Homilia
da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,26-31; Êxodo 14,15 – 15,1; Is
54,5-14; Romanos 6,3-11; Mateus 28,1-10.
As
leituras bíblicas desta Vigília fazem memória desde a Criação até a
Ressurreição. “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou:
homem e mulher os criou. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia” (Gn 1,26.31). Todo
o processo de evolução da Terra e do ser humano tem Deus como princípio. Ao
criar o ser humano, Deus lhe deu a sagrada liberdade de fazer escolhas. O ser
humano, por sua vez, usando essa liberdade de maneira egoísta, pecou, ferindo a
si mesmo e à criação. Abrindo mão da sua liberdade, o homem se tornou escravo
das suas paixões desordenadas e de sistemas sociais injustos. Essa escravidão está
retratada no livro do Êxodo. Mas Deus envia Moisés para libertar os hebreus do
Egito e conduzi-lo à Terra Prometida.
Nesta
noite, fazemos memória da miraculosa saída dos hebreus do Egito, da passagem da
tristeza da escravidão para a alegria da libertação. Assim como aqueles
hebreus, todos nós estamos presos a algum tipo de Egito. Podemos estar presos a
um vício, a um pecado, a uma pessoa que nos adoece e nos faz mal, a uma dívida
financeira, a uma culpa, a uma mágoa, a uma tristeza, a um luto, a uma
injustiça social... Deus nos encoraja a nos levantar e a sair dessa situação,
confiando que Ele abrirá o caminho e nos fará sair. Ele é o nosso Libertador,
cuja força do Seu braço abre o Mar Vermelho dos obstáculos e das dificuldades,
e nos faz passar, nos faz fazer Páscoa. A Ele louvamos, dizendo: “O Senhor é
minha força, é a razão do meu cantar, pois foi ele neste dia para mim
libertação!” (Ex 15,2).
Apesar
de sermos homens e mulheres libertos, é muito comum nos sentirmos às vezes
abandonados e desorientados. As mudanças cada vez mais rápidas e contínuas
causam em nós medo e insegurança quanto ao futuro. Até mesmo a nossa confiança
no amor de Deus por nós sofre abalos. Mas eis que o Senhor nos diz: “Podem os
montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de
ti, diz o teu misericordioso Senhor” (Is 54,10). Podemos passar por grandes
incertezas e profundas crises, mas a misericórdia do Pai, a forma mais perfeita
do Seu amor por nós, não se afastará de nós e haverá de nos sustentar até o
fim. Assim podemos dizer como o salmista: “Vós tirastes minha alma dos abismos e
me salvastes, quando estava já morrendo! Transformastes o meu pranto em uma
festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 30,4.12a.13b.).
O
dia de ontem nos mergulhou na sombra escura da morte. Ela, a morte, se faz
sentir em muitos momentos da nossa vida: na doença, na separação, no luto, nas
más notícias, no fracasso, na frustração etc. Como nos ensina o apóstolo Paulo,
há uma comunhão entre a morte de Jesus e as nossas experiências de morte. Isso
significa que o nosso sofrer nunca é solitário, mas acompanhado pelo Cristo
sofredor. Mas Cristo ressuscitou! Ele venceu a morte e destinou a todos nós a
sermos ressuscitados e a vivermos com ele na glória do Pai! Aí está a razão da
nossa esperança: “Se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por
uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição”
(Rm 6,5). Por isso, podemos fazer nossas as palavras do salmista: “A mão direita
do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei,
mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” (Sl
118,16-17).
A
liturgia da Palavra desta Vigília Pascal chega ao seu ponto mais alto com a
proclamação do Evangelho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nele há
uma mistura de tristeza, medo e alegria. As duas mulheres que vão ao túmulo
representam a nossa tristeza por tudo o que já morreu em nossa história de
vida. A elas e a nós são anunciadas, tanto pelo anjo quanto pelo próprio Cristo
ressuscitado, as seguintes palavras: “Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). Nos
tempos atuais, o medo se tornou nosso incômodo companheiro íntimo de todos os
dias. Jesus veio nos ensinar a confiar no Pai, mas tanto os acontecimentos do
dia a dia quanto diversas pregações ameaçadoras, que deformam o Pai num juiz
severo e impiedoso, empurram a confiança para fora do nosso coração e o enchem
de medo.
“Não
tenham medo!” (Mt 28,5.10). O medo nasce da percepção de que nós não podemos
controlar determinadas situações. O Ressuscitado nos convida a abrir mão do
controle, a sair das mãos do medo, que nos prendem a uma angústia diária, e a
nos confiar às Suas mãos. Tudo aquilo que não controlamos, Ele controla. Tudo
aquilo que não podemos superar e vencer, Ele supera e vence por nós. Eis porque
o Ressuscitado nos convida à alegria nesta noite: “Alegrem-se!” (Mt 28,9). A ressurreição
de Jesus não mudou nada no mundo, que continua ameaçador, mas muda a forma como
aqueles que creem lidam com as contrariedades da vida: “Em tudo isso somos mais
que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,37). Eis, portanto, a razão
da nossa alegria: a verdade da ressurreição de Cristo firma a nossa vida na sua
promessa: “Eu vivo e vós vivereis” (Jo 14,19).
Feliz e Santa Pácoa a você e sua família!
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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