quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A VIDA ESTÁ NO PERDÃO; A MORTE, NO RANCOR.

Homilia do 24º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 27,33 – 28,9; Romanos 14,7-9; Mateus 18,21-35.

 

            Havia uma ponte que nos ligava a uma determinada pessoa. Mas um dia, essa pessoa nos machucou e nós ficamos tão feridos que a nossa raiva nos levou a atear fogo à ponte. Uma vez destruída, a ponte deu lugar a um grande abismo, que agora nos mantém distantes e separados da pessoa que nos machucou. E a pergunta que fica é esta: Éramos mais felizes quando a ponte existia, ou somos mais felizes agora que o abismo da separação tomou o lugar da ponte?

            A decisão em perdoar é a decisão em reconstruir a ponte entre nós e a pessoa que nos feriu. “Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu: ‘Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete’” (Mt 18,21-22). 70 x 7 é o mesmo que dizer: “É preciso perdoar sempre!”. Diante dessa resposta de Jesus entram as nossas inúmeras desculpas, justificativas e versões que tentam nos manter o máximo possível afastados da tarefa de reconstruir a ponte do perdão.  

            Em alguns casos, essa ponte não deve ser reconstruída, quando se trata de pessoas que não se arrependem do mal que nos fizeram e que continuarão a nos ferir se nos aproximarmos delas. Ainda assim, o perdão é necessário, para que não continuemos a carregar essas pessoas presas dentro de nós, por meio da raiva ou do ressentimento. Perdoar não é dizer que o que aconteceu foi justo. Não é negar a dor. É simplesmente escolher não viver mais a partir dessa ferida. Perdoar não beneficia apenas o ‘ofensor’, mas principalmente o ‘ofendido’, que se liberta das correntes do rancor.

O autor do Eclesiástico deixa claro que o perdão é um remédio poderoso que, derramado sobre a ferida, nos possibilita a cura da mesma: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?” (Eclo 28,3). Neste sentido, a ciência já demonstrou que o perdão reduz sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Por outro lado, a atitude de guardar rancor nos adoece, provocando insônia, dores no corpo, taquicardia, crises de angústia etc. A atitude de decidir perdoar diminui em nós o estresse e a ansiedade. Pessoas que perdoam tendem a experimentar menos sintomas depressivos e um aumento na satisfação com a vida.

Quando insistimos em não perdoar, estancamos o rio da nossa vida interior. A água que poderia levar embora o que aconteceu fica parada, e água parada apodrece. Já sabemos que “mágoa” significa “má água”. Cada vez que remoemos o que nos aconteceu bebemos água envenenada. Jesus nos convida a deixar a água da nossa vida interior voltar a correr, a fluir, e a levar embora as ofensas que recebemos. Em outras palavras, perdoar não é apagar o passado, mas sim mudar a forma como o presente é vivenciado em relação a esse passado.

Ao decidir perdoar, não negamos o que aconteceu, mas escolhemos olhar para os fatos com menos sofrimento e dor, libertando-nos das amarras emocionais que nos prendem. Na parábola contada por Jesus, o homem que decidiu não perdoar foi jogado numa prisão e passou a ser torturado frequentemente dentro dela. Conosco acontece a mesma coisa: ao não querer perdoar, trancamos a pessoa que nos feriu dentro de nós, e somos torturados todos os dias por meio da mágoa, da raiva, do ressentimento ou do ódio. Neste sentido, o autor do Eclesiástico nos adverte: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar” (Eclo 28,6). Estamos cada vez mais conscientes do quando a vida passa rápido e é curta, e vamos escolher estragá-la com a raiva ou a mágoa?   

O perdão é um processo. Ele é construído aos poucos, exatamente como uma ponte. O importante é nos mantermos firmes na decisão de perdoar, dizendo a Deus: “Senhor, eu quero perdoar. Mesmo que doa, mesmo que eu ainda não saiba como”, e dizendo a nós mesmos: “Eu escolho não carregar esse peso. Eu escolho a paz. Eu escolho seguir em frente”.

Passos para o perdão (reconstrução da ponte): 1. Reconhecer a dor (admitir a raiva, a mágoa, o ressentimento que está dentro de mim). 2. Refletir: a minha reação foi proporcional à ofensa sofrida? O que provocou a discussão? A pessoa que me feriu também estava ferida? 3. Decidir perdoar, isto é, decidir viver não mais preso à dor do passado. 4. Diálogo sincero e honesto com a pessoa que me feriu.

O perdão que recebemos de Deus gera vida em nós: “Ele te perdoa toda culpa, e cura toda a tua enfermidade; da sepultura ele salva a tua vida e te cerca de carinho e compaixão” (Sl 103,3-4). Ora, o perdão de Deus está condicionado ao perdão que somos chamados a dar aos irmãos: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt 18,35). Não sejamos coveiros de nós mesmos. Não enterremos pessoas vivas dentro de nós. Sejamos construtores de pontes sobre o abismo da separação, da inimizade, do ódio. “Aquele que decide não perdoar os outros está destruindo a ponte sobre a qual ele mesmo terá de passar” (Edward Herbert, historiador britânico).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

SEM CORREÇÃO NÃO HÁ JUSTIÇA, E A IMPUNIDADE PREVALECE

 Homilia 23º dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 33,7-9; Romanos 13,8-10; Mateus 18,15-20.

 

            Estamos no primeiro domingo do mês da Bíblia, e os textos bíblicos de hoje nos falam de uma importante função da Palavra de Deus em nossa vida: a correção. “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir (grifo nosso), para educar na justiça...” (2Tm 3,16).

            Na primeira leitura, Deus torna o profeta Ezequiel consciente do porquê ele se encontra na Babilônia junto com os exilados: para corrigi-los. Se ele não os corrigir, eles morrerão por causa dos seus próprios erros, mas Deus pedirá a Ezequiel contas da vida dos exilados. Aqui fica claro que todo cuidador tem a difícil missão de corrigir. Um dos livros mais importantes escrito no Brasil é “Quem ama educa” (Içami Tiba). A correção faz parte do educar, e educar faz parte do amar. Todo líder (mãe, pai, responsável, educador, chefe de setor) precisa ter liberdade interior para corrigir quem está sob os seus cuidados.

            Por que muitos líderes não conseguem corrigir? Por medo de perder o afeto daqueles que precisam ser corrigidos. Toda correção causa dor, e se a pessoa corrigida não tem maturidade para aceitar a correção, ela imediatamente retira o afeto que tinha, ou aparentava ter, pelo seu líder ou cuidador. Sendo assim, se a pessoa que precisa fazer a correção tem uma dependência afetiva acentuada, não conseguirá fazer a correção, por não aceitar perder o afeto do outro. Isso torna o líder ou cuidador fraco, e impede a pessoa que precisa ser corrigida de crescer, de melhorar como ser humano.

            Jesus fala da importância da correção na vida comunitária (Igreja): “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão” (Mt 18,15). “Ganhar o irmão” – eis o objetivo da correção. Salvar o irmão do comportamento errado que está machucando a comunidade e levando-o para um caminho de autodestruição. Aquele que corrige não se alegra por ter feito prevalecer a sua verdade sobre o outro, mas por tê-lo salvo do erro, da mentira, do engano.

            Conforme Jesus ensina, a primeira tentativa de correção deve ser feita em particular: eu e a pessoa que está errando. No entanto, talvez ela não admita que precisa mudar de atitude. Então, eu devo chamar uma ou duas pessoas que me ajudem a convencer a pessoa da sua necessidade de mudança. Contudo, talvez essa segunda tentativa não funcione. Então, faço uma última tentativa: peço que o líder espiritual da comunidade fale com essa pessoa. Se mesmo assim ela se recusar a se corrigir, o líder deverá separá-la da comunidade, pois o erro dela não pode continuar a causas estragos na vida comunitária.

            Todo esse caminho de correção do irmão tem por objetivo deixar claro que erros existem para serem corrigidos, e não tolerados. Por exemplo, quando o bispo, por ser dependente afetivo, não tem pulso firme com padres que, por onde passam, não somente machucam, mas danificam financeira, pastoral e/ou espiritualmente a paróquia, está não somente favorecendo a impunidade, como também se desmoralizando como autoridade eclesial. Neste aspecto, o Evangelho de hoje é muito claro: depois de muitas tentativas e até de transferências de paróquia, se o padre não muda seu comportamento, deve ser interditado, para não continuar a fazer estragos na vida da Igreja.   

            Trazendo agora a correção para dentro de mim: Eu aceito ser corrigido? Será que sou tão perfeccionista que não admito enxergar falhas em minha postura? A minha ira, diante da correção recebida, é proporcional ou desproporcional? Eu admito a minha humanidade e, com isso, a minha imperfeição? Há em mim abertura e vontade de mudança?  

            Por fim, uma pergunta: Nós aceitamos que Deus nos corrija? “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor educa a quem ama... Toda correção, no momento, não parece motivo de alegria, mas de tristeza. Depois, no entanto, produz naqueles que foram corrigidos um fruto de paz e de justiça” (Hb 12,5-6.11). Nós temos maturidade para nos deixar corrigir pelo Pai? Como lidamos com o natural sentimento de humilhação, quando Deus nos corrige? Correção é como remédio amargo: muito ruim de tomar, mas necessário para curar uma doença grave. Deus nem sempre “pega leve” quando nos corrige, porque seu objetivo não é afagar o nosso ego, mas nos tornar pessoas justas e equilibradas.

           

Alguns pontos para reflexão:

 

1. O erro de um irmão – principalmente se é um líder – não pode prejudicar toda a comunidade. Ou ele se corrige, ou será separado dela.

2. O individualismo nos impede de nos sentirmos responsáveis uns pelos outros.

3. Corrigir não é criticar. Corrigir é encorajar a pessoa a melhorar.

4. A mesma boca que corrige também precisa ser a boca que elogia diante do acerto.

5. Quem se deixa corrigir permanece filho do Pai; quem recusa ser corrigido torna-se bastardo (cf. Hb 12,8).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

VIVER DÓI

 Homilia do 22º dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 20,7-9; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27.

 

“Você não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens” (Mt 16,23). Como nós, seres humanos, pensamos a vida? A partir do perigoso princípio do prazer. Segundo esse princípio, viver significa experimentar ao máximo o prazer, a felicidade, e nos manter o quanto possível distantes da dor. Para o mundo de hoje, “a vida deve ser equipada de tal modo que ela esteja ‘armada’ a todo o momento para o confronto com a dor. O corpo que busca constantemente o prazer, o bem-estar, assume uma constante posição de recusa diante da dor. A ele, a dor aparece como inteiramente desprovida de sentido e de utilidade” (Byung-Chull Han, Sociedade paliativa).  

Em outras palavras, a dor não serve para nada e, portanto, deve ser eliminada. No entanto, o mesmo mundo que fabrica analgésicos e “vende” felicidade através do consumo nos adoece sempre mais, porque não nos prepara para a dor. Os pais de hoje fazem de tudo para manter seus filhos longe da dor e, desse modo, não os prepara para a vida. Quando tiverem que enfrentar a dor, fugirão dela escondendo-se atrás das drogas, de bebidas alcoólicas e do suicídio. Quem se suicida não quer destruir-se; quer apenas calar a voz da dor, cujo grito não suporta mais ouvir.   

Pedro, ao tomar consciência de que Jesus devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (Mt 16,21), reagiu violentamente contra essas palavras de Jesus: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22). Essa reação é também a nossa. Com frequência, invocamos Deus para livrar do sofrimento não somente a nós, mas também às pessoas que amamos. Mas, e se determinado sofrimento faz parte do nosso “eu devo”, isto é, da nossa fidelidade à missão que somos?

Jesus não veio ao mundo para sofrer, mas quis estar junto de quem sofre. Ele também não veio incentivar a humanidade a buscar constantemente a dor, mas a não fugir dela quando é o momento de enfrentá-la. Viver dói. Só sente dor quem está vivo. Além disso, ninguém se torna “gente” sem passar por alguma experiência de dor. Na verdade, a vida nasce da dor: dor do parto, dor da semente que morre para germinar e frutificar, dor de quem decide mudar porque não aceita mais as coisas como são. Só a dor nos humaniza e nos torna solidários com quem sofre.   

A maneira como Jesus lidou com a dor nos ensina que a pergunta correta diante da dor não é “Por que isso comigo?”, mas “Por que não comigo?”. Por que nos consideramos tão “especiais” ou melhores do que os outros que são atingidos por duros sofrimentos neste mundo? Por sua vez, Victor Frankl afirmou: “O sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que encontra um sentido”. O ser humano possui liberdade interior para decidir sempre o que fará com aquilo que lhe aconteceu. “O sofrimento que encontra sentido não deixa de doer, mas deixa de ser apenas escuridão, e passa a carregar, ainda que discretamente, uma possibilidade de transformação” (Elaine Castelo Branco).

A dor, dependendo da maneira como lido com ela, pode ser uma oportunidade de eu me transformar num ser humano melhor. Se eu não aceito nenhum tipo de dor, não consigo ser fiel a nada e a ninguém, nem a mim mesmo. Quando meu principal objetivo de vida é não sofrer, é me manter distante o máximo possível da dor, eu me torno incapaz de fidelidade. Nenhuma fidelidade é possível para uma pessoa que não aceita sofrer.

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). “Renuncie a si mesmo”. Somos pessoas capazes de renunciar? Toda renúncia é, de certa forma, uma “agressão” ao nosso ego, um “não” que dizemos a nós mesmos, uma “frustração” que causamos aos nossos desejos e caprichos. Toda renúncia é um “podar-se”, lembrando que a poda é sempre em vista da produção de um fruto melhor. Pessoas capazes de renunciar tornam-se mais fortes humana e espiritualmente; tornam-se capazes de atingir seus objetivos, porque suas energias psíquicas e espirituais estão canalizadas para a meta a que são chamadas a alcançar. Aprendamos com Jesus a renunciar a tudo aquilo que é necessário para que nos tornemos seres humanos melhores, cristãos melhores, discípulos fiéis.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A PERGUNTA FUNDAMENTAL

 Homilia do 21º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 22,19-23; Romanos 11,33-36; Mateus 16,13-20.

 

A pergunta fundamental: “Quem eu sou, para você?”. Essa pergunta vem acompanhada de algumas outras: O que eu significo para você? Por que você decidiu me seguir? O que você espera de mim? Qual lugar eu ocupo em sua vida, no dia a dia?

Esses questionamentos de Jesus têm um único propósito: nos fazer passar de uma simples opinião para uma verdadeira convicção de fé, da superficialidade para a profundidade, do anonimato de quem se mistura com a massa para um posicionamento pessoal claro, do conhecimento de Jesus segundo a carne e o sangue (entendimento humano) para o conhecimento segundo o Espírito de Deus.

“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”, respondeu Pedro. Num momento em que Jesus começava a perder seguidores, por causa das exigências do seu Evangelho, além de ser cada vez mais perseguido e atacado pelos líderes religiosos do judaísmo, Pedro expressa a sua convicção de fé, como se dissesse: eu não estou seguindo um simples milagreiro, nem um líder político, nem um solucionador de todos os meus problemas, nem muito menos alguém que veio me fazer prosperar e ser feliz; eu estou seguindo o Filho único de Deus, que foi ungido pelo Espírito Santo, o único Salvador do ser humano, a única fonte de sentido para a vida de quem quer que seja.

Jesus é “o Filho do Deus vivo”. Não é um ídolo que tem boca e não fala, tem mãos e não age, tem imagem, mas não se faz presente, que, no passado, curou, perdoou, libertou, resgatou e salvou muitas pessoas, mas que hoje não se manifesta em minha vida. Ele está vivo e caminha ao meu lado, e ainda que minha vida passe por mudanças cada vez mais rápidas, “Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje; ele o será para sempre” (Hb 13,8). Passarão o céu e a terra, mas as suas palavras permanecerão como fonte última de verdade para guiar todo ser humano que acolhê-las com fé (cf. Mt 24,35).

“Quem eu sou para você?”. A resposta que damos a essa pergunta não é a mesma todos os dias, em todas as situações que vivemos. Ela muda porque, embora Jesus seja o mesmo ontem, hoje e sempre, nós não o somos. Nossa vida muda constantemente, o que gera em nós instabilidade e insegurança, não só emocionais, mas também espirituais. Para muitos de nós, a resposta sobre quem é Jesus é uma quando nasce um filho, mas outra quando se perde tragicamente o filho amado; é uma quando se tem saúde, mas outra quando se adoece gravemente; é uma quando se obtém uma vitória em alguma área da vida, mas outra quando se tem que amargar um duro fracasso.

A resposta sobre quem Jesus é para você não tem como ser copiada de outra pessoa, nem mesmo da Sagrada Escritura. A mulher samaritana poderia responder: ‘Jesus é para mim o homem que curou minhas feridas afetivas e me libertou dos meus falsos maridos’ (cf. Jo 4,5-42). Zaqueu poderia responder: ‘Jesus é para mim o homem que trouxe a salvação para a minha casa e me libertou da ganância pelo dinheiro’ (cf. Lc 19,1-10). O oficial romano poderia responder: ‘Jesus é para mim o Filho de Deus, cuja Palavra teve autoridade espiritual para curar o meu empregado, mesmo sem Ele se fazer fisicamente presente em minha casa’ (cf. Mt 8,5-13). Nenhuma pessoa do Evangelho que teve um encontro com Jesus pode nos oferecer uma resposta pronta. Essa resposta é responsabilidade nossa, e não podemos transferi-la para ninguém mais.      

É no chão da nossa existência única e irrepetível que Jesus continua pondo seus pés e nos perguntado individualmente: “Quem eu sou para você?”, uma pergunta que se levantará diante de nós em cada situação que temos que enfrentar, sobretudo diante de cada dor, perda, crise, angústia, depressão ou perda de sentido de vida. Da nossa resposta a essa pergunta depende a nossa cura, libertação, ressurreição e salvação. E se Jesus “ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Cristo” (Mt 16,20) é por que só a experiência da cruz pode revelar o quanto é verdadeira a nossa fé n’Ele como Filho do Deus vivo. Em outras palavras, toda e qualquer ideia, teoria ou sentimento que possamos ter em relação à pessoa de Cristo só se mostrarão verdadeiros na hora em que estivermos enfrentando uma experiência de cruz.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi



quinta-feira, 13 de agosto de 2026

COM A VIRGEM MARIA, DEIXAR-NOS ELEVAR ATÉ DEUS

Homilia Assunção da bem-aventurada Virgem Maria. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab; 1Coríntios 15,20-27a; Lucas 1,39-56.

 

            A liturgia de hoje nos coloca diante do dogma (afirmação de fé) da Assunção de Maria. Nossa Igreja crê que a Virgem Maria foi elevada em corpo e alma ao céu após a sua morte, não tendo o seu corpo sido corrompido, pois ele foi o sacrário vivo que gerou Jesus Cristo para o mundo. O corpo que gera o Sagrado torna-se também sagrado, e o sagrado não pertence à terra, mas ao céu. “Sendo Maria a ‘cheia de graça’, sem sombra alguma de pecado, quis o Pai associá-la à ressurreição de Jesus” (Missal dominical).

            Maria elevada ao céu é sinal de esperança para a própria humanidade, pois a sua elevação ao céu aponta para a “meta final da redenção: a glorificação da humanidade em Cristo. Maria chama hoje os cristãos a se considerarem inseridos na história da salvação e destinados a conformar-se a Cristo na glória... É a mãe que nos espera e convida a caminhar para o reino de Deus” (Missal dominical). Somos chamados, portanto, a renovar a nossa esperança e a nossa fé, pois, assim como Deus recolheu Maria, no final de sua vida, também nos recolherá para junto de Si do seu Reino.  

A solenidade de hoje é ocasião para fortalecer a convicção de que o nosso destino é voltar para Aquele a Quem sempre pertencemos. Justamente porque não pertencemos à terra é que estamos destinados à glorificação no céu. Se aqui na terra temos que enfrentar um grande Dragão, o Maligno que nos ataca de muitas maneiras, devemos saber que toda fidelidade encontra seu destino na glória. As nossas lutas não ficarão sem resposta; as nossas lágrimas não serão derramadas em vão. Ainda que tenhamos que atravessar as sombras desta vida, manteremos nossos olhos fixos na luz, que é Cristo ressuscitado.

A Mulher perseguida pelo Dragão nos revela que o mundo sempre será para nós, cristãos, o lugar do combate, da ameaça, de uma fidelidade custosa, o tempo em que o mal parece prevalecer nos seus ataques, mas devemos saber que não estamos sozinhos nesse combate; o Senhor Deus nos socorre com a força do Seu braço, como Maria declarou: “o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,49); sua poderosa mão nos socorre, nos protege e nos impede de sermos alcançados pelo mal.

Maria assunta ao céu é também Maria que teve seu coração ferido pelos sofrimentos que seu Filho enfrentou no mundo, conforme profetizou Simeão: “Uma espada de dor traspassará tua alma” (Lc 2,35). Sua glorificação no céu é o cumprimento da promessa feita a todos nós: “Se participamos dos sofrimentos de Cristo, participaremos também da sua glória” (Rm 8,17). Assim como Jesus e sua Mãe, a Igreja encontra-se num mundo que fragiliza a vida e favorece constantemente a morte. Mas sabemos que nesse combate somos sustentados pela certeza da vitória de Deus, como diz a Palavra: “Se nós trabalhamos e lutamos, é porque pomos a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, sobretudo dos que têm fé” (1Tm 4,10).

A visita de Maria a Isabel, levando àquela família a alegria do Espírito Santo, questiona o fechamento das nossas famílias em si mesmas e a ausência nossa, enquanto Igreja, das famílias que precisam ser visitadas pela ação consoladora do Espírito Santo. Inúmeras famílias perderam a direção do céu e se sentem distantes de Deus. Nelas não há espaço para a fé, a esperança e o amor, porque se encontram voltadas para baixo, enterradas na desorientação, na descrença, na inimizade; sua esperança foi substituída pela apatia; quando não, pela escravidão do consumismo, um consumismo que, além de trazer vazio, endivida e gera ainda mais conflito e discussão em casa.

“Querer formar uma família é ter a coragem de fazer parte do sonho de Deus, a coragem de sonhar com Ele, a coragem de construir com Ele, a coragem de unir-se a Ele nesta história de construir um mundo onde ninguém se sinta só”, afirma o Papa Francisco (AL n.322). Que todas as famílias experimentem a força do braço do Senhor a libertá-las e a protegê-las do poder destrutivo do mal. Que cada família seja visitada pela força do Alto, que é o Espírito Santo, e trabalhe no sentido de desenterrar-se, de desejar voltar a viver, de olhar para o céu e deixar-se elevar até Deus.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

OUVIR O SUSURRO DE DEUS PARA ALÉM DO BARULHO DAS TEMPESTADES

 Homilia do 19º dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13a; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.

 

            Por causa das mudanças climáticas, as tempestades estão aí, manifestando a sua violência cega, ferindo, destruindo e até mesmo matando. Mas existe também outro tipo de tempestade. É aquela interior, nascida como consequência de um pecado grave, de atitudes movidas pela ira, do esgotamento de quem ultrapassa seus limites e, sobretudo, da falta de confiança em Deus. O fato é que nenhum ser humano atravessa o mar da vida sem lidar com ventos contrários e tempestades.

            O texto do primeiro livro dos Reis descreve a tempestade interior do profeta Elias. Fugindo da ameaça de morte da rainha Jezabel, ele atravessa o deserto e sobe ao monte Horeb, para procurar refúgio em Deus. É noite, o momento em que a ansiedade, o medo e as preocupações gritam conosco, o momento em que nos sentimos frágeis e até mesmo desolados. Nessa situação nós só podemos clamar: “Tende piedade, ó meu Deus, tende piedade, pois eu me abrigo em ti; eu me abrigo à sobra de tuas asas, até que passe a tempestade” (Sl 57,2).

            Na oração, nós silenciamos para ouvir a voz de Deus acima do barulho da tempestade. Antes do Senhor, porém, veio um furacão, um terremoto e um incêndio. Mas o Senhor não estava neles. Elias só conhecia Deus pela força da violência, do radicalismo e do fanatismo religioso. Por isso, Deus se ausenta da sua fúria humana, para fazê-lo conhecer a Sua verdadeira face no murmúrio de uma brisa suave. A brisa suave é uma das imagens bíblicas do Espírito de Deus no Antigo Testamento. Se o vento contrário das tempestades nos assusta, o vento do Espírito de Deus nos conduz para fora da tempestade, devolvendo-nos serenidade e clareza interior para continuarmos a conduzir a nossa vida.

            Assim como o profeta Elias, todo pai precisa refugiar-se em Deus, a fim de não ser engolido pelas tempestades da vida. Se o mundo todo passa por um enfraquecimento da figura masculina, aquele que recebeu o dom da paternidade precisa apoiar-se diariamente no Pai do céu, aprender a ser forte consigo mesmo, enfrentar a sua tempestade interior e se render ao fato de que seus obstáculos serão vencidos “não pelo poder, não pela força, mas por meu Espírito, diz o Senhor” (Zc 4,6). Aquele que chamou o homem à paternidade também lhe sustentará na fidelidade diária a essa tarefa, por meio do seu Santo Espírito.

            Olhemos agora para as tempestades externas que nos atingem com violência: guerras, doenças, desigualdade social, ameaças, cobranças, dificuldade financeira etc. Sempre que elas se levantam nós, acabamos por questionar se Jesus realmente está conosco, conforme prometeu. Mas o Evangelho nos diz que, o fato de Jesus permanecer diante da face do Pai orando em nosso favor (cf. Hb 9,24), não significa que seremos poupados de tempestades. Se nenhum vento contrário atingir uma árvore em crescimento, ela não terá raízes profundas, nem um tronco forte, e tombará diante de qualquer ventania. Assim, as tempestades estão aí para que aprofundemos as raízes da nossa fé.

            “Homem fraco na fé, por que você duvidou?” (Mt 14,31). Pedro tinha duas opções, no meio da tempestade: manter os olhos fixos em Jesus, e continuar caminhando sobre o mar tempestuoso, ou direcionar os olhos para o furor da tempestade. “Quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14,30). Somos pessoas fracas na fé, quando damos deixamos o medo e a angústia alimentarem o desespero e o pessimismo em nós, por causa das tempestades que enfrentamos. Somos pessoas fracas na fé, quando queremos garantias da parte de Jesus de que conseguiremos fazer a travessia; do contrário, nos recusamos a entrar na barca com ele. Somos pessoas fracas na fé, quando fazemos tempestade em copo d’água diante de tudo o que escapa do nosso controle, quando deveríamos confiar no Espírito Santo que nos fortalece, sustenta e conduz.

“Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’” (Mt 14,32-33). Pessoas fortes na fé não se prostram diante das tempestades, mas, sim, diante do Filho de Deus, que tem o poder de silenciá-las. Portanto, ao Senhor Jesus supliquemos: “Salva-me, ó Deus, pois a água sobre até o meu pescoço! Afundo num lodo profundo, sem nada que me afirme; entro no mais profundo das águas, e a correnteza vai me arrastando... Não escondas tua face ao teu servo! Estou angustiado, responde-me depressa! Quanto a mim, curvado e ferido, que tua salvação, ó Deus, me levante!” (Sl 69,2-3.18.30).  


Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 31 de julho de 2026

FOME PARA ALÉM DE PÃO

 Homilia 18º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,1-3; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21.

 

            A fome é uma necessidade básica que exige ser satisfeita. Diante dela, não cabem discussões políticas, mas a atitude que Jesus espera de cada um de nós, seus discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Quem está com fome à minha volta? Talvez, alguém que eu não conheça, ou alguém que um dia me prejudicou, que se tornou meu inimigo... Ainda assim, somos chamados a repartir com ele nossos cinco pães e nossos dois peixes, lembrando que, no momento do nosso julgamento, Jesus nos dirá: “Tive fome, e me destes de comer” (Mt 25,35), ou “Tive fome, e não me destes de comer” (Mt 25,42).

            Em 2021, o trilionário Elon Musk prometeu à ONU vender ações da Tesla, uma de suas empresas, para combater a fome no mundo, desde que a Organização detalhasse exatamente como o dinheiro seria gasto. A ONU lhe apresentou um plano detalhado, mas até hoje Elon Musk não se pronunciou mais sobre o assunto. É típico dele não cumprir suas promessas.

            Atualmente, 25% da população mundial sofre diariamente com a fome. A fome não é causada simplesmente pela falta de alimentos. Ela é resultado de uma combinação de fatores sociais, econômicos, ambientais e políticos. Por trás desses fatores está a ganância desmedida dos que acumulam riqueza somente para si. São eles que determinam os rumos da política e da economia globais, que desrespeitam as leis de proteção ambiental e que fabricam guerras, cuja consequência direta é a fome.

            Diante da fome da multidão que veio ouvir sua Palavra e da reação dos discípulos que queriam se livrar daquele enorme problema, Jesus não fez nenhum discurso político, mas encorajou seus discípulos a enfrentarem o problema: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Quando a fome é detectada – carência de afeto, de diálogo, de responsabilidade ou mesmo de dinheiro, cada membro da família deve envolver-se na solução do problema. A solução não é distanciar-se do problema fechando-se em si mesmo.  

            A nossa primeira reação diante da carência, da necessidade, é reclamar da falta de recursos, desprezando os pequenos recursos que temos: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). Nós nos esquecemos da sabedoria popular: “O pouco com Deus é muito, e o muito sem Deus é nada”. Quando alguém pergunta: “Onde está Deus, diante da fome do mundo?”, Deus responde com outra pergunta: “O que você está fazendo com os cinco pães e os dois peixes que Eu lhe dei?”.

            O nosso grande erro é pensar que somente muito recurso pode resolver uma grande fome. A desnutrição emocional de filhos que não recebem afeto dos pais e de casais que não se dão mutuamente o pão do afeto provém do fechamento de cada um em si mesmo e do pensar que os cinco pães e os dois peixes de uma palavra, de um gesto, de uma presença, ou mesmo de uma oração, não irão resolver nada. Engano. Jesus espera que entreguemos esses pequenos recursos em suas mãos, recursos que, ao se tornarem fonte de agradecimento ao Pai e não de reclamação, se transformam em uma fonte de bênçãos para todos.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Mt 14,20). Quando cada um coloca o que é seu para ajudar na solução de um problema, ele é resolvido e todos se beneficiam. É muito triste quando uma família, uma empresa ou uma comunidade de fé definha de fome porque cada um que faz parte dela se recusa a partilhar seus cinco pães e seus dois peixes. E quantas vezes o motivo da recusa não é o medo de ficar sem nada, mas o orgulho, a raiva, a mágoa, o desejo de ver o outro sofrer, não percebendo que esse sofrimento acaba sendo partilhado por todas as pessoas que compõem aquele “corpo”...   

            “E dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (Mt 14,20). A reclamação mais comum que se ouve, até mesmo antes do final do mês, é: “não sobrou nada”. Por que não sobra? Nem sempre é porque o salário é pouco; muitas vezes é porque não existe planejamento. Compra-se impulsionado pela emoção, esquecendo que a propaganda nunca apela para a razão, mas sempre para a emoção. Além disso, a imensa maioria dos brasileiros tem um grande parceiro no seu endividamento: o cartão de crédito. Ele consome 54% do orçamento familiar, cobrando juros altíssimos.

            O milagre da sobra é possível quando você decide não gastar além do que ganha, se libertar da dominação demoníaca do consumismo e parar de se comparar com os outros. Toda dívida traz o inferno para dentro de casa, e se não quisermos viver nesse inferno precisamos nos perguntar, diante de cada impulso pelo comprar: eu realmente preciso disso? Qual fome eu estou querendo saciar?

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi