quinta-feira, 9 de abril de 2026

O ÁRDUO CAMINHO DA FÉ

 Homilia 2º dom Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,42-47; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31.

 

“Se eu não vir, não acreditarei” (Jo 20,25). Eis a declaração da falta de fé de Tomé no Cristo ressuscitado. Traduzindo-a para hoje: “Se eu não sentir, se eu não me emocionar, não acreditarei” (fé infantil, que se alimenta de emoção); “Se eu não vir milagres, não acreditarei” (fé que exige intervenções miraculosas de Deus); “Se Deus não remover a minha dor e não curar a minha doença, não acreditarei” (fé que condiciona Deus a agir exatamente do modo como esperamos), etc. Em outras palavras, a nossa falta de fé está sempre presente quando, para crer, colocamos uma condição: “Se”.

            Quando Deus chamou Abraão para caminhar com Ele e lhe fez a promessa de uma terra e de um filho, “Abraão obedeceu e partiu, sem saber para onde ia” (Hb 11,8). A fé pura e verdadeira está aqui: Deus me chama e eu decido caminhar com Ele “sem saber para onde” sua mão me conduzirá. Não cabe a mim escolher o caminho mais fácil ou o que julgo ser o melhor. Não exijo que Deus me diga primeiro “para onde” quer me conduzir. Eu simplesmente confio e me deixo conduzir por Ele, ou seja, eu O obedeço. “A fé nunca sabe para onde está sendo conduzida, mas ela confia e ama Aquele que a conduz” (Oswald Chambers).

Para a Sagrada Escritura, fé é sinônimo de obediência. Para muitos pregadores pentecostais a fé é uma estratégia para você conseguir que Deus lhe conceda “bênçãos”, sendo a maioria delas coisas materiais, ganhos mundanos. As igrejas ainda estão cheias, o que faz com que pensemos que a fé tem aumentado no mundo. No entanto, a “religião” que mais cresce no mundo é a dos que não têm mais fé. E por que perderam a fé? Porque as promessas de prosperidade que lhes foram feitas por pregadores mundanos nunca se realizaram e, infelizmente, em muitos casos, o abandono da igreja também se estendeu para o abandono de Deus.

Jesus disse à samaritana: “o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e verdade” (citação livre de Jo 4,23). O Pai procura filhos que tenham fé n’Ele e que O procurem por amor, e não por necessidades ou por desejos fantasiosos e egoístas. O Pai procura por homens e mulheres que confiem n’Ele o tempo todo, principalmente diante das contrariedades da vida. A fé que agrada o Pai é a fé que se abandona aos Seus cuidados e que deseja apenas uma coisa: obedecer, no sentido de fazer o tempo todo a Sua vontade, sabendo que essa vontade é unicamente o nosso bem.

A falta de fé de Tomé e a sua posterior confissão de fé nos ensinam que a fé é sempre um caminho a percorrer. Nós temos fé no Senhor ressuscitado que se definiu como “Caminho”, caminho apertado e exigente (cf. Mt 7,14). Ter fé é caminhar, é seguir o nosso Pastor “aonde quer que ele vá” (Ap 14,4), atravessando noites escuras, isto é, momentos de aridez espiritual, onde a nossa fé é provada, como disse o apóstolo Pedro: “Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira - mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo” (1Pd 1,6-7).

Da mesma forma como a força das raízes de uma árvore é provada pelo vento contrário, assim as contrariedades da nossa vida servem para verificar o quanto a nossa fé é profunda e as nossas raízes estão, de fato, agarradas em Deus. Mas a grande prova da nossa fé é a perda daquilo que mais amamos; é quando o Pai nos pede para devolver-lhe algo que nos foi confiado, mas que Lhe pertence: “Foi pela fé que Abraão, tendo sido provado, ofereceu Isaac, seu único filho” (Hb 11,17), e o ofereceu porque tinha fé no “Deus que também é capaz de ressuscitar os mortos. Por isso, recuperou seu filho, como um símbolo” (Hb 11,19). Isaac, salvo do sacrifício, prefigurou Jesus, o Filho de Deus, sacrificado na cruz, mas ressuscitado pelo Pai, razão da nossa fé.    

“Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Jo 20,28). Eis aqui a recuperação da fé de Tomé no Senhor Jesus ressuscitado. Ela aconteceu “oito dias depois” da primeira aparição do Ressuscitado aos seus discípulos. O evangelista João está nos dizendo que o domingo, dia do Senhor, é o dia ideal para o nosso encontro com o Ressuscitado, dia em que o Esposo visita a sua esposa, dia em que ele aquece o nosso coração com a sua Palavra e parte o Pão da Eucaristia, revelando a sua presença constante no meio de nós. Pensando exatamente em nós, o Ressuscitado afirmou: “Felizes os que creram sem terem visto” (Jo 20,28). Felizes os que não exigem sinais grandiosos para crer. Felizes os que suportam as noites escuras da fé e não soltam das minhas mãos.  

Palavra final: a fé sempre será um risco a correr. Se nós temos tudo garantido, não precisamos de fé. Ela nunca será certeza, mas sempre confiança. O Pai quer de nós uma única coisa: que confiemos n’Ele. Quanto à nossa fé, ela sempre será provada, para crescer, se purificar e se libertar de elementos estranhos, como a sensação, o sentir, as fortes emoções.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

Nenhum comentário:

Postar um comentário