quinta-feira, 30 de abril de 2026

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

 Homilia do 5º dom. Páscoa. Atos dos Apóstolos 6,1-7; 1Pedro 2,4-9; João 14,1-12.


“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Começamos hoje a ouvir o discurso de despedida de Jesus. Ainda que tenha ressuscitado para ficar conosco (cf. Lc 24,29), Jesus deve voltar ao Pai, para nos enviar o Espírito Santo. Por sua vez, o Espírito Santo será Jesus ressuscitado não somente junto a nós, mas em nós!

“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Jesus descreve o reino de Deus como uma casa com muitas moradas. Essas muitas moradas são a expressão da vontade do Pai, que quer que todos sejam salvos. O fim da nossa peregrinação é a casa do Pai, como Jesus afirma: “Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,2-3). Aqui, o medo da morte dá lugar à plena confiança em Jesus: na morte, ele vem buscar cada um dos seus discípulos, para leva-los junto com Ele, para a casa do Pai.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Jesus nos torna conscientes de que a salvação não é um privilégio para poucos, mas uma graça oferecida a todos. Nenhum pregador religioso tem o direito de se pôr no lugar do Pai e decidir por ele mesmo quem entra e quem não entra no Céu. Nenhum líder religioso pode ter a pretensão de diminuir o número de moradas na casa do Pai, só para caber nessa Casa quem ele julga (pelas aparências) ser “de Deus”.    

Antes de voltar para o Pai, Jesus nos ensina qual o caminho que conduz à plena comunhão com o Pai, em sua Casa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ter fé em Jesus e no Pai significa percorrer um caminho. Esse caminho nem sempre é feito de facilidades; muito pelo contrário. Às vezes, ele nos oferece respostas; outras vezes, nos faz perguntas. As dificuldades desse caminho estão ali para verificar o quanto levamos a sério o nosso seguimento de Jesus e o nosso desejo de um dia chegar à casa do Pai.

O Caminho que nos conduz ao Pai é a Verdade. A grande maioria das pessoas passa a vida fugindo de si mesma, evitando confrontar-se com uma verdade a princípio dolorosa, mas que tem o poder de curar as feridas abertas pelo engano e pela mentira. Por que a imensa quantidade de igrejas e religiões não consegue tornar o mundo melhor? Porque a maioria das pessoas que as frequentam não está buscando o “Deus da Verdade” (Is 65,16), mas bênçãos e milagres para solucionar seus problemas terrenos. Hoje, sobretudo, a procura pela Verdade que é Deus foi substituída pela busca pela emoção. Por isso, o esforço feito em participar de um show católico não é visto no participar da missa na própria comunidade.

O Caminho, percorrido na Verdade, nos conduz à Vida. Jesus já havia dito que ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). O problema é que muitos não querem viver plenamente, mas apenas sobreviver. Não queremos enfrentar um tratamento sério e doloroso para curar nossas feridas mais profundas; queremos apenas analgésicos e vestes bonitas que as mascarem. Para termos Vida em abundância, precisamos renunciar às compensações temporárias dos nossos pecados, os quais nos fazem experimentar vários tipos de morte ao longo da nossa existência.

Em outras palavras, se Jesus é o Caminho, não gastemos tempo, energia e recursos percorrendo atalhos mais curtos e aparentemente mais vantajosos, que só nos distanciam de nós mesmos e de Deus. Se Jesus é a Verdade, tenhamos a coragem de reconhecer aquilo que precisa ser reconhecido em nós, na relação com as pessoas e com o mundo, a fim de tomarmos a firme decisão de romper com todo tipo de engano e mentira. Se Jesus é a Vida, aprendamos a nos considerar mortos para toda oferta de vida artificial, superficial, escrava de sensações passageiras que aumentam o vazio que nos habita.       

Rezemos a partir de uma antiga canção católica: “Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, o pão da alegria descido do céu! Nós somos caminheiros que marcham para o céu. Jesus é o caminho que nos conduz a Deus”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

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