quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

TER CONSCIÊNCIA DAS NOSSAS REAÇÕES DIANTE DA PALAVRA DE DEUS

 Missa do 4. dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 1,4-5.17-19; 1Coríntios 13,4-13; Lucas 4,21-30.

            A marca do nosso tempo é a intolerância e a incapacidade de ouvir o outro, principalmente aquele que pensa diferente de nós. Isso faz com que as redes sociais se tornem verdadeiros campos de batalha, onde muitos se agridem com frequência. Como a capacidade de diálogo é pequena, a reação mais comum diante daquele que pensa diferente de mim é o cancelamento (deletar a pessoa dos meus contatos).       

A intolerância e a incapacidade de ouvir o outro estão presentes no Evangelho de hoje. Ao falar, Jesus tinha palavras que tocavam o coração das pessoas: “Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca” (Lc 4,22). Mas, por conhecer o coração humano, Jesus sabia que o encanto daquelas pessoas era superficial, condicionado a ouvir apenas aquilo que gostavam de ouvir, aquilo que estava de acordo com o que elas pensavam. Por isso, diante da reação de encanto, Jesus faz uma provocação: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (Lc 4,24).

O profeta é o porta-voz de Deus; ele não fala em nome de si mesmo, mas fala aquilo que Deus lhe mandou falar: “Levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo” (Jr 1,17). O problema é que, ao nos dirigir a Palavra por meio do seu profeta, Deus não visa nos agradar, mas nos salvar. Sua Palavra muitas vezes passa longe de ser um anestésico para a nossa dor; pelo contrário, é uma Palavra “cirúrgica”, que corta fundo e faz sangrar, em vista de curar aonde estamos doentes ou infectados pelo pecado. De fato, a Palavra de Deus “é mais cortante e penetrante do que uma espada... (que) penetra até dividir alma e espírito... revelando as intenções do coração” (Hb 4,12).

Sendo assim, é muito importante perceber as nossas reações internas, diante daquilo que Deus nos fala. Os habitantes de Nazaré passaram da admiração para a agressão, quando Jesus os tornou conscientes de que, desde os profetas Elias e Eliseu, eles perdem a oportunidade de serem transformados pela Palavra de Deus porque lhe recusam a fé, a obediência, o esforço em viver segundo a vontade de Deus. Contudo, para não atacarem diretamente a Deus, que fala na Palavra, atacam os profetas, ou seja, toda pessoa por meio da qual Deus fala com eles.

Essa dinâmica é muito comum hoje: não se ataca diretamente a Deus, mas a Igreja. Não se ataca a Sagrada Escritura, mas seus pregadores. Diante da palavra profética do Papa Francisco ou da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, pessoas ou grupos que se consideram católicos partem para o ataque, porque não admitem ser questionados em suas atitudes de cristãos que desejam viver uma fé individualista e moralista, sem se importarem com as exigências comunitárias e sociais do Evangelho. São cristãos que esquecem para quem o profeta é enviado, a quem ele deve comunicar a Palavra de Deus: “aos reis... e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra” (Jr 1,18). Em outras palavras, ao poder político, religioso e social.

Ao encarregar o seu profeta para o anúncio da Palavra, Deus o torna consciente da oposição que ele irá enfrentar: “Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te” (Jr 1,19). Toda pessoa que fala em nome de Deus precisa saber que irá incomodar, questionar, e, por isso, será atacada, na tentativa de ser silenciada. Como lidar com isso? A primeira dica nos vem do apóstolo Paulo. O falar em nome de Deus deve ser feito a partir da caridade, do amor às pessoas e da preocupação com a salvação delas. Esse falar deve ser movido por um amor paciente e bondoso, que não busca seu próprio interesse; um amor que, mesmo deparando-se com a irritação, não guarda rancor; um amor que não aceita a injustiça, mas busca sempre a verdade; em resumo, um amor que “suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo” (1Cor 13,7).

Mas a dica principal vem do próprio Jesus e da maneira como ele lidou com a rejeição do povo de Nazaré. “Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade.... Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4,28-30). Essa atitude de Jesus nos lembra de que, ao comunicarmos a Palavra de Deus às pessoas, precisamos aprender com a água que escorre de uma fonte ou de um rio: ela não para na pedra ou no obstáculo que encontra pelo caminho, mas o contorna e segue adiante. O que Jesus nos ensina é que não podemos falar de Deus somente para quem nos aceita ou pensa como nós, assim como não podemos desistir de falar de Deus porque fomos criticados, atacados ou rejeitados por alguma pessoa. “Quer te escutem, quer não, saberão que um profeta esteve entre eles” (Ez 2,5).  

“Passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4,30). O lugar onde estamos e as pessoas com as quais convivemos é exatamente o lugar onde devemos falar de Deus; primeiro, com a nossa vida, com as nossas atitudes; depois, com nossas palavras. Mesmo num tempo de forte intolerância como o nosso, precisamos ser uma presença profética, para que as pessoas saibam que houve alguém que quis falar-lhes em nome de Deus. Não permitamos que a tentativa de nos humilhar e nos desacreditar nos levem a desistir da nossa missão profética. “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22). Não é esta a Igreja “cheia” de pedófilos e de escândalos? Não é esta mulher uma pessoa cuja família vive “cheia” de problemas? Não é este homem um “fanático” ou um “antiquado”? Enfim, que o nosso dia não seja avaliado a partir da acolhida do anúncio que fomos chamados a fazer, mas pela fidelidade diária ao próprio anúncio.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

A PALAVRA DE DEUS É UMA PESSOA QUE FALA CONOSCO E AGUARDA NOSSA RESPOSTA

 Missa do 3. dom. comum. Palavra de Deus: Neemias 8,2-4a.5-6.8-10; 1Coríntios 12,12-30; Lucas 1,1-4; 4,14-21.

 

A conexão se tornou absolutamente necessária em nosso tempo. Seja para a vida de negócios (trabalho), seja para a familiar (relacionamentos), seja para o nosso entretenimento (internet, redes sociais), todos nós acabamos necessitando estar de alguma forma conectados. Mas, e a nossa conexão com Deus? Como ela acontece? Quem hoje busca conectar-se com Deus?

Quem tomou a iniciativa de se conectar a nós foi o próprio Deus, e Ele o fez não através de alguma imagem, mas unicamente através da sua Palavra. O nosso Deus não tem imagem, porque Ele transcende tudo o que possamos imaginar a respeito d’Ele. Moisés, ao comunicar ao povo de Israel a Palavra de Deus (Lei), deixou claro: “O Senhor Deus falou com vocês do meio do fogo. Vocês ouviram o som das palavras, mas não viram nenhuma imagem: nada, além de uma voz” (Dt 4,12).

Hoje, a nossa geração é altamente atingida pela força das imagens e pouco interessada em ouvir palavras. As pessoas passam horas vendo fotos, imagens, vídeos nas redes sociais, mas não têm paciência para lerem um texto de mais de quatro linhas. Além disso, todo mundo fala o que quer nas redes sociais, todo mundo posta a sua opinião sobre diversos assuntos, mas quem escuta alguém? Se o nosso Deus é Palavra, como está a nossa escuta d’Ele? Qual tempo do nosso dia nós temos dado a Deus para que Ele fale conosco?

A leitura de Neemias nos revela algo muito importante: a Palavra não é um livro, mas uma Pessoa! A Palavra de Deus é o próprio Deus vivo falando conosco. Ele se dirige a todas as pessoas que são capazes de compreender. A sua Palavra deve ser transmitida de forma compreensível para as pessoas do nosso tempo: crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Essa Palavra deve ser proclamada a partir de um lugar alto, à vista de todos. Ela tem força para nos colocar em pé, para nos levantar da nossa prostração e do nosso desânimo! Diante dela, somos chamados a responder com o nosso “Amém”, palavra que significa “eu creio” na Palavra que ouvi; “eu espero” nessa Palavra, até que ela se cumpra em minha vida. E após acolhermos a Palavra, nós nos inclinamos, lembrando a atitude de Maria: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). Essa Palavra é a alegria de Deus para fortalecer a nossa vida!  

Apesar da força transformadora da Palavra de Deus, a letra dessa Palavra não se tornou espírito no coração humano, porque o homem não permitiu que ela adentrasse o seu interior e modificasse suas atitudes. Quando Jesus veio ao mundo, nós ficamos sabendo que “a Palavra de Deus se fez pessoa humana e habitou entre nós” (Jo 1,14). Ele mesmo afirmou que suas palavras são “espírito e vida” (Jo 6,63); somente Ele tem “palavras de vida eterna” (Jo 6,68)! É assim que vemos Jesus na sinagoga, lugar da proclamação e da escuta da Palavra de Deus, lendo e comentando um texto bíblico.

Jesus viveu sua relação com Deus como a maioria do povo judeu simples, muito mais a partir da Palavra do que dos sacrifícios que aconteciam no Templo, em Jerusalém. Sua maneira de explicar a Palavra de Deus nas sinagogas falava ao coração das pessoas, de forma que “todos o elogiavam” (Lc 4,15). No Evangelho de hoje, Jesus se encontra na sinagoga de Nazaré, a cidade onde ele morou desde pequeno. Ao abrir a Escritura, ele proclama o seguinte texto do profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19).

“O Espírito do Senhor” está sobre cada um de nós, cristãos. Ele nos consagra com a unção – óleo que penetra no corpo para sarar as feridas da alma. Nossas palavras devem ser portadoras desse óleo que cura feridas, comunicando esperança, alegria, força, ânimo para os pobres deste mundo. Assim como Jesus, somos enviados a “proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos...”. Toda pessoa que acolhe com fé a palavra do Evangelho passa por um processo de libertação; passa a ver a vida com outros olhos e ganha força para começar a romper com tudo aquilo que a oprime, escraviza e adoece.  

Mas o mais importante de tudo é o que Jesus diz, ao encerrar a proclamação da Palavra de Deus: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). A Palavra é a mesma – a Sagrada Escritura não pode ser anulada ou modificada. Contudo, ela nunca é a mesma, porque todo hoje é novo, diferente, único. Para cada “hoje” da nossa vida – para cada situação específica que vivenciamos – há uma Palavra que deseja iluminar as nossas escolhas e orientar nossas decisões. Mas é preciso que nos aproximemos da Palavra diariamente. A nossa alma necessita de direção, e tal direção só pode nos ser dada pela Palavra de Deus. Assim como nos alimentamos todos os dias, precisamos nos abrir à Palavra que todos os dias o Senhor deseja dirigir ao nosso coração.  

Uma última questão. Apesar de vivermos numa época de forte individualismo, onde até mesmo a relação com Deus é prejudicada neste sentido, fechando a pessoa em si mesma e não se importando com o seu semelhante, o apóstolo Paulo nos recordou algo muito sério: toda pessoa que acolhe a Palavra de Deus compreende-se dentro de um corpo. Este corpo tem uma dimensão familiar (casa), social (trabalho, mundo) e espiritual (Igreja). Ela jamais se considera o órgão principal do corpo, assim como jamais despreza os órgãos que parecem ser menos importantes. Todos nós, seres humanos, compomos um imenso organismo, que é a humanidade. “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se é honrado, todos os membros se alegram com ele” (1Cor 12,26). O cuidado com o que é comum favorece a todos; o cuidado apenas com aquilo que interessa ao nosso egoísmo prejudica a todos.

Sejamos bons ouvintes da Palavra de Deus. Permitamos que o Espírito Santo nos conduza para junto das pessoas que necessitam ser alcançadas pelo Evangelho de Cristo. Lembremos do importantíssimo conselho de São Francisco de Assis: “Fale sempre do Evangelho. Se for preciso, use palavras”. Que as nossas atitudes diárias falem de Deus às pessoas com as quais convivemos!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

PROCURA-SE PELA ALEGRIA

 Missa do 2. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 62,1-5; 1Coríntios 12,4-11; João 2,1-11.

 

Onde encontrar alegria? Toda propaganda de consumo é feita a partir da imagem de uma pessoa que está alegre. A mensagem é simples e direta: consumir tal coisa ou obter tal produto produz alegria na pessoa. No entanto, essa alegria costuma durar cerca de uma semana, depois do produto adquirido. Como essa alegria é efêmera, passageira, a roda do consumo precisa continuar a girar, para que também as pessoas continuem a sentir alegria por um pouco mais de tempo.  

Além de nós entendermos erroneamente que a alegria está condicionada ao consumo – só sente alegria quem pode consumir –, também costumamos condicioná-la aos fatores externos, como se só fosse possível sentir alegria quando as coisas externas estão a nosso favor: se há doença, ou dificuldade financeira, conflitos, desencontros no relacionamento ou problemas a resolver, tudo isso nos impede de estarmos alegres. No entanto, a alegria não é algo que surge em nós de fora para dentro, e sim de dentro para fora; ela não depende de que tudo esteja bem ao meu redor, mas sim da maneira como eu escolhi lidar com as situações adversas do dia a dia.

A falta da alegria está retratada no Evangelho de hoje pela falta de vinho. Na Sagrada Escritura, o vinho é a imagem da alegria, mas não de uma alegria mundana, material, e sim espiritual: é a alegria do coração humano que se sente em comunhão com Deus, fonte perene de alegria. Essa comunhão do coração humano com Deus, por sua vez, aparece retratada no profeta Isaías na imagem de um casamento. Após a experiência do exílio na Babilônia, a cidade de Jerusalém se sentia deserta e abandonada, como uma mulher não amada pelo seu marido. Deus, esposo do seu povo, se dirige a esta cidade prometendo mudar sua situação: ela será chamada “Minha predileta (querida)”, “Bem-Casada”, porque o Senhor, seu esposo, não descansará até que nela sejam restabelecidas a justiça e a salvação. E o profeta conclui: “Como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus” (Is 62,5).

Isaías empresta a imagem do casamento não para dizer que as pessoas que se casam são alegres e as que não se casam ou se separam não o são. O que ele quer afirmar é que Deus ama cada pessoa na face da terra e trabalha para que na vida dela haja justiça e salvação, condições que possibilitam a verdadeira alegria. No mundo em que vivemos, é cada vez maior o número de pessoas que se sentem rejeitadas, não-amadas, abandonadas, ignoradas, sem importância para quem quer que seja. Pois bem. É justamente a essas pessoas que somos enviados a levar o amor de Deus, a certeza de que o bem de cada uma delas é a alegria do coração de Deus.  

Na festa de casamento, onde estavam Jesus, sua mãe e seus discípulos, acabou o vinho, e Maria foi interceder junto ao seu Filho: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). O que é esta falta de vinho hoje? Maria hoje está dizendo a Jesus, a respeito de tantos relacionamentos: Eles não têm mais amor; a paixão que sentiam um pelo outro não amadureceu e não se tornou amor verdadeiro; eles não têm mais fidelidade, respeito e consideração um pelo outro... A respeito de tantas crianças, Maria está dizendo a Jesus: Elas não têm mais alguém que lhes transmita a fé, que lhes coloque limites, que lhes ensine o respeito para com o próximo; não têm uma figura paterna ou materna que seja uma referência de amor verdadeiro... A respeito de tantas pessoas, Maria está dizendo a Jesus: elas não têm mais saúde; não têm um emprego digno e um salário justo; elas não têm meios de sustentar suas famílias... A respeito de tantos idosos, Maria está dizendo: Eles não são mais lembrados, visitados e cuidados por seus familiares; não têm mais gosto em viver; não têm mais fé, esperança e alegria... A respeito de tantos jovens, Maria diz a Jesus: Eles não têm senso de limite e de responsabilidade; não têm direção e sentido de vida; eles têm bens materiais, mas não têm uma razão para viver; não têm uma referência de espiritualidade dentro de casa; estão expostos ao consumismo, às drogas, ao desemprego e à violência...  

A falta de vinho, de alegria, de condições de vida, de sentido de vida é gritante no mundo de hoje. E o único que pode nos trazer o vinho de Deus, a alegria de Deus, é Jesus, esposo da nossa alma, esposo da Igreja. Por isso Maria nos orienta: “Façam tudo o que ele disser a vocês” (Jo 2,5). Seja qual for a situação que estejamos vivendo, Jesus sempre tem uma palavra a nos dizer, uma orientação a nos dar. Quando nos falta o vinho da alegria, precisamos primeiramente reconhecer essa falta; depois, verificar qual é a nossa parcela de responsabilidade para o vinho ter acabado; depois, encher nossas talhas de água sabendo que, se somente Jesus pode converter água em vinho, é tarefa nossa encher as talhas. Isso significa que não podemos reclamar da falta de alegria quando nós mesmos temos atitudes que a afastam da nossa vida.

            Eis a surpresa: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” (Jo 2,11). O vinho melhor, a alegria mais profunda e abundante, surgiu depois da falta, depois da crise, depois da tribulação, depois da angústia... A vida pode tornar-se muito melhor depois que enfrentamos uma determinada “falta de vinho”. Tudo depende de como lidamos com as situações difíceis. Tudo depende de como entendemos a alegria. Por isso, voltemos à pergunta inicial: Onde nós podemos encontrar alegria? Ela normalmente nos é dada em forma de sementes; depende do nosso cultivo. Ela não é encontrada no barulho, na agitação, muito menos na fuga de si mesmo(a), mas está dentro de cada um de nós. Ela não nasce apenas depois que temos um encontro profundo com Deus, mas na própria busca que fazemos d’Ele: “Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor!” (Sl 105,3).

            Invoquemos o Espírito Santo. Ele é o vinho novo que Deus deseja derramar nos odres do nosso coração, através de seu Filho Jesus... “Então vem, Espírito Santo, com tudo o que tens e tudo o que És... Ó, vem, Espírito de Deus! Do alto de tua casa traz vinho novo aos odres meus!” (Vinho novo).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

O BATISMO NOS CONVIDA A PASSAR PELO MUNDO FAZENDO O BEM

 Missa do batismo do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 42,1-4.6-7; Atos dos Apóstolos 10,34-38; Lucas 3,15-16.21-22

               

            No diálogo que teve com Nicodemos, Jesus deixou claro que existem dois tipos de nascimento: um, da terra; outro, do céu; um, de baixo; outro, do alto; um, o nascimento segundo a carne; outro, o nascimento segundo o Espírito (cf. Jo 3,3-6). O apóstolo Paulo, ao falar sobre a ressurreição, isto é, sobre a nossa destinação à vida eterna, afirma que “a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus” (1Cor 15,50). Portanto, todos nós, depois de termos nascido da carne, precisamos de um segundo nascimento, que é o nascimento operado por Deus, através do Espírito Santo. Isso nos faz compreender a absoluta importância do Batismo.

            Hoje, ao celebrarmos a festa do Batismo de Jesus, poderíamos nos perguntar: Por que Jesus precisou ser batizado, se Ele já existia em Deus antes de vir ao mundo e assumir a nossa carne, isto é, a nossa condição mortal? Na verdade, Jesus não precisou ser batizado; Ele quis ser batizado, seja para nos falar da necessidade do Batismo para a nossa salvação, seja para santificar as águas por meio das quais se realiza o Batismo. De fato, São Máximo de Turim afirmou: “Cristo foi batizado não para ser santificado pelas águas, mas para santificá-las”.

            Como o Evangelho de hoje deixou claro, antes de Jesus começar seu ministério já existia um tipo de Batismo: o Batismo de João. No entanto, o próprio João revelou a superioridade do Batismo de Jesus ao afirmar: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu... Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). Aqui podemos lembrar algo muito simples: a água tem o poder de lavar, de limpar, mas o fogo tem o poder superior de purificar. Por exemplo, a prata ou o ouro podem ser lavados o quanto forem, mas somente passando pelo fogo é que ambos perdem todas as suas impurezas. O fogo tem um poder superior ao da água para purificar o ouro e a prata. Além disso, o fogo tem o poder de transformar até mesmo o metal mais duro.

            Quando João Batista compara o seu Batismo na água ao Batismo de Jesus no fogo, ele está falando do Espírito Santo, que nos é dado no Batismo como Aquele que opera em nós o nascimento do alto, Aquele cujo fogo nos purifica, nos santifica e nos transforma, quando nos deixamos conduzir por Ele. De fato, após o Batismo realizado por João, Jesus se colocou em oração, e, “enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba” (Lc 3,21-22). O que São Lucas quer nos mostrar é que Jesus não recebeu o Espírito Santo da água, isto é, do Batismo de João, mas do alto, do céu, que se abriu sobre Ele enquanto rezava.

            O Batismo não é algo mágico. Não basta receber o Espírito Santo no batismo e já estamos automaticamente destinados à vida eterna. Como muito bem afirma o apóstolo Paulo, “todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). Paulo poderia ter afirmado: “todos os que são batizados são filhos de Deus”, mas preferiu colocar, no lugar de “ser batizado”, a expressão “ser conduzido” pelo Espírito Santo. Inúmeras pessoas já foram batizadas, mas quantas delas aceitam ser conduzidas pelo Espírito Santo?

Descrevendo para nós a figura do Servo de Deus, o profeta Isaías nos ajuda a perceber se estamos vivendo de acordo com o Batismo que recebemos ou não. Eis as características do Servo de Deus – e da pessoa que vive segundo o seu Batismo: ele não faz barulho, não chama a atenção dos outros para si; não age com brutalidade; enxerga o que ainda há de bom em cada pessoa; é tolerante e tem esperança na possibilidade de mudança de cada pessoa; procura ajudar para que cada um se confronte com a verdade; não desanima, nem se deixa abater, até que a justiça se estabeleça na sociedade... (cf. Is 42,2-4).

Você se reconhece nessas atitudes? Elas dizem o quanto você está vivendo de acordo ou não com o seu Batismo, o quanto você se deixa conduzir ou não pelo Espírito que recebeu no dia do seu Batismo. Também o apóstolo Pedro nos ajuda a rever a nossa postura enquanto batizados, ao mencionar que, depois do Batismo, Jesus “foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem... (At 10,38). O bem que Deus chama cada um de nós, batizados, a fazer pode ser traduzido nessas palavras: “Eu, o Senhor, te chamei para a justiça; eu te formei para... abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas” (Is 42,6-7).

            Mas há um outro aspecto muito importante, quando se fala do nosso Batismo: nossa relação com Deus Pai. O fato de Jesus, após o Batismo, se colocar em oração é algo fundamental para a nossa vida de batizados: todo filho de Deus vive numa absoluta dependência espiritual do Pai. É só na oração que podemos voltar a ouvir a voz do Pai nos dizendo: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (Lc 3,22). Essas palavras falam da nossa verdadeira origem: ela não é terrena, mas celeste! Nossa referência de vida não é a terra, mas o céu. Quem nos amou primeiro e nos chamou à vida não foram os nossos pais terrenos, mas o nosso Pai do Céu. A força que nos anima e nos faz enfrentar com coragem as dificuldades da vida não está em nossa carne, mas no Espírito que nos habita!

Hoje somos convidados a renovar as promessas do nosso batismo para que o céu, que ainda parece fechado sobre a vida de tantas pessoas, volte a se abrir. Que a água viva do Espírito Santo renove a graça do Batismo que um dia recebemos. Que o Seu fogo queime nossas impurezas e nos transforme na imagem do Filho único de Deus, cuja festa do Batismo celebramos hoje. Assim seja.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

QUANDO MAIS ESCURIDÃO, MAIS A LUZ QUE É CRISTO DEVE BRILHAR ATRAVÉS DE NÓS!

Missa da Epifania (Manifestação) do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

 

No dia de Natal, Jesus foi descrito como “a vida que é a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la” (Jo 1,5). “Ele é a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9). E hoje a liturgia centra-se mais uma vez no tema da luz: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 61,1).

Nós, cristãos, somos chamados a viver como “filhos da luz”, procedendo retamente, segundo a verdade e a justiça, conforme Jesus procedeu. No entanto, a luz só é percebida no contraste com as trevas, com a escuridão. É justamente quando o céu fica escuro, quando anoitece, que a luz das estrelas é percebida com maior nitidez: “Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” (Is 61,2-3).

As palavras do profeta Isaías não falam de um privilégio, mas de uma missão. Todo cristão deveria ser uma luz que contrasta com a escuridão do mundo, de modo que as pessoas possam encontrar direção a partir da luz daqueles que vivem segundo o Evangelho, seguindo os passos Jesus, que se definiu como “Luz do mundo” (Jo 8,12). Mas, de novo, é preciso lembrar que ser luz, viver como filhos da luz, exige suportar o contraste com as trevas. Assim como os morcegos se sentem incomodados com a luz, assim aqueles que vivem segundo os contravalores do mundo se sentem incomodados com aqueles que procuram viver segundo os valores do Evangelho.   

“Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos” (Is 61,2). As trevas e as nuvens escuras podem ser vistas na desigualdade social que gera violência, injustiça e morte; na disseminação de fake news e na política de desinformação; na desorientação das redes sociais; no mercado que visa o lucro desmedido em detrimento da vida do ser humano; na guerra diária entre traficantes e milicianos pelo controle das favelas; na vivência intimista da fé e da religião, onde não se dá testemunho explícito de Jesus Cristo nem se defende a vida, mas apenas a moral individual; no individualismo que gera indiferença para com o sofrimento alheio etc. Justamente dentro desse contexto é que Jesus desafia cada um de nós: “Seja a minha luz”.

O apóstolo Paulo, que compreendeu a sua vocação como luz que deve brilhar no meio das trevas (cf. At 13,47), entendeu que sua missão principal era levar a luz do Evangelho ao mundo pagão. O motivo está no que ele acabou de nos dizer: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6). Isso significa que é missão de cada um de nós incluir os que estão excluídos, seja porque o Evangelho nunca chegou a eles, seja porque a prática pastoral da nossa Igreja ainda está engessada na “manutenção”, sem coragem para lançar-se na missão. Não podemos nos esquecer de que o nosso mundo está muito mais pagão do que na época de Paulo.

“Onde há trevas, que eu leve a luz!” Idosos solitários precisam da nossa luz, assim como crianças expostas à pobreza, à violência e à ausência de referência religiosa dentro de casa. Famílias desestruturadas precisam da nossa luz, assim como famílias onde os bens materiais não conseguem responder à fome de fé, de esperança e de sentido de vida. Inúmeros jovens atingidos pelo desemprego, viciados nas redes sociais, desprovidos de horizonte de vida, anestesiados pela tecnologia, desorientados na própria sexualidade e escravizados pelo consumismo precisam de nossa luz. Cada vez mais pessoas em nosso ambiente de trabalho, não vinculadas a qualquer igreja ou religião, precisam da nossa luz.

Diante de Jesus, o verdadeiro presente de Deus para a humanidade, os magos “abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). Todo cristão é convidado a oferecer hoje à Igreja e à sociedade humana o seu ouro, isto é, a preciosidade da sua retidão, da sua honestidade, da sua fé e do seu trabalho voluntário. Todo cristão também é convidado a oferecer o seu incenso, isto é, a sua presença sagrada, a força da sua espiritualidade, o perfume que emana da luta pela sua santificação diária. Enfim, todo cristão é convidado a oferecer a sua mirra, o seu dispor-se a estar junto das pessoas que sofrem, colaborando para aliviá-las e consolá-las.    

 

Oração: Meu Deus, eu procuro a Tua face; procuro a Tua verdade. Concede-me uma fé simples e sincera, pois o Senhor sempre se deixa encontrar por quem O procura de coração sincero. Por mais que a minha busca por Ti seja às vezes sofrida, que eu nunca me esqueça de que o Senhor não apenas existe, mas também nunca deixa sem resposta quem Te busca na oração sincera. 

Quero acolher a luz do Teu Filho, acolher o presente que o Senhor oferece a toda a humanidade: a salvação em Teu Filho Jesus. Diante dele dobro meus joelhos, abro o cofre do meu coração e ofereço-me como ouro, incenso e mirra. Ofereço a preciosidade da retidão do meu caráter e do meu serviço, para o bem da Igreja e da sociedade; ofereço a força da minha espiritualidade e o perfume que emana da minha luta em me santificar; enfim, ofereço ao Teu Filho o meu esforço em me colocar como presença cristã junto daqueles que sofrem, para confortá-los e reanimá-los. Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

 

 

 

GRATIDÃO, CONFIANÇA E ESPERANÇA

 Missa Maria Mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

 

Quais sentimentos estão dentro do nosso coração, nesta passagem de ano? Gratidão? Arrependimento? Culpa? Ansiedade? Medo? Esperança? Que balanço podemos fazer do ano que termina nesta noite? Ganhamos? Perdemos? Empatamos?

Na verdade, essa forma de avaliar o ano não é correta, pois o sentido da vida não está em somar ou subtrair e festejar porque o resultado final mostra que saímos no lucro. A vida não vale a pena quando os fatos positivos são maiores do que os negativos, mas quando nós conseguimos nos manter fiéis aos nossos propósitos, à nossa missão, respondendo ao que a própria vida nos pede diante de cada situação. Eis porque a celebração desta noite nos faz voltar para a figura de Nossa Senhora: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). O mais importante não é que o ano que termina tenha um saldo positivo de coisas boas, mas que nós tenhamos aprendido a ouvir aquilo que a vida quis nos ensinar em cada acontecimento que marcou este ano.

Algo que o nosso coração precisa meditar nesta noite é a seguinte verdade: “Quando compreendemos que não é um dia a mais, mas sim um dia a menos, começamos a valorizar o que realmente importa” (Cora Coralina). Temos um ano a menos em nossa história de vida! Essa verdade precisa nos ajudar a reavaliar nossas prioridades: quais são nossos valores? Que projetos temos? Quais esperanças nos movem? O que ainda podemos fazer da nossa existência que se torna sempre mais breve neste mundo? Nós já aprendemos a valorizar o que realmente importa? Importa viver e não apenas sobreviver. Importa frear a correria, diminuir a velocidade e compreender que o sentido está no caminho que percorremos e não simplesmente na meta que alcançamos. Não podemos nos contentar em atingir metas e mais metas, enquanto perdemos a nossa alma pelo caminho, enquanto descuidamos do essencial.

O mundo em que vivemos tem se tornado cada vez mais pagão. A maioria das pessoas vive como se Deus não existisse, escrava das superstições, das redes sociais, da tecnologia; escrava do consumismo, dos vícios, da necessidade de aprovação dos outros. O escravo não escolhe nada, mas vive a partir daquilo que escolheram para ele. Jesus, ao nascer de Maria, nasceu sujeito à Lei religiosa que impunha um fardo insuportável: o fardo da condenação, pois ninguém conseguia cumprir tudo que a Lei exigia. Mas Jesus quebrou a corrente da escravidão e nos deu a liberdade de sermos filhos de Deus, de modo que “já não há mais condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo” (Rm 8,1).

A diferença fundamental entre ser escravo e ser livre é que o escravo tem sua vida determinada a partir de fora, enquanto que a pessoa livre determina-se a partir de dentro. O escravo sofre uma dependência imposta a partir de fora; a pessoa livre escolhe deixar-se guiar pelo Espírito de Deus. Enquanto a pessoa escrava justifica sua escravidão culpando as situações ruins pela sua infelicidade, a pessoa livre posiciona-se diante de cada acontecimento e procura responder ao que a vida está lhe pedindo, buscando-se manter fiel ao Espírito que a conduz. Como afirmou o apóstolo Paulo, a pessoa que tem consciência de ser filha de Deus carrega dentro de si uma constante oração: “Abbá! Papai!”.

É assim que desejamos acolher o novo ano que está nascendo: como filhos, não como escravos; como pessoas que têm um Pai, não como pessoas orfãs que não têm ninguém por elas. O nosso Pai é o Pai de Jesus, o Pai que está no céu, acima de tudo, maior que tudo, presente em tudo, capaz de fazer com que tudo contribua para o bem daqueles que aceitam caminhar orientados pelo Seu Espírito. O nosso Pai é o Pai que não removerá todos os obstáculos da nossa vida porque Ele deseja o nosso crescimento, o nosso amadurecimento, a nossa superação. A Ele pedimos nesta noite a Sua bênção para o ano que nasce.    

“Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós! Que na terra se conheça o seu caminho e a sua salvação por entre os povos. Que o Senhor e nosso Deus nos abençoe, e o respeitem os confins de toda a terra!” (Sl 67,2.3.8). A bênção de Deus não é blindagem contra a dor, mas força para enfrentar a dor; não é garantia de sucesso constante, mas coragem para lidar com os fracassos e sabedoria para aprender com as frustrações; não é ganho incessante, mas capacidade para lidar com as perdas a que todo ser humano está exposto; enfim, a bênção do Pai do céu não é exclusivismo espiritual, mas missão: devemos ser uma bênção para as outras pessoas.

“Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido” (Lc 2,21). A circuncisão era um corte na pele do órgão genital do menino. Nada é mais íntimo a nós mesmos do que a nossa sexualidade. É através dela que nós sentimos, nos expressamos, nos relacionamos com o outro. A questão principal não é a circuncisão de um órgão do corpo, mas do coração: que o centro da nossa vida, que o núcleo da nossa interioridade seja diariamente consagrado a Deus. A circuncisão é uma marca de pertença. Essa marca não nos é mais dada em um órgão do nosso corpo, mas sim em nossa consciência, o lugar sagrado onde Deus habita (cf. Ap 7,3). Cuidemos dessa pertença! Deixemo-nos conduzir pelo Espírito de Deus (cf. Rm 8,14). Protejamos a nossa liberdade de filhos de Deus e não nos tornemos escravos de coisas, de pessoas ou de situações.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

FAMÍLIA: DO DESENCONTRO PARA O REENCONTRO

 Missa da Sagrada Família. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Cl 3,12-21; Lc 2,41-52.

 

O Natal nos leva a olhar para uma família: a família de Nazaré. Nela vemos o retrato de inúmeras famílias, atingidas pela pobreza (cf. Lc 2,7), pelo problema da imigração forçada (cf. Mt 2,14-15), pela ameaça da violência (cf. Mt 2,16-20) e pelos desencontros (Lc 2,43.45). Esses fatos nos ajudam a perceber que nenhuma família na face da terra está poupada de enfrentar problemas, e mesmo as famílias que buscam caminhar em Deus são atingidas por grandes dificuldades. Na verdade, toda família que quiser viver segundo os valores do Evangelho vai enfrentar a hostilidade de um mundo pautado cada vez mais em contravalores.

O primeiro lugar que o Evangelho precisa atingir, enquanto luz, força, conversão, cura, restauração e salvação, é, sem dúvida, a família. Não teria sentido nós, cristãos, sermos “sal da terra” e “luz do mundo” (cf. Mt 5,13.14) na sociedade humana e não o sermos primeiramente dentro de casa. Portanto, a família de cada um de nós é um campo de missão. É dentro dela que mais precisamos viver segundo o Evangelho, assim como também buscar na Palavra de Deus a orientação e a força para lidarmos com os problemas que atingem a nossa família. Se o Papa Francisco afirmou que “não podemos pretender ser pessoas saudáveis vivendo num mundo doente”, isso vale também para a nossa família: nenhuma família pode pretender passar por este mundo sem enfrentar os males que atingem a humanidade como um todo.

O Evangelho de hoje nos fala da perda e do reencontro do menino Jesus: “o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem” (Lc 2,43). “Sem que seus pais o notassem” – com a vida corrida que todos nós levamos, é bem possível que alguém esteja se perdendo dentro da nossa casa, sem que notemos. Nós estamos notando, percebendo, nos dando conta de como cada membro da família está? Será que alguma perda está acontecendo dentro do relacionamento conjugal, ou em relação aos filhos? Mergulhados como estamos nas redes sociais, seja devido ao trabalho, seja devido à distração, nós ainda estamos nos percebendo dentro de casa?

Na parábola do Pai misericordioso, Jesus deixou claro que aquilo que está perdido pode ser reencontrado, assim como aquilo que está morto pode voltar a viver (cf. Lc 15,24.32). Na casa da família de Zaqueu, Jesus afirmou que veio “procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). A primeira questão é tomarmos consciência daquilo que está se perdendo em nossa família. Além disso, é preciso modificarmos nossas atitudes, de modo a recuperar o que se perdeu e fazer viver o que morreu, ao invés de nos conformarmos com a “normalidade” da perda, com a “normalidade” da desestruturação das famílias.

O distanciamento da nossa Igreja em relação às famílias desestruturadas, feridas ou destruídas é um escândalo! Ao invés de cuidarmos das 99 famílias em situação de perda, nós ficamos girando em torno de uma única família que ainda se mantém em pé, justamente aquela que consideramos uma “família tradicional”. Falta-nos coragem e criatividade pastoral para nos fazer próximos, como Igreja, junto a toda família “não tradicional”, porque marcada pela separação, por novas uniões, e, sobretudo, por graves problemas como abuso sexual, violência doméstica, desemprego, doenças, endividamento, abandono escolar, ausência de qualquer referência religiosa etc. Esse imenso campo de missão precisa de todos nós, cristãos, e não somente dos líderes das nossas comunidades. É necessário que famílias evangelizem, amparem, curem e salvem famílias.

O livro do Eclesiástico deixou claro que Deus está onde um cuida do outro, onde pais cuidam dos filhos e filhos cuidam dos pais. Mas, como cuidar, se estamos esgotados, ou então fechados em nós mesmos? Uma atenção especial é pedida pelo Eclesiástico em relação aos idosos. A solidão e a sensação de abandono têm levado alguns idosos ao suicídio! Esse grito desesperado de ajuda precisa chegar aos nossos ouvidos. Para cuidarmos uns dos outros de maneira justa e equilibrada, precisamos nos lembrar de que “por trás de toda pessoa sobrecarregada, há sempre uma outra pessoa folgada”. A saúde emocional da família depende de que cada um faça a sua parte para o bom funcionamento da casa. É por isso que o apóstolo Paulo chama cada membro da família à responsabilidade: o marido, a esposa, os pais e os filhos (cf. Cl 3,18-21).

Retornando ao Evangelho de hoje, como foi que o desencontro se transformou em reencontro? Quando os pais de Jesus voltaram ao Templo: “Três dias depois, o encontraram no Templo” (Lc 2,46). O tempo de três dias é uma clara referência à morte e à ressurreição de Jesus, uma forma de o Evangelho nos dizer que aquilo que morreu pode voltar a viver. Nada está perdido e morto para sempre, quando a família se deixa conduzir por Deus, obedecendo à sua Palavra. O tempo de três dias também significa que há um tempo necessário para que a ferida seja curada, o perdão seja dado, o diálogo seja retomado, a distância seja transformada em proximidade. As coisas mais importantes da vida em família não são recuperadas instantaneamente, mas suportando o tempo necessário para que isso aconteça.

Enfim, consideremos o posicionamento de Jesus diante de seus pais: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). Aos doze anos de idade, Jesus tomou consciência do seu dever, da sua missão, do sentido da sua vida. Nós somos a geração do “eu quero”, não do “eu devo”. Pessoas imaturas se movem na vida apenas pelo “eu quero”: só fazem aquilo que querem, aquilo que lhes dá algum prazer ou lhes proporciona algum benefício. Pessoas maduras se guiam na vida pelo “eu devo”: não importa se eu estou com vontade ou não, se vou me beneficiar e ter prazer ou não; minha conduta é guiada pelo meu dever, pela minha missão. Quando os membros de uma família se movem apenas pelo “eu quero”, cada um vai numa direção e todos se perdem. Quando, pelo contrário, se guiam pelo “eu devo”, todos chegarão à meta para a qual foram chamados, porque se mantiveram fiéis à missão para a qual nasceram.   

 

 

Oração à Sagrada Família (Papa Francisco, Amoris Laetitia).

 

Jesus, Maria e José, em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor, confiantes, a Vós nos consagramos. Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evangelho e pequenas igrejas domésticas. Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado. Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do caráter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus. Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica.
Amém.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi