Homilia
do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 3,5.7-12; Romanos 8,28-30; Mateus
13,44-46 (Evangelho breve).
“O Reino dos céus é como...”. Assim
como nos dois domingos anteriores, também hoje Jesus usa de duas parábolas para
nos ajudar a compreender não só como se “conquista” o Reino dos Céus, mas,
sobretudo, como se dá a experiência de Deus no coração humano. Na verdade, o
Reino dos Céus não é um lugar, mas a própria presença de Deus em nós, uma
presença que tanto pode nos ser dada gratuitamente, quanto deve ser buscada por
nós, como diz o salmo: “Procurem a minha face” (Sl 27,8).
Tanto o tesouro escondido no campo
quanto a pérola preciosa falam da presença de Deus em nossa vida como um valor
inigualável, algo preciosíssimo, que nenhum bem material consegue substituir em
nós. Mas como compreender o valor absoluto de Deus em nossa vida quando vivemos
mergulhados numa forte inversão de valores, a qual nos faz viver cercados de
coisas, mas distantes do essencial? Como podemos nos lembrar do essencial se as
nossas energias são todas consumidas em necessidades que se apresentam como
urgentes?
Aqui é importante fazer uma
distinção. Duas forças nos movem na vida: as necessidades e os valores. As
necessidades estão no campo fisiológico (comer, beber, descansar, se satisfazer
etc.) e psicológico (ser amado, sentir-se feliz, realizado etc.). Os valores
estão no campo espiritual (ter um sentido para viver). Se, a princípio, nossa
espiritualidade se move impulsionada pela necessidade (eu preciso de Deus),
Jesus a convida a amadurecer até se tornar um valor (Deus vale por Si e não por
algo que possa fazer por mim). Foi essa a percepção de Santa Teresa de Jesus:
“Mais importante do que buscar as consolações de Deus é buscar o Deus de toda a
consolação”.
O homem que encontra um tesouro
escondido no campo, sem o estar procurando, nos fala da manifestação de Deus em
nossa vida por pura gratuidade. Alguma situação nos faz sentir que Deus está
falando conosco e querendo Se tornar íntimo de nós, mas a comunhão com Ele só
acontece quando tomamos a decisão de “vender todos os bens e comprar aquele
campo”, ou seja, quando compreendemos que Deus é o valor maior da nossa vida e,
para estar com Ele, devemos renunciar a tudo o mais.
Consideremos a parábola da pérola
preciosa. Aqui existe uma procura intencional por Deus. O próprio Jesus afirmou,
a respeito da vida de oração: “Quem procura, encontra” (Mt 7,8). Também o
salmista afirma que “Deus se deixa encontrar por quem o procura de coração
sincero” (Sl 145,18). De novo é preciso se perguntar: eu procuro por Deus só
quando tenho uma necessidade urgente, ou O procuro porque Ele se tornou o valor
mais importante da minha vida? Aliás, por que temos que procurar por Deus?
Porque Ele é o “Deus escondido” (Is 45,15), “o Pai oculto” (Mt 6,4.6.18).
“Cheio de alegria ele vai, vende
todos os seus bens e compra aquele campo, aquela pérola” (Mt 13,44.46). Quem se
encontra com Deus de uma maneira mais profunda reordena os seus valores, os
seus afetos, e decide não viver mais a partir da dispersão (todos os seus
bens), mas a partir de Deus (o verdadeiro tesouro, a pérola de grande valor),
que unifica o coração e dá sentido à vida. O quanto Deus vale para cada um de
nós só pode ser verificado pela maneira como cuidamos da nossa vida de oração e
pela forma como nos posicionamos diante da inversão de valores atual. Quem não
tem medo de perder a Deus para ganhar os bens deste mundo já perdeu tudo.
Ninguém renuncia a coisa alguma, se o
seu coração não estiver voltado para algo que para ele é precioso, algo que lhe
dá sentido e alegria, que o faz sentir-se verdadeiramente vivo. Um homem só é
capaz de renunciar a outras mulheres se o seu coração mantiver o encanto por
sua esposa (e a mesma coisa vale para a esposa). Da mesma forma, uma pessoa só
renuncia a um ato de corrupção se na sua consciência a sua salvação for um
valor maior do que aquilo que o dinheiro lhe promete dar nesta vida terrena.
“Querer uma coisa significa
automaticamente renunciar a uma outra incompatível com a precedente. A renúncia
é a descoberta do quanto levamos a sério Deus. A decisão tem necessidade de ser
renovada a custo de repetidas renúncias. Quanto mais um amor é belo, mais tem
necessidade de ser defendido, porque a consciência de que possa enfraquecer-se
permanece sempre” (Alessandro Manenti, Viver
os ideais).
“O tesouro que tanto procuramos está
escondido no campo em que estamos” (Henry Nouwen). Não devemos cair no erro de
imaginar que, se a nossa vida fosse diferente, isto sé, se estivéssemos num
outro campo, ali, sim, poderíamos encontrar Deus. É no chão da nossa vida, no chão
de nós mesmos, que Deus habita como uma presença escondida, uma presença que
nos aguarda no mais íntimo de nós mesmos. Quando paramos de nos idealizar e
passamos a nos acolher como somos e acolher a vida como ela está hoje é que nos
damos conta do tesouro que se esconde no chão da nossa existência.
O rei Salomão pediu: “Dá a teu servo um
coração compreensivo, capaz de discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9). Que
Deus nos conceda um coração que saiba distinguir a diferença entre um bem
aparente e transitório e o Bem verdadeiro e eterno, e nos ajude a renovar as
escolhas que nos mantenham fiéis a esse Bem.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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