quinta-feira, 7 de maio de 2026

A PROMESSA DE OUTRO DEFENSOR

 Homilia 6º domingo da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 8,5-8.14-17; 1Pedro 3,15-18; João 14,15-21.

 

                Jesus continua o seu discurso de despedida, iniciado do 5º domingo da Páscoa (cf. Jo 14,1-12). Hoje ele nos recorda que o vínculo que nos manterá unidos a ele é a decisão de amar: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Aquele que nos amou até o fim deseja ser amado por nós, e não temido ou obedecido fanaticamente. Só o relacionamento atravessado pelo amor permanece e dá sentido à vida. Se a maldade é cada vez mais crescente no mundo em que vivemos, Jesus nos convida a não desistir de amar; pelo contrário, precisamos tomar diariamente a firme decisão de amar como ele amou.

             “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama” (Jo 14,21). Como afirmou Nilson Perissé, “observar seus mandamentos implica acompanhá-lo pelas estradas do Evangelho, perceber como reage diante da dor, da injustiça, da traição, do sofrimento e da fragilidade humana. É permitir que sua forma de amar lentamente modele também a nossa”.

            “Quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Sempre que decidimos amar nos tornamos espaço de presença: o Pai e o Filho passam a morar dentro de nós. Isso significa que a nossa vida deixa de ser território neutro. Nossos gestos, nossas escolhas, nossas palavras passam a ser, de algum modo, expressão do Pai e do Filho que vivem em nós. Em outras palavras, se os pagãos diziam, a respeito dos primeiros cristãos: “Vejam como eles se amam!”, num mundo paganizado como o nosso, precisamos nos perguntar se as pessoas enxergam amor não só entre nós, mas também em nossa forma de tratar aqueles que o mundo não ama: os idosos, as pessoas com deficiência, os pobres, os feridos pela violência e pela desigualdade social.  

Voltemos às palavras de Jesus: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,15-17). Agora Jesus fala claramente do envio do Espírito Santo, chamado por ele de “Defensor”. Enquanto estava no mundo, Jesus era o Defensor dos discípulos, mas agora ele deve voltar para o Pai e ser diante d’Ele o nosso intercessor.

Em que sentido o Espírito Santo é o nosso Defensor? Ele está junto a nós para firmar os nossos passos na missão que somos, exatamente como fez com Jesus: “Ele, porém, passando pelo meio deles, prosseguia o seu caminho” (Lc 4,30). Ele nos dá a firme convicção de não retrocedermos diante dos obstáculos e dificuldades, como também fez com Jesus: “Quando chegaram os dias da sua subida, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51). Portanto, o Espírito Santo não apenas nos defende do espírito do mal, como nos defende também da covardia, do medo e do “corpo mole” que sempre sabotam o nosso crescimento e a nossa constância no seguimento de Jesus.  

Enfim, Jesus esclarece que esse “outro Defensor” é “o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17). O mundo, aqui, não é a humanidade, mas toda pessoa que escolheu viver na mentira e não aceita a verdade do Evangelho. Como também afirma o livro da Sabedoria, “o Espírito Santo, o educador, foge da falsidade e se afasta de uma pessoa pratica a injustiça” (citação livre de Sb 1,5). Somente a pessoa que busca a verdade e se deixa educar, corrigir e guiar por ela, pode acolher o Espírito da Verdade.

Quando permanecemos no amor Àquele que é a Verdade, Jesus Cristo, o Espírito da Verdade não só “permanece junto” de nós, mas fica “dentro de nós”. Neste dia das Mães suplicamos que o Espírito Santo venha sobre cada uma delas e as cubra com sua sombra (cf. Lc 1,35).

Oremos: “Aqui estamos, Espírito Santo. Aqui estamos em sua presença. Venha e fique conosco. Infunda-se no mais íntimo do nosso coração. Ensine-nos em que temos de nos ocupar, para onde temos de dirigir nossos esforços. Seja somente você quem inspire e leve a feliz termo nossas decisões. Não permita que sejamos perturbadores da justiça. Que a ignorância não nos arraste para o mal, nem nos corrompa o desejo pelo lucro. Sejamos nós um em você e nada nos separe da verdade” (Santo Isidoro).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 30 de abril de 2026

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

 Homilia do 5º dom. Páscoa. Atos dos Apóstolos 6,1-7; 1Pedro 2,4-9; João 14,1-12.


“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Começamos hoje a ouvir o discurso de despedida de Jesus. Ainda que tenha ressuscitado para ficar conosco (cf. Lc 24,29), Jesus deve voltar ao Pai, para nos enviar o Espírito Santo. Por sua vez, o Espírito Santo será Jesus ressuscitado não somente junto a nós, mas em nós!

“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Jesus descreve o reino de Deus como uma casa com muitas moradas. Essas muitas moradas são a expressão da vontade do Pai, que quer que todos sejam salvos. O fim da nossa peregrinação é a casa do Pai, como Jesus afirma: “Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,2-3). Aqui, o medo da morte dá lugar à plena confiança em Jesus: na morte, ele vem buscar cada um dos seus discípulos, para leva-los junto com Ele, para a casa do Pai.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Jesus nos torna conscientes de que a salvação não é um privilégio para poucos, mas uma graça oferecida a todos. Nenhum pregador religioso tem o direito de se pôr no lugar do Pai e decidir por ele mesmo quem entra e quem não entra no Céu. Nenhum líder religioso pode ter a pretensão de diminuir o número de moradas na casa do Pai, só para caber nessa Casa quem ele julga (pelas aparências) ser “de Deus”.    

Antes de voltar para o Pai, Jesus nos ensina qual o caminho que conduz à plena comunhão com o Pai, em sua Casa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ter fé em Jesus e no Pai significa percorrer um caminho. Esse caminho nem sempre é feito de facilidades; muito pelo contrário. Às vezes, ele nos oferece respostas; outras vezes, nos faz perguntas. As dificuldades desse caminho estão ali para verificar o quanto levamos a sério o nosso seguimento de Jesus e o nosso desejo de um dia chegar à casa do Pai.

O Caminho que nos conduz ao Pai é a Verdade. A grande maioria das pessoas passa a vida fugindo de si mesma, evitando confrontar-se com uma verdade a princípio dolorosa, mas que tem o poder de curar as feridas abertas pelo engano e pela mentira. Por que a imensa quantidade de igrejas e religiões não consegue tornar o mundo melhor? Porque a maioria das pessoas que as frequentam não está buscando o “Deus da Verdade” (Is 65,16), mas bênçãos e milagres para solucionar seus problemas terrenos. Hoje, sobretudo, a procura pela Verdade que é Deus foi substituída pela busca pela emoção. Por isso, o esforço feito em participar de um show católico não é visto no participar da missa na própria comunidade.

O Caminho, percorrido na Verdade, nos conduz à Vida. Jesus já havia dito que ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). O problema é que muitos não querem viver plenamente, mas apenas sobreviver. Não queremos enfrentar um tratamento sério e doloroso para curar nossas feridas mais profundas; queremos apenas analgésicos e vestes bonitas que as mascarem. Para termos Vida em abundância, precisamos renunciar às compensações temporárias dos nossos pecados, os quais nos fazem experimentar vários tipos de morte ao longo da nossa existência.

Em outras palavras, se Jesus é o Caminho, não gastemos tempo, energia e recursos percorrendo atalhos mais curtos e aparentemente mais vantajosos, que só nos distanciam de nós mesmos e de Deus. Se Jesus é a Verdade, tenhamos a coragem de reconhecer aquilo que precisa ser reconhecido em nós, na relação com as pessoas e com o mundo, a fim de tomarmos a firme decisão de romper com todo tipo de engano e mentira. Se Jesus é a Vida, aprendamos a nos considerar mortos para toda oferta de vida artificial, superficial, escrava de sensações passageiras que aumentam o vazio que nos habita.       

Rezemos a partir de uma antiga canção católica: “Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, o pão da alegria descido do céu! Nós somos caminheiros que marcham para o céu. Jesus é o caminho que nos conduz a Deus”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A ALMA DA OVELHA SÓ ENCONTRA DIREÇÃO OUVINDO A VOZ DO SEU PASTOR

 Homilia 4º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41, 1Pedro 2,20b-25; João 10,1-10.

 

            Neste domingo do bom Pastor, Jesus se define como “a porta”. Primeiramente, ele afirma ser a porta para aqueles que têm a missão de cuidar dos outros: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (Jo 10,1-2). “Entrar pela porta”, neste primeiro caso, significa configurar-se a Jesus, tê-lo como único modelo de cuidador, amando como ele, até o fim, dedicando a existência ao bem das ovelhas, como ele fez.

Mas aqui não podemos nos esquecer de qual porta é Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição!” (Mt 7,13). Todo cuidador que se espelha em Jesus deve se lembrar de que a porta das ovelhas é o próprio corpo do pastor. Durante a noite, ele dorme ali, na porta do redil, porque, se algum animal quiser se aproximar para ferir ou matar uma ovelha, terá primeiro que enfrentar o pastor. Portanto, todo cuidador que tem Jesus como modelo de cuidado sabe que ele mesmo é a proteção do seu rebanho, e que o espírito do mal tem como principal objetivo ferir o pastor, para, depois, apoderar-se das ovelhas do rebanho.

Vejamos agora o segundo sentido da porta: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,7.9). Entrar pela porta que é Jesus é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. A vida nos apresenta inúmeras portas. Nem todas nos dão acesso ao que é bom. Nem todas nos conduzem à verdadeira liberdade. Nem todas nos ajudam a encontrar “pastagem”, isto é, meios que sustentam a nossa vida física, emocional e espiritual. Somente Jesus nos faz “entrar” em comunhão com o Pai, com o Deus a quem a nossa alma anseia. Somente Jesus nos faz “sair” de uma situação de escravidão que nos adoece, ou da prisão em que nós mesmos nos colocamos, por culpa ou por desistência de nós mesmos. Somente Jesus nos faz “encontrar pastagem”, porque sua Palavra é “espírito e vida” (Jo 6,63), Palavra que nos faz viver a partir de dentro.

Ao longo da vida, nós escolhemos entrar por muitas portas. Por que será que muitas dessas portas nos conduziram a situações de destruição? Porque nós nos iludimos com a beleza e a largura da porta. A escolha de uma porta implica a renúncia a outras portas. Quantas portas foram deixadas para trás, porque eram estreitas e feias? E, no entanto, elas nos davam a possibilidade de uma vida mais significativa. Tomemos cuidado com o medo: ele nos impede de abrirmos muitas portas, e sem abri-las, nós continuamos a viver presos numa rotina que nos sufoca e nos desencanta. Qual porta a vida está lhe pedindo para abrir hoje?

Neste domingo do bom Pastor, façamos nossa a oração do salmista: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176). As inúmeras vozes dos inúmeros influenciadores digitais falam conosco todos os dias. Além disso, existe a voz da nossa cobrança interior, a voz do mercado, sempre insaciável em sua fome de lucro, a voz desorientação e dos contra valores, que ecoa o tempo todo nas redes sociais, a voz das nossas fantasias e a voz dos nossos medos. Tudo isso nos confunde e algumas vezes nos desvia de nós mesmos e de Deus. Precisamos diariamente silenciar, não para ouvir o nada, mas para ouvir a voz do nosso único Pastor: “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3).

“Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3). Em meio à grande massificação em que vivemos, Jesus nos chama pelo nome; ele nos identifica e sabe que somos únicos. Sua voz nos retira do barulho que adoece e confunde. Nela encontramos direção. A voz do nosso bom Pastor nos “conduz para fora”, isto é, para fora do quarto escuro do nosso medo, para fora da nossa tristeza e da nossa falta de sentido, para fora da prisão do vício e do pecado, para fora da mentira e do erro. Só é possível ouvir essa voz quando decidimos silenciar, por fora e por dentro. Deixemo-nos ser encontrados por Aquele que nos procura. Não continuemos a nos desviar da porta estreita por medo ou por acomodação. Tenhamos a atitude diária de nos deixar cuidar pelo grande Cuidador, nosso Pastor Jesus Cristo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi          

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O RESSUSCITADO NOS FAZ VER (INTERPRETAR) OS ACONTECIMENTOS RUINS DE OUTRA FORMA

 Homilia do 3º. Dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14.22-33; 1Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35.

 

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém!” (Lc 24,13). Geograficamente, existem quatro lugares possíveis onde seria Emaús, mas o caminho que nos leva até lá é muito conhecido! É o caminho da desistência, do desencanto; um caminho que nós trilhamos com muita frequência, sempre que perdemos a nossa esperança. É o caminho da decepção consigo mesmo, ou com os outros, ou com a Igreja, ou com a vida, ou com o próprio Deus.

“Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24,14-16). “Onde está o Ressuscitado em minha vida?”, talvez você se pergunte. Ele está caminhando ao seu lado. Ele escuta a sua dor e as suas perguntas. Ele respeita o tempo que você precisa para digerir as coisas. Ele quer que você desabafe e fale tudo o que está engasgado na sua garganta. Ele o(a) incentiva a dar nome ao que você está sentindo, a tentar descrever com palavras a sua falta de esperança: “Nós esperávamos” (Lc 24,21).

Embora o Ressuscitado pise no mesmo chão que nós e comungue do nosso desencanto, da nossa perda de sentido, nós somos incapazes de reconhecê-lo, e o motivo é um só: nossos olhos estão presos à nossa dor, impedidos de olhar para além da nossa tristeza. Essa incapacidade de ver o Ressuscitado junto a nós é resultado da forma como interpretamos as coisas ruins que nos acontecem. Somente uma coisa pode abrir os nossos olhos: a Sagrada Escritura! Ela nos revela que a nossa existência não está nas mãos do acaso, mas inserida num propósito de Deus. Precisamos estar atentos a isso: o que mais nos faz sofrer não são os acontecimentos ruins, mas a forma como os interpretamos.

“Então Jesus lhes disse: ‘Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,25-27). Tanto a existência terrena de Jesus quanto a nossa está inserida num “deve”, num plano divino onde todos os acontecimentos que nos atingem têm uma razão de ser. Isso significa que cada dor que o Pai permite que atravesse o nosso caminho tem um propósito, e a atitude mais importante não é desistir da nossa existência, mas manter o foco no nosso “deve”: “Mesmo não compreendendo a razão da minha dor, eu devo me manter fiel à missão que a vida me confiou”.

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles” (Lc 24,29). Eis o pedido fundamental, em nosso momento de perda de esperança: “Fica comigo, Senhor Jesus!”. Fica comigo até que eu aprenda a enxergar a vida para além da minha dor! Fica comigo e me sustente na fidelidade diária ao dever que o Pai me confiou! “Jesus entrou para ficar com eles”, uma outra forma de o evangelista Lucas afirmar: “Jesus ressuscitou para ficar conosco!”. E “quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles” (Lc 24,30-31).

            “Ao partir o pão”. “Partir o pão” é o primeiro nome que a Eucaristia ganhará nas primeiras comunidades cristãs. Comentando este evangelho, o Missal Dominical afirma: “O mundo reconhece os cristãos quando eles sabem ‘partir o pão’. Partilhar o pão eucarístico implica em partilhar o pão social; um compromisso de justiça, de solidariedade, de defesa daqueles cujo pão é roubado pelas injustiças dos homens e dos sistemas sociais errados. O nosso ‘partir o pão’ não pode nos alienar da realidade” (Missal Dominical, p.269).

“Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24,33). O caminho do abandono transforma-se agora em caminho da retomada do sentido. O Ressuscitado nos encoraja a voltar para a missão, para o nosso dever, enxergando os acontecimentos ruins de uma outra forma e compreendendo que a nossa vida não está nas mãos do acaso, nem do poder do mal, mas nas mãos do Pai, que dispõe todas as coisas segundo o Seu desígnio de salvação para conosco.  

Nossa oração: https://www.youtube.com/watch?v=nk1lxT4PVTo

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O ÁRDUO CAMINHO DA FÉ

 Homilia 2º dom Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,42-47; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31.

 

“Se eu não vir, não acreditarei” (Jo 20,25). Eis a declaração da falta de fé de Tomé no Cristo ressuscitado. Traduzindo-a para hoje: “Se eu não sentir, se eu não me emocionar, não acreditarei” (fé infantil, que se alimenta de emoção); “Se eu não vir milagres, não acreditarei” (fé que exige intervenções miraculosas de Deus); “Se Deus não remover a minha dor e não curar a minha doença, não acreditarei” (fé que condiciona Deus a agir exatamente do modo como esperamos), etc. Em outras palavras, a nossa falta de fé está sempre presente quando, para crer, colocamos uma condição: “Se”.

            Quando Deus chamou Abraão para caminhar com Ele e lhe fez a promessa de uma terra e de um filho, “Abraão obedeceu e partiu, sem saber para onde ia” (Hb 11,8). A fé pura e verdadeira está aqui: Deus me chama e eu decido caminhar com Ele “sem saber para onde” sua mão me conduzirá. Não cabe a mim escolher o caminho mais fácil ou o que julgo ser o melhor. Não exijo que Deus me diga primeiro “para onde” quer me conduzir. Eu simplesmente confio e me deixo conduzir por Ele, ou seja, eu O obedeço. “A fé nunca sabe para onde está sendo conduzida, mas ela confia e ama Aquele que a conduz” (Oswald Chambers).

Para a Sagrada Escritura, fé é sinônimo de obediência. Para muitos pregadores pentecostais a fé é uma estratégia para você conseguir que Deus lhe conceda “bênçãos”, sendo a maioria delas coisas materiais, ganhos mundanos. As igrejas ainda estão cheias, o que faz com que pensemos que a fé tem aumentado no mundo. No entanto, a “religião” que mais cresce no mundo é a dos que não têm mais fé. E por que perderam a fé? Porque as promessas de prosperidade que lhes foram feitas por pregadores mundanos nunca se realizaram e, infelizmente, em muitos casos, o abandono da igreja também se estendeu para o abandono de Deus.

Jesus disse à samaritana: “o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e verdade” (citação livre de Jo 4,23). O Pai procura filhos que tenham fé n’Ele e que O procurem por amor, e não por necessidades ou por desejos fantasiosos e egoístas. O Pai procura por homens e mulheres que confiem n’Ele o tempo todo, principalmente diante das contrariedades da vida. A fé que agrada o Pai é a fé que se abandona aos Seus cuidados e que deseja apenas uma coisa: obedecer, no sentido de fazer o tempo todo a Sua vontade, sabendo que essa vontade é unicamente o nosso bem.

A falta de fé de Tomé e a sua posterior confissão de fé nos ensinam que a fé é sempre um caminho a percorrer. Nós temos fé no Senhor ressuscitado que se definiu como “Caminho”, caminho apertado e exigente (cf. Mt 7,14). Ter fé é caminhar, é seguir o nosso Pastor “aonde quer que ele vá” (Ap 14,4), atravessando noites escuras, isto é, momentos de aridez espiritual, onde a nossa fé é provada, como disse o apóstolo Pedro: “Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira - mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo” (1Pd 1,6-7).

Da mesma forma como a força das raízes de uma árvore é provada pelo vento contrário, assim as contrariedades da nossa vida servem para verificar o quanto a nossa fé é profunda e as nossas raízes estão, de fato, agarradas em Deus. Mas a grande prova da nossa fé é a perda daquilo que mais amamos; é quando o Pai nos pede para devolver-lhe algo que nos foi confiado, mas que Lhe pertence: “Foi pela fé que Abraão, tendo sido provado, ofereceu Isaac, seu único filho” (Hb 11,17), e o ofereceu porque tinha fé no “Deus que também é capaz de ressuscitar os mortos. Por isso, recuperou seu filho, como um símbolo” (Hb 11,19). Isaac, salvo do sacrifício, prefigurou Jesus, o Filho de Deus, sacrificado na cruz, mas ressuscitado pelo Pai, razão da nossa fé.    

“Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Jo 20,28). Eis aqui a recuperação da fé de Tomé no Senhor Jesus ressuscitado. Ela aconteceu “oito dias depois” da primeira aparição do Ressuscitado aos seus discípulos. O evangelista João está nos dizendo que o domingo, dia do Senhor, é o dia ideal para o nosso encontro com o Ressuscitado, dia em que o Esposo visita a sua esposa, dia em que ele aquece o nosso coração com a sua Palavra e parte o Pão da Eucaristia, revelando a sua presença constante no meio de nós. Pensando exatamente em nós, o Ressuscitado afirmou: “Felizes os que creram sem terem visto” (Jo 20,28). Felizes os que não exigem sinais grandiosos para crer. Felizes os que suportam as noites escuras da fé e não soltam das minhas mãos.  

Palavra final: a fé sempre será um risco a correr. Se nós temos tudo garantido, não precisamos de fé. Ela nunca será certeza, mas sempre confiança. O Pai quer de nós uma única coisa: que confiemos n’Ele. Quanto à nossa fé, ela sempre será provada, para crescer, se purificar e se libertar de elementos estranhos, como a sensação, o sentir, as fortes emoções.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 4 de abril de 2026

“DEUS, QUE RESSUSCITOU O SENHOR, TAMBÉM NOS RESSUSCITARÁ PELO SEU PODER" (1Cor 6,14).

 Homilia do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9

 

            O Evangelho do domingo de Páscoa nos apresenta três discípulos de Jesus diante do seu túmulo vazio: Maria Madalena, Pedro e o discípulo amado. Os três estavam machucados pela morte de Jesus na cruz. Nenhum deles esperava por sua ressurreição. Maria Madalena, ao encontrar o túmulo vazio, não pensa na ressurreição, mas acredita que o corpo de Jesus foi roubado. Assim como aqueles três discípulos, nossos olhos e nossos pensamentos estão presos na imagem daquilo que morre a cada dia em nós e no mundo, o que dificulta que enxerguemos sinais de ressurreição.

O discípulo amado “viu e acreditou” (Jo 20,8). Ele não viu Jesus, mas enxergou os sinais da sua ressurreição dentro do túmulo. Talvez, a nossa maior dificuldade em acreditar na ressurreição seja o fato de que continuamos a ver a vida ser vencida todos os dias pela morte. Mas crer na ressurreição não significa ter a garantia de escapar da morte. Nós só poderemos experimentar a alegria da ressurreição depois de experimentarmos a dor da morte! A fé na ressurreição não anula a morte, mas nos desafia a olhar para além dela, pois o Ressuscitado nos diz: “Não tenha medo! Eu sou o Vivente, estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17-18).  

Se cremos que o Senhor Jesus ressuscitou, devemos levar uma vida de pessoas ressuscitadas, sabendo que a nossa ressurreição “está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,3). Assim como a vida que está escondida dentro da semente só desabrocha quando ela morre, ou seja, quando é enterrada, assim também a nossa ressurreição só se dará a partir da nossa própria morte. Portanto, certa e digna de fé é esta Palavra: “Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14). Assim como o Senhor Jesus, todos nós estamos destinados à ressurreição: “Semeado mortal, o corpo ressuscita imortal; semeado desprezível, ressuscita cheio de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,43-44).         

“Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã”. Porque Cristo vive, depois de ter enfrentado a morte de cruz, eu posso lidar a minha cruz sustentado pela força da esperança. Porque Cristo vive, eu posso seguir pela vida sabendo que nada poderá me separar do amor de Deus, manifestado na pessoa de seu Filho Jesus (cf. Rm 8,37-39). Porque Cristo vive, eu posso suportar minhas provações crendo que Deus tem o poder de transformar tudo aquilo que eu entrego em Suas mãos (cf. Hb 11,17-18). Porque Cristo vive, eu confio ao Pai a minha necessidade diária de ressurreição, sabendo que a Páscoa não é obra minha, mas obra do Pai em mim. De fato, a fé na ressurreição nunca é a fé naquilo que eu posso fazer, mas sempre é a fé naquilo que o Pai pode fazer em mim e na vida daqueles por quem eu oro.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"EU VIVO E VÓS VIVEREIS!" (Jo 14,19)

Homilia da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,26-31; Êxodo 14,15 – 15,1; Is 54,5-14; Romanos 6,3-11; Mateus 28,1-10.

 

As leituras bíblicas desta Vigília fazem memória desde a Criação até a Ressurreição. “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia” (Gn 1,26.31). Todo o processo de evolução da Terra e do ser humano tem Deus como princípio. Ao criar o ser humano, Deus lhe deu a sagrada liberdade de fazer escolhas. O ser humano, por sua vez, usando essa liberdade de maneira egoísta, pecou, ferindo a si mesmo e à criação. Abrindo mão da sua liberdade, o homem se tornou escravo das suas paixões desordenadas e de sistemas sociais injustos. Essa escravidão está retratada no livro do Êxodo. Mas Deus envia Moisés para libertar os hebreus do Egito e conduzi-lo à Terra Prometida.

Nesta noite, fazemos memória da miraculosa saída dos hebreus do Egito, da passagem da tristeza da escravidão para a alegria da libertação. Assim como aqueles hebreus, todos nós estamos presos a algum tipo de Egito. Podemos estar presos a um vício, a um pecado, a uma pessoa que nos adoece e nos faz mal, a uma dívida financeira, a uma culpa, a uma mágoa, a uma tristeza, a um luto, a uma injustiça social... Deus nos encoraja a nos levantar e a sair dessa situação, confiando que Ele abrirá o caminho e nos fará sair. Ele é o nosso Libertador, cuja força do Seu braço abre o Mar Vermelho dos obstáculos e das dificuldades, e nos faz passar, nos faz fazer Páscoa. A Ele louvamos, dizendo: “O Senhor é minha força, é a razão do meu cantar, pois foi ele neste dia para mim libertação!” (Ex 15,2). 

Apesar de sermos homens e mulheres libertos, é muito comum nos sentirmos às vezes abandonados e desorientados. As mudanças cada vez mais rápidas e contínuas causam em nós medo e insegurança quanto ao futuro. Até mesmo a nossa confiança no amor de Deus por nós sofre abalos. Mas eis que o Senhor nos diz: “Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, diz o teu misericordioso Senhor” (Is 54,10). Podemos passar por grandes incertezas e profundas crises, mas a misericórdia do Pai, a forma mais perfeita do Seu amor por nós, não se afastará de nós e haverá de nos sustentar até o fim. Assim podemos dizer como o salmista: “Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo! Transformastes o meu pranto em uma festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 30,4.12a.13b.).

O dia de ontem nos mergulhou na sombra escura da morte. Ela, a morte, se faz sentir em muitos momentos da nossa vida: na doença, na separação, no luto, nas más notícias, no fracasso, na frustração etc. Como nos ensina o apóstolo Paulo, há uma comunhão entre a morte de Jesus e as nossas experiências de morte. Isso significa que o nosso sofrer nunca é solitário, mas acompanhado pelo Cristo sofredor. Mas Cristo ressuscitou! Ele venceu a morte e destinou a todos nós a sermos ressuscitados e a vivermos com ele na glória do Pai! Aí está a razão da nossa esperança: “Se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). Por isso, podemos fazer nossas as palavras do salmista: “A mão direita do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” (Sl 118,16-17).

A liturgia da Palavra desta Vigília Pascal chega ao seu ponto mais alto com a proclamação do Evangelho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nele há uma mistura de tristeza, medo e alegria. As duas mulheres que vão ao túmulo representam a nossa tristeza por tudo o que já morreu em nossa história de vida. A elas e a nós são anunciadas, tanto pelo anjo quanto pelo próprio Cristo ressuscitado, as seguintes palavras: “Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). Nos tempos atuais, o medo se tornou nosso incômodo companheiro íntimo de todos os dias. Jesus veio nos ensinar a confiar no Pai, mas tanto os acontecimentos do dia a dia quanto diversas pregações ameaçadoras, que deformam o Pai num juiz severo e impiedoso, empurram a confiança para fora do nosso coração e o enchem de medo.

“Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). O medo nasce da percepção de que nós não podemos controlar determinadas situações. O Ressuscitado nos convida a abrir mão do controle, a sair das mãos do medo, que nos prendem a uma angústia diária, e a nos confiar às Suas mãos. Tudo aquilo que não controlamos, Ele controla. Tudo aquilo que não podemos superar e vencer, Ele supera e vence por nós. Eis porque o Ressuscitado nos convida à alegria nesta noite: “Alegrem-se!” (Mt 28,9). A ressurreição de Jesus não mudou nada no mundo, que continua ameaçador, mas muda a forma como aqueles que creem lidam com as contrariedades da vida: “Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,37). Eis, portanto, a razão da nossa alegria: a verdade da ressurreição de Cristo firma a nossa vida na sua promessa: “Eu vivo e vós vivereis” (Jo 14,19).

Feliz e Santa Pácoa a você e sua família!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi