quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NO EVANGELHO ESTÁ A FORÇA DA TRANSFIGURAÇÃO

 Homilia 2º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

 

A imagem de Jesus transfigurado sobre uma alta montanha é uma antecipação do depois no agora da sua existência. Ela é também uma reposta a perguntas que costumamos fazer: Vale à pena lutar pelos valores do Reino? Existe mesmo uma recompensa para a minha dor e uma esperança para o meu futuro (cf. Jr 31,16-17)? A justiça que não encontramos aqui na terra será restabelecida no céu? O silêncio de Deus, que nos acompanha no dia a dia, será um dia finalmente rompido? As sementes que hoje lançamos com o nosso trabalho frutificarão amanhã? Será mesmo verdade que aqueles que esperam no Senhor jamais ficarão desiludidos (Sl 25,3)?

A cultura do consumo nos ensina a viver o dia de hoje, a sermos felizes e a desfrutar da vida agora, porque o depois é incerto, o amanhã talvez não exista. Desse modo, fechados quanto à esperança no depois, corremos o risco de nos deixar desfigurar por um presente marcado por uma dor que nos consome, por uma injustiça em relação à qual nos sentimos impotentes, por uma compreensão da vida fechada a toda esperança de mudança, de libertação e de salvação.

Mas hoje, o Pai nos faz subir com Jesus a uma alta montanha, para que ali possamos ter uma visão mais profunda da nossa existência: nós não estamos destinados a um fim – destruição, morte –, mas a uma finalidade. A força pascal que já estava escondida no corpo de Jesus – revelada na sua transfiguração –, também nos habita, por meio do Espírito Santo. O mundo não pode ver essa força, e nem mesmo nós a sentimos, na maior parte do tempo, mas ela nos habita desde o batismo. Desse modo, não nos fechamos ao que somos agora, mas nos mantemos abertos ao que seremos, como pessoas transfiguradas, porque destinadas à glória, junto com nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 8,17.30; Fl 3,20-21).

O Pai quis que os mesmos discípulos que veriam seu Filho desfigurado, na agonia do Horto das Oliveiras, o vissem antes transfigurado, cheio de luz e de glória. Assim como aqueles três discípulos, nós somos chamados a purificar o nosso modo de ver a nós mesmos e a realidade à nossa volta, como nos ensina o apóstolo São Paulo: “Não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2Cor 5,18). O que vemos é transitório: jovialidade e envelhecimento, força e fraqueza, sucesso e fracasso, fama e anonimato, saúde e doença, mas o que não podemos ver é eterno: a presença oculta do Espírito do Pai e do Filho que habita em nós e em toda a criação, o que nos leva a crer que “os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que será revelada em nós, assim como em toda a criação” (citação livre de Rm 8,18-23).

Existem duas formas de vivermos a nossa vida: fechados no presente (desfiguração), ou abertos ao futuro (transfiguração). Quando Abraão, o pai da nossa fé, estava preso ao seu presente desfigurado (sem terra e sem filho), Deus o visitou e o convidou a deixar sua vida se abrir à transfiguração: “Sai da tua terra e vai para a terra que eu te vou mostrar. Eu te abençoarei e em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (citação livre de Gn 12,1-3). A obediência de Abraão ao chamado de Deus transfigurou sua vida, de modo que, “de um homem já marcado pela morte nasceu a multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia da praia” (Hb 11,12).

O mesmo Deus que chamou Abraão, e em Seu Filho chamou Pedro, Tiago e João, hoje chama a cada um de nós a “sofrer pelo Evangelho”, fortificados pelo Seu poder, que é o Espírito Santo. Por que viver segundo o Evangelho e anunciá-lo com nossa vida ao mundo comporta sofrimento? Porque o Evangelho é “a Palavra da Verdade” (Ef 1,13), enquanto o mundo, que escolheu as trevas e rejeitou a luz, vive na mentira e na sua disseminação, necessária para continuar a obter lucro sobre as pessoas e dominar os mais fracos. Sofrer pelo Evangelho é não nos resignar àquilo que causa desfiguração na vida dos que mais sofrem e da criação, mas trabalhar pela transfiguração da vida à nossa volta, sustentados pela força do Espírito Santo.       

Onde se encontra a força da transfiguração hoje? Exatamente no Evangelho, como afirma o apóstolo Paulo: Jesus Cristo “não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10). Quem lê os acontecimentos da história iluminado pela luz do Evangelho consegue distinguir o que é transitório e o que é definitivo. Quem se deixa questionar pela verdade do Evangelho não aceita mais viver enganado pelas mentiras do mundo que desfiguram a sua vida, mas decide orientar-se pela verdade da transfiguração que aguarda todo aquele que segue Jesus até o fim. Portanto, sempre que os acontecimentos do presente escurecerem a nossa vida com a sombra da desfiguração, busquemos a luz do Evangelho, que abre a nossa vida ao futuro que Deus tem para aqueles que n’Ele esperam, suplicando-Lhe: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos” (Sl 33,22).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

Nenhum comentário:

Postar um comentário