terça-feira, 31 de março de 2026

O CORDEIRO SE FEZ PÃO PARA OS SOFRIDOS DO MUNDO

 Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-53.

 

Nesta noite começamos a celebração da Páscoa. Ela se inicia com a memória da entrega de Jesus, entrega que, antes de se dar na cruz, deu-se numa Ceia: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão... ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós’... Depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue’” (1Cor 11,23.24.25). Jesus celebra a última Ceia com seus discípulos “entregando-se livremente” porque viveu a sua vida a partir de uma convicção: “Eu sou uma missão nesta terra e por isso estou neste mundo” (Papa Francisco).

            O texto do Êxodo nos convida a fazer memória da páscoa dos hebreus, quando cordeiros foram sacrificados para proteger as suas famílias por meio do sangue passado nas portas das casas. Ao celebrar a páscoa, Jesus dá um novo sentido ao sangue dos cordeiros. Sangue derramado significa amor que se sacrifica. Sem sacrifício, ninguém salva aquilo que ama. Jesus “amou os seus até o fim” (Jo 13,1). Se é verdade que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22), Jesus é o verdadeiro Cordeiro que derrama, livre e conscientemente, o seu sangue pela remissão de todo ser humano, de modo que cada um pode dizer como São Paulo: “A minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

O sacrifício de Jesus na cruz foi oferecido uma única vez, mas “todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, estamos proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (cf. 1Cor 11,26). Em cada Eucaristia Jesus abraça o nosso passado – Ele morreu por nós –, o nosso presente – Ele está no meio de nós –, e o nosso futuro – Ele virá para nos introduzir no banquete do Reino de Deus. Esse banquete do Reino se antecipa em cada Eucaristia, onde Jesus revela o sentido da sua entrega e missão: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9,12.13).    

            Neste dia da instituição da Eucaristia, precisamos nos lembrar de algumas verdades importantes: “Jesus não instituiu a Eucaristia para o deleite espiritual de grupos seletos, mas para romper com ‘bolhas místicas’ e se tornar pão para os feridos do mundo. Muitos se esforçam por ‘estar diante de Deus’, adorando o Santíssimo Sacramento, mas se esquecem de que Deus escolheu estar junto aos pobres. Nós não podemos ter os olhos voltados para o Santíssimo Sacramento e dar as costas para o sofrimento alheio. Aquele que está na hóstia é Aquele que disse: ‘Eu estava com fome e você me deu de comer’” (Mt 25,35). Cristo está onde a vida dói. A Eucaristia é pão para o mundo” (Guillermo Jesus Kowalski, O sequestro do Santíssimo Sacramento).

Foi exatamente enquanto celebrava a última Ceia com seus discípulos que Jesus disse: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Por isso, a última lembrança que Jesus quis que seus discípulos tivessem dele foi a de lavar-lhes os pés, uma atitude própria de escravos. “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15). Como identificar uma pessoa que comunga? Pelo serviço que ela realiza em favor dos outros.

Dizia Madre Teresa de Calcutá: “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem sentir-se melhor e mais feliz” (Madre Teresa de Calcutá). Compreender isso é dispor-se a lavar os pés dos outros, sabendo que “há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora. Sempre teremos pés para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem... Isso é viver a Eucaristia no cotidiano da vida” (Pe. Adroaldo).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

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