quarta-feira, 11 de março de 2026

UNGE OS MEUS OLHOS, PRECISO OLHAR ALÉM!

 Homilia 4º dom. Quaresma: Palavra de Deus: 1Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Efésios 5,8-14; João 9,1-3.6-9.13-17.24-25.31-41.

 

            Este cego de nascença, curado por Jesus, fala sobre a deficiência da nossa visão, já revelada na primeira leitura: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7). Nossa visão é sempre superficial. Além disso, o excesso de visualização de imagens, mensagens e vídeos não permite que nós meditemos sobre aquilo que estamos vendo. Isso faz com que olhemos com pouca ou nenhuma atenção. Assim, no dia a dia convivemos com pessoas sem vê-las, sem olhar para elas com profundidade. E sem esse olhar profundo, não prestamos atenção ao que as pessoas  podem estar nos comunicando.

            “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (Jo 9,1). Jesus enxerga um homem que não pode enxergá-lo. Isso nos lembra da experiência que Agar, escrava de Sara, fez de Deus, enquanto chorava no deserto: “O Deus que eu não posso ver me fez enxergar, quando eu não via mais saída para a minha vida” (citação livre de Gn 16,13-14). O Deus que não vemos nos vê; Ele enxerga tudo o que se passa conosco e tudo o que existe dentro de nós e é desconhecido não só pelos outros, mas também por nós mesmos. “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração! Perscruta-me, e conhece minhas preocupações! Vê se não ando por um caminho fatal e conduze-me pelo caminho eterno” (Sl 139,23-24).

            Assim como Jesus, seus discípulos também viram o cego de nascença, mas a visão deles era distorcida: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9,2). Como vemos somente a aparência e não o coração, nosso olhar se engana ao interpretar aquilo que vemos. A visão religiosa mais distorcida é a de causa e efeito: diante do efeito – sofrimento –, interpreta-se erroneamente a causa – castigo divino. O judaísmo da época de Jesus acreditava que a criança podia pecar ainda no ventre da mãe, o que explicaria porque ela nasceu com alguma deficiência.

Jesus veio corrigir a visão distorcida que nós temos a respeito de Deus e do sofrimento: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (Jo 9,3). É uma imensa crueldade e um grande engano dizer a uma pessoa que está sofrendo que a razão do seu sofrimento se deve aos pecados que ela cometeu. Jesus entende que toda situação de sofrimento é ocasião para que se manifeste a glória do Pai, ou seja, o seu amor que restaura a vida de cada criatura e, sobretudo, de cada ser humano. Desse modo, Jesus faz barro e unge os olhos do cego, mandando que ele se lave na piscina. Se o barro recorda, biblicamente, a criação do ser humano (cf. Gn 2,7), Jesus toca na criação adoecida a fim de curá-la, pois Ele veio completar a obra iniciada pelo Pai: “Completai em mim a obra começada. Ó Senhor, eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos” (Sl 138,8).      

“Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. Os fariseus então disseram ao cego curado: ‘Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado’” (Jo 9,14.16). Uma vez que as lideranças religiosas judaicas não conseguem negar o milagre que Jesus realizou, procuram desacreditá-lo perante o povo, afirmando que ele não veio de Deus. Mas o homem curado se posiciona com firmeza: “Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada” (Jo 9,32-33). Um homem que nunca enxergou desmascara a inveja religiosa dos líderes judaicos e a sua obstinação em não querer enxergar os fatos. Estes, por sua vez, escancaram a verdade da sua presunção religiosa: “Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?” E expulsaram-no da comunidade (Jo 9,34).

Devemos tomar muito cuidado com fundamentalistas religiosos, que fazem sucesso na Internet e têm muitos seguidores. São pessoas presunçosas, que procuram desacreditar o Magistério da Igreja (Papa e CNBB), para cegarem seus adeptos com o seu “magistério paralelo”, afirmando que a Igreja sempre foi conservadora. Jesus nunca foi um conservador; prova disso é a cura que acabamos de ver, realizada num dia de sábado. Portanto, se alguns líderes religiosos cegam seus seguidores, Jesus veio nos libertar de todo tipo de cegueira, sobretudo da mais perigosa, que é a cegueira causada pela religião.  

No final do Evangelho temos dois homens que foram rejeitados pela religião: Jesus (“Apanharam pedras para atirar nele; Jesus, porém, ocultou-se e saiu do Templo” – Jo 8,59) e o homem curado (“Expulsaram-no da comunidade” – Jo 9,34). Tanto fundamentalismo político quanto o religioso são adeptos da violência, quando se trata de defender a cegueira das suas respectivas visões fundamentalistas de mundo. A boa notícia é que Jesus sempre resgata o que a religião descarta.

Uma palavra final: a constante busca por aprovação pode impedir que uma pessoa seja curada da sua cegueira. Ela não consegue suportar “ser expulsa” do círculo em que se habituou a viver, enxergando a vida a partir da visão distorcida dos seus amigos. Somente quem aceita romper com sua dependência de “guias cegos”, e suportar a solidão de começar a enxergar a vida por si mesmo, é que consegue ter uma visão melhor de si, do mundo e do próprio Deus.

"Unge os meus olhos, preciso olhar além, e me lançar sem medo ao novo que Tu tens!" (Celina Borges, Da tua unção).

 Pe. Paulo Cezar Mazzi  

           

quinta-feira, 5 de março de 2026

DA VERDADE É A NOSSA SEDE MAIS PROFUNDA

Homilia do 3º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-15.19b-26.39a.40-42 (forma breve).

 

    1. Sede.

A água é o principal componente do corpo humano, representando cerca de 60% do peso corporal de um adulto saudável. Quando a ingestão de água fica abaixo do necessário, o organismo dá sinais, como dores de cabeça, cansaço, dificuldade de concentração, pele ressecada e intestino preso. Mas existe também outro tipo de sede: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, meu corpo também vos deseja, como terra árida, sedenta e sem água” (Sl 63,2). A sede mais profunda do ser humano é a sede da comunhão com Deus.

Algumas vezes, o desejo imediato de saciar a nossa sede pode pôr a perder o processo da nossa libertação. Por causa da sua sede no deserto, o povo de Israel duvidou de Deus: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17,7). Caminhar com Deus não significa ter a nossa sede imediatamente satisfeita, mas suportá-la como parte do processo de quem está se libertando de algum tipo de escravidão. Além disso, o mesmo Deus que nos liberta é aquele que nos sustenta na travessia do nosso deserto: “Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai. Eu estarei lá, diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber” (Ex 17,5-6). Quando o nosso coração se endurece como pedra, precisa ser ferido por Deus, para dele que volte a escorrer água.

 

2. Cristo, fonte de água viva!

São Paulo afirma que o rochedo que ofereceu água ao povo era Cristo (1Cor 10,4)! “Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: ‘Dá-me de beber’” (Jo 4,6-7). Jesus comunga da sede que todo ser humano tem de vida, de justiça, de felicidade e de paz. Ele mesmo disse: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).

 

       3. A mulher.   

A samaritana também é cansada e sedenta. Ela está cansada de errar na sua vida afetiva. Já teve cinco maridos e agora vive com um homem que não é seu marido. Ela retrata as inúmeras mulheres sem marido que sustentam sozinhas a casa e os filhos. São mulheres que, apesar da decepção com os homens, desejam ser amadas e têm amor para dar. A sede da samaritana também é a sede por justiça das famílias das mulheres mortas por seus companheiros, por homens que não admitem que “tudo aquilo que não cuidamos, perdemos” (Içami Tiba, “Quem ama, educa!”).

Mas, na Bíblia, o marido simboliza Deus. Paulo afirma que Cristo é o Esposo da Igreja (cf. Ef 5,25-26). A samaritana é o retrato da humanidade que busca a Deus, uma humanidade ferida por religiões que, em nome de Deus, incentivam a violência, justificam guerras e envenenam os corações de seus seguidores de ódio pelo diferente. No Pai e no Filho encontramos o amor que ama incondicionalmente, amor que deseja salvar a todos e que tem uma inclinação maior por aqueles que o mundo não ama.    

 

        4. Jesus, amor que responde ao coração humano.

“Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva... Quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,10.14). Jesus é o dom do Pai para a humanidade. “Quem tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37). A condição para ser curado é reconhecer-se doente; para ser liberto é reconhecer-se prisioneiro de algo ou de alguém; para ser salvo é ter sede. Jesus é dom, e o dom não exige o mérito da pessoa que o deseja ou dele necessite. O amor (de Deus, manifestado em seu Filho, cf. Rm 5,8) não ama porque o outro merece, mas porque precisa ser amado para ser curado, liberto e salvo.

 

        5. A verdade.

Sem dúvida, a mulher samaritana quis a água viva que Jesus lhe prometeu dar. Mas ele a desafiou a reconhecer antes a sua verdade: “Eu não tenho marido” (Jo 4,17). Jesus disse: “Disseste bem, que não tens marido, pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade” (Jo 4,17-18). Muitos passam a vida inteira fugindo da verdade de si mesmos. Gastam tempo, energia e dinheiro tentando sustentar mentiras que os mantenham longe de si mesmos. O resultado é uma vida frustrada e aprisionada no erro. Só quando nos encontramos com a nossa verdade mais profunda é que a nossa vida ganha sentido e as nossas perguntas encontram respostas. Quem encontrou no mais profundo de si a verdade de que é amado por Deus, não aceita mais viver esmolando migalhas de amor dos outros.

 

    6. A missão de testemunhar.

“Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’” (Jo 4,39). Só Jesus pode revelar a verdade que habita no mais profundo da nossa sede, das nossas atitudes muitas vezes erradas, dos enganos a respeito de nós mesmos e daquilo que buscamos na vida. Anunciar o Evangelho é anunciar a “Palavra da Verdade” (Ef 1,13). Mesmo sem ter consciência disso, todo ser humano deseja e aguarda essa Palavra, porque ela é o Evangelho da salvação (cf. Ef 1,13). Que a nossa vida seja um anúncio vivo de Jesus Cristo, para que as pessoas possam proclamar: “Este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42).

08 de março: Dia Internacional da Mulher – Deus abençoe todas as mulheres, concedendo-lhes a luz da verdade, protegendo suas vidas e reavivando o Seu amor no coração de cada uma delas! 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NO EVANGELHO ESTÁ A FORÇA DA TRANSFIGURAÇÃO

 Homilia 2º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

 

A imagem de Jesus transfigurado sobre uma alta montanha é uma antecipação do depois no agora da sua existência. Ela é também uma reposta a perguntas que costumamos fazer: Vale à pena lutar pelos valores do Reino? Existe mesmo uma recompensa para a minha dor e uma esperança para o meu futuro (cf. Jr 31,16-17)? A justiça que não encontramos aqui na terra será restabelecida no céu? O silêncio de Deus, que nos acompanha no dia a dia, será um dia finalmente rompido? As sementes que hoje lançamos com o nosso trabalho frutificarão amanhã? Será mesmo verdade que aqueles que esperam no Senhor jamais ficarão desiludidos (Sl 25,3)?

A cultura do consumo nos ensina a viver o dia de hoje, a sermos felizes e a desfrutar da vida agora, porque o depois é incerto, o amanhã talvez não exista. Desse modo, fechados quanto à esperança no depois, corremos o risco de nos deixar desfigurar por um presente marcado por uma dor que nos consome, por uma injustiça em relação à qual nos sentimos impotentes, por uma compreensão da vida fechada a toda esperança de mudança, de libertação e de salvação.

Mas hoje, o Pai nos faz subir com Jesus a uma alta montanha, para que ali possamos ter uma visão mais profunda da nossa existência: nós não estamos destinados a um fim – destruição, morte –, mas a uma finalidade. A força pascal que já estava escondida no corpo de Jesus – revelada na sua transfiguração –, também nos habita, por meio do Espírito Santo. O mundo não pode ver essa força, e nem mesmo nós a sentimos, na maior parte do tempo, mas ela nos habita desde o batismo. Desse modo, não nos fechamos ao que somos agora, mas nos mantemos abertos ao que seremos, como pessoas transfiguradas, porque destinadas à glória, junto com nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 8,17.30; Fl 3,20-21).

O Pai quis que os mesmos discípulos que veriam seu Filho desfigurado, na agonia do Horto das Oliveiras, o vissem antes transfigurado, cheio de luz e de glória. Assim como aqueles três discípulos, nós somos chamados a purificar o nosso modo de ver a nós mesmos e a realidade à nossa volta, como nos ensina o apóstolo São Paulo: “Não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2Cor 5,18). O que vemos é transitório: jovialidade e envelhecimento, força e fraqueza, sucesso e fracasso, fama e anonimato, saúde e doença, mas o que não podemos ver é eterno: a presença oculta do Espírito do Pai e do Filho que habita em nós e em toda a criação, o que nos leva a crer que “os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que será revelada em nós, assim como em toda a criação” (citação livre de Rm 8,18-23).

Existem duas formas de vivermos a nossa vida: fechados no presente (desfiguração), ou abertos ao futuro (transfiguração). Quando Abraão, o pai da nossa fé, estava preso ao seu presente desfigurado (sem terra e sem filho), Deus o visitou e o convidou a deixar sua vida se abrir à transfiguração: “Sai da tua terra e vai para a terra que eu te vou mostrar. Eu te abençoarei e em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (citação livre de Gn 12,1-3). A obediência de Abraão ao chamado de Deus transfigurou sua vida, de modo que, “de um homem já marcado pela morte nasceu a multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia da praia” (Hb 11,12).

O mesmo Deus que chamou Abraão, e em Seu Filho chamou Pedro, Tiago e João, hoje chama a cada um de nós a “sofrer pelo Evangelho”, fortificados pelo Seu poder, que é o Espírito Santo. Por que viver segundo o Evangelho e anunciá-lo com nossa vida ao mundo comporta sofrimento? Porque o Evangelho é “a Palavra da Verdade” (Ef 1,13), enquanto o mundo, que escolheu as trevas e rejeitou a luz, vive na mentira e na sua disseminação, necessária para continuar a obter lucro sobre as pessoas e dominar os mais fracos. Sofrer pelo Evangelho é não nos resignar àquilo que causa desfiguração na vida dos que mais sofrem e da criação, mas trabalhar pela transfiguração da vida à nossa volta, sustentados pela força do Espírito Santo.       

Onde se encontra a força da transfiguração hoje? Exatamente no Evangelho, como afirma o apóstolo Paulo: Jesus Cristo “não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10). Quem lê os acontecimentos da história iluminado pela luz do Evangelho consegue distinguir o que é transitório e o que é definitivo. Quem se deixa questionar pela verdade do Evangelho não aceita mais viver enganado pelas mentiras do mundo que desfiguram a sua vida, mas decide orientar-se pela verdade da transfiguração que aguarda todo aquele que segue Jesus até o fim. Portanto, sempre que os acontecimentos do presente escurecerem a nossa vida com a sombra da desfiguração, busquemos a luz do Evangelho, que abre a nossa vida ao futuro que Deus tem para aqueles que n’Ele esperam, suplicando-Lhe: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos” (Sl 33,22).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

AS TENTAÇÕES NOSSAS DE CADA DIA

 Homilia 1º dom. quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 2,7-9; 3,1-7, Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11.

            Nossa caminhada quaresmal se inicia com o relato da tentação e do pecado de Adão e Eva. Resumidamente, o ser humano recebeu a vida de Deus e a liberdade de fazer escolhas e de tomar decisões. Tendo diante de si a liberdade de comer de todas as árvores do jardim, com exceção da árvore do conhecimento do bem e do mal, o ser humano começou a questionar: “Por que não posso experimentar isso também?”. Aí entra a voz do tentador: “Deus está escondendo algo de você. Se Ele o amasse, deixaria você fazer tudo o que deseja”. Enganado pelo tentador, que é o pai da mentira, o ser humano se apropriou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que, na prática, significa que ele passou a decidir por si mesmo o que é o bem e o que é o mal.

            Se o tentador, pai da mentira, afirmou ao casal “Não, vós não morrereis!” (Gn 3,4), o apóstolo Paulo afirma claramente: “Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Todo pecado que cometemos gera morte ou em nós mesmos, ou nos outros, ou no mundo à nossa volta. Quando, livremente, decidimos escolher por nós mesmos o que é o bem e o que é o mal, sem nos deixarmos orientar pela Palavra de Deus, nos perdemos dentro de nós mesmos e nos tornamos escravos do tentador, o homicida, aquele que nos perverte em causadores ou colaboradores da morte na sociedade humana.

            Por que caímos com frequência em tentação? Porque aquilo que nos é proposto pelo tentador é sempre “atraente e desejável” (Gn 3,6). O maligno conhece a nossa natureza humana. Ele sabe que costumamos preferir o prazer e não o dever; que preferimos uma mentira suave a uma dura verdade; que preferimos um caminho curto e fácil a um longo e exigente. O maligno conhece o ponto fraco de cada um de nós. Ele sempre nos visita quando não estamos bem, quando sentimos que está nos faltando algo. Seu campo de ação é a nossa frustração, o nosso cansaço, a nossa decepção e a nossa desilusão; a nossa raiva, o nosso desejo de jogar tudo para o alto, numa palavra, o nosso desespero.    

Se o tentador venceu Adão, símbolo de todo ser humano, ele não conseguir vencer Cristo, nosso Salvador. “Como pela desobediência de um só homem
a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça” (Rm 5,18). Na Bíblia, o contrário de uma pessoa pecadora é uma pessoa justa, isto é, uma pessoa que procurar ajustar a sua vida à vontade de Deus. A pessoa justa sente todos os apelos do tentador, mas ela decide obedecer ao Deus da verdade e não ao pai da mentira. A pessoa justa sabe que seu principal problema não são os outros, mas ela mesma, quando decide se entregar aos seus afetos desordenados. A pessoa justa tem como seu modelo de vida a pessoa de Jesus Cristo, tentado em tudo como nós, mas vencedor das tentações.  

Diante da tentação de obedecer cegamente à sua fome de pão, Jesus nos ensina que nós temos a capacidade de sentir o desejo, mas de não consentir que ele nos leve a pecar. Além do mais, a verdadeira fome, o verdadeiro desejo que nos habita, não está no corpo, mas no coração: temos fome e sede de Deus, de sentido e de salvação.

Diante da tentação de usar Deus a nosso favor, sem nos responsabilizar por nossas escolhas e decisões, Jesus nos ensina que a nossa liberdade sempre caminha de mãos dadas com a nossa responsabilidade. Toda atitude nossa tem consequências. Por isso, não podemos, com uma das nossas mãos, criar situações de destruição, enquanto que com a outra mão pedimos que Deus nos proteja e nos salve da destruição.

Enfim, diante da tentação de garantir-se acumulando dinheiro e muitos bens, Jesus nos ensina que tudo o que acumulamos vai apodrecer e ser roubado, e que toda riqueza afasta o ser humano de Deus. Quem segue pelo caminho do enriquecimento pessoal a todo custo será devorado pela ganância sem limites do deus deste mundo, que destrói a saúde, a família, a consciência e a paz de espírito daqueles que livremente escolhem ser seus escravos.   

Ao final do seu combate espiritual, Jesus vence o tentador não com gritos, mas com fidelidade à Palavra de Deus. Ele usa a Escritura como espada e a obediência como escudo. Quanto a nós, tomemos consciência da razão de ser das tentações: “A tentação obriga-nos a lutar, porque sem luta não há vitória. Contudo, somente Deus poderá dar a vitória na luta contra as tentações. Ninguém se torna senhor de si mesmo enquanto não lutar com os demônios que habitam o seu interior e que tentam mandar na sua vida. Além disso, só é possível conhecer o céu quem primeiro conheceu seu próprio inferno interior” (Anselm Grün). Quem deseja viver a vontade de Deus precisa aprender a lutar interiormente.


Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

BREVES INDICAÇÕES PARA O TEMPO DA QUARESMA

 Homilia 4ª feira de cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20 –6,2; Mateus 6,1-6.16-18.

 

Breves indicações para o tempo da quaresma.

 

1.      Quarenta dias – simbolizam, na Sagrada Escritura, o tempo de um processo de cura, de libertação, de mudança interior, de transformação. Um longo tempo para pessoas que não têm mais tempo; pessoas que perdem tempo com futilidades e não acham tempo para cuidar do essencial.

 

2.      Conversão – obedecer a Deus implica, algumas vezes, desobedecer ao nosso desejo. Quando não queremos desobedecer a nós mesmos para obedecer a Deus, pecamos.  

 

3.      Abstinência – exercitar a vontade. Colocar em ordem os afetos desordenados. Não fazer apenas o que se gosta, mas o que deve ser feito. Não viver nas mãos dos desejos insaciáveis, mas tomar a vida nas próprias mãos.

 

4.      Espiritualidade da cruz e não do individualismo. “Reconstrói a tua vida em comunhão com teu Senhor. Reconstrói a tua vida em comunhão com teu irmão. Onde está o teu irmão, eu estou presente nele” (música “Eu vim para que todos tenham vida). “Quando for trazer a sua oferta ao altar e li se lembrar de que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe a sua oferta ali diante do altar e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; depois virá apresentar a sua oferta” (Mt 5,23-24).

 

5.      Melhorar ou intensificar a vida de oração. Rezar não para que o Pai nos dê isso ou aquilo, mas para que cada vez mais saiamos da oração dispostos a fazer a vontade d’Ele.

 

6.      Jejuar – “O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples” (Pe. Adroaldo); ou seja, sair do excesso. Jejuar de imagens (telas) e do olhar do caçador, para o qual tudo é carne a ser devorada. Jejuar de pensamentos negativos e do falar demais. Silenciar mais. Não fugir do confronto diário consigo mesmo(a).

 

7.      Campanha da Fraternidade – Onde Cristo está ferido hoje? “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9). “O pão que tu reténs pertence ao faminto; o manto que guardas no armário é de quem está nu; os sapatos que apodrecem em tua casa pertencem ao descalço; o dinheiro que tens enterrado (hoje, aplicado) é do necessitado” (Basílio de Cesareia, Homilias sobre Lucas 12, p.36).

 

8.      Cinzas – Depois do pecado, Adão ouviu: “Lembra-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3,19). A consciência da própria morte nos ajuda a rever os nossos valores. O que, de fato, importa na vida? “O que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?” (Mt 16,24).

 

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O DESEJO, O PECADO E A LIBERDADE

 Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 15,16-21; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,20-22a.27-28.33-34a.37 (forma breve).

 

 “Não é o muito saber que sacia a alma, mas o saborear internamente as coisas de Deus”, dizia Santo Inácio de Loyola. Partindo deste princípio, tomo a liberdade de me ocupar somente com a parte central do Evangelho de hoje, na sua forma breve: “Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,27-28).

Jesus nos convida a refletir sobre o nosso desejo. Nós não escolhemos sentir desejo. Ele surge em nós a partir das nossas necessidades. No entanto, o ser humano não pode ser reduzido às suas necessidades, porque há nele um desejo maior e mais profundo, um desejo que não encontra satisfação no comer, no beber, no consumir e no ato sexual, mas busca uma resposta no alto, na transcendência; numa palavra, em Deus e somente n‘Ele.

“A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor. A gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor. A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade. A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade” (Comida, Titãs, 1987). “A gente quer inteiro e não pela metade”. O nosso desafio é dialogar com o desejo. Ao querer isso ou aquilo, o quê, de fato, eu estou querendo? Por mais que o meu desejo seja satisfeito, por que eu ainda sinto um vazio dentro de mim?

“Todo aquele que olhar, com o desejo de possuir, já pecou” (citação livre). O desejo nasce em nós pelo olhar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Se todo olhar provoca desejo em nós, nem todo olhar está carregado de pecado. Pecado é escolha. No olhar acidental não escolhemos ver; apenas nos deparamos com uma imagem que desperta desejo em nós. Como esse olhar não é proposital, o desejo que sentimos não é pecado em si mesmo, pois o pecado não entra no campo do sentir, mas do consentir. Já o desejo proposital, intencional, entra no que Jesus disse: “olhar com o desejo de possuir”. Quando eu escolho ver algo que vai despertar desejo em mim, já tenho a intenção de pecar.

Entre sentir desejo e o ato de pecar existe algo precioso e sagrado que nos foi dado por Deus: a nossa liberdade. Quando o nosso olhar é acidental, não intencional, nossa liberdade está preservada; quando ele é proposital, intencional, nossa liberdade está comprometida, enfraquecida. Se não queremos pecar, temos que frustrar o nosso desejo, mas só teremos força para isso se não sabotarmos a nossa liberdade por meio do olhar proposital, intencional.  

“Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida” (Victor Frankl). Essa grande verdade joga por terra nossas frequentes desculpas: “Foi mais forte do que eu”; “Não tive escolha”; “Foram as circunstâncias”... A verdade é que “o homem não é as suas circunstâncias; o homem é as suas decisões” (Victor Frankl). Sempre que queremos escapar da responsabilidade pelas nossas atitudes, nós a transferimos para fora de nós. Esquecemos de que, junto com a liberdade, Deus nos deu a responsabilidade: “Diante de ti, Ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir” (Eclo 15,17-18).

A causa principal do adultério não está fora de casa, mas dentro: o descuido com a vida sexual do casal. Normalmente, as mulheres desejam afeto, enquanto os homens desejam sexo. Ambos são importantes e necessários na vida a dois. Outra diferença comum: as mulheres são mais sensíveis emocionalmente que os homens. Mágoas e ressentimentos costumam bloqueá-las no desejo sexual. Sem diálogo, perdão e reconciliação, não há sexo. Outro fator: o lugar que os dois dão ao filho, na casa, pode comprometer a harmonia sexual deles. Em resumo, quanto mais o casal cuida da qualidade da sua vida sexual, menos chance de serem feridos pelo adultério. Quanto menos cuidado, mais risco.

            Uma palavra final sobre desejo e pecado: obedecer a Deus implica, algumas vezes, desobedecer ao nosso desejo. Quando não queremos desobedecer a nós mesmos para obedecer a Deus, pecamos. Nossa sexualidade nos foi dada por Deus. O desejo, em si, não é satânico. Satânica é a fome insaciável do nosso ego, que tudo quer para si, uma fome que funciona na base do “o que é demais nunca é o bastante” (Legião Urbana, Teatro dos Vampiros, 1991).

 

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu sou uma pessoa habitada por desejos. O Senhor inscreveu no mais profundo do meu ser a minha sexualidade. Ela fala comigo por meio do que eu penso, sinto, faço e rezo. Peço que o Senhor abençoe especialmente os meus olhos. Que o meu olhar não seja o de um caçador, que enxerga tudo a partir da sua fome de caça. Capacita-me a reconhecer e a dialogar com o meu desejo, buscando compreender a sua necessidade mais profunda. Fortalece a minha liberdade, para eu frustrar o meu desejo sempre que for necessário, e assim não pecar contra ti e contra alguma outra pessoa. Cura as feridas da minha afetividade e da minha sexualidade. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi      



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

SEJAMOS SAL, PARA PRESERVAR A CARNE HUMANA DO APODRECIMENTO

Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 58,7-10; 1Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16.

 

            As imagens do sal e da luz, usadas por Jesus, nos falam da dimensão social da nossa fé. Assim como Jesus, a nossa presença neste mundo contém uma missão. Jesus com frequência dizia: “Eu vim para...”. Cada um de nós, seus discípulos, devemos ter essa consciência: “Eu vim a este mundo para...”. Da mesma forma como o sal existe para preservar os alimentos, sobretudo a carne, do apodrecimento, e dar sabor à comida; da mesma forma como a luz existe para iluminar os que estão num ambiente, assim o sentido da nossa vida reside numa tarefa que a própria vida nos pede para realizar, em favor de alguém ou de uma causa – o Reino de Deus.   

            “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perder a sua capacidade de salgar, não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (Mt 5,13). Sabemos que a principal função do sal, na época de Jesus, era preservar a carne de não estragar (apodrecer). Eis algumas coisas e atitudes que nos apodrecem: alimentos ultraprocessados, frutas e verduras com agrotóxicos, refrigerantes e bebidas alcoólicas, cigarro e outras drogas, excesso de visualização de telas, dormir tarde (celular), ambiente de trabalho nocivo, barulho, não praticar atividade física, falta de contato com a natureza etc.

            Eis, portanto, a dimensão social da nossa fé: qual é a carne que apodrece à nossa volta? Pessoas solitárias, idosos esquecidos, animais abandonados, jovens viciados, moradores de rua, crianças que vivem nas ruas...?

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Neste mundo imenso, com quase oito bilhões de habitantes, frequentemente nos sentimos ignorados e não necessários. Mas Jesus nos recorda da importância da nossa presença cristã no dia a dia das pessoas. O Evangelho que ele nos deixou não é um livro de autoajuda, mas um apelo constante a não nos fecharmos em nós mesmos, sendo indiferentes ao sofrimento das pessoas à nossa volta. É isso que o profeta Isaías nos diz: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne” (Is 58,7).     

             “Não desprezes a tua carne”. Todo ser humano é a nossa carne, necessitado como nós, frágil como nós, exposto às mesmas situações de apodrecimento que nós. Quando desprezamos uma pessoa ou nos tornamos indiferentes para com quem sofre, estamos nos desumanizando. Jesus Cristo “se fez carne” e veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Nossa comunhão com Ele passa não somente pela Palavra e pela Eucaristia, mas também por nossa compaixão para com toda carne ferida à nossa volta. Quando nos tornamos indiferentes a situações de sofrimento ou de injustiça à nossa volta, a luz que somos enfraquece e ficamos mais propensos a termos doenças: “Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa” (Is 58,8).

            A dimensão social da nossa fé é tão necessária, que o profeta Isaías vincula a nossa ajuda a quem sofre com o atendimento das nossas orações por Deus: “Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: ‘Eis-me aqui’” (Is 58,9). Deus não ouve a oração de quem não quer ouvir o grito de socorro de pessoas feridas. Se quisermos ter luz em nós mesmos, levemos a sério essa verdade: “Se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia” (Is 59,10).

            Jesus afirmou que somente quando somos humanos e solidários para com quem sofre é que Deus, o nosso Pai, é glorificado na terra: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Cristãos que vivem uma fé individualista e nada fazem para sanar as feridas sociais à sua volta, contribuem para que a humanidade perca a fé em Deus. Um cristão que, todos os dias, dobra seus joelhos para rezar, mas não se inclina e não se aproxima das pessoas e da própria Criação ferida à sua volta, desacredita a Pessoa de Deus e faz os ateus se firmarem mais ainda nas suas convicções.  

           

            Nossa oração:

 

            Deus de bondade e compaixão, o Senhor me chamou à existência para que eu seja a presença da Tua misericórdia junto a todo ser humano que está ferido e exposto a uma situação de apodrecimento. Fortalece o sal que sou, pela graça do Espírito Santo. Não posso viver minha fé de maneira individualista, mas em comunhão com todo ser humano, especialmente com aquele que a vida me chama a ajudar. Concede-me a Tua luz, para que eu seja guiado(a) pela Verdade e não me perca na desorientação atual do mundo. Não permita que eu me desumanize e me torne indiferente ao pedido de socorro das pessoas e da Criação. Que as mãos que eu elevo para orar e para receber o Corpo de Teu Filho Jesus Cristo trabalhem para curar as feridas sociais à minha volta. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi