quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O DESEJO, O PECADO E A LIBERDADE

 Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 15,16-21; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,20-22a.27-28.33-34a.37 (forma breve).

 

 “Não é o muito saber que sacia a alma, mas o saborear internamente as coisas de Deus”, dizia Santo Inácio de Loyola. Partindo deste princípio, tomo a liberdade de me ocupar somente com a parte central do Evangelho de hoje, na sua forma breve: “Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,27-28).

Jesus nos convida a refletir sobre o nosso desejo. Nós não escolhemos sentir desejo. Ele surge em nós a partir das nossas necessidades. No entanto, o ser humano não pode ser reduzido às suas necessidades, porque há nele um desejo maior e mais profundo, um desejo que não encontra satisfação no comer, no beber, no consumir e no ato sexual, mas busca uma resposta no alto, na transcendência; numa palavra, em Deus e somente n‘Ele.

“A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor. A gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor. A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade. A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade” (Comida, Titãs, 1987). “A gente quer inteiro e não pela metade”. O nosso desafio é dialogar com o desejo. Ao querer isso ou aquilo, o quê, de fato, eu estou querendo? Por mais que o meu desejo seja satisfeito, por que eu ainda sinto um vazio dentro de mim?

“Todo aquele que olhar, com o desejo de possuir, já pecou” (citação livre). O desejo nasce em nós pelo olhar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Se todo olhar provoca desejo em nós, nem todo olhar está carregado de pecado. Pecado é escolha. No olhar acidental não escolhemos ver; apenas nos deparamos com uma imagem que desperta desejo em nós. Como esse olhar não é proposital, o desejo que sentimos não é pecado em si mesmo, pois o pecado não entra no campo do sentir, mas do consentir. Já o desejo proposital, intencional, entra no que Jesus disse: “olhar com o desejo de possuir”. Quando eu escolho ver algo que vai despertar desejo em mim, já tenho a intenção de pecar.

Entre sentir desejo e o ato de pecar existe algo precioso e sagrado que nos foi dado por Deus: a nossa liberdade. Quando o nosso olhar é acidental, não intencional, nossa liberdade está preservada; quando ele é proposital, intencional, nossa liberdade está comprometida, enfraquecida. Se não queremos pecar, temos que frustrar o nosso desejo, mas só teremos força para isso se não sabotarmos a nossa liberdade por meio do olhar proposital, intencional.  

“Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida” (Victor Frankl). Essa grande verdade joga por terra nossas frequentes desculpas: “Foi mais forte do que eu”; “Não tive escolha”; “Foram as circunstâncias”... A verdade é que “o homem não é as suas circunstâncias; o homem é as suas decisões” (Victor Frankl). Sempre que queremos escapar da responsabilidade pelas nossas atitudes, nós a transferimos para fora de nós. Esquecemos de que, junto com a liberdade, Deus nos deu a responsabilidade: “Diante de ti, Ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir” (Eclo 15,17-18).

A causa principal do adultério não está fora de casa, mas dentro: o descuido com a vida sexual do casal. Normalmente, as mulheres desejam afeto, enquanto os homens desejam sexo. Ambos são importantes e necessários na vida a dois. Outra diferença comum: as mulheres são mais sensíveis emocionalmente que os homens. Mágoas e ressentimentos costumam bloqueá-las no desejo sexual. Sem diálogo, perdão e reconciliação, não há sexo. Outro fator: o lugar que os dois dão ao filho, na casa, pode comprometer a harmonia sexual deles. Em resumo, quanto mais o casal cuida da qualidade da sua vida sexual, menos chance de serem feridos pelo adultério. Quanto menos cuidado, mais risco.

            Uma palavra final sobre desejo e pecado: obedecer a Deus implica, algumas vezes, desobedecer ao nosso desejo. Quando não queremos desobedecer a nós mesmos para obedecer a Deus, pecamos. Nossa sexualidade nos foi dada por Deus. O desejo, em si, não é satânico. Satânica é a fome insaciável do nosso ego, que tudo quer para si, uma fome que funciona na base do “o que é demais nunca é o bastante” (Legião Urbana, Teatro dos Vampiros, 1991).

 

Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu sou uma pessoa habitada por desejos. O Senhor inscreveu no mais profundo do meu ser a minha sexualidade. Ela fala comigo por meio do que eu penso, sinto, faço e rezo. Peço que o Senhor abençoe especialmente os meus olhos. Que o meu olhar não seja o de um caçador, que enxerga tudo a partir da sua fome de caça. Capacita-me a reconhecer e a dialogar com o meu desejo, buscando compreender a sua necessidade mais profunda. Fortalece a minha liberdade, para eu frustrar o meu desejo sempre que for necessário, e assim não pecar contra ti e contra alguma outra pessoa. Cura as feridas da minha afetividade e da minha sexualidade. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi      



Nenhum comentário:

Postar um comentário