Homilia do 19º dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13a; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.
Por causa das mudanças climáticas,
as tempestades estão aí, manifestando a sua violência cega, ferindo, destruindo
e até mesmo matando. Mas existe também outro tipo de tempestade. É aquela
interior, nascida como consequência de um pecado grave, de atitudes movidas
pela ira, do esgotamento de quem ultrapassa seus limites e, sobretudo, da falta
de confiança em Deus. O fato é que nenhum ser humano atravessa o mar da vida
sem lidar com ventos contrários e tempestades.
O texto do primeiro livro dos Reis
descreve a tempestade interior do profeta Elias. Fugindo da ameaça de morte da
rainha Jezabel, ele atravessa o deserto e sobe ao monte Horeb, para procurar
refúgio em Deus. É noite, o momento em que a ansiedade, o medo e as
preocupações gritam conosco, o momento em que nos sentimos frágeis e até mesmo
desolados. Nessa situação nós só podemos clamar: “Tende piedade, ó meu Deus, tende piedade,
pois eu me abrigo em ti; eu me abrigo à sobra de tuas asas, até que passe a
tempestade” (Sl 57,2).
Na oração, nós silenciamos para
ouvir a voz de Deus acima do barulho da tempestade. Antes do Senhor, porém, veio
um furacão, um terremoto e um incêndio. Mas o Senhor não estava neles. Elias só
conhecia Deus pela força da violência, do radicalismo e do fanatismo religioso.
Por isso, Deus se ausenta da sua fúria humana, para fazê-lo conhecer a Sua
verdadeira face no murmúrio de uma brisa suave. A brisa suave é uma das imagens
bíblicas do Espírito de Deus no Antigo Testamento. Se o vento contrário das
tempestades nos assusta, o vento do Espírito de Deus nos conduz para fora da
tempestade, devolvendo-nos serenidade e clareza interior para continuarmos a
conduzir a nossa vida.
Assim como o profeta Elias, todo pai
precisa refugiar-se em Deus, a fim de não ser engolido pelas tempestades da
vida. Se o mundo todo passa por um enfraquecimento da figura masculina, aquele
que recebeu o dom da paternidade precisa apoiar-se diariamente no Pai do céu,
aprender a ser forte consigo mesmo, enfrentar a sua tempestade interior e se
render ao fato de que seus obstáculos serão vencidos “não pelo poder, não pela
força, mas por meu Espírito, diz o Senhor” (Zc 4,6). Aquele que chamou o homem
à paternidade também lhe sustentará na fidelidade diária a essa tarefa, por meio
do seu Santo Espírito.
Olhemos agora para as tempestades
externas que nos atingem com violência: guerras, doenças, desigualdade social, ameaças,
cobranças, dificuldade financeira etc. Sempre que elas se levantam nós,
acabamos por questionar se Jesus realmente está conosco, conforme prometeu. Mas
o Evangelho nos diz que, o fato de Jesus permanecer diante da face do Pai
orando em nosso favor (cf. Hb 9,24), não significa que seremos poupados de tempestades.
Se nenhum vento contrário atingir uma árvore em crescimento, ela não terá
raízes profundas, nem um tronco forte, e tombará diante de qualquer ventania. Assim,
as tempestades estão aí para que aprofundemos as raízes da nossa fé.
“Homem fraco na fé, por que você
duvidou?” (Mt 14,31). Pedro tinha duas opções, no meio da tempestade: manter os
olhos fixos em Jesus, e continuar caminhando sobre o mar tempestuoso, ou
direcionar os olhos para o furor da tempestade. “Quando sentiu o vento, ficou
com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14,30). Somos
pessoas fracas na fé, quando damos deixamos o medo e a angústia alimentarem o
desespero e o pessimismo em nós, por causa das tempestades que enfrentamos. Somos
pessoas fracas na fé, quando queremos garantias da parte de Jesus de que
conseguiremos fazer a travessia; do contrário, nos recusamos a entrar na barca
com ele. Somos pessoas fracas na fé, quando fazemos tempestade em copo d’água diante
de tudo o que escapa do nosso controle, quando deveríamos confiar no Espírito
Santo que nos fortalece, sustenta e conduz.
“Assim que subiram no barco, o vento se
acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’”
(Mt 14,32-33). Pessoas fortes na fé não se prostram diante das tempestades,
mas, sim, diante do Filho de Deus, que tem o poder de silenciá-las. Portanto, ao Senhor Jesus supliquemos: “Salva-me, ó Deus, pois a água sobre até o meu pescoço! Afundo
num lodo profundo, sem nada que me afirme; entro no mais profundo das águas, e
a correnteza vai me arrastando... Não escondas tua face ao teu servo! Estou
angustiado, responde-me depressa! Quanto a mim, curvado e ferido, que tua
salvação, ó Deus, me levante!” (Sl 69,2-3.18.30).
Pe. Paulo Cezar Mazzi