Homilia 27º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 5,1-7; Filipenses 4,6-9; Mateus 21,33-43.
“A
vinha do Senhor é a casa de Israel” (refrão do salmo). A vinha, a plantação do
Senhor, é o meu corpo e a minha mente. Qual o meu cuidado com eles? A vinha, a plantação
do Senhor, é a minha família e o meu local de trabalho. O que eu cultivo ali? A
vinha, a plantação do Senhor, é o Brasil. Quais políticos eu escolho para
cuidar do meu País? A vinha, a plantação
do Senhor, abrange as florestas, os rios, os minérios, as terras raras. Eu
escolho políticos que favorecem a destruição de tudo isso em troca de dinheiro?
Deus nos convida a passear pela vinha da nossa
vida, pela vinha que cada um de nós é. Ele nos criou fecundos e capazes de produzir
bons frutos. Mas... “Esperava que ela produzisse uvas boas, mas produziu uvas
selvagens. Eu esperava deles frutos de justiça — e eis injustiça; esperava
obras de bondade — e eis maldade” (Is 5,2.7). Por que nós deixamos de ser amorosos,
solidários e mansos de coração? Quando foi que passamos a nos tornar selvagens,
embrutecidos, sem amor? “Vou desmanchar a cerca, e ela será devastada; vou
derrubar o muro, e ela será pisoteada” (Is 5,5). Quem não se permite ser cultivado
e podado (educado, corrigido) por Deus, acaba por permitir que pessoas e
situações devastem e pisoteiem a vinha que é.
Vinhas
devastadas e pisoteadas: corpos intoxicados e adoecidos pelo álcool, cigarro,
drogas; mentes atrofiadas pelo vício das redes sociais e pela dependência
sempre maior da IA; crianças e adolescentes devastados e pisoteados pela
violência dentro de casa, pelo abuso sexual, pela alimentação industrializada,
por um ambiente tóxico e sem amor. Adultos, pisoteados e devastados por dar permissão
ao mal para entrar no jardim onde antes só o Espírito Santo podia pôr os pés. Mas,
agora, o jardim que são está sendo devastado pelo “javali da mata virgem” e
pelos “animais do descampado” (cf. Sl 80,13). Assim como a Internet é uma “terra
de ninguém”, assim o jardim de muitos se tornou uma “terra de ninguém”.
Diante
dessa triste realidade, a primeira atitude a ser tomada é paramos de nos
sabotar, pararmos de nos destruir com as nossas próprias mãos, com as escolhas
erradas que fazemos. A segunda atitude é suplicar ao Senhor, como fez o
salmista: “Voltai-vos para nós, Deus do Universo! Visitai a vossa vinha e
protegei-a! Convertei-nos, ó Senhor Deus do universo, e sobre nós iluminai
a vossa face! Se voltardes para nós, seremos salvos!” (Sl 80,15.20). Cabe a
cada um de nós permitir que a mão do Divino Jardineiro volte a cuidar da vinha
que somos.
Deus nunca deixou o ser humano abandonado
a si mesmo, mas sempre lhe enviou profetas que anunciaram a sua Palavra,
chamando as pessoas à conversão. Contudo, a resposta de muitos foi agarrar, espancar,
apedrejar e matar esses profetas (cf. Mt 21,35). Assim fizeram as lideranças religiosas
de Israel. E nós, hoje? Estamos acolhendo a voz de Deus em nossa consciência,
para pararmos de nos destruir com nossas próprias mãos? Depois de ter enviado
inúmeros profetas, Deus Pai decidiu enviar seu Filho Jesus Cristo, pensando: “Ao
meu filho eles vão respeitar” (Mt 21,37). Contudo, como sabemos, os líderes
religiosos “agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram” (Mt
21,39).
Jesus foi crucificado fora dos muros
da cidade de Jerusalém. A cidade que mata os profetas (cf. Lc 13,34) precisa
manter sua imagem “limpa”, e por isso os mata do lado de fora dos seus muros. Assim
agem muitos políticos, empresários, juízes e pessoas que têm muito dinheiro na sociedade
atual. Sobre elas e sobre todos os cristãos que defendem um sistema econômico
que devasta a vida de inúmeros seres humanos mundo afora, pesa a profecia de
Jesus: “o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá
frutos” (Mt 21,43). Em outras palavras, o que nós não cuidamos, nós perdemos.
Que
a nossa súplica continue a ecoar ao longo desse dia e dessa semana: “Voltai-vos
para nós, Deus do Universo! Visitai a vossa vinha e protegei-a! Convertei-nos,
ó Senhor Deus do universo, e sobre nós iluminai a vossa face! Se voltardes
para nós, seremos salvos!” (Sl 80,15.20).
Pe. Paulo Cezar Mazzi