidade pela indústria da distração, tudo para não ouvirmos a voz de Deus no mais profundo de nós mesmos?

            A dois discípulos de João Batista que começaram a segui-lo, Jesus perguntou: “O que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). O que você está procurando quando passa horas jogando, apostando ou vendo postagens nas redes sociais? O que você está procurando quando maratona séries, assiste a filmes, vê pornografia na Internet ou assiste aos vídeos do seu influencer preferido? O que você está procurando quando ingere bebida alcoólica e/ou drogas; quando faz uma nova tatuagem, quando se sacrifica para ter um corpo “sarado”? O que você está buscando quando faz sua oração em casa, lê a Bíblia, ouve músicas católicas ou vai à missa? O que você está buscando quando faz o que faz no seu dia a dia? Você está buscando ser fiel à vocação, ao chamado que recebeu de Deus, ou a se distanciar o quanto possível disso?

                “O que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). Quando temos a coragem de parar a correria do dia a dia e a nos colocar diante dessa pergunta de Jesus, a nossa vida tem uma chance de recuperar o seu sentido e nós podemos sair das mãos (expectativas ou cobranças) dos outros e tomarmos as rédeas da nossa existência, orientando-a para aquilo que fomos chamados a fazer; mais do que isso, para aquilo que fomos chamados a ser. “Torne-se o que você é”, disse Píndaro, filósofo grego do séc. V aC. Essa verdade pode ser traduzida também em: “Torne-se o que você foi chamado a ser”. Somente quando sintonizamos o nosso coração com o coração de Deus; somente quando respondemos positivamente ao chamado que recebemos; somente quando somos fiéis à vocação que recebemos é que nos realizamos como pessoas.

            Uma última palavra: toda e qualquer vocação será vivida a partir da corporeidade da pessoa. Cinco vezes o apóstolo Paulo usou a palavra “corpo” no breve texto que ouvimos hoje. Dois extremos precisam ser evitados, quando consideramos o nosso corpo: o primeiro vem das pregações moralistas, para as quais tudo o que se refere ao corpo é pecaminoso e demoníaco. O outro extremo é a constante erotização do corpo, produzida pela indústria de consumo. Muitos de nós precisam reconciliar-se com o próprio corpo – aceitar-se como se é. Muitos precisam ouvir o próprio corpo – ele é uma caixa de ressonância da nossa alma (vida emocional). Muitos precisam rever sua espiritualidade, pois o Deus em quem nós cremos “se fez carne” (Jo 1,14): toda espiritualidade que nega ou despreza o corpo é doentia. Da mesma forma como descobrimos a nossa vocação em contato com a realidade na qual estamos inseridos, nós a vivemos a partir da nossa carne, do nosso corpo, o qual deve se tornar “carne” de Deus, toque de Deus, presença concreta de Deus, “afeto” de Deus para as pessoas que fomos chamados a servir.

             

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

NOSSA VIDA DEVE "FALAR" DE DEUS COMO UMA ESTRELA "FALA" DE LUZ NO CÉU ESCURO DA NOITE

 Missa da Epifania (manifestação) do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

 

Na vida de muitas pessoas tem acontecido o que alguns teólogos chamam de “eclipse de Deus”. Devido a uma doença, uma perda, um grande sofrimento; devido ao vazio existencial ou à perda de sentido de vida; devido ao excesso de materialismo, a luz de Deus (a presença de Deus) tem se apagado dentro dessas pessoas. Elas já não veem mais – nem muito menos conseguem sentir – a manifestação de Deus em suas vidas. Além disso, não podemos deixar de mencionar que o “eclipse de Deus” também é produzido pelo contratestemunho de cristãos que não vivem segundo o Evangelho...

A boa notícia é que, mesmo que muitos estejam experimentando em sua vida um certo “eclipse de Deus”, no coração de toda pessoa, até mesmo daquela que pensa não crer em Deus, existe uma busca por Deus, pela Verdade, uma busca por sentido: “É tua face, Senhor, que eu procuro, não me escondas a tua face” (Sl 27,9). Todo ser humano busca a Deus. Em alguns, essa busca é consciente; em outros, inconsciente. Quando a pessoa não sabe interpretar o clamor por Deus em seu coração, acaba dando respostas erradas, como as drogas, o consumismo, o ativismo, as relações sexuais sem compromisso etc.

Muitos hoje desistiram de buscar a Deus, porque constataram que o caminho da fé é árduo, exige perseverança, pois é um caminho feito não apenas de respostas, mas de muitas perguntas. Outro problema é o comodismo espiritual: pessoas que dirigem os olhos para as Escrituras, mas não dirigem os pés para caminharem ao encontro do Senhor; conhecem a verdade, mas não querem se aproximar dela. Contudo, o encontro dos magos com Jesus nos mostra que a nossa busca por Deus nunca será inútil: “Aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe e que recompensa os que o procuram” (Hb 11,6). Nas noites escuras da nossa fé, Deus sempre providenciará uma estrela para nos guiar, até que possamos estar diante de seu Filho, reconhecendo-O como nosso Salvador, como Aquele que o nosso coração sempre buscou.

A luz da estrela que guiou os magos até Jesus nos provoca a vivermos de tal modo que a nossa existência fale de Deus para as pessoas que estão à nossa volta, lembrando que eu não posso conduzir alguém para Deus se eu mesmo não vivo em Deus. Nossa maior tragédia enquanto cristãos, é quando nossas atitudes ocultam Deus, afastando as pessoas da Igreja. Devemos “falar” de Deus para as pessoas com a nossa vida, apesar das nossas fraquezas. Além disso, nossa tarefa como luz, como manifestação de Deus para as pessoas do nosso tempo, sempre será vivida em contraste com as trevas. De fato, a luz só é percebida no contraste com a escuridão. Isso significa que o cristão deve diferenciar-se do mundo, no sentido de não viver como uma pessoa “mundana”. Isso também significa que a luz da nossa vivência cristã deve se manifestar justamente no meio da escuridão do mundo. Quando os cristãos se distanciam do mundo e se resguardam dentro das igrejas, estão fazendo o oposto do que a estrela fez, impedindo as pessoas de serem provocadas e buscar Deus em seu caminho de vida.

Ainda sobre isso, é importante considerar que muitas pessoas do nosso tempo reagem à luz como se fossem morcegos. Habituadas à escuridão do individualismo, da indiferença para com as injustiças à sua volta, essas pessoas não estão abertas à luz, ao menos não num primeiro momento. Por isso, o cristão não pode pretender ser um holofote que agride com sua luz os olhos das outras pessoas, impondo-lhes a “verdade” da sua ortodoxia, da sua “rigidez” religiosa. A luz deve dialogar com quem está habituado a viver na escuridão, convidando a pessoa a fazer um caminho, a abrir-se a um processo de aproximação gradual da luz, da verdade, até que ela compreenda que o benefício de viver na luz é muito mais saudável e libertador do que os ganhos secundários das trevas. 

            Assim como fizeram os magos diante de Jesus, hoje nossos joelhos se dobram diante do Pai, agradecendo-O pelo nascimento de seu Filho, manifestação do seu amor pelo ser humano e do seu desejo de salvá-lo. Agradecemos cada estrela que o Pai faz brilhar no céu escuro da humanidade, provocando cada ser humano a sair da escuridão em que se encontra e a fazer um caminho de libertação, deixando-se iluminar, conduzir e curar por Aquele que é o Caminho, a resposta à pergunta mais profunda que o ser humano tem de felicidade, de paz e de sentido para a sua vida. Diante do ouro, do incenso e da mirra que os magos ofereceram a Jesus, pedimos que o Pai nos ensine a enxergar em cada ser humano o ouro da sua dignidade e da sua unicidade, o incenso do sagrado que carrega em si como filho amado de Deus e a mirra da sua fragilidade, espaço por meio do qual a força do Pai se manifesta como amor que redime, como bálsamo que alivia a dor e como convite ao amadurecimento e à superação dos seus erros.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

DECIDIR VIVER COMO FILHO, NÃO COMO ESCRAVO

Missa Maria, Mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

  

            Ao celebrarmos Maria, Mãe de Deus Filho, queremos fazer a experiência do salmista: “Fiz calar e repousar meus desejos, como criança desmamada no colo de sua mãe” (Sl 131,2). Nossos desejos são atiçados o tempo todo não só pelo consumismo, mas também pelo excesso de informações e de estímulos das redes sociais. A correria da vida, somada ao excesso de palavras, mensagens, imagens e vídeos que recebemos todos os dias, nos cansam mentalmente e nos atrapalham diante da necessária tarefa de “discernir tudo e ficar somente com o que é bom” (cf. 1Ts 5,21). Para não nos perdemos diante de tantas solicitações, devemos nos colocar no colo de nossa Mãe e aprender com ela a ter uma postura sábia diante da vida: guardar todos os fatos que marcam a nossa história pessoal e social e meditar sobre eles em nosso coração (cf. Lc 2,19).

            O coração, na Bíblia, não é somente o lugar onde moram os nossos afetos, mas o lugar onde refletimos e tomamos as decisões que definem a direção que desejamos dar à nossa vida. Aqui vale a pena recuperar a verdade de que “o homem não é produto das circunstâncias; o homem é produto das suas decisões” (Victor Frankl). Normalmente, nós temos pouco ou nenhum controle sobre as circunstâncias que afetam a nossa vida, mas temos liberdade e responsabilidade na forma de nos posicionar diante dessas circunstâncias. Tudo aquilo que nos aconteceu e ainda não pudemos compreender, guardamos no coração e meditamos, na certeza de que, aos poucos, Deus nos revelará a razão de ser de cada acontecimento.

            Quando calamos e sossegamos nossos desejos, conseguimos ouvir dentro de nós um clamor: “Abbá, Papai”. Esse clamor não significa chamar para perto de nós o Pai que está distante, mas se trata de uma profissão de fé: ninguém de nós está sozinho nesse mundo; temos o Espírito Santo conosco, e ele comprova que nós somos filhos de Deus e que Ele, o Pai, está conosco. Diante de cada acontecimento que se dá em nossa história de vida, nós dizemos: “Abbá, Papai!”, confiando que tudo aquilo que o nosso Papai permite que nos aconteça tem um propósito de salvação para a nossa vida: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28), tudo, até mesmo as adversidades e contrariedades.

            Ter a consciência de que somos filhos nos liberta da necessidade de nos tornarmos escravos de coisas, de pessoas ou de situações doentias ou destrutivas, unicamente porque estamos buscando reconhecimento e aprovação: “Assim já não és mais escravo, mas filho” (Gl 4,7). Em nome da própria liberdade, muitas pessoas se tornam escravas de vícios, de padrões de comportamento (moda), sendo que a grande escravidão moderna é a busca de reconhecimento nas redes sociais. Diferente do escravo, o filho não vive atormentado pela busca de reconhecimento, porque sabe que é amado incondicionalmente pelo Pai. Sua liberdade nunca é usada para afastar-se do Pai, mas para fazer a Sua vontade, porque ele sabe que o que o Pai quer é verdadeiramente o seu bem e a sua salvação.

            Assim como Jesus foi circuncidado no oitavo dia de vida, recebendo a marca de pertença e de consagração a Deus, assim nós somos chamados a cuidar da nossa pertença e da nossa consagração. A verdadeira circuncisão não consiste em marcar um órgão do corpo, mas em manter a consciência e o coração voltados para Deus, segundo o princípio de Santo Inácio de Loyola: “aproximar-me das coisas e das pessoas tanto quanto elas me aproximam de Deus; afastar-me das coisas e das pessoas tanto quanto elas me afastam de Deus”. Portanto, trata-se de cortar hábitos e atitudes que enfraquecem a nossa pertença e atentam contra a nossa consagração a Deus.

            O filho vive da bênção do Pai. A bênção que hoje pedimos a Deus não deve ser movida por interesses mundanos: prosperidade, sucesso, bem-estar egoísta. Essa bênção também não significa superproteção – o privilégio de passar pela vida sem sofrer. Diferente do pai terreno que busca poupar o filho de todo tipo de dor, nosso Papai não nos poupará de situações difíceis sempre que elas foram necessárias para o nosso crescimento, a nossa conversão e a nossa santificação. Deus nos quer fortes e capazes de olhar a vida nos olhos. Sempre que Ele permitir que a cruz atravesse o nosso caminho, será para que possamos dizer como o apóstolo Paulo: “Sei em quem coloquei a minha fé” (2Tm 1,12). Sei em quem eu me apoio para não tombar diante dos ventos contrários e prosseguir o meu caminho até alcançar a meta para a qual fui chamado.  

            Ao iniciarmos um novo ano, procuremos substituir saudações do tipo “Feliz Ano Novo!”, ou “Saúde e Paz!”, pela seguinte bênção: “O Senhor te abençoe e te guarde!”; ou: “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti!”, ou ainda: “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!”. Neste dia mundial da paz, não nos esqueçamos de que a paz deve ser promovida, construída, e não apenas desejada: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Que cada um de nós tome a decisão diária de ser “um instrumento da paz” do nosso Deus no seio de uma humanidade tão necessitada de paz.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

FAMÍLIA: DE UM CAMPO DE BATALHA PARA UM HOSPITAL QUE CUIDA DAS FERIDAS

 Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-13.18-21; Lucas 2,22-40

 

            Nenhum lugar é mais sagrado do que a casa, a família. Ali deveria ser lugar de afeto, aconchego, refúgio, proteção, lugar onde nos sentimos bem. Mas, para muitos, a família sempre foi ou se tornou, ao longo do tempo, lugar de conflito, uma espécie de campo de batalha onde uns agridem os outros; lugar onde crianças são abusadas, mulheres são agredidas; lugar do qual alguns homens procuram se manter distantes – de preferência, nos bares, com os amigos –, muitas vezes para não serem cobrados por suas esposas quanto à educação dos filhos ou ao serviço da casa.

            A saúde emocional da família depende da colaboração de cada pessoa que mora na casa. Quando cada um faz sua parte, existe equilíbrio, harmonia, e ninguém se sobrecarrega. Quando cada um se omite das suas responsabilidades, alguém se sobrecarrega, o que leva a pessoa ao adoecimento, e a doença dessa pessoa atinge os demais da casa, da mesma forma como quando um membro do corpo está doente faz o corpo todo sentir o mal estar.

            Um dos maiores problemas da família é o dinheiro: a falta dele gera constantes brigas e discussões; a busca excessiva por ele distancia o casal um do outro e os pais dos filhos. Outro problema é o consumismo: “o que é demais nunca é o bastante”. 76% das famílias brasileiras estão endividadas. Aqui não se trata apenas de baixos salários, mas também da falta de administração da economia doméstica. Compra-se o que não se precisa; gasta-se além do que pode. Um terceiro problema é a inversão de valores: o filho tem (quase) tudo o que quer, menos um pai ou uma mãe que lhe ensine o que significa limite, educação, caráter, decência, honestidade, compaixão, responsabilidade, humanidade.

            “Uma espada te transpassará a alma” (Lc 2,35), disse Simeão a Maria. Não existe família sem dor, porque não existe vida sem dor. Pais que fazem de tudo para evitar que o filho sofra a dor de uma frustração tornam o filho incapaz de lidar com a vida e fazem dele um suicida em potencial. A espada corta, e o corte lembra a poda. Família é lugar de corte e de poda. Crianças não podadas são crianças sem limites. Não respeitam ninguém, não aceitam ouvir “não” e se tornam pessoas das quais todos queremos distância. Aqui uma pergunta se faz necessária: onde o filho dorme? O filho deve dormir no quarto dele e não dos pais. É gravíssimo quando a mulher “usa” o filho para distanciar-se sexualmente do marido. Nesse caso, cabe ao pai impor-se e “dar um corte” no filho, fazendo-o dormir no seu quarto, e não na cama com a mãe. Isso ajuda no fortalecimento da masculinidade do filho.

            Ainda a respeito desse assunto, embora os filhos pequenos exijam naturalmente muito dos pais, o casal não pode descuidar da saúde emocional e sexual do casamento. É necessário que periodicamente os filhos fiquem com os avós ou algum parente de confiança, para que o casal possa ter seu espaço e seu momento de diálogo, de revisão do funcionamento da casa e de manutenção da qualidade de vida afetiva e sexual.

            Por fim, como anda a espiritualidade da família? “Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22). Essa apresentação se inspira na atitude Ana, mãe do profeta Samuel: “Eu orava por este menino, e o Senhor atendeu à minha súplica. Da minha parte eu o dedico ao Senhor por todos os dias que viver, assim o dedico ao Senhor” (1Sm 1,27-28). A maioria das famílias não procura mais a Igreja para batizar seus filhos e um dos motivos é que muitas delas são “irregulares”, e nossa Igreja ainda não se faz próxima dessas famílias. Por isso, é cada vez mais comum que crianças cresçam sem espiritualidade, com pouquíssima ou nenhuma referência de fé dentro de casa.

            A apresentação, a dedicação ou a consagração de Samuel (AT) e do menino Jesus (NT) a Deus deixam uma pergunta: o filho pertence a quem? Ele não pertence aos pais, mas a Deus. Ele não nasceu para realizar o sonho dos pais, mas para descobrir a sua própria vocação, que é fazer da sua existência, que é única, uma palavra única que Deus deseja comunicar à humanidade. O papel dos pais não é criar o filho para si mesmos, mas para a vida; prepará-lo para abraçar a vida com os seus desafios e para prestar um serviço à humanidade. Pais que têm como objetivo tornar seu filho “um sucesso” se esquecem de que o primeiro preço que o sucesso cobra é que a pessoa jogue sua consciência e seu caráter no lixo. Neste sentido, faria muito bem aos pais que vivem postando fotos e vídeos de seus pequenos nas redes sociais se lembrarem da parábola da carroça vazia: quanto mais vazia uma pessoa é, mais barulho ela faz, para chamar a atenção dos outros sobre si.   

            Um último ponto que ainda precisa ser repensado em nossa vida de família: “Meu filho, ampara o teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto ele vive. Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele” (Eclo 3,14-15). Como lidamos com os idosos da nossa família?

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

domingo, 24 de dezembro de 2023

O NATAL É UMA PALAVRA DO CÉU À TERRA (cf. Jo 1,14).

 Missa de Natal. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14; Lucas 2,1-14; João 1,1-18.

 

            O contexto em que Jesus nasceu foi este: César Augusto, imperador de Roma, ordenou um recenseamento, o que obrigou José a ir com Maria, já no final da gravidez, a Belém. Não havia lugar para eles na hospedaria e Maria teve que dar à luz a Jesus numa estrebaria. O contexto em que nasceu Ezequias, filho do rei Acaz (sec. VIII aC), foi este: “botas de tropas de assalto, trajes manchados de sangue” (Is 9,4) – guerra. Exatamente quando a violência cobre o país com a sombra escura da morte, ouve-se o anúncio: “Nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz” (Is 9,5).

            O contexto em que hoje celebramos o Natal é este: guerra na Ucrânia, na Palestina e em tantas outras partes do mundo que a mídia não divulga; mudanças climáticas que castigam o Sul com excesso de chuva, o Norte com uma seca histórica nunca vista, e nós, aqui no Sudeste, com ondas insuportáveis de calor e falta de chuva. O contexto em que algumas famílias terão que vivenciar o Natal hoje é de tristeza: alguém não estará na ceia ou no almoço de Natal, porque morreu de acidente, se suicidou ou foi levado deste mundo por uma doença muito grave.

            Essa é a realidade: o nascimento de Jesus não eliminou o mal do mundo, nem cancelou a dor, o sofrimento e a morte da nossa vida, mesmo porque o menino que nasceu o filho que nos foi dado, se tornará um “homem sujeito à dor, familiarizado com o sofrimento” (Is 53,3). Seu nome é “Deus conosco”, conosco em nossa dor, em nosso sofrimento, em nossa morte. Ao nascer, Jesus participou da nossa mesma condição mortal, para “libertar os que passaram a vida toda em estado de servidão, pelo temor da morte. Pois ele não veio ocupar-se com anjos, mas sim com a descendência de Abraão” (Hb 2,15-16).

            O nascimento de Jesus se deu numa estrebaria, onde os animais costumavam dormir e se alimentar, porque “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Isso nos leva a reconhecer que, embora hoje a maioria das pessoas celebre o Natal, ainda não há lugar para Deus nascer na vida delas, porque seus corações estão voltados para o Palácio e não para a manjedoura, para o Imperador e não para um menino, para a grandiosidade e não para a simplicidade. A graça do Natal pode passar despercebida na vida da maioria das pessoas, porque muitas delas estão perdidas no ativismo, na correria, no consumismo, na superficialidade, no vazio, distanciando seu coração de Belém.

“Nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Nasceu aquele que “veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Nasceu aquele a quem o Pai concedeu o poder sobre todo ser humano (cf. Jo 17,2). Por isso, nós celebramos o Natal na alegre certeza de que, ao nascer, Jesus é a “graça de Deus (que) se manifestou trazendo a salvação para todas as pessoas” (Tt 2,11). Ninguém está perdido para sempre. Ninguém está condenado para sempre. “Fiel é esta palavra(...): Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro” (1Tm 1,15). O Natal de Jesus aconteceu em favor da salvação de cada ser humano, sobretudo daquele que mais necessita ser salvo, qualquer que seja a situação.

            “Eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). “Alegrai-vos e exultai ao mesmo tempo, ó ruínas de Jerusalém, o Senhor consolou seu povo e resgatou Jerusalém” (Is 52,9). O anúncio do Natal precisa chegar às nossas ruínas. Quantas situações foram ou estão arruinadas em nossa vida ou na vida de pessoas que nós amamos? Nós não celebramos o Natal porque não temos ruínas em nossa vida, mas porque olhamos para as nossas ruínas como lugares de reconstrução, como situações perante as quais podemos ter atitudes diferentes, atitudes que transformem a lamentação pelo que perdemos em alegre esperança de que algo novo pode e deve ser construído ali.

O Natal é uma Palavra do céu à terra: “A Palavra se fez carne (pessoa humana) e veio habitar no meio de nós” (Jo 1,14). A existência de Jesus foi uma palavra de conforto a toda pessoa abatida; uma palavra de salvação a toda pessoa perdida; uma palavra de vida a toda pessoa que se sentia morta por dentro. Nós somos discípulos daquele que é “a Palavra que se fez carne”. Quanto mais o Natal perde o sentido para muitas pessoas, mais a nossa vida de discípulos precisa “dizer” o Evangelho – Palavra de Salvação – a todo ser humano que espera por essa Palavra.

Nesta noite de Natal, somos convidados a silenciar a nossa alma para acolher “a Palavra (que) se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Deus tem uma palavra a dizer a cada ser humano: uma palavra de cura para o doente, de direção para o que se sente perdido, de libertação para o que se sente preso, de força para o enfraquecido, de consolo para o que está triste, e essa Palavra é seu próprio Filho feito homem (cf. Hb 1,1-2), pessoa humana, que conhece o chão da nossa história, nossas misérias, nossas lutas e nossas esperanças. E aqui se revela a nossa tarefa como cristãos: fazer ecoar em nossas atitudes o “Verbo de Deus”, colocando-nos junto das pessoas abatidas para levar-lhes uma palavra de conforto da parte de Deus, o Consolador de todo ser humano.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

DEUS ESCOLHEU HABITAR EM NOSSA INSIGNIFICÂNCIA E DESAMPARO

 Missa do 4º dom. advento. Palavra de Deus: 2Samuel 7,1-5.8b-12.14a.16; Romanos 16,25-27; Lucas 1,26-38.

 

Onde Deus habita? Onde Ele escolheu habitar? A resposta se encontra no livro do profeta Isaías: “Eu, o Senhor, habito em lugar alto e santo, mas estou junto com o humilhado e desamparado, a fim de animar os espíritos desamparados, a fim de animar os corações humilhados” (57,15).

O rei Davi, sustentado por Deus, derrotou todos os seus inimigos e construiu um palácio majestoso em Jerusalém. Instalado no seu palácio, pensou em construir um Templo para Deus habitar, uma vez que a Arca da Aliança, símbolo da presença de Deus no meio de Israel, “habitava” numa tenda, símbolo não só de provisoriedade, mas também do Deus peregrino, que caminha com seu povo.

A ideia de Davi parecia boa, tanto que até o profeta Natã assinou embaixo! Mas Deus tinha outros planos: não era Davi que construiria uma casa (Templo) para Deus habitar, e sim o próprio Deus faria uma casa para Davi: “(...) o Senhor te anuncia que te fará uma casa... Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim” (2Sm 7,11.16). A “casa” era o juramento de que nunca faltaria no trono de Israel um descendente de Davi.

Quando Salomão, o filho de Davi, construiu o Templo de Jerusalém, Deus acolheu aquela construção enchendo-a com a nuvem da Sua presença, a ponto de Salomão se encher de orgulho e afirmar: “O Senhor decidiu habitar a Nuvem escura. Sim, eu construí para ti uma morada, uma casa em que habitas para sempre” (1Rs 8,12-13). Mas Salomão estava enganado. O Templo que ele construiu não era eterno. Destruído em 587 aC, pela Babilônia, e reconstruído mais tarde por Esdras e Neemias, o Templo de Jerusalém foi destruído pelo Império Romano no ano 70 dC, restando dele, até hoje, apenas uma parte da sua muralha externa, chamada de “muro das lamentações”. Curiosamente, no lugar do Templo foi construída a principal mesquita dos muçulmanos.

O que tudo isso tem a nos dizer? Nenhuma casa ou templo que possamos construir para Deus habitar é garantia de que Ele estará ali “para sempre”. Como afirmou Estêvão, “o Altíssimo não habita em obras de mãos humanas” (At 7,48). Nenhuma igreja ou religião pode se presumir “possuidora” de Deus. Deus é absolutamente livre e não cabe dentro de nenhum templo, nenhuma igreja, nenhuma ideia, nenhum conceito e nenhum sentimento ou emoção que possamos ter ou experimentar a respeito d’Ele.

Onde Deus habita? Onde Ele escolheu habitar? Ele escolheu habitar no seio de uma virgem, moradora da insignificante Nazaré. “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,45), perguntou Natanael. Por que Deus, ao desejar se fazer pessoa humana em seu Filho Jesus Cristo, não escolheu o seio de uma rainha, de uma mulher da corte, de uma habitante da capital de Israel, Jerusalém? Por que se fazer pessoa humana no seio de uma simples “Maria”, habitante de uma desprezada e até mesmo odiada Nazaré? Exatamente porque Ele escolheu fazer sua morada entre os insignificantes e entre os desamparados deste mundo.

A liturgia de hoje nos convida a reler a nossa história de vida. Nós acolhemos a nossa “insignificância” e o nosso “desamparo” perante o mundo? Talvez, o “Templo” que um dia construímos a Deus, na esperança de que Ele nunca nos abandonasse, na pretensão de que Ele ficasse conosco para sempre, tenha sido destruído. Não só isso; talvez a casa que Deus prometeu “ser estável para sempre” em nossa vida foi ou esteja sendo destruída. O que hoje é “estável para sempre”? Nada, absolutamente nada. Nossa fé não vive de estabilidade; ela vive de uma convicção: “Para onde ir longe do teu Espírito? Para onde fugir, longe da tua presença? Se subo aos céus, tu lá estás; se desço ao abismo, ali também te encontro” (Sl 139,7-8).     

Deus está conosco como Presença escondida, quer estejamos “para cima”, quer estejamos “para baixo”; quer a nossa casa esteja estável, quer ela esteja instável; quer ela ainda esteja em pé, quer ela tenha sido destruída. Da mesma forma como uma nuvem cobria a Tenda da Habitação no deserto (cf. Ex 40,36-38), assim o Espírito Santo cobriu Maria com sua sombra (cf. Lc 1,35), a fim de torná-la grávida de Jesus. Portanto, nós hoje suplicamos que essa mesma sombra do Espírito de Deus nos cubra e nos engravide de fé, de esperança, de alegria, de coragem, de perseverança, de suportação, de fidelidade, de confiança, de modo que possamos dizer a Deus o que Maria disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

Nesta véspera de Natal oferecemos a Deus a nossa insignificância, a nossa instabilidade, a nossa casa, a nossa Nazaré, o nosso seio, a nossa humilhação, o nosso desamparo, e pedimos que Ele venha habitar em nós; que Ele venha reconstruir a nossa casa; que Ele venha nos ajudar a suportar a instabilidade deste mundo, fixando nossos corações onde se encontra a estabilidade do Seu Reino eterno. Que o Deus que escolheu estar junto com os humilhados e desamparados nos coloque também junto deles, onde podemos experimentar a “carne” de seu Filho Jesus, a verdade do seu Natal.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi