sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

AS TENTAÇÕES NOSSAS DE CADA DIA

 Homilia 1º dom. quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 2,7-9; 3,1-7, Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11.

            Nossa caminhada quaresmal se inicia com o relato da tentação e do pecado de Adão e Eva. Resumidamente, o ser humano recebeu a vida de Deus e a liberdade de fazer escolhas e de tomar decisões. Tendo diante de si a liberdade de comer de todas as árvores do jardim, com exceção da árvore do conhecimento do bem e do mal, o ser humano começou a questionar: “Por que não posso experimentar isso também?”. Aí entra a voz do tentador: “Deus está escondendo algo de você. Se Ele o amasse, deixaria você fazer tudo o que deseja”. Enganado pelo tentador, que é o pai da mentira, o ser humano se apropriou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que, na prática, significa que ele passou a decidir por si mesmo o que é o bem e o que é o mal.

            Se o tentador, pai da mentira, afirmou ao casal “Não, vós não morrereis!” (Gn 3,4), o apóstolo Paulo afirma claramente: “Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Todo pecado que cometemos gera morte ou em nós mesmos, ou nos outros, ou no mundo à nossa volta. Quando, livremente, decidimos escolher por nós mesmos o que é o bem e o que é o mal, sem nos deixarmos orientar pela Palavra de Deus, nos perdemos dentro de nós mesmos e nos tornamos escravos do tentador, o homicida, aquele que nos perverte em causadores ou colaboradores da morte na sociedade humana.

            Por que caímos com frequência em tentação? Porque aquilo que nos é proposto pelo tentador é sempre “atraente e desejável” (Gn 3,6). O maligno conhece a nossa natureza humana. Ele sabe que costumamos preferir o prazer e não o dever; que preferimos uma mentira suave a uma dura verdade; que preferimos um caminho curto e fácil a um longo e exigente. O maligno conhece o ponto fraco de cada um de nós. Ele sempre nos visita quando não estamos bem, quando sentimos que está nos faltando algo. Seu campo de ação é a nossa frustração, o nosso cansaço, a nossa decepção e a nossa desilusão; a nossa raiva, o nosso desejo de jogar tudo para o alto, numa palavra, o nosso desespero.    

Se o tentador venceu Adão, símbolo de todo ser humano, ele não conseguir vencer Cristo, nosso Salvador. “Como pela desobediência de um só homem
a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça” (Rm 5,18). Na Bíblia, o contrário de uma pessoa pecadora é uma pessoa justa, isto é, uma pessoa que procurar ajustar a sua vida à vontade de Deus. A pessoa justa sente todos os apelos do tentador, mas ela decide obedecer ao Deus da verdade e não ao pai da mentira. A pessoa justa sabe que seu principal problema não são os outros, mas ela mesma, quando decide se entregar aos seus afetos desordenados. A pessoa justa tem como seu modelo de vida a pessoa de Jesus Cristo, tentado em tudo como nós, mas vencedor das tentações.  

Diante da tentação de obedecer cegamente à sua fome de pão, Jesus nos ensina que nós temos a capacidade de sentir o desejo, mas de não consentir que ele nos leve a pecar. Além do mais, a verdadeira fome, o verdadeiro desejo que nos habita, não está no corpo, mas no coração: temos fome e sede de Deus, de sentido e de salvação.

Diante da tentação de usar Deus a nosso favor, sem nos responsabilizar por nossas escolhas e decisões, Jesus nos ensina que a nossa liberdade sempre caminha de mãos dadas com a nossa responsabilidade. Toda atitude nossa tem consequências. Por isso, não podemos, com uma das nossas mãos, criar situações de destruição, enquanto que com a outra mão pedimos que Deus nos proteja e nos salve da destruição.

Enfim, diante da tentação de garantir-se acumulando dinheiro e muitos bens, Jesus nos ensina que tudo o que acumulamos vai apodrecer e ser roubado, e que toda riqueza afasta o ser humano de Deus. Quem segue pelo caminho do enriquecimento pessoal a todo custo será devorado pela ganância sem limites do deus deste mundo, que destrói a saúde, a família, a consciência e a paz de espírito daqueles que livremente escolhem ser seus escravos.   

Ao final do seu combate espiritual, Jesus vence o tentador não com gritos, mas com fidelidade à Palavra de Deus. Ele usa a Escritura como espada e a obediência como escudo. Quanto a nós, tomemos consciência da razão de ser das tentações: “A tentação obriga-nos a lutar, porque sem luta não há vitória. Contudo, somente Deus poderá dar a vitória na luta contra as tentações. Ninguém se torna senhor de si mesmo enquanto não lutar com os demônios que habitam o seu interior e que tentam mandar na sua vida. Além disso, só é possível conhecer o céu quem primeiro conheceu seu próprio inferno interior” (Anselm Grün). Quem deseja viver a vontade de Deus precisa aprender a lutar interiormente.


Pe. Paulo Cezar Mazzi

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