quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

FAZER DA NOSSA EXISTÊNCIA UMA OFERENDA A DEUS, PELA SALVAÇÃO DA HUMANIDADE

 Missa do 4º dom. do advento. Palavra de Deus: Miqueias 5,1-4a; Hebreus 10,5-10; Lucas 1,39-45. 

 

Segundo o evangelista Lucas, a vida de cada um de nós está inserida dentro da história da salvação, uma história que abrange três tempos: o tempo da promessa (Antigo Testamento), o tempo do cumprimento (Novo Testamento) e o tempo da Igreja, que se estende até a segunda vinda do Senhor Jesus (Parusia). Nós estamos, especificamente, dentro da última fase da história da salvação.

O tempo da promessa aparece na profecia de Miqueias. A um povo humilhado, angustiado e com um futuro incerto, Deus promete lhe enviar um rei humilde e bom, que vai lhe trazer prosperidade, justiça e harmonia. Detalhe importante: esse rei não nascerá em Jerusalém, no palácio real, onde a vida decorre no meio de intrigas, ambições, corrupções e jogos de poder; mas virá da pequena aldeia de Belém de onde veio o rei Davi, homem segundo o coração de Deus. Ele será a paz, porque trará abundância de vida, harmonia e felicidade plena. A insignificante Belém nos lança uma pergunta: “Onde você procura pelos sinais de Deus em sua vida: nos acontecimentos extraordinários, ou na rotina do seu dia a dia?”.

O grande desafio do tempo da promessa é esperar pelo seu cumprimento: “Deus deixará seu povo ao abandono, até ao tempo em que uma mãe der à luz!” (Mq 5,2). Essa sensação de abandono se refere a um tempo de provação e sofrimento, algo que conhecemos muito bem! No entanto, esse abandono pode se dar também por nós, como Jesus afirma à Igreja de Éfeso: “Você abandonou o seu primeiro amor... Recorde-se onde você caiu, converta-se e retome a conduta de antes” (Ap 2,4-5). Nós até podemos continuar a caminhar com Jesus, mas o fazemos sem o ardor inicial, sem um amor profundo por Ele; talvez, apenas por medo de perder a salvação, mas não por convicção de que Ele é o nosso tudo.   

O Evangelho nos traz o tempo do cumprimento da promessa. O rei prometido já se encontra no ventre de Maria, uma mulher simples e pobre, moradora da insignificante cidade de Nazaré. Estamos diante da “visitação” de Maria a Isabel. Para falar da cura da esterilidade de Sara, mulher de Abraão, a Escritura diz que “o Senhor visitou Sara, como dissera, e fez por ela como prometera. Sara concebeu e deu à luz um filho...” (Gn 21,1-2). Para anunciar o nascimento de Jesus, nosso Salvador, Zacarias disse: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu seu povo” (Lc 1,68). Nós acolhemos as visitas de Deus, ou nos comportamos como a cidade de Jerusalém, quando Jesus a visitou: “Não reconheceste o tempo em que foste visitada!” (Lc 19,44)?  

A visita de Maria fez com que a criança pulasse de alegria no ventre de Isabel e ela ficasse cheia do Espírito Santo (cf. Lc 1,41). Maria e Isabel eram primas. O Evangelho está nos convidando a visitar nossos familiares, a romper o silêncio, a diminuir a distância, a derrubar o muro de separação, a passar por cima do nosso orgulho, a diluir o nosso ressentimento, a vivermos a experiência do milagre da reconciliação. Além disso, hoje somos nós que, junto com o salmista, pedimos: “Lembra-te de mim, Senhor, (...) visita-me com a tua salvação” (Sl 106,4). Cada um de nós necessita ser visitado por Deus, para que a alegria da salvação seja sentida a partir do nosso íntimo. Por isso, em sintonia com o salmo de hoje, nós suplicamos: “Despertai vosso poder, ó nosso Deus, e vinde logo nos trazer a salvação! (...) Visitai a vossa vinha e protegei-a!” (Sl 80,3.15).  

Já meditamos sobre o tempo da promessa (Miqueias) e o tempo do cumprimento (Evangelho). Consideremos agora o tempo da Igreja, o nosso tempo atual. Ele se encontra na carta aos Hebreus, convidando-nos a nos posicionar diante de Deus e da vida como Jesus se posicionou. Desde que veio ao mundo, Jesus escolheu fazer da sua vida uma entrega absoluta à vontade do Pai: “Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,7). Ora, a obediência a Deus implica muitas vezes em sacrificar o nosso ego, os nossos planos, para abraçarmos os planos d’Ele a nosso respeito. O que é que nos move, nos faz todos os dias levantar da cama e enfrentar o mundo: os nossos interesses pessoais, as nossas realizações humanas, ou a fidelidade à missão que o Pai nos confiou?

Para o autor da carta aos Hebreus, fazer a vontade do Pai é fazer da própria vida uma entrega, uma oferenda, um sacrifício: “É graças a esta vontade (escolha diária do Filho em fazer a vontade do Pai) que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb 10,10). A Eucaristia que comungamos é a oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas na cruz. Comungá-la implica em fazermos da nossa vida uma oferenda ao Pai, pela salvação dos nossos irmãos e irmãs. Quem comunga o corpo de Jesus Cristo, mas não está disposto a se sacrificar pela salvação da família, da sociedade humana, da Igreja, do mundo atual, não entendeu o significado da oferenda do corpo de Cristo. Em suma, a pergunta que a Eucaristia nos coloca nunca será: “O que a vida tem a me oferecer?”, mas sempre será: “O que eu tenho a oferecer à vida?”. Isso significa que é a oferenda diária de nós mesmos que fará as pessoas do nosso tempo sentirem-se visitadas por Deus e por Sua salvação.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

DESOBSTRUIR A FONTE INTERNA DA NOSSA ALEGRIA

 Missa do 3º dom. do advento. Palavra de Deus: Sofonias 3,14-18a; Filipenses 4,4-7; Lucas 3,10-18.

 

            “Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém!” (Sf 3,14). Quando foi a última vez que você sentiu alegria? O que é preciso acontecer na sua vida para que você sinta alegria?

            Quando o profeta Sofonias convidou o povo de Israel a se alegrar, o país estava mergulhado na miséria, na violência e no sofrimento. Mesmo diante desse contexto de desolação, o profeta levanta sua voz para anunciar: “Não temas, (...) não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti” (Sf 3,16-17). Ainda que as circunstâncias não sejam favoráveis; ainda que a época em que estamos vivendo seja excessivamente problemática; ainda que estejamos feridos e tenhamos sofrido perdas, não podemos deixar o medo nos engolir, nem nos entregar ao desânimo, porque o Senhor está conosco! Sua presença junto a nós não é uma ameaça, mas um convite à confiança no Seu amor e no Seu poder de tudo transformar.

            Esse mesmo convite à alegria é retomado pelo salmista: “Exultai cantando alegres, habitantes de Sião, porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!” (Is 12,6). A razão da nossa alegria não depende do fato de que tudo esteja correndo bem em nossa vida; ela se apoia na certeza de que Deus é grande; Ele é maior que tudo o que nos acontece e está no meio de nós, junto a nós, dentro de nós, através do Seu Espírito! Portanto, a alegria renasce em nós todas as vezes em que tomamos consciência de que somos habitados por Deus, através do Espírito Santo. Também o apóstolo Paulo, mesmo estando preso, nos convida à alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos” (Fl 4,4). Trata-se de nos alegrar “no Senhor” e por causa do Senhor, em cujas mãos está a nossa existência.

            Não há dúvida de que são muitas as nossas preocupações e os nossos problemas; não há como ignorá-los, mas o apóstolo Paulo nos dá um conselho: “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (Fl 4,6). A inquietação, o medo, o sentimento de ameaça devem dar lugar dentro de nós à confiança e à entrega, fazendo da nossa oração o momento em que colocamos tudo nas mãos de Deus e nos abandonamos por completo aos Seus cuidados. Quando fazemos isso, a inquietação, o medo, a angústia dão lugar à paz: aconteça o que acontecer, estamos sob os cuidados de Deus. Ele sempre faz com que tudo concorra para o bem daqueles que a Ele se confiam e n’Ele esperam.

            Se o motivo da alegria cristã é a proximidade da vinda do Senhor, diante do anúncio desta, feito por João Batista, pessoas de diferentes categorias fizeram-lhe a seguinte pergunta: “Que devemos fazer?” (Lc 3,10.12.14). A alegria está no esperar o Senhor fazendo, isto é, cuidando daquilo que a vida está nos pedindo para cuidar, neste momento. Algumas frases possam nos ajudar a compreender melhor no que consiste a alegria: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita” (Ghandi). “A alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira” (Tolstói). “Há mais alegria em dar do que em receber” (At 20,35). “O sábio não se senta para lamentar-se, mas se põe alegremente em sua tarefa de consertar o dano feito” (Shakspeare). “Não há satisfação maior do que aquela que sentimos quando proporcionamos alegria aos outros” (Masaharu Taniguchi).

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

UMA GERAÇÃO LIGADA NA ESTÉTICA (PELE SEM MANCHA), MAS DESLIGADA DA ÉTICA (CONSCIÊNCIA LIMPA)

Missa da Imaculada Conceição. Palavra de Deus: Gênesis 3,9-15.20; Efésios 1,3-6.11-12; Lucas 1,26-38.

 

Neste ano, a liturgia do segundo domingo do advento cede lugar à Solenidade da Imaculada Conceição, celebrada no dia 08 de dezembro. Recordemos o dogma de fé que fundamenta tal solenidade: “Por uma graça e favor singular de Deus onipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição” (Papa Pio IX, 1854). Em outras palavras, nossa Igreja crê que Maria, diferente de qualquer outro ser humano, foi concebida sem a mancha do pecado original, justamente para ser a mãe do Santo de Deus, Jesus Cristo, nosso Salvador.

O texto do Gênesis nos relata aquilo que a Igreja chama de “pecado original”. Adão e Eva, personagens bíblicos que simbolizam a humanidade nas suas origens, desobedeceram a Deus e comeram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eles são o retrato de todo ser humano que escolhe não viver na dependência de Deus, mas determinar por si mesmo o que é o bem e o que é mal, segundo a sua conveniência. Aqui entra a noção bíblica de pecado: pecar significa “fazer o que é mal aos olhos de Deus” (Sl 51,6). Se alguma coisa nos oferece algum tipo benefício, mas provoca o mal em nós mesmos, em nosso próximo ou na criação (meio ambiente), ela é má aos olhos de Deus e deve ser evitada. O resultado de todo pecado é o sofrimento, a destruição, a infelicidade e a morte.

A pergunta de Deus a Adão é dirigida a cada um de nós, hoje: “Onde você está?” (Gn 3,9). Deus quer que cada um de nós tome consciência de como está sua vida; como temos usado a nossa liberdade; para onde nossas escolhas e nossas decisões estão nos levando e o que elas têm produzido em nossa história pessoal e social. Enquanto Adão se dá conta de que o pecado o afastou de Deus, Eva explica que pecou porque foi enganada: “A serpente enganou-me e eu comi” (Gn 3,13). Na época em que esta página do Gênesis foi escrita, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade, e os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos cananeus. A serpente é apenas um símbolo da sedução do maligno, o “pai da mentira” (Jo 8,44). Nós só pecamos porque nos deixamos enganar, caindo na armadilha do maligno.

A boa notícia no relato do pecado de Adão e Eva é a promessa de que o Filho da Mulher esmagará a cabeça da serpente (cf. Gn 3,15), uma referência a Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria como Santo (cf. Lc 1,35), para nos libertar da condenação do nosso pecado, nos retirar de uma situação de desobediência e tornar o nosso coração capaz de obediência à vontade de Deus, que deseja o nosso verdadeiro bem, a nossa verdadeira felicidade e salvação.

O Evangelho nos anuncia o cumprimento da promessa de Deus, apresentando-nos Maria, a nova Eva, aquela que não dialoga com o maligno, nem se deixa enganar por suas seduções, mas dialoga com Deus na sua consciência, e procura em tudo fazer a sua vontade. A Virgem Maria é saudada pelo anjo Gabriel como “cheia de graça” (cf. Lc 1,28); portanto, como uma pessoa em quem o pecado nunca teve espaço para entrar e macular, sujar, corromper. Diferente de Eva, Maria escolhe obedecer em tudo a Deus, tornando-se, assim, modelo para cada um de nós, sempre que somos convidados a abraçar a missão que Deus deseja nos confiar, para a salvação da humanidade: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). Aqui começa o Natal! Ao dizer “faça-se em mim segundo a tua palavra!”, Maria permite que a Palavra de Deus se faça carne (cf. Jo 1,14), pessoa humana em seu ventre, e nasça Aquele que cujo sangue tem o poder de perdoar nossos pecados (cf. Ef 1,7), verdade atestada também na carta aos Hebreus: “O sangue de Cristo que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha, há de purificar a nossa consciência das obras mortas para que prestemos culto ao Deus vivo” (Hb 9,14).    

            Cristo, vítima sem mancha, nascido da Virgem Maria, imaculada, concebida sem a mancha do pecado original. Ambos são o que cada um de nós é chamado a se tornar: “Em Cristo, ele (Deus Pai) nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor” (Ef 1,4). Nenhum ser humano passa por este mundo sem pecar, sem se manchar: “Se dissermos: ‘Não temos pecado’, enganamo-nos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8). Nossa verdade de filhos de Deus é o fato de que sempre seremos livres para fazer escolhas e tomar decisões, independente das circunstâncias que marcam a nossa vida em cada momento, e nem sempre nossa escolha ou decisão será a de Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38); algumas vezes, em busca de um bem aparente, mas não verdadeiro, nós interromperemos nosso diálogo com Deus, para abrir um diálogo com o Tentador, dizendo-lhe: “Faça-se em mim segundo a tua mentira”. Desse modo, conceberemos o pecado, e mancharemos a nossa história pessoal e social.

            Nesta festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, assumamos o compromisso de cuidar mais da ética (comportamento justo) do que da estética (remover manchas da nossa pele). Não nos esqueçamos do alerta do Papa Francisco: muitos filhos comem pão sujo em casa, porque a maneira como seus pais ganham dinheiro é desonesta. Lembremos do conselho de Jesus: “Deem o que possuem em esmola (socorram os pobres), e tudo ficará puro (sem mácula) para vocês” (Lc 11,41). Cuidemos, enfim, do nosso olhar: “A lâmpada do corpo é o teu olho. Se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado (limpo, imaculado); mas se ele for mau, teu corpo também ficará escuro (sujo, maculado)” (Lc 11,34).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

ESPERAR PELO SENHOR EM PÉ E DE CABEÇA ERGUIDA

 Missa do 1º dom. do advento. Palavra de Deus: Jeremias 33,14-16; 1Tessalonicenses 3,12 – 4,2; Lucas 21,25-28.34-36.

 

Três tempos marcam a nossa vida: o passado, a respeito do qual nada mais podemos fazer, a não ser aprender, aceitar e nos reconciliar; o presente, a respeito do qual somos chamados a abraçar a tarefa que a vida está nos pedindo; o futuro, a respeito do qual nada sabemos, apenas que somos chamados a confiar, pois “o futuro a Deus pertence” (ditado popular), e esse mesmo Deus nos garante na sua Palavra: “Farei cumprir a promessa de bens futuros... Farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra” (Jr 33,14.15). Que Deus sempre cumpre Suas promessas está afirmado por Josué, ao introduzir o povo de Israel na Terra Prometida: “Reconheçam que, de todas as promessas que o Senhor Deus fez em favor de vocês, nenhuma ficou sem cumprimento: tudo se realizou em favor de vocês e nenhuma delas falhou” (citação livre de Js 24,14).

Em relação aos três tempos que marcam a nossa história pessoal e social, nós só temos acesso imediato ao tempo presente. Ele é, de fato, um “presente”, uma oportunidade, um dom da vida, para fazermos escolhas e tomarmos decisões que, de duas, uma: ou farão dele uma mera repetição do passado, ou o abrirão a uma transformação que será testemunhada por nós no futuro. É aqui que entra o sentido do tempo do advento. Advento: esperar por Aquele que vem. Toda celebração eucarística é uma afirmação da nossa esperança na volta de Cristo: “Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26).

“Até que ele venha” – eis a certeza que fundamenta a nossa esperança e sustenta a nossa fé. Nosso presente não está fechado nos problemas que enfrentamos, nas dores que sofremos e nas angústias que suportamos, mas aberto Àquele que vem para salvar os que por ele esperam: “Ele aparecerá uma segunda vez, (...) àquele que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28). Quem desconhece essa verdade tem o seu presente tomado pela ansiedade, pelo medo e pela angústia. Se a ansiedade é o sentimento mais comum no mundo atual é porque falta à maioria das pessoas a confiança quanto ao futuro: esperar pelo nosso Salvador.

O problema é que o nosso presente está marcado por muita coisa negativa que corrói a nossa esperança: o aumento assustador de doenças, a contínua destruição do meio ambiente e as consequentes catástrofes climáticas, a intensidade do aquecimento global, a piora do ser humano como pessoa, a desintegração das famílias, a perda crescente de fé etc. No entanto, esse é o tempo em que fomos chamados a viver e a testemunhar a nossa fé. Por isso, Jesus nos convoca a uma atitude firme: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21,28).

Preste atenção à sua postura corporal e à das pessoas à sua volta: nós estamos em pé ou prostrados, derrubados, caídos? Caminhamos de cabeça erguida ou “derrubada”, inclinada para baixo, voltada para o chão? A cena mais comum são as pessoas com a cabeça inclinada, olhando para o celular. Essa postura diz muito! Somos uma geração puxada para baixo, encurvada, que se prostra facilmente diante de cada acontecimento ruim, cuja cabeça parece pesar sabe-se lá quantos quilos, e por isso vive caída para a frente, olhando apenas para baixo. É a atitude de quem vive o seu presente fechado em si mesmo, não aberto ao futuro, desprovido de qualquer tipo de esperança.

Hoje Jesus diz a cada um de nós: “Levante a cabeça!”. A vida não é somente aquilo que estamos vivendo no momento presente. Não temos que negar ou ignorar que estamos de certa forma presos ao medo, à angústia, à dor, à ansiedade, a situações de injustiça etc. Mas devemos erguer a cabeça porque “a nossa libertação está próxima”! Essa libertação se chama, na Sagrada Escritura, de “Dia do Senhor”, Dia em que Deus intervirá na história humana definitivamente, enviando seu Filho como Juiz para separar o bem do mal, para recolher o trigo (homens justos) no celeiro de Deus e para esmagar as uvas (homens injustos) com os seus pés (cf. Ap 14,14-20); o Dia em que o Senhor Jesus “exterminará todos os que exterminam a terra” (cf. Ap 11,18).

Ora, não se espera pelo “Dia do Senhor” de braços cruzados, com apatia e acomodação; muito menos com uma postura irresponsável perante a própria existência, no estilo “deixa a vida me levar”. Por isso, Jesus nos alerta: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida” (Lc 21,34). Esse estilo de vida pagão está cada vez mais presente na vida dos cristãos do mundo atual. Basta considerar como a maioria das pessoas vive seu domingo, seu fim de semana ou um feriado santo. O coração insensível é símbolo de uma consciência anestesiada, distraída – a indústria do entretenimento trabalha incansavelmente para nos manter distraídos e alienados (fora da realidade); é uma consciência que se tornou incapaz de ouvir a voz do Senhor dentro de si mesma.

O contrário de um cristão que vive como pagão, com a consciência distraída, desfocada, ocupada com “urgências” e distante do essencial, é o cristão que mantem-se firme na sua vida de oração: “Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21,36). Jesus entende a oração não como blindagem, mas como fonte de força para não tombarmos diante dos revezes da vida. A verdade é que, enquanto caminhamos ao encontro do Senhor que vem, todos nós temos momentos de tropeço e de queda. O importante é nos levantar dessas quedas e retomar diariamente o caminho, e só a oração nos dá força para isso. Sem uma vida disciplinada de oração, nossa espera pelo Senhor se esfarela, dissipa-se, evapora. Jesus foi muito claro: “Orai a todo momento”, e não só quando a situação fica difícil ou quando nos sentimos ameaçados. Orar a todo momento é manter a consciência voltada para Deus e pedir, como o salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação!” (Sl 25,4-5).  Tenha um abençoado e fecundo início de Advento!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

QUEM EU PERMITO QUE EXERÇA DOMÍNIO SOBRE MIM?

 Missa de Cristo, Rei do universo. Palavra de Deus: Daniel 7,13-14; Apocalipse 1,5-8; João 18,33b-37.

 

            Para entendermos o título atribuído a Jesus como Rei do universo, recordemos o que Deus disse ao profeta Samuel, quando o povo de Israel quis ter um rei: “Não é a ti que eles rejeitam, mas é a mim que eles rejeitam, porque não querem mais que eu reine sobre eles” (1Sm 8,7). Ao pedir um rei, Israel queria, na verdade, ter a sua segurança garantida por um exército, pois era uma época de muitos conflitos e guerras com diversos povos. O erro de Israel foi se esquecer de que um rei só consegue manter um exército cobrando impostos do seu povo.

            Quem reina sobre nós? Quem nós queremos ou permitimos que reine sobre nós? O rei exerce domínio sobre seu povo. Alguém, alguma situação ou algo exerce domínio sobre você atualmente? Não nos esqueçamos de que ninguém é totalmente livre e autônomo; todo ser humano escolhe debaixo de qual domínio se colocar. Quem não escolhe livremente depender de Deus, acaba por sofrer uma dependência imposta a partir de fora, tornando-se escravo de um vício, de um pecado, de uma relação doentia ou do próprio espírito do mal.

            A história humana já teve inúmeros reis, mas, na verdade, só existe um rei que faz o mundo dobrar os joelhos diante dele: o dinheiro. O fascínio por ele provoca guerras, violência e morte. A servidão a esse “rei” corrompe políticos e líderes religiosos, destrói casamentos e distancia os pais dos filhos. O próprio Jesus foi tentado a “facilitar” a sua vida colocando a sua segurança na ilusão das riquezas: “Eu te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser” (Lc 4,6). Mas Jesus escolheu viver na absoluta dependência do Pai e jamais na falsa autonomia de uma vida financeira confortável. Resumindo, por trás da servidão ao dinheiro está uma dependência escolhida de submissão a Satanás, o “príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30) .

            Depois de descrever o desmoronamento dos reinos humanos, que produzem sofrimento, injustiça, violência e morte, Daniel nos fala do “Filho do Homem”, representação do Deus humano, a quem foi entregue o poder de julgar todas as nações: “Seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7,14). Quem livremente se coloca debaixo do seu domínio salvífico é liberto de todo domínio que escraviza, adoece, fere e mata: “Se o Filho vos libertar, vós sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,36).

            Mas a questão é: nós realmente queremos ser livres? Ser livre significa responsabilizar-se pela sua própria vida. A maioria das pessoas escolhe responsabilizar alguém ou as circunstâncias pelos males que lhes acontecem, esquecendo-se de que são as escolhas e as decisões delas no dia a dia que determinam o seu próprio destino. Que as circunstâncias influenciam a nossa vida, isso é fato, mas influenciar não significa determinar. O que, de fato, determina a nossa vida são as nossas decisões diante das circunstâncias em que nos encontramos. Neste sentido, cada um precisa tomar nas mãos as rédeas da própria vida e assumir o domínio sobre suas escolhas e decisões.

            A liberdade que Jesus veio nos oferecer está intimamente ligada ao conhecimento da verdade: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).  “Eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37). Jesus nunca foi dominado por nenhum tipo de escravidão porque escolheu viver na verdade do Pai. Essa verdade é a Palavra de Deus (“tua palavra é verdade”: Jo 17,17) que nos liberta das mentiras do diabo – o “pai da mentira” (Jo 8,44). Se muitas pessoas hoje vivem debaixo de algum domínio que as escraviza e adoece é porque não querem escutar a voz de Jesus, isto é, não querem obedecer à verdade da sua Palavra, abrindo mão das falsas compensações provenientes da mentira do seu pecado ou dos seus enganos.

            Algumas perguntas que cada um de nós precisa se fazer, nesta Festa de Cristo Rei: Quem eu permito que exerça domínio sobre mim: o Rei do Universo ou o príncipe deste mundo? Eu escolho me orientar diariamente pela verdade que é Cristo ou pelo “pai da mentira”, que é o diabo? Eu me responsabilizo pelo meu destino, que é construído todos os dias pela liberdade que tenho ao fazer escolhas e tomar decisões, ou me coloco numa posição de vítima dos acontecimentos?

 

            Senhor Jesus Cristo, o Pai lhe concedeu o poder de salvar todo ser humano, mas tal salvação é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. Eu escolho obedecer à sua voz e viver segundo a verdade do seu Evangelho. Retira-me debaixo do domínio do espírito do mal, o príncipe deste mundo, e guarda-me sob o seu domínio, capaz de me libertar, curar e salvar. Venha o seu Reino! Reine sobre a consciência e o coração de cada ser humano. Estende o seu domínio salvífico sobre toda pessoa escrava do pecado pessoal e desumanizada pelo pecado social. Reine, Senhor, em nossas casas, escolas, locais de trabalho, cidades e países. Revela-nos a verdade capaz de nos libertar das mentiras e dos enganos que nos adoecem. Destina cada um de nós para o seu Reino Eterno. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi     

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O FIM ESTÁ DENTRO DE UMA FINALIDADE

 Missa do 33º dom. comum. Palavra de Deus: Daniel 12,1-3; Hebreus 10,11-14.18; Marcos 13,24-32.

 

Os dois textos principais da Liturgia da Palavra de hoje – o profeta Daniel e Jesus (Evangelho) – querem nos tornar conscientes de que existe um fim. Este fim é a intervenção definitiva de Deus na história humana, para acabar de vez com o mal, a injustiça e a morte e fazer triunfar o bem, a justiça e a vida. Tanto Daniel quanto Jesus falam conosco a partir de uma linguagem apocalíptica, segundo a qual a história humana não está nas mãos de nenhum homem poderoso da face da terra, mas de Deus, cujo Reino se estabelecerá após o fim de todos os reinos humanos, que causaram dor e sofrimento à humanidade.

Aos judeus, que estavam sendo massacrados pelo rei Antíoco IV Epífanes (167 aC), Daniel encoraja afirmando a intervenção de Deus através do Arcanjo Miguel, que se levantará para defender o povo de Deus, que vive mergulhado num tempo de grande angústia: “Será um tempo de angústia, como nunca houve até então... Mas, nesse tempo, teu povo será salvo” (Dn 12,1). Nós também vivemos um tempo de grande angústia, não somente devido aos problemas do tempo presente, mas em relação ao nosso próprio futuro. O que agrava o sentimento de angústia em nós é o enfraquecimento da esperança e a consequente perda de sentido da vida. Temos a impressão de que o mal sempre vence o bem, e o próprio Deus parece ausente da história humana, tendo abandonado o homem a si mesmo.

Mas, na época de Daniel, os judeus perguntavam: ainda que Deus intervenha e faça justiça, acabando com o mal no mundo, de que adiantaria isso se tantos que nós amamos morreram e não serão beneficiados com a salvação de Deus? Eis aqui a resposta de Daniel: os mortos ressuscitarão e terão destinos diferentes: os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida eterna; os que fizeram o mal, para a vergonha eterna (cf. Jo 5,28-29!). Nada ficará impune. Portanto, se vivemos num mundo onde cada vez mais pessoas desistem de fazer o bem e se entregam à indiferença, lembremos a advertência de Jesus: “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,13; Mc 13,13).   

Vivendo num tempo de grande angústia, precisamos renovar diariamente nossa confiança em Deus, rezando com o salmista: “Meu destino está seguro em vossas mãos! Eis por que meu coração está em festa, minha alma rejubila de alegria, e até meu corpo no repouso (na morte!) está tranquilo; pois não haveis de me deixar entregue à morte” (Sl 16,5.9-10). Nossa vida não está nas mãos do acaso, mas de Jesus, a quem o Pai confiou o destino de salvação da humanidade. Se existe um fim, esse fim significa finalidade: “recapitular (reunir, resgatar, sanar) em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10).

Jesus também nos torna conscientes do fim, no Evangelho de hoje. Esse fim será precedido por uma grande tribulação (“No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo!” – Jo 16,33). Após essa tribulação, sol, lua e estrelas perderão o brilho, uma linguagem bíblica apocalíptica para falar da intervenção de Deus para destruir o mal e libertar o seu povo (cf. Is 13,10). Aqui voltamos para a profecia de Daniel: “Os que tiverem sido sábios, brilharão como o firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude, brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12,3). É uma referência à glorificação dos corpos dos ressuscitados.

Na verdade, essa escuridão total do céu já se deu no momento da morte de Jesus (cf. Mc 15,33). Ali começou o julgamento de Deus sobre a humanidade e a condenação de todos os que fazem o mal. Jesus, por sua vez, contrasta a escuridão do céu com a luz da sua vinda gloriosa: “Então vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os anjos aos quatro cantos da terra e reunirá os eleitos de Deus, de uma extremidade à outra da terra” (Mc 13,26-27). Portanto, nós, cristãos, não vivemos angustiados esperando pelo fim do mundo, mas vivemos cheios de esperança pela vinda do nosso Salvador Jesus Cristo: “Ele virá uma segunda vez, (...) para aqueles que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28).

  Olhemos para a nossa história pessoal e social. Nós já experimentamos a angústia do fim diversas vezes: o fim da infância, da adolescência, da juventude, da idade adulta, da saúde, do relacionamento, da vida de uma pessoa que amamos, do nosso animal de estimação, de um sonho etc. Para quantos de nós o fim de algo precioso conseguiu colocar fim à nossa alegria, à nossa fé, à nossa esperança em Deus? Mas hoje a Palavra de Deus nos convida a olhar para além do fim. Não existe “algo” além do fim, mas “Alguém”, nosso Salvador Jesus, Aquele a quem a Igreja, animada, sustentada, pela força do Espírito Santo, chama continuamente: “Vem!” (cf. Ap 22,17). Portanto, o fim está dentro de uma finalidade...

 

Oração: Senhor Jesus, a minha existência está dentro de uma finalidade e não entregue às mãos do acaso. Cada fim que eu já experimentei em minha história de vida só foi permitido pelo Pai porque há uma finalidade, há um propósito, uma razão de ser que ultrapassa a minha compreensão, mas que eu confio, porque sei que o meu destino está seguro em tuas mãos. Quero confiar que o fim deste mundo injusto é necessário para o nascimento de um mundo novo, de “novos céus e de uma nova terra onde habitará a justiça” (2Pd 3,13). Que o Senhor, ao vir, me encontre perseverando no bem, cuidando com fidelidade e amor da tarefa que me foi confiada. Ajuda-me a atravessar esse tempo de grande angústia mantendo meu coração firmado na intervenção final do Pai em vista da restauração de todas as coisas em Ti. Que o teu Santo Espírito complete em mim a obra começada, até o dia da Tua vinda. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

QUAL BARULHO CHAMA A SUA ATENÇÃO?

 Missa do 32º dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 17,10-16; Hebreus 9,24-28; Marcos 12,38-44.

 

            A liturgia da Palavra nos coloca diante de duas viúvas. Elas representam toda pessoa que precisa ser amparada, protegida. Ao meu redor há alguma viúva? Há alguma pessoa desamparada e desprotegida, para a qual eu posso fazer algo? Na verdade, nossas cidades estão cheias de “viúvas”, de mulheres que lutam para sustentar, sozinhas, sua casa e seus filhos. Nossas igrejas também estão cheias de “viúvas”, de mulheres que vêm sozinhas às nossas celebrações: em suas casas, são as únicas que buscam a Deus.

            O profeta Elias, homem de Deus, encontra uma viúva em Sarepta. É uma época de grande fome, por falta de chuva. Elias está com fome e com sede, e pede ajuda à viúva. Esta, por sua vez, não tem praticamente nada em casa: “Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra” (1Rs 17,12). Mas Elias provoca a fé desta viúva: “Primeiro, prepara-me com isso um pãozinho, e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até ao dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’” (1Rs 17,13-14). E, de fato, não faltou alimento na casa da viúva até o dia em que voltou a chover.

            Às vezes, Deus entra em nossa vida não como Aquele que dá, mas como Aquele que pede. Ele deseja saber se nós vivemos fechados em nós mesmos ou se, mesmo tendo quase nada, não perdemos a sensibilidade de socorrer alguém que esteja mais desamparado do que nós. Deus deseja saber se a nossa fé n’Ele se mantém também no tempo da fome, no tempo do pouco, do quase nada, confiando que “Ele dá alimento aos famintos... Ele ampara a viúva e o órfão” (Sl 146,7.9). Só experimenta o socorro de Deus quem, apesar das suas necessidades, é capaz de socorrer quem está mais necessitado do que ele mesmo.  

            Antes de chamar a nossa atenção para a oferta da viúva, no Evangelho, Jesus nos convida a observar e a tomar cuidado com determinados líderes religiosos que, ao invés de cuidar dos desamparados, estão em constante busca de reconhecimento para alimentar a própria vaidade e afirmar a sua posição de poder. São homens que se afastam da simplicidade, que alimentam um padrão de vida caro e que, quando se aproximam de alguma “viúva”, é em vista de explorá-la financeiramente. São homens que frequentam constantemente as casas das viúvas ricas e nunca encontram tempo para visitar uma viúva pobre. Quando falece um paroquiano pobre, por exemplo, nunca são encontrados para fazer a encomendação do corpo; já quando falece um paroquiano rico, antecipam-se em entrar em contato com a família e prestarem toda a assistência necessária. Quem sabe sua dedicação exemplar, embora hipócrita e interesseira, seja reconhecida e retribuída com uma oferta robusta na missa de sétimo dia?... Em relação a esse tipo de líder religioso, Jesus é muito claro: “Tomem cuidado!” (Mc 12,38); literalmente, “Afastem-se desse tipo de líder religioso!”.   

            Depois de denunciar o péssimo exemplo de alguns líderes religiosos, Jesus convida seus discípulos a aprenderem com a atitude de uma pobre viúva, que depositou no cofre das esmolas do Templo duas pequenas moedinhas. No texto grego, língua em que foram escritos os Evangelhos, as moedinhas se chamam “leptá”. O “leptá” era uma moeda de cobre, a menor e mais insignificante das moedas judaicas. Detalhe: o cofre das esmolas era feito de bronze; quando as moedas caíam dentro faziam barulho. Ora, as ofertas dos ricos faziam muito barulho, pois eles “depositavam grandes quantias” (Mc 12,41)! Quão insignificante deve ter sido o “barulho” das duas moedinhas da viúva!

            Quem é que faz barulho nas nossas comunidades, ao executar um trabalho voluntário ou ao efetuar uma oferta? Não nos esqueçamos de que, quanto mais vazia uma carroça, mais barulho ela faz. Além disso, nossos ouvidos são como os ouvidos de Jesus, capazes de ouvir o insignificante barulho da “insignificante” presença das “viúvas” em nossas comunidades? Sabemos reconhecer e agradecer a doação do dízimo tanto de quem dá “muito” como de quem dá “pouco”? A aplicação do dízimo tem como prioridade as melhorias na Matriz e nas capelas, ou o conforto da casa paroquial ou, pior ainda, as frequentes saídas do pároco para descansar?   

            Para terminar, não nos esqueçamos de que a viúva do Evangelho é a imagem do próprio Jesus: ela “ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Mc 12,44); da mesma forma, Ele oferecerá sua vida na cruz, pela salvação de todo ser humano. Em outras palavras, Jesus se reconheceu numa pobre viúva e não nos líderes religiosos do seu tempo. Qualquer semelhança com a nossa época não é mera coincidência.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi