quinta-feira, 19 de março de 2026

VENHA PARA FORA DA SEPULTURA EM QUE VOCÊ SE ENTERROU!

 Homilia do 5º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Ezequiel 37,12-14; Romanos 8,8-11; João 11,1-6.11.14-15.17.19-27.33-45.

           

            “A tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo” (Albert Schweitzer). “Os homens de hoje vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido” (Dalai Lama). Essas duas frases nos mostram o grande perigo de estarmos vivos biologicamente, mas mortos na alma (vida emocional) ou no espírito (nossa esperança em Deus). O quê já morreu dentro de você? O quê você decidiu enterrar, por não acreditar na possibilidade de aquilo ser ressuscitado? Você tem consciência de que a sua vida aqui é finita? Essa consciência o(a) ajuda a dar prioridade ao que é essencial e não se perder no que é ilusório e passageiro?  

            Durante a sua experiência de exílio na Babilônia, Israel deixou morrer a sua esperança: “A nossa esperança está desfeita. Para nós tudo está acabado” (Ez 37,11). Essa perda de esperança pode estar no coração de uma pessoa que se separou, de alguém que está na fase terminal de um câncer, na pessoa que perdeu um ente muito querido, num homem que despencou financeiramente do seu pedestal, em alguém que se sente absolutamente condenado por Deus etc.

            Mas Deus fez uma promessa: “Eu vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel” (Ez 37,12). E isso aconteceu no ano 538 aC, quando o Senhor pôs fim ao exílio, através do rei persa, Ciro, e Israel pôde voltar ao seu país e reconstruir sua vida. Nossa esperança humana pode não durar muito tempo, mas aqueles que aprendem a esperar em Deus serão retirados do túmulo do seu desespero e da sua falta de sentido para a vida, mesmo quando se perguntam: “Para quê continuar a viver?”.

              Se Deus concedeu a Israel a sua “ressurreição”, ou seja, a libertação do exílio, Ele preparou para nós algo muito maior: a ressurreição em Seu Filho Jesus, o Filho que chora a morte de todo ser humano porque o ama (cf. Jo 11,33). Jesus chora quando levamos uma vida autodestrutiva, abrindo sepulturas para nós mesmos e para aqueles que amamos. Jesus chora por uma humanidade constantemente exposta à morte por uma “economia que mata” (Papa Francisco). Jesus chora, e o seu choro questiona a nossa sensibilidade anestesiada, a nossa perda de capacidade de chorar por tudo o que morre à nossa volta, às vezes com a nossa colaboração.

Todos nos reconhecemos na súplica das irmãs de Lázaro: “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3). Todos temos a mesma ideia errada: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Achamos que a morte aconteceu porque Jesus não nos ama de verdade. De fato, Jesus pode não atender à nossa oração e permitir que uma doença leve um ente querido nosso à morte, porque tem um propósito maior: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais” (Jo 11,15). Jesus não veio impedir a morte física, que um dia alcançará a todos nós, mas nos convidar a ter uma fé para além do sofrimento de uma doença e da dor profunda, que a morte de quem amamos nos causa.

“Onde o colocastes?” (Jo 11,34), perguntou Jesus às irmãs de Lázaro. Jesus hoje nos pergunta onde enterramos a nossa fé e sepultamos a nossa esperança. Onde enterramos os nossos talentos, o nosso desejo de trabalhar por um mundo melhor, pela restauração da nossa família, pelo anúncio do Evangelho? Jesus nos encoraja a nos colocar diante do nosso túmulo existencial, onde ali já nos enterramos vivos, e diante da sepultura do nosso ganho secundário, Ele nos faz o convite: “Vem para fora!” (Jo 11,43). Jesus pergunta se nós realmente desejamos sair do túmulo do vitimismo, do desânimo e da autopiedade. Nós realmente queremos voltar a viver e a lidar com aquilo que a vida está colocando diante de nós? Não existe possibilidade de ressurreição, nesta vida, para quem não deseja mais viver.

“Vem para fora!” (Jo 11,43). Abra as janelas do seu quarto escuro e deixe entrar a luz do sol! Apesar do medo, do desânimo e da sua total perda de esperança, faça o esforço de sair da sua cama, abrir a porta do seu quarto e voltar a acolher a vida que te aguarda. Não deseje morrer só porque as coisas não estão como você gostaria que estivessem; aprenda a acolher a vida como ela é. Não gaste energia à toa brigando com a realidade e não permita que ela seja a sua desculpa para não lutar pela vida, sua e daqueles a quem você ama. E se, por acaso, não houver em você a mínima vontade de continuar vivo(a), clame o Espírito Santo, força vital de Deus em nós e promessa da nossa ressurreição, lembrando-se de que “aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8,11).

Palavra final: Cristo é água para nossa sede, luz para nossas trevas, ressurreição para nossa vida. N’Ele tudo está destinado à ressurreição! (parafraseando o Missal Cotidiano).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

 

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