Homilia do 16º dom comum. Palavra de Deus: Sabedoria 12,13.16-19; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-30.36-43.
A parábola do joio, como o próprio nome
diz, tem como centro a existência do mal. Teoricamente, toda pessoa odeia o mal
e deseja o bem, mas na prática a história é outra. Alguns governantes mundiais
usam o discurso da luta do bem contra o mal para justificar guerras, cujo real
objetivo nunca foi o de eliminar o mal, mas o de se apropriar das riquezas do
país “inimigo”. No campo político e religioso, o discurso do bem contra o mal
tem muito mais mentira do que verdade. A
polarização nos induz a pensar que existe uma luta do bem (nós) contra o mal (eles)
quando, na verdade, tanto em um lado quanto no outro existem joio e trigo.
Um primeiro questionamento da parábola
do joio para nós é: nossa visão a respeito do bem e do mal está correta? Por
que somos rápidos em enxergar o mal nos outros, mas lentos para enxergá-lo
dentro de nós? No campo da nossa alma existe somente trigo, ou o joio também
cresce diariamente ali, inclusive com o nosso consentimento? Está correto
invocarmos as bênçãos de Deus
sobre nós, que nos consideramos “do bem” e as maldições sobre os outros, que
consideramos “do mal”?
Jesus afirma que “o Reino dos Céus é
como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio
seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora” (Mt 13,24-25). Jesus
veio semear em nós a boa semente do Evangelho. Mas o seu inimigo, o Maligno, veio
semear o mal, “enquanto todos dormiam”, o que pode significar que quando
deixamos de vigiar sobre nós mesmos, o mal começa a se infiltrar no campo que
somos.
A pergunta dos servos da parábola é
também a nossa: “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio
então o joio?” (Mt 24,27). A resposta a essa pergunta passa pela tomada de
consciência de que, no Oriente Médio, o joio é considerado uma degeneração do
trigo. Em outras palavras, uma pessoa boa pode se degenerar em má. Essa degeneração
acontece frequentemente quando se alcança o poder, esteja ele no campo político,
religioso ou financeiro. Todo poder corrompe. Por isso, ninguém está garantido
de se manter trigo a vida toda. Além disso, pessoas más não nascem más; elas aprendem
a ser más. Mais do que isso, elas optam em ser más por causa da ganância pelo
poder, o qual promete muito dinheiro.
“Queres que vamos arrancar o joio?” (Mt
13,28). Eis o nosso desejo de agir com violência para destruir o mal de uma vez
por todas. Mas Deus nos responde: “Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis
também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29-30). Diante
do mal que cresce sempre mais no mundo, a nossa resposta não deve ser a de compactuar
com ele para sobreviver, abandonando o cultivo do trigo em nós, mas perseverar
nesse cultivo diário de nós mesmos. “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o
mal com o bem” (Rm 12,21).
Se o foco da parábola do joio é a
presença do mal em nós mesmos e no mundo, seu desfecho é o momento da colheita:
“No tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e
amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!”
(Mt 13,30). Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a colheita simboliza o
momento do julgamento final, e este, por sua vez, nos garante que nada ficará
impune. Se no tempo presente Jesus continua semeando a boa semente do Evangelho
em nós, no tempo futuro (Parusia = Segunda Vinda) ele virá como Juiz, cuja
função principal é a de separar o joio do trigo, retribuindo a cada um segundo
aquilo que cultivou em si mesmo.
Ninguém de nós está definido como
joio ou como trigo. Quem hoje se considera bom corre o risco de amanhã
degenerar como ser humano, abandonando o caminho da justiça e da retidão. Da
mesma forma, quem hoje está degenerado pode vir a se converter e passar a
cultivar-se como trigo. Que o Espírito Santo nos ajude diariamente com a sua
graça para que, quando Jesus vier nos colher do campo deste mundo, nos encontre
como pessoas que escolheram cultivar-se como trigo, apesar do muito joio à
nossa volta.
Enfim, um olhar sincero para o nosso campo
interno: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Alegro-me
na lei de Deus, segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros,
que luta contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado” (Rm
7,21-23). Essa é a nossa verdade: somos um campo onde acontece diariamente uma
luta. O que prevalecerá em nós: joio ou trigo? Aquilo que nós cultivarmos.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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