Homilia do 30º dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 22,20-26; 1Tessalonicensses 1,5c-10; Mateus 22,34-40.
‘Você
deve amar’. Num contexto em que a religião judaica havia multiplicado os 10
mandamentos em 613 normas, a pergunta “Qual é o maior mandamento da lei?” era
necessária. Segundo Jesus, a essência da religião se resume nisso: ‘Você deve amar’.
Por que eu devo amar? Por um único motivo: “Aquele que não ama não chegou a
conhecer a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8). Crer em Deus significa
relacionar-se com Ele, e esse relacionamento só é verdadeiro quando vivido no
amor.
Sabemos
que a grande maioria das pessoas buscam Deus não por amor, mas por necessidade.
São poucos os que verdadeiramente O amam. Mas também é verdade que são poucas
as pessoas que se sentem amadas por Deus. As dificuldades e tribulações da vida
costumam dissipar a certeza do amor de Deus pelos seus filhos e filhas. Isso
faz surgir no coração humano uma pergunta: Se Deus me ama, por que isso está
acontecendo comigo?
O
poeta Kalil Gibran nos oferece uma resposta a essa pergunta: “Quando o amor lhes
fizer sinal, sigam-no; ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis. E
quando as suas asas lhes envolverem, entreguem-se; ainda que a espada escondida
na sua plumagem lhes possa ferir. Porque assim como ele acaricia os ramos mais
frágeis que tremem ao sol, também penetrará até às raízes sacudindo o apego de vocês à
terra. Como braçadas de trigo os leva. Malha-os até ficarem nus. Passa-lhes
pelo crivo para livrá-los do joio. Mói-lhes até à brancura. Amassa-os até ficarem
maleáveis. Então entrega-lhes ao seu fogo, para poderem ser o pão sagrado no banquete
de Deus” (O amor).
O
nosso grande desafio é nos deixar amar por Deus. Às vezes vivenciamos nossa
oração tentando forçar Deus a nos amar, quando, na verdade, somos nós que temos
que nos entregar ao seu amor. Quando rezo, “não peço para ver a dádiva em minha
mão, para sentir que passei pela porta aberta e recebi a alegria de seu abraço.
Toda a minha preocupação é que Deus tenha o que ele quer: a oportunidade de ser
bom para mim tanto quanto ele desejar” (Ir. Ruth Burrows, Essência da Oração).
Santo Agostinho afirma
que o amor de Deus – o amor que é Deus! – é um fogo que purifica e ordena os
nossos afetos. Na maior parte do tempo, nossos afetos estão desordenados. Nós
buscamos ser amados na mentira das redes sociais (aprovação), na ilusão de
paixões desordenadas, no consumo de bens materiais etc., e quando nada disso
funciona – porque não há como preencher vazio com vazio – nos sentimos não
amados.
Para Santo Agostinho, quando amamos a Deus sobre todas as coisas, tudo o mais encontra seu
lugar correto. As criaturas deixam de ser ídolos e tornam-se degraus para o
Criador. O coração, criado para Deus, só descansa quando repousa n’Ele. É por
isso que o salmista pede a cada dia: “Fazei-me sentir o vosso amor pela manhã,
pois em vós coloquei minha esperança” (Sl 143,8).
O
outro lado da moeda ‘Você deve amar’ é este: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’,
mas odeia o seu irmão é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a
Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). O Deus a quem somos chamados
a amar tem um rosto humano: o nosso próximo; mais ainda, aquele em relação a
quem devemos nos fazer próximos. O texto do Êxodo nos ensina que o amor deve se
traduzir em cuidado com as pessoas mais fragilizadas na sociedade humana: os estrangeiros,
as viúvas, os órfãos, os pobres.
O
individualismo entrou em cheio nas igrejas e enfraqueceu a sensibilidade de
muitos cristãos para com o próximo. Essas eleições revelaram que a
identificação com discursos de ódio é muito mais forte do que a identificação
com o Deus que se preocupa com os que sofrem. O desejo de distanciar-se dos
outros, que muitas vezes nos habita, está na contramão do segundo mandamento
que Jesus nos apresenta como sendo tão importante quanto o primeiro: “Amarás ao
teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39).
Quem
é o próximo a quem sou chamado a amar? É toda pessoa que a vida colocou no meu
caminho existencial – campo familiar, profissional, eclesial e social. O outro
é como eu: ele também deseja ser amado, respeitado e receber de mim um tratamento
humano. Ele também é amado por Deus e carrega consigo a presença do Espírito
Santo em seu coração, embora talvez não tenha consciência disso. Quando
decidimos não amar o próximo estamos destruindo a ponte que nos leva ao coração
de Deus. Não nos esqueçamos da pergunta que Deus fez a Caim, após ter matado
seu irmão Abel: “Onde está teu irmão Abel?” (Gn 4,9).
Olhemos ao redor. Há em nossa família alguém
necessitado de perdão, de paciência, de escuta? No trabalho, tratamos os
colegas com caridade, ou permitimos que a inveja e a maledicência envenenem
nossos corações? Diante do pobre que encontramos na rua, somos indiferentes, ou
reconhecemos nele a face de Cristo – “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me
destes de beber” – (Mt 25,35)?
Pe.
Paulo Cezar Mazzi