quinta-feira, 16 de julho de 2026

O NECESSÁRIO CULTIVO DE NÓS MESMOS

 Homilia do 16º dom comum. Palavra de Deus: Sabedoria 12,13.16-19; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-30.36-43.

 

            A parábola do joio, como o próprio nome diz, tem como centro a existência do mal. Teoricamente, toda pessoa odeia o mal e deseja o bem, mas na prática a história é outra. Alguns governantes mundiais usam o discurso da luta do bem contra o mal para justificar guerras, cujo real objetivo nunca foi o de eliminar o mal, mas o de se apropriar das riquezas do país “inimigo”. No campo político e religioso, o discurso do bem contra o mal tem muito mais mentira do que verdade.  A polarização nos induz a pensar que existe uma luta do bem (nós) contra o mal (eles) quando, na verdade, tanto em um lado quanto no outro existem joio e trigo.

Um primeiro questionamento da parábola do joio para nós é: nossa visão a respeito do bem e do mal está correta? Por que somos rápidos em enxergar o mal nos outros, mas lentos para enxergá-lo dentro de nós? No campo da nossa alma existe somente trigo, ou o joio também cresce diariamente ali, inclusive com o nosso consentimento? Está correto invocarmos as bênçãos de Deus sobre nós, que nos consideramos “do bem” e as maldições sobre os outros, que consideramos “do mal”?

Jesus afirma que “o Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora” (Mt 13,24-25). Jesus veio semear em nós a boa semente do Evangelho. Mas o seu inimigo, o Maligno, veio semear o mal, “enquanto todos dormiam”, o que pode significar que quando deixamos de vigiar sobre nós mesmos, o mal começa a se infiltrar no campo que somos.

            A pergunta dos servos da parábola é também a nossa: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?” (Mt 24,27). A resposta a essa pergunta passa pela tomada de consciência de que, no Oriente Médio, o joio é considerado uma degeneração do trigo. Em outras palavras, uma pessoa boa pode se degenerar em má. Essa degeneração acontece frequentemente quando se alcança o poder, esteja ele no campo político, religioso ou financeiro. Todo poder corrompe. Por isso, ninguém está garantido de se manter trigo a vida toda. Além disso, pessoas más não nascem más; elas aprendem a ser más. Mais do que isso, elas optam em ser más por causa da ganância pelo poder, o qual promete muito dinheiro.

“Queres que vamos arrancar o joio?” (Mt 13,28). Eis o nosso desejo de agir com violência para destruir o mal de uma vez por todas. Mas Deus nos responde: “Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29-30). Diante do mal que cresce sempre mais no mundo, a nossa resposta não deve ser a de compactuar com ele para sobreviver, abandonando o cultivo do trigo em nós, mas perseverar nesse cultivo diário de nós mesmos. “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Rm 12,21).   

            Se o foco da parábola do joio é a presença do mal em nós mesmos e no mundo, seu desfecho é o momento da colheita: “No tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!” (Mt 13,30). Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a colheita simboliza o momento do julgamento final, e este, por sua vez, nos garante que nada ficará impune. Se no tempo presente Jesus continua semeando a boa semente do Evangelho em nós, no tempo futuro (Parusia = Segunda Vinda) ele virá como Juiz, cuja função principal é a de separar o joio do trigo, retribuindo a cada um segundo aquilo que cultivou em si mesmo.

            Ninguém de nós está definido como joio ou como trigo. Quem hoje se considera bom corre o risco de amanhã degenerar como ser humano, abandonando o caminho da justiça e da retidão. Da mesma forma, quem hoje está degenerado pode vir a se converter e passar a cultivar-se como trigo. Que o Espírito Santo nos ajude diariamente com a sua graça para que, quando Jesus vier nos colher do campo deste mundo, nos encontre como pessoas que escolheram cultivar-se como trigo, apesar do muito joio à nossa volta.

             Enfim, um olhar sincero para o nosso campo interno: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Alegro-me na lei de Deus, segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que luta contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado” (Rm 7,21-23). Essa é a nossa verdade: somos um campo onde acontece diariamente uma luta. O que prevalecerá em nós: joio ou trigo? Aquilo que nós cultivarmos.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

SEM A ESCUTA DA PALAVRA, NÓS MORREMOS INTERIORMENTE

             Homilia do 15º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23.

 

            Deus escolheu se revelar a nós por meio da Palavra: “Escuta, Israel” (Dt 6,4). O Deus em quem nós cremos é o Deus da Palavra, o Deus que é Palavra. Se o ser humano interroga, pergunta e busca o sentido, Deus é Palavra que responde às interrogações do nosso coração, à nossa busca por sentido. Ouvi-Lo significa viver: “Se não me falas, sou como aqueles que morrem” (Sl 28,1).

Depois de ter falado à humanidade por meio dos profetas, o Pai quis falar conosco por meio de seu Filho (cf. Hb 1,1-2), a “palavra que se fez pessoa humana” (Jo 1,14). De fato, é por meio de Jesus que entendemos que a Palavra é uma Pessoa! O Pai dialoga conosco por meio do Filho, e espera a nossa resposta, o nosso “amém” à sua Palavra.

            Deus sempre cumpre o que diz: “A palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (Is 55,11). Em contrapartida, o fruto da Palavra semeada em nossos corações depende do tipo de acolhida (escuta) que ela recebe da nossa parte. Por isso, frequentemente Jesus diz, ao terminar um ensinamento: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mt 13,9).

            Como está a nossa capacidade de ouvir? A pressa nos faz ler mensagens sem prestar atenção ao que elas dizem. A nossa atenção, sempre dispersa, nos impede de meditar e refletir sobre o que Deus está nos falando. Jesus constata, não sem tristeza, a nossa indisposição em ouvir a sua palavra: “O coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade” (Mt 13,15). É exatamente a nossa atitude perante a Palavra (indiferença, recusa, desprezo, acolhimento) que define o nosso lugar no Reino de Deus.

“Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração” (Mt 13,19). Compreender significa “abarcar em si mesmo”; “carregar em sua essência”. Maria é o modelo perfeito de escuta da Palavra: “Faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). O excesso de informação nos indispõe à escuta, ao ouvir. Quem está saturado de palavras humanas não tem predisposição para ouvir o Deus que é Palavra. Além disso, devemos ter consciência de que o Maligno trabalha incessantemente para não acolhermos a Palavra de Deus em nós. Manter-nos dispersos e distraídos é a sua tarefa principal, na liturgia da Palavra.

“A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo” (Mt 13,20-21). Aqui já existe um acolhimento, uma escuta da Palavra. O problema é o entusiasmo passageiro. A Palavra ouvida precisa de tempo para “criar raiz” em nós, mas somos pessoas impacientes. Não aceitamos ter que esperar, até que a Palavra germine e dê frutos em nós. Somos pessoas imediatistas, que desistem fácil e rapidamente. Não admitimos sofrer e ser humilhados por vivermos de acordo com a Palavra de Deus.

“A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto” (Mt 19,22). Num copo cheio não cabe mais nada. Numa pessoa que vive ocupada em trabalhar para ganhar dinheiro, para pagar contas ou acumular; numa pessoa que prioriza o material e despreza o espiritual, que é escrava do consumismo e da disputa por seguidores nas redes sociais, não tem tempo para as palavras de Jesus, que “são espírito e vida” (Jo 6,63).

“A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta” (Mt 13,23). Ainda que a terra que somos tenha diversidade de terrenos, devemos confiar que há um espaço adequado em nós que deseja, que espera pela Palavra. Dentro de cada um de nós há um lugar sedento pela água viva da Palavra, um lugar ferido que aguarda o remédio da Palavra, um lugar habitado pela morte, e que anseia pela ressurreição que só a Palavra pode realizar.

Segundo Nilson Perissé, esses quatro tipos de terrenos, abordados por Jesus na Parábola do Semeador, não significam quatro tipos de pessoas, mas quatro tipos de situações emocionais em que nos encontramos diariamente. Há momentos em que o nosso coração está endurecido pela pressa; em outros, é raso, superficial, facilmente entusiasmado e logo esgotado; em outros ainda, sufocado por preocupações que disputam espaço com o essencial. Assim como o clima da alma muda, a vida espiritual conhece períodos de aridez e de fecundidade, sem seguir uma linha reta. A semente exige paciência. Nosso progresso espiritual também.

A responsabilidade que nos cabe, diante da semente/Palavra é cuidar do solo que somos, tornando-o pouco a pouco mais macio, mais silencioso, mais disponível. Se Deus é Palavra, Ele só pode habitar em nós por meio do silêncio, um silêncio que é abertura à sua graça, um permitir que seus passos de Semeador pisem sobre o solo do nosso coração e possa nos ajudar a limpá-lo, adubá-lo, regá-lo e cultivá-lo, para que o fruto da salvação seja colhido no chão da nossa vida.   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A SOCIEDADE DO DESEMPENHO E A MANSIDÃO DE JESUS

 Homilia do 14º. Dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 9,9-10; Romanos 8,9.11-13; Mateus 11,25-30.

 

            “Como você está?”, pergunta um amigo ao outro, ao que este responde: “Matando um leão por dia”. Esse leão, que nós julgamos ter que matar todos os dias, se encontra fora de nós (cobranças externas) ou dentro (autocobrança)? No seu livro “Sociedade do Cansaço”, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han identifica qual é esse leão. Ele se chama “Sociedade do desempenho”: “A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (esgotamento)”.

            Olhemos para nós mesmos. Nossa agressividade vive à flor da pele. Frequentemente estamos irritados, exaustos, cansados e sem paciência. Por qual motivo? Porque não respeitamos nossos limites. Ignoramos os sinais do nosso corpo e da nossa mente, por não respeitarmos a nossa medida. “A busca incessante por produtividade nos afasta da essência do ser humano” (Chul Han), o que significa que nos tornamos selvagens. Nós internalizamos uma exigência de produtividade, de desempenho (performance) e deixamos essa mancha de óleo se espelhar livremente pelas diversas áreas da nossa vida: familiar, profissional, sexual e até mesmo espiritual.   

Quem se torna escravo do desempenho não tem tempo para o descanso. “Descanso é para gente fraca!”, pensam alguns. “O excesso de trabalho e desempenho leva à autoexploração. Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização” (Chul Han). Uma vez que vivemos constantemente na correria, nosso cérebro se recusa a descansar – daí a necessidade de ansiolíticos (tranquilizantes ou calmantes). Para piorar a situação, antes de nos deitar para dormir, damos uma última olhada no celular, recebendo mais um pouco de estímulos e sobrecarregando ainda mais o nosso cérebro.  

            Diante de tudo isso, o profeta Zacarias nos pergunta: “Quando é que vocês vão descer do cavalo de guerra em que vivem montados?”. A imagem profética de Jesus, montado num jumentinho, nos remete para valores que deixamos de cultivar: mansidão, confiança, humildade, paz; numa palavra, um coração desarmado. Dentro de nós existem carros de guerra a serem eliminados e arcos de guerra a serem quebrados. Em lugar de pedirmos a Deus que nos torne vencedores nas guerras que estamos enfrentando, deveríamos pedir liberdade interior para nos distanciar da guerra por desempenho constante, e nos conceder um coração manso, humilde, pacífico, um coração que confie n’Ele e se deixe cuidar por Ele.

            Assim como o cavalo de guerra e o jumentinho são opostos, assim também se opõem dois modos de viver: segundo a carne e segundo o Espírito. A carne não é simplesmente o nosso corpo, mas o nosso ego. Viver segundo a carne significa ser escravo das constantes solicitações do nosso ego. Viver segundo o Espírito significa alcançar a liberdade diante das próprias cobranças, e escolher distanciar-se do estilo de vida doentio do mundo atual. O apóstolo Paulo nos adverte: “Se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Rm 8,13). Viver escravo da sociedade do desempenho nos esgota, adoece e diminui muito a nossa expectativa de vida.

            Eis o convite de Jesus a todos nós: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Jesus não veio nos tirar das nossas responsabilidades neste mundo; ele veio questionar o nosso estilo de vida doentio e nos libertar de tudo aquilo que nos escraviza e nos esgota. Quando nos sentimos sobrecarregados e esgotados, devemos nos perguntar: o fardo que estou carregando está dentro dos meus limites? O fardo que me pesa é consequência da minha necessidade de ser amado(a) e aprovado(a)/elogiado(a) pelos outros?    

“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). Jesus nunca permitiu que sua vida fosse intoxicada por excessos. Ele também nunca se permitiu ser devorado pelas pessoas e suas solicitações. Sendo verdadeiramente humano, soube respeitar sua medida e seus limites. Livre das críticas dos outros, sabia reservar tempo para descansar e rezar. Nunca abriu mão de escutar diariamente sua consciência, esse lugar sagrado que pouco visitamos e que poderia nos ajudar a sermos nós mesmos, livres das cobranças que nos adoecem e esgotam.    

            Se desejamos nos libertar de fardos que nos sobrecarregam e adoecem, precisamos mudar algumas das nossas atitudes, inspirando-nos em Jesus e nos permitindo cuidar por ele diariamente. Silêncio, meditação, oração e descanso nunca farão parte da nossa rotina sem uma decisão séria da nossa parte, sem uma vida disciplinada. Não aconteça conosco o que aconteceu com Israel, quando Deus lamentou: “Na conversão e na calma estava a vossa salvação, na tranquilidade e na confiança estava a vossa força, mas vós não quisestes!” (Is 30,15).    

 Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A IGREJA QUE SOMOS CHAMADOS A SER

 Homilia da festa de São Pedro e São Paulo, apóstolos. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 12,1-11; 2Timóteo 4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19.

 

O Evangelho da Festa de São Pedro e São Paulo apóstolos nos remete para o momento em que Jesus funda a Igreja sobre a fé de Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18). Por misericórdia do Pai, e não pelos nossos méritos, nós pertencemos a essa Igreja, fundada por Cristo sobre o alicerce dos apóstolos (cf. Ef 2,20) e amada por ele, a ponto de se sacrificar por ela, para que fosse sua Esposa santa, imaculada, pura (cf. Ef 5,25-27). É só a partir dessa verdade bíblica que podemos dizer: “Creio na Santa Igreja Católica”.

Chamada a ser “sal da terra” (Mt 5,13), “luz do mundo” (Mt 5,14) e “fermento na massa” (Mt 13,33), a Igreja partilha as mesmas alegrias e esperanças, dores e angústias da humanidade, cujo contexto atual é marcado por situações desafiadoras, como polarização, inteligência artificial, crise ambiental, fragilidade dos vínculos e perda do sentido de pertença (CNBB, introdução às DGAE 2026 – 2032). É exatamente nesse contexto que Cristo nos chama, como Igreja, a ouvir o que o Espírito Santo está nos dizendo: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2,7.11.17.29; 3,6.13.22).

Quando aceitamos ouvir o Espírito Santo que nos fala a partir da realidade na qual estamos mergulhados, entendemos que devemos ter menos medo do mundo e mais confiança no Espírito que nos anima. Ele foi derramado sobre a Igreja para que ela cumpra a sua missão no mundo, que é o anúncio do “Evangelho eterno” (Ap 14,6), o qual deve ser anunciado a partir de novas linguagens, pois cada pessoa precisa ouvi-lo a partir das situações novas e desafiadoras que o mundo lhe apresenta.

Para que nós, Igreja, ofereçamos ao mundo o serviço de anunciar o Evangelho na fidelidade a Jesus Cristo, precisamos nos lembrar de que “Jesus não escolheu permanecer em lugares seguros. Ele foi ao encontro, escutou, curou, serviu, buscou os esquecidos” (CNBB, DGAE 2026 – 2032). Assim nós, Igreja, somos chamados a fazer. Todos precisam receber a alegria do Evangelho, especialmente aqueles que estão distantes da vida das nossas comunidades, como também aqueles em relação aos quais nossa Igreja ainda está distante.

Os textos dos Atos (martírio de Tiago e prisão de Pedro), do Salmo e da carta a Timóteo (prisão e sofrimento de Paulo) nos advertem a não esperarmos, enquanto Igreja, o reconhecimento e o aplauso do mundo. Muito pelo contrário. O destino da Igreja é o mesmo do seu Esposo: o desprezo do mundo, a perseguição e, em muitos casos, o martírio. Embora muitos católicos desejem uma Igreja triunfalista, amante do poder e das glórias humanas, Jesus quer a sua Igreja profética, pobre e humilde, apoiada unicamente na força do Espírito Santo e livre o suficiente para anunciar a verdade do Evangelho, verdade sempre incômoda para os que ocupam tronos neste mundo.

Uma última palavra. Jesus pede que cuidemos da vida interior da nossa comunidade/Igreja. Por ser feita de pessoas humanas, ela sempre será passível de escândalos (cf. Mt 18,7); nem por isso deve dar espaço para a impunidade de quem peca conscientemente (cf. Mt 18,8-9). Neste sentido, a comunidade/Igreja deve sempre ser lugar de correção fraterna (cf. Mt 18,15-17). Quando um membro dela não admite ser corrigido, deve ser radicalmente separado dos outros irmãos, para não continuar a adoecer e a desacreditar a Igreja (cf. Mt 18,17). Enfim, toda a comunidade deve estar atenta aos mais fracos na fé. Quando uma pessoa se afasta da Igreja por causa do erro de outros, os irmãos devem ir em busca dela, pois “não é da vontade do vosso Pai, que está nos céus, que um desses pequeninos se perca” (Mt 18,14).  

Tomemos consciência de que somos Igreja. A imagem dela não depende somente dos que ocupam lugares altos na hierarquia, mas depende também das nossas atitudes como católicos em nosso dia a dia. Diante dos escândalos de alguns líderes, mantenhamos os olhos fixos em Jesus e nos unamos ao seu contínuo sacrifício para santificar a sua Esposa, nossa Mãe. E quando sofrermos o ódio do mundo, que sempre rejeitará “a Palavra da Verdade” (Ef 1,13), tenhamos a mesma postura do apóstolo Paulo: “combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

  

quinta-feira, 18 de junho de 2026

TODO PERSEGUIDO POR SER JUSTO SERÁ AMPARADO PELO DEUS DA VERDADE

 Homilia do 12º dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 20,10-13; Romanos 5,12-15; Mateus 10,26-33.

 

Sofrimento e perseguição: qual a diferença entre eles? “O sofrimento atinge todas as pessoas, também as justas e inocentes, mas a perseguição atinge as pessoas justas exatamente por serem justas” (missal dominical). Quanto mais injustiça e maldade no mundo, maior é a tentação de abandonar o propósito de ser uma pessoa justa para não mais sofrer perseguição. Um exemplo concreto: uma jovem entra na Universidade e é perseguida por ser virgem e heterossexual. Ou ela abre mão dos seus valores ou ficará sem amigos. As perseguições também são muito comuns no campo do trabalho, devido à inveja ou à disputa por cargos mais elevados.

Bem mais do que o profeta Jeremias, Jesus foi duramente perseguido pelos líderes religiosos da sua época, e ele próprio nos alertou: “Se perseguiram a mim, perseguirão a vocês também” (Jo 15,20). Num mundo dominado pela mentira, pelo egoísmo e pela busca do próprio interesse, quem busca viver segundo a verdade, a fraternidade e o amor será inevitavelmente perseguido.

Jesus nos ensina que quando estamos sofrendo uma perseguição injusta, devemos confiar firmemente que a verdade prevalecerá: “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido” (Mt 10,26). Muitas pessoas sofrem injustiças porque o juiz não julgou segundo a verdade, mas segundo o dinheiro que recebeu “por fora”, das mãos de homens poderosos e injustos. No entanto, esse mesmo juiz terá que prestar contas ao justo Juiz, cujo dinheiro algum é capaz de corromper.  

            Jesus também nos encoraja a não temer o fanatismo dos homens: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma!” (Mt 10,28). Por mais contraditório que seja, pessoas religiosas fundamentalistas usam as redes sociais para expressar seu ódio e sua intolerância, agredindo e perseguindo aqueles que pensam diferente delas. Mas Jesus nos ensina que, ainda que a nossa imagem ou mesmo o nosso corpo sofra agressão, a nossa alma não pode ser ferida, nem muito menos destruída, por nenhum ser humano. O pior que poderia nos acontecer é corrompermos a nossa alma, e assim nos livrar da perseguição de pessoas, e, desse modo, perdermos a nossa salvação diante de Deus.

             Por três vezes, Jesus insistiu conosco: “Não tenham medo!” (Mt 10,26.28.31). A razão principal para não nos entregarmos ao medo e, sim, nos enchermos de coragem e confiança é esta verdade de fé: até os cabelos da nossa cabeça estão todos contados; nenhum fio cairá sem o consentimento do Pai! Em outras palavras, nenhum mal nos atingirá sem a permissão de Deus, e se Ele permite algum mal em nossa vida, se deve unicamente ao Seu propósito de nos fazer crescer na fé e na união com Ele. O Pai que permite provações sabe dos nossos limites. Por isso, nos acompanha e permanece junto conosco, principalmente nas perseguições que sofremos neste mundo.  

            Jesus termina seu discurso missionário nos encorajando a dar testemunho dele diante dos homens que não creem. Mesmo que muitas pessoas amem mais a mentira do que a verdade, mais o mal do que o bem, nós devemos permanecer firmes na missão que somos, pois aquele que preferir enfraquecer a verdade do Evangelho só para ficar bem com aqueles que a rejeitam, sofrerá a rejeição de Jesus, no momento do seu julgamento.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A VIDA NOS CHAMA A CUIDAR DAS PESSOAS FERIDAS

 Homilia do 11º dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 19,2-6a; Romanos 5,6-11; Mateus 9,36 – 10,8.

 

“Vós sereis para mim um reino de sacerdotes” (Ex 19,6). Deus escolheu o povo de Israel para, a partir dele, salvar a humanidade. A função do sacerdote é interceder a Deus pelo povo que lhe foi confiado. A missão do sacerdote é retirar pessoas dos descaminhos da destruição e da morte e orientá-las no caminho da vida que Deus quer para todos os Seus filhos. Mais do que privilégio, o sacerdócio é um serviço, uma constante missão.

Como Israel, constituído nas suas doze tribos, falhou na sua missão, “Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (Mt 10,1). Aqui está o nascimento da Igreja da qual fazemos parte. Ao pronunciar o nome de cada discípulo no meio da multidão, Jesus está pronunciando o nosso nome e nos chamando para a missão de sermos o novo povo sacerdotal, a Igreja, cuja missão é libertar as pessoas do mal que as destrói e curar as feridas que o pecado pessoal e social abriu nelas.

Nunca podemos nos esquecer de qual foi o contexto em que Jesus escolheu os doze discípulos: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36). Jesus não nos chamou a pertencermos a uma organização que usa do poder político para garantir para si mesma privilégios e riqueza material, mas para sermos a expressão viva da sua compaixão para com uma humanidade ferida e desorientada como ovelhas sem pastor.

Mas como é verdade que ninguém leva o outro mais longe do que onde ele mesmo está, nós somos chamados, primeiro, a ouvir a voz do único e verdadeiro Pastor, Jesus Cristo, para que ele nos dê língua de discípulos e, assim, possamos comunicar a palavra consoladora do seu Evangelho para aqueles que estão perdidos, atormentados pelo mal e adoecidos neste mundo. Cada missa que participamos nos fortalece na consciência de que “somos uma missão nesta terra, e por isso estamos neste mundo”, parafraseando o Papa Francisco.

Qual missão eu sou? Deixemos com que Jesus responda: “Dirija-se às ovelhas perdidas!” (cf. Mt 10,5). A missão de cada um de nós é revelada pela realidade à nossa volta. Por isso, a nossa espiritualidade não pode nos fechar sobre nós mesmos, mas nos abrir para onde a vida nos chama. O cap. 10 de São Mateus é um discurso missionário: Jesus chama e envia para a missão. Essa é a razão de cada um de nós sermos a sua Igreja, uma “Igreja em saída”, como insistiu o Papa Francisco. Cada cristão é chamado a ir aos outros, a aproximar-se das pessoas em sua situação de vida e a levar-lhes a alegria do Evangelho.

O lugar onde cada um de nós vive é o lugar da nossa missão. Ali há alguém doente que precisa ser curado, alguém morto que precisa ser ressuscitado, alguém contaminado que precisa ser desintoxicado, alguém dominado pelo mal e que precisa ser liberto: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios” (Mt 10,8). Os discípulos só puderam realizar a missão porque foram revestidos antes do poder de Jesus. Assim também nós. A nossa presença junto às ovelhas perdidas pode ser uma presença de cura, de ressurreição, de descontaminação e de libertação na medida em que nos entregamos ao Espírito Santo e permitimos que Ele aja através de nós.

 

            “Leva-me aonde os homens necessitem tua Palavra, necessitem de força de viver, onde falta a esperança, onde tudo seja triste, simplesmente por não saber de Ti!”

 

Ao final dessa reflexão, retomemos as palavras de Jesus: “A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” (Mt 9,37-38). Rezemos a oração pelas vocações:

 

Senhor da Messe e Pastor do Rebanho, faz ressoar em nossos ouvidos teu forte e suave convite: “Vem e segue-me!”. Derrama sobre nós o teu Espírito! Que Ele nos dê sabedoria para ver o caminho e generosidade para seguir tua voz! Senhor, que a messe não se perca por falta de operários! Desperta nossas comunidades para a Missão! Ensina nossa vida a ser serviço! Fortalece os que querem dedicar-se ao Reino, na vida consagrada e religiosa! Senhor, que o Rebanho não pereça por falta de Pastores! Sustenta a fidelidade de nossos bispos, padres, diáconos e ministros! Dá perseverança a nossos seminaristas! Desperta o coração de nossos jovens para o ministério pastoral em Tua Igreja! Senhor da Messe e Pastor do Rebanho, chama-nos para o serviço de teu povo. Maria, Mãe da Igreja, modelo dos servidores do Evangelho, ajuda-nos a responder: “SIM”. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 5 de junho de 2026

NÃO AFASTEMOS DA MESA EUCARÍSTICA AQUELES QUE JESUS APROXIMOU DELA

 Homilia do 10º dom. comum. Palavra de Deus: Oseias 6,3-6; Romanos 4,18-25; Mateus 9,9-13.

 

A palavra “Igreja” significa “assembleia dos que foram chamados”. No chamado de Mateus está o chamado de cada um de nós. Qual o critério que o Senhor usou para nos chamar? Não os nossos méritos, mas a Sua misericórdia; não a nossa saúde, mas as nossas doenças; não a nossa força, mas a nossa fraqueza. Assim como o lugar do médico é junto de quem está enfermo, nosso Senhor escolheu se colocar junto dos pecadores, dos desprezados e dos “excomungados” do seu tempo. Justamente por isso, ele foi criticado como “amigo dos pecadores”.

O lugar de Jesus deve ser também o nosso lugar enquanto Igreja. A prioridade de Jesus deve ser também a nossa prioridade: trabalhar pela salvação de todos, a começar por aqueles que não só o mundo rejeita, despreza, ignora e exclui, mas também grupos religiosos que se julgam “separados” das pessoas – que eles consideram – pecadoras e perdidas.

Em todas as igrejas e religiões existe o perigo do farisaísmo, isto é, do fanatismo religioso, da soberba espiritual que faz algumas pessoas considerarem-se justas e, portanto, não necessitadas de perdão nem de salvação. Normalmente são pessoas rígidas consigo mesmas e com os outros, pessoas que entendem que a igreja deve ser feita de puros. Essa mentalidade está fortemente presente na Internet: pregadores, “influencers” católicos, grupos e canais de TV que defendem uma moral rígida, sobretudo no campo afetivo-sexual, e que se mantém distantes de questões sociais, como fome, pobreza, injustiça, violência e meio-ambiente.

Diante da crítica que Jesus recebeu, de comer e beber com pecadores, sua resposta foi usar o que Deus Pai disse, por meio do profeta Oseias: “Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Os 6,6). Holocaustos eram animais sacrificados, cujo corpo era totalmente queimado. Ora, toda pessoa que deseja caminhar com Deus terá que sacrificar muitas coisas que vão se opor àquilo que o próprio Deus lhe pede, pois vivemos em uma época de forte inversão de valores. Aqui vale o princípio de Santo Inácio de Loyola: aproximar-nos de tudo aquilo que nos aproxima de Deus, e afastar-nos de tudo aquilo que nos afasta de Deus.

A crítica que o Senhor Deus fez a Israel se devia ao fato de que, enquanto o povo Lhe oferecia sacrifícios e holocaustos, continuava a ter um coração fechado para o próximo – amor, cuja expressão concreta é a misericórdia – e não buscava um relacionamento profundo com Ele (conhecimento de Deus). Isso significa que, quando nos dispomos a oferecer algum sacrifício a Deus, precisamos nos perguntar se tal sacrifício está nos tornando seres humanos melhores, mais bondosos e misericordiosos para com as pessoas e mais profundos em nosso relacionamento com o Senhor.

Jesus fez um convite a cada um de nós: “Aprendam o que o meu Pai quis dizer com essas palavras: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’” (citação livre de Mt 9,13). Jesus modificou a palavra amor em misericórdia para nos lembrar de que a nossa relação com Deus passa necessariamente pela nossa relação com as pessoas. Quando não somos bondosos e misericordiosos com as pessoas em nosso dia a dia, nenhum sacrifício que oferecermos a Deus será aceito por Ele. Lembremos ainda que ser misericordioso significa deixar-nos afetar pela dor do nosso próximo.  

            Voltemos ao chamado de Mateus. “Segue-me!” (Mt 9,9). Esse chamado de Jesus é urgente em nossos dias, frente à diminuição de vocações sacerdotais no mundo todo. Jesus continua a chamar outros “Mateus”, jovens e adultos que sejam a extensão do seu amor misericordioso para com os pecadores do nosso tempo, jovens e adultos que abracem a missão de ser uma presença de cura para todos os que estão feridos e adoecidos neste mundo.  

            Uma palavra final: Jesus à mesa é sempre uma referência à Eucaristia. Acabamos de celebrar Corpus Christi. Muitas pessoas estão afastadas da Eucaristia devido a pregações moralistas e ameaçadoras, como se Jesus tivesse instituído esse sacramento como prêmio para os justos, como recompensa para os que se julgam ser puros, quando, na verdade, Jesus trabalhou incansavelmente para trazer à mesa eucarística muitos que a religião e a política da sua época excluíam. “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes... Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,12.13). Exatamente por isso, o Papa Francisco anunciou profeticamente que “a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (EG, n.47). Não afastemos da mesa eucarística aqueles que o próprio Senhor quis aproximar.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi.  

 

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

MERGULHAR NO MISTÉRIO QUE É DEUS

Homilia Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Êxodo 34,4b-6.8-9; 2Coríntios 13,11-13; João 3,16-18.

 

“Quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três...” (Legião Urbana, Índios, 1986).

Deus é Mistério; Ele é sempre maior do que os nossos conceitos e do que as nossas ideias sobre Ele. Quando pensamos que já O compreendemos, que já O conhecemos, Ele se apresenta a nós de uma maneira totalmente nova, que nos obriga a rever as nossas ideias sobre Ele. Não só na Sagrada Escritura, mas principalmente na vida, Deus revela-Se como Aquele que é sempre mais do que as nossas palavras podem explicar, mais do que a nossa mente pode imaginar e mais do que o nosso coração pode experimentar. 

            O Mistério que é Deus chama-se “Santíssima Trindade”: Ele é o Deus único, vivo e verdadeiro, mas Se revelou a nós como Pai, como Filho e como Espírito Santo. Sendo Pai, Deus está acima de nós, no sentido de ter o poder sobre todas as coisas que nos atingem. Sendo Filho, Deus está junto de nós, caminhando ao nosso lado, nos sustentando e nos amparando, enquanto atravessamos esse mistério chamado “vida”. Sendo Espírito Santo, Deus está dentro de nós, como força que nos move interiormente, como ânimo que nos levanta e nos impulsiona sempre para frente.

            Mesmo que não possamos compreender o Mistério que é Deus, o apóstolo Paulo afirma que “Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,27-28). Dizendo de outra forma, nós estamos mergulhados no Mistério que é Deus como um peixe no oceano: enquanto o peixe se pergunta “o que é o oceano?”, vive dentro dele e só vive porque está mergulhado nele! Assim também nós em relação a Deus.

            Embora a nossa existência tenha sido concebida no seio da Santíssima Trindade, nós nos sentimos expulsos dela, afastados ou até mesmo rejeitados por ela quando fazemos uma dura experiência de sofrimento. No seu livro “Se quiser experimentar Deus” (pp.167-178), Anselm Grün afirma que a imagem que nós temos de Deus não tem lugar para o sofrimento. “Nós construímos uma imagem de Deus que corresponda aos nossos gostos. Quando, então, um sofrimento nos atinge, nossa imagem de Deus se desmorona. E quando Deus não corresponde a esta imagem, nós nos distanciamos dele”. É aqui que a nossa fé conhece a sua noite escura. Mas...

“Quando ainda era noite” Moisés levantou-se e “subiu ao monte Sinai” (Ex 34,4). Ao mesmo tempo, “o Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés” (Ex 34,5). É assim que mergulhamos no Mistério que é Deus: nós subimos a Ele, por meio da oração, e Ele desce a nós. Ao mesmo tempo em que buscamos Deus, Ele também nos busca! Estando na presença de Deus, “Moisés curvou-se até o chão” (Ex 34,8). Curvar-nos significa admitir a nossa pequenez diante do Mistério que nos ultrapassa. Ali, prostrado por terra na presença de Deus, Moisés pediu: “Peço-te, caminha conosco... perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua” (Ex 34,9). Hoje nos curvamos diante do mistério da Santíssima Trindade e pedimos que, apesar das nossas falhas e pecados, sejamos acolhidos como propriedade do Pai Criador, do Filho Salvador e do Espírito Santo Consolador.

 


 

A Trindade Misericordiosa envolve a criatura humana por todos os lados. O sentimento do Pai é de ternura e cuidado, seu rosto se aproxima e beija o rosto inerte da pessoa ferida. Ele revela seu amor misericordioso no calor do abraço, que acolhe e regenera o ser humano. O Filho revela o Deus Amor-serviço, que se põe aos pés da humanidade decaída para restaurá-la, e revela o caminho do serviço como caminhada para a vida. Em Jesus, Deus se abaixa para estar mais perto da miséria do ser humano. O Espírito Santo, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto pode ser a figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. Beija a pessoa e lhe transmite o Sopro de vida. A Pomba de fogo voa sobre o ser humano caído e o aquece.

Aproximemo-nos desse mistério de amor que é a Santíssima Trindade. Deixemo-nos recriar pelo Pai, salvar pelo Filho, guiar e sustentar pelo Espírito Santo. Sejamos no mundo um sinal vivo dessa comunhão trinitária, para que mais pessoas cheguem ao conhecimento do Deus vivo e se abram para o relacionamento divino, capaz de curá-las, redimi-las e salvá-las da destruição. “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13,13).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O SOPRO DE VIDA QUE VEM DE DEUS

 Homilia de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.

 

Jesus soprou sobre os discípulos e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O Espírito Santo é tão essencial em nossa vida quanto o ar que respiramos. Ele é o “sopro de vida” (Gn 2,7) que nos faz viver não só biologicamente, mas a partir de dentro: “Se tirais o seu respiro, eles perecem e voltam para o pó de onde vieram; enviais o vosso espírito e renascem e da terra toda a face renovais” (Sl 104,30). Sempre que a nossa Igreja, ao longo dos séculos, se fechou em si mesma como que dentro de um túmulo, o Espírito Santo suscitou alguém para convencê-la a sair, a abrir suas portas e janelas, a fim de ser renovada, atualizada e cumprir sua missão de ser sal e luz para os homens de todos os tempos.

Ainda em relação à Igreja, o Espírito Santo não fala somente dentro dela e a partir dela, mas lhe fala a partir do mundo, sobretudo das situações mais feridas e dolorosas da humanidade. Uma Igreja fechada à realidade das pessoas, sobretudo a uma realidade que passa longe das suas normas religiosas, é uma Igreja que se recusa a ouvir o que o Espírito Santo tem a lhe dizer. É bastante perigosa essa postura que afirma que “o velho é que é bom!” (Lc 5,39). Isso tem cheiro de rejeição ao Espírito Santo, atitude que nos recorda a rejeição dos fariseus em relação a Jesus.  

O Espírito Santo nos foi dado para que Cristo ressuscitado viva em nós! Só Ele pode nos fazer sentir a presença do Ressuscitado em nosso dia a dia. É por meio do Espírito Santo que a Palavra, que é Cristo, fale ao presente da nossa história pessoal e social, e ilumine nossas escolhas e decisões, para fazermos em tudo a vontade do Pai. Além disso, é somente através do Espírito Santo que nós podemos chamar a Deus de Pai: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Portanto, sempre que nos sentimos órfãos, sozinhos e abandonados neste mundo, precisamos clamar ao Espírito Santo que conceda ao nosso coração a certeza da nossa filiação divina, para que em toda e qualquer situação possamos dizer como Jesus: “Eu não estou só porque o Pai está comigo” (Jo 16,32).

Enquanto o nosso mundo sofre com separações, conflitos, guerras e divisões, o Espírito Santo deseja juntar os pedaços daquilo que está fragmentado em nós e criar unidade, comunhão, concórdia e paz. “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7). O Espírito Santo não aceita ser usado para a nossa vaidade, muito menos para a nossa soberba espiritual. Toda pessoa que se julga melhor do que as outras e que tem a pretensão de se considerar mais católica do que o próprio Papa não está sendo conduzida pelo Espírito Santo, mas sua própria arrogância espiritual.

No dia de Pentecostes o Espírito Santo foi derramado sobre a Igreja em forma de línguas de fogo, o que significa que a sua linguagem conduz para o amor, a caridade, a comunhão e a concórdia. Nós ouvimos o testemunho de pessoas de quase todas as partes do mundo que, escutando todos os discípulos “falarem em línguas” (At 2,4), afirmavam: “Todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11). Enquanto grupos católicos tradicionalistas buscam missas e orações em latim, o Espírito Santo nos capacita a falar uma língua que as pessoas entendam e através da qual se sinta tocadas por Deus, através da sua Palavra. Também podemos nos perguntar: as nossas postagens favorecem discórdia e divisão ou comunhão e reconciliação? As nossas palavras no dia a dia ajudam a promover concórdia ou discórdia no ambiente em que nos encontramos?  

            Neste dia de Pentecostes não basta clamar ao Pai que reavive o dom do seu Espírito em nós, – Jesus afirmou que “o Pai dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13) –, mas que tenhamos a atitude diária de nos deixar conduzir por ele (cf. Rm 8,14). E para onde o Espírito Santo quer nos conduzir? Para a esperança que não engana (cf. Rm 5,5), para o futuro que Deus tem para cada um de nós, para fora da nossa visão, prisioneira do agora, uma visão angustiada, incapaz de ver além da dor, do problema e da dificuldade pela qual cada um passa neste momento. “O Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem!’. Que aquele que ouve diga também: ‘Vem!’ Que o sedento venha, e quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22,17). O Espírito Santo se une à Igreja, Esposa de Cristo, para clamar: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).

            Enfim, o Espírito Santo é o “Espírito da promessa” (Ef 1,13). Ele é o penhor, isto é, a garantia da nossa ressurreição, a garantia de que nada é definitivo em nossa vida terrena, a garantia de que o Pai completará em cada um de nós a obra da salvação, até o dia da Vinda de seu Filho Jesus Cristo (cf. Fl 1,6). Então, soltemos as mãos do medo e da angústia, nos quais podemos estar agarrados neste momento, e nos deixemos conduzir pelo sopro de vida, que é o Espírito Santo. Que Ele nos leve para onde devemos ir, em vista da nossa libertação e salvação.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

JESUS FOI O CÉU NA TERRA. SEJA-O, VOCÊ TAMBÉM.

Homilia da Ascensão do Senhor Jesus. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Mateus 28,16-20.

 

“Ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, todo-poderoso, de onde há de vir e julgar os vivos e os mortos”. Essas palavras fazem parte da nossa profissão de fé, e precisam ser lembradas especialmente hoje, em que celebramos a ascensão (subida) de Jesus ao céu.

Segundo o autor da carta aos Hebreus, Jesus entrou no céu “a fim de comparecer, agora, diante da face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24). Desse modo, nós podemos apresentar a Jesus todas as nossas aflições e tribulações neste mundo, na certeza de que ele ora ao Pai por nós, para que permaneçamos firmes em nossa fé. Estando à direita do Pai e recebendo d’Ele todo poder e autoridade, Jesus prometeu enviar o Espírito Santo sobre os seus discípulos: “Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas” (At 1,8). Através do Espírito Santo, o próprio Jesus estará junto a cada um de nós, conforme prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20).

“Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Nenhum discípulo de Jesus está abandonado na face da terra, entregue aos sofrimentos e tribulações deste mundo. Ele está conosco, nos defendendo, nos amparando e nos sustentando com a graça do Espírito Santo. Estando no céu, junto do Pai, Jesus nos garante que um dia estaremos também no céu: “Quando eu for e vos tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós” (Jo 14,3).

Voltemos à narrativa da ascensão, segundo Lucas: “Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo. Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia” (At 1,9-10). Há uma “nuvem” que nos impede de ver Jesus no céu. Essa “nuvem” retrata a distância, não só espacial, entre o céu e a terra. O único que viu Jesus no céu foi o diácono Santo Estêvão, momentos antes de ser apedrejado até à morte: “Eu vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus” (At 7,56).

A nossa geração só crê naquilo que vê. Somos escravos das telas. Se no momento da ascensão os discípulos estavam olhando para o céu, nós dificilmente levantamos os olhos para o alto. A própria postura de quem olha para o celular já diz tudo: nosso pescoço e nossa cabeça vivem curvados para baixo. De tanto sermos envolvidos pelas coisas da terra, esquecemos o céu.  As palavras do apóstolo Paulo – “Somos cidadãos do céu: de lá aguardamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo” (Fl 3,20) – não fazem sentido nenhum em nosso dia a dia. Feitos para o céu, para voar como águias, nós nos comportamos como galinhas que vivem ciscando a terra, em busca de sobrevivência.

Pisando o mesmo chão que nós pisamos, Jesus nunca deixou de apontar o céu. Segundo ele, o céu pertence aos pobres em espírito, aos aflitos, aos que têm fome e sede de justiça, aos que promovem a paz (cf. Mt 5,3-8); ele pertence aos que não ignoram o sofrimento do próximo, aos que dão pão a quem tem fome, aos que cuidam dos doentes e aos que visitam os presos (cf. Mt 25,34-35); ele pertence aos que não ajuntam riqueza para si mesmos, mas usam o dinheiro para diminuir as desigualdades sociais à sua volta (cf. Lc 11,33-34), pois são as pessoas que nós ajudamos que nos receberão nas moradas eternas (cf. Lc 16,9).   

Enquanto esteve neste mundo, Jesus foi, para muitas pessoas, o céu na terra. Nós também somos chamados a sê-lo. O céu precisa “ser trazido” para a terra através de cada discípulo de Jesus, oferecendo presença a quem vive na solidão, palavras de conforto e de esperança a quem está abatido e desanimado, enxergando e valorizando aqueles que são “presença invisível” num mundo onde cada um está fechado em si mesmo... Rezemos, neste sentido, a oração de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.

 

Sugestão de leitura: “O céu começa em você – a sabedoria dos Padres do Deserto para hoje”, Anselm Grün, editora Vozes.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 


quinta-feira, 7 de maio de 2026

A PROMESSA DE OUTRO DEFENSOR

 Homilia 6º domingo da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 8,5-8.14-17; 1Pedro 3,15-18; João 14,15-21.

 

                Jesus continua o seu discurso de despedida, iniciado do 5º domingo da Páscoa (cf. Jo 14,1-12). Hoje ele nos recorda que o vínculo que nos manterá unidos a ele é a decisão de amar: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Aquele que nos amou até o fim deseja ser amado por nós, e não temido ou obedecido fanaticamente. Só o relacionamento atravessado pelo amor permanece e dá sentido à vida. Se a maldade é cada vez mais crescente no mundo em que vivemos, Jesus nos convida a não desistir de amar; pelo contrário, precisamos tomar diariamente a firme decisão de amar como ele amou.

             “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama” (Jo 14,21). Como afirmou Nilson Perissé, “observar seus mandamentos implica acompanhá-lo pelas estradas do Evangelho, perceber como reage diante da dor, da injustiça, da traição, do sofrimento e da fragilidade humana. É permitir que sua forma de amar lentamente modele também a nossa”.

            “Quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Sempre que decidimos amar nos tornamos espaço de presença: o Pai e o Filho passam a morar dentro de nós. Isso significa que a nossa vida deixa de ser território neutro. Nossos gestos, nossas escolhas, nossas palavras passam a ser, de algum modo, expressão do Pai e do Filho que vivem em nós. Em outras palavras, se os pagãos diziam, a respeito dos primeiros cristãos: “Vejam como eles se amam!”, num mundo paganizado como o nosso, precisamos nos perguntar se as pessoas enxergam amor não só entre nós, mas também em nossa forma de tratar aqueles que o mundo não ama: os idosos, as pessoas com deficiência, os pobres, os feridos pela violência e pela desigualdade social.  

Voltemos às palavras de Jesus: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,15-17). Agora Jesus fala claramente do envio do Espírito Santo, chamado por ele de “Defensor”. Enquanto estava no mundo, Jesus era o Defensor dos discípulos, mas agora ele deve voltar para o Pai e ser diante d’Ele o nosso intercessor.

Em que sentido o Espírito Santo é o nosso Defensor? Ele está junto a nós para firmar os nossos passos na missão que somos, exatamente como fez com Jesus: “Ele, porém, passando pelo meio deles, prosseguia o seu caminho” (Lc 4,30). Ele nos dá a firme convicção de não retrocedermos diante dos obstáculos e dificuldades, como também fez com Jesus: “Quando chegaram os dias da sua subida, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51). Portanto, o Espírito Santo não apenas nos defende do espírito do mal, como nos defende também da covardia, do medo e do “corpo mole” que sempre sabotam o nosso crescimento e a nossa constância no seguimento de Jesus.  

Enfim, Jesus esclarece que esse “outro Defensor” é “o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17). O mundo, aqui, não é a humanidade, mas toda pessoa que escolheu viver na mentira e não aceita a verdade do Evangelho. Como também afirma o livro da Sabedoria, “o Espírito Santo, o educador, foge da falsidade e se afasta de uma pessoa pratica a injustiça” (citação livre de Sb 1,5). Somente a pessoa que busca a verdade e se deixa educar, corrigir e guiar por ela, pode acolher o Espírito da Verdade.

Quando permanecemos no amor Àquele que é a Verdade, Jesus Cristo, o Espírito da Verdade não só “permanece junto” de nós, mas fica “dentro de nós”. Neste dia das Mães suplicamos que o Espírito Santo venha sobre cada uma delas e as cubra com sua sombra (cf. Lc 1,35).

Oremos: “Aqui estamos, Espírito Santo. Aqui estamos em sua presença. Venha e fique conosco. Infunda-se no mais íntimo do nosso coração. Ensine-nos em que temos de nos ocupar, para onde temos de dirigir nossos esforços. Seja somente você quem inspire e leve a feliz termo nossas decisões. Não permita que sejamos perturbadores da justiça. Que a ignorância não nos arraste para o mal, nem nos corrompa o desejo pelo lucro. Sejamos nós um em você e nada nos separe da verdade” (Santo Isidoro).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 30 de abril de 2026

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

 Homilia do 5º dom. Páscoa. Atos dos Apóstolos 6,1-7; 1Pedro 2,4-9; João 14,1-12.


“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Começamos hoje a ouvir o discurso de despedida de Jesus. Ainda que tenha ressuscitado para ficar conosco (cf. Lc 24,29), Jesus deve voltar ao Pai, para nos enviar o Espírito Santo. Por sua vez, o Espírito Santo será Jesus ressuscitado não somente junto a nós, mas em nós!

“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Jesus descreve o reino de Deus como uma casa com muitas moradas. Essas muitas moradas são a expressão da vontade do Pai, que quer que todos sejam salvos. O fim da nossa peregrinação é a casa do Pai, como Jesus afirma: “Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,2-3). Aqui, o medo da morte dá lugar à plena confiança em Jesus: na morte, ele vem buscar cada um dos seus discípulos, para leva-los junto com Ele, para a casa do Pai.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Jesus nos torna conscientes de que a salvação não é um privilégio para poucos, mas uma graça oferecida a todos. Nenhum pregador religioso tem o direito de se pôr no lugar do Pai e decidir por ele mesmo quem entra e quem não entra no Céu. Nenhum líder religioso pode ter a pretensão de diminuir o número de moradas na casa do Pai, só para caber nessa Casa quem ele julga (pelas aparências) ser “de Deus”.    

Antes de voltar para o Pai, Jesus nos ensina qual o caminho que conduz à plena comunhão com o Pai, em sua Casa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ter fé em Jesus e no Pai significa percorrer um caminho. Esse caminho nem sempre é feito de facilidades; muito pelo contrário. Às vezes, ele nos oferece respostas; outras vezes, nos faz perguntas. As dificuldades desse caminho estão ali para verificar o quanto levamos a sério o nosso seguimento de Jesus e o nosso desejo de um dia chegar à casa do Pai.

O Caminho que nos conduz ao Pai é a Verdade. A grande maioria das pessoas passa a vida fugindo de si mesma, evitando confrontar-se com uma verdade a princípio dolorosa, mas que tem o poder de curar as feridas abertas pelo engano e pela mentira. Por que a imensa quantidade de igrejas e religiões não consegue tornar o mundo melhor? Porque a maioria das pessoas que as frequentam não está buscando o “Deus da Verdade” (Is 65,16), mas bênçãos e milagres para solucionar seus problemas terrenos. Hoje, sobretudo, a procura pela Verdade que é Deus foi substituída pela busca pela emoção. Por isso, o esforço feito em participar de um show católico não é visto no participar da missa na própria comunidade.

O Caminho, percorrido na Verdade, nos conduz à Vida. Jesus já havia dito que ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). O problema é que muitos não querem viver plenamente, mas apenas sobreviver. Não queremos enfrentar um tratamento sério e doloroso para curar nossas feridas mais profundas; queremos apenas analgésicos e vestes bonitas que as mascarem. Para termos Vida em abundância, precisamos renunciar às compensações temporárias dos nossos pecados, os quais nos fazem experimentar vários tipos de morte ao longo da nossa existência.

Em outras palavras, se Jesus é o Caminho, não gastemos tempo, energia e recursos percorrendo atalhos mais curtos e aparentemente mais vantajosos, que só nos distanciam de nós mesmos e de Deus. Se Jesus é a Verdade, tenhamos a coragem de reconhecer aquilo que precisa ser reconhecido em nós, na relação com as pessoas e com o mundo, a fim de tomarmos a firme decisão de romper com todo tipo de engano e mentira. Se Jesus é a Vida, aprendamos a nos considerar mortos para toda oferta de vida artificial, superficial, escrava de sensações passageiras que aumentam o vazio que nos habita.       

Rezemos a partir de uma antiga canção católica: “Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, o pão da alegria descido do céu! Nós somos caminheiros que marcham para o céu. Jesus é o caminho que nos conduz a Deus”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A ALMA DA OVELHA SÓ ENCONTRA DIREÇÃO OUVINDO A VOZ DO SEU PASTOR

 Homilia 4º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41, 1Pedro 2,20b-25; João 10,1-10.

 

            Neste domingo do bom Pastor, Jesus se define como “a porta”. Primeiramente, ele afirma ser a porta para aqueles que têm a missão de cuidar dos outros: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (Jo 10,1-2). “Entrar pela porta”, neste primeiro caso, significa configurar-se a Jesus, tê-lo como único modelo de cuidador, amando como ele, até o fim, dedicando a existência ao bem das ovelhas, como ele fez.

Mas aqui não podemos nos esquecer de qual porta é Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição!” (Mt 7,13). Todo cuidador que se espelha em Jesus deve se lembrar de que a porta das ovelhas é o próprio corpo do pastor. Durante a noite, ele dorme ali, na porta do redil, porque, se algum animal quiser se aproximar para ferir ou matar uma ovelha, terá primeiro que enfrentar o pastor. Portanto, todo cuidador que tem Jesus como modelo de cuidado sabe que ele mesmo é a proteção do seu rebanho, e que o espírito do mal tem como principal objetivo ferir o pastor, para, depois, apoderar-se das ovelhas do rebanho.

Vejamos agora o segundo sentido da porta: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,7.9). Entrar pela porta que é Jesus é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. A vida nos apresenta inúmeras portas. Nem todas nos dão acesso ao que é bom. Nem todas nos conduzem à verdadeira liberdade. Nem todas nos ajudam a encontrar “pastagem”, isto é, meios que sustentam a nossa vida física, emocional e espiritual. Somente Jesus nos faz “entrar” em comunhão com o Pai, com o Deus a quem a nossa alma anseia. Somente Jesus nos faz “sair” de uma situação de escravidão que nos adoece, ou da prisão em que nós mesmos nos colocamos, por culpa ou por desistência de nós mesmos. Somente Jesus nos faz “encontrar pastagem”, porque sua Palavra é “espírito e vida” (Jo 6,63), Palavra que nos faz viver a partir de dentro.

Ao longo da vida, nós escolhemos entrar por muitas portas. Por que será que muitas dessas portas nos conduziram a situações de destruição? Porque nós nos iludimos com a beleza e a largura da porta. A escolha de uma porta implica a renúncia a outras portas. Quantas portas foram deixadas para trás, porque eram estreitas e feias? E, no entanto, elas nos davam a possibilidade de uma vida mais significativa. Tomemos cuidado com o medo: ele nos impede de abrirmos muitas portas, e sem abri-las, nós continuamos a viver presos numa rotina que nos sufoca e nos desencanta. Qual porta a vida está lhe pedindo para abrir hoje?

Neste domingo do bom Pastor, façamos nossa a oração do salmista: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176). As inúmeras vozes dos inúmeros influenciadores digitais falam conosco todos os dias. Além disso, existe a voz da nossa cobrança interior, a voz do mercado, sempre insaciável em sua fome de lucro, a voz desorientação e dos contra valores, que ecoa o tempo todo nas redes sociais, a voz das nossas fantasias e a voz dos nossos medos. Tudo isso nos confunde e algumas vezes nos desvia de nós mesmos e de Deus. Precisamos diariamente silenciar, não para ouvir o nada, mas para ouvir a voz do nosso único Pastor: “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3).

“Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3). Em meio à grande massificação em que vivemos, Jesus nos chama pelo nome; ele nos identifica e sabe que somos únicos. Sua voz nos retira do barulho que adoece e confunde. Nela encontramos direção. A voz do nosso bom Pastor nos “conduz para fora”, isto é, para fora do quarto escuro do nosso medo, para fora da nossa tristeza e da nossa falta de sentido, para fora da prisão do vício e do pecado, para fora da mentira e do erro. Só é possível ouvir essa voz quando decidimos silenciar, por fora e por dentro. Deixemo-nos ser encontrados por Aquele que nos procura. Não continuemos a nos desviar da porta estreita por medo ou por acomodação. Tenhamos a atitude diária de nos deixar cuidar pelo grande Cuidador, nosso Pastor Jesus Cristo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi          

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O RESSUSCITADO NOS FAZ VER (INTERPRETAR) OS ACONTECIMENTOS RUINS DE OUTRA FORMA

 Homilia do 3º. Dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14.22-33; 1Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35.

 

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém!” (Lc 24,13). Geograficamente, existem quatro lugares possíveis onde seria Emaús, mas o caminho que nos leva até lá é muito conhecido! É o caminho da desistência, do desencanto; um caminho que nós trilhamos com muita frequência, sempre que perdemos a nossa esperança. É o caminho da decepção consigo mesmo, ou com os outros, ou com a Igreja, ou com a vida, ou com o próprio Deus.

“Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24,14-16). “Onde está o Ressuscitado em minha vida?”, talvez você se pergunte. Ele está caminhando ao seu lado. Ele escuta a sua dor e as suas perguntas. Ele respeita o tempo que você precisa para digerir as coisas. Ele quer que você desabafe e fale tudo o que está engasgado na sua garganta. Ele o(a) incentiva a dar nome ao que você está sentindo, a tentar descrever com palavras a sua falta de esperança: “Nós esperávamos” (Lc 24,21).

Embora o Ressuscitado pise no mesmo chão que nós e comungue do nosso desencanto, da nossa perda de sentido, nós somos incapazes de reconhecê-lo, e o motivo é um só: nossos olhos estão presos à nossa dor, impedidos de olhar para além da nossa tristeza. Essa incapacidade de ver o Ressuscitado junto a nós é resultado da forma como interpretamos as coisas ruins que nos acontecem. Somente uma coisa pode abrir os nossos olhos: a Sagrada Escritura! Ela nos revela que a nossa existência não está nas mãos do acaso, mas inserida num propósito de Deus. Precisamos estar atentos a isso: o que mais nos faz sofrer não são os acontecimentos ruins, mas a forma como os interpretamos.

“Então Jesus lhes disse: ‘Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,25-27). Tanto a existência terrena de Jesus quanto a nossa está inserida num “deve”, num plano divino onde todos os acontecimentos que nos atingem têm uma razão de ser. Isso significa que cada dor que o Pai permite que atravesse o nosso caminho tem um propósito, e a atitude mais importante não é desistir da nossa existência, mas manter o foco no nosso “deve”: “Mesmo não compreendendo a razão da minha dor, eu devo me manter fiel à missão que a vida me confiou”.

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles” (Lc 24,29). Eis o pedido fundamental, em nosso momento de perda de esperança: “Fica comigo, Senhor Jesus!”. Fica comigo até que eu aprenda a enxergar a vida para além da minha dor! Fica comigo e me sustente na fidelidade diária ao dever que o Pai me confiou! “Jesus entrou para ficar com eles”, uma outra forma de o evangelista Lucas afirmar: “Jesus ressuscitou para ficar conosco!”. E “quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles” (Lc 24,30-31).

            “Ao partir o pão”. “Partir o pão” é o primeiro nome que a Eucaristia ganhará nas primeiras comunidades cristãs. Comentando este evangelho, o Missal Dominical afirma: “O mundo reconhece os cristãos quando eles sabem ‘partir o pão’. Partilhar o pão eucarístico implica em partilhar o pão social; um compromisso de justiça, de solidariedade, de defesa daqueles cujo pão é roubado pelas injustiças dos homens e dos sistemas sociais errados. O nosso ‘partir o pão’ não pode nos alienar da realidade” (Missal Dominical, p.269).

“Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24,33). O caminho do abandono transforma-se agora em caminho da retomada do sentido. O Ressuscitado nos encoraja a voltar para a missão, para o nosso dever, enxergando os acontecimentos ruins de uma outra forma e compreendendo que a nossa vida não está nas mãos do acaso, nem do poder do mal, mas nas mãos do Pai, que dispõe todas as coisas segundo o Seu desígnio de salvação para conosco.  

Nossa oração: https://www.youtube.com/watch?v=nk1lxT4PVTo

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi