quinta-feira, 5 de março de 2026

DA VERDADE É A NOSSA SEDE MAIS PROFUNDA

Homilia do 3º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-15.19b-26.39a.40-42 (forma breve).

 

    1. Sede.

A água é o principal componente do corpo humano, representando cerca de 60% do peso corporal de um adulto saudável. Quando a ingestão de água fica abaixo do necessário, o organismo dá sinais, como dores de cabeça, cansaço, dificuldade de concentração, pele ressecada e intestino preso. Mas existe também outro tipo de sede: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, meu corpo também vos deseja, como terra árida, sedenta e sem água” (Sl 63,2). A sede mais profunda do ser humano é a sede da comunhão com Deus.

Algumas vezes, o desejo imediato de saciar a nossa sede pode pôr a perder o processo da nossa libertação. Por causa da sua sede no deserto, o povo de Israel duvidou de Deus: “O Senhor está no meio de nós, ou não?” (Ex 17,7). Caminhar com Deus não significa ter a nossa sede imediatamente satisfeita, mas suportá-la como parte do processo de quem está se libertando de algum tipo de escravidão. Além disso, o mesmo Deus que nos liberta é aquele que nos sustenta na travessia do nosso deserto: “Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai. Eu estarei lá, diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber” (Ex 17,5-6). Quando o nosso coração se endurece como pedra, precisa ser ferido por Deus, para dele que volte a escorrer água.

 

2. Cristo, fonte de água viva!

São Paulo afirma que o rochedo que ofereceu água ao povo era Cristo (1Cor 10,4)! “Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: ‘Dá-me de beber’” (Jo 4,6-7). Jesus comunga da sede que todo ser humano tem de vida, de justiça, de felicidade e de paz. Ele mesmo disse: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).

 

       3. A mulher.   

A samaritana também é cansada e sedenta. Ela está cansada de errar na sua vida afetiva. Já teve cinco maridos e agora vive com um homem que não é seu marido. Ela retrata as inúmeras mulheres sem marido que sustentam sozinhas a casa e os filhos. São mulheres que, apesar da decepção com os homens, desejam ser amadas e têm amor para dar. A sede da samaritana também é a sede por justiça das famílias das mulheres mortas por seus companheiros, por homens que não admitem que “tudo aquilo que não cuidamos, perdemos” (Içami Tiba, “Quem ama, cuida!”).

Mas, na Bíblia, o marido simboliza Deus. Paulo afirma que Cristo é o Esposo da Igreja (cf. Ef 5,25-26). A samaritana é o retrato da humanidade que busca a Deus, uma humanidade ferida por religiões que, em nome de Deus, incentivam a violência, justificam guerras e envenenam os corações de seus seguidores de ódio pelo diferente. No Pai e no Filho encontramos o amor que ama incondicionalmente, amor que deseja salvar a todos e que tem uma inclinação maior por aqueles que o mundo não ama.    

 

        4. Jesus, amor que responde ao coração humano.

“Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva... Quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,10.14). Jesus é o dom do Pai para a humanidade. “Quem tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37). A condição para ser curado é reconhecer-se doente; para ser liberto é reconhecer-se prisioneiro de algo ou de alguém; para ser salvo é ter sede. Jesus é dom, e o dom não exige o mérito da pessoa que o deseja ou dele necessite. O amor (de Deus, manifestado em seu Filho, cf. Rm 5,8) não ama porque o outro merece, mas porque precisa ser amado para ser curado, liberto e salvo.

 

        5. A verdade.

Sem dúvida, a mulher samaritana quis a água viva que Jesus lhe prometeu dar. Mas ele a desafiou a reconhecer antes a sua verdade: “Eu não tenho marido” (Jo 4,17). Jesus disse: “Disseste bem, que não tens marido, pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade” (Jo 4,17-18). Muitos passam a vida inteira fugindo da verdade de si mesmos. Gastam tempo, energia e dinheiro tentando sustentar mentiras que os mantenham longe de si mesmos. O resultado é uma vida frustrada e aprisionada no erro. Só quando nos encontramos com a nossa verdade mais profunda é que a nossa vida ganha sentido e as nossas perguntas encontram respostas. Quem encontrou no mais profundo de si a verdade de que é amado por Deus, não aceita mais viver esmolando migalhas de amor dos outros.

 

    6. A missão de testemunhar.

“Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’” (Jo 4,39). Só Jesus pode revelar a verdade que habita no mais profundo da nossa sede, das nossas atitudes muitas vezes erradas, dos enganos a respeito de nós mesmos e daquilo que buscamos na vida. Anunciar o Evangelho é anunciar a “Palavra da Verdade” (Ef 1,13). Mesmo sem ter consciência disso, todo ser humano deseja e aguarda essa Palavra, porque ela é o Evangelho da salvação (cf. Ef 1,13). Que a nossa vida seja um anúncio vivo de Jesus Cristo, para que as pessoas possam proclamar: “Este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42).

08 de março: Dia Internacional da Mulher – Deus abençoe todas as mulheres, concedendo-lhes a luz da verdade, protegendo suas vidas e reavivando o Seu amor no coração de cada uma delas! 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

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