quinta-feira, 3 de setembro de 2026

SEM CORREÇÃO NÃO HÁ JUSTIÇA, E A IMPUNIDADE PREVALECE

 Homilia 23º dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 33,7-9; Romanos 13,8-10; Mateus 18,15-20.

 

            Estamos no primeiro domingo do mês da Bíblia, e os textos bíblicos de hoje nos falam de uma importante função da Palavra de Deus em nossa vida: a correção. “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir (grifo nosso), para educar na justiça...” (2Tm 3,16).

            Na primeira leitura, Deus torna o profeta Ezequiel consciente do porquê ele se encontra na Babilônia junto com os exilados: para corrigi-los. Se ele não os corrigir, eles morrerão por causa dos seus próprios erros, mas Deus pedirá a Ezequiel contas da vida dos exilados. Aqui fica claro que todo cuidador tem a difícil missão de corrigir. Um dos livros mais importantes escrito no Brasil é “Quem ama educa” (Içami Tiba). A correção faz parte do educar, e educar faz parte do amar. Todo líder (mãe, pai, responsável, educador, chefe de setor) precisa ter liberdade interior para corrigir quem está sob os seus cuidados.

            Por que muitos líderes não conseguem corrigir? Por medo de perder o afeto daqueles que precisam ser corrigidos. Toda correção causa dor, e se a pessoa corrigida não tem maturidade para aceitar a correção, ela imediatamente retira o afeto que tinha, ou aparentava ter, pelo seu líder ou cuidador. Sendo assim, se a pessoa que precisa fazer a correção tem uma dependência afetiva acentuada, não conseguirá fazer a correção, por não aceitar perder o afeto do outro. Isso torna o líder ou cuidador fraco, e impede a pessoa que precisa ser corrigida de crescer, de melhorar como ser humano.

            Jesus fala da importância da correção na vida comunitária (Igreja): “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão” (Mt 18,15). “Ganhar o irmão” – eis o objetivo da correção. Salvar o irmão do comportamento errado que está machucando a comunidade e levando-o para um caminho de autodestruição. Aquele que corrige não se alegra por ter feito prevalecer a sua verdade sobre o outro, mas por tê-lo salvo do erro, da mentira, do engano.

            Conforme Jesus ensina, a primeira tentativa de correção deve ser feita em particular: eu e a pessoa que está errando. No entanto, talvez ela não admita que precisa mudar de atitude. Então, eu devo chamar uma ou duas pessoas que me ajudem a convencer a pessoa da sua necessidade de mudança. Contudo, talvez essa segunda tentativa não funcione. Então, faço uma última tentativa: peço que o líder espiritual da comunidade fale com essa pessoa. Se mesmo assim ela se recusar a se corrigir, o líder deverá separá-la da comunidade, pois o erro dela não pode continuar a causas estragos na vida comunitária.

            Todo esse caminho de correção do irmão tem por objetivo deixar claro que erros existem para serem corrigidos, e não tolerados. Por exemplo, quando o bispo, por ser dependente afetivo, não tem pulso firme com padres que, por onde passam, não somente machucam, mas danificam financeira, pastoral e/ou espiritualmente a paróquia, está não somente favorecendo a impunidade, como também se desmoralizando como autoridade eclesial. Neste aspecto, o Evangelho de hoje é muito claro: depois de muitas tentativas e até de transferências de paróquia, se o padre não muda seu comportamento, deve ser interditado, para não continuar a fazer estragos na vida da Igreja.   

            Trazendo agora a correção para dentro de mim: Eu aceito ser corrigido? Será que sou tão perfeccionista que não admito enxergar falhas em minha postura? A minha ira, diante da correção recebida, é proporcional ou desproporcional? Eu admito a minha humanidade e, com isso, a minha imperfeição? Há em mim abertura e vontade de mudança?  

            Por fim, uma pergunta: Nós aceitamos que Deus nos corrija? “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, não desanimes quando ele te repreende; pois o Senhor educa a quem ama... Toda correção, no momento, não parece motivo de alegria, mas de tristeza. Depois, no entanto, produz naqueles que foram corrigidos um fruto de paz e de justiça” (Hb 12,5-6.11). Nós temos maturidade para nos deixar corrigir pelo Pai? Como lidamos com o natural sentimento de humilhação, quando Deus nos corrige? Correção é como remédio amargo: muito ruim de tomar, mas necessário para curar uma doença grave. Deus nem sempre “pega leve” quando nos corrige, porque seu objetivo não é afagar o nosso ego, mas nos tornar pessoas justas e equilibradas.

           

Alguns pontos para reflexão:

 

1. O erro de um irmão – principalmente se é um líder – não pode prejudicar toda a comunidade. Ou ele se corrige, ou será separado dela.

2. O individualismo nos impede de nos sentirmos responsáveis uns pelos outros.

3. Corrigir não é criticar. Corrigir é encorajar a pessoa a melhorar.

4. A mesma boca que corrige também precisa ser a boca que elogia diante do acerto.

5. Quem se deixa corrigir permanece filho do Pai; quem recusa ser corrigido torna-se bastardo (cf. Hb 12,8).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

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