Homilia 2º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.
A imagem de Jesus transfigurado sobre
uma alta montanha é uma antecipação do depois
no agora da sua existência. Ela é
também uma reposta a perguntas que costumamos fazer: Vale à pena lutar pelos
valores do Reino? Existe mesmo uma recompensa para a minha dor e uma esperança
para o meu futuro (cf. Jr 31,16-17)? A justiça que não encontramos aqui na
terra será restabelecida no céu? O silêncio de Deus, que nos acompanha no dia a
dia, será um dia finalmente rompido? As sementes que hoje lançamos com o nosso
trabalho frutificarão amanhã? Será mesmo verdade que aqueles que esperam no
Senhor jamais ficarão desiludidos (Sl 25,3)?
A cultura do consumo nos ensina a viver
o dia de hoje, a sermos felizes e a desfrutar da vida agora, porque o depois é
incerto, o amanhã talvez não exista. Desse modo, fechados quanto à esperança no
depois, corremos o risco de nos deixar desfigurar por um presente marcado por
uma dor que nos consome, por uma injustiça em relação à qual nos sentimos
impotentes, por uma compreensão da vida fechada a toda esperança de mudança, de
libertação e de salvação.
Mas hoje, o Pai nos faz subir com Jesus
a uma alta montanha, para que ali possamos ter uma visão mais profunda da nossa
existência: nós não estamos destinados a um fim – destruição, morte –, mas a
uma finalidade. A força pascal que já estava escondida no corpo de Jesus –
revelada na sua transfiguração –, também nos habita, por meio do Espírito
Santo. O mundo não pode ver essa força, e nem mesmo nós a sentimos, na maior
parte do tempo, mas ela nos habita desde o batismo. Desse modo, não nos
fechamos ao que somos agora, mas nos mantemos abertos ao que seremos, como
pessoas transfiguradas, porque destinadas à glória, junto com nosso Senhor
Jesus Cristo (Rm 8,17.30; Fl 3,20-21).
O Pai quis que os mesmos discípulos que
veriam seu Filho desfigurado, na agonia do Horto das Oliveiras, o vissem antes
transfigurado, cheio de luz e de glória. Assim como aqueles três discípulos,
nós somos chamados a purificar o nosso modo de ver a nós mesmos e a realidade à
nossa volta, como nos ensina o apóstolo São Paulo: “Não olhamos para as coisas
que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é transitório, mas o
que não se vê é eterno” (2Cor 5,18). O que vemos é transitório: jovialidade e
envelhecimento, força e fraqueza, sucesso e fracasso, fama e anonimato, saúde e
doença, mas o que não podemos ver é eterno: a presença oculta do Espírito do
Pai e do Filho que habita em nós e em toda a criação, o que nos leva a crer que
“os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória futura que
será revelada em nós, assim como em toda a criação” (citação livre de Rm
8,18-23).
Existem duas formas de vivermos a nossa
vida: fechados no presente (desfiguração), ou abertos ao futuro
(transfiguração). Quando Abraão, o pai da nossa fé, estava preso ao seu
presente desfigurado (sem terra e sem filho), Deus o visitou e o convidou a
deixar sua vida se abrir à transfiguração: “Sai da tua terra e vai para a terra
que eu te vou mostrar. Eu te abençoarei e em ti serão abençoadas todas as
famílias da terra” (citação livre de Gn 12,1-3). A obediência de Abraão ao
chamado de Deus transfigurou sua vida, de modo que, “de um homem já marcado
pela morte nasceu a multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a
areia da praia” (Hb 11,12).
O mesmo Deus que chamou Abraão, e em Seu
Filho chamou Pedro, Tiago e João, hoje chama a cada um de nós a “sofrer pelo
Evangelho”, fortificados pelo Seu poder, que é o Espírito Santo. Por que viver
segundo o Evangelho e anunciá-lo com nossa vida ao mundo comporta sofrimento?
Porque o Evangelho é “a Palavra da Verdade” (Ef 1,13), enquanto o mundo, que
escolheu as trevas e rejeitou a luz, vive na mentira e na sua disseminação, necessária
para continuar a obter lucro sobre as pessoas e dominar os mais fracos. Sofrer
pelo Evangelho é não nos resignar àquilo que causa desfiguração na vida dos que
mais sofrem e da criação, mas trabalhar pela transfiguração da vida à nossa
volta, sustentados pela força do Espírito Santo.
Onde se encontra a força da
transfiguração hoje? Exatamente no Evangelho, como afirma o apóstolo Paulo:
Jesus Cristo “não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a
imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10). Quem lê os acontecimentos da
história iluminado pela luz do Evangelho consegue distinguir o que é
transitório e o que é definitivo. Quem se deixa questionar pela verdade do
Evangelho não aceita mais viver enganado pelas mentiras do mundo que desfiguram
a sua vida, mas decide orientar-se pela verdade da transfiguração que aguarda
todo aquele que segue Jesus até o fim. Portanto, sempre que os acontecimentos
do presente escurecerem a nossa vida com a sombra da desfiguração, busquemos a
luz do Evangelho, que abre a nossa vida ao futuro que Deus tem para aqueles que
n’Ele esperam, suplicando-Lhe: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da
mesma forma que em vós nós esperamos” (Sl 33,22).
Pe. Paulo Cezar Mazzi
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