sexta-feira, 3 de abril de 2026

"EU VIVO E VÓS VIVEREIS!" (Jo 14,19)

Homilia da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,26-31; Êxodo 14,15 – 15,1; Is 54,5-14; Romanos 6,3-11; Mateus 28,1-10.

 

As leituras bíblicas desta Vigília fazem memória desde a Criação até a Ressurreição. “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia” (Gn 1,26.31). Todo o processo de evolução da Terra e do ser humano tem Deus como princípio. Ao criar o ser humano, Deus lhe deu a sagrada liberdade de fazer escolhas. O ser humano, por sua vez, usando essa liberdade de maneira egoísta, pecou, ferindo a si mesmo e à criação. Abrindo mão da sua liberdade, o homem se tornou escravo das suas paixões desordenadas e de sistemas sociais injustos. Essa escravidão está retratada no livro do Êxodo. Mas Deus envia Moisés para libertar os hebreus do Egito e conduzi-lo à Terra Prometida.

Nesta noite, fazemos memória da miraculosa saída dos hebreus do Egito, da passagem da tristeza da escravidão para a alegria da libertação. Assim como aqueles hebreus, todos nós estamos presos a algum tipo de Egito. Podemos estar presos a um vício, a um pecado, a uma pessoa que nos adoece e nos faz mal, a uma dívida financeira, a uma culpa, a uma mágoa, a uma tristeza, a um luto, a uma injustiça social... Deus nos encoraja a nos levantar e a sair dessa situação, confiando que Ele abrirá o caminho e nos fará sair. Ele é o nosso Libertador, cuja força do Seu braço abre o Mar Vermelho dos obstáculos e das dificuldades, e nos faz passar, nos faz fazer Páscoa. A Ele louvamos, dizendo: “O Senhor é minha força, é a razão do meu cantar, pois foi ele neste dia para mim libertação!” (Ex 15,2). 

Apesar de sermos homens e mulheres libertos, é muito comum nos sentirmos às vezes abandonados e desorientados. As mudanças cada vez mais rápidas e contínuas causam em nós medo e insegurança quanto ao futuro. Até mesmo a nossa confiança no amor de Deus por nós sofre abalos. Mas eis que o Senhor nos diz: “Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, diz o teu misericordioso Senhor” (Is 54,10). Podemos passar por grandes incertezas e profundas crises, mas a misericórdia do Pai, a forma mais perfeita do Seu amor por nós, não se afastará de nós e haverá de nos sustentar até o fim. Assim podemos dizer como o salmista: “Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo! Transformastes o meu pranto em uma festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 30,4.12a.13b.).

O dia de ontem nos mergulhou na sombra escura da morte. Ela, a morte, se faz sentir em muitos momentos da nossa vida: na doença, na separação, no luto, nas más notícias, no fracasso, na frustração etc. Como nos ensina o apóstolo Paulo, há uma comunhão entre a morte de Jesus e as nossas experiências de morte. Isso significa que o nosso sofrer nunca é solitário, mas acompanhado pelo Cristo sofredor. Mas Cristo ressuscitou! Ele venceu a morte e destinou a todos nós a sermos ressuscitados e a vivermos com ele na glória do Pai! Aí está a razão da nossa esperança: “Se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). Por isso, podemos fazer nossas as palavras do salmista: “A mão direita do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” (Sl 118,16-17).

A liturgia da Palavra desta Vigília Pascal chega ao seu ponto mais alto com a proclamação do Evangelho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nele há uma mistura de tristeza, medo e alegria. As duas mulheres que vão ao túmulo representam a nossa tristeza por tudo o que já morreu em nossa história de vida. A elas e a nós são anunciadas, tanto pelo anjo quanto pelo próprio Cristo ressuscitado, as seguintes palavras: “Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). Nos tempos atuais, o medo se tornou nosso incômodo companheiro íntimo de todos os dias. Jesus veio nos ensinar a confiar no Pai, mas tanto os acontecimentos do dia a dia quanto diversas pregações ameaçadoras, que deformam o Pai num juiz severo e impiedoso, empurram a confiança para fora do nosso coração e o enchem de medo.

“Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). O medo nasce da percepção de que nós não podemos controlar determinadas situações. O Ressuscitado nos convida a abrir mão do controle, a sair das mãos do medo, que nos prendem a uma angústia diária, e a nos confiar às Suas mãos. Tudo aquilo que não controlamos, Ele controla. Tudo aquilo que não podemos superar e vencer, Ele supera e vence por nós. Eis porque o Ressuscitado nos convida à alegria nesta noite: “Alegrem-se!” (Mt 28,9). A ressurreição de Jesus não mudou nada no mundo, que continua ameaçador, mas muda a forma como aqueles que creem lidam com as contrariedades da vida: “Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,37). Eis, portanto, a razão da nossa alegria: a verdade da ressurreição de Cristo firma a nossa vida na sua promessa: “Eu vivo e vós vivereis” (Jo 14,19).

Feliz e Santa Pácoa a você e sua família!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

 

 

 


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