sexta-feira, 31 de julho de 2026

FOME PARA ALÉM DE PÃO

 Homilia 18º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,1-3; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21.

 

            A fome é uma necessidade básica que exige ser satisfeita. Diante dela, não cabem discussões políticas, mas a atitude que Jesus espera de cada um de nós, seus discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Quem está com fome à minha volta? Talvez, alguém que eu não conheça, ou alguém que um dia me prejudicou, que se tornou meu inimigo... Ainda assim, somos chamados a repartir com ele nossos cinco pães e nossos dois peixes, lembrando que, no momento do nosso julgamento, Jesus nos dirá: “Tive fome, e me destes de comer” (Mt 25,35), ou “Tive fome, e não me destes de comer” (Mt 25,42).

            Em 2021, o trilionário Elon Musk prometeu à ONU vender ações da Tesla, uma de suas empresas, para combater a fome no mundo, desde que a Organização detalhasse exatamente como o dinheiro seria gasto. A ONU lhe apresentou um plano detalhado, mas até hoje Elon Musk não se pronunciou mais sobre o assunto. É típico dele não cumprir suas promessas.

            Atualmente, 25% da população mundial sofre diariamente com a fome. A fome não é causada simplesmente pela falta de alimentos. Ela é resultado de uma combinação de fatores sociais, econômicos, ambientais e políticos. Por trás desses fatores está a ganância desmedida dos que acumulam riqueza somente para si. São eles que determinam os rumos da política e da economia globais, que desrespeitam as leis de proteção ambiental e que fabricam guerras, cuja consequência direta é a fome.

            Diante da fome da multidão que veio ouvir sua Palavra e da reação dos discípulos que queriam se livrar daquele enorme problema, Jesus não fez nenhum discurso político, mas encorajou seus discípulos a enfrentarem o problema: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Quando a fome é detectada – carência de afeto, de diálogo, de responsabilidade ou mesmo de dinheiro, cada membro da família deve envolver-se na solução do problema. A solução não é distanciar-se do problema fechando-se em si mesmo.  

            A nossa primeira reação diante da carência, da necessidade, é reclamar da falta de recursos, desprezando os pequenos recursos que temos: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). Nós nos esquecemos da sabedoria popular: “O pouco com Deus é muito, e o muito sem Deus é nada”. Quando alguém pergunta: “Onde está Deus, diante da fome do mundo?”, Deus responde com outra pergunta: “O que você está fazendo com os cinco pães e os dois peixes que Eu lhe dei?”.

            O nosso grande erro é pensar que somente muito recurso pode resolver uma grande fome. A desnutrição emocional de filhos que não recebem afeto dos pais e de casais que não se dão mutuamente o pão do afeto provém do fechamento de cada um em si mesmo e do pensar que os cinco pães e os dois peixes de uma palavra, de um gesto, de uma presença, ou mesmo de uma oração, não irão resolver nada. Engano. Jesus espera que entreguemos esses pequenos recursos em suas mãos, recursos que, ao se tornarem fonte de agradecimento ao Pai e não de reclamação, se transformam em uma fonte de bênçãos para todos.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Mt 14,20). Quando cada um coloca o que é seu para ajudar na solução de um problema, ele é resolvido e todos se beneficiam. É muito triste quando uma família, uma empresa ou uma comunidade de fé definha de fome porque cada um que faz parte dela se recusa a partilhar seus cinco pães e seus dois peixes. E quantas vezes o motivo da recusa não é o medo de ficar sem nada, mas o orgulho, a raiva, a mágoa, o desejo de ver o outro sofrer, não percebendo que esse sofrimento acaba sendo partilhado por todas as pessoas que compõem aquele “corpo”...   

            “E dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (Mt 14,20). A reclamação mais comum que se ouve, até mesmo antes do final do mês, é: “não sobrou nada”. Por que não sobra? Nem sempre é porque o salário é pouco; muitas vezes é porque não existe planejamento. Compra-se impulsionado pela emoção, esquecendo que a propaganda nunca apela para a razão, mas sempre para a emoção. Além disso, a imensa maioria dos brasileiros tem um grande parceiro no seu endividamento: o cartão de crédito. Ele consome 54% do orçamento familiar, cobrando juros altíssimos.

            O milagre da sobra é possível quando você decide não gastar além do que ganha, se libertar da dominação demoníaca do consumismo e parar de se comparar com os outros. Toda dívida traz o inferno para dentro de casa, e se não quisermos viver nesse inferno precisamos nos perguntar, diante de cada impulso pelo comprar: eu realmente preciso disso? Qual fome eu estou querendo saciar?

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

Nenhum comentário:

Postar um comentário