quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

SEJAMOS SAL, PARA PRESERVAR A CARNE HUMANA DO APODRECIMENTO

Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 58,7-10; 1Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16.

 

            As imagens do sal e da luz, usadas por Jesus, nos falam da dimensão social da nossa fé. Assim como Jesus, a nossa presença neste mundo contém uma missão. Jesus com frequência dizia: “Eu vim para...”. Cada um de nós, seus discípulos, devemos ter essa consciência: “Eu vim a este mundo para...”. Da mesma forma como o sal existe para preservar os alimentos, sobretudo a carne, do apodrecimento, e dar sabor à comida; da mesma forma como a luz existe para iluminar os que estão num ambiente, assim o sentido da nossa vida reside numa tarefa que a própria vida nos pede para realizar, em favor de alguém ou de uma causa – o Reino de Deus.   

            “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perder a sua capacidade de salgar, não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (Mt 5,13). Sabemos que a principal função do sal, na época de Jesus, era preservar a carne de não estragar (apodrecer). Eis algumas coisas e atitudes que nos apodrecem: alimentos ultraprocessados, frutas e verduras com agrotóxicos, refrigerantes e bebidas alcoólicas, cigarro e outras drogas, excesso de visualização de telas, dormir tarde (celular), ambiente de trabalho nocivo, barulho, não praticar atividade física, falta de contato com a natureza etc.

            Eis, portanto, a dimensão social da nossa fé: qual é a carne que apodrece à nossa volta? Pessoas solitárias, idosos esquecidos, animais abandonados, jovens viciados, moradores de rua, crianças que vivem nas ruas...?

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Neste mundo imenso, com quase oito bilhões de habitantes, frequentemente nos sentimos ignorados e não necessários. Mas Jesus nos recorda da importância da nossa presença cristã no dia a dia das pessoas. O Evangelho que ele nos deixou não é um livro de autoajuda, mas um apelo constante a não nos fecharmos em nós mesmos, sendo indiferentes ao sofrimento das pessoas à nossa volta. É isso que o profeta Isaías nos diz: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne” (Is 58,7).     

             “Não desprezes a tua carne”. Todo ser humano é a nossa carne, necessitado como nós, frágil como nós, exposto às mesmas situações de apodrecimento que nós. Quando desprezamos uma pessoa ou nos tornamos indiferentes para com quem sofre, estamos nos desumanizando. Jesus Cristo “se fez carne” e veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Nossa comunhão com Ele passa não somente pela Palavra e pela Eucaristia, mas também por nossa compaixão para com toda carne ferida à nossa volta. Quando nos tornamos indiferentes a situações de sofrimento ou de injustiça à nossa volta, a luz que somos enfraquece e ficamos mais propensos a termos doenças: “Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa” (Is 58,8).

            A dimensão social da nossa fé é tão necessária, que o profeta Isaías vincula a nossa ajuda a quem sofre com o atendimento das nossas orações por Deus: “Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: ‘Eis-me aqui’” (Is 58,9). Deus não ouve a oração de quem não quer ouvir o grito de socorro de pessoas feridas. Se quisermos ter luz em nós mesmos, levemos a sério essa verdade: “Se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia” (Is 59,10).

            Jesus afirmou que somente quando somos humanos e solidários para com quem sofre é que Deus, o nosso Pai, é glorificado na terra: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Cristãos que vivem uma fé individualista e nada fazem para sanar as feridas sociais à sua volta, contribuem para que a humanidade perca a fé em Deus. Um cristão que, todos os dias, dobra seus joelhos para rezar, mas não se inclina e não se aproxima das pessoas e da própria Criação ferida à sua volta, desacredita a Pessoa de Deus e faz os ateus se firmarem mais ainda nas suas convicções.  

           

            Nossa oração:

 

            Deus de bondade e compaixão, o Senhor me chamou à existência para que eu seja a presença da Tua misericórdia junto a todo ser humano que está ferido e exposto a uma situação de apodrecimento. Fortalece o sal que sou, pela graça do Espírito Santo. Não posso viver minha fé de maneira individualista, mas em comunhão com todo ser humano, especialmente com aquele que a vida me chama a ajudar. Concede-me a Tua luz, para que eu seja guiado(a) pela Verdade e não me perca na desorientação atual do mundo. Não permita que eu me desumanize e me torne indiferente ao pedido de socorro das pessoas e da Criação. Que as mãos que eu elevo para orar e para receber o Corpo de Teu Filho Jesus Cristo trabalhem para curar as feridas sociais à minha volta. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

POBREZA E HUMILDADE: VALORES ESPIRITUAIS POUCO DESEJADOS

 Homilia do 4º dom. comum. Palavra de Deus: Sofonias 2,3; 3,12-13; 1Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12a.

 

            Muitas pessoas criticam aqueles que têm uma religião, dizendo: “Religião é coisa para gente fracassada”. De fato, quanto maior o nível intelectual e financeiro de algumas pessoas, menos elas buscam a Deus numa instituição religiosa. E nós, por que estamos vamos com frequência a uma igreja? “Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres” (1Cor 1,26). A grande maioria das pessoas que procura por uma igreja ou religião é movida por necessidades não somente espirituais, mas também temporais: saúde, proteção, consolo, amparo, restauração afetiva/financeira etc. A pergunta que fica é: se não fôssemos pessoas necessitadas, iríamos a uma igreja com frequência?

            Na verdade, todo ser humano é necessitado; toda pessoa, cedo ou tarde, experimenta sua insuficiência e sua necessidade de ser salva, em vários momentos da vida. Por isso, o profeta Sofonias nos convida à humildade e ao reconhecimento de que somos pobres e, portanto, necessitados: “Buscai o Senhor, humildes da terra; praticai a justiça, procurai a humildade” (Sf 2,3). Para a Bíblia, a pessoa humilde e pobre coloca diariamente sua esperança no Senhor e somente n’Ele. Ela não se ilude com os bens que porventura possa ter, nem com suas capacidades humanas, mas sabe reconhecer que, se lhe faltar a graça de Deus, ela nada pode.

            O mundo atual exalta o poder, a força, o sucesso e a vitória, mas o Deus em quem nós cremos escolheu se colocar junto das pessoas que não podem experimentar nada disso. Ele, na verdade, “faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos. O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz erguer-se o caído” (Sl 146,7-8). Essa preferência de Deus pelos que sofrem foi explicada pelo apóstolo Paulo dessa forma: “Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante” (1Cor 1,27-28).

            É aqui que nos damos conta do quanto os nossos valores estão invertidos. Vivemos correndo atrás de construir uma imagem nossa que seja forte, e não fraca; gastamos tempo, dinheiro e energia emocional para nos tornarmos importantes aos olhos dos outros, para não nos sentirmos desvalorizados, mas tudo isso nos afasta da nossa verdade: somos fracos, impotentes e necessitados; a nossa cura, a nossa salvação, não acontece quando vestimos uma armadura de ferro, mas quando nos despimos dela e nos permitimos ser humanos verdadeiramente.

            Ao vir ao mundo, Jesus se despojou da glória divina e assumiu a carne humana em toda a sua fragilidade (cf. Fl 2,6-8). Ao inaugurar o Sermão da Montanha, uma síntese do seu Evangelho, ele não só descreveu a si mesmo, como deixou claro como quer que seus discípulos sejam: pobres em espírito (colocam sua esperança unicamente em Deus); aflitos (sofrem com os que sofrem); mansos (se distanciam da violência); com fome e sede de justiça (trabalham por um mundo mais justo); misericordiosos (se compadecem das misérias dos outros); promovendo a paz (não se iludem com a força das armas); aceitando sofrer perseguição e humilhação por viverem de maneira honesta, justa, verdadeira, segundo o Evangelho de nosso Senhor. 

            Diante da Palavra ouvida, façamos nossa oração:

 

Senhor Jesus Cristo, teu Evangelho me convida a percorrer um caminho interior de busca pelo fundamental. Eu preciso de um fundamento para viver, e esse fundamento consiste em colocar minha esperança unicamente em Deus e viver com humildade no meu dia a dia, buscando a justiça e não o poder que engana, adoece e destrói valores fundamentais na minha vida. Ensina-me a amar a minha fraqueza, pois é a partir dela que a força do Pai age em mim. Liberta-me da busca enganadora por poder e importância neste mundo de valores invertidos. Forma em mim o coração de um(a) verdadeiro(a) discípulo(a), através do ensinamento diário do teu Evangelho, e guarda-me para o Reino dos Céus. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

E ENTÃO JESUS ME DISSE: "VEM, SEJA A MINHA LUZ!"

Homilia do 3º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 8,23b – 9,3; 1Coríntios 1,10-13.19; Mateus 4,12-23.

 

            Após João Batista ser silenciado por Herodes, Jesus inicia a sua missão de evangelizar, escolhendo, para tanto, uma região desprezível, chamada “Galileia dos pagãos!” (Mt 4,15). Na sua exortação apostólica sobre a santidade, o Papa Francisco afirmou que a existência de cada um de nós contém uma palavra única de Deus para a humanidade. O lugar onde vivemos também é a “Galileia dos pagãos”, ou seja, um local que necessita ouvir a Palavra que é Cristo, e que falará aos corações que necessitam de fé, de esperança e de sentido de vida.

            O evangelista Mateus entende que o início da missão de Jesus cumpre a profecia de Isaías: “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Aonde a nossa luz é necessária? Exatamente aonde há pessoas vivendo na escuridão e morando nas sombras da morte. Você é luz quando visita um idoso que vive na solidão em sua casa ou num asilo; quando visita uma pessoa enferma em sua casa ou no hospital. Você é luz quando leva a luz do Evangelho diário a um colega de trabalho; quando faz uma postagem que ajuda as pessoas a saírem das trevas da desorientação política e também religiosa.

A primeira pregação de Jesus foi: “Convertam-se, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Conversão significa mudar a maneira de pensar e de enxergar as coisas. Nós vivemos excessivamente presos ao que é terreno, esquecendo-nos do Reino dos Céus. Este Reino significa que o eterno é mais importante do que o transitório; o bem real é mais importante que o bem aparente; ser salvo é mais importante do que ser feliz momentaneamente.  

Jesus não realizou a sua missão sozinho, mas chamou discípulos. O Evangelho nos apresenta o chamado de quatro pescadores: Pedro, André, Tiago e João. Jesus chamou esses homens no local de trabalho deles: “Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mt 4,19). O mar simboliza as forças do mal, que buscam destruir as pessoas e tudo o que elas mais amam. Por que tantas vidas destruídas, tantos casamentos destruídos, tantas empresas destruídas, tantas crianças, adolescentes e jovens adoecidos e destruídos? Porque muitos cristãos desistiram de lançar suas redes e decidiram eles mesmos se afogar no mar da indiferença para com o mundo. Muitos não entenderam que a missão da Igreja não é condenar o mundo, mas salvá-lo.

Hoje é o Domingo da Palavra de Deus em nossa Igreja. O Papa Francisco instituiu esse dia para lembrar a centralidade da Palavra de Deus em nossas celebrações, centralidade que deveria estar presente em nossa vida, no dia a dia. Na celebração do domingo nós ouvimos a Palavra; na medida em que a interiorizamos, nos tornamos capazes de levar uma palavra de conforto à pessoa abatida (cf. Is 50,4), durante a semana.

Alguns questionamentos: Eu tenho consciência de que, onde eu vivo, estudo e trabalho, ali está a minha missão? Eu enxergo as pessoas que estão adoecendo nas trevas e nas sombras da morte? Eu procuro levar uma palavra de conforto a quem está abatido, desorientado ou desanimado? Eu creio no Reino de Deus? Falo dele para as pessoas? Quem visualiza minhas postagens nas redes sociais percebe que sou um(a) discípulo(a) de Jesus, ou uma pessoa que faz postagens na esperança de ter muitos seguidores? Eu aceito o chamado de Jesus para ajudá-Lo a resgatar pessoas do mar da destruição em que costumam mergulhar?   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

Oração do Domingo da Palavra de Deus:

 

Pai da Luz, nós vos louvamos e bendizemos por todos os sinais do vosso amor. Especialmente a cada domingo nos chamais a ouvir a Palavra que salva. Jesus Cristo, que é a vossa Palavra feita homem nos leve ao conhecimento do mistério escondido aos sábios e inteligentes e revelado aos pequeninos. Concedei-nos abrir o coração para compreender o sentido das Sagradas Escrituras. Fazei que nos tornemos testemunhas vivas do Evangelho. Que Maria, Mãe da Sabedoria, interceda por nós, ela que foi a primeira a acolher no seu seio o Verbo que se fez carne. Que o vosso Espírito Santo conceda a cada um de nós a graça de colaborar no anúncio da vossa Palavra, para glória do vosso nome e salvação da humanidade. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SEGUIR O CORDEIRO ONDE QUER QUE ELE VÁ

 Homilia do 2º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 49,3.5-6; 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34.

 

 “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).  Nós escutamos essas palavras em toda celebração eucarística, antes de recebermos a Comunhão. Após batizar Jesus (liturgia de domingo passado), João o apresenta ao mundo como “o Cordeiro de Deus”. Na história da salvação, a imagem do cordeiro aparece, pela primeira vez, no sacrifício de Isaac. Enquanto Abraão sobe a montanha com Isaac, este pergunta ao pai: “Meu pai, eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o sacrifício?”, ao que Abraão responde: “É Deus quem providenciará o cordeiro, meu filho”. De fato, em lugar de Isaac ser sacrificado, Deus providenciou um cordeiro: “Abraão ergueu os olhos e viu um cordeiro, preso pelos chifres num arbusto; Abraão foi pegar o cordeiro e o ofereceu em sacrifício em lugar de seu filho” (Gn 22,7.8.13).

            Jesus é o Cordeiro que o Pai permitiu que fosse sacrificado no altar da cruz para poupar todos nós, seus filhos e filhas, da condenação da morte, como afirma o apóstolo Paulo: “Quem não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós, como não nos haverá de nos agraciar em tudo junto com ele?” (Rm 8,32).

            Segundo o Evangelho de São João, Jesus foi entregue para ser crucificado no momento em que as famílias judaicas sacrificavam seus cordeiros para celebrarem a festa da páscoa (cf. Jo 19,14). Enquanto os cordeiros morriam sem saber o motivo, Jesus é o Cordeiro de Deus que, livre e conscientemente, escolhe dar a vida pela salvação dos filhos de Deus dispersos pelo mundo (cf. Jo 11,52). Como afirma o autor da carta aos Hebreus, “ele (Cristo) se manifestou para abolir o pecado por meio do seu próprio sacrifício” (Hb 9,26).     

            Jesus é o Cordeiro que “tira o pecado do mundo”. Mas em que sentido ele “tira o pecado”, se o vemos agindo em nós e no mundo à nossa volta? São Paulo afirma que a consequência do pecado é a morte (cf. Rm 6,23). Todo pecado que cometemos produz morte em nós mesmos e no ambiente à nossa volta. Mas “a morte foi absorvida na vitória” (1Cor 15,51) de Cristo na cruz. Ele nos libertou da condenação da morte, que o pecado nos impõe, mas não anulou a nossa liberdade de fazer escolhas e, portanto, de pecar.

            Sendo “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), Jesus nos apresenta o caminho da libertação do pecado: “Quem comete o pecado, é escravo... Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,35-36). A libertação do nosso pecado passa por uma escolha diária: viver como filhos no Filho e não aceitarmos viver como escravos do nosso egoísmo, que sempre busca o que convém aos seus desejos e não o que convém ao nosso verdadeiro bem. A cada dia nós somos chamados a nos considerar “mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus” (Rm 6,11).

            Ao enviar seus discípulos em missão, Jesus disse: “Eis que vos envio como cordeiros entre lobos” (Lc 10,3). Somos discípulos do Cordeiro de Deus. Não podemos nos tornar lobos com a desculpa de que isso é necessário, se quisermos sobreviver no meio dos lobos que nos cercam. Todos os dias nós devemos reafirmar a nossa identificação com o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, assumindo a atitude de verdadeiros servos d’Aquele que nos chamou desde o ventre materno (cf. Is 49,5), e respondendo como o salmista: “Sacrifício e oblação não quisestes, mas abristes, Senhor, meus ouvidos... E então eu vos disse: ‘Eis que venho!... Com prazer faço a vossa vontade’” (Sl 40,7.8.9)

            Se na Sagrada Escritura a imagem do cordeiro está ligada ao sacrifício, não existe maior sacrifício para nós do que fazer a vontade de Deus. Para tal, temos que sacrificar os desejos e caprichos do nosso egoísmo, buscando todos os dias não o que nos convém, mas o que convém ao Reino de Deus. Não nos esqueçamos, enfim, de que a nossa identidade de discípulos do Cordeiro é assim descrita no livro do Apocalipse: “Eles seguem o Cordeiro aonde quer que ele vá” (Ap 14,4). Não somos nós quem determinamos o caminho, esperando que o Cordeiro nos acompanhe, mas é Ele quem escolhe o caminho que somos chamados a trilhar, em nossa identificação como Seus verdadeiros discípulos.

 

Oração: Santíssimo Pai, o Senhor não poupou o Teu Filho do sacrifício da cruz, para salvar teus filhos dispersos. Eu creio que, junto com Ele, o Senhor me dará todas as graças de que necessito. Torna-me verdadeiro(a) discípulo(a) do Cordeiro! Liberta-me da dominação do pecado. Não quero viver como escravo, mas como filho(a). Ensina-me diariamente a morrer para o pecado e a viver para Ti, obedecendo à Tua vontade. Este é o único sacrifício que Te agrada. Que a cada dia eu me disponha a seguir os passos do Cordeiro aonde quer que ele vá, e não aonde eu gostaria que ele me levasse, pois ele é o único Caminho que me conduz ao Teu Reino. Amém.    

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"VOSSA FACE, SENHOR, EU A PROCURO!" (Sl 27,8)

 Missa da Epifania do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

           

No coração de todo ser humano, no mais íntimo de cada um de nós, existe uma súplica: “É tua face, Senhor, que eu procuro. Não escondas de mim a tua face” (Sl 27,8-9). A nossa busca por Deus é a nossa busca por sentido. Não nos basta apenas existir; nós precisamos de uma razão para existir, e somente Deus pode responder à nossa busca por sentido de vida.

            A procura dos magos do Oriente pelo menino Jesus nos fala do quão sofrida às vezes se torna a nossa busca por Deus, pois a Escritura diz: “Tu és o Deus escondido” (Is 45,15). O Deus a quem o nosso coração busca é “escondido” porque mora dentro de nós, e não fora, como afirmou Santo Agostinho: “Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava. Mas Tu me deixaste conhecer-Te. Eis que estavas dentro e eu fora! Estavas comigo e não eu Contigo”.

Apesar de não termos um contato direto e imediato com Deus, o autor da carta aos Hebreus afirma que “quem se aproxima de Deus (quem procura por Deus) deve crer que Ele existe e recompensa aqueles que o procuram” (Hb 11,6). Os magos deixam isso claro: existe uma recompensa para quem busca Deus, para quem se desacomoda e se põe a percorrer o sofrido caminho da fé, atravessando noites escuras, suportando perguntas angustiantes em sua alma, até que possa encontrar-se com Aquele que é a verdade. Sim; a busca por Deus é a busca pela verdade. Por isso, só pode encontrar Deus quem O procura de coração sincero (cf. Sl 145,18).

A alegria dos magos, ao encontrarem Jesus, nos recorda a maneira como Deus se expressa no Antigo Testamento: “Deixei-me encontrar por aqueles que não perguntavam por mim. Deixei-me encontrar por aqueles que não me procuravam. A uma nação que não invocava o meu nome eu disse: ‘Aqui estou, aqui estou!’” (Is 65,1). Essas palavras se referem aos povos pagãos, povos representados aqui no Evangelho pelos magos do Oriente. Quantas pessoas, que nós jamais imaginaríamos que estivessem abertas a Deus, foram alcançadas pela graça d’Ele e se abriram à Sua verdade?

Se hoje somos chamados a nos alegrar pela oferta da salvação de Deus em Seu Filho Jesus, acolhida com alegria pelos povos pagãos, precisamos também considerar o perigo do nosso fechamento a Deus: “Estendi as mãos todos os dias a um povo desobediente, que andava por caminho mau, seguindo seus próprios caprichos” (Is 65,2). Deus estende Suas mãos todos os dias, para salvar o ser humano, mas muitos não se dão ao trabalho de estender suas próprias mãos para segurar as mãos de Deus. Muitos até gostariam de ter um encontro íntimo e transformador com Deus, mas não se dispõem a sair do seu comodismo, da sua preguiça espiritual. Como uma geração como a atual, preguiçosa e acomodada, vai se dispor a buscar Deus? 

Foi graças à luz de uma estrela que os magos do Oriente puderam encontrar Jesus. A luz dessa estrela nos recorda a palavra de Jesus: “Vós sois a luz do mundo... Brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que elas vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14.16). Como cristãos, somos chamados a fazer brilhar a luz das nossas boas obras, isto é, do nosso esforço diário em nos comportar como Jesus se comportou, lembrando sempre que o brilho da nossa luz deve glorificar o Pai e não a nós mesmos.

Assim que encontraram o Menino Jesus, os magos se ajoelharam e o adoraram. Adorar significa respeitar Deus; colocar-nos humildemente diante da Sua presença misteriosa; não nos apropriarmos d’Ele como se fosse um objeto sagrado que pudéssemos usar a nosso favor. Adorar significa buscar a Deus por quem ele é, e não porque necessitamos d’Ele. Significa também jogar fora os nossos ídolos, nossas falsas seguranças, e reconhecer que a nossa cura, a nossa salvação não vem de nós mesmos, mas do Deus vivo e verdadeiro. Adorar significa ainda nos desarmar, substituindo o medo pela confiança, permitindo que Deus possa tomar posse de nós e nos inundar com a Sua graça, que tudo transforma.

Diante de Jesus, o verdadeiro presente de Deus para a humanidade, os magos “abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). Que o Pai nos ensine a enxergar em cada ser humano o ouro da sua dignidade e da sua unicidade, o incenso do sagrado que carrega em si como Seu filho amado e a mirra da sua fragilidade, espaço por meio do qual a força do Pai se manifesta como amor que redime, como bálsamo que alivia a dor e como convite ao amadurecimento e à superação dos seus obstáculos. 

 

Oração: Meu Deus, eu procuro a Tua face. Tu és o Deus escondido, o Deus que eu não posso manipular e usar segundo os meus caprichos. Quero respeitar o Teu mistério, a Tua transcendência, o Teu sagrado. Eu creio que o Senhor sempre se deixa encontrar por quem O procura de coração sincero, e que o Senhor nunca deixa sem resposta quem pergunta por Ti. Acolho a luz do Teu Filho! Ele é o presente que o Senhor oferece a toda a humanidade. Concede-me a graça de, ao longo deste novo ano, enxergar em cada ser humano o ouro da sua dignidade, o incenso do sagrado que carrega em si como Seu filho amado e a mirra da sua fragilidade. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

CONFIAR ÀS MÃOS DO PAI NOSSA BREVE EXISTÊNCIA NESTE MUNDO

 Missa Maria, Mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

 

Fim de 2025: mais um ano vivido, e também um ano a menos em nossa existência terrena. Nossos dias escorrem como água pelo vão dos nossos dedos: “Pode durar setenta anos nossa vida, os mais fortes talvez cheguem a oitenta; a maior parte é ilusão e sofrimento: passam depressa e também nós assim passamos” (Sl 90,10). Ter a consciência de que temos um ano a menos para viver, em nossa breve existência neste mundo, deveria nos fazer abandonar as coisas fúteis e inúteis, e direcionar nossas energias para aquilo que é verdadeiramente essencial. Muitos de nós já não podem se dar ao luxo de gastar tempo e energia com ilusões que levam a um constante sofrimento inútil.

Diante da constatação do quanto a nossa vida corre rápida e o quanto nós perdemos tempo com ilusões e sofrimentos desnecessários, o salmista pede a Deus:  “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria! Que a bondade do Senhor e nosso Deus repouse sobre nós e nos conduza! Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho, fazei dar frutos o labor de nossas mãos!” (Sl 90,12.16-17).

Ao encerrarmos o ano de 2025 algumas perguntas precisam ser respondidas: O que a vida tentou me ensinar neste ano, mas eu fiz de conta que não era comigo? Em quais momentos eu senti medo, raiva, tristeza, ou frustração, mas engoli e segui, como se nada tivesse acontecido? Que situações eu evitei enfrentar, acreditando que elas iriam se resolver sozinhas? Tudo aquilo de que fugimos em 2025 voltará a nos encontrar em 2026, em algum momento, porque, ou nós escolhemos ouvir por bem as perguntas que a vida nos coloca, ou teremos que ouvi-las por mal.

É possível que todos nós desejemos ou tenhamos nos proposto mudanças neste novo ano. Mas já fizemos isso muitas outras vezes, e pouca coisa mudou. O problema está na nossa vontade, que é fraca. Sem uma vontade séria e decidida da nossa parte, nada muda em nós, nem à nossa volta. Nossa vontade tem que ser treinada, disciplinada. Nenhum hábito muda sem ser exercitado ao longo de seis meses, no mínimo. E por falar em hábito, algo que todos nós precisamos nos propor é visualizar menos telas e ler livros. Eis alguns benefícios da leitura: 1. Ajuda a exercitar a imaginação e criatividade. 2. Amplia o vocabulário e melhora a escrita. 3. Contribui para a redução da ansiedade e do estresse. 4. Exercita a memória, aumenta o conhecimento e previne demência. 5. Promove o relaxamento e melhora a qualidade do sono.

Na época em que Jesus nasceu, apenas 10% da população sabia ler. Maria aprendeu a ler a vida por meio dos acontecimentos: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Guardar e meditar no coração significa escutar o que a vida quer nos ensinar; significa entender que os acontecimentos não são fruto do acaso, mas consequência das nossas atitudes ou da alta delas, e também intervenções de Deus, que deseja abrir nossa vida para novos caminhos. Contudo, nada pode ser guardado e meditado no coração quando nossos olhos vivem fixados nas telas.

            Hoje estamos invocando as bênçãos de Deus para o novo ano: “Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção. Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós!” (Sl 67,4.6). Contudo, não podemos esperar as bênçãos do céu para a nossa vida de cada dia transferindo para as mãos daqueles que nos governam tarefas que são nossa responsabilidade: “Abençoem... Abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, chorem com os que choram... A ninguém paguem o mal com o mal; seja a preocupação de vocês fazer o que é bom para todas as pessoas... Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal pelo bem” (Rm 12,14-15.17.21).

            Elevemos nossas mãos de filhos para segurar as mãos do Pai, permitindo que Ele nos conduza em cada dia do ano que está nascendo: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e ele agirá” (Sl 37,5). Muito mais do que as vozes dos nossos projetos, planos, do nosso medo ou das nossas preocupações, queremos nos orientar pela voz do Espírito Santo, que clama em nós: “Abá, ó Pai!” (Gl 4,6). Assim, façamos agora a nossa oração:

            Abbá, Papai! Desde criança eu aprendi que era conduzido(a) por Ti, nesse estranho caminho que é o meu. Jamais considerei a vida como um peso que eu tenho de levar sozinho(a), pois teu amor me sustenta e me ampara. Mas confesso que às vezes tenho medo, e esse medo me impede de fazer a travessia. Continuo a ficar do lado de cá, ao que já me é familiar, não avançando rumo ao desconhecido, quando somente ali poderia fazer a experiência de que tu me amparas.

Abbá, Papai! Sei que o que o Senhor espera de mim não é que eu faça grandes coisas por Ti, mas que eu me atreva a me entregar confiantemente em tuas mãos, crendo que a tua atitude para comigo é, radicalmente, positiva. E a firmeza que o Senhor me oferece é um dom que tu concedes gratuitamente a quem se atreve a confiar em ti em meio às tormentas da vida. Abençoa-me, Papai, com a verdade do teu amor, e guia meus passos neste novo ano que se inicia. Por Cristo, nosso Senhor. Amém!*

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

*Trechos de Dolores Aleixandre, Revela-me o teu nome.

 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

REZAR NOSSA REALIDADE DE FAMÍLIA DIANTE DO SENHOR JESUS, NOSSO MÉDICO E NOSSO REMÉDIO

 Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-21; Mateus 2,13-15.19-23.

 

Neste dia em que fazemos memória da Sagrada Família de Nazaré e em que oramos pela nossa, alguns aspectos da vida em família precisam ser meditados e colocados nas mãos do Senhor nosso Deus, sabendo que “se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalhamos seus construtores” (cf. Sl 126,1).

 

Família e violência – O Evangelho de hoje nos fala da violência cega e brutal de Herodes, que persegue o menino Jesus para matá-lo. As “conversas” que o Anjo do Senhor tem com José deixam claro que cabe a cada membro da família ouvir a voz de Deus em sua consciência e tomar a atitude diária de se afastar dos Herodes atuais. Herodes não é somente o traficante, o pedófilo, as mentiras das redes sociais, os diversos sites que corrompem crianças e adolescentes. Ele é também o pai que assassina sua mulher e seus filhos, assim como ele é o filho que assassina os pais por dinheiro (dependência química). Conselho bíblico: “Irai-vos, mas não pequeis. Não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4,26-27).  

 

Família e dinheiro – 79,5% das famílias brasileiras estão endividadas (outubro de 2025). Vivendo num país onde a pobreza não é apenas mantida, mas sempre mais aprofundada por políticos do Congresso Nacional, que legislam em favor das grandes empresas que despejam dinheiro em seus currais eleitorais, o empobrecimento não é simplesmente resultado do fracasso pessoal, mas politicamente necessário para manter os salários abusivos de políticos, juízes e militares. Contudo, há uma “tarefa de casa” que quase nunca é feita: planejar o gasto mensal. Além de o cartão de crédito ser o principal meio de endividamento, compra-se o que não é essencial e a emoção sempre cede diante dos apelos da propaganda de consumo. Conselho bíblico: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24).

 

Família e jogos de aposta (Bets) – Enquanto muitas famílias procuram se proteger de ladrões e bandidos, elas mesmas abrem a porta da casa para outro tipo de ladrão: as bets – casas de aposta eletrônica. “86% das pessoas que apostam têm dívida e 64% estão negativadas na Serasa, diz pesquisa” (Estadão, novembro de 2024). Esse endividamento em apostas eletrônicas tem motivadores irresistíveis: times de futebol, cujas camisetas sempre estampam nomes de bets: “Todos os clubes do Brasileirão 2025 são patrocinados por bets. 90% dos times da Série A deste ano têm patrocínio master de empresas de apostas esportivas” (Ge.Globo, 11/03/2025). Um patrocinador master é uma entidade ou empresa que se destaca como o principal apoiador financeiro de um evento, projeto ou organização. Ver no You Tube: “A Banca Sempre Ganha - Episódio 1 - Bets: O jogo sujo que ninguém comenta”. Conselho bíblico: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância” (Lc 12,15).

 

Família e sexualidade – O acesso fácil à pornografia e o resultado rápido de prazer que ela oferece tem fechado pessoas em si mesmas, de modo que as dificuldades na harmonia sexual não são mais enfrentadas. Enquanto na vida real dá trabalho estabelecer um diálogo e buscar caminhos para tratar desvios ou doenças que prejudicam a saúde sexual, muitas pessoas mergulham na pornografia quase que diariamente, regredindo nas suas relações de convivência e viciando seu cérebro em compensações imediatas. Enquanto o casal se angustia com a possibilidade de traição, os filhos passam a noite mergulhados na Internet, se afogando na desorientação sexual da pornografia. Desse modo, na casa nunca falta a satisfação do prazer, mas sempre falta a alegria e o sentido de estarem juntos. Conselho bíblico: “A lâmpada do corpo é o teu olho. Se teu olho estiver são, todo o teu corpo também ficará iluminado; mas se ele for mau, todo o teu corpo também ficará no escuro” (Lc 11,34).  

 

Família e Deus (espiritualidade) – O fechamento em nós mesmos não somente nos afasta uns dos outros, mas principalmente do “Outro”: Deus. A oração dá lugar à diversão (filmes, jogos). A missa é rapidamente substituída pelo passeio do final de semana. Saciar o estômago com comida e bebida é muito mais prazeroso do que receber um “alimento tão mesquinho” (cf. Nm 21,5), como a Eucaristia. Conselho bíblico: “Creia no Senhor Jesus e serão salvos você e sua família” (At 16,31). A cura e a restauração da nossa família passam pela relação de cada um de nós com a pessoa de Jesus Cristo, nosso médico e nosso remédio, ele que nos garantiu: “Sem mim, vocês nada podem fazer” (Jo 15,5) e nos fez este apelo: “Permaneçam em mim. Permaneçam no meu amor” (Jo 15,7.9).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi