Homilia 1º dom. quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 2,7-9; 3,1-7, Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11.
Nossa caminhada quaresmal se inicia
com o relato da tentação e do pecado de Adão e Eva. Resumidamente, o ser humano
recebeu a vida de Deus e a liberdade de fazer escolhas e de tomar decisões.
Tendo diante de si a liberdade de comer de todas as árvores do jardim, com
exceção da árvore do conhecimento do bem e do mal, o ser humano começou a
questionar: “Por que não posso experimentar isso também?”. Aí entra a voz do
tentador: “Deus está escondendo algo de você. Se Ele o amasse, deixaria você
fazer tudo o que deseja”. Enganado pelo tentador, que é o pai da mentira, o ser
humano se apropriou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que,
na prática, significa que ele passou a decidir por si mesmo o que é o bem e o
que é o mal.
Se o tentador, pai da mentira, afirmou
ao casal “Não, vós não morrereis!” (Gn 3,4), o apóstolo Paulo afirma
claramente: “Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os
homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Todo pecado que cometemos gera morte
ou em nós mesmos, ou nos outros, ou no mundo à nossa volta. Quando, livremente,
decidimos escolher por nós mesmos o que é o bem e o que é o mal, sem nos deixarmos
orientar pela Palavra de Deus, nos perdemos dentro de nós mesmos e nos tornamos
escravos do tentador, o homicida, aquele que nos perverte em causadores ou
colaboradores da morte na sociedade humana.
Por que caímos com frequência em
tentação? Porque aquilo que nos é proposto pelo tentador é sempre “atraente e
desejável” (Gn 3,6). O maligno conhece a nossa natureza humana. Ele sabe que
costumamos preferir o prazer e não o dever; que preferimos uma mentira suave a
uma dura verdade; que preferimos um caminho curto e fácil a um longo e
exigente. O maligno conhece o ponto fraco de cada um de nós. Ele sempre nos
visita quando não estamos bem, quando sentimos que está nos faltando algo. Seu
campo de ação é a nossa frustração, o nosso cansaço, a nossa decepção e a nossa
desilusão; a nossa raiva, o nosso desejo de jogar tudo para o alto, numa
palavra, o nosso desespero.
Se o tentador venceu Adão, símbolo de
todo ser humano, ele não conseguir vencer Cristo, nosso Salvador. “Como pela
desobediência de um só homem
a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela
obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça”
(Rm 5,18). Na Bíblia, o contrário de uma pessoa pecadora é uma pessoa justa,
isto é, uma pessoa que procurar ajustar a sua vida à vontade de Deus. A pessoa
justa sente todos os apelos do tentador, mas ela decide obedecer ao Deus da
verdade e não ao pai da mentira. A pessoa justa sabe que seu principal problema
não são os outros, mas ela mesma, quando decide se entregar aos seus afetos
desordenados. A pessoa justa tem como seu modelo de vida a pessoa de Jesus
Cristo, tentado em tudo como nós, mas vencedor das tentações.
Diante da tentação de obedecer cegamente
à sua fome de pão, Jesus nos ensina que nós temos a capacidade de sentir o
desejo, mas de não consentir que ele nos leve a pecar. Além do mais, a
verdadeira fome, o verdadeiro desejo que nos habita, não está no corpo, mas no
coração: temos fome e sede de Deus, de sentido e de salvação.
Diante
da tentação de usar Deus a nosso favor, sem nos responsabilizar por nossas
escolhas e decisões, Jesus nos ensina que a nossa liberdade sempre caminha de
mãos dadas com a nossa responsabilidade. Toda atitude nossa tem consequências.
Por isso, não podemos, com uma das nossas mãos, criar situações de destruição,
enquanto que com a outra mão pedimos que Deus nos proteja e nos salve da
destruição.
Enfim, diante da tentação de garantir-se
acumulando dinheiro e muitos bens, Jesus nos ensina que tudo o que acumulamos
vai apodrecer e ser roubado, e que toda riqueza afasta o ser humano de Deus.
Quem segue pelo caminho do enriquecimento pessoal a todo custo será devorado
pela ganância sem limites do deus deste mundo, que destrói a saúde, a família,
a consciência e a paz de espírito daqueles que livremente escolhem ser seus
escravos.
Ao final do seu combate espiritual,
Jesus vence o tentador não com gritos, mas com fidelidade à Palavra de Deus.
Ele usa a Escritura como espada e a obediência como escudo. Quanto a nós,
tomemos consciência da razão de ser das tentações: “A tentação obriga-nos a
lutar, porque sem luta não há vitória. Contudo, somente Deus poderá dar a
vitória na luta contra as tentações. Ninguém se torna senhor de si mesmo
enquanto não lutar com os demônios que habitam o seu interior e que tentam
mandar na sua vida. Além disso, só é possível conhecer o céu quem primeiro
conheceu seu próprio inferno interior” (Anselm Grün). Quem deseja viver a
vontade de Deus precisa aprender a lutar interiormente.
Pe. Paulo Cezar Mazzi
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