quinta-feira, 28 de maio de 2026

MERGULHAR NO MISTÉRIO QUE É DEUS

Homilia Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Êxodo 34,4b-6.8-9; 2Coríntios 13,11-13; João 3,16-18.

 

“Quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três...” (Legião Urbana, Índios, 1986).

Deus é Mistério; Ele é sempre maior do que os nossos conceitos e do que as nossas ideias sobre Ele. Quando pensamos que já O compreendemos, que já O conhecemos, Ele se apresenta a nós de uma maneira totalmente nova, que nos obriga a rever as nossas ideias sobre Ele. Não só na Sagrada Escritura, mas principalmente na vida, Deus revela-Se como Aquele que é sempre mais do que as nossas palavras podem explicar, mais do que a nossa mente pode imaginar e mais do que o nosso coração pode experimentar. 

            O Mistério que é Deus chama-se “Santíssima Trindade”: Ele é o Deus único, vivo e verdadeiro, mas Se revelou a nós como Pai, como Filho e como Espírito Santo. Sendo Pai, Deus está acima de nós, no sentido de ter o poder sobre todas as coisas que nos atingem. Sendo Filho, Deus está junto de nós, caminhando ao nosso lado, nos sustentando e nos amparando, enquanto atravessamos esse mistério chamado “vida”. Sendo Espírito Santo, Deus está dentro de nós, como força que nos move interiormente, como ânimo que nos levanta e nos impulsiona sempre para frente.

            Mesmo que não possamos compreender o Mistério que é Deus, o apóstolo Paulo afirma que “Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,27-28). Dizendo de outra forma, nós estamos mergulhados no Mistério que é Deus como um peixe no oceano: enquanto o peixe se pergunta “o que é o oceano?”, vive dentro dele e só vive porque está mergulhado nele! Assim também nós em relação a Deus.

            Embora a nossa existência tenha sido concebida no seio da Santíssima Trindade, nós nos sentimos expulsos dela, afastados ou até mesmo rejeitados por ela quando fazemos uma dura experiência de sofrimento. No seu livro “Se quiser experimentar Deus” (pp.167-178), Anselm Grün afirma que a imagem que nós temos de Deus não tem lugar para o sofrimento. “Nós construímos uma imagem de Deus que corresponda aos nossos gostos. Quando, então, um sofrimento nos atinge, nossa imagem de Deus se desmorona. E quando Deus não corresponde a esta imagem, nós nos distanciamos dele”. É aqui que a nossa fé conhece a sua noite escura. Mas...

“Quando ainda era noite” Moisés levantou-se e “subiu ao monte Sinai” (Ex 34,4). Ao mesmo tempo, “o Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés” (Ex 34,5). É assim que mergulhamos no Mistério que é Deus: nós subimos a Ele, por meio da oração, e Ele desce a nós. Ao mesmo tempo em que buscamos Deus, Ele também nos busca! Estando na presença de Deus, “Moisés curvou-se até o chão” (Ex 34,8). Curvar-nos significa admitir a nossa pequenez diante do Mistério que nos ultrapassa. Ali, prostrado por terra na presença de Deus, Moisés pediu: “Peço-te, caminha conosco... perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua” (Ex 34,9). Hoje nos curvamos diante do mistério da Santíssima Trindade e pedimos que, apesar das nossas falhas e pecados, sejamos acolhidos como propriedade do Pai Criador, do Filho Salvador e do Espírito Santo Consolador.

 


 

A Trindade Misericordiosa envolve a criatura humana por todos os lados. O sentimento do Pai é de ternura e cuidado, seu rosto se aproxima e beija o rosto inerte da pessoa ferida. Ele revela seu amor misericordioso no calor do abraço, que acolhe e regenera o ser humano. O Filho revela o Deus Amor-serviço, que se põe aos pés da humanidade decaída para restaurá-la, e revela o caminho do serviço como caminhada para a vida. Em Jesus, Deus se abaixa para estar mais perto da miséria do ser humano. O Espírito Santo, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto pode ser a figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. Beija a pessoa e lhe transmite o Sopro de vida. A Pomba de fogo voa sobre o ser humano caído e o aquece.

Aproximemo-nos desse mistério de amor que é a Santíssima Trindade. Deixemo-nos recriar pelo Pai, salvar pelo Filho, guiar e sustentar pelo Espírito Santo. Sejamos no mundo um sinal vivo dessa comunhão trinitária, para que mais pessoas cheguem ao conhecimento do Deus vivo e se abram para o relacionamento divino, capaz de curá-las, redimi-las e salvá-las da destruição. “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13,13).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O SOPRO DE VIDA QUE VEM DE DEUS

 Homilia de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.

 

Jesus soprou sobre os discípulos e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O Espírito Santo é tão essencial em nossa vida quanto o ar que respiramos. Ele é o “sopro de vida” (Gn 2,7) que nos faz viver não só biologicamente, mas a partir de dentro: “Se tirais o seu respiro, eles perecem e voltam para o pó de onde vieram; enviais o vosso espírito e renascem e da terra toda a face renovais” (Sl 104,30). Sempre que a nossa Igreja, ao longo dos séculos, se fechou em si mesma como que dentro de um túmulo, o Espírito Santo suscitou alguém para convencê-la a sair, a abrir suas portas e janelas, a fim de ser renovada, atualizada e cumprir sua missão de ser sal e luz para os homens de todos os tempos.

Ainda em relação à Igreja, o Espírito Santo não fala somente dentro dela e a partir dela, mas lhe fala a partir do mundo, sobretudo das situações mais feridas e dolorosas da humanidade. Uma Igreja fechada à realidade das pessoas, sobretudo a uma realidade que passa longe das suas normas religiosas, é uma Igreja que se recusa a ouvir o que o Espírito Santo tem a lhe dizer. É bastante perigosa essa postura que afirma que “o velho é que é bom!” (Lc 5,39). Isso tem cheiro de rejeição ao Espírito Santo, atitude que nos recorda a rejeição dos fariseus em relação a Jesus.  

O Espírito Santo nos foi dado para que Cristo ressuscitado viva em nós! Só Ele pode nos fazer sentir a presença do Ressuscitado em nosso dia a dia. É por meio do Espírito Santo que a Palavra, que é Cristo, fale ao presente da nossa história pessoal e social, e ilumine nossas escolhas e decisões, para fazermos em tudo a vontade do Pai. Além disso, é somente através do Espírito Santo que nós podemos chamar a Deus de Pai: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Portanto, sempre que nos sentimos órfãos, sozinhos e abandonados neste mundo, precisamos clamar ao Espírito Santo que conceda ao nosso coração a certeza da nossa filiação divina, para que em toda e qualquer situação possamos dizer como Jesus: “Eu não estou só porque o Pai está comigo” (Jo 16,32).

Enquanto o nosso mundo sofre com separações, conflitos, guerras e divisões, o Espírito Santo deseja juntar os pedaços daquilo que está fragmentado em nós e criar unidade, comunhão, concórdia e paz. “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7). O Espírito Santo não aceita ser usado para a nossa vaidade, muito menos para a nossa soberba espiritual. Toda pessoa que se julga melhor do que as outras e que tem a pretensão de se considerar mais católica do que o próprio Papa não está sendo conduzida pelo Espírito Santo, mas sua própria arrogância espiritual.

No dia de Pentecostes o Espírito Santo foi derramado sobre a Igreja em forma de línguas de fogo, o que significa que a sua linguagem conduz para o amor, a caridade, a comunhão e a concórdia. Nós ouvimos o testemunho de pessoas de quase todas as partes do mundo que, escutando todos os discípulos “falarem em línguas” (At 2,4), afirmavam: “Todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11). Enquanto grupos católicos tradicionalistas buscam missas e orações em latim, o Espírito Santo nos capacita a falar uma língua que as pessoas entendam e através da qual se sinta tocadas por Deus, através da sua Palavra. Também podemos nos perguntar: as nossas postagens favorecem discórdia e divisão ou comunhão e reconciliação? As nossas palavras no dia a dia ajudam a promover concórdia ou discórdia no ambiente em que nos encontramos?  

            Neste dia de Pentecostes não basta clamar ao Pai que reavive o dom do seu Espírito em nós, – Jesus afirmou que “o Pai dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13) –, mas que tenhamos a atitude diária de nos deixar conduzir por ele (cf. Rm 8,14). E para onde o Espírito Santo quer nos conduzir? Para a esperança que não engana (cf. Rm 5,5), para o futuro que Deus tem para cada um de nós, para fora da nossa visão, prisioneira do agora, uma visão angustiada, incapaz de ver além da dor, do problema e da dificuldade pela qual cada um passa neste momento. “O Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem!’. Que aquele que ouve diga também: ‘Vem!’ Que o sedento venha, e quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22,17). O Espírito Santo se une à Igreja, Esposa de Cristo, para clamar: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).

            Enfim, o Espírito Santo é o “Espírito da promessa” (Ef 1,13). Ele é o penhor, isto é, a garantia da nossa ressurreição, a garantia de que nada é definitivo em nossa vida terrena, a garantia de que o Pai completará em cada um de nós a obra da salvação, até o dia da Vinda de seu Filho Jesus Cristo (cf. Fl 1,6). Então, soltemos as mãos do medo e da angústia, nos quais podemos estar agarrados neste momento, e nos deixemos conduzir pelo sopro de vida, que é o Espírito Santo. Que Ele nos leve para onde devemos ir, em vista da nossa libertação e salvação.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

JESUS FOI O CÉU NA TERRA. SEJA-O, VOCÊ TAMBÉM.

Homilia da Ascensão do Senhor Jesus. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Mateus 28,16-20.

 

“Ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, todo-poderoso, de onde há de vir e julgar os vivos e os mortos”. Essas palavras fazem parte da nossa profissão de fé, e precisam ser lembradas especialmente hoje, em que celebramos a ascensão (subida) de Jesus ao céu.

Segundo o autor da carta aos Hebreus, Jesus entrou no céu “a fim de comparecer, agora, diante da face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24). Desse modo, nós podemos apresentar a Jesus todas as nossas aflições e tribulações neste mundo, na certeza de que ele ora ao Pai por nós, para que permaneçamos firmes em nossa fé. Estando à direita do Pai e recebendo d’Ele todo poder e autoridade, Jesus prometeu enviar o Espírito Santo sobre os seus discípulos: “Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas” (At 1,8). Através do Espírito Santo, o próprio Jesus estará junto a cada um de nós, conforme prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20).

“Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Nenhum discípulo de Jesus está abandonado na face da terra, entregue aos sofrimentos e tribulações deste mundo. Ele está conosco, nos defendendo, nos amparando e nos sustentando com a graça do Espírito Santo. Estando no céu, junto do Pai, Jesus nos garante que um dia estaremos também no céu: “Quando eu for e vos tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós” (Jo 14,3).

Voltemos à narrativa da ascensão, segundo Lucas: “Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo. Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia” (At 1,9-10). Há uma “nuvem” que nos impede de ver Jesus no céu. Essa “nuvem” retrata a distância, não só espacial, entre o céu e a terra. O único que viu Jesus no céu foi o diácono Santo Estêvão, momentos antes de ser apedrejado até à morte: “Eu vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus” (At 7,56).

A nossa geração só crê naquilo que vê. Somos escravos das telas. Se no momento da ascensão os discípulos estavam olhando para o céu, nós dificilmente levantamos os olhos para o alto. A própria postura de quem olha para o celular já diz tudo: nosso pescoço e nossa cabeça vivem curvados para baixo. De tanto sermos envolvidos pelas coisas da terra, esquecemos o céu.  As palavras do apóstolo Paulo – “Somos cidadãos do céu: de lá aguardamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo” (Fl 3,20) – não fazem sentido nenhum em nosso dia a dia. Feitos para o céu, para voar como águias, nós nos comportamos como galinhas que vivem ciscando a terra, em busca de sobrevivência.

Pisando o mesmo chão que nós pisamos, Jesus nunca deixou de apontar o céu. Segundo ele, o céu pertence aos pobres em espírito, aos aflitos, aos que têm fome e sede de justiça, aos que promovem a paz (cf. Mt 5,3-8); ele pertence aos que não ignoram o sofrimento do próximo, aos que dão pão a quem tem fome, aos que cuidam dos doentes e aos que visitam os presos (cf. Mt 25,34-35); ele pertence aos que não ajuntam riqueza para si mesmos, mas usam o dinheiro para diminuir as desigualdades sociais à sua volta (cf. Lc 11,33-34), pois são as pessoas que nós ajudamos que nos receberão nas moradas eternas (cf. Lc 16,9).   

Enquanto esteve neste mundo, Jesus foi, para muitas pessoas, o céu na terra. Nós também somos chamados a sê-lo. O céu precisa “ser trazido” para a terra através de cada discípulo de Jesus, oferecendo presença a quem vive na solidão, palavras de conforto e de esperança a quem está abatido e desanimado, enxergando e valorizando aqueles que são “presença invisível” num mundo onde cada um está fechado em si mesmo... Rezemos, neste sentido, a oração de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.

 

Sugestão de leitura: “O céu começa em você – a sabedoria dos Padres do Deserto para hoje”, Anselm Grün, editora Vozes.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 


quinta-feira, 7 de maio de 2026

A PROMESSA DE OUTRO DEFENSOR

 Homilia 6º domingo da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 8,5-8.14-17; 1Pedro 3,15-18; João 14,15-21.

 

                Jesus continua o seu discurso de despedida, iniciado do 5º domingo da Páscoa (cf. Jo 14,1-12). Hoje ele nos recorda que o vínculo que nos manterá unidos a ele é a decisão de amar: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Aquele que nos amou até o fim deseja ser amado por nós, e não temido ou obedecido fanaticamente. Só o relacionamento atravessado pelo amor permanece e dá sentido à vida. Se a maldade é cada vez mais crescente no mundo em que vivemos, Jesus nos convida a não desistir de amar; pelo contrário, precisamos tomar diariamente a firme decisão de amar como ele amou.

             “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama” (Jo 14,21). Como afirmou Nilson Perissé, “observar seus mandamentos implica acompanhá-lo pelas estradas do Evangelho, perceber como reage diante da dor, da injustiça, da traição, do sofrimento e da fragilidade humana. É permitir que sua forma de amar lentamente modele também a nossa”.

            “Quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Sempre que decidimos amar nos tornamos espaço de presença: o Pai e o Filho passam a morar dentro de nós. Isso significa que a nossa vida deixa de ser território neutro. Nossos gestos, nossas escolhas, nossas palavras passam a ser, de algum modo, expressão do Pai e do Filho que vivem em nós. Em outras palavras, se os pagãos diziam, a respeito dos primeiros cristãos: “Vejam como eles se amam!”, num mundo paganizado como o nosso, precisamos nos perguntar se as pessoas enxergam amor não só entre nós, mas também em nossa forma de tratar aqueles que o mundo não ama: os idosos, as pessoas com deficiência, os pobres, os feridos pela violência e pela desigualdade social.  

Voltemos às palavras de Jesus: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,15-17). Agora Jesus fala claramente do envio do Espírito Santo, chamado por ele de “Defensor”. Enquanto estava no mundo, Jesus era o Defensor dos discípulos, mas agora ele deve voltar para o Pai e ser diante d’Ele o nosso intercessor.

Em que sentido o Espírito Santo é o nosso Defensor? Ele está junto a nós para firmar os nossos passos na missão que somos, exatamente como fez com Jesus: “Ele, porém, passando pelo meio deles, prosseguia o seu caminho” (Lc 4,30). Ele nos dá a firme convicção de não retrocedermos diante dos obstáculos e dificuldades, como também fez com Jesus: “Quando chegaram os dias da sua subida, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51). Portanto, o Espírito Santo não apenas nos defende do espírito do mal, como nos defende também da covardia, do medo e do “corpo mole” que sempre sabotam o nosso crescimento e a nossa constância no seguimento de Jesus.  

Enfim, Jesus esclarece que esse “outro Defensor” é “o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17). O mundo, aqui, não é a humanidade, mas toda pessoa que escolheu viver na mentira e não aceita a verdade do Evangelho. Como também afirma o livro da Sabedoria, “o Espírito Santo, o educador, foge da falsidade e se afasta de uma pessoa pratica a injustiça” (citação livre de Sb 1,5). Somente a pessoa que busca a verdade e se deixa educar, corrigir e guiar por ela, pode acolher o Espírito da Verdade.

Quando permanecemos no amor Àquele que é a Verdade, Jesus Cristo, o Espírito da Verdade não só “permanece junto” de nós, mas fica “dentro de nós”. Neste dia das Mães suplicamos que o Espírito Santo venha sobre cada uma delas e as cubra com sua sombra (cf. Lc 1,35).

Oremos: “Aqui estamos, Espírito Santo. Aqui estamos em sua presença. Venha e fique conosco. Infunda-se no mais íntimo do nosso coração. Ensine-nos em que temos de nos ocupar, para onde temos de dirigir nossos esforços. Seja somente você quem inspire e leve a feliz termo nossas decisões. Não permita que sejamos perturbadores da justiça. Que a ignorância não nos arraste para o mal, nem nos corrompa o desejo pelo lucro. Sejamos nós um em você e nada nos separe da verdade” (Santo Isidoro).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 30 de abril de 2026

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

 Homilia do 5º dom. Páscoa. Atos dos Apóstolos 6,1-7; 1Pedro 2,4-9; João 14,1-12.


“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Começamos hoje a ouvir o discurso de despedida de Jesus. Ainda que tenha ressuscitado para ficar conosco (cf. Lc 24,29), Jesus deve voltar ao Pai, para nos enviar o Espírito Santo. Por sua vez, o Espírito Santo será Jesus ressuscitado não somente junto a nós, mas em nós!

“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Jesus descreve o reino de Deus como uma casa com muitas moradas. Essas muitas moradas são a expressão da vontade do Pai, que quer que todos sejam salvos. O fim da nossa peregrinação é a casa do Pai, como Jesus afirma: “Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,2-3). Aqui, o medo da morte dá lugar à plena confiança em Jesus: na morte, ele vem buscar cada um dos seus discípulos, para leva-los junto com Ele, para a casa do Pai.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Jesus nos torna conscientes de que a salvação não é um privilégio para poucos, mas uma graça oferecida a todos. Nenhum pregador religioso tem o direito de se pôr no lugar do Pai e decidir por ele mesmo quem entra e quem não entra no Céu. Nenhum líder religioso pode ter a pretensão de diminuir o número de moradas na casa do Pai, só para caber nessa Casa quem ele julga (pelas aparências) ser “de Deus”.    

Antes de voltar para o Pai, Jesus nos ensina qual o caminho que conduz à plena comunhão com o Pai, em sua Casa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ter fé em Jesus e no Pai significa percorrer um caminho. Esse caminho nem sempre é feito de facilidades; muito pelo contrário. Às vezes, ele nos oferece respostas; outras vezes, nos faz perguntas. As dificuldades desse caminho estão ali para verificar o quanto levamos a sério o nosso seguimento de Jesus e o nosso desejo de um dia chegar à casa do Pai.

O Caminho que nos conduz ao Pai é a Verdade. A grande maioria das pessoas passa a vida fugindo de si mesma, evitando confrontar-se com uma verdade a princípio dolorosa, mas que tem o poder de curar as feridas abertas pelo engano e pela mentira. Por que a imensa quantidade de igrejas e religiões não consegue tornar o mundo melhor? Porque a maioria das pessoas que as frequentam não está buscando o “Deus da Verdade” (Is 65,16), mas bênçãos e milagres para solucionar seus problemas terrenos. Hoje, sobretudo, a procura pela Verdade que é Deus foi substituída pela busca pela emoção. Por isso, o esforço feito em participar de um show católico não é visto no participar da missa na própria comunidade.

O Caminho, percorrido na Verdade, nos conduz à Vida. Jesus já havia dito que ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). O problema é que muitos não querem viver plenamente, mas apenas sobreviver. Não queremos enfrentar um tratamento sério e doloroso para curar nossas feridas mais profundas; queremos apenas analgésicos e vestes bonitas que as mascarem. Para termos Vida em abundância, precisamos renunciar às compensações temporárias dos nossos pecados, os quais nos fazem experimentar vários tipos de morte ao longo da nossa existência.

Em outras palavras, se Jesus é o Caminho, não gastemos tempo, energia e recursos percorrendo atalhos mais curtos e aparentemente mais vantajosos, que só nos distanciam de nós mesmos e de Deus. Se Jesus é a Verdade, tenhamos a coragem de reconhecer aquilo que precisa ser reconhecido em nós, na relação com as pessoas e com o mundo, a fim de tomarmos a firme decisão de romper com todo tipo de engano e mentira. Se Jesus é a Vida, aprendamos a nos considerar mortos para toda oferta de vida artificial, superficial, escrava de sensações passageiras que aumentam o vazio que nos habita.       

Rezemos a partir de uma antiga canção católica: “Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, o pão da alegria descido do céu! Nós somos caminheiros que marcham para o céu. Jesus é o caminho que nos conduz a Deus”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A ALMA DA OVELHA SÓ ENCONTRA DIREÇÃO OUVINDO A VOZ DO SEU PASTOR

 Homilia 4º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41, 1Pedro 2,20b-25; João 10,1-10.

 

            Neste domingo do bom Pastor, Jesus se define como “a porta”. Primeiramente, ele afirma ser a porta para aqueles que têm a missão de cuidar dos outros: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (Jo 10,1-2). “Entrar pela porta”, neste primeiro caso, significa configurar-se a Jesus, tê-lo como único modelo de cuidador, amando como ele, até o fim, dedicando a existência ao bem das ovelhas, como ele fez.

Mas aqui não podemos nos esquecer de qual porta é Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição!” (Mt 7,13). Todo cuidador que se espelha em Jesus deve se lembrar de que a porta das ovelhas é o próprio corpo do pastor. Durante a noite, ele dorme ali, na porta do redil, porque, se algum animal quiser se aproximar para ferir ou matar uma ovelha, terá primeiro que enfrentar o pastor. Portanto, todo cuidador que tem Jesus como modelo de cuidado sabe que ele mesmo é a proteção do seu rebanho, e que o espírito do mal tem como principal objetivo ferir o pastor, para, depois, apoderar-se das ovelhas do rebanho.

Vejamos agora o segundo sentido da porta: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,7.9). Entrar pela porta que é Jesus é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. A vida nos apresenta inúmeras portas. Nem todas nos dão acesso ao que é bom. Nem todas nos conduzem à verdadeira liberdade. Nem todas nos ajudam a encontrar “pastagem”, isto é, meios que sustentam a nossa vida física, emocional e espiritual. Somente Jesus nos faz “entrar” em comunhão com o Pai, com o Deus a quem a nossa alma anseia. Somente Jesus nos faz “sair” de uma situação de escravidão que nos adoece, ou da prisão em que nós mesmos nos colocamos, por culpa ou por desistência de nós mesmos. Somente Jesus nos faz “encontrar pastagem”, porque sua Palavra é “espírito e vida” (Jo 6,63), Palavra que nos faz viver a partir de dentro.

Ao longo da vida, nós escolhemos entrar por muitas portas. Por que será que muitas dessas portas nos conduziram a situações de destruição? Porque nós nos iludimos com a beleza e a largura da porta. A escolha de uma porta implica a renúncia a outras portas. Quantas portas foram deixadas para trás, porque eram estreitas e feias? E, no entanto, elas nos davam a possibilidade de uma vida mais significativa. Tomemos cuidado com o medo: ele nos impede de abrirmos muitas portas, e sem abri-las, nós continuamos a viver presos numa rotina que nos sufoca e nos desencanta. Qual porta a vida está lhe pedindo para abrir hoje?

Neste domingo do bom Pastor, façamos nossa a oração do salmista: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176). As inúmeras vozes dos inúmeros influenciadores digitais falam conosco todos os dias. Além disso, existe a voz da nossa cobrança interior, a voz do mercado, sempre insaciável em sua fome de lucro, a voz desorientação e dos contra valores, que ecoa o tempo todo nas redes sociais, a voz das nossas fantasias e a voz dos nossos medos. Tudo isso nos confunde e algumas vezes nos desvia de nós mesmos e de Deus. Precisamos diariamente silenciar, não para ouvir o nada, mas para ouvir a voz do nosso único Pastor: “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3).

“Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3). Em meio à grande massificação em que vivemos, Jesus nos chama pelo nome; ele nos identifica e sabe que somos únicos. Sua voz nos retira do barulho que adoece e confunde. Nela encontramos direção. A voz do nosso bom Pastor nos “conduz para fora”, isto é, para fora do quarto escuro do nosso medo, para fora da nossa tristeza e da nossa falta de sentido, para fora da prisão do vício e do pecado, para fora da mentira e do erro. Só é possível ouvir essa voz quando decidimos silenciar, por fora e por dentro. Deixemo-nos ser encontrados por Aquele que nos procura. Não continuemos a nos desviar da porta estreita por medo ou por acomodação. Tenhamos a atitude diária de nos deixar cuidar pelo grande Cuidador, nosso Pastor Jesus Cristo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi          

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O RESSUSCITADO NOS FAZ VER (INTERPRETAR) OS ACONTECIMENTOS RUINS DE OUTRA FORMA

 Homilia do 3º. Dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14.22-33; 1Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35.

 

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém!” (Lc 24,13). Geograficamente, existem quatro lugares possíveis onde seria Emaús, mas o caminho que nos leva até lá é muito conhecido! É o caminho da desistência, do desencanto; um caminho que nós trilhamos com muita frequência, sempre que perdemos a nossa esperança. É o caminho da decepção consigo mesmo, ou com os outros, ou com a Igreja, ou com a vida, ou com o próprio Deus.

“Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24,14-16). “Onde está o Ressuscitado em minha vida?”, talvez você se pergunte. Ele está caminhando ao seu lado. Ele escuta a sua dor e as suas perguntas. Ele respeita o tempo que você precisa para digerir as coisas. Ele quer que você desabafe e fale tudo o que está engasgado na sua garganta. Ele o(a) incentiva a dar nome ao que você está sentindo, a tentar descrever com palavras a sua falta de esperança: “Nós esperávamos” (Lc 24,21).

Embora o Ressuscitado pise no mesmo chão que nós e comungue do nosso desencanto, da nossa perda de sentido, nós somos incapazes de reconhecê-lo, e o motivo é um só: nossos olhos estão presos à nossa dor, impedidos de olhar para além da nossa tristeza. Essa incapacidade de ver o Ressuscitado junto a nós é resultado da forma como interpretamos as coisas ruins que nos acontecem. Somente uma coisa pode abrir os nossos olhos: a Sagrada Escritura! Ela nos revela que a nossa existência não está nas mãos do acaso, mas inserida num propósito de Deus. Precisamos estar atentos a isso: o que mais nos faz sofrer não são os acontecimentos ruins, mas a forma como os interpretamos.

“Então Jesus lhes disse: ‘Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,25-27). Tanto a existência terrena de Jesus quanto a nossa está inserida num “deve”, num plano divino onde todos os acontecimentos que nos atingem têm uma razão de ser. Isso significa que cada dor que o Pai permite que atravesse o nosso caminho tem um propósito, e a atitude mais importante não é desistir da nossa existência, mas manter o foco no nosso “deve”: “Mesmo não compreendendo a razão da minha dor, eu devo me manter fiel à missão que a vida me confiou”.

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles” (Lc 24,29). Eis o pedido fundamental, em nosso momento de perda de esperança: “Fica comigo, Senhor Jesus!”. Fica comigo até que eu aprenda a enxergar a vida para além da minha dor! Fica comigo e me sustente na fidelidade diária ao dever que o Pai me confiou! “Jesus entrou para ficar com eles”, uma outra forma de o evangelista Lucas afirmar: “Jesus ressuscitou para ficar conosco!”. E “quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles” (Lc 24,30-31).

            “Ao partir o pão”. “Partir o pão” é o primeiro nome que a Eucaristia ganhará nas primeiras comunidades cristãs. Comentando este evangelho, o Missal Dominical afirma: “O mundo reconhece os cristãos quando eles sabem ‘partir o pão’. Partilhar o pão eucarístico implica em partilhar o pão social; um compromisso de justiça, de solidariedade, de defesa daqueles cujo pão é roubado pelas injustiças dos homens e dos sistemas sociais errados. O nosso ‘partir o pão’ não pode nos alienar da realidade” (Missal Dominical, p.269).

“Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24,33). O caminho do abandono transforma-se agora em caminho da retomada do sentido. O Ressuscitado nos encoraja a voltar para a missão, para o nosso dever, enxergando os acontecimentos ruins de uma outra forma e compreendendo que a nossa vida não está nas mãos do acaso, nem do poder do mal, mas nas mãos do Pai, que dispõe todas as coisas segundo o Seu desígnio de salvação para conosco.  

Nossa oração: https://www.youtube.com/watch?v=nk1lxT4PVTo

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O ÁRDUO CAMINHO DA FÉ

 Homilia 2º dom Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,42-47; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31.

 

“Se eu não vir, não acreditarei” (Jo 20,25). Eis a declaração da falta de fé de Tomé no Cristo ressuscitado. Traduzindo-a para hoje: “Se eu não sentir, se eu não me emocionar, não acreditarei” (fé infantil, que se alimenta de emoção); “Se eu não vir milagres, não acreditarei” (fé que exige intervenções miraculosas de Deus); “Se Deus não remover a minha dor e não curar a minha doença, não acreditarei” (fé que condiciona Deus a agir exatamente do modo como esperamos), etc. Em outras palavras, a nossa falta de fé está sempre presente quando, para crer, colocamos uma condição: “Se”.

            Quando Deus chamou Abraão para caminhar com Ele e lhe fez a promessa de uma terra e de um filho, “Abraão obedeceu e partiu, sem saber para onde ia” (Hb 11,8). A fé pura e verdadeira está aqui: Deus me chama e eu decido caminhar com Ele “sem saber para onde” sua mão me conduzirá. Não cabe a mim escolher o caminho mais fácil ou o que julgo ser o melhor. Não exijo que Deus me diga primeiro “para onde” quer me conduzir. Eu simplesmente confio e me deixo conduzir por Ele, ou seja, eu O obedeço. “A fé nunca sabe para onde está sendo conduzida, mas ela confia e ama Aquele que a conduz” (Oswald Chambers).

Para a Sagrada Escritura, fé é sinônimo de obediência. Para muitos pregadores pentecostais a fé é uma estratégia para você conseguir que Deus lhe conceda “bênçãos”, sendo a maioria delas coisas materiais, ganhos mundanos. As igrejas ainda estão cheias, o que faz com que pensemos que a fé tem aumentado no mundo. No entanto, a “religião” que mais cresce no mundo é a dos que não têm mais fé. E por que perderam a fé? Porque as promessas de prosperidade que lhes foram feitas por pregadores mundanos nunca se realizaram e, infelizmente, em muitos casos, o abandono da igreja também se estendeu para o abandono de Deus.

Jesus disse à samaritana: “o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e verdade” (citação livre de Jo 4,23). O Pai procura filhos que tenham fé n’Ele e que O procurem por amor, e não por necessidades ou por desejos fantasiosos e egoístas. O Pai procura por homens e mulheres que confiem n’Ele o tempo todo, principalmente diante das contrariedades da vida. A fé que agrada o Pai é a fé que se abandona aos Seus cuidados e que deseja apenas uma coisa: obedecer, no sentido de fazer o tempo todo a Sua vontade, sabendo que essa vontade é unicamente o nosso bem.

A falta de fé de Tomé e a sua posterior confissão de fé nos ensinam que a fé é sempre um caminho a percorrer. Nós temos fé no Senhor ressuscitado que se definiu como “Caminho”, caminho apertado e exigente (cf. Mt 7,14). Ter fé é caminhar, é seguir o nosso Pastor “aonde quer que ele vá” (Ap 14,4), atravessando noites escuras, isto é, momentos de aridez espiritual, onde a nossa fé é provada, como disse o apóstolo Pedro: “Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira - mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo” (1Pd 1,6-7).

Da mesma forma como a força das raízes de uma árvore é provada pelo vento contrário, assim as contrariedades da nossa vida servem para verificar o quanto a nossa fé é profunda e as nossas raízes estão, de fato, agarradas em Deus. Mas a grande prova da nossa fé é a perda daquilo que mais amamos; é quando o Pai nos pede para devolver-lhe algo que nos foi confiado, mas que Lhe pertence: “Foi pela fé que Abraão, tendo sido provado, ofereceu Isaac, seu único filho” (Hb 11,17), e o ofereceu porque tinha fé no “Deus que também é capaz de ressuscitar os mortos. Por isso, recuperou seu filho, como um símbolo” (Hb 11,19). Isaac, salvo do sacrifício, prefigurou Jesus, o Filho de Deus, sacrificado na cruz, mas ressuscitado pelo Pai, razão da nossa fé.    

“Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Jo 20,28). Eis aqui a recuperação da fé de Tomé no Senhor Jesus ressuscitado. Ela aconteceu “oito dias depois” da primeira aparição do Ressuscitado aos seus discípulos. O evangelista João está nos dizendo que o domingo, dia do Senhor, é o dia ideal para o nosso encontro com o Ressuscitado, dia em que o Esposo visita a sua esposa, dia em que ele aquece o nosso coração com a sua Palavra e parte o Pão da Eucaristia, revelando a sua presença constante no meio de nós. Pensando exatamente em nós, o Ressuscitado afirmou: “Felizes os que creram sem terem visto” (Jo 20,28). Felizes os que não exigem sinais grandiosos para crer. Felizes os que suportam as noites escuras da fé e não soltam das minhas mãos.  

Palavra final: a fé sempre será um risco a correr. Se nós temos tudo garantido, não precisamos de fé. Ela nunca será certeza, mas sempre confiança. O Pai quer de nós uma única coisa: que confiemos n’Ele. Quanto à nossa fé, ela sempre será provada, para crescer, se purificar e se libertar de elementos estranhos, como a sensação, o sentir, as fortes emoções.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 4 de abril de 2026

“DEUS, QUE RESSUSCITOU O SENHOR, TAMBÉM NOS RESSUSCITARÁ PELO SEU PODER" (1Cor 6,14).

 Homilia do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9

 

            O Evangelho do domingo de Páscoa nos apresenta três discípulos de Jesus diante do seu túmulo vazio: Maria Madalena, Pedro e o discípulo amado. Os três estavam machucados pela morte de Jesus na cruz. Nenhum deles esperava por sua ressurreição. Maria Madalena, ao encontrar o túmulo vazio, não pensa na ressurreição, mas acredita que o corpo de Jesus foi roubado. Assim como aqueles três discípulos, nossos olhos e nossos pensamentos estão presos na imagem daquilo que morre a cada dia em nós e no mundo, o que dificulta que enxerguemos sinais de ressurreição.

O discípulo amado “viu e acreditou” (Jo 20,8). Ele não viu Jesus, mas enxergou os sinais da sua ressurreição dentro do túmulo. Talvez, a nossa maior dificuldade em acreditar na ressurreição seja o fato de que continuamos a ver a vida ser vencida todos os dias pela morte. Mas crer na ressurreição não significa ter a garantia de escapar da morte. Nós só poderemos experimentar a alegria da ressurreição depois de experimentarmos a dor da morte! A fé na ressurreição não anula a morte, mas nos desafia a olhar para além dela, pois o Ressuscitado nos diz: “Não tenha medo! Eu sou o Vivente, estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17-18).  

Se cremos que o Senhor Jesus ressuscitou, devemos levar uma vida de pessoas ressuscitadas, sabendo que a nossa ressurreição “está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,3). Assim como a vida que está escondida dentro da semente só desabrocha quando ela morre, ou seja, quando é enterrada, assim também a nossa ressurreição só se dará a partir da nossa própria morte. Portanto, certa e digna de fé é esta Palavra: “Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14). Assim como o Senhor Jesus, todos nós estamos destinados à ressurreição: “Semeado mortal, o corpo ressuscita imortal; semeado desprezível, ressuscita cheio de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,43-44).         

“Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã”. Porque Cristo vive, depois de ter enfrentado a morte de cruz, eu posso lidar a minha cruz sustentado pela força da esperança. Porque Cristo vive, eu posso seguir pela vida sabendo que nada poderá me separar do amor de Deus, manifestado na pessoa de seu Filho Jesus (cf. Rm 8,37-39). Porque Cristo vive, eu posso suportar minhas provações crendo que Deus tem o poder de transformar tudo aquilo que eu entrego em Suas mãos (cf. Hb 11,17-18). Porque Cristo vive, eu confio ao Pai a minha necessidade diária de ressurreição, sabendo que a Páscoa não é obra minha, mas obra do Pai em mim. De fato, a fé na ressurreição nunca é a fé naquilo que eu posso fazer, mas sempre é a fé naquilo que o Pai pode fazer em mim e na vida daqueles por quem eu oro.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"EU VIVO E VÓS VIVEREIS!" (Jo 14,19)

Homilia da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,26-31; Êxodo 14,15 – 15,1; Is 54,5-14; Romanos 6,3-11; Mateus 28,1-10.

 

As leituras bíblicas desta Vigília fazem memória desde a Criação até a Ressurreição. “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia” (Gn 1,26.31). Todo o processo de evolução da Terra e do ser humano tem Deus como princípio. Ao criar o ser humano, Deus lhe deu a sagrada liberdade de fazer escolhas. O ser humano, por sua vez, usando essa liberdade de maneira egoísta, pecou, ferindo a si mesmo e à criação. Abrindo mão da sua liberdade, o homem se tornou escravo das suas paixões desordenadas e de sistemas sociais injustos. Essa escravidão está retratada no livro do Êxodo. Mas Deus envia Moisés para libertar os hebreus do Egito e conduzi-lo à Terra Prometida.

Nesta noite, fazemos memória da miraculosa saída dos hebreus do Egito, da passagem da tristeza da escravidão para a alegria da libertação. Assim como aqueles hebreus, todos nós estamos presos a algum tipo de Egito. Podemos estar presos a um vício, a um pecado, a uma pessoa que nos adoece e nos faz mal, a uma dívida financeira, a uma culpa, a uma mágoa, a uma tristeza, a um luto, a uma injustiça social... Deus nos encoraja a nos levantar e a sair dessa situação, confiando que Ele abrirá o caminho e nos fará sair. Ele é o nosso Libertador, cuja força do Seu braço abre o Mar Vermelho dos obstáculos e das dificuldades, e nos faz passar, nos faz fazer Páscoa. A Ele louvamos, dizendo: “O Senhor é minha força, é a razão do meu cantar, pois foi ele neste dia para mim libertação!” (Ex 15,2). 

Apesar de sermos homens e mulheres libertos, é muito comum nos sentirmos às vezes abandonados e desorientados. As mudanças cada vez mais rápidas e contínuas causam em nós medo e insegurança quanto ao futuro. Até mesmo a nossa confiança no amor de Deus por nós sofre abalos. Mas eis que o Senhor nos diz: “Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, diz o teu misericordioso Senhor” (Is 54,10). Podemos passar por grandes incertezas e profundas crises, mas a misericórdia do Pai, a forma mais perfeita do Seu amor por nós, não se afastará de nós e haverá de nos sustentar até o fim. Assim podemos dizer como o salmista: “Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo! Transformastes o meu pranto em uma festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 30,4.12a.13b.).

O dia de ontem nos mergulhou na sombra escura da morte. Ela, a morte, se faz sentir em muitos momentos da nossa vida: na doença, na separação, no luto, nas más notícias, no fracasso, na frustração etc. Como nos ensina o apóstolo Paulo, há uma comunhão entre a morte de Jesus e as nossas experiências de morte. Isso significa que o nosso sofrer nunca é solitário, mas acompanhado pelo Cristo sofredor. Mas Cristo ressuscitou! Ele venceu a morte e destinou a todos nós a sermos ressuscitados e a vivermos com ele na glória do Pai! Aí está a razão da nossa esperança: “Se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). Por isso, podemos fazer nossas as palavras do salmista: “A mão direita do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” (Sl 118,16-17).

A liturgia da Palavra desta Vigília Pascal chega ao seu ponto mais alto com a proclamação do Evangelho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nele há uma mistura de tristeza, medo e alegria. As duas mulheres que vão ao túmulo representam a nossa tristeza por tudo o que já morreu em nossa história de vida. A elas e a nós são anunciadas, tanto pelo anjo quanto pelo próprio Cristo ressuscitado, as seguintes palavras: “Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). Nos tempos atuais, o medo se tornou nosso incômodo companheiro íntimo de todos os dias. Jesus veio nos ensinar a confiar no Pai, mas tanto os acontecimentos do dia a dia quanto diversas pregações ameaçadoras, que deformam o Pai num juiz severo e impiedoso, empurram a confiança para fora do nosso coração e o enchem de medo.

“Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). O medo nasce da percepção de que nós não podemos controlar determinadas situações. O Ressuscitado nos convida a abrir mão do controle, a sair das mãos do medo, que nos prendem a uma angústia diária, e a nos confiar às Suas mãos. Tudo aquilo que não controlamos, Ele controla. Tudo aquilo que não podemos superar e vencer, Ele supera e vence por nós. Eis porque o Ressuscitado nos convida à alegria nesta noite: “Alegrem-se!” (Mt 28,9). A ressurreição de Jesus não mudou nada no mundo, que continua ameaçador, mas muda a forma como aqueles que creem lidam com as contrariedades da vida: “Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,37). Eis, portanto, a razão da nossa alegria: a verdade da ressurreição de Cristo firma a nossa vida na sua promessa: “Eu vivo e vós vivereis” (Jo 14,19).

Feliz e Santa Pácoa a você e sua família!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

 

 

 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

MESMO A SITUAÇÃO MAIS TRÁGICA PODE SE TORNAR LUGAR E CAUSA DE SALVAÇÃO

 Homilia de Sexta-feira Santa. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

 

A nossa experiência de cruz é o lugar onde Deus escolheu manifestar a força da Sua salvação, como diz o Pe. Amedeo Cencini: “Depois que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar e causa de salvação. Ou seja, se um crime horrendo foi o contexto histórico escolhido por Deus ou por meio do qual o Pai nos salvou, isso quer dizer que qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”.

Quando sofremos, costumamos maldizer a situação que nos faz sofrer. Maldizemos a doença, o conflito, a crise, a separação, a perda. Se pudéssemos, eliminaríamos da nossa vida aquele momento. Se pudéssemos, fugiríamos para outro lugar, mas o lugar da nossa dor é justamente o lugar da nossa salvação. O sofrimento pelo qual passamos está ali para nos ensinar algo importante: ou temos uma grande parcela de responsabilidade na dor que estamos experimentamos, ou aquela dor é o custo da nossa fidelidade a Deus e à nossa própria consciência.

“Qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”. Seu casamento, sua trabalho, sua família, sua rotina de vida, sua separação, sua perda, sua solidão, seu fracasso – cada uma dessas situações pode se tornar o lugar ideal para a sua salvação. Mas, atenção! Nenhum sofrimento salva por si mesmo: é a nossa postura diante dele que pode nos salvar ou nos arruinar ainda mais. É a consciência de que a vida ensina somente quem está disposto a aprender que nos torna seres humanos melhores, a partir do confronto com a dor que nos cabe enfrentar.   

O outro lado da moeda: o sofrimento não existe somente para ser acolhido e aceito; ele também precisa ser questionado. “O individualismo nega a responsabilidade social do sofrimento. Devem ser melhoradas não as condições sociais, mas sim as da alma. Analgésicos, prescritos em massa, ocultam relações sociais que levam à dor. Cada um tem de cuidar da própria felicidade. Ela se torna um assunto privado. Também o sofrimento é interpretado como resultado do próprio fracasso” (Byung-Chul Han, Sociedade paliativa – a dor hoje).

Inúmeras doenças são consequência das más condições de trabalho. Além disso, a indústria farmacêutica não existe para curar doenças, mas apenas para aliviar dores. Quanto mais pessoas curadas, menos lucro para os empresários da dor; quanto mais dor e sofrimento, maior o lucro deles. Quanto a nós, população, cada um vive sua vida e sofre suas dores convencido de que “cada um tem de cuidar da própria felicidade”, e quem não consegue se livrar do sofrimento se sente fracassado como pessoa. Ou seja, não há nada de errado com o mundo do trabalho, nem com a indústria da dor, mas com você, que não dá conta de ser feliz.

Há um sentido oculto no sofrimento? Segundo Thomas Merton, o sofrimento não possui, por si mesmo, qualquer força ou valor. Tudo depende do modo como o enfrentamos. Sem Deus, a dor é maldição: pode endurecer a alma e nos tornar amargos. Mas à luz de Deus compreendemos que o sofrimento nos oferece a ocasião de nos tornar melhores do que somos. A dor ganha valor quando nos ajuda a rever prioridades, retomar o que estava esquecido e abandonar o que nos prejudica, mas tratamos como algo precioso.  

Jesus morreu por ser verdadeiramente homem. Isso também significa que a morte nos humaniza. “Somos mais humanos quando morre nossa onipotência, quando se desfaz a arrogância com que acreditávamos dominar o mundo. Somos mais humanos quando perdemos a mania de grandeza, de ter controle sobre tudo, quando somos expostos ao nosso próprio desamparo e percebemos nossa própria fragilidade. Trazemos dentro de nós uma ferida que não fecha, uma fome que não sacia, uma sede que não passa” (Nilson Perissé). Tudo isso é a nossa abertura ao transcendente, a nossa destinação à vida eterna.  

Jesus abraçou a sua morte a partir da imagem de um grão de trigo: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Assim também podemos entender a nossa vida: tudo o que eu quero manter a todo custo (não morrer) se estraga e adoece (solidão); tudo o que eu abro mão e deixo ir (morrer) prepara a minha existência para algo muito maior (muito fruto). Em nosso deixar cair diariamente o grão de trigo que somos, rezemos: “Senhor, eu ponho em vós minha esperança. Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito. A vós, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu entrego em vossas mãos o meu destino” (Sl 31).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 



 

terça-feira, 31 de março de 2026

O CORDEIRO SE FEZ PÃO PARA OS SOFRIDOS DO MUNDO

 Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-53.

 

Nesta noite começamos a celebração da Páscoa. Ela se inicia com a memória da entrega de Jesus, entrega que, antes de se dar na cruz, deu-se numa Ceia: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão... ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós’... Depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue’” (1Cor 11,23.24.25). Jesus celebra a última Ceia com seus discípulos “entregando-se livremente” porque viveu a sua vida a partir de uma convicção: “Eu sou uma missão nesta terra e por isso estou neste mundo” (Papa Francisco).

            O texto do Êxodo nos convida a fazer memória da páscoa dos hebreus, quando cordeiros foram sacrificados para proteger as suas famílias por meio do sangue passado nas portas das casas. Ao celebrar a páscoa, Jesus dá um novo sentido ao sangue dos cordeiros. Sangue derramado significa amor que se sacrifica. Sem sacrifício, ninguém salva aquilo que ama. Jesus “amou os seus até o fim” (Jo 13,1). Se é verdade que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22), Jesus é o verdadeiro Cordeiro que derrama, livre e conscientemente, o seu sangue pela remissão de todo ser humano, de modo que cada um pode dizer como São Paulo: “A minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

O sacrifício de Jesus na cruz foi oferecido uma única vez, mas “todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, estamos proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (cf. 1Cor 11,26). Em cada Eucaristia Jesus abraça o nosso passado – Ele morreu por nós –, o nosso presente – Ele está no meio de nós –, e o nosso futuro – Ele virá para nos introduzir no banquete do Reino de Deus. Esse banquete do Reino se antecipa em cada Eucaristia, onde Jesus revela o sentido da sua entrega e missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9,12.13).    

            Neste dia da instituição da Eucaristia, precisamos nos lembrar de algumas verdades importantes: “Jesus não instituiu a Eucaristia para o deleite espiritual de grupos seletos, mas para romper com ‘bolhas místicas’ e se tornar pão para os feridos do mundo. Muitos se esforçam por ‘estar diante de Deus’, adorando o Santíssimo Sacramento, mas se esquecem de que Deus escolheu estar junto aos pobres. Nós não podemos ter os olhos voltados para o Santíssimo Sacramento e dar as costas para o sofrimento alheio. Aquele que está na hóstia é Aquele que disse: ‘Eu estava com fome e você me deu de comer’” (Mt 25,35). Cristo está onde a vida dói. A Eucaristia é pão para o mundo” (Guillermo Jesus Kowalski, O sequestro do Santíssimo Sacramento).

Foi exatamente enquanto celebrava a última Ceia com seus discípulos que Jesus disse: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Por isso, a última lembrança que Jesus quis que seus discípulos tivessem dele foi a de lavar-lhes os pés, uma atitude própria de escravos. “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15). Como identificar uma pessoa que comunga? Pelo serviço que ela realiza em favor dos outros.

Dizia Madre Teresa de Calcutá: “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem sentir-se melhor e mais feliz” (Madre Teresa de Calcutá). Compreender isso é dispor-se a lavar os pés dos outros, sabendo que “há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora. Sempre teremos pés para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem... Isso é viver a Eucaristia no cotidiano da vida” (Pe. Adroaldo).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

“DIGA-ME A SUA RELAÇÃO COM A DOR, E EU TE DIREI QUEM VOCÊ É” (ERNEST JÜNGER).

 Homilia do Domingo de Ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 27,11-54 (forma breve).

 

O julgamento de Jesus por Pilatos se deu na véspera da páscoa dos judeus. Essa festa celebrava a libertação dos israelitas do Egito, povo que Deus chamou de “meu filho”. Mas agora, os chefes judaicos prenderam o Filho único de Deus, Jesus Cristo. O motivo verdadeiro é a inveja; o motivo falso é a ameaça que Jesus representa ao Império Romano. Quando o Evangelho denuncia os nossos erros e revela que nossas atitudes são contrárias ao Reino de Deus, nós também acabamos por rejeitar Jesus e mantê-lo afastado de nós. Pensamos, dessa forma, “condenar” Jesus, mas nós é que acabamos nos condenando.

Pilatos sabe que Jesus é inocente, e por isso tenta libertá-lo através da anistia pascal. Mas os líderes religiosos incentivam a multidão a pedir a libertação de Barrabás (cf. Mt 27,17), nome que significa “filho de pai nenhum”. Com quem nos identificamos: com Jesus, o Filho de Deus, ou com Barrabás, o filho “sem pai”? O pai representa a autoridade, a disciplina e a correção. Nós aceitamos ser educados e corrigidos pelo nosso Pai, ou buscamos viver nossa vida de modo “desenfreado”, isto é, sem o freio da voz de Deus em nossa consciência? Não nos esqueçamos de que hoje os líderes religiosos foram substituídos por inúmeros influenciadores digitais que “adotam” inúmeros filhos sem pais, pervertendo sua consciência e seus valores.

“Pilatos mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão, e disse: ‘Eu não sou responsável pelo sangue deste homem!’. O povo todo respondeu: ‘Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos’” (Mt 27,24). Assim como a multidão, nós também queremos ver sangue! Os filmes e os vídeos que mais chamam a nossa atenção têm sangue, violência e morte; igualmente, a maioria dos jogos de vídeo game. O gesto de lavar as mãos significa tornar-se indiferente ao sofrimento dos outros; não responsabilizar-se por nada nem por ninguém. No entanto, nossa indiferença para com a desgraça alheia acaba por atrair a desgraça sobre nós. Diante do sofrimento de uma pessoa só existem duas atitudes possíveis: ou o lavar as mãos (indiferença), ou ajudar a pessoa a carregar a sua cruz (o Cireneu).  

“Ali deram vinho misturado com fel para Jesus beber. Ele provou, mas não quis beber” (Mt 27,34). Essa bebida servia para anestesiar os sentidos do crucificado. No seu livro “Sociedade paliativa – a dor hoje”, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han nos lembra que a forma como lidamos com a dor revela o tipo de pessoa que somos: “Diga-me a sua relação com a dor, e eu te direi quem você é” (Ernest Jünger). “Para fugir da dor, busca-se uma anestesia permanente. Não temos mais coragem para a dor. Os filhos são educados não para serem humanos, mas para serem pessoas de um desempenho permanentemente feliz, o mais insensível possível à dor” (Byung-Chul Han). 

Os líderes religiosos insultavam Jesus dizendo: “Desça agora da cruz! e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama! Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus” (Mt 27,43-44). Aqui está o retrato de muitos cristãos: o constante desejo de ver milagres, para só então terem fé. Aqui está o nosso retrato também: produzimos morte à nossa volta, e depois gritamos a Deus que ressuscite aquilo que nós mesmos matamos.

“Desde o meio-dia até às três horas da tarde, houve escuridão sobre toda a terra” (Mt 27,35). Aquele que é a “Luz do mundo” (Jo 8,12) foi rejeitado e crucificado. Na Bíblia, a experiência da escuridão é a experiência do abandono de Deus. Ele é luz, mas essa luz parece estar completamente ausente da nossa vida. “Esta terrível sensação de perda – esta escuridão indizível – esta solidão... A escuridão é tal, que realmente não vejo mais nada – nem com a mente nem com a razão. O lugar de Deus na minha alma é um espaço vazio. Não há Deus em mim. Eu sinto que Ele não me quer” (Madre Teresa, “Venha, seja a minha luz”, pp.13-14). Não há um ser humano que nunca se sinta abandonado por Deus em algum momento da vida.

“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’” (Mt 27,46). “Jesus não duvida da existência de Deus nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele? Jesus morre na noite mais escura. Morre com um ‘por quê?’ nos lábios” (Pagola, “Jesus – aproximação histórica”, p.484).

“E eis que a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt 27,51). Aí está a resposta do Pai ao sentimento de abandono do Filho. O coração do Pai se rasga de dor por todos os seus filhos mortos pela violência. O céu se rasga para receber o espírito do Filho de Deus. Se o pecado do homem havia fechado o céu (cf. Is 63,19), a morte redentora de Jesus abre o céu definitivamente a todo aquele que confia na misericórdia do Pai.

“O oficial e os soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: ‘Ele era mesmo Filho de Deus!’” (Mt 27,54). É diante de uma experiência de cruz que a nossa fé deve se pronunciar. “Guardei a minha fé mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl 116,1).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

VENHA PARA FORA DA SEPULTURA EM QUE VOCÊ SE ENTERROU!

 Homilia do 5º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Ezequiel 37,12-14; Romanos 8,8-11; João 11,1-6.11.14-15.17.19-27.33-45.

           

            “A tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo” (Albert Schweitzer). “Os homens de hoje vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido” (Dalai Lama). Essas duas frases nos mostram o grande perigo de estarmos vivos biologicamente, mas mortos na alma (vida emocional) ou no espírito (nossa esperança em Deus). O quê já morreu dentro de você? O quê você decidiu enterrar, por não acreditar na possibilidade de aquilo ser ressuscitado? Você tem consciência de que a sua vida aqui é finita? Essa consciência o(a) ajuda a dar prioridade ao que é essencial e não se perder no que é ilusório e passageiro?  

            Durante a sua experiência de exílio na Babilônia, Israel deixou morrer a sua esperança: “A nossa esperança está desfeita. Para nós tudo está acabado” (Ez 37,11). Essa perda de esperança pode estar no coração de uma pessoa que se separou, de alguém que está na fase terminal de um câncer, na pessoa que perdeu um ente muito querido, num homem que despencou financeiramente do seu pedestal, em alguém que se sente absolutamente condenado por Deus etc.

            Mas Deus fez uma promessa: “Eu vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel” (Ez 37,12). E isso aconteceu no ano 538 aC, quando o Senhor pôs fim ao exílio, através do rei persa, Ciro, e Israel pôde voltar ao seu país e reconstruir sua vida. Nossa esperança humana pode não durar muito tempo, mas aqueles que aprendem a esperar em Deus serão retirados do túmulo do seu desespero e da sua falta de sentido para a vida, mesmo quando se perguntam: “Para quê continuar a viver?”.

              Se Deus concedeu a Israel a sua “ressurreição”, ou seja, a libertação do exílio, Ele preparou para nós algo muito maior: a ressurreição em Seu Filho Jesus, o Filho que chora a morte de todo ser humano porque o ama (cf. Jo 11,33). Jesus chora quando levamos uma vida autodestrutiva, abrindo sepulturas para nós mesmos e para aqueles que amamos. Jesus chora por uma humanidade constantemente exposta à morte por uma “economia que mata” (Papa Francisco). Jesus chora, e o seu choro questiona a nossa sensibilidade anestesiada, a nossa perda de capacidade de chorar por tudo o que morre à nossa volta, às vezes com a nossa colaboração.

Todos nos reconhecemos na súplica das irmãs de Lázaro: “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3). Todos temos a mesma ideia errada: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Achamos que a morte aconteceu porque Jesus não nos ama de verdade. De fato, Jesus pode não atender à nossa oração e permitir que uma doença leve um ente querido nosso à morte, porque tem um propósito maior: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais” (Jo 11,15). Jesus não veio impedir a morte física, que um dia alcançará a todos nós, mas nos convidar a ter uma fé para além do sofrimento de uma doença e da dor profunda, que a morte de quem amamos nos causa.

“Onde o colocastes?” (Jo 11,34), perguntou Jesus às irmãs de Lázaro. Jesus hoje nos pergunta onde enterramos a nossa fé e sepultamos a nossa esperança. Onde enterramos os nossos talentos, o nosso desejo de trabalhar por um mundo melhor, pela restauração da nossa família, pelo anúncio do Evangelho? Jesus nos encoraja a nos colocar diante do nosso túmulo existencial, onde ali já nos enterramos vivos, e diante da sepultura do nosso ganho secundário, Ele nos faz o convite: “Vem para fora!” (Jo 11,43). Jesus pergunta se nós realmente desejamos sair do túmulo do vitimismo, do desânimo e da autopiedade. Nós realmente queremos voltar a viver e a lidar com aquilo que a vida está colocando diante de nós? Não existe possibilidade de ressurreição, nesta vida, para quem não deseja mais viver.

“Vem para fora!” (Jo 11,43). Abra as janelas do seu quarto escuro e deixe entrar a luz do sol! Apesar do medo, do desânimo e da sua total perda de esperança, faça o esforço de sair da sua cama, abrir a porta do seu quarto e voltar a acolher a vida que te aguarda. Não deseje morrer só porque as coisas não estão como você gostaria que estivessem; aprenda a acolher a vida como ela é. Não gaste energia à toa brigando com a realidade e não permita que ela seja a sua desculpa para não lutar pela vida, sua e daqueles a quem você ama. E se, por acaso, não houver em você a mínima vontade de continuar vivo(a), clame o Espírito Santo, força vital de Deus em nós e promessa da nossa ressurreição, lembrando-se de que “aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8,11).

Palavra final: Cristo é água para nossa sede, luz para nossas trevas, ressurreição para nossa vida. N’Ele tudo está destinado à ressurreição! (parafraseando o Missal Cotidiano).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi