Homilia do 5º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Ezequiel 37,12-14; Romanos 8,8-11; João 11,1-6.11.14-15.17.19-27.33-45.
“A tragédia não é quando um homem
morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo”
(Albert Schweitzer). “Os homens de hoje vivem como se nunca fossem morrer, e
morrem como se nunca tivessem vivido” (Dalai Lama). Essas duas frases nos
mostram o grande perigo de estarmos vivos biologicamente, mas mortos na alma
(vida emocional) ou no espírito (nossa esperança em Deus). O quê já morreu
dentro de você? O quê você decidiu enterrar, por não acreditar na possibilidade
de aquilo ser ressuscitado? Você tem consciência de que a sua vida aqui é
finita? Essa consciência o(a) ajuda a dar prioridade ao que é essencial e não
se perder no que é ilusório e passageiro?
Durante a sua experiência de exílio
na Babilônia, Israel deixou morrer a sua esperança: “A nossa esperança está
desfeita. Para nós tudo está acabado” (Ez 37,11). Essa perda de esperança pode
estar no coração de uma pessoa que se separou, de alguém que está na fase
terminal de um câncer, na pessoa que perdeu um ente muito querido, num homem
que despencou financeiramente do seu pedestal, em alguém que se sente
absolutamente condenado por Deus etc.
Mas Deus fez uma promessa: “Eu vou abrir as vossas sepulturas e
conduzir-vos para a terra de Israel” (Ez 37,12). E isso aconteceu no ano 538
aC, quando o Senhor pôs fim ao exílio, através do rei persa, Ciro, e Israel
pôde voltar ao seu país e reconstruir sua vida. Nossa esperança humana pode não
durar muito tempo, mas aqueles que aprendem a esperar em Deus serão retirados
do túmulo do seu desespero e da sua falta de sentido para a vida, mesmo quando
se perguntam: “Para quê continuar a viver?”.
Se Deus
concedeu a Israel a sua “ressurreição”, ou seja, a libertação do exílio, Ele preparou
para nós algo muito maior: a ressurreição em Seu Filho Jesus, o Filho que chora
a morte de todo ser humano porque o ama (cf. Jo 11,33). Jesus chora quando levamos
uma vida autodestrutiva, abrindo sepulturas para nós mesmos e para aqueles que
amamos. Jesus chora por uma humanidade constantemente exposta à morte por uma “economia
que mata” (Papa Francisco). Jesus chora, e o seu choro questiona a nossa sensibilidade
anestesiada, a nossa perda de capacidade de chorar por tudo o que morre à nossa
volta, às vezes com a nossa colaboração.
Todos nos reconhecemos na súplica das
irmãs de Lázaro: “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3). Todos temos a
mesma ideia errada: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria
morrido” (Jo 11,21). Achamos que a morte aconteceu porque Jesus não nos ama de
verdade. De fato, Jesus pode não atender à nossa oração e permitir que uma
doença leve um ente querido nosso à morte, porque tem um propósito maior: “Lázaro
está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que
creiais” (Jo 11,15). Jesus não veio impedir a morte física, que um dia
alcançará a todos nós, mas nos convidar a ter uma fé para além do sofrimento de
uma doença e da dor profunda, que a morte de quem amamos nos causa.
“Onde o colocastes?” (Jo 11,34),
perguntou Jesus às irmãs de Lázaro. Jesus hoje nos pergunta onde enterramos a
nossa fé e sepultamos a nossa esperança. Onde enterramos os nossos talentos, o
nosso desejo de trabalhar por um mundo melhor, pela restauração da nossa família,
pelo anúncio do Evangelho? Jesus nos encoraja a nos colocar diante do nosso
túmulo existencial, onde ali já nos enterramos vivos, e diante da sepultura do
nosso ganho secundário, Ele nos faz o convite: “Vem para fora!” (Jo 11,43).
Jesus pergunta se nós realmente desejamos sair do túmulo do vitimismo, do
desânimo e da autopiedade. Nós realmente queremos voltar a viver e a lidar com
aquilo que a vida está colocando diante de nós? Não existe possibilidade de
ressurreição, nesta vida, para quem não deseja mais viver.
“Vem para fora!” (Jo 11,43). Abra as
janelas do seu quarto escuro e deixe entrar a luz do sol! Apesar do medo, do
desânimo e da sua total perda de esperança, faça o esforço de sair da sua cama,
abrir a porta do seu quarto e voltar a acolher a vida que te aguarda. Não
deseje morrer só porque as coisas não estão como você gostaria que estivessem;
aprenda a acolher a vida como ela é. Não gaste energia à toa brigando com a
realidade e não permita que ela seja a sua desculpa para não lutar pela vida,
sua e daqueles a quem você ama. E se, por acaso, não houver em você a mínima
vontade de continuar vivo(a), clame o Espírito Santo, força vital de Deus em
nós e promessa da nossa ressurreição, lembrando-se de que “aquele que
ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos
corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8,11).
Palavra final: Cristo é água para nossa
sede, luz para nossas trevas, ressurreição para nossa vida. N’Ele tudo está
destinado à ressurreição! (parafraseando o Missal Cotidiano).
Pe. Paulo Cezar Mazzi
Nenhum comentário:
Postar um comentário