quarta-feira, 11 de março de 2026

UNGE OS MEUS OLHOS, PRECISO OLHAR ALÉM!

 Homilia 4º dom. Quaresma: Palavra de Deus: 1Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Efésios 5,8-14; João 9,1-3.6-9.13-17.24-25.31-41.

 

            Este cego de nascença, curado por Jesus, fala sobre a deficiência da nossa visão, já revelada na primeira leitura: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7). Nossa visão é sempre superficial. Além disso, o excesso de visualização de imagens, mensagens e vídeos não permite que nós meditemos sobre aquilo que estamos vendo. Isso faz com que olhemos com pouca ou nenhuma atenção. Assim, no dia a dia convivemos com pessoas sem vê-las, sem olhar para elas com profundidade. E sem esse olhar profundo, não prestamos atenção ao que as pessoas  podem estar nos comunicando.

            “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença” (Jo 9,1). Jesus enxerga um homem que não pode enxergá-lo. Isso nos lembra da experiência que Agar, escrava de Sara, fez de Deus, enquanto chorava no deserto: “O Deus que eu não posso ver me fez enxergar, quando eu não via mais saída para a minha vida” (citação livre de Gn 16,13-14). O Deus que não vemos nos vê; Ele enxerga tudo o que se passa conosco e tudo o que existe dentro de nós e é desconhecido não só pelos outros, mas também por nós mesmos. “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração! Perscruta-me, e conhece minhas preocupações! Vê se não ando por um caminho fatal e conduze-me pelo caminho eterno” (Sl 139,23-24).

            Assim como Jesus, seus discípulos também viram o cego de nascença, mas a visão deles era distorcida: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9,2). Como vemos somente a aparência e não o coração, nosso olhar se engana ao interpretar aquilo que vemos. A visão religiosa mais distorcida é a de causa e efeito: diante do efeito – sofrimento –, interpreta-se erroneamente a causa – castigo divino. O judaísmo da época de Jesus acreditava que a criança podia pecar ainda no ventre da mãe, o que explicaria porque ela nasceu com alguma deficiência.

Jesus veio corrigir a visão distorcida que nós temos a respeito de Deus e do sofrimento: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (Jo 9,3). É uma imensa crueldade e um grande engano dizer a uma pessoa que está sofrendo que a razão do seu sofrimento se deve aos pecados que ela cometeu. Jesus entende que toda situação de sofrimento é ocasião para que se manifeste a glória do Pai, ou seja, o seu amor que restaura a vida de cada criatura e, sobretudo, de cada ser humano. Desse modo, Jesus faz barro e unge os olhos do cego, mandando que ele se lave na piscina. Se o barro recorda, biblicamente, a criação do ser humano (cf. Gn 2,7), Jesus toca na criação adoecida a fim de curá-la, pois Ele veio completar a obra iniciada pelo Pai: “Completai em mim a obra começada. Ó Senhor, eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos” (Sl 138,8).      

“Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. Os fariseus então disseram ao cego curado: ‘Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado’” (Jo 9,14.16). Uma vez que as lideranças religiosas judaicas não conseguem negar o milagre que Jesus realizou, procuram desacreditá-lo perante o povo, afirmando que ele não veio de Deus. Mas o homem curado se posiciona com firmeza: “Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada” (Jo 9,32-33). Um homem que nunca enxergou desmascara a inveja religiosa dos líderes judaicos e a sua obstinação em não querer enxergar os fatos. Estes, por sua vez, escancaram a verdade da sua presunção religiosa: “Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?” E expulsaram-no da comunidade (Jo 9,34).

Devemos tomar muito cuidado com fundamentalistas religiosos, que fazem sucesso na Internet e têm muitos seguidores. São pessoas presunçosas, que procuram desacreditar o Magistério da Igreja (Papa e CNBB), para cegarem seus adeptos com o seu “magistério paralelo”, afirmando que a Igreja sempre foi conservadora. Jesus nunca foi um conservador; prova disso é a cura que acabamos de ver, realizada num dia de sábado. Portanto, se alguns líderes religiosos cegam seus seguidores, Jesus veio nos libertar de todo tipo de cegueira, sobretudo da mais perigosa, que é a cegueira causada pela religião.  

No final do Evangelho temos dois homens que foram rejeitados pela religião: Jesus (“Apanharam pedras para atirar nele; Jesus, porém, ocultou-se e saiu do Templo” – Jo 8,59) e o homem curado (“Expulsaram-no da comunidade” – Jo 9,34). Tanto fundamentalismo político quanto o religioso são adeptos da violência, quando se trata de defender a cegueira das suas respectivas visões fundamentalistas de mundo. A boa notícia é que Jesus sempre resgata o que a religião descarta.

Uma palavra final: a constante busca por aprovação pode impedir que uma pessoa seja curada da sua cegueira. Ela não consegue suportar “ser expulsa” do círculo em que se habituou a viver, enxergando a vida a partir da visão distorcida dos seus amigos. Somente quem aceita romper com sua dependência de “guias cegos”, e suportar a solidão de começar a enxergar a vida por si mesmo, é que consegue ter uma visão melhor de si, do mundo e do próprio Deus.

"Unge os meus olhos, preciso olhar além, e me lançar sem medo ao novo que Tu tens!" (Celina Borges, Da tua unção).

 Pe. Paulo Cezar Mazzi  

           

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