quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

SEJAMOS SAL, PARA PRESERVAR A CARNE HUMANA DO APODRECIMENTO

Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 58,7-10; 1Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16.

 

            As imagens do sal e da luz, usadas por Jesus, nos falam da dimensão social da nossa fé. Assim como Jesus, a nossa presença neste mundo contém uma missão. Jesus com frequência dizia: “Eu vim para...”. Cada um de nós, seus discípulos, devemos ter essa consciência: “Eu vim a este mundo para...”. Da mesma forma como o sal existe para preservar os alimentos, sobretudo a carne, do apodrecimento, e dar sabor à comida; da mesma forma como a luz existe para iluminar os que estão num ambiente, assim o sentido da nossa vida reside numa tarefa que a própria vida nos pede para realizar, em favor de alguém ou de uma causa – o Reino de Deus.   

            “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perder a sua capacidade de salgar, não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (Mt 5,13). Sabemos que a principal função do sal, na época de Jesus, era preservar a carne de não estragar (apodrecer). Eis algumas coisas e atitudes que nos apodrecem: alimentos ultraprocessados, frutas e verduras com agrotóxicos, refrigerantes e bebidas alcoólicas, cigarro e outras drogas, excesso de visualização de telas, dormir tarde (celular), ambiente de trabalho nocivo, barulho, não praticar atividade física, falta de contato com a natureza etc.

            Eis, portanto, a dimensão social da nossa fé: qual é a carne que apodrece à nossa volta? Pessoas solitárias, idosos esquecidos, animais abandonados, jovens viciados, moradores de rua, crianças que vivem nas ruas...?

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Neste mundo imenso, com quase oito bilhões de habitantes, frequentemente nos sentimos ignorados e não necessários. Mas Jesus nos recorda da importância da nossa presença cristã no dia a dia das pessoas. O Evangelho que ele nos deixou não é um livro de autoajuda, mas um apelo constante a não nos fecharmos em nós mesmos, sendo indiferentes ao sofrimento das pessoas à nossa volta. É isso que o profeta Isaías nos diz: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne” (Is 58,7).     

             “Não desprezes a tua carne”. Todo ser humano é a nossa carne, necessitado como nós, frágil como nós, exposto às mesmas situações de apodrecimento que nós. Quando desprezamos uma pessoa ou nos tornamos indiferentes para com quem sofre, estamos nos desumanizando. Jesus Cristo “se fez carne” e veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Nossa comunhão com Ele passa não somente pela Palavra e pela Eucaristia, mas também por nossa compaixão para com toda carne ferida à nossa volta. Quando nos tornamos indiferentes a situações de sofrimento ou de injustiça à nossa volta, a luz que somos enfraquece e ficamos mais propensos a termos doenças: “Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa” (Is 58,8).

            A dimensão social da nossa fé é tão necessária, que o profeta Isaías vincula a nossa ajuda a quem sofre com o atendimento das nossas orações por Deus: “Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: ‘Eis-me aqui’” (Is 58,9). Deus não ouve a oração de quem não quer ouvir o grito de socorro de pessoas feridas. Se quisermos ter luz em nós mesmos, levemos a sério essa verdade: “Se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia” (Is 59,10).

            Jesus afirmou que somente quando somos humanos e solidários para com quem sofre é que Deus, o nosso Pai, é glorificado na terra: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Cristãos que vivem uma fé individualista e nada fazem para sanar as feridas sociais à sua volta, contribuem para que a humanidade perca a fé em Deus. Um cristão que, todos os dias, dobra seus joelhos para rezar, mas não se inclina e não se aproxima das pessoas e da própria Criação ferida à sua volta, desacredita a Pessoa de Deus e faz os ateus se firmarem mais ainda nas suas convicções.  

           

            Nossa oração:

 

            Deus de bondade e compaixão, o Senhor me chamou à existência para que eu seja a presença da Tua misericórdia junto a todo ser humano que está ferido e exposto a uma situação de apodrecimento. Fortalece o sal que sou, pela graça do Espírito Santo. Não posso viver minha fé de maneira individualista, mas em comunhão com todo ser humano, especialmente com aquele que a vida me chama a ajudar. Concede-me a Tua luz, para que eu seja guiado(a) pela Verdade e não me perca na desorientação atual do mundo. Não permita que eu me desumanize e me torne indiferente ao pedido de socorro das pessoas e da Criação. Que as mãos que eu elevo para orar e para receber o Corpo de Teu Filho Jesus Cristo trabalhem para curar as feridas sociais à minha volta. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

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