Homilia do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 15,16-21; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,20-22a.27-28.33-34a.37 (forma breve).
“Não é o muito saber que sacia a
alma, mas o saborear internamente as coisas de Deus”, dizia Santo
Inácio de Loyola. Partindo deste princípio, tomo a liberdade de me ocupar
somente com a parte central do Evangelho de hoje, na sua forma breve: “Ouvistes
o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo: Todo aquele
que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com
ela no seu coração” (Mt 5,27-28).
Jesus nos convida a refletir sobre o
nosso desejo. Nós não escolhemos sentir desejo. Ele surge em nós a partir das
nossas necessidades. No entanto, o ser humano não pode ser reduzido às suas
necessidades, porque há nele um desejo maior e mais profundo, um desejo que não
encontra satisfação no comer, no beber, no consumir e no ato sexual, mas busca
uma resposta no alto, na transcendência; numa palavra, em Deus e somente n‘Ele.
“A gente não quer só comer, a gente quer
comer e quer fazer amor. A gente não quer só comer, a gente quer prazer pra
aliviar a dor. A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade” (Comida, Titãs,
1987). “A gente quer inteiro e não pela metade”. O nosso desafio é dialogar com
o desejo. Ao querer isso ou aquilo, o quê, de fato, eu estou querendo? Por mais
que o meu desejo seja satisfeito, por que eu ainda sinto um vazio dentro de
mim?
“Todo aquele que olhar, com o desejo de
possuir, já pecou” (citação livre). O desejo nasce em nós pelo olhar: “O que os
olhos não veem, o coração não sente”. Se todo olhar provoca desejo em nós, nem
todo olhar está carregado de pecado. Pecado é escolha. No olhar acidental não
escolhemos ver; apenas nos deparamos com uma imagem que desperta desejo em nós.
Como esse olhar não é proposital, o desejo que sentimos não é pecado em si
mesmo, pois o pecado não entra no campo do sentir, mas do consentir. Já o
desejo proposital, intencional, entra no que Jesus disse: “olhar com o desejo
de possuir”. Quando eu escolho ver algo que vai despertar desejo em mim, já
tenho a intenção de pecar.
Entre sentir desejo e o ato de pecar
existe algo precioso e sagrado que nos foi dado por Deus: a nossa liberdade.
Quando o nosso olhar é acidental, não intencional, nossa liberdade está
preservada; quando ele é proposital, intencional, nossa liberdade está comprometida,
enfraquecida. Se não queremos pecar, temos que frustrar o nosso desejo, mas só
teremos força para isso se não sabotarmos a nossa liberdade por meio do olhar
proposital, intencional.
“Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto
uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da
vida” (Victor Frankl). Essa grande verdade joga por terra nossas frequentes
desculpas: “Foi mais forte do que eu”; “Não tive escolha”; “Foram as circunstâncias”...
A verdade é que “o homem não é as suas circunstâncias; o homem é as suas
decisões” (Victor Frankl). Sempre que queremos escapar da responsabilidade
pelas nossas atitudes, nós a transferimos para fora de nós. Esquecemos de que,
junto com a liberdade, Deus nos deu a responsabilidade: “Diante de ti, Ele
colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. Diante
do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que
preferir” (Eclo 15,17-18).
A causa principal do adultério não está
fora de casa, mas dentro: o descuido com a vida sexual do casal. Normalmente,
as mulheres desejam afeto, enquanto os homens desejam sexo. Ambos são
importantes e necessários na vida a dois. Outra diferença comum: as mulheres
são mais sensíveis emocionalmente que os homens. Mágoas e ressentimentos costumam
bloqueá-las no desejo sexual. Sem diálogo, perdão e reconciliação, não há sexo.
Outro fator: o lugar que os dois dão ao filho, na casa, pode comprometer a harmonia
sexual deles. Em resumo, quanto mais o casal cuida da qualidade da sua vida sexual, menos chance de serem feridos pelo adultério. Quanto menos cuidado,
mais risco.
Uma palavra final sobre desejo e
pecado: obedecer a Deus implica, algumas vezes, desobedecer ao nosso desejo.
Quando não queremos desobedecer a nós mesmos para obedecer a Deus, pecamos. Nossa
sexualidade nos foi dada por Deus. O desejo, em si, não é satânico. Satânica é
a fome insaciável do nosso ego, que tudo quer para si, uma fome que funciona na
base do “o que é demais nunca é o bastante” (Legião Urbana, Teatro dos
Vampiros, 1991).
Oração: Meu Senhor e meu Deus, eu sou
uma pessoa habitada por desejos. O Senhor inscreveu no mais profundo do meu ser
a minha sexualidade. Ela fala comigo por meio do que eu penso, sinto, faço e
rezo. Peço que o Senhor abençoe especialmente os meus olhos. Que o meu olhar
não seja o de um caçador, que enxerga tudo a partir da sua fome de caça.
Capacita-me a reconhecer e a dialogar com o meu desejo, buscando compreender a
sua necessidade mais profunda. Fortalece a minha liberdade, para eu frustrar o
meu desejo sempre que for necessário, e assim não pecar contra ti e contra
alguma outra pessoa. Cura as feridas da minha afetividade e da minha
sexualidade. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.
Pe. Paulo Cezar Mazzi
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