Homilia 18º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,1-3; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21.
A fome é uma necessidade básica que
exige ser satisfeita. Diante dela, não cabem discussões políticas, mas a
atitude que Jesus espera de cada um de nós, seus discípulos: “Dai-lhes vós
mesmos de comer” (Mt 14,16). Quem está com fome à minha volta? Talvez, alguém
que eu não conheça, ou alguém que um dia me prejudicou, que se tornou meu
inimigo... Ainda assim, somos chamados a repartir com ele nossos cinco pães e
nossos dois peixes, lembrando que, no momento do nosso julgamento, Jesus nos
dirá: “Tive fome, e me destes de comer” (Mt 25,35), ou “Tive fome, e não me
destes de comer” (Mt 25,42).
Em 2021, o trilionário Elon Musk
prometeu à ONU vender ações da Tesla, uma de suas empresas, para combater a
fome no mundo, desde que a Organização detalhasse exatamente como o dinheiro
seria gasto. A ONU lhe apresentou um plano detalhado, mas até hoje Elon Musk
não se pronunciou mais sobre o assunto. É típico dele não cumprir suas
promessas.
Atualmente, 25% da população mundial
sofre diariamente com a fome. A fome não é causada simplesmente pela falta de
alimentos. Ela é resultado de uma combinação de fatores sociais,
econômicos, ambientais e políticos. Por trás desses fatores está a ganância
desmedida dos que acumulam riqueza somente para si. São eles que determinam os
rumos da política e da economia globais, que desrespeitam as leis de proteção
ambiental e que fabricam guerras, cuja consequência direta é a fome.
Diante da fome da multidão que veio
ouvir sua Palavra e da reação dos discípulos que queriam se livrar daquele
enorme problema, Jesus não fez nenhum discurso político, mas encorajou seus
discípulos a enfrentarem o problema: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes
vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Quando a fome é detectada – carência de
afeto, de diálogo, de responsabilidade ou mesmo de dinheiro, cada membro da
família deve envolver-se na solução do problema. A solução não é distanciar-se
do problema fechando-se em si mesmo.
A nossa primeira reação diante da
carência, da necessidade, é reclamar da falta de recursos, desprezando os
pequenos recursos que temos: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt
14,17). Nós nos esquecemos da sabedoria popular: “O pouco com Deus é muito, e o
muito sem Deus é nada”. Quando alguém pergunta: “Onde está Deus, diante da fome
do mundo?”, Deus responde com outra pergunta: “O que você está fazendo com os
cinco pães e os dois peixes que Eu lhe dei?”.
O nosso grande erro é pensar que
somente muito recurso pode resolver uma grande fome. A desnutrição emocional de
filhos que não recebem afeto dos pais e de casais que não se dão mutuamente o
pão do afeto provém do fechamento de cada um em si mesmo e do pensar que os
cinco pães e os dois peixes de uma palavra, de um gesto, de uma presença, ou
mesmo de uma oração, não irão resolver nada. Engano. Jesus espera que
entreguemos esses pequenos recursos em suas mãos, recursos que, ao se tornarem
fonte de agradecimento ao Pai e não de reclamação, se transformam em uma fonte
de bênçãos para todos.
“Todos comeram e ficaram satisfeitos”
(Mt 14,20). Quando cada um coloca o que é seu para ajudar na solução de um
problema, ele é resolvido e todos se beneficiam. É muito triste quando uma
família, uma empresa ou uma comunidade de fé definha de fome porque cada um que
faz parte dela se recusa a partilhar seus cinco pães e seus dois peixes. E
quantas vezes o motivo da recusa não é o medo de ficar sem nada, mas o orgulho,
a raiva, a mágoa, o desejo de ver o outro sofrer, não percebendo que esse
sofrimento acaba sendo partilhado por todas as pessoas que compõem aquele
“corpo”...
“E dos pedaços que sobraram, recolheram
ainda doze cestos cheios” (Mt 14,20). A reclamação mais comum que se ouve, até
mesmo antes do final do mês, é: “não sobrou nada”. Por que não sobra? Nem
sempre é porque o salário é pouco; muitas vezes é porque não existe
planejamento. Compra-se impulsionado pela emoção, esquecendo que a propaganda
nunca apela para a razão, mas sempre para a emoção. Além disso, a imensa
maioria dos brasileiros tem um grande parceiro no seu endividamento: o cartão
de crédito. Ele consome 54% do orçamento familiar, cobrando juros altíssimos.
O milagre da sobra é possível quando
você decide não gastar além do que ganha, se libertar da dominação demoníaca do
consumismo e parar de se comparar com os outros. Toda dívida traz o inferno
para dentro de casa, e se não quisermos viver nesse inferno precisamos nos
perguntar, diante de cada impulso pelo comprar: eu realmente preciso disso?
Qual fome eu estou querendo saciar?
Pe.
Paulo Cezar Mazzi