Homilia do 14º. Dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 9,9-10; Romanos 8,9.11-13; Mateus 11,25-30.
“Como você está?”, pergunta um amigo
ao outro, ao que este responde: “Matando um leão por dia”. Esse leão, que nós
julgamos ter que matar todos os dias, se encontra fora de nós (cobranças
externas) ou dentro (autocobrança)? No seu livro “Sociedade do Cansaço”, o
filósofo sul coreano Byung-Chul Han identifica qual é esse leão. Ele se chama “Sociedade
do desempenho”: “A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O
sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (esgotamento)”.
Olhemos para nós mesmos. Nossa
agressividade vive à flor da pele. Frequentemente estamos irritados, exaustos,
cansados e sem paciência. Por qual motivo? Porque não respeitamos nossos
limites. Ignoramos os sinais do nosso corpo e da nossa mente, por não
respeitarmos a nossa medida. “A busca incessante por produtividade nos afasta
da essência do ser humano” (Chul Han), o que significa que nos tornamos selvagens.
Nós internalizamos uma exigência de produtividade, de desempenho (performance)
e deixamos essa mancha de óleo se espelhar livremente pelas diversas áreas da
nossa vida: familiar, profissional, sexual e até mesmo espiritual.
Quem se torna escravo do desempenho não
tem tempo para o descanso. “Descanso é para gente fraca!”, pensam alguns. “O
excesso de trabalho e desempenho leva à autoexploração. Hoje o indivíduo se
explora e acredita que isso é realização” (Chul Han). Uma vez que vivemos constantemente
na correria, nosso cérebro se recusa a descansar – daí a necessidade de
ansiolíticos (tranquilizantes ou calmantes). Para piorar a situação, antes de
nos deitar para dormir, damos uma última olhada no celular, recebendo mais um
pouco de estímulos e sobrecarregando ainda mais o nosso cérebro.
Diante de tudo isso, o profeta
Zacarias nos pergunta: “Quando é que vocês vão descer do cavalo de guerra em
que vivem montados?”. A imagem profética de Jesus, montado num jumentinho, nos
remete para valores que deixamos de cultivar: mansidão, confiança, humildade,
paz; numa palavra, um coração desarmado. Dentro de nós existem carros de guerra
a serem eliminados e arcos de guerra a serem quebrados. Em lugar de pedirmos a
Deus que nos torne vencedores nas guerras que estamos enfrentando, deveríamos
pedir liberdade interior para nos distanciar da guerra por desempenho constante,
e nos conceder um coração manso, humilde, pacífico, um coração que confie n’Ele
e se deixe cuidar por Ele.
Assim como o cavalo de guerra e o
jumentinho são opostos, assim também se opõem dois modos de viver: segundo a
carne e segundo o Espírito. A carne não é simplesmente o nosso corpo, mas o
nosso ego. Viver segundo a carne significa ser escravo das constantes
solicitações do nosso ego. Viver segundo o Espírito significa alcançar a liberdade
diante das próprias cobranças, e escolher distanciar-se do estilo de vida
doentio do mundo atual. O apóstolo Paulo nos adverte: “Se viverdes segundo a
carne, morrereis, mas se, pelo espírito, matardes o procedimento carnal, então
vivereis” (Rm 8,13). Viver escravo da sociedade do desempenho nos esgota,
adoece e diminui muito a nossa expectativa de vida.
Eis o convite de Jesus a todos nós: “Vinde
a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e
eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Jesus não veio nos tirar das nossas
responsabilidades neste mundo; ele veio questionar o nosso estilo de vida
doentio e nos libertar de tudo aquilo que nos escraviza e nos esgota. Quando
nos sentimos sobrecarregados e esgotados, devemos nos perguntar: o fardo que
estou carregando está dentro dos meus limites? O fardo que me pesa é consequência
da minha necessidade de ser amado(a) e aprovado(a)/elogiado(a) pelos outros?
“Aprendei de mim, porque sou manso e
humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). Jesus nunca
permitiu que sua vida fosse intoxicada por excessos. Ele também nunca se permitiu
ser devorado pelas pessoas e suas solicitações. Sendo verdadeiramente humano,
soube respeitar sua medida e seus limites. Livre das críticas dos outros, sabia
reservar tempo para descansar e rezar. Nunca abriu mão de escutar diariamente
sua consciência, esse lugar sagrado que pouco visitamos e que poderia nos
ajudar a sermos nós mesmos, livres das cobranças que nos adoecem e esgotam.
Se desejamos nos libertar de fardos
que nos sobrecarregam e adoecem, precisamos mudar algumas das nossas atitudes,
inspirando-nos em Jesus e nos permitindo cuidar por ele diariamente. Silêncio,
meditação, oração e descanso nunca farão parte da nossa rotina sem uma decisão
séria da nossa parte, sem uma vida disciplinada. Não aconteça conosco o que
aconteceu com Israel, quando Deus lamentou: “Na conversão e na calma estava a
vossa salvação, na tranquilidade e na confiança estava a vossa força, mas vós
não quisestes!” (Is 30,15).
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