quinta-feira, 28 de novembro de 2024

ESPERAR PELO SENHOR EM PÉ E DE CABEÇA ERGUIDA

 Missa do 1º dom. do advento. Palavra de Deus: Jeremias 33,14-16; 1Tessalonicenses 3,12 – 4,2; Lucas 21,25-28.34-36.

 

Três tempos marcam a nossa vida: o passado, a respeito do qual nada mais podemos fazer, a não ser aprender, aceitar e nos reconciliar; o presente, a respeito do qual somos chamados a abraçar a tarefa que a vida está nos pedindo; o futuro, a respeito do qual nada sabemos, apenas que somos chamados a confiar, pois “o futuro a Deus pertence” (ditado popular), e esse mesmo Deus nos garante na sua Palavra: “Farei cumprir a promessa de bens futuros... Farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra” (Jr 33,14.15). Que Deus sempre cumpre Suas promessas está afirmado por Josué, ao introduzir o povo de Israel na Terra Prometida: “Reconheçam que, de todas as promessas que o Senhor Deus fez em favor de vocês, nenhuma ficou sem cumprimento: tudo se realizou em favor de vocês e nenhuma delas falhou” (citação livre de Js 24,14).

Em relação aos três tempos que marcam a nossa história pessoal e social, nós só temos acesso imediato ao tempo presente. Ele é, de fato, um “presente”, uma oportunidade, um dom da vida, para fazermos escolhas e tomarmos decisões que, de duas, uma: ou farão dele uma mera repetição do passado, ou o abrirão a uma transformação que será testemunhada por nós no futuro. É aqui que entra o sentido do tempo do advento. Advento: esperar por Aquele que vem. Toda celebração eucarística é uma afirmação da nossa esperança na volta de Cristo: “Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26).

“Até que ele venha” – eis a certeza que fundamenta a nossa esperança e sustenta a nossa fé. Nosso presente não está fechado nos problemas que enfrentamos, nas dores que sofremos e nas angústias que suportamos, mas aberto Àquele que vem para salvar os que por ele esperam: “Ele aparecerá uma segunda vez, (...) àquele que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28). Quem desconhece essa verdade tem o seu presente tomado pela ansiedade, pelo medo e pela angústia. Se a ansiedade é o sentimento mais comum no mundo atual é porque falta à maioria das pessoas a confiança quanto ao futuro: esperar pelo nosso Salvador.

O problema é que o nosso presente está marcado por muita coisa negativa que corrói a nossa esperança: o aumento assustador de doenças, a contínua destruição do meio ambiente e as consequentes catástrofes climáticas, a intensidade do aquecimento global, a piora do ser humano como pessoa, a desintegração das famílias, a perda crescente de fé etc. No entanto, esse é o tempo em que fomos chamados a viver e a testemunhar a nossa fé. Por isso, Jesus nos convoca a uma atitude firme: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21,28).

Preste atenção à sua postura corporal e à das pessoas à sua volta: nós estamos em pé ou prostrados, derrubados, caídos? Caminhamos de cabeça erguida ou “derrubada”, inclinada para baixo, voltada para o chão? A cena mais comum são as pessoas com a cabeça inclinada, olhando para o celular. Essa postura diz muito! Somos uma geração puxada para baixo, encurvada, que se prostra facilmente diante de cada acontecimento ruim, cuja cabeça parece pesar sabe-se lá quantos quilos, e por isso vive caída para a frente, olhando apenas para baixo. É a atitude de quem vive o seu presente fechado em si mesmo, não aberto ao futuro, desprovido de qualquer tipo de esperança.

Hoje Jesus diz a cada um de nós: “Levante a cabeça!”. A vida não é somente aquilo que estamos vivendo no momento presente. Não temos que negar ou ignorar que estamos de certa forma presos ao medo, à angústia, à dor, à ansiedade, a situações de injustiça etc. Mas devemos erguer a cabeça porque “a nossa libertação está próxima”! Essa libertação se chama, na Sagrada Escritura, de “Dia do Senhor”, Dia em que Deus intervirá na história humana definitivamente, enviando seu Filho como Juiz para separar o bem do mal, para recolher o trigo (homens justos) no celeiro de Deus e para esmagar as uvas (homens injustos) com os seus pés (cf. Ap 14,14-20); o Dia em que o Senhor Jesus “exterminará todos os que exterminam a terra” (cf. Ap 11,18).

Ora, não se espera pelo “Dia do Senhor” de braços cruzados, com apatia e acomodação; muito menos com uma postura irresponsável perante a própria existência, no estilo “deixa a vida me levar”. Por isso, Jesus nos alerta: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida” (Lc 21,34). Esse estilo de vida pagão está cada vez mais presente na vida dos cristãos do mundo atual. Basta considerar como a maioria das pessoas vive seu domingo, seu fim de semana ou um feriado santo. O coração insensível é símbolo de uma consciência anestesiada, distraída – a indústria do entretenimento trabalha incansavelmente para nos manter distraídos e alienados (fora da realidade); é uma consciência que se tornou incapaz de ouvir a voz do Senhor dentro de si mesma.

O contrário de um cristão que vive como pagão, com a consciência distraída, desfocada, ocupada com “urgências” e distante do essencial, é o cristão que mantem-se firme na sua vida de oração: “Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21,36). Jesus entende a oração não como blindagem, mas como fonte de força para não tombarmos diante dos revezes da vida. A verdade é que, enquanto caminhamos ao encontro do Senhor que vem, todos nós temos momentos de tropeço e de queda. O importante é nos levantar dessas quedas e retomar diariamente o caminho, e só a oração nos dá força para isso. Sem uma vida disciplinada de oração, nossa espera pelo Senhor se esfarela, dissipa-se, evapora. Jesus foi muito claro: “Orai a todo momento”, e não só quando a situação fica difícil ou quando nos sentimos ameaçados. Orar a todo momento é manter a consciência voltada para Deus e pedir, como o salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação!” (Sl 25,4-5).  Tenha um abençoado e fecundo início de Advento!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

QUEM EU PERMITO QUE EXERÇA DOMÍNIO SOBRE MIM?

 Missa de Cristo, Rei do universo. Palavra de Deus: Daniel 7,13-14; Apocalipse 1,5-8; João 18,33b-37.

 

            Para entendermos o título atribuído a Jesus como Rei do universo, recordemos o que Deus disse ao profeta Samuel, quando o povo de Israel quis ter um rei: “Não é a ti que eles rejeitam, mas é a mim que eles rejeitam, porque não querem mais que eu reine sobre eles” (1Sm 8,7). Ao pedir um rei, Israel queria, na verdade, ter a sua segurança garantida por um exército, pois era uma época de muitos conflitos e guerras com diversos povos. O erro de Israel foi se esquecer de que um rei só consegue manter um exército cobrando impostos do seu povo.

            Quem reina sobre nós? Quem nós queremos ou permitimos que reine sobre nós? O rei exerce domínio sobre seu povo. Alguém, alguma situação ou algo exerce domínio sobre você atualmente? Não nos esqueçamos de que ninguém é totalmente livre e autônomo; todo ser humano escolhe debaixo de qual domínio se colocar. Quem não escolhe livremente depender de Deus, acaba por sofrer uma dependência imposta a partir de fora, tornando-se escravo de um vício, de um pecado, de uma relação doentia ou do próprio espírito do mal.

            A história humana já teve inúmeros reis, mas, na verdade, só existe um rei que faz o mundo dobrar os joelhos diante dele: o dinheiro. O fascínio por ele provoca guerras, violência e morte. A servidão a esse “rei” corrompe políticos e líderes religiosos, destrói casamentos e distancia os pais dos filhos. O próprio Jesus foi tentado a “facilitar” a sua vida colocando a sua segurança na ilusão das riquezas: “Eu te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser” (Lc 4,6). Mas Jesus escolheu viver na absoluta dependência do Pai e jamais na falsa autonomia de uma vida financeira confortável. Resumindo, por trás da servidão ao dinheiro está uma dependência escolhida de submissão a Satanás, o “príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30) .

            Depois de descrever o desmoronamento dos reinos humanos, que produzem sofrimento, injustiça, violência e morte, Daniel nos fala do “Filho do Homem”, representação do Deus humano, a quem foi entregue o poder de julgar todas as nações: “Seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7,14). Quem livremente se coloca debaixo do seu domínio salvífico é liberto de todo domínio que escraviza, adoece, fere e mata: “Se o Filho vos libertar, vós sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,36).

            Mas a questão é: nós realmente queremos ser livres? Ser livre significa responsabilizar-se pela sua própria vida. A maioria das pessoas escolhe responsabilizar alguém ou as circunstâncias pelos males que lhes acontecem, esquecendo-se de que são as escolhas e as decisões delas no dia a dia que determinam o seu próprio destino. Que as circunstâncias influenciam a nossa vida, isso é fato, mas influenciar não significa determinar. O que, de fato, determina a nossa vida são as nossas decisões diante das circunstâncias em que nos encontramos. Neste sentido, cada um precisa tomar nas mãos as rédeas da própria vida e assumir o domínio sobre suas escolhas e decisões.

            A liberdade que Jesus veio nos oferecer está intimamente ligada ao conhecimento da verdade: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).  “Eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37). Jesus nunca foi dominado por nenhum tipo de escravidão porque escolheu viver na verdade do Pai. Essa verdade é a Palavra de Deus (“tua palavra é verdade”: Jo 17,17) que nos liberta das mentiras do diabo – o “pai da mentira” (Jo 8,44). Se muitas pessoas hoje vivem debaixo de algum domínio que as escraviza e adoece é porque não querem escutar a voz de Jesus, isto é, não querem obedecer à verdade da sua Palavra, abrindo mão das falsas compensações provenientes da mentira do seu pecado ou dos seus enganos.

            Algumas perguntas que cada um de nós precisa se fazer, nesta Festa de Cristo Rei: Quem eu permito que exerça domínio sobre mim: o Rei do Universo ou o príncipe deste mundo? Eu escolho me orientar diariamente pela verdade que é Cristo ou pelo “pai da mentira”, que é o diabo? Eu me responsabilizo pelo meu destino, que é construído todos os dias pela liberdade que tenho ao fazer escolhas e tomar decisões, ou me coloco numa posição de vítima dos acontecimentos?

 

            Senhor Jesus Cristo, o Pai lhe concedeu o poder de salvar todo ser humano, mas tal salvação é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. Eu escolho obedecer à sua voz e viver segundo a verdade do seu Evangelho. Retira-me debaixo do domínio do espírito do mal, o príncipe deste mundo, e guarda-me sob o seu domínio, capaz de me libertar, curar e salvar. Venha o seu Reino! Reine sobre a consciência e o coração de cada ser humano. Estende o seu domínio salvífico sobre toda pessoa escrava do pecado pessoal e desumanizada pelo pecado social. Reine, Senhor, em nossas casas, escolas, locais de trabalho, cidades e países. Revela-nos a verdade capaz de nos libertar das mentiras e dos enganos que nos adoecem. Destina cada um de nós para o seu Reino Eterno. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi     

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O FIM ESTÁ DENTRO DE UMA FINALIDADE

 Missa do 33º dom. comum. Palavra de Deus: Daniel 12,1-3; Hebreus 10,11-14.18; Marcos 13,24-32.

 

Os dois textos principais da Liturgia da Palavra de hoje – o profeta Daniel e Jesus (Evangelho) – querem nos tornar conscientes de que existe um fim. Este fim é a intervenção definitiva de Deus na história humana, para acabar de vez com o mal, a injustiça e a morte e fazer triunfar o bem, a justiça e a vida. Tanto Daniel quanto Jesus falam conosco a partir de uma linguagem apocalíptica, segundo a qual a história humana não está nas mãos de nenhum homem poderoso da face da terra, mas de Deus, cujo Reino se estabelecerá após o fim de todos os reinos humanos, que causaram dor e sofrimento à humanidade.

Aos judeus, que estavam sendo massacrados pelo rei Antíoco IV Epífanes (167 aC), Daniel encoraja afirmando a intervenção de Deus através do Arcanjo Miguel, que se levantará para defender o povo de Deus, que vive mergulhado num tempo de grande angústia: “Será um tempo de angústia, como nunca houve até então... Mas, nesse tempo, teu povo será salvo” (Dn 12,1). Nós também vivemos um tempo de grande angústia, não somente devido aos problemas do tempo presente, mas em relação ao nosso próprio futuro. O que agrava o sentimento de angústia em nós é o enfraquecimento da esperança e a consequente perda de sentido da vida. Temos a impressão de que o mal sempre vence o bem, e o próprio Deus parece ausente da história humana, tendo abandonado o homem a si mesmo.

Mas, na época de Daniel, os judeus perguntavam: ainda que Deus intervenha e faça justiça, acabando com o mal no mundo, de que adiantaria isso se tantos que nós amamos morreram e não serão beneficiados com a salvação de Deus? Eis aqui a resposta de Daniel: os mortos ressuscitarão e terão destinos diferentes: os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida eterna; os que fizeram o mal, para a vergonha eterna (cf. Jo 5,28-29!). Nada ficará impune. Portanto, se vivemos num mundo onde cada vez mais pessoas desistem de fazer o bem e se entregam à indiferença, lembremos a advertência de Jesus: “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,13; Mc 13,13).   

Vivendo num tempo de grande angústia, precisamos renovar diariamente nossa confiança em Deus, rezando com o salmista: “Meu destino está seguro em vossas mãos! Eis por que meu coração está em festa, minha alma rejubila de alegria, e até meu corpo no repouso (na morte!) está tranquilo; pois não haveis de me deixar entregue à morte” (Sl 16,5.9-10). Nossa vida não está nas mãos do acaso, mas de Jesus, a quem o Pai confiou o destino de salvação da humanidade. Se existe um fim, esse fim significa finalidade: “recapitular (reunir, resgatar, sanar) em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10).

Jesus também nos torna conscientes do fim, no Evangelho de hoje. Esse fim será precedido por uma grande tribulação (“No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo!” – Jo 16,33). Após essa tribulação, sol, lua e estrelas perderão o brilho, uma linguagem bíblica apocalíptica para falar da intervenção de Deus para destruir o mal e libertar o seu povo (cf. Is 13,10). Aqui voltamos para a profecia de Daniel: “Os que tiverem sido sábios, brilharão como o firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude, brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12,3). É uma referência à glorificação dos corpos dos ressuscitados.

Na verdade, essa escuridão total do céu já se deu no momento da morte de Jesus (cf. Mc 15,33). Ali começou o julgamento de Deus sobre a humanidade e a condenação de todos os que fazem o mal. Jesus, por sua vez, contrasta a escuridão do céu com a luz da sua vinda gloriosa: “Então vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os anjos aos quatro cantos da terra e reunirá os eleitos de Deus, de uma extremidade à outra da terra” (Mc 13,26-27). Portanto, nós, cristãos, não vivemos angustiados esperando pelo fim do mundo, mas vivemos cheios de esperança pela vinda do nosso Salvador Jesus Cristo: “Ele virá uma segunda vez, (...) para aqueles que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28).

  Olhemos para a nossa história pessoal e social. Nós já experimentamos a angústia do fim diversas vezes: o fim da infância, da adolescência, da juventude, da idade adulta, da saúde, do relacionamento, da vida de uma pessoa que amamos, do nosso animal de estimação, de um sonho etc. Para quantos de nós o fim de algo precioso conseguiu colocar fim à nossa alegria, à nossa fé, à nossa esperança em Deus? Mas hoje a Palavra de Deus nos convida a olhar para além do fim. Não existe “algo” além do fim, mas “Alguém”, nosso Salvador Jesus, Aquele a quem a Igreja, animada, sustentada, pela força do Espírito Santo, chama continuamente: “Vem!” (cf. Ap 22,17). Portanto, o fim está dentro de uma finalidade...

 

Oração: Senhor Jesus, a minha existência está dentro de uma finalidade e não entregue às mãos do acaso. Cada fim que eu já experimentei em minha história de vida só foi permitido pelo Pai porque há uma finalidade, há um propósito, uma razão de ser que ultrapassa a minha compreensão, mas que eu confio, porque sei que o meu destino está seguro em tuas mãos. Quero confiar que o fim deste mundo injusto é necessário para o nascimento de um mundo novo, de “novos céus e de uma nova terra onde habitará a justiça” (2Pd 3,13). Que o Senhor, ao vir, me encontre perseverando no bem, cuidando com fidelidade e amor da tarefa que me foi confiada. Ajuda-me a atravessar esse tempo de grande angústia mantendo meu coração firmado na intervenção final do Pai em vista da restauração de todas as coisas em Ti. Que o teu Santo Espírito complete em mim a obra começada, até o dia da Tua vinda. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

QUAL BARULHO CHAMA A SUA ATENÇÃO?

 Missa do 32º dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 17,10-16; Hebreus 9,24-28; Marcos 12,38-44.

 

            A liturgia da Palavra nos coloca diante de duas viúvas. Elas representam toda pessoa que precisa ser amparada, protegida. Ao meu redor há alguma viúva? Há alguma pessoa desamparada e desprotegida, para a qual eu posso fazer algo? Na verdade, nossas cidades estão cheias de “viúvas”, de mulheres que lutam para sustentar, sozinhas, sua casa e seus filhos. Nossas igrejas também estão cheias de “viúvas”, de mulheres que vêm sozinhas às nossas celebrações: em suas casas, são as únicas que buscam a Deus.

            O profeta Elias, homem de Deus, encontra uma viúva em Sarepta. É uma época de grande fome, por falta de chuva. Elias está com fome e com sede, e pede ajuda à viúva. Esta, por sua vez, não tem praticamente nada em casa: “Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra” (1Rs 17,12). Mas Elias provoca a fé desta viúva: “Primeiro, prepara-me com isso um pãozinho, e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até ao dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’” (1Rs 17,13-14). E, de fato, não faltou alimento na casa da viúva até o dia em que voltou a chover.

            Às vezes, Deus entra em nossa vida não como Aquele que dá, mas como Aquele que pede. Ele deseja saber se nós vivemos fechados em nós mesmos ou se, mesmo tendo quase nada, não perdemos a sensibilidade de socorrer alguém que esteja mais desamparado do que nós. Deus deseja saber se a nossa fé n’Ele se mantém também no tempo da fome, no tempo do pouco, do quase nada, confiando que “Ele dá alimento aos famintos... Ele ampara a viúva e o órfão” (Sl 146,7.9). Só experimenta o socorro de Deus quem, apesar das suas necessidades, é capaz de socorrer quem está mais necessitado do que ele mesmo.  

            Antes de chamar a nossa atenção para a oferta da viúva, no Evangelho, Jesus nos convida a observar e a tomar cuidado com determinados líderes religiosos que, ao invés de cuidar dos desamparados, estão em constante busca de reconhecimento para alimentar a própria vaidade e afirmar a sua posição de poder. São homens que se afastam da simplicidade, que alimentam um padrão de vida caro e que, quando se aproximam de alguma “viúva”, é em vista de explorá-la financeiramente. São homens que frequentam constantemente as casas das viúvas ricas e nunca encontram tempo para visitar uma viúva pobre. Quando falece um paroquiano pobre, por exemplo, nunca são encontrados para fazer a encomendação do corpo; já quando falece um paroquiano rico, antecipam-se em entrar em contato com a família e prestarem toda a assistência necessária. Quem sabe sua dedicação exemplar, embora hipócrita e interesseira, seja reconhecida e retribuída com uma oferta robusta na missa de sétimo dia?... Em relação a esse tipo de líder religioso, Jesus é muito claro: “Tomem cuidado!” (Mc 12,38); literalmente, “Afastem-se desse tipo de líder religioso!”.   

            Depois de denunciar o péssimo exemplo de alguns líderes religiosos, Jesus convida seus discípulos a aprenderem com a atitude de uma pobre viúva, que depositou no cofre das esmolas do Templo duas pequenas moedinhas. No texto grego, língua em que foram escritos os Evangelhos, as moedinhas se chamam “leptá”. O “leptá” era uma moeda de cobre, a menor e mais insignificante das moedas judaicas. Detalhe: o cofre das esmolas era feito de bronze; quando as moedas caíam dentro faziam barulho. Ora, as ofertas dos ricos faziam muito barulho, pois eles “depositavam grandes quantias” (Mc 12,41)! Quão insignificante deve ter sido o “barulho” das duas moedinhas da viúva!

            Quem é que faz barulho nas nossas comunidades, ao executar um trabalho voluntário ou ao efetuar uma oferta? Não nos esqueçamos de que, quanto mais vazia uma carroça, mais barulho ela faz. Além disso, nossos ouvidos são como os ouvidos de Jesus, capazes de ouvir o insignificante barulho da “insignificante” presença das “viúvas” em nossas comunidades? Sabemos reconhecer e agradecer a doação do dízimo tanto de quem dá “muito” como de quem dá “pouco”? A aplicação do dízimo tem como prioridade as melhorias na Matriz e nas capelas, ou o conforto da casa paroquial ou, pior ainda, as frequentes saídas do pároco para descansar?   

            Para terminar, não nos esqueçamos de que a viúva do Evangelho é a imagem do próprio Jesus: ela “ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Mc 12,44); da mesma forma, Ele oferecerá sua vida na cruz, pela salvação de todo ser humano. Em outras palavras, Jesus se reconheceu numa pobre viúva e não nos líderes religiosos do seu tempo. Qualquer semelhança com a nossa época não é mera coincidência.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

SANTIFICAÇÃO: NOS TORNARMOS A PESSOA QUE FOMOS CHAMADOS A SER

 Missa de todos os Santos. Palavra de Deus: Apocalipse 7,2-4.9-14; 1 João 3,1-3; Mateus 5,1-12a.

 

Existe a pessoa que somos agora: imperfeita, falha, pecadora, movida pelos interesses do próprio ego; mas existe também a pessoa que somos a chamados a nos tornar: a nossa configuração a Jesus Cristo, “o Santo de Deus” (Jo 6,69), o Filho obediente ao Pai, Aquele que escolheu se deixar conduzir pelo Espírito Santo. Todos somos chamados a ser santos, porque o nosso Deus é Santo.

Segundo o livro do Apocalipse, as pessoas santas trazem consigo “a marca do Deus vivo” (Ap 7,2). Diferente de uma tatuagem, essa marca não pode ser vista, porque ela se encontra na consciência da pessoa. É uma marca de pertença. Ela é dada à pessoa que tem a convicção de que nenhum bem pode ser encontrado fora de Deus (cf. Sl 16,2-3). Ainda segundo o livro do Apocalipse, os santos “vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14). A nossa santificação se dá na terra, em meio a muitas tribulações. É em meio a uma sociedade de valores invertidos que cada cristão é chamado a ter mãos puras, um coração marcado pela inocência e uma mente não dirigida para o mal (cf. Sl 24,4).

É verdade que algumas das tribulações que passamos na vida são resultado da nossa obstinação em caminhar fora da vontade de Deus. Contudo, quando procuramos caminhar na fidelidade a Deus, vamos experimentar muitas tribulações, nas quais a nossa vida será mergulhada no sangue do Cordeiro, isto é, no sofrimento de Cristo na cruz pela sua fidelidade ao Pai: “Embora sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência Deus por aquilo que sofreu” (Hb 5,8). Sempre que escolhemos obedecer a Deus, vamos experimentar algum tipo de sofrimento, principalmente de frustração para o nosso ego. Se é verdade que o mundo não reconhece os filhos de Deus (cf. 1Jo 3,1), devemos estar cientes de que precisamos aprender a suportar não apenas sermos ignorados ou tratados com indiferença pelo mundo, mas também sermos criticados, ridicularizados e perseguidos pelo mesmo.      

Jesus, no Evangelho, nos propõe um caminho de santificação: as bem-aventuranças. Elas são atitudes de vida. A proposta de Jesus é que vivamos diariamente a nossa santificação por meio dessas atitudes: ser pobre em espírito, isto é, viver na absoluta dependência de Deus e na confiança em seu amor; ser aflito, no sentido de deixar-se afetar pelo sofrimento alheio; ser manso, tendo paciência consigo mesmo e com os outros; ter fome e sede de justiça, no sentido de não desistir de ser uma pessoa justa e de trabalhar em favor daquilo que é justo; agir com misericórdia para consigo mesmo e para com os outros; ser puro de coração, tendo reta intenção e enxergando o bem que habita em cada pessoa; promover a paz, evitando discórdias desnecessárias e mantendo o foco naquilo que aproxima e reconcilia as pessoas; suportar ser perseguido ou criticado por ser uma pessoa justa, isto é, que procura viver segundo a vontade de Deus; enfim, suportar ser perseguido ou criticado por servir a Jesus e à causa do Evangelho. 

            Segundo o apóstolo João, a santificação é um processo que dura a vida toda e só vai ter a sua conclusão no momento da nossa ressurreição, do nosso encontro com o Senhor Jesus. Partimos daquilo que somos e caminhamos na direção daquilo que somos chamados a ser. O que nós somos como pessoa não é algo definitivo. Estamos em processo, em transformação: a santificação tem por objetivo nos configurar a Jesus, de forma que as pessoas O vejam e O experimentem em nossas atitudes. Eis alguns exemplos concretos de santidade: o neto que decidiu morar com os avós, que estão bastante idosos e com Alzheimer, para cuidar deles ao invés de colocá-los num asilo; a mulher que passou casada a vida toda com um marido infiel, e agora que ele se encontra doente, decidiu cuidar dele; a pessoa que carregou consigo, durante anos, uma doença ou uma ferida e nunca reclamou disso com ninguém...

            Uma última palavra. Na sua Exortação Apostólica sobre a Santidade, o Papa Francisco afirma que “todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra” (GE, n.14). É na rotina de cada dia, nas ocupações diárias, que cada um de nós é chamado a santificar-se e a santificar o mundo. Na prática, isso significa não nos conformar com o mundo (cf. Rm 12,1), isto é, não permitir que o mundo nos deforme, mas procurar distinguir qual é a vontade de Deus diante de cada escolha que fazemos, de cada decisão que tomamos e de cada situação que vivemos.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

É MELHOR VOLTAR A VER OU CONTINUAR CEGO?

 Missa do 30º dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 31,7-9; Hebreus 5,1-6; Marcos 10,46-52.

 

              Estamos diante do último milagre de Jesus no Evangelho de São Marcos: a cura do cego Bartimeu. Bartimeu não nasceu cego, mas perdeu a visão em algum momento da sua vida. Ele é o nosso retrato. Nós também perdemos a visão: deixamos de enxergar um horizonte para a nossa vida; deixamos de enxergar a beleza e o valor da pessoa pela qual um dia nos apaixonamos; deixamos de ver sentido na missão que abraçamos; deixamos de enxergar Deus junto a nós; a rotina e a correria da vida tiraram de nós a capacidade de enxergar as pessoas com as quais moramos, convivemos e/ou trabalhamos; para agravar a nossa cegueira, nossos olhos vivem grudados numa tela – grudados porque viciados –, um vício que nos torna cegos para o que está acontecendo à nossa volta.

               De uma certa forma, a cegueira de Bartimeu é o retrato da nossa fé: nós não podemos ver Deus. O apóstolo Paulo afirma que nós “caminhamos pela fé, não pela visão clara” (2Cor 5,7). Num momento de grande aflição na sua vida, quando não enxergava mais solução para o seu problema, Agar, escrava de Sara, esposa de Abraão, foi chorar perto de uma fonte no deserto. Ali Deus falou com ela, e Agar chamou Deus de “El-Roí”, que pode ser traduzido por: “Tu és o Deus que me vê (que vê a minha aflição) e me faz ver, quando eu não via mais saída para a minha vida” (cf. Gn 16,7-14). O Deus que não podemos ver nos vê – conhece o que se passa conosco – e nos faz ver, nos devolve a capacidade de enxergar a vida para além do problema que estamos enfrentando agora.

Bartimeu não podia ver, mas podia gritar: “Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: ‘Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!’” (Mc 10,47). A fé é exatamente isso: eu grito Àquele que não vejo, mas que sei que me ouve: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma” (Sl 138,3). Mesmo sendo repreendido para que se calasse, Bartimeu gritava mais ainda, até ser ouvido por Jesus. Talvez muitos hoje desencoragem você a rezar, a gritar a Deus... A quais pessoas você dá ouvidos: àquelas que lhe dizem que não adianta gritar, porque Deus não escuta, ou àquelas que lhe dizem: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” (Mc 10,49)?

Quando Bartimeu se colocou diante de Jesus, este lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” (Mc 10,51). Jesus sabia que Bartimeu era cego, mas sua pergunta era necessária para que tomasse consciência do que de fato ele queria para a sua vida. O que eu quero que Jesus me faça: que Ele me dê apenas um anestésico para a minha dor ou que coloque o dedo na minha ferida mais profunda e a faça sangrar, para poder ser tratada e curada? Quero que Jesus me carregue no colo ou que fortaleça as minhas pernas para que eu continue o meu caminho de seguimento d’Ele como verdadeiro discípulo? Quero que Jesus resolva todos os meus problemas num passe de mágica ou que me dê força e sabedoria para colocar em ordem a minha vida?

Bartimeu tinha plena consciência do que queria: “Mestre, que eu possa ver novamente!”. A tradução do texto litúrgico simplificou a palavra do texto grego (“anablepo”), língua original em que foi escrito o Evangelho. Bartimeu não pediu apenas para “ver”, “enxergar”, mas para “ver de novo”, o que comprova que ele não havia nascido cego. Eis a questão: você quer voltar a enxergar? Diante da sua decisão em não mais querer ver, para, quem sabe, não se responsabilizar, você quer voltar a ver e, consequente, se comprometer no processo da cura, da mudança, da libertação do problema que lhe aflige? Você quer voltar a se responsabilizar por sua história de vida e pela missão que você é?

Eis a resposta de Jesus ao pedido de Bartimeu: “Vai, a tua fé te curou” (Mc 10,52). A fé que me cura é a fé que não desiste de gritar ao Deus que eu não vejo, mas que me vê! A fé que me cura é a fé que não perde a coragem de gritar, mesmo quando muitos me dizem: “Não adianta!”. A fé que me cura é aquela que, mesmo quando me sinto numa situação de exílio, abandonado por Deus, continuo a clamar: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas colherão com alegria” (Sl 126,4-5). A fé que me cura é aquela que me faz seguir Jesus continuamente, no cotidiano da minha vida, exatamente como Bartimeu: “ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (Mc 10,52); seguia continuamente, fielmente, permanentemente.

Não nos esqueçamos: “caminhamos pela fé, não pela visão clara” (2Cor 5,7). O que nos mantém no seguimento de Jesus Cristo não é o que vemos, mas o que cremos. Não é o fato de vermos tudo claramente que nos faz caminhar, mas o fato de que cremos, amamos e nos deixamos conduzir por Aquele que nos vê e nos faz ver além das cegueiras do nosso tempo.

 

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

O CÁLICE

 Missa do 29º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 53,10-11; Hebreus 4,14-16; Marcos 10,27-37.

 

            “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir” (Mc 10,35). Essas palavras de Tiago e João nos colocam novamente no contexto do Ano da Oração, proposto pelo Papa Francisco, e nos questionam sobre o que costumamos pedir a Deus, quando rezamos. Eis o pedido desses dois irmãos a Jesus: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!” (Mc 10,37). O problema é que esse pedido aconteceu imediatamente após Jesus ter declarado aos discípulos que estava indo para Jerusalém e lá seria condenado à morte, mas depois ressuscitaria (cf. Mc 10,32-34). Ora, por que Tiago e João não pediram para serem crucificados um à direita e outro à esquerda de Jesus? Porque eles eram como nós, cujo instinto de preservação fala sempre mais alto do que o desejo de doar a vida por uma causa.   

            A resposta de Jesus aos dois irmãos se divide em duas partes: primeiro, um alerta; depois uma pergunta. Este é o alerta: “Vós não sabeis o que pedis” (Mc 10,38). Aqui podemos nos recordar das palavras do apóstolo Paulo, a respeito da nossa vida de oração: “Não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós... segundo Deus” (Rm 8,26-27). Quando pedimos algo a Deus na oração, sempre visamos aquilo que pensamos ser necessário para a nossa felicidade, mas o Espírito Santo sabe o que de fato convém à nossa salvação. Por isso, sua intercessão não vai no sentido de que Deus faça por nós o que queremos, mas aquilo que Ele, Deus, sabe ser realmente necessário para a nossa salvação. Portanto, a primeira pergunta a ser feita é: eu realmente sei o que estou pedindo a Deus quando rezo? Será que aquilo que eu estou pedindo corresponde, de fato, aos desígnios de Deus a meu respeito?

            Após este alerta, Jesus lança uma pergunta aos dois irmãos, que queriam estar um à sua direita e outro à sua esquerda, na glória: “Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” (Mc 10,38). Antes de ressuscitar e de voltar para a glória do Pai, Jesus precisava beber o cálice do sofrimento da cruz, e como todo ser humano, ele sentiu em si uma forte rejeição a esse cálice: “Pai, tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres” (Mc 14,36). Aqui está a diferença entre a nossa oração e a oração de Jesus: a nossa para na primeira parte – afasta de mim este cálice! –; a de Jesus vai até o fim: “contudo, não se faça como eu quero, mas como Tu queres!”. Aqui também entra um princípio inaciano sobre a nossa vida de oração: a oração bem sucedida não é aquela em que você conseguiu dobrar Deus à sua vontade, mas aquela da qual você saiu disposto(a) a abraçar a vontade de Deus para a sua vida.

            Mas, que Pai é esse que deseja que um filho seu beba o cálice do sofrimento? Na verdade, o cálice do sofrimento não foi preparado pelo Pai, mas pelos homens que rejeitaram Jesus e o mataram. O Pai não pediu ao seu Filho para morrer numa cruz; pediu apenas que Ele amasse até o fim. Assim também é conosco: Deus não produz sofrimento em nossa vida; o que Ele pede é que nós não nos desviemos do sofrimento que faz parte da nossa fidelidade à missão que Ele nos confiou. Dentro do cálice da nossa existência a vida não derrama somente o vinho doce da alegria, mas também as lágrimas amargas de uma dor que não escolhemos vivenciar e que cabe a nós beber, não a outra pessoa. Neste sentido, pais que impedem seus filhos de beberem o cálice da frustração os tornam incapazes de enfrentarem a vida de cara limpa.  

            Olhemos agora para os outros dez discípulos. A indignação deles em relação a Tiago e João escondia a inveja de quem não teve a coragem de fazer o mesmo pedido a Jesus. Por conhecer o coração humano, Jesus desafiou os Doze a se desfazerem da pretensão de serem grandes, segundo os padrões do mundo, e escolherem se fazer pequenos, servos; mais do que servos, escravos, imitando o próprio Jesus, que veio para servir e dar sua vida em resgate por muitos. Ora, todo resgate tem um preço, e esse preço está dentro do cálice a ser bebido. A questão, para cada um de nós, é esta: o que eu estou disposto(a) a sacrificar para resgatar aquilo que é precioso para mim? Estou vivendo minha existência a partir do desfrutar – o que a vida tem a me oferecer? –, ou a partir do doar-me – o que eu tenho a oferecer à vida?  

               Para todos aqueles que decidiram seguir Jesus amando até o fim e bebendo do cálice que lhes cabe beber neste momento, a carta aos Hebreus encoraja: “Permaneçamos firmes na fé que professamos. Com efeito, temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas... Aproximemo-nos, então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4,14-16). Recordemos também as palavras do salmista: “O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem, e que confiam esperando em seu amor, para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los quando é tempo de penúria” (Sl 33,18-19). Façamos nossa a sua oração: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos!” (Sl 33,22).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi