Homilia de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.
Jesus soprou sobre os discípulos e
disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O Espírito Santo é tão essencial
em nossa vida quanto o ar que respiramos. Ele é o “sopro de vida” (Gn 2,7) que
nos faz viver não só biologicamente, mas a partir de dentro: “Se tirais o seu
respiro, eles perecem e voltam para o pó de onde vieram; enviais o vosso
espírito e renascem e da terra toda a face renovais” (Sl 104,30). Sempre que a
nossa Igreja, ao longo dos séculos, se fechou em si mesma como que dentro de um
túmulo, o Espírito Santo suscitou alguém para convencê-la a sair, a abrir suas
portas e janelas, a fim de ser renovada, atualizada e cumprir sua missão de ser
sal e luz para os homens de todos os tempos.
Ainda em relação à Igreja, o Espírito
Santo não fala somente dentro dela e a partir dela, mas lhe fala a partir do
mundo, sobretudo das situações mais feridas e dolorosas da humanidade. Uma
Igreja fechada à realidade das pessoas, sobretudo a uma realidade que passa
longe das suas normas religiosas, é uma Igreja que se recusa a ouvir o que o
Espírito Santo tem a lhe dizer. É bastante perigosa essa postura que afirma que
“o velho é que é bom!” (Lc 5,39). Isso tem cheiro de rejeição ao Espírito Santo,
atitude que nos recorda a rejeição dos fariseus em relação a Jesus.
O Espírito Santo nos foi dado para que
Cristo ressuscitado viva em nós! Só Ele pode nos fazer sentir a presença do
Ressuscitado em nosso dia a dia. É por meio do Espírito Santo que a Palavra,
que é Cristo, fale ao presente da nossa história pessoal e social, e ilumine
nossas escolhas e decisões, para fazermos em tudo a vontade do Pai. Além disso,
é somente através do Espírito Santo que nós podemos chamar a Deus de Pai: “O
próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de
Deus” (Rm 8,16). Portanto, sempre que nos sentimos órfãos, sozinhos e
abandonados neste mundo, precisamos clamar ao Espírito Santo que conceda ao
nosso coração a certeza da nossa filiação divina, para que em toda e qualquer
situação possamos dizer como Jesus: “Eu não estou só porque o Pai está comigo”
(Jo 16,32).
Enquanto o nosso mundo sofre com
separações, conflitos, guerras e divisões, o Espírito Santo deseja juntar os
pedaços daquilo que está fragmentado em nós e criar unidade, comunhão,
concórdia e paz. “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem
comum” (1Cor 12,7). O Espírito Santo não aceita ser usado para a nossa vaidade,
muito menos para a nossa soberba espiritual. Toda pessoa que se julga melhor do
que as outras e que tem a pretensão de se considerar mais católica do que o
próprio Papa não está sendo conduzida pelo Espírito Santo, mas sua própria
arrogância espiritual.
No dia de Pentecostes o Espírito Santo
foi derramado sobre a Igreja em forma de línguas de fogo, o que significa que a
sua linguagem conduz para o amor, a caridade, a comunhão e a concórdia. Nós ouvimos
o testemunho de pessoas de quase todas as partes do mundo que, escutando todos
os discípulos “falarem em línguas” (At 2,4), afirmavam: “Todos nós os escutamos
anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11). Enquanto grupos
católicos tradicionalistas buscam missas e orações em latim, o Espírito Santo
nos capacita a falar uma língua que as pessoas entendam e através da qual se
sinta tocadas por Deus, através da sua Palavra. Também podemos nos perguntar: as
nossas postagens favorecem discórdia e divisão ou comunhão e reconciliação? As
nossas palavras no dia a dia ajudam a promover concórdia ou discórdia no ambiente
em que nos encontramos?
Neste dia de Pentecostes não basta
clamar ao Pai que reavive o dom do seu Espírito em nós, – Jesus afirmou que “o
Pai dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13) –, mas que tenhamos a
atitude diária de nos deixar conduzir por ele (cf. Rm 8,14). E para onde o
Espírito Santo quer nos conduzir? Para a esperança que não engana (cf. Rm 5,5),
para o futuro que Deus tem para cada um de nós, para fora da nossa visão, prisioneira
do agora, uma visão angustiada, incapaz de ver além da dor, do problema e da
dificuldade pela qual cada um passa neste momento. “O Espírito e a Esposa
dizem: ‘Vem!’. Que aquele que ouve diga também: ‘Vem!’ Que o sedento venha, e
quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22,17). O Espírito Santo
se une à Igreja, Esposa de Cristo, para clamar: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap
22,20).
Enfim, o Espírito Santo é o “Espírito
da promessa” (Ef 1,13). Ele é o penhor, isto é, a garantia da nossa
ressurreição, a garantia de que nada é definitivo em nossa vida terrena, a
garantia de que o Pai completará em cada um de nós a obra da salvação, até o
dia da Vinda de seu Filho Jesus Cristo (cf. Fl 1,6). Então, soltemos as mãos do
medo e da angústia, nos quais podemos estar agarrados neste momento, e nos
deixemos conduzir pelo sopro de vida, que é o Espírito Santo. Que Ele nos leve
para onde devemos ir, em vista da nossa libertação e salvação.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi