quinta-feira, 26 de setembro de 2024

TRÊS GRANDES PAULADAS EM NOSSA CONSCIÊNCIA

 Missa 26º dom. comum. Palavra de Deus: Números 11,25-29; Tiago 5,1-6; Marcos 9,38-43.45.47-48

 

            Chegamos ao último domingo do mês da Bíblia. Às vezes, a Palavra de Deus, na liturgia do domingo, nos oferece um único fio condutor para a nossa reflexão, como aconteceu domingo passado: a questão da necessidade de reconhecimento e de aceitação. Hoje, não temos um único fio condutor, mas ao menos três: a questão da inveja no campo religioso, a questão do escândalo que leva as pessoas a perderem a fé e a questão das injustiças sofridas pelos pobres por causa das desigualdades sociais.

 

A inveja no campo religioso.

 

Tanto Josué (1ª leitura) quanto João (Evangelho) tiveram dificuldade em compreender que Deus é livre e age onde quer, independente de qualquer instituição religiosa. O Espírito de Deus é livre como o vento (cf. Jo 3,8) e não pode ser aprisionado por nenhuma instituição religiosa. “Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Os caminhos que Ele usa para isso nunca podem ser determinados por qualquer igreja ou religião.

A inveja nasce do sentimento de inferioridade: eu me sinto menos do que o outro; por isso, qualquer coisa que ele aparente ser ou ter a mais do que eu mexe com a minha inferioridade e me faz invejar o que ele tem ou é. A cura da inveja passa pelo reconhecimento do meu valor como pessoa: eu não sou e não devo ser como o outro, pois isso cancelaria a minha originalidade e a minha unicidade. Somos todos “notas musicais”: nenhuma nota sozinha é capaz de fazer uma canção. É a originalidade de cada nota, em comunhão (harmonia) com as demais, que possibilita o nascimento da música.

Dois grandes erros precisam ser evitados, quando se trata da pluralidade religiosa do mundo atual: o relativismo – a ideia de que tudo é de Deus e tudo leva para o mesmo objetivo – e a pretensão da exclusividade – “Só a minha igreja/religião salva”.  

 

A questão do escândalo que leva à perda da fé.

 

Onde existe o ser humano, existe a possibilidade do escândalo, do erro, da falha, do pecado. Jesus não se escandaliza com o pecado de ninguém, pois ele foi humano como nós e é capaz de se compadecer das nossas fraquezas (cf. Hb 4,15). No entanto, deixa claro que quando uma atitude nossa – consciente e intencional – leva uma pessoa a perder a fé em Deus, isso terá como consequência a nossa condenação eterna. Quem “joga” uma pessoa nos braços do Maligno com o seu erro terá o Maligno por “recompensa”.

            Jesus quer nos tornar conscientes de que todos nós temos o nosso “calcanhar de Aquiles”, o nosso ponto fraco, e quem acha que nunca se tornará causa de escândalo para alguém não se conhece verdadeiramente. A única forma de se evitar causar escândalo é frustrar o próprio desejo. As expressões “cortar a mão”, “cortar o pé” e “arrancar o olho” significam dar um corte em nós mesmos – especificamente, na área do desejo. Aqui precisamos recordar mais uma vez: sentir não significa consentir. O pecado não entra no sentir, mas no consentir. Não escolhemos sentir desejo, mas temos liberdade e responsabilidade quanto ao consentir que ele nos leve a pecar e, consequentemente, a nos tornar causa de escândalo para os outros. Por que causa de escândalo? Porque o próprio Jesus garantiu: “Não há nada encoberto que não venha a ser descoberto, nem de oculto que não venha a ser revelado” (Mt 10,26).

            Se o mundo atual reduziu o sentido da vida a sentir prazer, devemos estar cientes de que frustrar o próprio desejo é uma tarefa difícil, sofrida e que pouquíssimas pessoas se disporão a enfrentar. No entanto, é a capacidade de lidar com frustração que diferencia um adulto de uma criança. Só quem é verdadeiramente uma pessoa madura, adulta, consegue dizer “não” a si mesma. Quanto mais somos pessoas infantilizadas, adultas quanto a algumas questões, mas adolescentes quanto a outras, menos capacidade – e, sobretudo, vontade – temos de frustrar determinados desejos que darão origem a escândalos, que por sua vez farão pessoas desacreditarem de nós mesmos, de Deus e da nossa Igreja.     

 

Gerar ou alimentar desigualdade social é condenar-se perante Deus.

 

São Tiago nos alerta que todo salário mal pago grita aos ouvidos de Deus! Empresários cristãos precisam se libertar da ganância desmedida do enriquecimento individual e tornar suas empresas promotoras de justiça social. A desigualdade de salários nas empresas em geral é, via de regra, absurda e gritante. Os que mais trabalham, os que mais estão expostos a riscos para a sua saúde, são os que têm os salários mais baixos. Se o enriquecimento de uma Empresa é fruto de salários miseráveis pagos aos seus funcionários, esse enriquecimento está condenado perante Deus: “Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida, cevando os vossos corações para o dia da matança. Condenastes o justo e o assassinastes; ele não resiste a vós” (Tg 5,5-6). Todo empresário que paga salários de fome aos seus funcionários enquanto ele mesmo vive uma vida de luxo é um assassino aos olhos de Deus.

 

Enfim, por uma questão de verdade e de justiça, lembremos que o outro lado da moeda se chama “Justiça do Trabalho”, onde muitos trabalhadores desonestos, orientados por advogados igualmente desonestos, vão reivindicar valores financeiros injustos e absurdos, “quebrando” empresários. Todas as pessoas que participam desse jogo sujo, que assassina a verdade e a justiça em nome do dinheiro, terão que prestar contas das suas atitudes perante o Justo Juiz, cuja justiça não tem como ser comprada.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

VOCÊ CONSEGUE AMAR A SUA INSIGNIFICÂNCIA?

 Missa do 25º dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 2,12.17-20; Tiago 3,16 – 4,3; Marcos 9,30-37.

            Todo ser humano tem necessidade de ser reconhecido. Quando somos ignorados ou tratados com indiferença, sofremos. O problema é: que preço estamos dispostos a pagar para sermos reconhecidos e aceitos pelas pessoas? Se considerarmos que vivemos numa sociedade de valores invertidos, o nosso reconhecimento e a nossa aceitação dependem de sermos como a maioria é, e isso compromete a nossa fidelidade a Deus. Sendo assim, precisamos escolher qual preço pagar: o preço de sermos desprezados pelas pessoas, mas valorizados por Deus, ou o preço de ganharmos a aceitação das pessoas, com a condição de nos afastarmos de Deus e da verdade da sua Palavra.

            O livro da Sabedoria nos revela o alto preço que a pessoa de Deus paga por não ser igual à maioria: “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir” (Sb 2,12). Quem deseja viver segundo o Evangelho vai incomodar os que não aceitam a verdade do mesmo, e o preço desse incômodo não é apenas o ser excluído ou ser tratado com indiferença, mas o ser perseguido e atacado, na tentativa de convencer a pessoa a desistir de se configurar a Jesus e se tornar como a maioria é: “Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência” (Sb 2,19). Essas ofensas e torturas são muito comuns nos ambientes de trabalho; quando não, acontecem na própria família ou entre os “amigos”.

Se essa é a condição de quem deseja se configurar a Jesus Cristo, a questão é saber o quanto o cristão consegue suportar ser desprezado pelos homens e se manter fiel às promessas de Deus; o quanto ele consegue manter-se firme na sua fé, como o salmista: “Quem me protege e me ampara é meu Deus; é o Senhor quem sustenta minha vida!” (Sl 54,6).

A inversão de valores, própria de um mundo cada vez mais pagão como o nosso, encontra espaço até mesmo dentro das igrejas. A carta de São Tiago hoje nos revela que as igrejas estão tão doentes quanto o nosso mundo: “Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más” (Tg 3,16). Inveja e rivalidade são sentimentos e atitudes próprias de ambientes onde as pessoas brigam por reconhecimento. Desse modo, o serviço que a pessoa abraçou em favor da comunidade se corrompe em “cargo”, em “lugar de poder”. Essa deformação do Evangelho não está presente somente no Clero (carreirismo), nem é “privilégio” da nossa Igreja, mas está presente em todas as igrejas; mais ainda, pode estar presente em qualquer grupo humano. Portanto, também em nossas pastorais e movimentos, há muitos fiéis contaminados com o vírus da inveja e da rivalidade.  

            Convidando as igrejas a um sério exame de consciência, São Tiago pergunta: “De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós?” (Tg 4,1). É vergonhoso constatar que nas nossas comunidades ocorrem eventualmente “guerras” e “brigas”, tudo por causa de algo mal resolvido dentro da pessoa: a necessidade de ser reconhecida, de ocupar um “cargo” de destaque; a perversão do “servir” em “ter poder” sobre os outros, exatamente como os discípulos de Jesus, que discutiam entre si sobre qual deles era o maior (cf. Mc 9,34).

            A denúncia profética de São Tiago revela o quão doente pode ser tornar uma comunidade de cristãos: “Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir” (Tg 4,2). Quando as igrejas se tornam tão doentes quanto o mundo, como podem as mesmas ser instrumentos de salvação para a humanidade? Todas essas atitudes mundanas – cobiça, matar o outro com palavras ou através do ódio e da inimizade, brigas e guerras para derrubar quem está no “poder” –, só conseguem um resultado: o descrédito da própria igreja; pior ainda, o descrédito do Evangelho e do próprio Jesus Cristo.

            A inversão de valores e o comportamento pagão são tão nocivos que podem corromper até mesmo a oração dos cristãos: “Pedis, (...), mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres” (Tg 4,3). Aqui vale um sério exame de consciência: o que eu peço na minha oração visa unicamente o meu bem-estar pessoal ou o bem dos meus irmãos, da minha igreja? Meus pedidos estão reduzidos às minhas necessidades (ou seriam “ambições”?) materiais, ou eu peço bênçãos espirituais para a salvação de todo ser humano?

            Ao ter consciência de que seus discípulos estavam discutindo sobre quem deles seria o maior, o mais importante, Jesus lançou-lhes um desafio: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9,35). Aqui Jesus vira do avesso a nossa necessidade de reconhecimento! Suas palavras são um convite a sairmos da prisão dessa necessidade doentia de sermos reconhecidos como importantes! Ser o “último” e o “servo” de todos significa não alimentar o nosso ego, que sempre deseja estar no centro das atenções.

Mais do que falar com os discípulos, Jesus tem uma atitude pedagógica: toma uma criança, coloca-a no meio deles e a abraça, dizendo que naquela criança está Ele e também o Pai que o enviou. A criança, na cultura judaica, era a pessoa mais desprezível e insignificante da família e da sociedade. Portanto, Jesus está nos desafiando a colocar no centro de nós mesmos não o nosso ego e a sua necessidade doentia de se sentir importante, mas a nossa própria insignificância. Ao abraçar aquela criança Jesus está nos convidando a abraçar e a amar o nosso ser insignificante perante um mundo de valores invertidos. Enfim, quem quiser se encontrar com o Filho e com o Pai, nunca os encontrará na grandiosidade, mas na pequenez; nunca naquilo que o mundo e as próprias igrejas consideram importantes, mas naquilo que ambos desprezam e consideram insignificantes. Esse é o papel do Evangelho: virar do avesso os contra valores que nos adoecem e ferem nosso convívio com as pessoas.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

ALIMENTAR REPULSA DIANTE DA DOR OU OUVIR O QUE ELA TEM A DIZER?

 Missa do 24º. Dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 50,5-9a; Tiago 2,14-18; Marcos 8,27-35.

Entre duas possibilidades – ganhar ou perder, ser feliz ou sofrer, ser forte como um leão ou frágil como um cordeiro – dificilmente alguém escolheria a segunda opção. A coisa mais natural do ser humano é fugir da dor, desviar-se de dificuldades e desejar uma vida longe de problemas. No entanto, para cada um de nós, a vida se apresenta como ela é, e não como nós gostaríamos que ela fosse. Viver é lidar com dor, e a melhor forma de entender isso é estar consciente de que “se não está em suas mãos mudar uma situação que te causa dor, sempre poderá escolher a atitude com que encara esse sofrimento” (Victor Frankl).  

Jesus foi uma pessoa feliz e, no entanto, a sua vida nunca foi vivida a partir de uma estratégia calculada para se manter o mais distante possível da dor. Muito pelo contrário; ele sempre foi de encontro à dor de quem sofria – “homem sujeito à dor, familiarizado com o sofrimento” (Is 53,3) – e não se desviou da dor que lhe coube enfrentar. Isso fica claro na expressão “eu devo”. Diferente de nós, que na busca do próprio bem-estar nos movemos quase sempre na direção do “eu quero”, Jesus entendeu que o sentido da sua vida estava na fidelidade à missão para a qual Ele veio ao mundo. Por isso, sempre que foi necessário, Ele submeteu o “eu quero” ao “eu devo”.

Sempre que a dor entra em nossa vida, é para nos ensinar algo. O Servo do Senhor entendeu isso, ao afirmar: “O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás” (Is 50,5). Quanto mais nós resistimos em aprender, mais a dor se intensifica em nós, e o nosso grande desafio é não voltar atrás, isto é, não abandonar a missão que somos simplesmente porque a fidelidade a essa missão está doendo neste momento. Assim como o Servo do Senhor, precisamos fortalecer a nossa confiança no fato de que “o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo” (Is 50,7). Assim como o salmista, devemos nos manter firmes na oração, repetindo quantas vezes for preciso: “Prendiam-me as cordas da morte, apertavam-me os laços do abismo; invadiam-me angústia e tristeza: eu então invoquei o Senhor ‘Salvai, ó Senhor, minha vida!’... Libertou minha vida da morte, enxugou de meus olhos o pranto e livrou os meus pés do tropeço” (Sl 115,3-4.8).

Sempre que a dor entra em nossa vida, traz consigo uma pergunta: “Quem é Jesus, para você?”: ele é o Leão no qual você se espelha para ser uma pessoa forte e vencedora, ou o Cordeiro que te convida a abraçar o seu “eu devo”? Quando Jesus tornou os discípulos conscientes do seu “eu devo”, Pedro o tomou “à parte e começou a repreendê-lo” (Mc 8,32). Nós também repreendemos Deus, quando Ele permite a dor em nossa vida. Quem Ele pensa que é, para nos tirar aquilo que nos deu? Por que Ele não elimina o mal do mundo uma vez por todas? Como pode um Deus que é amor deixar a humanidade exposta a tanta dor, como atualmente? Por que Ele escolheu deixar o seu Filho único morrer numa cruz, ao invés de destruir todo tipo de cruz que faz a humanidade sofrer?   

Diante da atitude de Pedro, que estava dizendo indiretamente aos outros discípulos que é preciso desviar-se da dor da cruz o quanto for possível, Jesus foi firme com ele: “Vá para trás de mim, Satanás!” – o lugar do discípulo não é na frente do Mestre, dizendo como Ele deve proceder, mas atrás, aprendendo com Ele como lidar com a dor da cruz. Desviar-se do seu “eu devo” em nome de uma felicidade egoísta, de um prazer momentâneo, de um bem-estar ilusório, é cair nas mentiras de Satanás, o qual nos promete uma vida sem dor. Toda propaganda de uma vida sempre feliz, sem nenhuma dor, é satânica, diabólica, mentirosa.

Jesus nos deixa perplexos, ao dizer para Pedro: “Tu não pensas como Deus, e sim como os homens” (Mc 8,33). Para Deus, a vida comporta luz e sombra, alegria e tristeza, ganho e perda, vitória e fracasso; para nós, homens, a vida só vale a pena quando o polo negativo é eliminado e só desfrutamos do positivo. Para Deus, mais importante do que ter um “como” viver – o máximo de facilidade e o mínimo de dificuldade – é ter uma “razão” para viver. Em outras palavras, o sentido da vida não está em não sofrer, mas em manter-se fiel à tarefa que a vida está lhe pedindo para abraçar neste momento, ainda que isso comporte dor para você. Parafraseando Nietzsche, quem tem uma razão para viver, quem tem uma missão a cumprir, quem tem um sentido para viver, suporta qualquer dor que essa missão comporte. Foi assim que Jesus enfrentou a cruz. É assim que Ele convida você a enfrentar a sua.  

            

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

FECHAR-SE É ADOECER; ABRIR-SE É CURAR-SE!

 Missa do 23º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 35,4-7a; Tiago 2,1-5; Marcos 7,31-37.

 

É muito conhecida a figura dos três macaquinhos: um tapando os olhos; outro, os ouvidos, e o outro, a boca. Ela representa um provérbio budista: “Não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal”. Se esse ensinamento tem validade para não sermos propagadores do mal na sociedade humana, a imagem dos três macaquinhos pode hoje representar também o mal do individualismo, do fechamento sobre si mesmo e da indiferença para com o próximo: “Não veja o próximo, não ouça o próximo, não fale com o próximo”, uma atitude que nos adoece e nos desumaniza.

A cura deste homem surdo, que falava com dificuldade, nos recorda que há uma relação direta entre ouvir e falar: só aprende a falar quem consegue ouvir. Exatamente porque estamos no mês da Bíblia, é oportuno recordar que o discípulo é aquele que primeiro escuta a Palavra de Deus, para depois se tornar capaz de levar uma palavra de conforto à pessoa abatida: “O Senhor Deus me deu língua de discípulo para que soubesse levar ao cansado uma palavra de conforto. Toda manhã ele me desperta, sim, desperta o meu ouvido para que eu ouça como os discípulos” (Is 50,4).

Já foi dito que, no mundo atual, ninguém escuta ninguém. Consequentemente, cada vez mais ninguém fala com ninguém. O maior estrago acontece nas famílias: seja devido aos horários de trabalho e de estudo, seja devido à correria da vida, não existe tempo dedicado à escuta: pais não escutam seus filhos e estes não escutam seus pais, mesmo porque cada um, no momento em que poderiam dialogar, “vai” para o seu celular, substituindo o escutar e o falar com aquele que está no mesmo ambiente por escutar e falar com quem está fora do ambiente.

A primeira cura de que necessitamos é aquela que se refere à escuta: escutar nossa própria consciência, onde Deus nos fala; escutar os sentimentos que habitam em nosso coração; escutar o nosso corpo, que quando não é ouvido por bem, se faz ouvir por mal (doença); escutar as pessoas com as quais convivemos, cujas atitudes comunicam muito mais do que as palavras; enfim, escutar a vida que nos fala por meio dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, precisamos tapar os ouvidos para tantas coisas que nos adoecem, nos fazem mal e nos afastam da nossa própria verdade.  

A segunda cura de que necessitamos é aquela que se refere ao falar. Se é verdade que as palavras podem ferir, também é verdade que podem curar. Às vezes o silêncio é uma forma de agredir o outro. Alguém disse: “Conversem! Conversem sempre! Sobre tudo! Porque o silêncio são pedras, e pedras se tornam muros, e muros dividem”. É preciso comunicar o que se sente, e não esperar que o outro adivinhe o que estamos sentindo. “A cura vem pela fala” (Freud). Importante lembrar também que o falar não é feito somente através de palavras, mas de gestos, atitudes, toques: abraçar, beijar, tocar, acariciar...

            Para curar o homem surdo, que falava com dificuldade, “Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão” (Mc 7,33). Embora o motivo principal seja o fato de que Jesus não queria transformar aquela cura num “espetáculo” para chamar a atenção sobre si mesmo, há aqui uma indicação importante para nós: a cura da minha surdez começa quando eu me afasto do barulho externo da multidão de vozes que fala comigo, impedindo-me de ouvir o meu próprio interior. A multidão de mensagens, de imagens e de vídeos das redes sociais, além de nos intoxicar, nos torna surdos para a voz da sanidade que precisa ser ouvida dentro de nós e nos ajudar a nos concentrar naquilo que de fato é essencial para a nossa vida.   

            Após afastar-se da multidão com o homem, Jesus “colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele” (Mc 7,33). Jesus tocou nos ouvidos e na língua do homem que não ouvia e praticamente não falava. A vida de um relacionamento começa a morrer, começa a atrofiar, quando não existe mais o toque. Nunca como hoje nossos dedos tocam tanto em telas, mas não nas pessoas com as quais convivemos. Nós nos esquecemos de que precisamos ser tocados para saber que existimos.

Eis a terceira atitude de Jesus: “Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abre-te!’ Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade” (Mc 7,34-35). O olhar de Jesus para o céu nos lembra que para Deus nada é impossível. Como afirmou o salmista hoje: o nosso Deus “faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos. O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz erguer-se o caído” (Sl 146,7-8). Através de seu Filho Jesus, o Pai veio sanar a criação, adoecida pelo pecado; Ele veio pronunciar sobre tudo o que está fechado em nós o seu “Abra-se!”.

“Efatá!”; “Abra-se!”. Não se feche na sua dor, na sua solidão, no seu isolamento. Abra-se àquilo que Deus está lhe dizendo, àquilo que a vida está lhe chamando a realizar! Abra-se para ouvir as pessoas à sua volta! Abra-se para falar não só o que você sente, mas também para levar palavras de conforto à pessoa cansada, abatida, deprimida: “Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo!’” (Is 35,4). Abra-se ao amanhã, ao futuro, à esperança, àquilo que Deus deseja realizar em você! Não se feche na sua dor, mas mantenha o seu horizonte aberto àquilo que a vida está lhe trazendo. Não se feche em si mesmo, mas abra-se a tantas pessoas que estão precisando dos seus ouvidos e das suas palavras!

  

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

NENHUMA INFLUÊNCIA EXTERNA ANULA A NOSSA LIBERDADE DE ESCOLHA

 Missa do 23º dom. comum. Palavra de Deus: Deuteronômio 4,1-2.6-8; Tiago 1,17-18.21b-22.27; Marcos 7,1-8.14-15.21-23.

 

            Setembro é o mês da Bíblia. A Bíblia nos lembra que Deus é Palavra. Sua palavra é a razão de ser da nossa existência: “Desde o seio materno o Senhor me chamou, desde o ventre de minha mãe pronunciou o meu nome” (Is 49,1). Por outro lado, nossa existência é chamada a pronunciar uma palavra única de Deus à humanidade. Se é verdade que vivemos numa época de profunda desorientação, na Palavra de Deus está a orientação segura para a nossa vida: “Ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir... Nada acrescenteis, nada tireis, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo” (Dt 4,1-2), disse Moisés aos israelitas, antes de entrarem na terra prometida.

            Quando não nos orientamos pela “Palavra da verdade” (Tg 1,18), acabamos por nos perder, em todos os sentidos: “”Meu povo não ouviu a minha voz, Israel não quis obedecer-me; então os entreguei ao seu coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos” (Sl 81,12-13). Para a mentalidade bíblica, ouvir a Palavra significa obedecê-la. Sem essa obediência, somos abandonados à desorientação do nosso próprio coração.

Segundo o apóstolo Tiago, a Palavra de Deus tem o poder de nos salvar, mas essa salvação depende da forma como acolhemos a Palavra: “Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas” (Tg 1,21). Receber com humildade a Palavra de Deus significa reconhecer que nós precisamos ser guiados por uma Palavra que nem sempre falará aquilo que gostaríamos de ouvir, mas sim aquilo que precisamos ouvir, em vista da nossa salvação. Muitas vezes, a Palavra de Deus vem na contramão da maneira como estamos conduzindo a nossa vida, como nos lembra Santo Agostinho: “A palavra de Deus é o inimigo da tua vontade, até tornar-se originador da tua salvação. Então, a palavra de Deus também estará em harmonia contigo”. Esse “alinhar” a nossa vida segundo a Palavra de Deus é entendido por São Tiago como o “praticar” a Palavra: “Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes” (Tg 1,22).   

Muito mais do que Moisés, Jesus é o grande intérprete da vontade do Pai, expressa na Sagrada Escritura. Nós o vemos no Evangelho de hoje em conflito com os fariseus e alguns mestres da Lei, que se consideravam guardiães da Palavra de Deus na sua época. Diante da acusação de que Jesus e seus discípulos não se preocupavam com a lei da pureza ritual – “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” (Mc 7,5) –, Jesus afirma que não tem sentido a Palavra de Deus estar nos lábios da pessoa, sem penetrar no seu coração e modificar as suas atitudes: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mc 7,6).

O farisaísmo sempre foi e sempre será uma tentação para os cristãos. Justamente por querer devolver a Igreja ao Evangelho, o Papa Francisco tem sofrido forte rejeição e constantes ataques de grupos católicos farisaicos, cuja fé não tem como centro o Evangelho, mas a Lei, as regras, as normas, isto é, tudo aquilo que garanta uma clara separação entre o puro e o impuro. Exatamente como os fariseus na época de Jesus, esses grupos conservadores rejeitam o novo e se agarram ao velho, ignorando o alerta de Jesus: “Ninguém, após beber vinho velho, quer do novo. Pois diz: ‘O velho é que é bom!’” (Lc 5,39). São cristãos que não aceitam ouvir as perguntas que as novas gerações colocam para a Igreja, refugiando-se em respostas que não respondem aos novos desafios do mundo moderno.

A resposta de Jesus aos fariseus de ontem e de hoje continua válida: “Escutai todos e compreendei: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior” (Mc 7,14-15). Não há dúvida de que todos nós sofremos a influência do ambiente em que nos encontramos e do tempo em que vivemos. No entanto, essa influência não significa sermos determinados por aquilo que nos influencia. Jesus nos recorda que existe dentro de nós um espaço em que aquilo que nos influencia externamente deve entrar em diálogo com a nossa liberdade de consciência, com os valores do Evangelho, para que possamos, então, fazer nossas escolhas e tomar nossas decisões.

O melhor comentário às palavras de Jesus – “o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior” – se encontra na psicologia de Victor Frankl: “O homem não é as suas circunstâncias; o homem é as suas decisões”. Ninguém de nós é determinado pelo que nos atinge vindo de fora, mas pela decisão que tomamos internamente em como lidar com isso. Por mais que as pressões externas se façam sentir em nós, há duas coisas essenciais em nosso coração que são determinantes para as nossas atitudes: liberdade e responsabilidade. Graças a elas, nós não reagimos simplesmente ao que nos acontece, mas escolhemos como lidar com isso, de forma a mantermos a nossa consciência pura perante Deus.

Para os cristãos fariseus da nossa e de outras igrejas, fica o alerta de São Tiago: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai, é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,27). Um cristão que não se preocupa com as injustiças sociais, mas unicamente em se manter distante de um mundo corrompido como o nosso – como se a corrupção não habitasse também o seu coração –, é um hipócrita, uma pessoa que vive projetando nos outros a sujeira e a impureza que não admite reconhecer dentro de si mesma.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

QUANTO MAIS DURA A ROCHA, MAIS DURO DEVE BATER A MARRETA

 Missa do 21º dom. comum. Palavra de Deus: Josué 24,1-2a.15-17.18b; Efésios 5,21-32; João 6,60-69.

 

            Chegamos ao final do cap. 6 do Evangelho de São João. No início, Jesus tinha diante de si uma multidão de cinco mil pessoas, os judeus, um grupo grande de discípulos e os doze apóstolos. A multidão foi embora por não querer se esforçar em vista do alimento que dura para a vida eterna (cf. Jo 6,27). Os judeus foram embora por não aceitarem que Jesus é o pão vivo descido do céu (cf. Jo 6,41). Agora vemos muitos discípulos de Jesus decidindo ir embora, reclamando que a palavra dele é muito dura: “Muitos dos discípulos de Jesus, que o escutaram, disseram: ‘Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?’” (Jo 6,60).

            “Esta palavra é dura”. No mundo atual, a escuta é seletiva: cada um ouve somente aquilo que gosta de ouvir, aquilo que está de acordo com as suas próprias ideias. Assim, cada um escolhe o seu pregador, o seu orientador, esquecendo-se da pergunta de Jesus: “Pode acaso um cego guiar outro cego? Não cairão ambos num mesmo buraco?” (Lc 6,39).

            Por que às vezes a Palavra de Deus é dura? Porque Ele não fala o que gostaríamos de ouvir, mas o que precisamos ouvir. Uma pessoa que está com uma doença grave só tem chance de cura se aceitar se submeter a um tratamento duro, a tomar remédios amargos. A Palavra de Deus não visa o nosso bem estar, mas a nossa conversão e a nossa salvação. O Evangelho de Jesus Cristo não é um anestésico para a nossa consciência, nem muito menos uma droga que nos mantém distantes da realidade que temos que enfrentar. Se a Palavra é dura é porque há algo duro que precisa ser quebrado em nós, em vista da nossa cura, libertação e salvação: “Não é a minha Palavra como uma marreta que despedaça a rocha?” (Jr 23,29). Quanto mais resistimos admitir o que está errado em nós, mais dura sentiremos a Palavra de Deus.

            Só a Palavra de Deus pode nos curar, mas cabe a nós decidir escutá-la ou não, obedecê-la ou não: “Escolhei hoje a quem quereis servir... Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor” (Js 24,15), disse Josué ao povo de Israel. A escolha é sua: continuar a viver na mentira ou se abrir à verdade; buscar apenas um alívio momentâneo para a sua dor ou aceitar submeter-se a um tratamento doloroso para curar de uma vez por todas sua enfermidade; passar de igreja em igreja, de pregador em pregador, para ouvir apenas o que você gosta de ouvir, ou aceitar permanecer na igreja onde o pregador fala o que você precisa ouvir. A escolha é sua.

Antes que muitos de seus discípulos fossem embora, Jesus os advertiu: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não creem” (Jo 6,63-64). “O Espírito é que dá a vida, a carne não adianta nada”. Quem escolhe viver no nível carnal, terreno, não aceitando renunciar a nada em vista da sua conversão e salvação, sempre vai rejeitar o Evangelho. O resultado final é um só: apodrecerá junto com a sua carne. Aqui também precisamos fazer uma escolha: viver como pessoas reduzidas à sua carnalidade, fechadas no seu egoísmo e na sua dependência da satisfação das suas necessidades, ou abrir-se à sua dimensão espiritual, transcendente, convictas de que só o Espírito dá a vida; só a dimensão espiritual dá sentido à nossa existência.

“Entre vós há alguns que não creem” (Jo 6,64). Jesus conhece cada ser humano por dentro (cf. Jo 2,25). Igrejas ou templos cheios não enganam Jesus. Ele sabe que entre nós há alguns cuja fé está reduzida à satisfação de uma necessidade momentânea; uma fé que não suporta ouvir um “não” da parte de Deus; uma fé que não admite ter que lidar com dor, frustração, perda, decepção ou perseguição; uma fé que só busca receber, ganhar, desfrutar, e nunca renunciar, se doar e se sacrificar pelo bem dos outros ou da própria Igreja; uma fé que não admite passar pelo fogo da crise, que constantemente se defende da complexidade da vida...

“A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele. Então, Jesus disse aos doze: ‘Vós também vos quereis ir embora?’” (Jo 6,66-67). Muitas pessoas que ontem decidiram caminhar com Jesus voltaram atrás, e hoje não caminham mais; muitos que hoje estão aqui conosco, voltarão atrás e amanhã não estarão mais, porque cada vez mais as pessoas são inconstantes e incapazes de perseverar: nunca terminam o que começam. Contudo, Jesus não nos pergunta a respeito das pessoas que desistiram de segui-lo, mas a respeito das razões que temos para continuarmos a segui-lo: “Vocês também querem ir embora?” (Jo 6,67). Você também quer ir atrás de respostas mais fáceis, embora enganadoras, para a sua vida? Você também quer trocar o Deus que demora pelo Mal que responde rápido?

“Simão Pedro respondeu: ‘A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus’” (Jo 6,68-69). “A quem iremos?”. Neste mundo confuso e profundamente desorientado, nós necessitamos de orientação. Machucados pelas tantas mentiras do mundo, nós precisamos do remédio da Verdade. “Tu tens palavras de vida eterna”. A palavra de Jesus é muitas vezes dura, sim, mas só ela pode nos fazer transcender o presente e nos abrir ao futuro; só ela pode nos devolver a consciência de que o sentido da vida não está fechado à pessoa que somos agora: ele se encontra na pessoa que somos chamados a nos tornar.

“Nós cremos firmemente”. Cada vez mais a Igreja de Jesus Cristo se tornará minoria. Nós permaneceremos nela, ou deixaremos Jesus para seguir a maioria? Jesus jamais suavizará as palavras do Evangelho e jamais alargará a porta estreita da salvação só para agradar as pessoas e ganhar mais seguidores. Nós permaneceremos fiéis ao Evangelho? Nós nos esforçaremos para entrar pela porta estreita?

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

A FUTURA GLORIFICAÇÃO DO NOSSO CORPO

 Missa da Assunção de Maria. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab; 1Coríntios 15,20-27a; Lucas 1,39-56.  

 

            “A Igreja celebra hoje em Nossa Senhora a realização do Mistério Pascal. Sendo Maria a ‘cheia de graça’, sem sombra alguma de pecado, quis o Pai associá-la à ressurreição de Jesus” (Missal dominical, p.1345). Se, na profissão de fé, afirmamos: “Creio na ressurreição da carne”, isso é muito mais verdadeiro quando consideramos o corpo de Maria, em cujo ventre foi gerado o Filho de Deus: no momento da sua morte, ela foi levada em corpo e alma ao Céu.

            A imagem de Maria glorificada no Céu aparece no livro do Apocalipse: “uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1). Ela está vestida de sol porque ressuscitada; tem a lua debaixo dos pés porque está acima do tempo terreno, na eternidade; por fim, tem uma coroa de doze estrelas na cabeça porque é a imagem da Igreja glorificada, prefigurada no Antigo Testamento pelas 12 tribos de Israel e edificada pelos 12 apóstolos escolhidos por Jesus (cf. Ef 2,20).

            Justamente por ser imagem da Igreja, a mulher de Ap 12 é ameaçada por um grande Dragão, cor de fogo, imagem da violência que produz morte. A verdadeira Igreja de Jesus Cristo é uma Igreja ferida, ameaçada, atacada por Satanás. Esses ataques fazem com que uma parte dos cristãos sejam derrubados na sua fé: “com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra” (Ap 12,4). Seja no campo pessoal, seja no eclesial, cada cristão se encontra dentro de um combate espiritual. O Maligno faz de tudo para nos derrubar do Céu, ou seja, para nos afastar da presença de Deus. Para isso, ele nos ataca a partir de dentro e também a partir de fora: a partir de dentro, por meio das nossas tentações pessoais; a partir de fora, procurando nos fazer desacreditar da nossa própria Igreja.

            Para não nos deixarmos enganar, o capítulo 12 do Apocalipse deixa claro que o Dragão não consegue causar dano nem à mulher, nem ao Filho gerado por ela: “o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar” (Ap 12,5b-6a). Se todos os cristãos, espalhados pelo mundo, enfrentam um combate espiritual contra o Maligno (cf. 1Pd 5,8-9), devem se manter firmes na fé, confiando na intervenção de Deus: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo” (Ap 12,10).

            Como você se vê dentro desse combate? Você tem conseguido resistir às seduções do Maligno ou está se deixando arrastar por sua cauda e sendo derrubado para a terra? O Dragão sabe como derrubar cada um de nós. A um ele seduz pela ambição do dinheiro; a outro, pela dependência afetiva ou pela carência sexual; a um, pela necessidade de sentir-se forte (poder); a outro, pela incapacidade de suportar uma frustração ou de se sentir inferior, insignificante; a um, pela compulsão em comprar (consumir); a outro, pelo medo da dor ou da morte.      

            Se o Apocalipse nos mostra Maria glorificada no Céu, o Evangelho nos fala da sua presença na Terra, compartilhando da mesma condição dos pobres, dos humildes e dos famintos. Seu hino de louvor a Deus expressa a sua fé na intervenção divina em favor de todos aqueles que sofrem com a indiferença política e religiosa e também com as desigualdades sociais: “Ele (Deus) mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,51-53). Deus não está na força dos grandes, mas na fraqueza dos pequenos; não está com os “vencedores”, mas com os “perdedores”; não está com quem tem tudo, mas com os que nada têm.  

            Se Maria louva a Deus por sua intervenção na história humana, em favor dos que nada significam para este mundo, Isabel louva Maria com duas expressões: “Bendita és tu entre as mulheres” (v.42) e “Bem-aventurada aquela que acreditou” (v.45), isto é, que teve fé na Palavra do Senhor! “Bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,42). Bendita é a pessoa que não deixa sua consciência deformar-se frente aos contra valores deste mundo. Bendita é a pessoa que resiste à cauda sedutora do Dragão e se mantém firme no Céu, na sua comunhão com Deus. Bendita é a pessoa que se coloca junto daqueles que são desprezados pelo mundo. “Bem-aventurada aquela que acreditou” (Lc 1,45). Feliz a pessoa que alimenta diariamente a sua fé com a Palavra de Deus. Feliz a pessoa que aprendeu a esperar em Deus, até que sua Palavra se cumpra. Feliz todo aquele que sabe que somente Deus tem a palavra final sobre a história humana.

            Crendo na glorificação de Maria em corpo e alma no Céu, renovemos a nossa fé nesta verdade: “A nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, pela força que lhe dá poder de submeter a si todas as coisas” (Fl 3,20-21). Confiemos ao poder redentor do nosso Deus todo ser humano cujo corpo está doente, ferido, agredido, faminto, preso à dependência química, definhando numa cama, prostituído, banalizado, traficado para a venda de órgãos, escravo do trabalho etc.

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi