quinta-feira, 13 de agosto de 2026

COM A VIRGEM MARIA, DEIXAR-NOS ELEVAR ATÉ DEUS

Homilia Assunção da bem-aventurada Virgem Maria. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab; 1Coríntios 15,20-27a; Lucas 1,39-56.

 

            A liturgia de hoje nos coloca diante do dogma (afirmação de fé) da Assunção de Maria. Nossa Igreja crê que a Virgem Maria foi elevada em corpo e alma ao céu após a sua morte, não tendo o seu corpo sido corrompido, pois ele foi o sacrário vivo que gerou Jesus Cristo para o mundo. O corpo que gera o Sagrado torna-se também sagrado, e o sagrado não pertence à terra, mas ao céu. “Sendo Maria a ‘cheia de graça’, sem sombra alguma de pecado, quis o Pai associá-la à ressurreição de Jesus” (Missal dominical).

            Maria elevada ao céu é sinal de esperança para a própria humanidade, pois a sua elevação ao céu aponta para a “meta final da redenção: a glorificação da humanidade em Cristo. Maria chama hoje os cristãos a se considerarem inseridos na história da salvação e destinados a conformar-se a Cristo na glória... É a mãe que nos espera e convida a caminhar para o reino de Deus” (Missal dominical). Somos chamados, portanto, a renovar a nossa esperança e a nossa fé, pois, assim como Deus recolheu Maria, no final de sua vida, também nos recolherá para junto de Si do seu Reino.  

A solenidade de hoje é ocasião para fortalecer a convicção de que o nosso destino é voltar para Aquele a Quem sempre pertencemos. Justamente porque não pertencemos à terra é que estamos destinados à glorificação no céu. Se aqui na terra temos que enfrentar um grande Dragão, o Maligno que nos ataca de muitas maneiras, devemos saber que toda fidelidade encontra seu destino na glória. As nossas lutas não ficarão sem resposta; as nossas lágrimas não serão derramadas em vão. Ainda que tenhamos que atravessar as sombras desta vida, manteremos nossos olhos fixos na luz, que é Cristo ressuscitado.

A Mulher perseguida pelo Dragão nos revela que o mundo sempre será para nós, cristãos, o lugar do combate, da ameaça, de uma fidelidade custosa, o tempo em que o mal parece prevalecer nos seus ataques, mas devemos saber que não estamos sozinhos nesse combate; o Senhor Deus nos socorre com a força do Seu braço, como Maria declarou: “o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,49); sua poderosa mão nos socorre, nos protege e nos impede de sermos alcançados pelo mal.

Maria assunta ao céu é também Maria que teve seu coração ferido pelos sofrimentos que seu Filho enfrentou no mundo, conforme profetizou Simeão: “Uma espada de dor traspassará tua alma” (Lc 2,35). Sua glorificação no céu é o cumprimento da promessa feita a todos nós: “Se participamos dos sofrimentos de Cristo, participaremos também da sua glória” (Rm 8,17). Assim como Jesus e sua Mãe, a Igreja encontra-se num mundo que fragiliza a vida e favorece constantemente a morte. Mas sabemos que nesse combate somos sustentados pela certeza da vitória de Deus, como diz a Palavra: “Se nós trabalhamos e lutamos, é porque pomos a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, sobretudo dos que têm fé” (1Tm 4,10).

A visita de Maria a Isabel, levando àquela família a alegria do Espírito Santo, questiona o fechamento das nossas famílias em si mesmas e a ausência nossa, enquanto Igreja, das famílias que precisam ser visitadas pela ação consoladora do Espírito Santo. Inúmeras famílias perderam a direção do céu e se sentem distantes de Deus. Nelas não há espaço para a fé, a esperança e o amor, porque se encontram voltadas para baixo, enterradas na desorientação, na descrença, na inimizade; sua esperança foi substituída pela apatia; quando não, pela escravidão do consumismo, um consumismo que, além de trazer vazio, endivida e gera ainda mais conflito e discussão em casa.

“Querer formar uma família é ter a coragem de fazer parte do sonho de Deus, a coragem de sonhar com Ele, a coragem de construir com Ele, a coragem de unir-se a Ele nesta história de construir um mundo onde ninguém se sinta só”, afirma o Papa Francisco (AL n.322). Que todas as famílias experimentem a força do braço do Senhor a libertá-las e a protegê-las do poder destrutivo do mal. Que cada família seja visitada pela força do Alto, que é o Espírito Santo, e trabalhe no sentido de desenterrar-se, de desejar voltar a viver, de olhar para o céu e deixar-se elevar até Deus.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

OUVIR O SUSURRO DE DEUS PARA ALÉM DO BARULHO DAS TEMPESTADES

 Homilia do 19º dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13a; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.

 

            Por causa das mudanças climáticas, as tempestades estão aí, manifestando a sua violência cega, ferindo, destruindo e até mesmo matando. Mas existe também outro tipo de tempestade. É aquela interior, nascida como consequência de um pecado grave, de atitudes movidas pela ira, do esgotamento de quem ultrapassa seus limites e, sobretudo, da falta de confiança em Deus. O fato é que nenhum ser humano atravessa o mar da vida sem lidar com ventos contrários e tempestades.

            O texto do primeiro livro dos Reis descreve a tempestade interior do profeta Elias. Fugindo da ameaça de morte da rainha Jezabel, ele atravessa o deserto e sobe ao monte Horeb, para procurar refúgio em Deus. É noite, o momento em que a ansiedade, o medo e as preocupações gritam conosco, o momento em que nos sentimos frágeis e até mesmo desolados. Nessa situação nós só podemos clamar: “Tende piedade, ó meu Deus, tende piedade, pois eu me abrigo em ti; eu me abrigo à sobra de tuas asas, até que passe a tempestade” (Sl 57,2).

            Na oração, nós silenciamos para ouvir a voz de Deus acima do barulho da tempestade. Antes do Senhor, porém, veio um furacão, um terremoto e um incêndio. Mas o Senhor não estava neles. Elias só conhecia Deus pela força da violência, do radicalismo e do fanatismo religioso. Por isso, Deus se ausenta da sua fúria humana, para fazê-lo conhecer a Sua verdadeira face no murmúrio de uma brisa suave. A brisa suave é uma das imagens bíblicas do Espírito de Deus no Antigo Testamento. Se o vento contrário das tempestades nos assusta, o vento do Espírito de Deus nos conduz para fora da tempestade, devolvendo-nos serenidade e clareza interior para continuarmos a conduzir a nossa vida.

            Assim como o profeta Elias, todo pai precisa refugiar-se em Deus, a fim de não ser engolido pelas tempestades da vida. Se o mundo todo passa por um enfraquecimento da figura masculina, aquele que recebeu o dom da paternidade precisa apoiar-se diariamente no Pai do céu, aprender a ser forte consigo mesmo, enfrentar a sua tempestade interior e se render ao fato de que seus obstáculos serão vencidos “não pelo poder, não pela força, mas por meu Espírito, diz o Senhor” (Zc 4,6). Aquele que chamou o homem à paternidade também lhe sustentará na fidelidade diária a essa tarefa, por meio do seu Santo Espírito.

            Olhemos agora para as tempestades externas que nos atingem com violência: guerras, doenças, desigualdade social, ameaças, cobranças, dificuldade financeira etc. Sempre que elas se levantam nós, acabamos por questionar se Jesus realmente está conosco, conforme prometeu. Mas o Evangelho nos diz que, o fato de Jesus permanecer diante da face do Pai orando em nosso favor (cf. Hb 9,24), não significa que seremos poupados de tempestades. Se nenhum vento contrário atingir uma árvore em crescimento, ela não terá raízes profundas, nem um tronco forte, e tombará diante de qualquer ventania. Assim, as tempestades estão aí para que aprofundemos as raízes da nossa fé.

            “Homem fraco na fé, por que você duvidou?” (Mt 14,31). Pedro tinha duas opções, no meio da tempestade: manter os olhos fixos em Jesus, e continuar caminhando sobre o mar tempestuoso, ou direcionar os olhos para o furor da tempestade. “Quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14,30). Somos pessoas fracas na fé, quando damos deixamos o medo e a angústia alimentarem o desespero e o pessimismo em nós, por causa das tempestades que enfrentamos. Somos pessoas fracas na fé, quando queremos garantias da parte de Jesus de que conseguiremos fazer a travessia; do contrário, nos recusamos a entrar na barca com ele. Somos pessoas fracas na fé, quando fazemos tempestade em copo d’água diante de tudo o que escapa do nosso controle, quando deveríamos confiar no Espírito Santo que nos fortalece, sustenta e conduz.

“Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!’” (Mt 14,32-33). Pessoas fortes na fé não se prostram diante das tempestades, mas, sim, diante do Filho de Deus, que tem o poder de silenciá-las. Portanto, ao Senhor Jesus supliquemos: “Salva-me, ó Deus, pois a água sobre até o meu pescoço! Afundo num lodo profundo, sem nada que me afirme; entro no mais profundo das águas, e a correnteza vai me arrastando... Não escondas tua face ao teu servo! Estou angustiado, responde-me depressa! Quanto a mim, curvado e ferido, que tua salvação, ó Deus, me levante!” (Sl 69,2-3.18.30).  


Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 31 de julho de 2026

FOME PARA ALÉM DE PÃO

 Homilia 18º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,1-3; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21.

 

            A fome é uma necessidade básica que exige ser satisfeita. Diante dela, não cabem discussões políticas, mas a atitude que Jesus espera de cada um de nós, seus discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Quem está com fome à minha volta? Talvez, alguém que eu não conheça, ou alguém que um dia me prejudicou, que se tornou meu inimigo... Ainda assim, somos chamados a repartir com ele nossos cinco pães e nossos dois peixes, lembrando que, no momento do nosso julgamento, Jesus nos dirá: “Tive fome, e me destes de comer” (Mt 25,35), ou “Tive fome, e não me destes de comer” (Mt 25,42).

            Em 2021, o trilionário Elon Musk prometeu à ONU vender ações da Tesla, uma de suas empresas, para combater a fome no mundo, desde que a Organização detalhasse exatamente como o dinheiro seria gasto. A ONU lhe apresentou um plano detalhado, mas até hoje Elon Musk não se pronunciou mais sobre o assunto. É típico dele não cumprir suas promessas.

            Atualmente, 25% da população mundial sofre diariamente com a fome. A fome não é causada simplesmente pela falta de alimentos. Ela é resultado de uma combinação de fatores sociais, econômicos, ambientais e políticos. Por trás desses fatores está a ganância desmedida dos que acumulam riqueza somente para si. São eles que determinam os rumos da política e da economia globais, que desrespeitam as leis de proteção ambiental e que fabricam guerras, cuja consequência direta é a fome.

            Diante da fome da multidão que veio ouvir sua Palavra e da reação dos discípulos que queriam se livrar daquele enorme problema, Jesus não fez nenhum discurso político, mas encorajou seus discípulos a enfrentarem o problema: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Quando a fome é detectada – carência de afeto, de diálogo, de responsabilidade ou mesmo de dinheiro, cada membro da família deve envolver-se na solução do problema. A solução não é distanciar-se do problema fechando-se em si mesmo.  

            A nossa primeira reação diante da carência, da necessidade, é reclamar da falta de recursos, desprezando os pequenos recursos que temos: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). Nós nos esquecemos da sabedoria popular: “O pouco com Deus é muito, e o muito sem Deus é nada”. Quando alguém pergunta: “Onde está Deus, diante da fome do mundo?”, Deus responde com outra pergunta: “O que você está fazendo com os cinco pães e os dois peixes que Eu lhe dei?”.

            O nosso grande erro é pensar que somente muito recurso pode resolver uma grande fome. A desnutrição emocional de filhos que não recebem afeto dos pais e de casais que não se dão mutuamente o pão do afeto provém do fechamento de cada um em si mesmo e do pensar que os cinco pães e os dois peixes de uma palavra, de um gesto, de uma presença, ou mesmo de uma oração, não irão resolver nada. Engano. Jesus espera que entreguemos esses pequenos recursos em suas mãos, recursos que, ao se tornarem fonte de agradecimento ao Pai e não de reclamação, se transformam em uma fonte de bênçãos para todos.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Mt 14,20). Quando cada um coloca o que é seu para ajudar na solução de um problema, ele é resolvido e todos se beneficiam. É muito triste quando uma família, uma empresa ou uma comunidade de fé definha de fome porque cada um que faz parte dela se recusa a partilhar seus cinco pães e seus dois peixes. E quantas vezes o motivo da recusa não é o medo de ficar sem nada, mas o orgulho, a raiva, a mágoa, o desejo de ver o outro sofrer, não percebendo que esse sofrimento acaba sendo partilhado por todas as pessoas que compõem aquele “corpo”...   

            “E dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (Mt 14,20). A reclamação mais comum que se ouve, até mesmo antes do final do mês, é: “não sobrou nada”. Por que não sobra? Nem sempre é porque o salário é pouco; muitas vezes é porque não existe planejamento. Compra-se impulsionado pela emoção, esquecendo que a propaganda nunca apela para a razão, mas sempre para a emoção. Além disso, a imensa maioria dos brasileiros tem um grande parceiro no seu endividamento: o cartão de crédito. Ele consome 54% do orçamento familiar, cobrando juros altíssimos.

            O milagre da sobra é possível quando você decide não gastar além do que ganha, se libertar da dominação demoníaca do consumismo e parar de se comparar com os outros. Toda dívida traz o inferno para dentro de casa, e se não quisermos viver nesse inferno precisamos nos perguntar, diante de cada impulso pelo comprar: eu realmente preciso disso? Qual fome eu estou querendo saciar?

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

COLOCAR EM ORDEM NOSSOS DESEJOS

 

Homilia do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 3,5.7-12; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-46 (Evangelho breve).

 

            “O Reino dos céus é como...”. Assim como nos dois domingos anteriores, também hoje Jesus usa de duas parábolas para nos ajudar a compreender não só como se “conquista” o Reino dos Céus, mas, sobretudo, como se dá a experiência de Deus no coração humano. Na verdade, o Reino dos Céus não é um lugar, mas a própria presença de Deus em nós, uma presença que tanto pode nos ser dada gratuitamente, quanto deve ser buscada por nós, como diz o salmo: “Procurem a minha face” (Sl 27,8).

            Tanto o tesouro escondido no campo quanto a pérola preciosa falam da presença de Deus em nossa vida como um valor inigualável, algo preciosíssimo, que nenhum bem material consegue substituir em nós. Mas como compreender o valor absoluto de Deus em nossa vida quando vivemos mergulhados numa forte inversão de valores, a qual nos faz viver cercados de coisas, mas distantes do essencial? Como podemos nos lembrar do essencial se as nossas energias são todas consumidas em necessidades que se apresentam como urgentes?  

            Aqui é importante fazer uma distinção. Duas forças nos movem na vida: as necessidades e os valores. As necessidades estão no campo fisiológico (comer, beber, descansar, se satisfazer etc.) e psicológico (ser amado, sentir-se feliz, realizado etc.). Os valores estão no campo espiritual (ter um sentido para viver). Se, a princípio, nossa espiritualidade se move impulsionada pela necessidade (eu preciso de Deus), Jesus a convida a amadurecer até se tornar um valor (Deus vale por Si e não por algo que possa fazer por mim). Foi essa a percepção de Santa Teresa de Jesus: “Mais importante do que buscar as consolações de Deus é buscar o Deus de toda a consolação”.

            O homem que encontra um tesouro escondido no campo, sem o estar procurando, nos fala da manifestação de Deus em nossa vida por pura gratuidade. Alguma situação nos faz sentir que Deus está falando conosco e querendo Se tornar íntimo de nós, mas a comunhão com Ele só acontece quando tomamos a decisão de “vender todos os bens e comprar aquele campo”, ou seja, quando compreendemos que Deus é o valor maior da nossa vida e, para estar com Ele, devemos renunciar a tudo o mais.

            Consideremos a parábola da pérola preciosa. Aqui existe uma procura intencional por Deus. O próprio Jesus afirmou, a respeito da vida de oração: “Quem procura, encontra” (Mt 7,8). Também o salmista afirma que “Deus se deixa encontrar por quem o procura de coração sincero” (Sl 145,18). De novo é preciso se perguntar: eu procuro por Deus só quando tenho uma necessidade urgente, ou O procuro porque Ele se tornou o valor mais importante da minha vida? Aliás, por que temos que procurar por Deus? Porque Ele é o “Deus escondido” (Is 45,15), “o Pai oculto” (Mt 6,4.6.18).

            “Cheio de alegria ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo, aquela pérola” (Mt 13,44.46). Quem se encontra com Deus de uma maneira mais profunda reordena os seus valores, os seus afetos, e decide não viver mais a partir da dispersão (todos os seus bens), mas a partir de Deus (o verdadeiro tesouro, a pérola de grande valor), que unifica o coração e dá sentido à vida. O quanto Deus vale para cada um de nós só pode ser verificado pela maneira como cuidamos da nossa vida de oração e pela forma como nos posicionamos diante da inversão de valores atual. Quem não tem medo de perder a Deus para ganhar os bens deste mundo já perdeu tudo.  

Ninguém renuncia a coisa alguma, se o seu coração não estiver voltado para algo que para ele é precioso, algo que lhe dá sentido e alegria, que o faz sentir-se verdadeiramente vivo. Um homem só é capaz de renunciar a outras mulheres se o seu coração mantiver o encanto por sua esposa (e a mesma coisa vale para a esposa). Da mesma forma, uma pessoa só renuncia a um ato de corrupção se na sua consciência a sua salvação for um valor maior do que aquilo que o dinheiro lhe promete dar nesta vida terrena.

“Querer uma coisa significa automaticamente renunciar a uma outra incompatível com a precedente. A renúncia é a descoberta do quanto levamos a sério Deus. A decisão tem necessidade de ser renovada a custo de repetidas renúncias. Quanto mais um amor é belo, mais tem necessidade de ser defendido, porque a consciência de que possa enfraquecer-se permanece sempre” (Alessandro Manenti, Viver os ideais). 

“O tesouro que tanto procuramos está escondido no campo em que estamos” (Henry Nouwen). Não devemos cair no erro de imaginar que, se a nossa vida fosse diferente, isto sé, se estivéssemos num outro campo, ali, sim, poderíamos encontrar Deus. É no chão da nossa vida, no chão de nós mesmos, que Deus habita como uma presença escondida, uma presença que nos aguarda no mais íntimo de nós mesmos. Quando paramos de nos idealizar e passamos a nos acolher como somos e acolher a vida como ela está hoje é que nos damos conta do tesouro que se esconde no chão da nossa existência.

O rei Salomão pediu: “Dá a teu servo um coração compreensivo, capaz de discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9). Que Deus nos conceda um coração que saiba distinguir a diferença entre um bem aparente e transitório e o Bem verdadeiro e eterno, e nos ajude a renovar as escolhas que nos mantenham fiéis a esse Bem.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O NECESSÁRIO CULTIVO DE NÓS MESMOS

 Homilia do 16º dom comum. Palavra de Deus: Sabedoria 12,13.16-19; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-30.36-43.

 

            A parábola do joio, como o próprio nome diz, tem como centro a existência do mal. Teoricamente, toda pessoa odeia o mal e deseja o bem, mas na prática a história é outra. Alguns governantes mundiais usam o discurso da luta do bem contra o mal para justificar guerras, cujo real objetivo nunca foi o de eliminar o mal, mas o de se apropriar das riquezas do país “inimigo”. No campo político e religioso, o discurso do bem contra o mal tem muito mais mentira do que verdade.  A polarização nos induz a pensar que existe uma luta do bem (nós) contra o mal (eles) quando, na verdade, tanto em um lado quanto no outro existem joio e trigo.

Um primeiro questionamento da parábola do joio para nós é: nossa visão a respeito do bem e do mal está correta? Por que somos rápidos em enxergar o mal nos outros, mas lentos para enxergá-lo dentro de nós? No campo da nossa alma existe somente trigo, ou o joio também cresce diariamente ali, inclusive com o nosso consentimento? Está correto invocarmos as bênçãos de Deus sobre nós, que nos consideramos “do bem” e as maldições sobre os outros, que consideramos “do mal”?

Jesus afirma que “o Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora” (Mt 13,24-25). Jesus veio semear em nós a boa semente do Evangelho. Mas o seu inimigo, o Maligno, veio semear o mal, “enquanto todos dormiam”, o que pode significar que quando deixamos de vigiar sobre nós mesmos, o mal começa a se infiltrar no campo que somos.

            A pergunta dos servos da parábola é também a nossa: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?” (Mt 24,27). A resposta a essa pergunta passa pela tomada de consciência de que, no Oriente Médio, o joio é considerado uma degeneração do trigo. Em outras palavras, uma pessoa boa pode se degenerar em má. Essa degeneração acontece frequentemente quando se alcança o poder, esteja ele no campo político, religioso ou financeiro. Todo poder corrompe. Por isso, ninguém está garantido de se manter trigo a vida toda. Além disso, pessoas más não nascem más; elas aprendem a ser más. Mais do que isso, elas optam em ser más por causa da ganância pelo poder, o qual promete muito dinheiro.

“Queres que vamos arrancar o joio?” (Mt 13,28). Eis o nosso desejo de agir com violência para destruir o mal de uma vez por todas. Mas Deus nos responde: “Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29-30). Diante do mal que cresce sempre mais no mundo, a nossa resposta não deve ser a de compactuar com ele para sobreviver, abandonando o cultivo do trigo em nós, mas perseverar nesse cultivo diário de nós mesmos. “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Rm 12,21).   

            Se o foco da parábola do joio é a presença do mal em nós mesmos e no mundo, seu desfecho é o momento da colheita: “No tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!” (Mt 13,30). Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a colheita simboliza o momento do julgamento final, e este, por sua vez, nos garante que nada ficará impune. Se no tempo presente Jesus continua semeando a boa semente do Evangelho em nós, no tempo futuro (Parusia = Segunda Vinda) ele virá como Juiz, cuja função principal é a de separar o joio do trigo, retribuindo a cada um segundo aquilo que cultivou em si mesmo.

            Ninguém de nós está definido como joio ou como trigo. Quem hoje se considera bom corre o risco de amanhã degenerar como ser humano, abandonando o caminho da justiça e da retidão. Da mesma forma, quem hoje está degenerado pode vir a se converter e passar a cultivar-se como trigo. Que o Espírito Santo nos ajude diariamente com a sua graça para que, quando Jesus vier nos colher do campo deste mundo, nos encontre como pessoas que escolheram cultivar-se como trigo, apesar do muito joio à nossa volta.

             Enfim, um olhar sincero para o nosso campo interno: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Alegro-me na lei de Deus, segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que luta contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado” (Rm 7,21-23). Essa é a nossa verdade: somos um campo onde acontece diariamente uma luta. O que prevalecerá em nós: joio ou trigo? Aquilo que nós cultivarmos.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

SEM A ESCUTA DA PALAVRA, NÓS MORREMOS INTERIORMENTE

             Homilia do 15º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23.

 

            Deus escolheu se revelar a nós por meio da Palavra: “Escuta, Israel” (Dt 6,4). O Deus em quem nós cremos é o Deus da Palavra, o Deus que é Palavra. Se o ser humano interroga, pergunta e busca o sentido, Deus é Palavra que responde às interrogações do nosso coração, à nossa busca por sentido. Ouvi-Lo significa viver: “Se não me falas, sou como aqueles que morrem” (Sl 28,1).

Depois de ter falado à humanidade por meio dos profetas, o Pai quis falar conosco por meio de seu Filho (cf. Hb 1,1-2), a “palavra que se fez pessoa humana” (Jo 1,14). De fato, é por meio de Jesus que entendemos que a Palavra é uma Pessoa! O Pai dialoga conosco por meio do Filho, e espera a nossa resposta, o nosso “amém” à sua Palavra.

            Deus sempre cumpre o que diz: “A palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (Is 55,11). Em contrapartida, o fruto da Palavra semeada em nossos corações depende do tipo de acolhida (escuta) que ela recebe da nossa parte. Por isso, frequentemente Jesus diz, ao terminar um ensinamento: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mt 13,9).

            Como está a nossa capacidade de ouvir? A pressa nos faz ler mensagens sem prestar atenção ao que elas dizem. A nossa atenção, sempre dispersa, nos impede de meditar e refletir sobre o que Deus está nos falando. Jesus constata, não sem tristeza, a nossa indisposição em ouvir a sua palavra: “O coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade” (Mt 13,15). É exatamente a nossa atitude perante a Palavra (indiferença, recusa, desprezo, acolhimento) que define o nosso lugar no Reino de Deus.

“Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração” (Mt 13,19). Compreender significa “abarcar em si mesmo”; “carregar em sua essência”. Maria é o modelo perfeito de escuta da Palavra: “Faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). O excesso de informação nos indispõe à escuta, ao ouvir. Quem está saturado de palavras humanas não tem predisposição para ouvir o Deus que é Palavra. Além disso, devemos ter consciência de que o Maligno trabalha incessantemente para não acolhermos a Palavra de Deus em nós. Manter-nos dispersos e distraídos é a sua tarefa principal, na liturgia da Palavra.

“A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo” (Mt 13,20-21). Aqui já existe um acolhimento, uma escuta da Palavra. O problema é o entusiasmo passageiro. A Palavra ouvida precisa de tempo para “criar raiz” em nós, mas somos pessoas impacientes. Não aceitamos ter que esperar, até que a Palavra germine e dê frutos em nós. Somos pessoas imediatistas, que desistem fácil e rapidamente. Não admitimos sofrer e ser humilhados por vivermos de acordo com a Palavra de Deus.

“A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto” (Mt 19,22). Num copo cheio não cabe mais nada. Numa pessoa que vive ocupada em trabalhar para ganhar dinheiro, para pagar contas ou acumular; numa pessoa que prioriza o material e despreza o espiritual, que é escrava do consumismo e da disputa por seguidores nas redes sociais, não tem tempo para as palavras de Jesus, que “são espírito e vida” (Jo 6,63).

“A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta” (Mt 13,23). Ainda que a terra que somos tenha diversidade de terrenos, devemos confiar que há um espaço adequado em nós que deseja, que espera pela Palavra. Dentro de cada um de nós há um lugar sedento pela água viva da Palavra, um lugar ferido que aguarda o remédio da Palavra, um lugar habitado pela morte, e que anseia pela ressurreição que só a Palavra pode realizar.

Segundo Nilson Perissé, esses quatro tipos de terrenos, abordados por Jesus na Parábola do Semeador, não significam quatro tipos de pessoas, mas quatro tipos de situações emocionais em que nos encontramos diariamente. Há momentos em que o nosso coração está endurecido pela pressa; em outros, é raso, superficial, facilmente entusiasmado e logo esgotado; em outros ainda, sufocado por preocupações que disputam espaço com o essencial. Assim como o clima da alma muda, a vida espiritual conhece períodos de aridez e de fecundidade, sem seguir uma linha reta. A semente exige paciência. Nosso progresso espiritual também.

A responsabilidade que nos cabe, diante da semente/Palavra é cuidar do solo que somos, tornando-o pouco a pouco mais macio, mais silencioso, mais disponível. Se Deus é Palavra, Ele só pode habitar em nós por meio do silêncio, um silêncio que é abertura à sua graça, um permitir que seus passos de Semeador pisem sobre o solo do nosso coração e possa nos ajudar a limpá-lo, adubá-lo, regá-lo e cultivá-lo, para que o fruto da salvação seja colhido no chão da nossa vida.   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A SOCIEDADE DO DESEMPENHO E A MANSIDÃO DE JESUS

 Homilia do 14º. Dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 9,9-10; Romanos 8,9.11-13; Mateus 11,25-30.

 

            “Como você está?”, pergunta um amigo ao outro, ao que este responde: “Matando um leão por dia”. Esse leão, que nós julgamos ter que matar todos os dias, se encontra fora de nós (cobranças externas) ou dentro (autocobrança)? No seu livro “Sociedade do Cansaço”, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han identifica qual é esse leão. Ele se chama “Sociedade do desempenho”: “A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (esgotamento)”.

            Olhemos para nós mesmos. Nossa agressividade vive à flor da pele. Frequentemente estamos irritados, exaustos, cansados e sem paciência. Por qual motivo? Porque não respeitamos nossos limites. Ignoramos os sinais do nosso corpo e da nossa mente, por não respeitarmos a nossa medida. “A busca incessante por produtividade nos afasta da essência do ser humano” (Chul Han), o que significa que nos tornamos selvagens. Nós internalizamos uma exigência de produtividade, de desempenho (performance) e deixamos essa mancha de óleo se espelhar livremente pelas diversas áreas da nossa vida: familiar, profissional, sexual e até mesmo espiritual.   

Quem se torna escravo do desempenho não tem tempo para o descanso. “Descanso é para gente fraca!”, pensam alguns. “O excesso de trabalho e desempenho leva à autoexploração. Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização” (Chul Han). Uma vez que vivemos constantemente na correria, nosso cérebro se recusa a descansar – daí a necessidade de ansiolíticos (tranquilizantes ou calmantes). Para piorar a situação, antes de nos deitar para dormir, damos uma última olhada no celular, recebendo mais um pouco de estímulos e sobrecarregando ainda mais o nosso cérebro.  

            Diante de tudo isso, o profeta Zacarias nos pergunta: “Quando é que vocês vão descer do cavalo de guerra em que vivem montados?”. A imagem profética de Jesus, montado num jumentinho, nos remete para valores que deixamos de cultivar: mansidão, confiança, humildade, paz; numa palavra, um coração desarmado. Dentro de nós existem carros de guerra a serem eliminados e arcos de guerra a serem quebrados. Em lugar de pedirmos a Deus que nos torne vencedores nas guerras que estamos enfrentando, deveríamos pedir liberdade interior para nos distanciar da guerra por desempenho constante, e nos conceder um coração manso, humilde, pacífico, um coração que confie n’Ele e se deixe cuidar por Ele.

            Assim como o cavalo de guerra e o jumentinho são opostos, assim também se opõem dois modos de viver: segundo a carne e segundo o Espírito. A carne não é simplesmente o nosso corpo, mas o nosso ego. Viver segundo a carne significa ser escravo das constantes solicitações do nosso ego. Viver segundo o Espírito significa alcançar a liberdade diante das próprias cobranças, e escolher distanciar-se do estilo de vida doentio do mundo atual. O apóstolo Paulo nos adverte: “Se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Rm 8,13). Viver escravo da sociedade do desempenho nos esgota, adoece e diminui muito a nossa expectativa de vida.

            Eis o convite de Jesus a todos nós: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Jesus não veio nos tirar das nossas responsabilidades neste mundo; ele veio questionar o nosso estilo de vida doentio e nos libertar de tudo aquilo que nos escraviza e nos esgota. Quando nos sentimos sobrecarregados e esgotados, devemos nos perguntar: o fardo que estou carregando está dentro dos meus limites? O fardo que me pesa é consequência da minha necessidade de ser amado(a) e aprovado(a)/elogiado(a) pelos outros?    

“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). Jesus nunca permitiu que sua vida fosse intoxicada por excessos. Ele também nunca se permitiu ser devorado pelas pessoas e suas solicitações. Sendo verdadeiramente humano, soube respeitar sua medida e seus limites. Livre das críticas dos outros, sabia reservar tempo para descansar e rezar. Nunca abriu mão de escutar diariamente sua consciência, esse lugar sagrado que pouco visitamos e que poderia nos ajudar a sermos nós mesmos, livres das cobranças que nos adoecem e esgotam.    

            Se desejamos nos libertar de fardos que nos sobrecarregam e adoecem, precisamos mudar algumas das nossas atitudes, inspirando-nos em Jesus e nos permitindo cuidar por ele diariamente. Silêncio, meditação, oração e descanso nunca farão parte da nossa rotina sem uma decisão séria da nossa parte, sem uma vida disciplinada. Não aconteça conosco o que aconteceu com Israel, quando Deus lamentou: “Na conversão e na calma estava a vossa salvação, na tranquilidade e na confiança estava a vossa força, mas vós não quisestes!” (Is 30,15).    

 Pe. Paulo Cezar Mazzi