Homilia do 5º dom. Páscoa. Atos dos Apóstolos 6,1-7; 1Pedro 2,4-9; João 14,1-12.
“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Começamos
hoje a ouvir o discurso de despedida de Jesus. Ainda que tenha ressuscitado
para ficar conosco (cf. Lc 24,29), Jesus deve voltar ao Pai, para nos enviar o
Espírito Santo. Por sua vez, o Espírito Santo será Jesus ressuscitado não
somente junto a nós, mas em nós!
“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Jesus
descreve o reino de Deus como uma casa com muitas moradas. Essas muitas moradas
são a expressão da vontade do Pai, que quer que todos sejam salvos. O fim da
nossa peregrinação é a casa do Pai, como Jesus afirma: “Vou preparar um lugar
para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei
comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,2-3). Aqui, o
medo da morte dá lugar à plena confiança em Jesus: na morte, ele vem buscar
cada um dos seus discípulos, para leva-los junto com Ele, para a casa do Pai.
“Na casa de meu Pai há muitas moradas”
(Jo 14,2). Jesus nos torna conscientes de que a salvação não é um privilégio
para poucos, mas uma graça oferecida a todos. Nenhum pregador religioso tem o
direito de se pôr no lugar do Pai e decidir por ele mesmo quem entra e quem não
entra no Céu. Nenhum líder religioso pode ter a pretensão de diminuir o número
de moradas na casa do Pai, só para caber nessa Casa quem ele julga (pelas
aparências) ser “de Deus”.
Antes de voltar para o Pai, Jesus nos
ensina qual o caminho que conduz à plena comunhão com o Pai, em sua Casa: “Eu
sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).
Ter fé em Jesus e no Pai significa percorrer um caminho. Esse caminho nem sempre
é feito de facilidades; muito pelo contrário. Às vezes, ele nos oferece
respostas; outras vezes, nos faz perguntas. As dificuldades desse caminho estão
ali para verificar o quanto levamos a sério o nosso seguimento de Jesus e o
nosso desejo de um dia chegar à casa do Pai.
O Caminho que nos conduz ao Pai é a
Verdade. A grande maioria das pessoas passa a vida fugindo de si mesma,
evitando confrontar-se com uma verdade a princípio dolorosa, mas que tem o
poder de curar as feridas abertas pelo engano e pela mentira. Por que a imensa
quantidade de igrejas e religiões não consegue tornar o mundo melhor? Porque a
maioria das pessoas que as frequentam não está buscando o “Deus da Verdade” (Is
65,16), mas bênçãos e milagres para solucionar seus problemas terrenos. Hoje,
sobretudo, a procura pela Verdade que é Deus foi substituída pela busca pela
emoção. Por isso, o esforço feito em participar de um show católico não é visto
no participar da missa na própria comunidade.
O Caminho, percorrido na Verdade, nos
conduz à Vida. Jesus já havia dito que ele veio “para que todos tenham vida e a
tenham em abundância” (Jo 10,10). O problema é que muitos não querem viver
plenamente, mas apenas sobreviver. Não queremos enfrentar um tratamento sério e
doloroso para curar nossas feridas mais profundas; queremos apenas analgésicos
e vestes bonitas que as mascarem. Para termos Vida em abundância, precisamos
renunciar às compensações temporárias dos nossos pecados, os quais nos fazem
experimentar vários tipos de morte ao longo da nossa existência.
Em outras palavras, se Jesus é o
Caminho, não gastemos tempo, energia e recursos percorrendo atalhos mais curtos
e aparentemente mais vantajosos, que só nos distanciam de nós mesmos e de Deus.
Se Jesus é a Verdade, tenhamos a coragem de reconhecer aquilo que precisa ser
reconhecido em nós, na relação com as pessoas e com o mundo, a fim de tomarmos
a firme decisão de romper com todo tipo de engano e mentira. Se Jesus é a Vida,
aprendamos a nos considerar mortos para toda oferta de vida artificial,
superficial, escrava de sensações passageiras que aumentam o vazio que nos
habita.
Rezemos a partir de uma antiga canção
católica: “Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, o pão da alegria descido do
céu! Nós somos caminheiros que marcham para o céu. Jesus é o caminho que nos
conduz a Deus”.
Pe. Paulo Cezar Mazzi
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