quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NO EVANGELHO ESTÁ A FORÇA DA TRANSFIGURAÇÃO

 Homilia 2º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

 

A imagem de Jesus transfigurado sobre uma alta montanha é uma antecipação do depois no agora da sua existência. Ela é também uma reposta a perguntas que costumamos fazer: Vale à pena lutar pelos valores do Reino? Existe mesmo uma recompensa para a minha dor e uma esperança para o meu futuro (cf. Jr 31,16-17)? A justiça que não encontramos aqui na terra será restabelecida no céu? O silêncio de Deus, que nos acompanha no dia a dia, será um dia finalmente rompido? As sementes que hoje lançamos com o nosso trabalho frutificarão amanhã? Será mesmo verdade que aqueles que esperam no Senhor jamais ficarão desiludidos (Sl 25,3)?

A cultura do consumo nos ensina a viver o dia de hoje, a sermos felizes e a desfrutar da vida agora, porque o depois é incerto, o amanhã talvez não exista. Desse modo, fechados quanto à esperança no depois, corremos o risco de nos deixar desfigurar por um presente marcado por uma dor que nos consome, por uma injustiça em relação à qual nos sentimos impotentes, por uma compreensão da vida fechada a toda esperança de mudança, de libertação e de salvação.

Mas hoje, o Pai nos faz subir com Jesus a uma alta montanha, para que ali possamos ter uma visão mais profunda da nossa existência: nós não estamos destinados a um fim – destruição, morte –, mas a uma finalidade. A força pascal que já estava escondida no corpo de Jesus – revelada na sua transfiguração –, também nos habita, por meio do Espírito Santo. O mundo não pode ver essa força, e nem mesmo nós a sentimos, na maior parte do tempo, mas ela nos habita desde o batismo. Desse modo, não nos fechamos ao que somos agora, mas nos mantemos abertos ao que seremos, como pessoas transfiguradas, porque destinadas à glória, junto com nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 8,17.30; Fl 3,20-21).

O Pai quis que os mesmos discípulos que veriam seu Filho desfigurado, na agonia do Horto das Oliveiras, o vissem antes transfigurado, cheio de luz e de glória. Assim como aqueles três discípulos, nós somos chamados a purificar o nosso modo de ver a nós mesmos e a realidade à nossa volta, como nos ensina o apóstolo São Paulo: “Não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2Cor 5,18). O que vemos é transitório: jovialidade e envelhecimento, força e fraqueza, sucesso e fracasso, fama e anonimato, saúde e doença, mas o que não podemos ver é eterno: a presença oculta do Espírito do Pai e do Filho que habita em nós e em toda a criação, o que nos leva a crer que “os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que será revelada em nós, assim como em toda a criação” (citação livre de Rm 8,18-23).

Existem duas formas de vivermos a nossa vida: fechados no presente (desfiguração), ou abertos ao futuro (transfiguração). Quando Abraão, o pai da nossa fé, estava preso ao seu presente desfigurado (sem terra e sem filho), Deus o visitou e o convidou a deixar sua vida se abrir à transfiguração: “Sai da tua terra e vai para a terra que eu te vou mostrar. Eu te abençoarei e em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (citação livre de Gn 12,1-3). A obediência de Abraão ao chamado de Deus transfigurou sua vida, de modo que, “de um homem já marcado pela morte nasceu a multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia da praia” (Hb 11,12).

O mesmo Deus que chamou Abraão, e em Seu Filho chamou Pedro, Tiago e João, hoje chama a cada um de nós a “sofrer pelo Evangelho”, fortificados pelo Seu poder, que é o Espírito Santo. Por que viver segundo o Evangelho e anunciá-lo com nossa vida ao mundo comporta sofrimento? Porque o Evangelho é “a Palavra da Verdade” (Ef 1,13), enquanto o mundo, que escolheu as trevas e rejeitou a luz, vive na mentira e na sua disseminação, necessária para continuar a obter lucro sobre as pessoas e dominar os mais fracos. Sofrer pelo Evangelho é não nos resignar àquilo que causa desfiguração na vida dos que mais sofrem e da criação, mas trabalhar pela transfiguração da vida à nossa volta, sustentados pela força do Espírito Santo.       

Onde se encontra a força da transfiguração hoje? Exatamente no Evangelho, como afirma o apóstolo Paulo: Jesus Cristo “não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10). Quem lê os acontecimentos da história iluminado pela luz do Evangelho consegue distinguir o que é transitório e o que é definitivo. Quem se deixa questionar pela verdade do Evangelho não aceita mais viver enganado pelas mentiras do mundo que desfiguram a sua vida, mas decide orientar-se pela verdade da transfiguração que aguarda todo aquele que segue Jesus até o fim. Portanto, sempre que os acontecimentos do presente escurecerem a nossa vida com a sombra da desfiguração, busquemos a luz do Evangelho, que abre a nossa vida ao futuro que Deus tem para aqueles que n’Ele esperam, suplicando-Lhe: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos” (Sl 33,22).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

AS TENTAÇÕES NOSSAS DE CADA DIA

 Homilia 1º dom. quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 2,7-9; 3,1-7, Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11.

            Nossa caminhada quaresmal se inicia com o relato da tentação e do pecado de Adão e Eva. Resumidamente, o ser humano recebeu a vida de Deus e a liberdade de fazer escolhas e de tomar decisões. Tendo diante de si a liberdade de comer de todas as árvores do jardim, com exceção da árvore do conhecimento do bem e do mal, o ser humano começou a questionar: “Por que não posso experimentar isso também?”. Aí entra a voz do tentador: “Deus está escondendo algo de você. Se Ele o amasse, deixaria você fazer tudo o que deseja”. Enganado pelo tentador, que é o pai da mentira, o ser humano se apropriou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que, na prática, significa que ele passou a decidir por si mesmo o que é o bem e o que é o mal.

            Se o tentador, pai da mentira, afirmou ao casal “Não, vós não morrereis!” (Gn 3,4), o apóstolo Paulo afirma claramente: “Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Todo pecado que cometemos gera morte ou em nós mesmos, ou nos outros, ou no mundo à nossa volta. Quando, livremente, decidimos escolher por nós mesmos o que é o bem e o que é o mal, sem nos deixarmos orientar pela Palavra de Deus, nos perdemos dentro de nós mesmos e nos tornamos escravos do tentador, o homicida, aquele que nos perverte em causadores ou colaboradores da morte na sociedade humana.

            Por que caímos com frequência em tentação? Porque aquilo que nos é proposto pelo tentador é sempre “atraente e desejável” (Gn 3,6). O maligno conhece a nossa natureza humana. Ele sabe que costumamos preferir o prazer e não o dever; que preferimos uma mentira suave a uma dura verdade; que preferimos um caminho curto e fácil a um longo e exigente. O maligno conhece o ponto fraco de cada um de nós. Ele sempre nos visita quando não estamos bem, quando sentimos que está nos faltando algo. Seu campo de ação é a nossa frustração, o nosso cansaço, a nossa decepção e a nossa desilusão; a nossa raiva, o nosso desejo de jogar tudo para o alto, numa palavra, o nosso desespero.    

Se o tentador venceu Adão, símbolo de todo ser humano, ele não conseguir vencer Cristo, nosso Salvador. “Como pela desobediência de um só homem
a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça” (Rm 5,18). Na Bíblia, o contrário de uma pessoa pecadora é uma pessoa justa, isto é, uma pessoa que procurar ajustar a sua vida à vontade de Deus. A pessoa justa sente todos os apelos do tentador, mas ela decide obedecer ao Deus da verdade e não ao pai da mentira. A pessoa justa sabe que seu principal problema não são os outros, mas ela mesma, quando decide se entregar aos seus afetos desordenados. A pessoa justa tem como seu modelo de vida a pessoa de Jesus Cristo, tentado em tudo como nós, mas vencedor das tentações.  

Diante da tentação de obedecer cegamente à sua fome de pão, Jesus nos ensina que nós temos a capacidade de sentir o desejo, mas de não consentir que ele nos leve a pecar. Além do mais, a verdadeira fome, o verdadeiro desejo que nos habita, não está no corpo, mas no coração: temos fome e sede de Deus, de sentido e de salvação.

Diante da tentação de usar Deus a nosso favor, sem nos responsabilizar por nossas escolhas e decisões, Jesus nos ensina que a nossa liberdade sempre caminha de mãos dadas com a nossa responsabilidade. Toda atitude nossa tem consequências. Por isso, não podemos, com uma das nossas mãos, criar situações de destruição, enquanto que com a outra mão pedimos que Deus nos proteja e nos salve da destruição.

Enfim, diante da tentação de garantir-se acumulando dinheiro e muitos bens, Jesus nos ensina que tudo o que acumulamos vai apodrecer e ser roubado, e que toda riqueza afasta o ser humano de Deus. Quem segue pelo caminho do enriquecimento pessoal a todo custo será devorado pela ganância sem limites do deus deste mundo, que destrói a saúde, a família, a consciência e a paz de espírito daqueles que livremente escolhem ser seus escravos.   

Ao final do seu combate espiritual, Jesus vence o tentador não com gritos, mas com fidelidade à Palavra de Deus. Ele usa a Escritura como espada e a obediência como escudo. Quanto a nós, tomemos consciência da razão de ser das tentações: “A tentação obriga-nos a lutar, porque sem luta não há vitória. Contudo, somente Deus poderá dar a vitória na luta contra as tentações. Ninguém se torna senhor de si mesmo enquanto não lutar com os demônios que habitam o seu interior e que tentam mandar na sua vida. Além disso, só é possível conhecer o céu quem primeiro conheceu seu próprio inferno interior” (Anselm Grün). Quem deseja viver a vontade de Deus precisa aprender a lutar interiormente.


Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

BREVES INDICAÇÕES PARA O TEMPO DA QUARESMA

 Homilia 4ª feira de cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20 –6,2; Mateus 6,1-6.16-18.

 

Breves indicações para o tempo da quaresma.

 

1.      Quarenta dias – simbolizam, na Sagrada Escritura, o tempo de um processo de cura, de libertação, de mudança interior, de transformação. Um longo tempo para pessoas que não têm mais tempo; pessoas que perdem tempo com futilidades e não acham tempo para cuidar do essencial.

 

2.      Conversão – obedecer a Deus implica, algumas vezes, desobedecer ao nosso desejo. Quando não queremos desobedecer a nós mesmos para obedecer a Deus, pecamos.  

 

3.      Abstinência – exercitar a vontade. Colocar em ordem os afetos desordenados. Não fazer apenas o que se gosta, mas o que deve ser feito. Não viver nas mãos dos desejos insaciáveis, mas tomar a vida nas próprias mãos.

 

4.      Espiritualidade da cruz e não do individualismo. “Reconstrói a tua vida em comunhão com teu Senhor. Reconstrói a tua vida em comunhão com teu irmão. Onde está o teu irmão, eu estou presente nele” (música “Eu vim para que todos tenham vida). “Quando for trazer a sua oferta ao altar e li se lembrar de que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe a sua oferta ali diante do altar e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; depois virá apresentar a sua oferta” (Mt 5,23-24).

 

5.      Melhorar ou intensificar a vida de oração. Rezar não para que o Pai nos dê isso ou aquilo, mas para que cada vez mais saiamos da oração dispostos a fazer a vontade d’Ele.

 

6.      Jejuar – “O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples” (Pe. Adroaldo); ou seja, sair do excesso. Jejuar de imagens (telas) e do olhar do caçador, para o qual tudo é carne a ser devorada. Jejuar de pensamentos negativos e do falar demais. Silenciar mais. Não fugir do confronto diário consigo mesmo(a).

 

7.      Campanha da Fraternidade – Onde Cristo está ferido hoje? “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9). “O pão que tu reténs pertence ao faminto; o manto que guardas no armário é de quem está nu; os sapatos que apodrecem em tua casa pertencem ao descalço; o dinheiro que tens enterrado (hoje, aplicado) é do necessitado” (Basílio de Cesareia, Homilias sobre Lucas 12, p.36).

 

8.      Cinzas – Depois do pecado, Adão ouviu: “Lembra-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3,19). A consciência da própria morte nos ajuda a rever os nossos valores. O que, de fato, importa na vida? “O que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?” (Mt 16,24).

 

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O DESEJO, O PECADO E A LIBERDADE

 Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 15,16-21; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,20-22a.27-28.33-34a.37 (forma breve).

 

 “Não é o muito saber que sacia a alma, mas o saborear internamente as coisas de Deus”, dizia Santo Inácio de Loyola. Partindo deste princípio, tomo a liberdade de me ocupar somente com a parte central do Evangelho de hoje, na sua forma breve: “Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,27-28).

Jesus nos convida a refletir sobre o nosso desejo. Nós não escolhemos sentir desejo. Ele surge em nós a partir das nossas necessidades. No entanto, o ser humano não pode ser reduzido às suas necessidades, porque há nele um desejo maior e mais profundo, um desejo que não encontra satisfação no comer, no beber, no consumir e no ato sexual, mas busca uma resposta no alto, na transcendência; numa palavra, em Deus e somente n‘Ele.

“A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor. A gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor. A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade. A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade” (Comida, Titãs, 1987). “A gente quer inteiro e não pela metade”. O nosso desafio é dialogar com o desejo. Ao querer isso ou aquilo, o quê, de fato, eu estou querendo? Por mais que o meu desejo seja satisfeito, por que eu ainda sinto um vazio dentro de mim?

“Todo aquele que olhar, com o desejo de possuir, já pecou” (citação livre). O desejo nasce em nós pelo olhar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Se todo olhar provoca desejo em nós, nem todo olhar está carregado de pecado. Pecado é escolha. No olhar acidental não escolhemos ver; apenas nos deparamos com uma imagem que desperta desejo em nós. Como esse olhar não é proposital, o desejo que sentimos não é pecado em si mesmo, pois o pecado não entra no campo do sentir, mas do consentir. Já o desejo proposital, intencional, entra no que Jesus disse: “olhar com o desejo de possuir”. Quando eu escolho ver algo que vai despertar desejo em mim, já tenho a intenção de pecar.

Entre sentir desejo e o ato de pecar existe algo precioso e sagrado que nos foi dado por Deus: a nossa liberdade. Quando o nosso olhar é acidental, não intencional, nossa liberdade está preservada; quando ele é proposital, intencional, nossa liberdade está comprometida, enfraquecida. Se não queremos pecar, temos que frustrar o nosso desejo, mas só teremos força para isso se não sabotarmos a nossa liberdade por meio do olhar proposital, intencional.  

“Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida” (Victor Frankl). Essa grande verdade joga por terra nossas frequentes desculpas: “Foi mais forte do que eu”; “Não tive escolha”; “Foram as circunstâncias”... A verdade é que “o homem não é as suas circunstâncias; o homem é as suas decisões” (Victor Frankl). Sempre que queremos escapar da responsabilidade pelas nossas atitudes, nós a transferimos para fora de nós. Esquecemos de que, junto com a liberdade, Deus nos deu a responsabilidade: “Diante de ti, Ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir” (Eclo 15,17-18).

A causa principal do adultério não está fora de casa, mas dentro: o descuido com a vida sexual do casal. Normalmente, as mulheres desejam afeto, enquanto os homens desejam sexo. Ambos são importantes e necessários na vida a dois. Outra diferença comum: as mulheres são mais sensíveis emocionalmente que os homens. Mágoas e ressentimentos costumam bloqueá-las no desejo sexual. Sem diálogo, perdão e reconciliação, não há sexo. Outro fator: o lugar que os dois dão ao filho, na casa, pode comprometer a harmonia sexual deles. Em resumo, quanto mais o casal cuida da qualidade da sua vida sexual, menos chance de serem feridos pelo adultério. Quanto menos cuidado, mais risco.

            Uma palavra final sobre desejo e pecado: obedecer a Deus implica, algumas vezes, desobedecer ao nosso desejo. Quando não queremos desobedecer a nós mesmos para obedecer a Deus, pecamos. Nossa sexualidade nos foi dada por Deus. O desejo, em si, não é satânico. Satânica é a fome insaciável do nosso ego, que tudo quer para si, uma fome que funciona na base do “o que é demais nunca é o bastante” (Legião Urbana, Teatro dos Vampiros, 1991).

 

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu sou uma pessoa habitada por desejos. O Senhor inscreveu no mais profundo do meu ser a minha sexualidade. Ela fala comigo por meio do que eu penso, sinto, faço e rezo. Peço que o Senhor abençoe especialmente os meus olhos. Que o meu olhar não seja o de um caçador, que enxerga tudo a partir da sua fome de caça. Capacita-me a reconhecer e a dialogar com o meu desejo, buscando compreender a sua necessidade mais profunda. Fortalece a minha liberdade, para eu frustrar o meu desejo sempre que for necessário, e assim não pecar contra ti e contra alguma outra pessoa. Cura as feridas da minha afetividade e da minha sexualidade. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi      



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

SEJAMOS SAL, PARA PRESERVAR A CARNE HUMANA DO APODRECIMENTO

Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 58,7-10; 1Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16.

 

            As imagens do sal e da luz, usadas por Jesus, nos falam da dimensão social da nossa fé. Assim como Jesus, a nossa presença neste mundo contém uma missão. Jesus com frequência dizia: “Eu vim para...”. Cada um de nós, seus discípulos, devemos ter essa consciência: “Eu vim a este mundo para...”. Da mesma forma como o sal existe para preservar os alimentos, sobretudo a carne, do apodrecimento, e dar sabor à comida; da mesma forma como a luz existe para iluminar os que estão num ambiente, assim o sentido da nossa vida reside numa tarefa que a própria vida nos pede para realizar, em favor de alguém ou de uma causa – o Reino de Deus.   

            “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perder a sua capacidade de salgar, não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (Mt 5,13). Sabemos que a principal função do sal, na época de Jesus, era preservar a carne de não estragar (apodrecer). Eis algumas coisas e atitudes que nos apodrecem: alimentos ultraprocessados, frutas e verduras com agrotóxicos, refrigerantes e bebidas alcoólicas, cigarro e outras drogas, excesso de visualização de telas, dormir tarde (celular), ambiente de trabalho nocivo, barulho, não praticar atividade física, falta de contato com a natureza etc.

            Eis, portanto, a dimensão social da nossa fé: qual é a carne que apodrece à nossa volta? Pessoas solitárias, idosos esquecidos, animais abandonados, jovens viciados, moradores de rua, crianças que vivem nas ruas...?

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Neste mundo imenso, com quase oito bilhões de habitantes, frequentemente nos sentimos ignorados e não necessários. Mas Jesus nos recorda da importância da nossa presença cristã no dia a dia das pessoas. O Evangelho que ele nos deixou não é um livro de autoajuda, mas um apelo constante a não nos fecharmos em nós mesmos, sendo indiferentes ao sofrimento das pessoas à nossa volta. É isso que o profeta Isaías nos diz: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne” (Is 58,7).     

             “Não desprezes a tua carne”. Todo ser humano é a nossa carne, necessitado como nós, frágil como nós, exposto às mesmas situações de apodrecimento que nós. Quando desprezamos uma pessoa ou nos tornamos indiferentes para com quem sofre, estamos nos desumanizando. Jesus Cristo “se fez carne” e veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Nossa comunhão com Ele passa não somente pela Palavra e pela Eucaristia, mas também por nossa compaixão para com toda carne ferida à nossa volta. Quando nos tornamos indiferentes a situações de sofrimento ou de injustiça à nossa volta, a luz que somos enfraquece e ficamos mais propensos a termos doenças: “Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa” (Is 58,8).

            A dimensão social da nossa fé é tão necessária, que o profeta Isaías vincula a nossa ajuda a quem sofre com o atendimento das nossas orações por Deus: “Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: ‘Eis-me aqui’” (Is 58,9). Deus não ouve a oração de quem não quer ouvir o grito de socorro de pessoas feridas. Se quisermos ter luz em nós mesmos, levemos a sério essa verdade: “Se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia” (Is 59,10).

            Jesus afirmou que somente quando somos humanos e solidários para com quem sofre é que Deus, o nosso Pai, é glorificado na terra: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Cristãos que vivem uma fé individualista e nada fazem para sanar as feridas sociais à sua volta, contribuem para que a humanidade perca a fé em Deus. Um cristão que, todos os dias, dobra seus joelhos para rezar, mas não se inclina e não se aproxima das pessoas e da própria Criação ferida à sua volta, desacredita a Pessoa de Deus e faz os ateus se firmarem mais ainda nas suas convicções.  

           

            Nossa oração:

 

            Deus de bondade e compaixão, o Senhor me chamou à existência para que eu seja a presença da Tua misericórdia junto a todo ser humano que está ferido e exposto a uma situação de apodrecimento. Fortalece o sal que sou, pela graça do Espírito Santo. Não posso viver minha fé de maneira individualista, mas em comunhão com todo ser humano, especialmente com aquele que a vida me chama a ajudar. Concede-me a Tua luz, para que eu seja guiado(a) pela Verdade e não me perca na desorientação atual do mundo. Não permita que eu me desumanize e me torne indiferente ao pedido de socorro das pessoas e da Criação. Que as mãos que eu elevo para orar e para receber o Corpo de Teu Filho Jesus Cristo trabalhem para curar as feridas sociais à minha volta. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

POBREZA E HUMILDADE: VALORES ESPIRITUAIS POUCO DESEJADOS

 Homilia do 4º dom. comum. Palavra de Deus: Sofonias 2,3; 3,12-13; 1Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12a.

 

            Muitas pessoas criticam aqueles que têm uma religião, dizendo: “Religião é coisa para gente fracassada”. De fato, quanto maior o nível intelectual e financeiro de algumas pessoas, menos elas buscam a Deus numa instituição religiosa. E nós, por que estamos vamos com frequência a uma igreja? “Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres” (1Cor 1,26). A grande maioria das pessoas que procura por uma igreja ou religião é movida por necessidades não somente espirituais, mas também temporais: saúde, proteção, consolo, amparo, restauração afetiva/financeira etc. A pergunta que fica é: se não fôssemos pessoas necessitadas, iríamos a uma igreja com frequência?

            Na verdade, todo ser humano é necessitado; toda pessoa, cedo ou tarde, experimenta sua insuficiência e sua necessidade de ser salva, em vários momentos da vida. Por isso, o profeta Sofonias nos convida à humildade e ao reconhecimento de que somos pobres e, portanto, necessitados: “Buscai o Senhor, humildes da terra; praticai a justiça, procurai a humildade” (Sf 2,3). Para a Bíblia, a pessoa humilde e pobre coloca diariamente sua esperança no Senhor e somente n’Ele. Ela não se ilude com os bens que porventura possa ter, nem com suas capacidades humanas, mas sabe reconhecer que, se lhe faltar a graça de Deus, ela nada pode.

            O mundo atual exalta o poder, a força, o sucesso e a vitória, mas o Deus em quem nós cremos escolheu se colocar junto das pessoas que não podem experimentar nada disso. Ele, na verdade, “faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos. O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz erguer-se o caído” (Sl 146,7-8). Essa preferência de Deus pelos que sofrem foi explicada pelo apóstolo Paulo dessa forma: “Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante” (1Cor 1,27-28).

            É aqui que nos damos conta do quanto os nossos valores estão invertidos. Vivemos correndo atrás de construir uma imagem nossa que seja forte, e não fraca; gastamos tempo, dinheiro e energia emocional para nos tornarmos importantes aos olhos dos outros, para não nos sentirmos desvalorizados, mas tudo isso nos afasta da nossa verdade: somos fracos, impotentes e necessitados; a nossa cura, a nossa salvação, não acontece quando vestimos uma armadura de ferro, mas quando nos despimos dela e nos permitimos ser humanos verdadeiramente.

            Ao vir ao mundo, Jesus se despojou da glória divina e assumiu a carne humana em toda a sua fragilidade (cf. Fl 2,6-8). Ao inaugurar o Sermão da Montanha, uma síntese do seu Evangelho, ele não só descreveu a si mesmo, como deixou claro como quer que seus discípulos sejam: pobres em espírito (colocam sua esperança unicamente em Deus); aflitos (sofrem com os que sofrem); mansos (se distanciam da violência); com fome e sede de justiça (trabalham por um mundo mais justo); misericordiosos (se compadecem das misérias dos outros); promovendo a paz (não se iludem com a força das armas); aceitando sofrer perseguição e humilhação por viverem de maneira honesta, justa, verdadeira, segundo o Evangelho de nosso Senhor. 

            Diante da Palavra ouvida, façamos nossa oração:

 

Senhor Jesus Cristo, teu Evangelho me convida a percorrer um caminho interior de busca pelo fundamental. Eu preciso de um fundamento para viver, e esse fundamento consiste em colocar minha esperança unicamente em Deus e viver com humildade no meu dia a dia, buscando a justiça e não o poder que engana, adoece e destrói valores fundamentais na minha vida. Ensina-me a amar a minha fraqueza, pois é a partir dela que a força do Pai age em mim. Liberta-me da busca enganadora por poder e importância neste mundo de valores invertidos. Forma em mim o coração de um(a) verdadeiro(a) discípulo(a), através do ensinamento diário do teu Evangelho, e guarda-me para o Reino dos Céus. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

E ENTÃO JESUS ME DISSE: "VEM, SEJA A MINHA LUZ!"

Homilia do 3º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 8,23b – 9,3; 1Coríntios 1,10-13.19; Mateus 4,12-23.

 

            Após João Batista ser silenciado por Herodes, Jesus inicia a sua missão de evangelizar, escolhendo, para tanto, uma região desprezível, chamada “Galileia dos pagãos!” (Mt 4,15). Na sua exortação apostólica sobre a santidade, o Papa Francisco afirmou que a existência de cada um de nós contém uma palavra única de Deus para a humanidade. O lugar onde vivemos também é a “Galileia dos pagãos”, ou seja, um local que necessita ouvir a Palavra que é Cristo, e que falará aos corações que necessitam de fé, de esperança e de sentido de vida.

            O evangelista Mateus entende que o início da missão de Jesus cumpre a profecia de Isaías: “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Aonde a nossa luz é necessária? Exatamente aonde há pessoas vivendo na escuridão e morando nas sombras da morte. Você é luz quando visita um idoso que vive na solidão em sua casa ou num asilo; quando visita uma pessoa enferma em sua casa ou no hospital. Você é luz quando leva a luz do Evangelho diário a um colega de trabalho; quando faz uma postagem que ajuda as pessoas a saírem das trevas da desorientação política e também religiosa.

A primeira pregação de Jesus foi: “Convertam-se, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Conversão significa mudar a maneira de pensar e de enxergar as coisas. Nós vivemos excessivamente presos ao que é terreno, esquecendo-nos do Reino dos Céus. Este Reino significa que o eterno é mais importante do que o transitório; o bem real é mais importante que o bem aparente; ser salvo é mais importante do que ser feliz momentaneamente.  

Jesus não realizou a sua missão sozinho, mas chamou discípulos. O Evangelho nos apresenta o chamado de quatro pescadores: Pedro, André, Tiago e João. Jesus chamou esses homens no local de trabalho deles: “Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mt 4,19). O mar simboliza as forças do mal, que buscam destruir as pessoas e tudo o que elas mais amam. Por que tantas vidas destruídas, tantos casamentos destruídos, tantas empresas destruídas, tantas crianças, adolescentes e jovens adoecidos e destruídos? Porque muitos cristãos desistiram de lançar suas redes e decidiram eles mesmos se afogar no mar da indiferença para com o mundo. Muitos não entenderam que a missão da Igreja não é condenar o mundo, mas salvá-lo.

Hoje é o Domingo da Palavra de Deus em nossa Igreja. O Papa Francisco instituiu esse dia para lembrar a centralidade da Palavra de Deus em nossas celebrações, centralidade que deveria estar presente em nossa vida, no dia a dia. Na celebração do domingo nós ouvimos a Palavra; na medida em que a interiorizamos, nos tornamos capazes de levar uma palavra de conforto à pessoa abatida (cf. Is 50,4), durante a semana.

Alguns questionamentos: Eu tenho consciência de que, onde eu vivo, estudo e trabalho, ali está a minha missão? Eu enxergo as pessoas que estão adoecendo nas trevas e nas sombras da morte? Eu procuro levar uma palavra de conforto a quem está abatido, desorientado ou desanimado? Eu creio no Reino de Deus? Falo dele para as pessoas? Quem visualiza minhas postagens nas redes sociais percebe que sou um(a) discípulo(a) de Jesus, ou uma pessoa que faz postagens na esperança de ter muitos seguidores? Eu aceito o chamado de Jesus para ajudá-Lo a resgatar pessoas do mar da destruição em que costumam mergulhar?   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

Oração do Domingo da Palavra de Deus:

 

Pai da Luz, nós vos louvamos e bendizemos por todos os sinais do vosso amor. Especialmente a cada domingo nos chamais a ouvir a Palavra que salva. Jesus Cristo, que é a vossa Palavra feita homem nos leve ao conhecimento do mistério escondido aos sábios e inteligentes e revelado aos pequeninos. Concedei-nos abrir o coração para compreender o sentido das Sagradas Escrituras. Fazei que nos tornemos testemunhas vivas do Evangelho. Que Maria, Mãe da Sabedoria, interceda por nós, ela que foi a primeira a acolher no seu seio o Verbo que se fez carne. Que o vosso Espírito Santo conceda a cada um de nós a graça de colaborar no anúncio da vossa Palavra, para glória do vosso nome e salvação da humanidade. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.