quarta-feira, 1 de abril de 2026

MESMO A SITUAÇÃO MAIS TRÁGICA PODE SE TORNAR LUGAR E CAUSA DE SALVAÇÃO

 Homilia de Sexta-feira Santa. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

 

A nossa experiência de cruz é o lugar onde Deus escolheu manifestar a força da Sua salvação, como diz o Pe. Amedeo Cencini: “Depois que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar e causa de salvação. Ou seja, se um crime horrendo foi o contexto histórico escolhido por Deus ou por meio do qual o Pai nos salvou, isso quer dizer que qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”.

Quando sofremos, costumamos maldizer a situação que nos faz sofrer. Maldizemos a doença, o conflito, a crise, a separação, a perda. Se pudéssemos, eliminaríamos da nossa vida aquele momento. Se pudéssemos, fugiríamos para outro lugar, mas o lugar da nossa dor é justamente o lugar da nossa salvação. O sofrimento pelo qual passamos está ali para nos ensinar algo importante: ou temos uma grande parcela de responsabilidade na dor que estamos experimentamos, ou aquela dor é o custo da nossa fidelidade a Deus e à nossa própria consciência.

“Qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”. Seu casamento, sua trabalho, sua família, sua rotina de vida, sua separação, sua perda, sua solidão, seu fracasso – cada uma dessas situações pode se tornar o lugar ideal para a sua salvação. Mas, atenção! Nenhum sofrimento salva por si mesmo: é a nossa postura diante dele que pode nos salvar ou nos arruinar ainda mais. É a consciência de que a vida ensina somente quem está disposto a aprender que nos torna seres humanos melhores, a partir do confronto com a dor que nos cabe enfrentar.   

O outro lado da moeda: o sofrimento não existe somente para ser acolhido e aceito; ele também precisa ser questionado. “O individualismo nega a responsabilidade social do sofrimento. Devem ser melhoradas não as condições sociais, mas sim as da alma. Analgésicos, prescritos em massa, ocultam relações sociais que levam à dor. Cada um tem de cuidar da própria felicidade. Ela se torna um assunto privado. Também o sofrimento é interpretado como resultado do próprio fracasso” (Byung-Chul Han, Sociedade paliativa – a dor hoje).

Inúmeras doenças são consequência das más condições de trabalho. Além disso, a indústria farmacêutica não existe para curar doenças, mas apenas para aliviar dores. Quanto mais pessoas curadas, menos lucro para os empresários da dor; quanto mais dor e sofrimento, maior o lucro deles. Quanto a nós, população, cada um vive sua vida e sofre suas dores convencido de que “cada um tem de cuidar da própria felicidade”, e quem não consegue se livrar do sofrimento se sente fracassado como pessoa. Ou seja, não há nada de errado com o mundo do trabalho, nem com a indústria da dor, mas com você, que não dá conta de ser feliz.

Há um sentido oculto no sofrimento? Segundo Thomas Merton, o sofrimento não possui, por si mesmo, qualquer força ou valor. Tudo depende do modo como o enfrentamos. Sem Deus, a dor é maldição: pode endurecer a alma e nos tornar amargos. Mas à luz de Deus compreendemos que o sofrimento nos oferece a ocasião de nos tornar melhores do que somos. A dor ganha valor quando nos ajuda a rever prioridades, retomar o que estava esquecido e abandonar o que nos prejudica, mas tratamos como algo precioso.  

Jesus morreu por ser verdadeiramente homem. Isso também significa que a morte nos humaniza. “Somos mais humanos quando morre nossa onipotência, quando se desfaz a arrogância com que acreditávamos dominar o mundo. Somos mais humanos quando perdemos a mania de grandeza, de ter controle sobre tudo, quando somos expostos ao nosso próprio desamparo e percebemos nossa própria fragilidade. Trazemos dentro de nós uma ferida que não fecha, uma fome que não sacia, uma sede que não passa” (Nilson Perissé). Tudo isso é a nossa abertura ao transcendente, a nossa destinação à vida eterna.  

Jesus abraçou a sua morte a partir da imagem de um grão de trigo: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Assim também podemos entender a nossa vida: tudo o que eu quero manter a todo custo (não morrer) se estraga e adoece (solidão); tudo o que eu abro mão e deixo ir (morrer) prepara a minha existência para algo muito maior (muito fruto). Em nosso deixar cair diariamente o grão de trigo que somos, rezemos: “Senhor, eu ponho em vós minha esperança. Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito. A vós, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu entrego em vossas mãos o meu destino” (Sl 31).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 



 

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