Homilia do 10º dom. comum. Palavra de Deus: Oseias 6,3-6; Romanos 4,18-25; Mateus 9,9-13.
A palavra “Igreja” significa “assembleia
dos que foram chamados”. No chamado de Mateus está o chamado de cada um de nós.
Qual o critério que o Senhor usou para nos chamar? Não os nossos méritos, mas a
Sua misericórdia; não a nossa saúde, mas as nossas doenças; não a nossa força,
mas a nossa fraqueza. Assim como o lugar do médico é junto de quem está
enfermo, nosso Senhor escolheu se colocar junto dos pecadores, dos desprezados
e dos “excomungados” do seu tempo. Justamente por isso, ele foi criticado como “amigo
dos pecadores”.
O lugar de Jesus deve ser também o nosso
lugar enquanto Igreja. A prioridade de Jesus deve ser também a nossa
prioridade: trabalhar pela salvação de todos, a começar por aqueles que não só o
mundo rejeita, despreza, ignora e exclui, mas também grupos religiosos que se
julgam “separados” das pessoas – que eles consideram – pecadoras e perdidas.
Em todas as igrejas e religiões existe o
perigo do farisaísmo, isto é, do fanatismo religioso, da soberba espiritual que
faz algumas pessoas considerarem-se justas e, portanto, não necessitadas de
perdão nem de salvação. Normalmente são pessoas rígidas consigo mesmas e com os
outros, pessoas que entendem que a igreja deve ser feita de puros. Essa mentalidade
está fortemente presente na Internet: pregadores, “influencers” católicos, grupos
e canais de TV que defendem uma moral rígida, sobretudo no campo afetivo-sexual,
e que se mantém distantes de questões sociais, como fome, pobreza, injustiça,
violência e meio-ambiente.
Diante da crítica que Jesus recebeu, de
comer e beber com pecadores, sua resposta foi usar o que Deus Pai disse, por
meio do profeta Oseias: “Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus,
mais do que holocaustos” (Os 6,6). Holocaustos eram animais sacrificados, cujo corpo
era totalmente queimado. Ora, toda pessoa que deseja caminhar com Deus terá que
sacrificar muitas coisas que vão se opor àquilo que o próprio Deus lhe pede,
pois vivemos em uma época de forte inversão de valores. Aqui vale o princípio
de Santo Inácio de Loyola: aproximar-nos de tudo aquilo que nos aproxima de
Deus, e afastar-nos de tudo aquilo que nos afasta de Deus.
A crítica que o Senhor Deus fez a Israel
se devia ao fato de que, enquanto o povo Lhe oferecia sacrifícios e holocaustos,
continuava a ter um coração fechado para o próximo – amor, cuja expressão
concreta é a misericórdia – e não buscava um relacionamento profundo com Ele (conhecimento
de Deus). Isso significa que, quando nos dispomos a oferecer algum sacrifício a
Deus, precisamos nos perguntar se tal sacrifício está nos tornando seres
humanos melhores, mais bondosos e misericordiosos para com as pessoas e mais
profundos em nosso relacionamento com o Senhor.
Jesus fez um convite a cada um de nós: “Aprendam
o que o meu Pai quis dizer com essas palavras: ‘Quero misericórdia e não
sacrifício’” (citação livre de Mt 9,13). Jesus modificou a palavra amor em
misericórdia para nos lembrar de que a nossa relação com Deus passa
necessariamente pela nossa relação com as pessoas. Quando não somos bondosos e
misericordiosos com as pessoas em nosso dia a dia, nenhum sacrifício que
oferecermos a Deus será aceito por Ele. Lembremos ainda que ser misericordioso
significa deixar-nos afetar pela dor do nosso próximo.
Voltemos ao chamado de Mateus. “Segue-me!”
(Mt 9,9). Esse chamado de Jesus é urgente em nossos dias, frente à diminuição
de vocações sacerdotais no mundo todo. Jesus continua a chamar outros “Mateus”,
jovens e adultos que sejam a extensão do seu amor misericordioso para com os
pecadores do nosso tempo, jovens e adultos que abracem a missão de ser uma
presença de cura para todos os que estão feridos e adoecidos neste mundo.
Uma palavra final: Jesus à mesa é
sempre uma referência à Eucaristia. Acabamos de celebrar Corpus Christi. Muitas
pessoas estão afastadas da Eucaristia devido a pregações moralistas e
ameaçadoras, como se Jesus tivesse instituído esse sacramento como prêmio para
os justos, como recompensa para os que se julgam ser puros, quando, na verdade,
Jesus trabalhou incansavelmente para trazer à mesa eucarística muitos que a
religião e a política da sua época excluíam. “Aqueles que têm saúde não
precisam de médico, mas sim os doentes... Eu não vim para chamar os justos, mas
os pecadores” (Mt 9,12.13). Exatamente por isso, o Papa Francisco anunciou
profeticamente que “a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um
remédio generoso e um alimento para os fracos” (EG, n.47). Não afastemos da mesa
eucarística aqueles que o próprio Senhor quis aproximar.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi.