quarta-feira, 5 de abril de 2023

APESAR DE AMARGO, O CÁLICE DA DOR CONTÉM O VERDADEIRO REMÉDIO PARA A SUA FERIDA

 Sexta-feira da Paixão do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 52,13–53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1–19,42.

 

            Todo ser vivo é passível de sofrimento. Porém, a diferença entre nós, seres humanos, e as demais criaturas, é que elas não têm consciência do sofrimento, enquanto nós temos. Isso significa que temos a capacidade de dar um sentido para o nosso sofrimento. Além disso, é importante entender que “ser passível” de sofrimento não significa “sofrer de maneira passiva”. Muito pelo contrário; nós somos chamados a ter uma atitude ativa diante do sofrimento, a exemplo de Jesus, que estava “consciente de tudo o que ia acontecer” (Jo 18,4) e, diante da reação defensiva de Pedro, corrigiu-o por meio dessas palavras: “Não vou beber o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18,11).

            Como você lida com o cálice do seu sofrimento? Você tem consciência de que a cruz nem sempre é uma opção? Não importa qual sofrimento entra em nossa vida; nós sempre teremos liberdade para escolher como queremos lidar com ele. Alguns fogem do sofrimento por meio da bebida, das drogas e do suicídio por não tolerarem de modo nenhum a cruz chamada “frustração”, “perda”, “não”. Qual a sua capacidade de tolerância em relação a essas coisas? Ainda que instintivamente todos nós fujamos do sofrimento, sempre vai chegar a hora de nos deparar com uma dor que não escolhemos, mas que faz parte daquele capítulo da nossa história de vida. 

            Não é prudente termos tanta pressa em passar adiante o cálice que o Pai nos dá para beber. Apesar de amargo, esse cálice pode conter o único e verdadeiro remédio para nos curar da ferida do egoísmo, do narcisismo, do vício, do pecado, de atitudes nossas que estão levando nossa vida pessoal, familiar, profissional ou espiritual para a morte. O sofrimento não é a morte. A morte é a não aceitação de nenhum tipo de sofrimento, atitude que nos torna covardes diante da vida. 

         É verdade que o sofrimento é sempre feio e desagradável: “Tão desfigurado ele estava, que não parecia... ter um aspecto humano... Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse” (Is 52,14; 53,2). Nós vivemos numa sociedade que supervaloriza a beleza, a estética. No entanto, Deus pode se manifestar em nossa vida por meio de algo que não tenha beleza, que não tenha aparência que nos agrade. Se nós costumamos desviar o olhar de tudo o que é feio, de tudo o que nos lembra fraqueza, imperfeição, dor, envelhecimento e morte, o Cristo Crucificado nos ensina que também fazem parte da vida o deficiente, o fraco, o imperfeito, aquilo que consideramos feio, desprezível e sem importância. Se nós queremos ser curados, precisamos aprender a ouvir as nossas feridas, e não fazer de conta que elas não existem.

        Não há dúvida de que o sofrimento nos causa repulsa. No entanto, o fruto dele é extremamente benéfico para nós: “suas feridas, o preço da nossa cura” (Is 53,5). Toda dor nos ensina a repensar os nossos valores, a nos perguntar se nós ainda sabemos distinguir entre o essencial e o supérfluo. Além disso, ao derrubar nosso orgulho e nossa autossuficiência no chão, ao desmontar os nossos esquemas, a Cruz nos faz enxergar que até mesmo quando fracassamos aos olhos dos homens, até mesmo quando descemos no mais fundo do poço, justamente ali pode ser dar a nossa redenção, a nossa cura, a nossa salvação.

            O dia de hoje convida você a entregar a sua dor aos pés da cruz de Cristo. Talvez neste momento você esteja se sentindo como o salmista: “... tornei-me como um vaso espedaçado” (Sl 31,12), espedaçado porque você se confiou a mãos erradas, ou por que descuidou de si mesmo(a). Seja como for, este é o momento de você recolher seus pedaços e apresentá-los diante da cruz de Cristo, dizendo: “A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio... Eu entrego em vossas mãos o meu destino; libertai-me do inimigo e do opressor” (Sl 31,15-16).

            Da mesma forma, o autor da carta aos Hebreus nos convida a permanecer “firmes na fé que professamos” porque “temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas” (Hb 4,14.15), capaz de compreender nossa raiva, nosso ódio, nossa repulsa diante de tantas cruzes impostas injustamente sobre os ombros de tantas pessoas, pois Ele mesmo experimentou a raiva, o ódio e a repulsa dos homens. Somos convidados a nos aproximar da cruz não como o lugar da derrota do Filho de Deus, mas como o lugar que se tornou para nós o trono da graça: “Aproximemo-nos... com toda a confiança do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4,16).

            Ao contemplarmos a imagem de nosso Senhor morto na cruz, lembremos de como ele enfrentou a dor, o sofrimento, a cruz. Além de ter vivido tudo isso de maneira consciente e livre, Jesus questionou a violência injusta que existe no mundo: “Por que me bates?” (Jo 19,23). Ele também deixou claro a Pilatos que a sua vida sempre foi vivida sob a autoridade do Pai e que, sobretudo naquele momento de ir para a cruz, sua vida estava nas mãos do Pai e não nas mãos de algum ser humano (cf. Jo 19,11). Por fim, suas últimas palavras na cruz foram: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Assim como Jesus, que possamos dizer, na hora da nossa morte: ‘Consumei a missão que o Pai me confiou; combati o bom combate, terminei minha missão, guardei a fé (cf. 2Tm 4,7); fui fiel até à morte (cf. Ap 2,10); amei até o fim (cf. Jo 13,1).

            Uma palavra final: “Ao que feriram de morte, hão de chorá-lo, como se chora a perda de um filho único... Naquele dia, haverá um grande pranto em Jerusalém” (Zc 12,11). Permita-se chorar no dia de hoje. Chore por toda dor que ainda há no mundo, sobretudo pelos crucificados do nosso tempo. Chore por si mesmo(a), por seus pecados. Chore pela sua covardia diante da sua dor e, principalmente, pela covardia e individualismo que, diferente do Maria e do discípulo amado, não permitem que você esteja aos pés da cruz de quem sofre. Que essas lágrimas desobstruam a sua sensibilidade para a dor do outro e lavem seus olhos, para que você possa enxergar melhor Cristo em tantos que estão à sua volta.

 Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 4 de abril de 2023

A PERGUNTA CERTA: "O QUE EU TENHO A OFERECER À VIDA?"

 Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

 

            Nesta noite começamos a celebração da Páscoa. Toda a nossa caminhada quaresmal nos trouxe a esse momento, o momento de fazer a passagem, o momento de permitir que Deus nos faça passar da escravidão para a liberdade, da tristeza para a alegria, do desespero para a esperança, da morte para a vida.

Nesta noite, fazemos a memória (atualização) da entrega de Jesus, entrega que, antes de se dar na cruz, deu-se na última Ceia: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão... ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós’... Depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue’” (1Cor 11,23.24.25). De fato, Jesus havia afirmado: “Ninguém tira a minha vida. Eu a dou livremente” (Jo 10,18). Jesus celebra a última Ceia com seus discípulos “entregando-se livremente” porque escolheu viver sua vida a partir de uma pergunta: “O que eu tenho a oferecer à vida”, diferente de muitos hoje em dia, que vivem a partir de uma outra pergunta: “O que a vida tem a me oferecer?”

            “Entrega” tem a ver com “sacrifício”, e sacrifício tem a ver com amor: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Essas palavras resumem a vida de Jesus: amou até o fim. Numa época em que se ama até se decepcionar, até se cansar, até encontrar algo diferente e mais atrativo, Jesus se coloca como modelo de pessoa que ama: “Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,15). Quando desistimos de amar até o fim, não fazemos a passagem que tanto necessitamos, a passagem que Deus deseja que aconteça em nossa vida.

A passagem dos hebreus da escravidão para a liberdade foi preparada por meio de um ritual: as famílias se reuniram, sacrificaram alguns cordeiros, passaram seu sangue nas portas de suas casas, comeram pães sem fermento e ervas amargas. Isso significa que, se queremos nos libertar do mal que nos escraviza e faz a nossa vida definhar, precisamos nos manter unidos (família), estar dispostos a nos sacrificar por aquilo e por aqueles que amamos (este é o sentido do cordeiro), carregar conosco o sinal da nossa fé (o sangue que marcou as portas), viver como pães sem fermento, isto é, como pessoas retas e justas, e nos lembrar do quão amarga se torna a nossa vida quando nos deixamos escravizar pelo pecado (ervas amargas).

            Na primeira páscoa da história da humanidade, o Senhor Deus permitiu que uma praga exterminadora passasse pela terra do Egito, ferindo de morte todo primeiro filho de cada família. No entanto, essa praga “pulou” as casas dos hebreus, protegidas pelo sangue dos cordeiros sacrificados. Hoje nossa fé é desafiada a crer no mesmo Deus de Israel, o Deus que nem sempre “pula” a nossa casa, permitindo que a doença, o desemprego, o luto, uma situação intensa de dor atinja a nossa família. É fácil crer em Deus quando Ele faz o mal “pular” a nossa casa. Mas como é difícil crer no Seu amor por nós quando nossa casa não é poupada da dor, da morte, de algum tipo de destruição! Aqui nós precisaríamos nos lembrar das palavras do Salmo 115,10: “Guardei a minha fé mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’”; ou ainda, o Sl 34,20: “Os males do justo são muitos, mas de todos eles o Senhor o liberta”.

            Na última Ceia, Jesus celebra a Páscoa da nova e eterna Aliança. Essa Páscoa é infinitamente superior à páscoa do Antigo Testamento, pois o próprio Jesus é o Cordeiro que se oferece livre e conscientemente para a salvação não só do povo de Israel, mas de toda a humanidade. Enquanto inúmeros cordeiros eram sacrificados sem saberem por qual motivo, Jesus é o Cordeiro que decide entregar a sua vida para nos salvar, tornando-se “corpo doado e sangue derramado”. Seu sangue é um sangue consciente, e justamente por isso, capaz de operar a redenção eterna, como está escrito: “não com o sangue de bodes e bezerros, mas com o seu próprio sangue, ele entrou no Santuário uma vez por todas, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12).

Após fazer a entrega do seu Corpo e do seu Sangue aos discípulos, Jesus ordenou-lhes: “Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24.25). “Memória”, no sentido bíblico, significa “atualização”. Através do seu Corpo e Sangue doados a nós no altar da Igreja, Jesus atualiza a sua presença junto a nós. Seu sacrifício na cruz foi oferecido uma única vez, mas “todas as vezes... que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26). Todas as vezes que comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor, estamos proclamando que Jesus nos amou e se entregou por nós; que Ele está presente em nosso meio, vivo, ressuscitado, e que “Ele virá uma segunda vez... para aqueles que o esperam, para lhes dar a salvação” (Hb 9,28).

A última Ceia foi um momento muito esperado e desejado por Jesus, mas também um momento muito difícil para Ele. Ali Ele revelou a traição de Judas e a negação de Pedro. Ali Ele deixou os discípulos conscientes de que todos eles fugiriam na hora da cruz e o deixariam só, “mas eu não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Ali Jesus nos deixou conscientes dessa verdade: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33). Comungar o Corpo e o Sangue do Senhor não significa sermos poupados de tribulações, mas revestidos de coragem para enfrentá-las, sem deixarmos de crer, amar e esperar até o fim!

A Eucaristia é o retrato vivo de Jesus. Ele sempre foi “corpo dado e sangue derramado”. Assim somos chamados a ser também: fazer da nossa vida uma oferenda agradável ao Pai; sacrificar parte do nosso tempo pelo bem da família, da Igreja, da sociedade, da humanidade, sobretudo pelo bem dos necessitados: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15). No mundo de hoje, lavar os pés uns dos outros significa perceber que, onde quer que estejamos, existe alguém que precisa de nós; significa, sobretudo, fazer a passagem da pergunta: “O que a vida tem a me oferecer?” para a pergunta: “O que eu tenho a oferecer à vida?”.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 30 de março de 2023

COMO ENFRENTAR MINHA HORA DE CRUZ?

 Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 27,11-54.


            Onde abrir uma empresa: no centro da cidade ou na periferia? Segundo a mentalidade de mercado, o centro é preferível à periferia. Ao enviar seu Filho ao mundo, o Pai não escolheu o centro, mas a periferia; não escolheu a capital Jerusalém, mas a pequena Belém e a insignificante Nazaré como lugares do nascimento e do crescimento de seu Filho. Mas hoje Jesus chega ao centro, à capital do seu País, porque ele mesmo disse que “não é bom que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13,33). Jerusalém, a capital, precisa ter consciência de que sua política e sua religião produzem morte, ao invés de vida. Da mesma forma, Jesus hoje entra em nossa capital, no centro da nossa vida, para que nós mesmos possamos nos dar conta se somos humildes ou arrogantes, promotores de guerra (montados sobre um cavalo) ou de paz (montados sobre um jumentinho); se florescemos aonde a mão de Deus nos plantou ou se vivemos lamentando por não ocuparmos um lugar central neste mundo marcado por vaidade e por competição; se nossas atitudes promovem vida ou morte à nossa volta.

            A vida de Jesus foi uma vida de discípulo de Deus. O discípulo primeiro ouve, escuta, aprende, para depois “levar uma palavra de conforto à pessoa abatida”. Hoje nós somos discípulos de Jesus. Como está a nossa escuta da sua Palavra (Evangelho)? Quais palavras saem da nossa boca: palavras que edificam, que consolam, que levantam e transmitem esperança, ou palavras que destroem, desanimam e afundam as pessoas no desânimo?

            Além disso, Jesus foi uma pessoa que enfrentou a realidade com suas adversidades e contrariedades. Ele não virou o rosto e não se desviou daquilo que cabia a ele enfrentar. Como nós nos comportamos diante da realidade? Fugimos dela? Nós a negamos ou a acolhemos como o tempo em que fomos chamados a viver e a testemunhar a nossa fé? Lembremos das palavras do Papa Francisco: “Não podemos esperar que tudo à nossa volta seja favorável, para só então vivermos de acordo com o Evangelho de Jesus”.

            Segundo o apóstolo Paulo, Jesus escolheu viver no mundo como uma pessoa vazia de si mesma, sem orgulho, soberba, arrogância ou vaidade, para que o Espírito de Deus pudesse habitar n’Ele, pois “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5). Ele escolheu obedecer a Deus, ao invés de usar Deus para se promover, para ter uma vida de sucesso e de fama. Como nós lidamos com os apelos de uma sociedade que cultua o ego, incentiva a vaidade e idolatra o narcisismo? Do quê precisamos nos esvaziar, para que a graça de Deus possa habitar em nós? Nossos joelhos se dobram diante do Senhor Jesus ou diante de coisas que nos escravizam?

            A narrativa da Paixão nos fala da maneira como Jesus lidou com a violência, a injustiça, a dor e a morte. Ele não respondeu às perguntas nem dos sumos sacerdotes, nem de Pilatos, porque sabia que eram homens que não estavam interessados na verdade: “‘Não estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?’ Mas Jesus não respondeu uma só palavra, e o governador ficou muito impressionado” (Mt 27,13-14). Nós ainda confiamos na força da verdade, ou também estamos convencidos de que a mentira é necessária para se sobreviver e obter sucesso no mundo atual?

            Diante da anistia pascal, a multidão escolheu Barrabás ao invés de Jesus. Existe hoje uma inversão de valores, uma identificação doentia com o mal, com o bandido, com o assassino, com o anti-herói. Como nós estamos em relação a isso? Os meus valores também estão invertidos? Jesus é modelo de ser humano para mim? É nele que eu me inspiro, para orientar minha conduta no dia a dia?

            Diante da escolha da multidão por Barrabás, Pilatos lavou as mãos: “Eu não sou responsável pelo sangue deste homem. Este é um problema vosso!” O povo todo respondeu: “Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos” (Mt 27,24-25). A Campanha da Fraternidade lembrou da nossa responsabilidade diante dos que passam fome: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Temos uma parcela de responsabilidade pelo tipo de sociedade em que vivemos. O sangue que é derramado injustamente perto de nós cedo ou tarde nos atingirá: “Ou nos salvamos todos, ou não se salva ninguém” (Papa Francisco, FT n.137).

            Estando crucificado, Jesus ouviu insultos: “Salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27,40). “A outros salvou... a si mesmo não pode salvar! Desça agora da cruz! e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama!” (Mt 27,42.43). A cruz de Jesus nos recorda que nós nem sempre escolhemos o tipo de sofrimento que vamos enfrentar, mas sempre podemos escolher a maneira de lidar com ele. A cruz também questiona a nossa imagem de Deus: Ele existe? Ele me ama? Por que permitiu esse sofrimento em minha vida?

Mas o mais perigoso é o fato de que a cruz nos faz experimentar a ausência, o abandono de Deus: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 24,46). Precisamos levar a sério as pessoas que não acreditam em Deus devido ao sofrimento que existe no mundo. Além disso, precisamos estar preparados para essa experiência terrível da ausência ou da sensação de sermos abandonados por Deus. “Jesus não duvida de sua existência nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona precisamente no momento em que mais precisa dele? Jesus morre na noite mais escura. Morre com um ‘por que?’ nos lábios” (Pagola, Jesus – aproximação histórica, p.484).

            A resposta do Pai se dá após a morte do Filho! “E eis que a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram. Os túmulos se abriram e muito corpos dos santos falecidos ressuscitaram! Saindo dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, apareceram na Cidade Santa e foram vistos por muitas pessoas” (Mt 27,51-53). O céu se rasga para acolher a oferenda do Filho em favor de toda a humanidade: “Ele provou a morte em favor de todos os homens” (Hb 2,9). O céu se rasga para dizer que Deus não aprova a violência e as injustiças que provocam a morte de tantas pessoas e que, aqueles que o mundo mata, Deus ressuscita. A força redentora da morte de Jesus se comprova na imediata ressurreição dos santos falecidos.

            Hoje, entregamos ao Pai nossa experiência de cruz e a crucificação de tantas pessoas que morrem injustamente em nosso mundo. Clamamos pela sua intervenção na face da terra (terremoto) e nos colocamos todos debaixo do véu rasgado, para receber do céu os benefícios da morte redentora de nosso salvador Jesus Cristo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 23 de março de 2023

JESUS É O SENHOR TAMBÉM DO MEU 4. DIA

 Missa do 5º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Ezequiel 37,12-14; Romanos 8,8-11; João 11,1-6.11.14-15.17.19-27.33-45

            Durante a experiência do exílio na Babilônia (séc. VI aC), o povo de Israel se sentia sepultado, morto, enterrado vivo. No entanto, junto desse povo estava o profeta Ezequiel; primeiro, para torná-lo consciente da sua responsabilidade no exílio (sua infidelidade); depois, para mantê-lo firme na fé e na esperança de que o exílio não duraria para sempre. Daí a promessa de Deus a esse povo: “Eu vou abrir as sepulturas de vocês... Vou fazê-los sair de dentro delas... Vou colocar o meu espírito em vocês, para que voltem a viver” (citação livre de Ez 37,12-14). Dentro de qual sepultura você se encontra nesse momento? O quê você sepultou, enterrou, por julgar que isso já está morto em sua vida? Qual é a sua responsabilidade diante daquilo que está morrendo ou morreu dentro de você?        

            Embora a promessa de Deus a Israel tenha se cumprido no ano 538 aC, quando Ciro, o rei Persa, derrotou a Babilônia e fez o povo de Israel voltar à sua terra, é em Jesus Cristo que temos a verdadeira ressurreição, operada pelo poder da sua Palavra, que faz passar da morte para a vida todo aquele que nela crê (cf. Jo 5,24-25). A ele chegou um pedido urgente de Marta e de Maria, a respeito da gravidade da doença de Lázaro, irmão delas: “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3). Ao ressaltar o amor e a amizade que Jesus tinha para com essa família, formada por três irmãos, o Evangelho está nos dizendo duas coisas: primeiro, o amor de Jesus por nós não significa que seremos blindados contra a dor e o sofrimento em nossa vida; segundo, quando a dor nos visita, não significa que Jesus ou o Pai não nos amem.

            “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3). A respeito de quantas pessoas hoje nós dirigimos essa mesma oração a Jesus? A quantidade de pessoas enfermas à nossa volta cresce sempre mais. Como afirmou o Papa Francisco, nós não podemos pretender ser saudáveis vivendo num mundo doente como o nosso. Justamente o mundo que, a partir da ciência e da tecnologia, nos promete uma vida sem dor e sem morte, também produz cada vez mais sofrimento e morte. Muitas pessoas estão enfermas física, psíquica ou espiritualmente. Nossa intercessão por elas é muito importante. 

Quando ouviu que este (Lázaro) estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava” (Jo 11,6). Apesar de Lázaro precisar urgentemente do socorro de Jesus, este permaneceu ainda dois dias onde se encontrava. Nossas urgências não têm o poder de forçar Deus a agir. Ele sabe da nossa situação; Ele ouve a nossa oração, mas é soberano na sua vontade. Se Ele não intervém no momento em que mais necessitamos, não é porque seja indiferente ao que nos acontece, ou porque não nos ame, mas porque tem um propósito maior para a nossa vida ou para a vida daqueles pelos quais oramos.

A verdade é que Jesus permitiu que Lázaro morresse, e o fez por nossa causa: “Lázaro está morto. Mas por causa de vocês, alegro-me por não ter estado lá, para que vocês creiam” (Jo 11,14-15). Jesus não quer que a nossa fé pare na morte. “Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens” (1Cor 15,19). Muito mais do que uma cura temporária, muito mais do que mais alguns anos de vida terrena, o que Jesus tem para nos oferecer é a vida eterna. Não podemos reduzir nossa fé em Cristo às nossas necessidades materiais e passageiras deste mundo. Todos nós já enterramos pessoas, sonhos, alegrias e esperanças. Mas hoje Jesus nos convida a desenterrar a nossa fé. Todos nós já perdemos pessoas e coisas em nossa vida, mas, diante dessas perdas, precisamos recuperar a nossa fé.

“Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias” (Jo 11,17). Até o terceiro dia, havia esperança de que algum milagre pudesse acontecer (cf. Os 6,2). Mas o quarto dia significa que não há nada mais que possa ser feito. Qual é o seu quarto dia? O quarto dia é a morte de um ente querido ou o fim do casamento; o quarto dia é tudo aquilo que não há mais como ser salvo ou mudado. O quarto dia nos diz: “Acabou, e é preciso aceitar esse fato!”. O quarto dia nos obriga a enterrar a nossa esperança e a sermos realistas: não há mais nada que possa ser feito. A única saída é enterrar o que morreu e tentar seguir em frente, vivendo um dia de cada vez.

Todos nós temos o quarto dia em nossa história de vida, e precisamos entregá-lo a Jesus. Só ele pode intervir nessa situação. Só ele pode ressuscitar o que morreu em nós. Só ele pode nos tirar de dentro das nossas sepulturas e nos fazer viver não mais a partir da fraqueza da carne, mas da força do Espírito (cf. Rm 8,8). Só ele é a Ressurreição e a Vida! E ele nos garante: “Teu irmão ressuscitará!”. Teu filho ressuscitará! Teu sonho, tua esperança e teu sentido de vida ressuscitarão! “Você crê nisso?” (Jo 11,26).

Àquele que crê, Jesus ordena de “tirar a pedra” que lacra a sepultura onde foi enterrada a sua esperança. A pedra precisou se retirada, para que Lázaro ouvisse a voz de Jesus, que gritou: “Lázaro, venha para fora!” (Jo 11,43). Nós também precisamos retirar a pedra que colocamos em cima de nós mesmos, em cima da nossa fé, quando decidimos não rezar mais, não ajudar mais ninguém, não frequentar mais nenhuma religião, não trabalhar mais, não estudar mais, não viver mais... “Lázaro, venha para fora!” (Jo 11,43). Que venha para fora tudo aquilo que você enterrou: sua fé, sua esperança, seu amor, seu sentido de vida, sua vontade, seus sonhos, seus projetos, sua vontade de voltar a viver...

Enquanto estiver na terra, a vida e a morte se farão sentir dentro de nós; ora desejaremos viver, ora morrer; ora veremos sentido em estarmos vivos, ora não; ora lutaremos e trabalharemos por um mundo melhor, ora desistiremos de tudo. Uma palavra nos ajuda a lidar com essa alternância de estado de espírito: “Embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça. E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8,10-11).

Segundo o apóstolo Paulo, o Espírito Santo é a garantia da nossa ressurreição (cf. Ef 1,13-14; 4,30). Retiremos a pedra! Abramos as nossas sepulturas, para que o sopro de vida que vem de Deus nos faça reviver. Clamemos Àquele que é nossa Ressurreição e nossa Vida! Não reduzamos a nossa fé em Cristo à vida presente, mas permitamos que ela nos abra à vida futura, na qual não haverá mais morte, nem luto, nem dor (cf. Ap 21,4).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 17 de março de 2023

DO NÃO ACEITAR ENXERGAR PARA O QUERER REALMENTE VER E SE RESPONSABILIZAR

 Missa do 4. dom. Quaresma. Palavra de Deus: 1 Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Efésios 5,8-14; João 9,1-3.6-9.13-17.24-25.31-41.

 

            Alguns não conseguem enxergar uma saída para a sua vida, uma solução para os seus problemas. Alguns não conseguem mais enxergar o valor da pessoa com quem convivem há anos. Alguns não admitem enxergar o mal que estão fazendo a si mesmos e aos outros. Alguns só enxergam seus próprios interesses.

            Existe um não poder ver, mas existe também um não querer ver. Ver, enxergar, também significa tornar-se consciente, e quem se torna consciente não tem desculpas para continuar a viver como vítima, nem de si mesmo, nem dos outros. Será que você quer realmente ver, ou prefere continuar vivendo como cego? Vivendo como cego, não preciso tomar decisões: os outros decidem por mim; não preciso assumir nenhuma responsabilidade: posso me esconder dos desafios da vida atrás das mesmas desculpas de sempre.

            A cura do cego de nascença (Evangelho) nos fala da necessidade de corrigirmos a visão distorcida que temos em relação ao sofrimento, interpretando que quando Deus permite que uma pessoa sofra, é porque ela pecou: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9,2). Na época de Jesus, havia uma mentalidade que afirmava que era possível a uma criança pecar antes de nascer, quando ainda estava no ventre de sua mãe. Jesus corrige essa visão distorcida, ao afirmar: “Nem ele, nem seus pais pecaram” (Jo 9,3).

O Evangelho nos fala de visões que se chocam: de um lado, os fariseus, que veem Jesus como “um homem que não vem de Deus, porque não guarda o sábado” (Jo 9,16), e os judeus, que veem Jesus como “um pecador” (Jo 9,24); de outro, o homem que era cego e que vê Jesus como “um profeta” (Jo 9,17), como “um homem que veio de Deus” (Jo 9,33). Quantas pessoas estão cegas, seja pelo fanatismo, seja pela ignorância? Quantas pessoas são doutrinadas por líderes políticos ou religiosos, por influencers, youtubers etc.?

Jesus afirmou que a verdade do seu Evangelho provoca uma reviravolta, fazendo com que “os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). Os fariseus, que se julgavam ter uma visão esclarecida a respeito de tudo, não aceitam enxergar Jesus como Salvador, coisa que o cego de nascença enxergou não somente com seus olhos físicos, mas também com os olhos da sua fé (cf. Jo 9,38)! Desse modo, um relato que começou acusando um cego de nascença de ser pecador terminou relevando que o pecado não consiste em ter nascido cego (Jo 9,2-3), mas em insistir em não ver, em não querer enxergar (Jo 9,40-41).

            Depois de curado por Jesus, o cego começou a ver as coisas de uma outra forma, a ponto de não ficar mais em silêncio diante dos fariseus e de questioná-los pelo fato deles não quererem enxergar que Jesus era um homem de Deus (cf. Jo 9,30-33)! É assim que Jesus nos quer! Não homens e mulheres fatalistas, sentados à beira do caminho da vida, com os olhos fixos na tela de um celular, anestesiados por vídeos e imagens que nos mantêm distraídos, paralisados, sem dar passos concretos na direção da mudança que o próprio Deus quer que busquemos, para nós e para a sociedade.

O conflito entre os judeus e o homem que era cego fez com que este fosse expulso da sua comunidade religiosa (cf. Jo 9,34). Quando começamos a enxergar melhor as coisas, passamos a enfrentar conflitos com pessoas que até então nos impunham a sua maneira de ver. Mas existem certos rompimentos que são necessários. Quando começamos a ver com um pouco mais de profundidade, entendemos que precisamos nos afastar de pessoas e de hábitos que são nocivos, que nos adoecem, por nos oferecerem uma visão distorcida da realidade.

Assim como Jesus conversou com o homem que havia sido expulso da comunidade, ele nos pergunta se estamos dispostos a continuar aprofundando a nossa visão, compreendendo melhor a nós mesmos, os outros e à própria vida. Jesus nos convida a aceitar o desafio de permitir que certos acontecimentos quebrem com a imagem que temos de Deus, uma imagem distorcida, incorreta, que precisa ser reformulada porque não está sendo suficiente para sustentar a nossa fé frente aos acontecimentos do mundo atual.

“Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” (Ef 5,14). Desperte! Pare de depender da visão dos outros. Aprenda a enxergar com seus próprios olhos. Não aceite mais ser guiado(a) na vida por pessoas erradas. Lembre-se de que “se um cego conduz outro cego, ambos acabarão caindo num buraco” (Mt 15,14). Como é que um viciado em droga pode ajudar alguém que está querendo sair das drogas? Como é que uma pessoa que vive praticando adultério pode aconselhar positivamente alguém com problemas no seu relacionamento conjugal? Perceba quem é que influencia a sua visão a respeito do casamento, da família, da sexualidade, da política, do meio ambiente etc. Não tenha medo de romper com pessoas e situações que desejam manter você na cegueira, na ignorância de si mesmo e das possibilidades de mudança. Deixe-se conduzir pela luz do Senhor e da sua Palavra!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de março de 2023

DE QUAL FONTE ESTOU BEBENDO, PARA SACIAR MINHA SEDE DE SENTIDO?

 Missa do 3º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-7.9-10.14-26.29-30.39-42 (forma breve).

 

            A sede, assim como a fome, é uma necessidade básica que exige ser satisfeita. Saciar a sede é até mais importante do que saciar a fome, pois um ser humano consegue ficar dias sem comer, mas não sem beber água. Água é vida. Sobretudo na Sagrada Escritura, nascida no Oriente Médio, lugar árido e de escassez de água, a água é tão essencial para a vida que chega a ser comparada ao próprio Deus, que descreve a si mesmo como “fonte de água viva” (Jr 2,13).  

            Nós, seres humanos, temos diversos tipos de sede: sede de amor, de paz, de afeto; sede de justiça, de oportunidade, de igualdade; sede de fé, de esperança, de Deus (cf. Sl 42,2-3; 63,2). Não basta tomarmos consciência de que estamos com sede; precisamos identificar qual é a nossa sede para não darmos uma resposta errada a ela, tentando preencher vazio com vazio (a cisterna furada de Jr 2,13). Além disso, como nos mostrou o texto do Êxodo, suportar a sede é o preço que às vezes temos que pagar para sermos livres. Na sede que sentiu em determinado ponto da travessia pelo deserto, Israel preferiu voltar a ser escravo no Egito. O sofrimento causado pela abstinência de droga, por exemplo, é uma sede que precisa ser suportada, em vista da libertação do vício da droga. Isso vale também para outros vícios. Nós precisamos aprender a suportar determinadas sedes, se queremos nos libertar do mal que certas águas intoxicadas causam em nós.

            Jesus apresenta-se no Evangelho como verdadeira fonte de água viva. Cansado e com sede – era meio dia! –, ele se senta junto ao poço de Jacó e pede a uma mulher samaritana: “Dá-me de beber!” (Jo 4,7). Ao fazer esse pedido, Jesus está quebrando duas barreiras que existiam na sua época – um judeu não dialoga com um samaritano, assim como também um homem não dialoga com uma mulher em público. Quais barreiras existem entre você e Jesus, ou entre você e as pessoas das quais Jesus quer que você se aproxime?  

            Diante do espanto da mulher, Jesus lhe diz: “Se conhecesses o dom de Deus...” (Jo 4,10). Jesus é o verdadeiro e grande dom de Deus para saciar a sede de sentido de vida de cada ser humano! Além disso, o fato de Jesus ser “dom de Deus” significa que, para você poder beber da sua fonte de água viva, basta uma coisa: que tenha sede: “Quem tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37). Jesus não disse: ‘Quem não vive em pecado, venha a mim e beba’ ou ‘Quem está com os sacramentos em dia, venha a mim e beba’. A condição para ter acesso à água viva que Jesus tem a oferecer é uma só: ter sede, o que significa sentir a necessidade de que precisa ser salvo; ter a consciência de que a sua cisterna está furada e não dá para continuar tentando preencher vazio com vazio.

            Qual é a sua sede, nesse momento? Como você tem procurado saciá-la? De onde você tem procurado beber, para que sua vida tenha sentido? Diante da promessa de Jesus de oferecer não apenas água, mas “água viva”, água que faz a pessoa sentir-se viva a partir de dentro, a mulher pediu: “Senhor, dá-me dessa água” (Jo 4,15), e Jesus lhe provocou: “Vai chamar teu marido e volta aqui” (Jo 4,16), e a mulher confessou a verdade: “Eu não tenho marido” (Jo 4,17). A salvação que Jesus veio nos trazer é um “dom de Deus”, mas a recepção desse dom passa pela abertura à verdade. Em outras palavras, a nossa sede mais profunda só pode ser saciada quando temos a coragem de reconhecer as mentiras que escondemos dentro de nós.

“Disseste bem, que não tens marido, pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade” (Jo 4,18). Por que Jesus toca na questão do marido daquela mulher? Porque, na Bíblia, Deus se define como “marido”, como “esposo” do seu povo, assim como o próprio Jesus é definido como “Esposo da Igreja” (cf. Ef 5,25ss.). A mulher samaritana representa o seu próprio povo, cuja religião sofre a influência de cinco crenças diferentes. Quando a mulher reconhece que o homem com quem vive não é seu marido, está dizendo que ela ainda não fez uma experiência verdadeira de Deus em sua vida.

Para quantos de nós Deus ainda não é Marido, Esposo? Quantos de nós ainda não experimentamos verdadeiramente o Deus que é amor? Quantas coisas ou pessoas estão ocupando o lugar que só pode ser ocupado por Deus, dentro de nós? O lugar de Deus, na vida de muitas pessoas, foi ocupado pelo consumismo, por algum tipo de vício, por doutrinas religiosas doentias e escravizadoras, pelos bens materiais, por uma sexualidade compulsiva e pervertida, pelas redes sociais etc. Não é de admirar que a ansiedade, a depressão, o tédio, a perda de sentido para a vida etc., encontrem tanto espaço dentro das pessoas do nosso tempo. A sede mais profunda continua gritando dentro delas, uma vez que não fizeram uma experiência com o Deus que é “fonte de água viva” (Jr 2,13).

Tendo encontrado em Jesus a coragem para se confrontar com a sua verdade, a mulher samaritana voltou para a sua cidade testemunhando: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?” (Jo 4,29). E o Evangelho afirma que “muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher” (Jo 4,39). Estamos no Ano Vocacional. Nossas cidades estão cada vez mais paganizadas – a maioria das pessoas vive como se Deus não existisse. Nossa presença na cidade é uma presença cristã, uma presença que desperta nas pessoas o desejo de conhecerem Jesus Cristo e de permitirem que a verdade do Evangelho as liberte de suas mentiras? Nós já aprendemos com Jesus a dialogar com as pessoas sobre a sede que elas sentem, sem impor-lhes doutrinas religiosas que nada dizem à vida delas?

Quando Jesus fez o convite: “Quem tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37), estava se referindo ao dom do Espírito Santo, água viva, chamado pela Igreja de “Senhor que dá a vida”. Segundo o apóstolo Paulo, ele é o amor de Deus (Marido, Esposo), derramado em nossos corações (cf. Rm 5,5). Clamemos pelo reavivamento desse amor em nossos corações. Mergulhemos nessa fonte de água viva, que chega a nós pelo peito aberto de Jesus na cruz. Abandonemos nossas cisternas furadas e busquemos com sinceridade Aquele que é nossa fonte de água viva, o único que sacia nossa sede de sentido de vida.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 2 de março de 2023

COMO LIDAR COM SITUAÇÕES DE DESFIGURAÇÃO?

 Missa do 2º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

 

Estamos entrando na segunda semana da nossa caminhada para a Páscoa, para a passagem que necessitamos que Deus realize em nossa vida: do medo para a coragem, da escuridão para a luz, da tristeza para a alegria, da escravidão para a liberdade; em resumo, de uma situação de morte para uma situação de vida. Já vimos, no primeiro domingo da Quaresma, que essa passagem não depende somente de Deus, mas também de nós mesmos, sobretudo em relação à nossa maneira de lidar com as tentações, pois o diabo não quer que essa passagem seja feita. Hoje, no segundo domingo da Quaresma, essa passagem ganha uma nova compreensão: todos necessitamos passar de uma situação de desfiguração para uma situação de transfiguração.

Antes de olharmos para a transfiguração de Jesus, precisamos olhar para a desfiguração de Abraão. A vida dele e de Sara estava desfigurada por três motivos: a idade avançada de ambos (aproximação da morte), a ausência de filhos (esterilidade de Sara) e o fato de não terem um pedaço de terra nem mesmo para serem sepultados. Em outras palavras, a vida de Abraão e Sara estava interrompida, sem perspectiva de futuro. Essa situação de desfiguração só mudou, só se transfigurou, porque Abraão aceitou sair, aceitou caminhar com Deus, mesmo sem saber para onde iria.

Cada um de nós precisa se perguntar: minha vida está paralisada? Qual situação está me desfigurando neste momento? Qual é a minha disposição em sair, em romper com minhas precárias seguranças humanas, e aceitar caminhar com Deus, aceitar que Ele interfira na minha vida e alargue o horizonte da minha história? Não basta reclamarmos daquilo que está desfigurado em nós. É preciso tomarmos a coragem de sair, de nos levantar do desânimo e da prostração, de entregar a direção da nossa vida a Deus, que tem algo novo a nos oferecer, que tem o poder de transfigurar a nossa vida. A passagem da desfiguração para a transfiguração começa por uma atitude nossa: aceitar caminhar com Deus, obedecendo à orientação da sua Palavra em nossa forma de conduzir a nossa existência.    

Olhemos agora a transfiguração de Jesus. Jesus sempre viveu no meio de pessoas desfiguradas pela doença, pela fome, pelo maligno, pelo pecado e pela rejeição religiosa e social da sua época. Além disso, como qualquer um de nós, ele também se sentiu desfigurado algumas vezes pelo cansaço, pela fome, pelo desencanto com uma religião que se importava com a Lei, mas não com a vida das pessoas, pelas próprias tentações que sofreu e, especialmente, pela consciência de que a sua vida estava caminhando na direção da morte de cruz (cf. Mt 16,21-28). Desse modo, Jesus sobe a montanha levando consigo sua própria desfiguração, bem como a desfiguração de toda a humanidade. Seu subir à montanha tinha um único propósito: falar com o Pai sobre a desfiguração que ele estava experimentando no seu ministério.

Toda e qualquer situação de desfiguração que passamos precisa ser entregue a Deus, por meio da oração, pois Ele é “o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação” (2Cor 1,3). Diariamente precisamos sair da planície e subir a montanha para nos colocar na presença de Deus e falar com Ele sobre as situações que desfiguram a vida nossa e da humanidade. O Evangelho é muito claro: Jesus “foi transfigurado” diante de Pedro, Tiago e João. A transfiguração não é algo que eu ou você tenha a capacidade de produzir, mas é obra do Deus de toda a consolação em nós. Só Ele pode nos dar discernimento diante daquilo que está desfigurado em nós e no mundo, e nos apontar o caminho da transfiguração.

Durante a experiência de transfiguração de Jesus, aparecem Moisés e Elias, porque Jesus se encontra na esfera celeste, na glória de Deus, onde já estavam esses homens justos. Moisés e Elias não são espíritos que descem à montanha para falar com Jesus, mas é Jesus quem sobe até a esfera celeste para se encontrar com o Pai e receber dele a força para enfrentar as situações de desfiguração. E assim, a presença do Pai envolve Jesus e os três discípulos por meio de uma nuvem luminosa, confirmando Jesus como “filho muito amado”, a quem nós, seus discípulos, devemos ouvir, sobretudo nos momentos de desfiguração.

Se as situações de desfiguração costumam nos jogar por terra, Jesus transfigurado toca em nós e nos encoraja: “Levantem-se e não tenham medo” (Mt 17,7). Deus quis que Pedro, Tiago e João testemunhassem a transfiguração de Jesus para que nós, seus discípulos, entendamos que enfrentar situações de desfiguração faz parte da vida de todo ser humano. No entanto, sempre poderemos encontrar em Deus momentos de transfiguração, quando nos confiamos às suas mãos e recebemos d’Ele a força para continuarmos a nossa missão de ajudar a transfigurar o mundo em que vivemos. Neste sentido, a Campanha da Fraternidade nos desafia a transfigurar aqueles que à nossa volta estão desfigurados devido à fome.     

Enfim, lembremos do apelo do apóstolo Paulo: “Sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus” (2Tm 1,8b). Viver segundo o Evangelho e anunciá-lo a esse mundo cujos valores estão invertidos comporta sofrimento para todo discípulo de Jesus. No entanto, o Deus de toda consolação nos consola em nossas aflições e nos sustenta pelo poder do seu Espírito. O importante é compreendermos que nem Jesus, nem qualquer discípulo, seu teve uma vida permanentemente transfigurada. Enquanto estivermos nesse mundo, experimentaremos momentos de desfiguração e momentos de transfiguração. Sobretudo nos momentos de desfiguração, cabe nos perguntar se ela é fruto de atitudes erradas da nossa parte, fruto das injustiças sociais que devemos combater ou fruto da cruz que nos cabe enfrentar. Quanto à nossa transfiguração definitiva, ela permanece como promessa no horizonte da nossa existência, quando Jesus vier nos fazer subir com ele a montanha eterna, que é o Reino de Deus (cf. Fl 3,20-21).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi