Homilia 26º dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 18,25-28; Filipenses 2,1-5; Mateus 21,28-32.
Diante
dos textos bíblicos que ouvimos, uma pergunta se torna necessária para cada um
de nós: “Eu preciso mudar?’. Através do profeta Ezequiel, Deus nos convida a
valorizar o tempo presente, o nosso “hoje”. O que fizemos até ontem – seja o
bem, seja o mal – não pode ser mudado, como também não pode nos “aposentar”,
tipo “Eu já fiz a minha parte”. Nós só temos o “hoje”, e ele está carregado de
possibilidades: ou nos mantemos firmes e perseverantes no caminho da justiça,
ou nós o abandonamos e passamos a percorrer o caminho oposto, seguindo a
maioria. O importante é nos dar conta de que o nosso Deus é o Deus do hoje, o
Deus do tempo presente. Em cada hoje Ele nos visita e nos pergunta como estamos
conduzindo nossa vida e se é necessário mudarmos de comportamento em vista da
nossa salvação.
O
apóstolo Paulo nos convida a não nos deixarmos deformar e desumanizar pelo
individualismo do nosso tempo: “aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei
em harmonia, procurando a unidade” (Fl 2,2). Já o Papa Francisco nos lembrava
de que “ou nos salvamos todos, ou não se salva ninguém” (FT, 137). A salvação
não é uma questão de mérito individual, mas passa pela comunhão de uns com os
outros. “Aprouve a Deus salvar e santificar os homens não individualmente,
excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O
conhecesse na verdade e O servisse na santidade”, nos ensina o Catecismo da
Igreja Católica, no parágrafo 781.
Aqui
entra novamente a pergunta: “Eu preciso mudar?”. Paulo afirma que entre nós,
cristãos, a conduta certa não é a competição entre nós, mas a colaboração
mútua; não é cada um fechado em si mesmo, buscando individualmente a sua
salvação, mas o cuidado com a salvação uns dos outros, tendo entre nós “o mesmo
sentimento que existe em Cristo Jesus” (Fl 2,5). Qual foi o sentimento que
moveu Jesus na sua vida terrena? O desejo de comunhão, não de isolamento; a
alegria em recuperar aquele que se perdeu, e não a indiferença para com ele.
Por
fim, o Evangelho nos fala de dois filhos que mudaram de opinião diante do mesmo
convite de receberam do pai: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha!” (Mt 21,28).
Um disse que não iria, mas depois se arrependeu e foi. O outro disse que iria,
mas depois mudou de opinião e não foi. E a pergunta que Jesus dirigiu aos
líderes religiosos da sua época hoje é dirigida a nós: “Qual dos dois fez a
vontade do pai?” (Mt 21,31). O pai, na parábola, é sem dúvida Deus. Fazer a
vontade de Deus é mudar todo tipo de conduta nossa que seja frontalmente
contrária ao Evangelho.
Notemos
que o convite é feito em cada hoje da nossa história de vida: “Filho, vai
trabalhar hoje na vinha!” (Mt 21,28). Na mesma linha do profeta
Ezequiel, Jesus nos ensina que é das nossas escolhas e decisões hoje que
a nossa vida se insere num destino de salvação ou de condenação. Ainda que
muitos de nós nos julguemos estar no caminho da salvação, como pensavam os
líderes religiosos da época de Jesus, podemos estar muito enganados, porque o
sim que damos a Deus com a boca é negado com as nossas atitudes no dia a dia.
Ao
encerrar o Sermão da Montanha, Jesus já havia alertado para o fato de que professar
a fé com a boca, mas negá-la com as atitudes não salva ninguém: “Nem todo
aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele
que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Praticar, fazer,
mudar de atitude e comportar-se segundo a vontade de Deus: é isso que salva. Então,
a pergunta continua necessária: “Eu preciso mudar?”.
Aos
líderes religiosos, que não julgavam necessário mudar nada no seu
comportamento, Jesus declarou: “os cobradores de impostos e as prostitutas vos
precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31). Por qual motivo? Porque eles mudaram de
comportamento, ao ouvirem o chamado de João Batista à conversão. Os líderes
religiosos, por sua vez, ouvindo o mesmo chamado, não se julgaram necessitados
de conversão. Lembremos, então, mais uma vez: quem não se reconhece doente, não
pode ser curado; quem não reconhece que precisa mudar de comportamento, não
pode ser perdoado, liberto e salvo por Deus.
Tenhamos
a coragem de iniciar toda e qualquer mudança que seja necessária em nossa vida,
em vista de salvar aquilo que mais amamos e de nos salvar também. Confiemos ao
Espírito Santo aquilo que necessitamos mudar em nós mesmos, sabendo que o
processo da mudança deve ser constante, retomado a cada dia, dando passos
pequenos, mas firmes, confiando que a graça do Pai nos sustentará até a sua
conclusão.
Pe.
Paulo Cezar Mazzi
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