quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A VIDA ESTÁ NO PERDÃO; A MORTE, NO RANCOR.

Homilia do 24º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 27,33 – 28,9; Romanos 14,7-9; Mateus 18,21-35.

 

            Havia uma ponte que nos ligava a uma determinada pessoa. Mas um dia, essa pessoa nos machucou e nós ficamos tão feridos que a nossa raiva nos levou a atear fogo à ponte. Uma vez destruída, a ponte deu lugar a um grande abismo, que agora nos mantém distantes e separados da pessoa que nos machucou. E a pergunta que fica é esta: Éramos mais felizes quando a ponte existia, ou somos mais felizes agora que o abismo da separação tomou o lugar da ponte?

            A decisão em perdoar é a decisão em reconstruir a ponte entre nós e a pessoa que nos feriu. “Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu: ‘Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete’” (Mt 18,21-22). 70 x 7 é o mesmo que dizer: “É preciso perdoar sempre!”. Diante dessa resposta de Jesus entram as nossas inúmeras desculpas, justificativas e versões que tentam nos manter o máximo possível afastados da tarefa de reconstruir a ponte do perdão.  

            Em alguns casos, essa ponte não deve ser reconstruída, quando se trata de pessoas que não se arrependem do mal que nos fizeram e que continuarão a nos ferir se nos aproximarmos delas. Ainda assim, o perdão é necessário, para que não continuemos a carregar essas pessoas presas dentro de nós, por meio da raiva ou do ressentimento. Perdoar não é dizer que o que aconteceu foi justo. Não é negar a dor. É simplesmente escolher não viver mais a partir dessa ferida. Perdoar não beneficia apenas o ‘ofensor’, mas principalmente o ‘ofendido’, que se liberta das correntes do rancor.

O autor do Eclesiástico deixa claro que o perdão é um remédio poderoso que, derramado sobre a ferida, nos possibilita a cura da mesma: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?” (Eclo 28,3). Neste sentido, a ciência já demonstrou que o perdão reduz sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Por outro lado, a atitude de guardar rancor nos adoece, provocando insônia, dores no corpo, taquicardia, crises de angústia etc. A atitude de decidir perdoar diminui em nós o estresse e a ansiedade. Pessoas que perdoam tendem a experimentar menos sintomas depressivos e um aumento na satisfação com a vida.

Quando insistimos em não perdoar, estancamos o rio da nossa vida interior. A água que poderia levar embora o que aconteceu fica parada, e água parada apodrece. Já sabemos que “mágoa” significa “má água”. Cada vez que remoemos o que nos aconteceu bebemos água envenenada. Jesus nos convida a deixar a água da nossa vida interior voltar a correr, a fluir, e a levar embora as ofensas que recebemos. Em outras palavras, perdoar não é apagar o passado, mas sim mudar a forma como o presente é vivenciado em relação a esse passado.

Ao decidir perdoar, não negamos o que aconteceu, mas escolhemos olhar para os fatos com menos sofrimento e dor, libertando-nos das amarras emocionais que nos prendem. Na parábola contada por Jesus, o homem que decidiu não perdoar foi jogado numa prisão e passou a ser torturado frequentemente dentro dela. Conosco acontece a mesma coisa: ao não querer perdoar, trancamos a pessoa que nos feriu dentro de nós, e somos torturados todos os dias por meio da mágoa, da raiva, do ressentimento ou do ódio. Neste sentido, o autor do Eclesiástico nos adverte: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar” (Eclo 28,6). Estamos cada vez mais conscientes do quando a vida passa rápido e é curta, e vamos escolher estragá-la com a raiva ou a mágoa?   

O perdão é um processo. Ele é construído aos poucos, exatamente como uma ponte. O importante é nos mantermos firmes na decisão de perdoar, dizendo a Deus: “Senhor, eu quero perdoar. Mesmo que doa, mesmo que eu ainda não saiba como”, e dizendo a nós mesmos: “Eu escolho não carregar esse peso. Eu escolho a paz. Eu escolho seguir em frente”.

Passos para o perdão (reconstrução da ponte): 1. Reconhecer a dor (admitir a raiva, a mágoa, o ressentimento que está dentro de mim). 2. Refletir: a minha reação foi proporcional à ofensa sofrida? O que provocou a discussão? A pessoa que me feriu também estava ferida? 3. Decidir perdoar, isto é, decidir viver não mais preso à dor do passado. 4. Diálogo sincero e honesto com a pessoa que me feriu.

O perdão que recebemos de Deus gera vida em nós: “Ele te perdoa toda culpa, e cura toda a tua enfermidade; da sepultura ele salva a tua vida e te cerca de carinho e compaixão” (Sl 103,3-4). Ora, o perdão de Deus está condicionado ao perdão que somos chamados a dar aos irmãos: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt 18,35). Não sejamos coveiros de nós mesmos. Não enterremos pessoas vivas dentro de nós. Sejamos construtores de pontes sobre o abismo da separação, da inimizade, do ódio. “Aquele que decide não perdoar os outros está destruindo a ponte sobre a qual ele mesmo terá de passar” (Edward Herbert, historiador britânico).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

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