Homilia
25º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,6-9; Filipenses 1,20c-24.27a; Mateus
20,1-16a.
“Deus
não é justo”, dizemos nós. Uma mãe tem dois filhos. Um é dócil, educado,
bondoso, companheiro. O outro é agressivo, vive nas drogas, faz muita coisa
errada e causa muito desgosto à mãe. Devido a uma fatalidade, o filho “bom”
sofre um acidente e morre. E nós dizemos: “Morreu o filho bom e ficou o que faz
a mãe sofrer. Deus não é justo”. Outro exemplo: Uma criança saudável e cheia de
vida desenvolve um câncer e morre, enquanto um idoso definha numa cama por anos
a fio. “Deus não é justo”, dizemos nós.
A
vida está cheia de acontecimentos que invertem a imagem que temos de Deus como
um Pai bom, um Deus justo. Mas a resposta que o próprio Deus nos dá é esta: “Meus
pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como
os meus caminhos, diz o Senhor” (Is 55,8). Dizendo de outra forma, o que
para nós vem em primeiro lugar, para Deus vem por último. O que nós
valorizamos, Ele despreza. Onde vemos fraqueza, Deus vê força. Quando dizemos: “Isso
é injusto, Senhor!”, Ele diz: “Isso está dentro dos meus desígnios de salvação”.
Diante
da constatação que fazemos com frequência de que “Deus não é justo”, Jesus nos fala
da parábola dos trabalhadores da vinha, contratados em horas diferentes, ao
longo do dia. Aos da 6h da manhã o patrão prometeu o valor de uma diária (uma
moeda de prata). Aos contratados às 9h, às 12h, às 15h e até mesmo às 17h, ele
prometeu pagar “o que for justo” (Mt 20,4).
Por
mais que vivamos num país profundamente injusto e desigual, todos concordamos
com a reclamação dos trabalhadores contratados às 6h da manhã: “Estes últimos
trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o
calor o dia inteiro” (Mt 20,12). Na nossa justiça humana, o pagamento de um
trabalhador deve corresponder exatamente às horas em que ele trabalhou. Jamais
se paga a quem trabalhou apenas uma hora o mesmo que foi pago ao que trabalhou
o dia inteiro!
Deixemos
o próprio Deus nos ensinar como é a justiça divina: “Amigo, eu não fui injusto
contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa!
Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por
acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?” (Mt
20,13-15). O que pertence a Deus? A salvação! De fato, afirma o Apocalipse: “A
salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro” (Ap 7,10).
Ora, ninguém compra a sua salvação, nem mesmo por meio do tempo em que serve a
Deus!
Deus
tem o direito de ser quem Ele é: “Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é
amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua
ternura abraça toda criatura” (Sl 145,8-9). Segundo a nossa justiça humana, a
ternura do Pai não deve, de maneira alguma, abraçar os que só decidiram
caminhar com Ele no final da vida. Mas a questão é: por que essa decisão foi
tomada somente no final da vida? Deixemos os trabalhadores da vinha responder: “Por
que ninguém nos contratou” (Mt 20,7). Em outras palavras, “porque ninguém nos
anunciou o Evangelho até agora”.
A
moeda de prata, que o patrão quis dar a todos em trabalhadores, simboliza a
salvação de Deus. O Deus justo é também o Deus bom que deseja salvar a todos os
homens, cuja graça continua a ser oferecida a todas a pessoas, nas suas diversas
situações (horários diferentes!). É isso que precisamos compreender, na forma de
Deus agir: Ele sempre leva em conta as diversas situações em que cada um se
encontra.
Tomemos
cuidado com o orgulho religioso. Muitos judeus, os primeiros a serem destinados
à salvação, rejeitaram Jesus, o que fez a salvação de Deus ser oferecida aos
pagãos, considerados pelos judeus como “últimos”. A afirmação de Jesus, de que “os
últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (Mt 20,16), não é
um fato ocorrido somente no início do cristianismo, mas uma possibilidade que permanece
sempre aberta: quem hoje se orgulha de estar entre os primeiros (presunção
religiosa), amanhã poderá estar entre os últimos. O importante é obedecer ao
conselho do apóstolo Paulo: “Vivei à altura do Evangelho de Cristo” (Fl 1,27).
Pe.
Paulo Cezar Mazzi