quinta-feira, 20 de agosto de 2026

É ESPECIALMENTE NA DOR QUE PODEMOS RESPONDER À PERGUNTA DE JESUS: "QUEM EU SOU PARA VOCÊ?".

 Homilia do 21º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 22,19-23; Romanos 11,33-36; Mateus 16,13-20.

 

A pergunta fundamental: “Quem eu sou, para você?”. Essa pergunta vem acompanhada de algumas outras: O que eu significo para você? Por que você decidiu me seguir? O que você espera de mim? Qual lugar eu ocupo em sua vida, no dia a dia?

Esses questionamentos de Jesus têm um único propósito: nos fazer passar de uma simples opinião para uma verdadeira convicção de fé, da superficialidade para a profundidade, do anonimato de quem se mistura com a massa para um posicionamento pessoal claro, do conhecimento de Jesus segundo a carne e o sangue (entendimento humano) para o conhecimento segundo o Espírito de Deus.

“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”, respondeu Pedro. Num momento em que Jesus começava a perder seguidores, por causa das exigências do seu Evangelho, além de ser cada vez mais perseguido e atacado pelos líderes religiosos do judaísmo, Pedro expressa a sua convicção de fé, como se dissesse: eu não estou seguindo um simples milagreiro, nem um líder político, nem um solucionador de todos os meus problemas, nem muito menos alguém que veio me fazer prosperar e ser feliz; eu estou seguindo o Filho único de Deus, que foi ungido pelo Espírito Santo, o único Salvador do ser humano, a única fonte de sentido para a vida de quem quer que seja.

Jesus é “o Filho do Deus vivo”. Não é um ídolo que tem boca e não fala, tem mãos e não age, tem imagem, mas não se faz presente, que, no passado, curou, perdoou, libertou, resgatou e salvou muitas pessoas, mas que hoje não se manifesta em minha vida. Ele está vivo e caminha ao meu lado, e ainda que minha vida passe por mudanças cada vez mais rápidas, “Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje; ele o será para sempre” (Hb 13,8). Passarão o céu e a terra, mas as suas palavras permanecerão como fonte última de verdade para guiar todo ser humano que acolhê-las com fé (cf. Mt 24,35).

“Quem eu sou para você?”. A resposta que damos a essa pergunta não é a mesma todos os dias, em todas as situações que vivemos. Ela muda porque, embora Jesus seja o mesmo ontem, hoje e sempre, nós não o somos. Nossa vida muda constantemente, o que gera em nós instabilidade e insegurança, não só emocionais, mas também espirituais. Para muitos de nós, a resposta sobre quem é Jesus é uma quando nasce um filho, mas outra quando se perde tragicamente o filho amado; é uma quando se tem saúde, mas outra quando se adoece gravemente; é uma quando se obtém uma vitória em alguma área da vida, mas outra quando se tem que amargar um duro fracasso.

A resposta sobre quem Jesus é para você não tem como ser copiada de outra pessoa, nem mesmo da Sagrada Escritura. A mulher samaritana poderia responder: ‘Jesus é para mim o homem que curou minhas feridas afetivas e me libertou dos meus falsos maridos’ (cf. Jo 4,5-42). Zaqueu poderia responder: ‘Jesus é para mim o homem que trouxe a salvação para a minha casa e me libertou da ganância pelo dinheiro’ (cf. Lc 19,1-10). O oficial romano poderia responder: ‘Jesus é para mim o Filho de Deus, cuja Palavra teve autoridade espiritual para curar o meu empregado, mesmo sem Ele se fazer fisicamente presente em minha casa’ (cf. Mt 8,5-13). Nenhuma pessoa do Evangelho que teve um encontro com Jesus pode nos oferecer uma resposta pronta. Essa resposta é responsabilidade nossa, e não podemos transferi-la para ninguém mais.      

É no chão da nossa existência única e irrepetível que Jesus continua pondo seus pés e nos perguntado individualmente: “Quem eu sou para você?”, uma pergunta que se levantará diante de nós em cada situação que temos que enfrentar, sobretudo diante de cada dor, perda, crise, angústia, depressão ou perda de sentido de vida. Da nossa resposta a essa pergunta depende a nossa cura, libertação, ressurreição e salvação. E se Jesus “ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Cristo” (Mt 16,20) é por que só a experiência da cruz pode revelar o quanto é verdadeira a nossa fé n’Ele como Filho do Deus vivo. Em outras palavras, toda e qualquer ideia, teoria ou sentimento que possamos ter em relação à pessoa de Cristo só se mostrarão verdadeiros na hora em que estivermos enfrentando uma experiência de cruz.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi



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