quinta-feira, 21 de maio de 2026

O SOPRO DE VIDA QUE VEM DE DEUS

 Homilia de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.

 

Jesus soprou sobre os discípulos e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O Espírito Santo é tão essencial em nossa vida quanto o ar que respiramos. Ele é o “sopro de vida” (Gn 2,7) que nos faz viver não só biologicamente, mas a partir de dentro: “Se tirais o seu respiro, eles perecem e voltam para o pó de onde vieram; enviais o vosso espírito e renascem e da terra toda a face renovais” (Sl 104,30). Sempre que a nossa Igreja, ao longo dos séculos, se fechou em si mesma como que dentro de um túmulo, o Espírito Santo suscitou alguém para convencê-la a sair, a abrir suas portas e janelas, a fim de ser renovada, atualizada e cumprir sua missão de ser sal e luz para os homens de todos os tempos.

Ainda em relação à Igreja, o Espírito Santo não fala somente dentro dela e a partir dela, mas lhe fala a partir do mundo, sobretudo das situações mais feridas e dolorosas da humanidade. Uma Igreja fechada à realidade das pessoas, sobretudo a uma realidade que passa longe das suas normas religiosas, é uma Igreja que se recusa a ouvir o que o Espírito Santo tem a lhe dizer. É bastante perigosa essa postura que afirma que “o velho é que é bom!” (Lc 5,39). Isso tem cheiro de rejeição ao Espírito Santo, atitude que nos recorda a rejeição dos fariseus em relação a Jesus.  

O Espírito Santo nos foi dado para que Cristo ressuscitado viva em nós! Só Ele pode nos fazer sentir a presença do Ressuscitado em nosso dia a dia. É por meio do Espírito Santo que a Palavra, que é Cristo, fale ao presente da nossa história pessoal e social, e ilumine nossas escolhas e decisões, para fazermos em tudo a vontade do Pai. Além disso, é somente através do Espírito Santo que nós podemos chamar a Deus de Pai: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Portanto, sempre que nos sentimos órfãos, sozinhos e abandonados neste mundo, precisamos clamar ao Espírito Santo que conceda ao nosso coração a certeza da nossa filiação divina, para que em toda e qualquer situação possamos dizer como Jesus: “Eu não estou só porque o Pai está comigo” (Jo 16,32).

Enquanto o nosso mundo sofre com separações, conflitos, guerras e divisões, o Espírito Santo deseja juntar os pedaços daquilo que está fragmentado em nós e criar unidade, comunhão, concórdia e paz. “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7). O Espírito Santo não aceita ser usado para a nossa vaidade, muito menos para a nossa soberba espiritual. Toda pessoa que se julga melhor do que as outras e que tem a pretensão de se considerar mais católica do que o próprio Papa não está sendo conduzida pelo Espírito Santo, mas sua própria arrogância espiritual.

No dia de Pentecostes o Espírito Santo foi derramado sobre a Igreja em forma de línguas de fogo, o que significa que a sua linguagem conduz para o amor, a caridade, a comunhão e a concórdia. Nós ouvimos o testemunho de pessoas de quase todas as partes do mundo que, escutando todos os discípulos “falarem em línguas” (At 2,4), afirmavam: “Todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11). Enquanto grupos católicos tradicionalistas buscam missas e orações em latim, o Espírito Santo nos capacita a falar uma língua que as pessoas entendam e através da qual se sinta tocadas por Deus, através da sua Palavra. Também podemos nos perguntar: as nossas postagens favorecem discórdia e divisão ou comunhão e reconciliação? As nossas palavras no dia a dia ajudam a promover concórdia ou discórdia no ambiente em que nos encontramos?  

            Neste dia de Pentecostes não basta clamar ao Pai que reavive o dom do seu Espírito em nós, – Jesus afirmou que “o Pai dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13) –, mas que tenhamos a atitude diária de nos deixar conduzir por ele (cf. Rm 8,14). E para onde o Espírito Santo quer nos conduzir? Para a esperança que não engana (cf. Rm 5,5), para o futuro que Deus tem para cada um de nós, para fora da nossa visão, prisioneira do agora, uma visão angustiada, incapaz de ver além da dor, do problema e da dificuldade pela qual cada um passa neste momento. “O Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem!’. Que aquele que ouve diga também: ‘Vem!’ Que o sedento venha, e quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22,17). O Espírito Santo se une à Igreja, Esposa de Cristo, para clamar: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).

            Enfim, o Espírito Santo é o “Espírito da promessa” (Ef 1,13). Ele é o penhor, isto é, a garantia da nossa ressurreição, a garantia de que nada é definitivo em nossa vida terrena, a garantia de que o Pai completará em cada um de nós a obra da salvação, até o dia da Vinda de seu Filho Jesus Cristo (cf. Fl 1,6). Então, soltemos as mãos do medo e da angústia, nos quais podemos estar agarrados neste momento, e nos deixemos conduzir pelo sopro de vida, que é o Espírito Santo. Que Ele nos leve para onde devemos ir, em vista da nossa libertação e salvação.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

JESUS FOI O CÉU NA TERRA. SEJA-O, VOCÊ TAMBÉM.

Homilia da Ascensão do Senhor Jesus. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Mateus 28,16-20.

 

“Ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, todo-poderoso, de onde há de vir e julgar os vivos e os mortos”. Essas palavras fazem parte da nossa profissão de fé, e precisam ser lembradas especialmente hoje, em que celebramos a ascensão (subida) de Jesus ao céu.

Segundo o autor da carta aos Hebreus, Jesus entrou no céu “a fim de comparecer, agora, diante da face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24). Desse modo, nós podemos apresentar a Jesus todas as nossas aflições e tribulações neste mundo, na certeza de que ele ora ao Pai por nós, para que permaneçamos firmes em nossa fé. Estando à direita do Pai e recebendo d’Ele todo poder e autoridade, Jesus prometeu enviar o Espírito Santo sobre os seus discípulos: “Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas” (At 1,8). Através do Espírito Santo, o próprio Jesus estará junto a cada um de nós, conforme prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20).

“Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Nenhum discípulo de Jesus está abandonado na face da terra, entregue aos sofrimentos e tribulações deste mundo. Ele está conosco, nos defendendo, nos amparando e nos sustentando com a graça do Espírito Santo. Estando no céu, junto do Pai, Jesus nos garante que um dia estaremos também no céu: “Quando eu for e vos tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós” (Jo 14,3).

Voltemos à narrativa da ascensão, segundo Lucas: “Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo. Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia” (At 1,9-10). Há uma “nuvem” que nos impede de ver Jesus no céu. Essa “nuvem” retrata a distância, não só espacial, entre o céu e a terra. O único que viu Jesus no céu foi o diácono Santo Estêvão, momentos antes de ser apedrejado até à morte: “Eu vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus” (At 7,56).

A nossa geração só crê naquilo que vê. Somos escravos das telas. Se no momento da ascensão os discípulos estavam olhando para o céu, nós dificilmente levantamos os olhos para o alto. A própria postura de quem olha para o celular já diz tudo: nosso pescoço e nossa cabeça vivem curvados para baixo. De tanto sermos envolvidos pelas coisas da terra, esquecemos o céu.  As palavras do apóstolo Paulo – “Somos cidadãos do céu: de lá aguardamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo” (Fl 3,20) – não fazem sentido nenhum em nosso dia a dia. Feitos para o céu, para voar como águias, nós nos comportamos como galinhas que vivem ciscando a terra, em busca de sobrevivência.

Pisando o mesmo chão que nós pisamos, Jesus nunca deixou de apontar o céu. Segundo ele, o céu pertence aos pobres em espírito, aos aflitos, aos que têm fome e sede de justiça, aos que promovem a paz (cf. Mt 5,3-8); ele pertence aos que não ignoram o sofrimento do próximo, aos que dão pão a quem tem fome, aos que cuidam dos doentes e aos que visitam os presos (cf. Mt 25,34-35); ele pertence aos que não ajuntam riqueza para si mesmos, mas usam o dinheiro para diminuir as desigualdades sociais à sua volta (cf. Lc 11,33-34), pois são as pessoas que nós ajudamos que nos receberão nas moradas eternas (cf. Lc 16,9).   

Enquanto esteve neste mundo, Jesus foi, para muitas pessoas, o céu na terra. Nós também somos chamados a sê-lo. O céu precisa “ser trazido” para a terra através de cada discípulo de Jesus, oferecendo presença a quem vive na solidão, palavras de conforto e de esperança a quem está abatido e desanimado, enxergando e valorizando aqueles que são “presença invisível” num mundo onde cada um está fechado em si mesmo... Rezemos, neste sentido, a oração de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.

 

Sugestão de leitura: “O céu começa em você – a sabedoria dos Padres do Deserto para hoje”, Anselm Grün, editora Vozes.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 


quinta-feira, 7 de maio de 2026

A PROMESSA DE OUTRO DEFENSOR

 Homilia 6º domingo da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 8,5-8.14-17; 1Pedro 3,15-18; João 14,15-21.

 

                Jesus continua o seu discurso de despedida, iniciado do 5º domingo da Páscoa (cf. Jo 14,1-12). Hoje ele nos recorda que o vínculo que nos manterá unidos a ele é a decisão de amar: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Aquele que nos amou até o fim deseja ser amado por nós, e não temido ou obedecido fanaticamente. Só o relacionamento atravessado pelo amor permanece e dá sentido à vida. Se a maldade é cada vez mais crescente no mundo em que vivemos, Jesus nos convida a não desistir de amar; pelo contrário, precisamos tomar diariamente a firme decisão de amar como ele amou.

             “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama” (Jo 14,21). Como afirmou Nilson Perissé, “observar seus mandamentos implica acompanhá-lo pelas estradas do Evangelho, perceber como reage diante da dor, da injustiça, da traição, do sofrimento e da fragilidade humana. É permitir que sua forma de amar lentamente modele também a nossa”.

            “Quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Sempre que decidimos amar nos tornamos espaço de presença: o Pai e o Filho passam a morar dentro de nós. Isso significa que a nossa vida deixa de ser território neutro. Nossos gestos, nossas escolhas, nossas palavras passam a ser, de algum modo, expressão do Pai e do Filho que vivem em nós. Em outras palavras, se os pagãos diziam, a respeito dos primeiros cristãos: “Vejam como eles se amam!”, num mundo paganizado como o nosso, precisamos nos perguntar se as pessoas enxergam amor não só entre nós, mas também em nossa forma de tratar aqueles que o mundo não ama: os idosos, as pessoas com deficiência, os pobres, os feridos pela violência e pela desigualdade social.  

Voltemos às palavras de Jesus: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,15-17). Agora Jesus fala claramente do envio do Espírito Santo, chamado por ele de “Defensor”. Enquanto estava no mundo, Jesus era o Defensor dos discípulos, mas agora ele deve voltar para o Pai e ser diante d’Ele o nosso intercessor.

Em que sentido o Espírito Santo é o nosso Defensor? Ele está junto a nós para firmar os nossos passos na missão que somos, exatamente como fez com Jesus: “Ele, porém, passando pelo meio deles, prosseguia o seu caminho” (Lc 4,30). Ele nos dá a firme convicção de não retrocedermos diante dos obstáculos e dificuldades, como também fez com Jesus: “Quando chegaram os dias da sua subida, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51). Portanto, o Espírito Santo não apenas nos defende do espírito do mal, como nos defende também da covardia, do medo e do “corpo mole” que sempre sabotam o nosso crescimento e a nossa constância no seguimento de Jesus.  

Enfim, Jesus esclarece que esse “outro Defensor” é “o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17). O mundo, aqui, não é a humanidade, mas toda pessoa que escolheu viver na mentira e não aceita a verdade do Evangelho. Como também afirma o livro da Sabedoria, “o Espírito Santo, o educador, foge da falsidade e se afasta de uma pessoa pratica a injustiça” (citação livre de Sb 1,5). Somente a pessoa que busca a verdade e se deixa educar, corrigir e guiar por ela, pode acolher o Espírito da Verdade.

Quando permanecemos no amor Àquele que é a Verdade, Jesus Cristo, o Espírito da Verdade não só “permanece junto” de nós, mas fica “dentro de nós”. Neste dia das Mães suplicamos que o Espírito Santo venha sobre cada uma delas e as cubra com sua sombra (cf. Lc 1,35).

Oremos: “Aqui estamos, Espírito Santo. Aqui estamos em sua presença. Venha e fique conosco. Infunda-se no mais íntimo do nosso coração. Ensine-nos em que temos de nos ocupar, para onde temos de dirigir nossos esforços. Seja somente você quem inspire e leve a feliz termo nossas decisões. Não permita que sejamos perturbadores da justiça. Que a ignorância não nos arraste para o mal, nem nos corrompa o desejo pelo lucro. Sejamos nós um em você e nada nos separe da verdade” (Santo Isidoro).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 30 de abril de 2026

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

 Homilia do 5º dom. Páscoa. Atos dos Apóstolos 6,1-7; 1Pedro 2,4-9; João 14,1-12.


“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Começamos hoje a ouvir o discurso de despedida de Jesus. Ainda que tenha ressuscitado para ficar conosco (cf. Lc 24,29), Jesus deve voltar ao Pai, para nos enviar o Espírito Santo. Por sua vez, o Espírito Santo será Jesus ressuscitado não somente junto a nós, mas em nós!

“Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Jesus descreve o reino de Deus como uma casa com muitas moradas. Essas muitas moradas são a expressão da vontade do Pai, que quer que todos sejam salvos. O fim da nossa peregrinação é a casa do Pai, como Jesus afirma: “Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14,2-3). Aqui, o medo da morte dá lugar à plena confiança em Jesus: na morte, ele vem buscar cada um dos seus discípulos, para leva-los junto com Ele, para a casa do Pai.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Jesus nos torna conscientes de que a salvação não é um privilégio para poucos, mas uma graça oferecida a todos. Nenhum pregador religioso tem o direito de se pôr no lugar do Pai e decidir por ele mesmo quem entra e quem não entra no Céu. Nenhum líder religioso pode ter a pretensão de diminuir o número de moradas na casa do Pai, só para caber nessa Casa quem ele julga (pelas aparências) ser “de Deus”.    

Antes de voltar para o Pai, Jesus nos ensina qual o caminho que conduz à plena comunhão com o Pai, em sua Casa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Ter fé em Jesus e no Pai significa percorrer um caminho. Esse caminho nem sempre é feito de facilidades; muito pelo contrário. Às vezes, ele nos oferece respostas; outras vezes, nos faz perguntas. As dificuldades desse caminho estão ali para verificar o quanto levamos a sério o nosso seguimento de Jesus e o nosso desejo de um dia chegar à casa do Pai.

O Caminho que nos conduz ao Pai é a Verdade. A grande maioria das pessoas passa a vida fugindo de si mesma, evitando confrontar-se com uma verdade a princípio dolorosa, mas que tem o poder de curar as feridas abertas pelo engano e pela mentira. Por que a imensa quantidade de igrejas e religiões não consegue tornar o mundo melhor? Porque a maioria das pessoas que as frequentam não está buscando o “Deus da Verdade” (Is 65,16), mas bênçãos e milagres para solucionar seus problemas terrenos. Hoje, sobretudo, a procura pela Verdade que é Deus foi substituída pela busca pela emoção. Por isso, o esforço feito em participar de um show católico não é visto no participar da missa na própria comunidade.

O Caminho, percorrido na Verdade, nos conduz à Vida. Jesus já havia dito que ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). O problema é que muitos não querem viver plenamente, mas apenas sobreviver. Não queremos enfrentar um tratamento sério e doloroso para curar nossas feridas mais profundas; queremos apenas analgésicos e vestes bonitas que as mascarem. Para termos Vida em abundância, precisamos renunciar às compensações temporárias dos nossos pecados, os quais nos fazem experimentar vários tipos de morte ao longo da nossa existência.

Em outras palavras, se Jesus é o Caminho, não gastemos tempo, energia e recursos percorrendo atalhos mais curtos e aparentemente mais vantajosos, que só nos distanciam de nós mesmos e de Deus. Se Jesus é a Verdade, tenhamos a coragem de reconhecer aquilo que precisa ser reconhecido em nós, na relação com as pessoas e com o mundo, a fim de tomarmos a firme decisão de romper com todo tipo de engano e mentira. Se Jesus é a Vida, aprendamos a nos considerar mortos para toda oferta de vida artificial, superficial, escrava de sensações passageiras que aumentam o vazio que nos habita.       

Rezemos a partir de uma antiga canção católica: “Vós sois o Caminho, a Verdade e a Vida, o pão da alegria descido do céu! Nós somos caminheiros que marcham para o céu. Jesus é o caminho que nos conduz a Deus”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A ALMA DA OVELHA SÓ ENCONTRA DIREÇÃO OUVINDO A VOZ DO SEU PASTOR

 Homilia 4º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14a.36-41, 1Pedro 2,20b-25; João 10,1-10.

 

            Neste domingo do bom Pastor, Jesus se define como “a porta”. Primeiramente, ele afirma ser a porta para aqueles que têm a missão de cuidar dos outros: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (Jo 10,1-2). “Entrar pela porta”, neste primeiro caso, significa configurar-se a Jesus, tê-lo como único modelo de cuidador, amando como ele, até o fim, dedicando a existência ao bem das ovelhas, como ele fez.

Mas aqui não podemos nos esquecer de qual porta é Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição!” (Mt 7,13). Todo cuidador que se espelha em Jesus deve se lembrar de que a porta das ovelhas é o próprio corpo do pastor. Durante a noite, ele dorme ali, na porta do redil, porque, se algum animal quiser se aproximar para ferir ou matar uma ovelha, terá primeiro que enfrentar o pastor. Portanto, todo cuidador que tem Jesus como modelo de cuidado sabe que ele mesmo é a proteção do seu rebanho, e que o espírito do mal tem como principal objetivo ferir o pastor, para, depois, apoderar-se das ovelhas do rebanho.

Vejamos agora o segundo sentido da porta: “Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,7.9). Entrar pela porta que é Jesus é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. A vida nos apresenta inúmeras portas. Nem todas nos dão acesso ao que é bom. Nem todas nos conduzem à verdadeira liberdade. Nem todas nos ajudam a encontrar “pastagem”, isto é, meios que sustentam a nossa vida física, emocional e espiritual. Somente Jesus nos faz “entrar” em comunhão com o Pai, com o Deus a quem a nossa alma anseia. Somente Jesus nos faz “sair” de uma situação de escravidão que nos adoece, ou da prisão em que nós mesmos nos colocamos, por culpa ou por desistência de nós mesmos. Somente Jesus nos faz “encontrar pastagem”, porque sua Palavra é “espírito e vida” (Jo 6,63), Palavra que nos faz viver a partir de dentro.

Ao longo da vida, nós escolhemos entrar por muitas portas. Por que será que muitas dessas portas nos conduziram a situações de destruição? Porque nós nos iludimos com a beleza e a largura da porta. A escolha de uma porta implica a renúncia a outras portas. Quantas portas foram deixadas para trás, porque eram estreitas e feias? E, no entanto, elas nos davam a possibilidade de uma vida mais significativa. Tomemos cuidado com o medo: ele nos impede de abrirmos muitas portas, e sem abri-las, nós continuamos a viver presos numa rotina que nos sufoca e nos desencanta. Qual porta a vida está lhe pedindo para abrir hoje?

Neste domingo do bom Pastor, façamos nossa a oração do salmista: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176). As inúmeras vozes dos inúmeros influenciadores digitais falam conosco todos os dias. Além disso, existe a voz da nossa cobrança interior, a voz do mercado, sempre insaciável em sua fome de lucro, a voz desorientação e dos contra valores, que ecoa o tempo todo nas redes sociais, a voz das nossas fantasias e a voz dos nossos medos. Tudo isso nos confunde e algumas vezes nos desvia de nós mesmos e de Deus. Precisamos diariamente silenciar, não para ouvir o nada, mas para ouvir a voz do nosso único Pastor: “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3).

“Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (Jo 10,3). Em meio à grande massificação em que vivemos, Jesus nos chama pelo nome; ele nos identifica e sabe que somos únicos. Sua voz nos retira do barulho que adoece e confunde. Nela encontramos direção. A voz do nosso bom Pastor nos “conduz para fora”, isto é, para fora do quarto escuro do nosso medo, para fora da nossa tristeza e da nossa falta de sentido, para fora da prisão do vício e do pecado, para fora da mentira e do erro. Só é possível ouvir essa voz quando decidimos silenciar, por fora e por dentro. Deixemo-nos ser encontrados por Aquele que nos procura. Não continuemos a nos desviar da porta estreita por medo ou por acomodação. Tenhamos a atitude diária de nos deixar cuidar pelo grande Cuidador, nosso Pastor Jesus Cristo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi          

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O RESSUSCITADO NOS FAZ VER (INTERPRETAR) OS ACONTECIMENTOS RUINS DE OUTRA FORMA

 Homilia do 3º. Dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,14.22-33; 1Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35.

 

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém!” (Lc 24,13). Geograficamente, existem quatro lugares possíveis onde seria Emaús, mas o caminho que nos leva até lá é muito conhecido! É o caminho da desistência, do desencanto; um caminho que nós trilhamos com muita frequência, sempre que perdemos a nossa esperança. É o caminho da decepção consigo mesmo, ou com os outros, ou com a Igreja, ou com a vida, ou com o próprio Deus.

“Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24,14-16). “Onde está o Ressuscitado em minha vida?”, talvez você se pergunte. Ele está caminhando ao seu lado. Ele escuta a sua dor e as suas perguntas. Ele respeita o tempo que você precisa para digerir as coisas. Ele quer que você desabafe e fale tudo o que está engasgado na sua garganta. Ele o(a) incentiva a dar nome ao que você está sentindo, a tentar descrever com palavras a sua falta de esperança: “Nós esperávamos” (Lc 24,21).

Embora o Ressuscitado pise no mesmo chão que nós e comungue do nosso desencanto, da nossa perda de sentido, nós somos incapazes de reconhecê-lo, e o motivo é um só: nossos olhos estão presos à nossa dor, impedidos de olhar para além da nossa tristeza. Essa incapacidade de ver o Ressuscitado junto a nós é resultado da forma como interpretamos as coisas ruins que nos acontecem. Somente uma coisa pode abrir os nossos olhos: a Sagrada Escritura! Ela nos revela que a nossa existência não está nas mãos do acaso, mas inserida num propósito de Deus. Precisamos estar atentos a isso: o que mais nos faz sofrer não são os acontecimentos ruins, mas a forma como os interpretamos.

“Então Jesus lhes disse: ‘Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?’ E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,25-27). Tanto a existência terrena de Jesus quanto a nossa está inserida num “deve”, num plano divino onde todos os acontecimentos que nos atingem têm uma razão de ser. Isso significa que cada dor que o Pai permite que atravesse o nosso caminho tem um propósito, e a atitude mais importante não é desistir da nossa existência, mas manter o foco no nosso “deve”: “Mesmo não compreendendo a razão da minha dor, eu devo me manter fiel à missão que a vida me confiou”.

“‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ Jesus entrou para ficar com eles” (Lc 24,29). Eis o pedido fundamental, em nosso momento de perda de esperança: “Fica comigo, Senhor Jesus!”. Fica comigo até que eu aprenda a enxergar a vida para além da minha dor! Fica comigo e me sustente na fidelidade diária ao dever que o Pai me confiou! “Jesus entrou para ficar com eles”, uma outra forma de o evangelista Lucas afirmar: “Jesus ressuscitou para ficar conosco!”. E “quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles” (Lc 24,30-31).

            “Ao partir o pão”. “Partir o pão” é o primeiro nome que a Eucaristia ganhará nas primeiras comunidades cristãs. Comentando este evangelho, o Missal Dominical afirma: “O mundo reconhece os cristãos quando eles sabem ‘partir o pão’. Partilhar o pão eucarístico implica em partilhar o pão social; um compromisso de justiça, de solidariedade, de defesa daqueles cujo pão é roubado pelas injustiças dos homens e dos sistemas sociais errados. O nosso ‘partir o pão’ não pode nos alienar da realidade” (Missal Dominical, p.269).

“Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24,33). O caminho do abandono transforma-se agora em caminho da retomada do sentido. O Ressuscitado nos encoraja a voltar para a missão, para o nosso dever, enxergando os acontecimentos ruins de uma outra forma e compreendendo que a nossa vida não está nas mãos do acaso, nem do poder do mal, mas nas mãos do Pai, que dispõe todas as coisas segundo o Seu desígnio de salvação para conosco.  

Nossa oração: https://www.youtube.com/watch?v=nk1lxT4PVTo

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O ÁRDUO CAMINHO DA FÉ

 Homilia 2º dom Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,42-47; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31.

 

“Se eu não vir, não acreditarei” (Jo 20,25). Eis a declaração da falta de fé de Tomé no Cristo ressuscitado. Traduzindo-a para hoje: “Se eu não sentir, se eu não me emocionar, não acreditarei” (fé infantil, que se alimenta de emoção); “Se eu não vir milagres, não acreditarei” (fé que exige intervenções miraculosas de Deus); “Se Deus não remover a minha dor e não curar a minha doença, não acreditarei” (fé que condiciona Deus a agir exatamente do modo como esperamos), etc. Em outras palavras, a nossa falta de fé está sempre presente quando, para crer, colocamos uma condição: “Se”.

            Quando Deus chamou Abraão para caminhar com Ele e lhe fez a promessa de uma terra e de um filho, “Abraão obedeceu e partiu, sem saber para onde ia” (Hb 11,8). A fé pura e verdadeira está aqui: Deus me chama e eu decido caminhar com Ele “sem saber para onde” sua mão me conduzirá. Não cabe a mim escolher o caminho mais fácil ou o que julgo ser o melhor. Não exijo que Deus me diga primeiro “para onde” quer me conduzir. Eu simplesmente confio e me deixo conduzir por Ele, ou seja, eu O obedeço. “A fé nunca sabe para onde está sendo conduzida, mas ela confia e ama Aquele que a conduz” (Oswald Chambers).

Para a Sagrada Escritura, fé é sinônimo de obediência. Para muitos pregadores pentecostais a fé é uma estratégia para você conseguir que Deus lhe conceda “bênçãos”, sendo a maioria delas coisas materiais, ganhos mundanos. As igrejas ainda estão cheias, o que faz com que pensemos que a fé tem aumentado no mundo. No entanto, a “religião” que mais cresce no mundo é a dos que não têm mais fé. E por que perderam a fé? Porque as promessas de prosperidade que lhes foram feitas por pregadores mundanos nunca se realizaram e, infelizmente, em muitos casos, o abandono da igreja também se estendeu para o abandono de Deus.

Jesus disse à samaritana: “o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e verdade” (citação livre de Jo 4,23). O Pai procura filhos que tenham fé n’Ele e que O procurem por amor, e não por necessidades ou por desejos fantasiosos e egoístas. O Pai procura por homens e mulheres que confiem n’Ele o tempo todo, principalmente diante das contrariedades da vida. A fé que agrada o Pai é a fé que se abandona aos Seus cuidados e que deseja apenas uma coisa: obedecer, no sentido de fazer o tempo todo a Sua vontade, sabendo que essa vontade é unicamente o nosso bem.

A falta de fé de Tomé e a sua posterior confissão de fé nos ensinam que a fé é sempre um caminho a percorrer. Nós temos fé no Senhor ressuscitado que se definiu como “Caminho”, caminho apertado e exigente (cf. Mt 7,14). Ter fé é caminhar, é seguir o nosso Pastor “aonde quer que ele vá” (Ap 14,4), atravessando noites escuras, isto é, momentos de aridez espiritual, onde a nossa fé é provada, como disse o apóstolo Pedro: “Isto é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que agora fiqueis por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira - mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo” (1Pd 1,6-7).

Da mesma forma como a força das raízes de uma árvore é provada pelo vento contrário, assim as contrariedades da nossa vida servem para verificar o quanto a nossa fé é profunda e as nossas raízes estão, de fato, agarradas em Deus. Mas a grande prova da nossa fé é a perda daquilo que mais amamos; é quando o Pai nos pede para devolver-lhe algo que nos foi confiado, mas que Lhe pertence: “Foi pela fé que Abraão, tendo sido provado, ofereceu Isaac, seu único filho” (Hb 11,17), e o ofereceu porque tinha fé no “Deus que também é capaz de ressuscitar os mortos. Por isso, recuperou seu filho, como um símbolo” (Hb 11,19). Isaac, salvo do sacrifício, prefigurou Jesus, o Filho de Deus, sacrificado na cruz, mas ressuscitado pelo Pai, razão da nossa fé.    

“Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!’” (Jo 20,28). Eis aqui a recuperação da fé de Tomé no Senhor Jesus ressuscitado. Ela aconteceu “oito dias depois” da primeira aparição do Ressuscitado aos seus discípulos. O evangelista João está nos dizendo que o domingo, dia do Senhor, é o dia ideal para o nosso encontro com o Ressuscitado, dia em que o Esposo visita a sua esposa, dia em que ele aquece o nosso coração com a sua Palavra e parte o Pão da Eucaristia, revelando a sua presença constante no meio de nós. Pensando exatamente em nós, o Ressuscitado afirmou: “Felizes os que creram sem terem visto” (Jo 20,28). Felizes os que não exigem sinais grandiosos para crer. Felizes os que suportam as noites escuras da fé e não soltam das minhas mãos.  

Palavra final: a fé sempre será um risco a correr. Se nós temos tudo garantido, não precisamos de fé. Ela nunca será certeza, mas sempre confiança. O Pai quer de nós uma única coisa: que confiemos n’Ele. Quanto à nossa fé, ela sempre será provada, para crescer, se purificar e se libertar de elementos estranhos, como a sensação, o sentir, as fortes emoções.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi