Homilia Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Êxodo 34,4b-6.8-9; 2Coríntios 13,11-13; João 3,16-18.
“Quem me dera ao menos uma vez entender
como um só Deus ao mesmo tempo é três...” (Legião Urbana, Índios, 1986).
Deus é Mistério; Ele é sempre maior do
que os nossos conceitos e do que as nossas ideias sobre Ele. Quando pensamos
que já O compreendemos, que já O conhecemos, Ele se apresenta a nós de uma
maneira totalmente nova, que nos obriga a rever as nossas ideias sobre Ele. Não
só na Sagrada Escritura, mas principalmente na vida, Deus revela-Se como Aquele
que é sempre mais do que as nossas palavras podem explicar, mais do que a nossa
mente pode imaginar e mais do que o nosso coração pode experimentar.
O Mistério que é Deus chama-se “Santíssima
Trindade”: Ele é o Deus único, vivo e verdadeiro, mas Se revelou a nós como
Pai, como Filho e como Espírito Santo. Sendo Pai, Deus está acima de nós, no
sentido de ter o poder sobre todas as coisas que nos atingem. Sendo Filho, Deus
está junto de nós, caminhando ao nosso lado, nos sustentando e nos amparando,
enquanto atravessamos esse mistério chamado “vida”. Sendo Espírito Santo, Deus
está dentro de nós, como força que nos move interiormente, como ânimo que nos levanta
e nos impulsiona sempre para frente.
Mesmo que não possamos compreender o
Mistério que é Deus, o apóstolo Paulo afirma que “Ele não está longe de cada um
de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,27-28). Dizendo de
outra forma, nós estamos mergulhados no Mistério que é Deus como um peixe no
oceano: enquanto o peixe se pergunta “o que é o oceano?”, vive dentro dele e só
vive porque está mergulhado nele! Assim também nós em relação a Deus.
Embora a nossa existência tenha sido
concebida no seio da Santíssima Trindade, nós nos sentimos expulsos dela,
afastados ou até mesmo rejeitados por ela quando fazemos uma dura experiência
de sofrimento. No seu livro “Se quiser experimentar Deus” (pp.167-178), Anselm
Grün afirma que a imagem que nós temos de Deus não tem lugar para o sofrimento.
“Nós construímos uma imagem de Deus que corresponda aos nossos gostos. Quando,
então, um sofrimento nos atinge, nossa imagem de Deus se desmorona. E quando
Deus não corresponde a esta imagem, nós nos distanciamos dele”. É aqui que a
nossa fé conhece a sua noite escura. Mas...
“Quando ainda era noite” Moisés levantou-se e
“subiu ao monte Sinai” (Ex 34,4). Ao mesmo tempo, “o Senhor desceu na nuvem e
permaneceu com Moisés” (Ex 34,5). É assim que mergulhamos no Mistério que é Deus:
nós subimos a Ele, por meio da
oração, e Ele desce a nós. Ao mesmo
tempo em que buscamos Deus, Ele também nos busca! Estando na presença de Deus,
“Moisés curvou-se até o chão” (Ex 34,8). Curvar-nos significa admitir a nossa pequenez
diante do Mistério que nos ultrapassa. Ali, prostrado por terra na presença de
Deus, Moisés pediu: “Peço-te, caminha conosco... perdoa nossas culpas e nossos
pecados e acolhe-nos como propriedade tua” (Ex 34,9). Hoje nos curvamos diante
do mistério da Santíssima Trindade e pedimos que, apesar das nossas falhas e
pecados, sejamos acolhidos como propriedade do Pai Criador, do Filho Salvador e
do Espírito Santo Consolador.
A Trindade Misericordiosa envolve a criatura humana por todos os
lados. O sentimento do Pai é de ternura e cuidado, seu rosto se
aproxima e beija o rosto inerte da pessoa ferida. Ele revela seu amor
misericordioso no calor do abraço, que acolhe e regenera o ser humano.
O Filho revela o Deus Amor-serviço, que se põe aos pés da humanidade
decaída para restaurá-la, e revela o caminho do serviço como caminhada para a
vida. Em Jesus, Deus se abaixa para estar mais perto da miséria do ser humano.
O Espírito Santo, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto
pode ser a figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. Beija a
pessoa e lhe transmite o Sopro de vida. A Pomba de fogo voa sobre o ser humano
caído e o aquece.
Aproximemo-nos
desse mistério de amor que é a Santíssima Trindade. Deixemo-nos recriar pelo
Pai, salvar pelo Filho, guiar e sustentar pelo Espírito Santo. Sejamos no mundo
um sinal vivo dessa comunhão trinitária, para que mais pessoas cheguem ao
conhecimento do Deus vivo e se abram para o relacionamento divino, capaz de
curá-las, redimi-las e salvá-las da destruição. “A graça do Senhor Jesus Cristo,
o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor
13,13).
Pe. Paulo Cezar
Mazzi