quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

TORNE-SE QUEM VOCÊ FOI CHAMADO(A) A SER!

 Missa do 2º dom. comum. Palavra de Deus: 1Samuel 3,3b-10.19; 1Coríntios 6,13c-15a.17-20; João 1,35-42.

 

            Os textos bíblicos que hoje ouvimos nos colocam diante da vocação do profeta Samuel e dos três primeiros discípulos de Jesus: André, João e Pedro. A vocação desses homens nos lembra que a nossa existência é fruto de uma escolha, de um chamado da parte de Deus: “Desde o ventre materno o Senhor me chamou, desde o ventre de minha mãe pronunciou o meu nome” (Is 49,1). A razão de ser da nossa existência não é uma escolha humana, mas divina; não é fruto do acaso, mas de uma vontade: Deus nos desejou, nos quis, nos chamou à vida em vista de uma tarefa, de uma missão, de uma vocação, e devemos estar cientes de que “a nossa vocação nunca é em função de nós mesmos. Deus não nos chama para nos promover ou nos privilegiar, mas para nos enviar para junto de situações que precisam ser mudadas” (José Lisboa M. Oliveira).

            “Samuel, Samuel!” (1Sm 3,4). Samuel era adolescente quando foi chamado por Deus e foi chamado num contexto de degradação da religião: “Os filhos de Eli (sacerdote) eram vagabundos” (1Sm 2,12) e “se deitavam com as mulheres que permaneciam à entrada da Tenda da Reunião” (1Sm 2,23). Séculos mais tarde, um outro jovem ouviria o Crucificado lhe chamar para uma difícil missão: “Francisco, reconstrói minha Igreja, que está em ruínas!”. Hoje Deus chama você para reconstruir a unidade da Igreja, cujo Pontífice (ponte e ponto de unidade) é sistematicamente agredido e desacreditado nas redes sociais por grupos “católicos” conservadores; você é chamado a reconstruir famílias, a fortalecer escolas, a desenvolver a boa Política e a justa Justiça; a defender o meio ambiente; a proteger crianças abusadas dentro de casa; enfim, a revitalizar sua Paróquia, envelhecida e necessitava de “sangue novo nas suas veias” (Pe. Zezinho).

            Samuel teve dificuldade em entender que era o Senhor Deus quem o chamava, e não o sacerdote Eli (cf. 1Sm 3,5.6). Deus não fala diretamente aos nossos ouvidos, mas através da realidade na qual estamos inseridos. Ele nos fala, sobretudo, através da dor de pessoas e de situações que precisam ser mudadas! Mas, como ouvir o chamado do Senhor quando estamos voltados unicamente para nós mesmos, ignorando a realidade à nossa volta, buscando apenas os nossos interesses financeiros ou afetivos, vivendo uma espiritualidade que nos mantém distantes do mundo, enquanto Deus “grita” a nós do meio desse mesmo mundo: “Essas pessoas precisam ser salvas!”?

            Samuel foi orientado a responder ao chamado de Deus com essas palavras: “Senhor, fala, que teu servo escuta!” (1Sm 3,9). Qual tem sido a nossa resposta ao chamado diário que Deus nos faz, por meio da realidade na qual estamos inseridos? Estamos tendo coragem de ouvir o Senhor, ou temos mantido nossos ouvidos e nossa consciência ocupados, cheios de barulho, atordoados por inúmeras desinformações, distanciados da realidade pela indústria da distração, tudo para não ouvirmos a voz de Deus no mais profundo de nós mesmos?

            A dois discípulos de João Batista que começaram a segui-lo, Jesus perguntou: “O que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). O que você está procurando quando passa horas jogando, apostando ou vendo postagens nas redes sociais? O que você está procurando quando maratona séries, assiste a filmes, vê pornografia na Internet ou assiste aos vídeos do seu influencer preferido? O que você está procurando quando ingere bebida alcoólica e/ou drogas; quando faz uma nova tatuagem, quando se sacrifica para ter um corpo “sarado”? O que você está buscando quando faz sua oração em casa, lê a Bíblia, ouve músicas católicas ou vai à missa? O que você está buscando quando faz o que faz no seu dia a dia? Você está buscando ser fiel à vocação, ao chamado que recebeu de Deus, ou a se distanciar o quanto possível disso?

                “O que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). Quando temos a coragem de parar a correria do dia a dia e a nos colocar diante dessa pergunta de Jesus, a nossa vida tem uma chance de recuperar o seu sentido e nós podemos sair das mãos (expectativas ou cobranças) dos outros e tomarmos as rédeas da nossa existência, orientando-a para aquilo que fomos chamados a fazer; mais do que isso, para aquilo que fomos chamados a ser. “Torne-se o que você é”, disse Píndaro, filósofo grego do séc. V aC. Essa verdade pode ser traduzida também em: “Torne-se o que você foi chamado a ser”. Somente quando sintonizamos o nosso coração com o coração de Deus; somente quando respondemos positivamente ao chamado que recebemos; somente quando somos fiéis à vocação que recebemos é que nos realizamos como pessoas.

            Uma última palavra: toda e qualquer vocação será vivida a partir da corporeidade da pessoa. Cinco vezes o apóstolo Paulo usou a palavra “corpo” no breve texto que ouvimos hoje. Dois extremos precisam ser evitados, quando consideramos o nosso corpo: o primeiro vem das pregações moralistas, para as quais tudo o que se refere ao corpo é pecaminoso e demoníaco. O outro extremo é a constante erotização do corpo, produzida pela indústria de consumo. Muitos de nós precisam reconciliar-se com o próprio corpo – aceitar-se como se é. Muitos precisam ouvir o próprio corpo – ele é uma caixa de ressonância da nossa alma (vida emocional). Muitos precisam rever sua espiritualidade, pois o Deus em quem nós cremos “se fez carne” (Jo 1,14): toda espiritualidade que nega ou despreza o corpo é doentia. Da mesma forma como descobrimos a nossa vocação em contato com a realidade na qual estamos inseridos, nós a vivemos a partir da nossa carne, do nosso corpo, o qual deve se tornar “carne” de Deus, toque de Deus, presença concreta de Deus, “afeto” de Deus para as pessoas que fomos chamados a servir.

             

Pe. Paulo Cezar Mazzi

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