Homilia
de todos os Santos: Apocalipse 7,2-4.9-14; 1João 3,1-3; Mateus 5,1-12a
“Santo, santo, santo é o Senhor dos
Exércitos” (Is 6,3). Assim o profeta Isaías ouve o louvor dos anjos do céu ao
Deus todo-Poderoso. O nosso Deus é “três vezes santo”, ou seja, plenamente
santo. Mas no que consiste a santidade de Deus? O profeta Oséias nos esclarece:
“Não darei vazão à minha ira, porque eu sou Deus e não um homem, eu sou santo
no meio de ti” (Os 11,9). A santidade de Deus é o seu amor, a sua misericórdia para
com o fraco e pecador.
A santidade do Pai, isto é, o seu
amor pela humanidade, se concretizou na encarnação de Seu Filho Jesus Cristo, a
quem Pedro declarou: “Nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus” (Jo
6,69). O Pai é Santo. O Filho é Santo e o Espírito do Pai e do Filho se chama “Espírito
Santo”. E Deus nos convida a viver em santidade: “Sede santos, porque eu sou santo”
(1Pd 1,16). ‘Amem, porque eu amo’. “Sou amado por Deus, sem condições, agora,
com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades, limitações,
traumas.... e esse amor de Deus sem condições, me torna capaz de amar agora, e
fazer o bem agora, de servir agora, de ser santo agora, apesar de minhas
imperfeições e fraquezas” (Pe. Netto, s.j., Perfeição ou Santidade?).
A nossa Igreja se define a si mesma
como “santa e pecadora”, porque os Santos nunca se consideraram como tais, mas pecadores
e necessitados de penitência, por causa de seus pecados. A pessoa chamada a ser
santa nunca se julga alguém infalível, antes é pobre e aceita ser fraca. A
nossa santidade só pode ser vivida a partir do nosso corpo, dos nossos afetos e
da nossa sexualidade. Toda espiritualidade que ataca o corpo e demoniza a
sexualidade está na contramão da encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. A
santidade passa pelo ordenamento dos nossos afetos, e não por sua recusa ou
negação.
São
João Paulo II afirmou que “a castidade é a energia espiritual que sabe defender
o amor dos perigos do egoísmo e da agressividade, sabe promovê-lo para a sua
mais plena realização” (Familiaris Consortio, n.33). Castidade não
significa não ter relação sexual, mas viver a sexualidade de forma a amar
verdadeiramente o outro e jamais utilizá-lo como meio de obter prazer. E por
falar em prazer, engana-se quem o associa imediatamente ao pecado. Deus criou o
ser humano sexuado. Nós somos a nossa sexualidade. Sem ela, não podemos amar,
nem a Deus, nem aos irmãos: “A santidade nunca leva ao fechamento (sobre si
mesmo), antes se abre para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se para os
outros no amor, no serviço e no dom” (Pe. Netto s.j., Perfeição ou
Santidade?).
Segundo
Nilson Perissé, o Sermão da Montanha (Mt 5 – 7) é o “dicionário da santidade”,
e as bem-aventuranças nos revelam que cada santo(a) encarnou um aspecto da
santidade de Jesus. Por exemplo: São Francisco de Assis viveu a pobreza em
espírito; Santa Teresinha, a pureza de coração; São Maximiliano Kolbe, a
misericórdia; Santa Dulce dos Pobres, a fome e sede de justiça... Quando buscamos
viver segundo as bem-aventuranças, refletimos o próprio Deus àqueles que
convivem conosco: a pureza de coração que mostra a transparência de Deus; a
misericórdia que revela o Seu coração; a mansidão que exprime o modo como Deus
toca o mundo.
Concluindo,
em nossa profissão de fé, afirmamos: “Creio na comunhão dos santos”. A festa de
todos os santos nos ajuda a “reconhecer que há comunhão entre o céu e a terra.
E se existe comunhão, existe também intercessão. Os santos não apenas nos
inspiram: intercedem por nós, fortalecem o ânimo e nos encorajam a dar os
próprios passos rumo ao céu. Eles não são memória, mas presença. Suas preces
são correntes de ternura que percorrem o invisível, alcançando os lugares onde
a fé vacila e o coração se cansa” (Nilson Perissé).
Pe.
Paulo Cezar Mazzi