Homilia
da Ascensão do Senhor Jesus. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 1,1-11;
Efésios 1,17-23; Mateus 28,16-20.
“Ressuscitou
ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, todo-poderoso,
de onde há de vir e julgar os vivos e os mortos”. Essas palavras fazem parte da
nossa profissão de fé, e precisam ser lembradas especialmente hoje, em que
celebramos a ascensão (subida) de Jesus ao céu.
Segundo
o autor da carta aos Hebreus, Jesus entrou no céu “a fim de comparecer, agora,
diante da face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24). Desse modo, nós podemos
apresentar a Jesus todas as nossas aflições e tribulações neste mundo, na
certeza de que ele ora ao Pai por nós, para que permaneçamos firmes em nossa
fé. Estando à direita do Pai e recebendo d’Ele todo poder e autoridade, Jesus
prometeu enviar o Espírito Santo sobre os seus discípulos: “Recebereis o poder
do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas” (At
1,8). Através do Espírito Santo, o próprio Jesus estará junto a cada um de nós,
conforme prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt
28,20).
“Eu
estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Nenhum
discípulo de Jesus está abandonado na face da terra, entregue aos sofrimentos e
tribulações deste mundo. Ele está conosco, nos defendendo, nos amparando e nos
sustentando com a graça do Espírito Santo. Estando no céu, junto do Pai, Jesus
nos garante que um dia estaremos também no céu: “Quando eu for e vos tiver
preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo, a fim de que, onde eu
estiver, estejais também vós” (Jo 14,3).
Voltemos
à narrativa da ascensão, segundo Lucas: “Jesus foi levado ao céu, à vista
deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo. Os
apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia” (At 1,9-10). Há
uma “nuvem” que nos impede de ver Jesus no céu. Essa “nuvem” retrata a
distância, não só espacial, entre o céu e a terra. O único que viu Jesus no céu
foi o diácono Santo Estêvão, momentos antes de ser apedrejado até à morte: “Eu
vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus” (At 7,56).
A
nossa geração só crê naquilo que vê. Somos escravos das telas. Se no momento da
ascensão os discípulos estavam olhando para o céu, nós dificilmente levantamos
os olhos para o alto. A própria postura de quem olha para o celular já diz tudo:
nosso pescoço e nossa cabeça vivem curvados para baixo. De tanto sermos
envolvidos pelas coisas da terra, esquecemos o céu. As palavras do
apóstolo Paulo – “Somos cidadãos do céu: de lá aguardamos ansiosamente como
Salvador o Senhor Jesus Cristo” (Fl 3,20) – não fazem sentido nenhum em nosso
dia a dia. Feitos para o céu, para voar como águias, nós nos comportamos como
galinhas que vivem ciscando a terra, em busca de sobrevivência.
Pisando
o mesmo chão que nós pisamos, Jesus nunca deixou de apontar o céu. Segundo ele,
o céu pertence aos pobres em espírito, aos aflitos, aos que têm fome e sede de
justiça, aos que promovem a paz (cf. Mt 5,3-8); ele pertence aos que não
ignoram o sofrimento do próximo, aos que dão pão a quem tem fome, aos que
cuidam dos doentes e aos que visitam os presos (cf. Mt 25,34-35); ele pertence
aos que não ajuntam riqueza para si mesmos, mas usam o dinheiro para diminuir
as desigualdades sociais à sua volta (cf. Lc 11,33-34), pois são as pessoas que
nós ajudamos que nos receberão nas moradas eternas (cf. Lc
16,9).
Enquanto
esteve neste mundo, Jesus foi, para muitas pessoas, o céu na terra. Nós também
somos chamados a sê-lo. O céu precisa “ser trazido” para a terra através de
cada discípulo de Jesus, oferecendo presença a quem vive na solidão, palavras
de conforto e de esperança a quem está abatido e desanimado, enxergando e
valorizando aqueles que são “presença invisível” num mundo onde cada um está
fechado em si mesmo... Rezemos, neste sentido, a oração de São Francisco de
Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.
Sugestão
de leitura: “O céu começa em você – a sabedoria dos Padres do Deserto para
hoje”, Anselm Grün, editora Vozes.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi