quinta-feira, 16 de abril de 2026

O RESSUSCITADO NOS FAZ VER (INTERPRETAR) OS ACONTECIMENTOS RUINS DE OUTRA FORMA

 Homilia do 3º. Dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14.22-33; 1Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35.

 

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém!” (Lc 24,13). Geograficamente, existem quatro lugares possíveis onde seria Emaús, mas o caminho que nos leva até lá é muito conhecido! É o caminho da desistência, do desencanto; um caminho que nós trilhamos com muita frequência, sempre que perdemos a nossa esperança. É o caminho da decepção consigo mesmo, ou com os outros, ou com a Igreja, ou com a vida, ou com o próprio Deus.

“Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24,14-16). “Onde está o Ressuscitado em minha vida?”, talvez você se pergunte. Ele está caminhando ao seu lado. Ele escuta a sua dor e as suas perguntas. Ele respeita o tempo que você precisa para digerir as coisas. Ele quer que você desabafe e fale tudo o que está engasgado na sua garganta. Ele o(a) incentiva a dar nome ao que você está sentindo, a tentar descrever com palavras a sua falta de esperança: “Nós esperávamos” (Lc 24,21).

Embora o Ressuscitado pise no mesmo chão que nós e comungue do nosso desencanto, da nossa perda de sentido, nós somos incapazes de reconhecê-lo, e o motivo é um só: nossos olhos estão presos à nossa dor, impedidos de olhar para além da nossa tristeza. Essa incapacidade de ver o Ressuscitado junto a nós é resultado da forma como interpretamos as coisas ruins que nos acontecem. Somente uma coisa pode abrir os nossos olhos: a Sagrada Escritura! Ela nos revela que a nossa existência não está nas mãos do acaso, mas inserida num propósito de Deus. Precisamos estar atentos a isso: o que mais nos faz sofrer não são os acontecimentos ruins, mas a forma como os interpretamos.

“Então Jesus lhes disse: ‘Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,25-27). Tanto a existência terrena de Jesus quanto a nossa está inserida num “deve”, num plano divino onde todos os acontecimentos que nos atingem têm uma razão de ser. Isso significa que cada dor que o Pai permite que atravesse o nosso caminho tem um propósito, e a atitude mais importante não é desistir da nossa existência, mas manter o foco no nosso “deve”: “Mesmo não compreendendo a razão da minha dor, eu devo me manter fiel à missão que a vida me confiou”.

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles” (Lc 24,29). Eis o pedido fundamental, em nosso momento de perda de esperança: “Fica comigo, Senhor Jesus!”. Fica comigo até que eu aprenda a enxergar a vida para além da minha dor! Fica comigo e me sustente na fidelidade diária ao dever que o Pai me confiou! “Jesus entrou para ficar com eles”, uma outra forma de o evangelista Lucas afirmar: “Jesus ressuscitou para ficar conosco!”. E “quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles” (Lc 24,30-31).

            “Ao partir o pão”. “Partir o pão” é o primeiro nome que a Eucaristia ganhará nas primeiras comunidades cristãs. Comentando este evangelho, o Missal Dominical afirma: “O mundo reconhece os cristãos quando eles sabem ‘partir o pão’. Partilhar o pão eucarístico implica em partilhar o pão social; um compromisso de justiça, de solidariedade, de defesa daqueles cujo pão é roubado pelas injustiças dos homens e dos sistemas sociais errados. O nosso ‘partir o pão’ não pode nos alienar da realidade” (Missal Dominical, p.269).

“Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24,33). O caminho do abandono transforma-se agora em caminho da retomada do sentido. O Ressuscitado nos encoraja a voltar para a missão, para o nosso dever, enxergando os acontecimentos ruins de uma outra forma e compreendendo que a nossa vida não está nas mãos do acaso, nem do poder do mal, mas nas mãos do Pai, que dispõe todas as coisas segundo o Seu desígnio de salvação para conosco.  

Nossa oração: https://www.youtube.com/watch?v=nk1lxT4PVTo

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O ÁRDUO CAMINHO DA FÉ

 Homilia 2º dom Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,42-47; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31.

 

“Se eu não vir, não acreditarei” (Jo 20,25). Eis a declaração da falta de fé de Tomé no Cristo ressuscitado. Traduzindo-a para hoje: “Se eu não sentir, se eu não me emocionar, não acreditarei” (fé infantil, que se alimenta de emoção); “Se eu não vir milagres, não acreditarei” (fé que exige intervenções miraculosas de Deus); “Se Deus não remover a minha dor e não curar a minha doença, não acreditarei” (fé que condiciona Deus a agir exatamente do modo como esperamos), etc. Em outras palavras, a nossa falta de fé está sempre presente quando, para crer, colocamos uma condição: “Se”.

            Quando Deus chamou Abraão para caminhar com Ele e lhe fez a promessa de uma terra e de um filho, “Abraão obedeceu e partiu, sem saber para onde ia” (Hb 11,8). A fé pura e verdadeira está aqui: Deus me chama e eu decido caminhar com Ele “sem saber para onde” sua mão me conduzirá. Não cabe a mim escolher o caminho mais fácil ou o que julgo ser o melhor. Não exijo que Deus me diga primeiro “para onde” quer me conduzir. Eu simplesmente confio e me deixo conduzir por Ele, ou seja, eu O obedeço. “A fé nunca sabe para onde está sendo conduzida, mas ela confia e ama Aquele que a conduz” (Oswald Chambers).

Para a Sagrada Escritura, fé é sinônimo de obediência. Para muitos pregadores pentecostais a fé é uma estratégia para você conseguir que Deus lhe conceda “bênçãos”, sendo a maioria delas coisas materiais, ganhos mundanos. As igrejas ainda estão cheias, o que faz com que pensemos que a fé tem aumentado no mundo. No entanto, a “religião” que mais cresce no mundo é a dos que não têm mais fé. E por que perderam a fé? Porque as promessas de prosperidade que lhes foram feitas por pregadores mundanos nunca se realizaram e, infelizmente, em muitos casos, o abandono da igreja também se estendeu para o abandono de Deus.

Jesus disse à samaritana: “o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e verdade” (citação livre de Jo 4,23). O Pai procura filhos que tenham fé n’Ele e que O procurem por amor, e não por necessidades ou por desejos fantasiosos e egoístas. O Pai procura por homens e mulheres que confiem n’Ele o tempo todo, principalmente diante das contrariedades da vida. A fé que agrada o Pai é a fé que se abandona aos Seus cuidados e que deseja apenas uma coisa: obedecer, no sentido de fazer o tempo todo a Sua vontade, sabendo que essa vontade é unicamente o nosso bem.

A falta de fé de Tomé e a sua posterior confissão de fé nos ensinam que a fé é sempre um caminho a percorrer. Nós temos fé no Senhor ressuscitado que se definiu como “Caminho”, caminho apertado e exigente (cf. Mt 7,14). Ter fé é caminhar, é seguir o nosso Pastor “aonde quer que ele vá” (Ap 14,4), atravessando noites escuras, isto é, momentos de aridez espiritual, onde a nossa fé é provada, como disse o apóstolo Pedro: “Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira - mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo” (1Pd 1,6-7).

Da mesma forma como a força das raízes de uma árvore é provada pelo vento contrário, assim as contrariedades da nossa vida servem para verificar o quanto a nossa fé é profunda e as nossas raízes estão, de fato, agarradas em Deus. Mas a grande prova da nossa fé é a perda daquilo que mais amamos; é quando o Pai nos pede para devolver-lhe algo que nos foi confiado, mas que Lhe pertence: “Foi pela fé que Abraão, tendo sido provado, ofereceu Isaac, seu único filho” (Hb 11,17), e o ofereceu porque tinha fé no “Deus que também é capaz de ressuscitar os mortos. Por isso, recuperou seu filho, como um símbolo” (Hb 11,19). Isaac, salvo do sacrifício, prefigurou Jesus, o Filho de Deus, sacrificado na cruz, mas ressuscitado pelo Pai, razão da nossa fé.    

“Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Jo 20,28). Eis aqui a recuperação da fé de Tomé no Senhor Jesus ressuscitado. Ela aconteceu “oito dias depois” da primeira aparição do Ressuscitado aos seus discípulos. O evangelista João está nos dizendo que o domingo, dia do Senhor, é o dia ideal para o nosso encontro com o Ressuscitado, dia em que o Esposo visita a sua esposa, dia em que ele aquece o nosso coração com a sua Palavra e parte o Pão da Eucaristia, revelando a sua presença constante no meio de nós. Pensando exatamente em nós, o Ressuscitado afirmou: “Felizes os que creram sem terem visto” (Jo 20,28). Felizes os que não exigem sinais grandiosos para crer. Felizes os que suportam as noites escuras da fé e não soltam das minhas mãos.  

Palavra final: a fé sempre será um risco a correr. Se nós temos tudo garantido, não precisamos de fé. Ela nunca será certeza, mas sempre confiança. O Pai quer de nós uma única coisa: que confiemos n’Ele. Quanto à nossa fé, ela sempre será provada, para crescer, se purificar e se libertar de elementos estranhos, como a sensação, o sentir, as fortes emoções.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 4 de abril de 2026

“DEUS, QUE RESSUSCITOU O SENHOR, TAMBÉM NOS RESSUSCITARÁ PELO SEU PODER" (1Cor 6,14).

 Homilia do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9

 

            O Evangelho do domingo de Páscoa nos apresenta três discípulos de Jesus diante do seu túmulo vazio: Maria Madalena, Pedro e o discípulo amado. Os três estavam machucados pela morte de Jesus na cruz. Nenhum deles esperava por sua ressurreição. Maria Madalena, ao encontrar o túmulo vazio, não pensa na ressurreição, mas acredita que o corpo de Jesus foi roubado. Assim como aqueles três discípulos, nossos olhos e nossos pensamentos estão presos na imagem daquilo que morre a cada dia em nós e no mundo, o que dificulta que enxerguemos sinais de ressurreição.

O discípulo amado “viu e acreditou” (Jo 20,8). Ele não viu Jesus, mas enxergou os sinais da sua ressurreição dentro do túmulo. Talvez, a nossa maior dificuldade em acreditar na ressurreição seja o fato de que continuamos a ver a vida ser vencida todos os dias pela morte. Mas crer na ressurreição não significa ter a garantia de escapar da morte. Nós só poderemos experimentar a alegria da ressurreição depois de experimentarmos a dor da morte! A fé na ressurreição não anula a morte, mas nos desafia a olhar para além dela, pois o Ressuscitado nos diz: “Não tenha medo! Eu sou o Vivente, estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17-18).  

Se cremos que o Senhor Jesus ressuscitou, devemos levar uma vida de pessoas ressuscitadas, sabendo que a nossa ressurreição “está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,3). Assim como a vida que está escondida dentro da semente só desabrocha quando ela morre, ou seja, quando é enterrada, assim também a nossa ressurreição só se dará a partir da nossa própria morte. Portanto, certa e digna de fé é esta Palavra: “Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14). Assim como o Senhor Jesus, todos nós estamos destinados à ressurreição: “Semeado mortal, o corpo ressuscita imortal; semeado desprezível, ressuscita cheio de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,43-44).         

“Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã”. Porque Cristo vive, depois de ter enfrentado a morte de cruz, eu posso lidar a minha cruz sustentado pela força da esperança. Porque Cristo vive, eu posso seguir pela vida sabendo que nada poderá me separar do amor de Deus, manifestado na pessoa de seu Filho Jesus (cf. Rm 8,37-39). Porque Cristo vive, eu posso suportar minhas provações crendo que Deus tem o poder de transformar tudo aquilo que eu entrego em Suas mãos (cf. Hb 11,17-18). Porque Cristo vive, eu confio ao Pai a minha necessidade diária de ressurreição, sabendo que a Páscoa não é obra minha, mas obra do Pai em mim. De fato, a fé na ressurreição nunca é a fé naquilo que eu posso fazer, mas sempre é a fé naquilo que o Pai pode fazer em mim e na vida daqueles por quem eu oro.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"EU VIVO E VÓS VIVEREIS!" (Jo 14,19)

Homilia da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,26-31; Êxodo 14,15 – 15,1; Is 54,5-14; Romanos 6,3-11; Mateus 28,1-10.

 

As leituras bíblicas desta Vigília fazem memória desde a Criação até a Ressurreição. “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher os criou. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia” (Gn 1,26.31). Todo o processo de evolução da Terra e do ser humano tem Deus como princípio. Ao criar o ser humano, Deus lhe deu a sagrada liberdade de fazer escolhas. O ser humano, por sua vez, usando essa liberdade de maneira egoísta, pecou, ferindo a si mesmo e à criação. Abrindo mão da sua liberdade, o homem se tornou escravo das suas paixões desordenadas e de sistemas sociais injustos. Essa escravidão está retratada no livro do Êxodo. Mas Deus envia Moisés para libertar os hebreus do Egito e conduzi-lo à Terra Prometida.

Nesta noite, fazemos memória da miraculosa saída dos hebreus do Egito, da passagem da tristeza da escravidão para a alegria da libertação. Assim como aqueles hebreus, todos nós estamos presos a algum tipo de Egito. Podemos estar presos a um vício, a um pecado, a uma pessoa que nos adoece e nos faz mal, a uma dívida financeira, a uma culpa, a uma mágoa, a uma tristeza, a um luto, a uma injustiça social... Deus nos encoraja a nos levantar e a sair dessa situação, confiando que Ele abrirá o caminho e nos fará sair. Ele é o nosso Libertador, cuja força do Seu braço abre o Mar Vermelho dos obstáculos e das dificuldades, e nos faz passar, nos faz fazer Páscoa. A Ele louvamos, dizendo: “O Senhor é minha força, é a razão do meu cantar, pois foi ele neste dia para mim libertação!” (Ex 15,2). 

Apesar de sermos homens e mulheres libertos, é muito comum nos sentirmos às vezes abandonados e desorientados. As mudanças cada vez mais rápidas e contínuas causam em nós medo e insegurança quanto ao futuro. Até mesmo a nossa confiança no amor de Deus por nós sofre abalos. Mas eis que o Senhor nos diz: “Podem os montes recuar e as colinas abalar-se, mas minha misericórdia não se apartará de ti, diz o teu misericordioso Senhor” (Is 54,10). Podemos passar por grandes incertezas e profundas crises, mas a misericórdia do Pai, a forma mais perfeita do Seu amor por nós, não se afastará de nós e haverá de nos sustentar até o fim. Assim podemos dizer como o salmista: “Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo! Transformastes o meu pranto em uma festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 30,4.12a.13b.).

O dia de ontem nos mergulhou na sombra escura da morte. Ela, a morte, se faz sentir em muitos momentos da nossa vida: na doença, na separação, no luto, nas más notícias, no fracasso, na frustração etc. Como nos ensina o apóstolo Paulo, há uma comunhão entre a morte de Jesus e as nossas experiências de morte. Isso significa que o nosso sofrer nunca é solitário, mas acompanhado pelo Cristo sofredor. Mas Cristo ressuscitou! Ele venceu a morte e destinou a todos nós a sermos ressuscitados e a vivermos com ele na glória do Pai! Aí está a razão da nossa esperança: “Se fomos de certo modo identificados a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele também pela ressurreição” (Rm 6,5). Por isso, podemos fazer nossas as palavras do salmista: “A mão direita do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” (Sl 118,16-17).

A liturgia da Palavra desta Vigília Pascal chega ao seu ponto mais alto com a proclamação do Evangelho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nele há uma mistura de tristeza, medo e alegria. As duas mulheres que vão ao túmulo representam a nossa tristeza por tudo o que já morreu em nossa história de vida. A elas e a nós são anunciadas, tanto pelo anjo quanto pelo próprio Cristo ressuscitado, as seguintes palavras: “Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). Nos tempos atuais, o medo se tornou nosso incômodo companheiro íntimo de todos os dias. Jesus veio nos ensinar a confiar no Pai, mas tanto os acontecimentos do dia a dia quanto diversas pregações ameaçadoras, que deformam o Pai num juiz severo e impiedoso, empurram a confiança para fora do nosso coração e o enchem de medo.

“Não tenham medo!” (Mt 28,5.10). O medo nasce da percepção de que nós não podemos controlar determinadas situações. O Ressuscitado nos convida a abrir mão do controle, a sair das mãos do medo, que nos prendem a uma angústia diária, e a nos confiar às Suas mãos. Tudo aquilo que não controlamos, Ele controla. Tudo aquilo que não podemos superar e vencer, Ele supera e vence por nós. Eis porque o Ressuscitado nos convida à alegria nesta noite: “Alegrem-se!” (Mt 28,9). A ressurreição de Jesus não mudou nada no mundo, que continua ameaçador, mas muda a forma como aqueles que creem lidam com as contrariedades da vida: “Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,37). Eis, portanto, a razão da nossa alegria: a verdade da ressurreição de Cristo firma a nossa vida na sua promessa: “Eu vivo e vós vivereis” (Jo 14,19).

Feliz e Santa Pácoa a você e sua família!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

 

 

 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

MESMO A SITUAÇÃO MAIS TRÁGICA PODE SE TORNAR LUGAR E CAUSA DE SALVAÇÃO

 Homilia de Sexta-feira Santa. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

 

A nossa experiência de cruz é o lugar onde Deus escolheu manifestar a força da Sua salvação, como diz o Pe. Amedeo Cencini: “Depois que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar e causa de salvação. Ou seja, se um crime horrendo foi o contexto histórico escolhido por Deus ou por meio do qual o Pai nos salvou, isso quer dizer que qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”.

Quando sofremos, costumamos maldizer a situação que nos faz sofrer. Maldizemos a doença, o conflito, a crise, a separação, a perda. Se pudéssemos, eliminaríamos da nossa vida aquele momento. Se pudéssemos, fugiríamos para outro lugar, mas o lugar da nossa dor é justamente o lugar da nossa salvação. O sofrimento pelo qual passamos está ali para nos ensinar algo importante: ou temos uma grande parcela de responsabilidade na dor que estamos experimentamos, ou aquela dor é o custo da nossa fidelidade a Deus e à nossa própria consciência.

“Qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”. Seu casamento, sua trabalho, sua família, sua rotina de vida, sua separação, sua perda, sua solidão, seu fracasso – cada uma dessas situações pode se tornar o lugar ideal para a sua salvação. Mas, atenção! Nenhum sofrimento salva por si mesmo: é a nossa postura diante dele que pode nos salvar ou nos arruinar ainda mais. É a consciência de que a vida ensina somente quem está disposto a aprender que nos torna seres humanos melhores, a partir do confronto com a dor que nos cabe enfrentar.   

O outro lado da moeda: o sofrimento não existe somente para ser acolhido e aceito; ele também precisa ser questionado. “O individualismo nega a responsabilidade social do sofrimento. Devem ser melhoradas não as condições sociais, mas sim as da alma. Analgésicos, prescritos em massa, ocultam relações sociais que levam à dor. Cada um tem de cuidar da própria felicidade. Ela se torna um assunto privado. Também o sofrimento é interpretado como resultado do próprio fracasso” (Byung-Chul Han, Sociedade paliativa – a dor hoje).

Inúmeras doenças são consequência das más condições de trabalho. Além disso, a indústria farmacêutica não existe para curar doenças, mas apenas para aliviar dores. Quanto mais pessoas curadas, menos lucro para os empresários da dor; quanto mais dor e sofrimento, maior o lucro deles. Quanto a nós, população, cada um vive sua vida e sofre suas dores convencido de que “cada um tem de cuidar da própria felicidade”, e quem não consegue se livrar do sofrimento se sente fracassado como pessoa. Ou seja, não há nada de errado com o mundo do trabalho, nem com a indústria da dor, mas com você, que não dá conta de ser feliz.

Há um sentido oculto no sofrimento? Segundo Thomas Merton, o sofrimento não possui, por si mesmo, qualquer força ou valor. Tudo depende do modo como o enfrentamos. Sem Deus, a dor é maldição: pode endurecer a alma e nos tornar amargos. Mas à luz de Deus compreendemos que o sofrimento nos oferece a ocasião de nos tornar melhores do que somos. A dor ganha valor quando nos ajuda a rever prioridades, retomar o que estava esquecido e abandonar o que nos prejudica, mas tratamos como algo precioso.  

Jesus morreu por ser verdadeiramente homem. Isso também significa que a morte nos humaniza. “Somos mais humanos quando morre nossa onipotência, quando se desfaz a arrogância com que acreditávamos dominar o mundo. Somos mais humanos quando perdemos a mania de grandeza, de ter controle sobre tudo, quando somos expostos ao nosso próprio desamparo e percebemos nossa própria fragilidade. Trazemos dentro de nós uma ferida que não fecha, uma fome que não sacia, uma sede que não passa” (Nilson Perissé). Tudo isso é a nossa abertura ao transcendente, a nossa destinação à vida eterna.  

Jesus abraçou a sua morte a partir da imagem de um grão de trigo: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Assim também podemos entender a nossa vida: tudo o que eu quero manter a todo custo (não morrer) se estraga e adoece (solidão); tudo o que eu abro mão e deixo ir (morrer) prepara a minha existência para algo muito maior (muito fruto). Em nosso deixar cair diariamente o grão de trigo que somos, rezemos: “Senhor, eu ponho em vós minha esperança. Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito. A vós, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu entrego em vossas mãos o meu destino” (Sl 31).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 



 

terça-feira, 31 de março de 2026

O CORDEIRO SE FEZ PÃO PARA OS SOFRIDOS DO MUNDO

 Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-53.

 

Nesta noite começamos a celebração da Páscoa. Ela se inicia com a memória da entrega de Jesus, entrega que, antes de se dar na cruz, deu-se numa Ceia: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão... ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós’... Depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue’” (1Cor 11,23.24.25). Jesus celebra a última Ceia com seus discípulos “entregando-se livremente” porque viveu a sua vida a partir de uma convicção: “Eu sou uma missão nesta terra e por isso estou neste mundo” (Papa Francisco).

            O texto do Êxodo nos convida a fazer memória da páscoa dos hebreus, quando cordeiros foram sacrificados para proteger as suas famílias por meio do sangue passado nas portas das casas. Ao celebrar a páscoa, Jesus dá um novo sentido ao sangue dos cordeiros. Sangue derramado significa amor que se sacrifica. Sem sacrifício, ninguém salva aquilo que ama. Jesus “amou os seus até o fim” (Jo 13,1). Se é verdade que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22), Jesus é o verdadeiro Cordeiro que derrama, livre e conscientemente, o seu sangue pela remissão de todo ser humano, de modo que cada um pode dizer como São Paulo: “A minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

O sacrifício de Jesus na cruz foi oferecido uma única vez, mas “todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, estamos proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (cf. 1Cor 11,26). Em cada Eucaristia Jesus abraça o nosso passado – Ele morreu por nós –, o nosso presente – Ele está no meio de nós –, e o nosso futuro – Ele virá para nos introduzir no banquete do Reino de Deus. Esse banquete do Reino se antecipa em cada Eucaristia, onde Jesus revela o sentido da sua entrega e missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9,12.13).    

            Neste dia da instituição da Eucaristia, precisamos nos lembrar de algumas verdades importantes: “Jesus não instituiu a Eucaristia para o deleite espiritual de grupos seletos, mas para romper com ‘bolhas místicas’ e se tornar pão para os feridos do mundo. Muitos se esforçam por ‘estar diante de Deus’, adorando o Santíssimo Sacramento, mas se esquecem de que Deus escolheu estar junto aos pobres. Nós não podemos ter os olhos voltados para o Santíssimo Sacramento e dar as costas para o sofrimento alheio. Aquele que está na hóstia é Aquele que disse: ‘Eu estava com fome e você me deu de comer’” (Mt 25,35). Cristo está onde a vida dói. A Eucaristia é pão para o mundo” (Guillermo Jesus Kowalski, O sequestro do Santíssimo Sacramento).

Foi exatamente enquanto celebrava a última Ceia com seus discípulos que Jesus disse: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Por isso, a última lembrança que Jesus quis que seus discípulos tivessem dele foi a de lavar-lhes os pés, uma atitude própria de escravos. “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15). Como identificar uma pessoa que comunga? Pelo serviço que ela realiza em favor dos outros.

Dizia Madre Teresa de Calcutá: “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem sentir-se melhor e mais feliz” (Madre Teresa de Calcutá). Compreender isso é dispor-se a lavar os pés dos outros, sabendo que “há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora. Sempre teremos pés para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem... Isso é viver a Eucaristia no cotidiano da vida” (Pe. Adroaldo).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

“DIGA-ME A SUA RELAÇÃO COM A DOR, E EU TE DIREI QUEM VOCÊ É” (ERNEST JÜNGER).

 Homilia do Domingo de Ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 27,11-54 (forma breve).

 

O julgamento de Jesus por Pilatos se deu na véspera da páscoa dos judeus. Essa festa celebrava a libertação dos israelitas do Egito, povo que Deus chamou de “meu filho”. Mas agora, os chefes judaicos prenderam o Filho único de Deus, Jesus Cristo. O motivo verdadeiro é a inveja; o motivo falso é a ameaça que Jesus representa ao Império Romano. Quando o Evangelho denuncia os nossos erros e revela que nossas atitudes são contrárias ao Reino de Deus, nós também acabamos por rejeitar Jesus e mantê-lo afastado de nós. Pensamos, dessa forma, “condenar” Jesus, mas nós é que acabamos nos condenando.

Pilatos sabe que Jesus é inocente, e por isso tenta libertá-lo através da anistia pascal. Mas os líderes religiosos incentivam a multidão a pedir a libertação de Barrabás (cf. Mt 27,17), nome que significa “filho de pai nenhum”. Com quem nos identificamos: com Jesus, o Filho de Deus, ou com Barrabás, o filho “sem pai”? O pai representa a autoridade, a disciplina e a correção. Nós aceitamos ser educados e corrigidos pelo nosso Pai, ou buscamos viver nossa vida de modo “desenfreado”, isto é, sem o freio da voz de Deus em nossa consciência? Não nos esqueçamos de que hoje os líderes religiosos foram substituídos por inúmeros influenciadores digitais que “adotam” inúmeros filhos sem pais, pervertendo sua consciência e seus valores.

“Pilatos mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão, e disse: ‘Eu não sou responsável pelo sangue deste homem!’. O povo todo respondeu: ‘Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos’” (Mt 27,24). Assim como a multidão, nós também queremos ver sangue! Os filmes e os vídeos que mais chamam a nossa atenção têm sangue, violência e morte; igualmente, a maioria dos jogos de vídeo game. O gesto de lavar as mãos significa tornar-se indiferente ao sofrimento dos outros; não responsabilizar-se por nada nem por ninguém. No entanto, nossa indiferença para com a desgraça alheia acaba por atrair a desgraça sobre nós. Diante do sofrimento de uma pessoa só existem duas atitudes possíveis: ou o lavar as mãos (indiferença), ou ajudar a pessoa a carregar a sua cruz (o Cireneu).  

“Ali deram vinho misturado com fel para Jesus beber. Ele provou, mas não quis beber” (Mt 27,34). Essa bebida servia para anestesiar os sentidos do crucificado. No seu livro “Sociedade paliativa – a dor hoje”, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han nos lembra que a forma como lidamos com a dor revela o tipo de pessoa que somos: “Diga-me a sua relação com a dor, e eu te direi quem você é” (Ernest Jünger). “Para fugir da dor, busca-se uma anestesia permanente. Não temos mais coragem para a dor. Os filhos são educados não para serem humanos, mas para serem pessoas de um desempenho permanentemente feliz, o mais insensível possível à dor” (Byung-Chul Han). 

Os líderes religiosos insultavam Jesus dizendo: “Desça agora da cruz! e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama! Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus” (Mt 27,43-44). Aqui está o retrato de muitos cristãos: o constante desejo de ver milagres, para só então terem fé. Aqui está o nosso retrato também: produzimos morte à nossa volta, e depois gritamos a Deus que ressuscite aquilo que nós mesmos matamos.

“Desde o meio-dia até às três horas da tarde, houve escuridão sobre toda a terra” (Mt 27,35). Aquele que é a “Luz do mundo” (Jo 8,12) foi rejeitado e crucificado. Na Bíblia, a experiência da escuridão é a experiência do abandono de Deus. Ele é luz, mas essa luz parece estar completamente ausente da nossa vida. “Esta terrível sensação de perda – esta escuridão indizível – esta solidão... A escuridão é tal, que realmente não vejo mais nada – nem com a mente nem com a razão. O lugar de Deus na minha alma é um espaço vazio. Não há Deus em mim. Eu sinto que Ele não me quer” (Madre Teresa, “Venha, seja a minha luz”, pp.13-14). Não há um ser humano que nunca se sinta abandonado por Deus em algum momento da vida.

“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’” (Mt 27,46). “Jesus não duvida da existência de Deus nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele? Jesus morre na noite mais escura. Morre com um ‘por quê?’ nos lábios” (Pagola, “Jesus – aproximação histórica”, p.484).

“E eis que a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt 27,51). Aí está a resposta do Pai ao sentimento de abandono do Filho. O coração do Pai se rasga de dor por todos os seus filhos mortos pela violência. O céu se rasga para receber o espírito do Filho de Deus. Se o pecado do homem havia fechado o céu (cf. Is 63,19), a morte redentora de Jesus abre o céu definitivamente a todo aquele que confia na misericórdia do Pai.

“O oficial e os soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: ‘Ele era mesmo Filho de Deus!’” (Mt 27,54). É diante de uma experiência de cruz que a nossa fé deve se pronunciar. “Guardei a minha fé mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl 116,1).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi