Homilia
29º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 45,1.4-6; 1Tessalonicenses 1,1-5b;
Mateus 22,15-21.
A
relação entre política (César) e religião (Deus) nunca foi tranquila, mas
sempre tensa e cheia de conflitos. No passado de Israel, os profetas surgiram
como consciência crítica do rei. Sempre que este se corrompia e causava
injustiças sociais no seu país, era repreendido e ameaçado por Deus, através do
seu profeta. Hoje a situação mudou completamente. A Igreja não tem mais poder
algum sobre a política, mas o seu papel profético continua imprescindível: ser
a voz de Deus que se pronuncia contra tudo o que atenta contra a dignidade
humana.
A
saudável separação entre Igreja e Estado, entre Deus e César, tem sido desconstruída
pela chamada “teologia do domínio”. Ela consiste num conjunto de ideologias
cristãs — especialmente de origem norte‑americana — que defendem que princípios
bíblicos devem governar todas as áreas da sociedade, incluindo política,
cultura, economia e leis. A teoria parece muito boa, mas a prática revela
o contrário. A teologia do domínio leva o cristão a idolatrar líderes políticos,
a substituir o evangelho pela ideologia, a dividir a igreja por alinhamentos
partidários e a justificar o autoritarismo em nome de Deus.
Hoje
é o Dia Mundial das Missões. A missão que Jesus confiou a nós, sua Igreja é a
de ser “sal da terra” e “luz do mundo” (cf. Mt 5,13.14). Mas quando nos
tornamos um braço ideológico da política, deixamos de ser uma presença
profética no mundo, ficamos reféns de alianças políticas e diminuímos “o
escândalo da cruz” (cf. 1Cor 1,22-25). Desse modo, abandonamos a nossa
fidelidade a Cristo e a seu Evangelho, e passamos a ser fiéis a partidos
políticos, esquecendo-nos de que o Evangelho não existe para legitimar ideologias
políticas, mas para confrontá-las e questioná-las.
“A
César o que é de César”. Quais as características do César que foi eleito para
o Congresso e o Senado Federal, no dia 04 de outubro? 70% do novo Congresso é
contrário à agenda ambiental. Todos os políticos envolvidos no maior esquema de
desvio de dinheiro do país (Banco Master) foram eleitos. Os candidatos que usam
as redes sociais para divulgar mentiras (fake news) e fazer discursos de ódio foram
os mais votados. A eleição deste tipo de César totalmente neoliberal alegrou grandemente
o mercado financeiro, o que significa que ele dará prioridade aos interesses
dos mais ricos.
“Vivendo
na correria pela nossa sobrevivência, esquecemos frequentemente que cada homem
e cada mulher são filhos queridos de Deus e pertencem a Deus. Elegemos
políticos que criam mecanismos de injustiça e de opressão que são responsáveis
pelo sofrimento e pelas lágrimas de milhões de seres humanos; aceitamos que a
ditadura de uma economia sem rosto e sem coração (neoliberalismo) mantenha
amarrados numa miséria sem saída tantos e tantos dos nossos irmãos, ignorando
que ‘dar a Deus o que é de Deus’ significa lutar objetivamente contra tudo
aquilo que destrói a vida e a dignidade dos Seus filhos queridos” (Liturgia
Dehonianos, versão livre).
“A
Deus ó que é de Deus”. Jesus nos orienta a “dar a Deus o que é de Deus”. A
nossa consciência deve pertencer a Deus e não a César, nem ao mercado
financeiro, nem muito menos à desorientação e manipulação das redes sociais. A
nossa consciência moral precisa ser guiada pela justiça e pelo bem comum, e não
pelo lucro e ambição pessoais. O nosso tempo, comprometido com a sobrevivência
e sempre mais roubado pela indústria da distração, precisa escolher ficar na
presença de Deus diariamente, por meio da oração.
Pe. Paulo Cezar Mazzi