terça-feira, 14 de junho de 2022

QUEM COMUNGA O CORPO DE CRISTO DEVE "VIVER PARA"

 Missa do Corpo e Sangue do Senhor. Palavra de Deus: Gênesis 14,18-20; 1Coríntios 11,23-26; Lucas 9,11b-17.

 

Antes de falarmos da Eucaristia como sacramento, devemos falar dela como alimento. Ela é o sinal mais claro de que Deus não apenas criou o ser humano, mas que também lhe deu os meios de sobrevivência, através do alimento. “Em Ti esperam os olhos de todos e no tempo certo Tu lhes dás o alimento: abres a Tua mão e sacias todo ser vivo com fartura” (Sl 145,15-16).

O Evangelho nos mostra que Jesus nunca ignorou a necessidade das pessoas que procuravam por Ele: “Acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam”. Os discípulos, por sua vez, quiseram se livrar do problema da fome das multidões: “Despede a multidão, para que possa ir aos povoados e campos vizinhos procurar hospedagem e comida, pois estamos num lugar deserto”. Mas Jesus disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A fome não é apenas um problema econômico, político ou social, mas também religioso. Ela não é “natural”, mas “produzida”, “fabricada”. Ela nasce da ganância do coração de alguns: "Na terra há o suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas não para satisfazer a ganância de alguns" (Ghandi).

Enquanto cristãos, não podemos celebrar a Eucaristia sem levar em conta a fome que está à nossa volta. Hoje, no Brasil, apenas quatro entre dez famílias tem acesso pleno à alimentação. 33 milhões de brasileiros estão com fome diariamente! Essa fome não é acidental, mas fruto de uma política econômica que favorece quem tem muito e prejudica quem tem pouco ou quase nada. O que nós, cristãos, temos a ver com isso? A resposta está em Atos 4,32.34: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles (os primeiros cristãos) era comum... Não havia entre eles necessitado algum”.  A nossa postura diante da fome à nossa volta revela o que a Eucaristia significa para nós; revela se nós nos recordamos que Aquele que comungamos é o mesmo que nos dirá no julgamento: “Vinde, benditos de Deus Pai, (...) porque tive fome e me destes de comer...”, ou então “Afastai-vos de mim, malditos, (...) porque tive fome e não me destes de comer” (Mt 25,34.35.41.42).

Quando os discípulos quiseram fugir da responsabilidade de lidar com a fome da multidão, Jesus lhes disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Eles responderam: “Só temos cinco pães e dois peixes”. Quando estamos diante de situações difíceis, costumamos nos desesperar ou desanimar, dizendo: “Não temos”, “isto é pouco”, “despede-os”, “que vão eles próprios comprar”. Diante de qualquer imprevisto, olhamos para nós mesmos, medimos nossas próprias forças e nos angustiamos, ao invés de olharmos para o Pai do céu, que é a fonte inesgotável de todo dom.

Ao tomar os pães e os peixes em suas mãos, Jesus elevou os olhos ao céu, para orientar o nosso olhar para o Pai, de quem tudo recebemos. A seguir, pronunciou a bênção, para devolver aquele alimento à sua verdadeira natureza, que é o de circular, dividir-se, gerar vida, energia, convivialidade. A carência foi vencida pela generosidade e pela gratuidade. O olhar de Jesus para o céu nos lembra que “o pouco com Deus é muito, e o muito sem Deus é nada”.

Consideremos agora a Eucaristia como sacramento. O apóstolo Paulo nos fala de Jesus como “corpo doado” e “sangue derramado”. Antes de ser entregue por Judas (cf. Jo 13,11), Jesus tomou a iniciativa de ele mesmo se entregar a nós, no pão e no vinho, para que todas as vezes que comermos desse pão e bebermos desse cálice possamos proclamar que ele morreu porque nos amou até o fim. Uma vez que sua morte foi uma Páscoa, a passagem dele deste mundo para o Pai, em cada Eucaristia proclamamos a morte e a ressurreição de Jesus “até que ele venha” (1Cor 11,26) para nos fazer assentar com ele à mesa do banquete no Reino de Deus. 

Hoje, em nossas igrejas, não são poucas as pessoas que não comungam. Isso nos preocupa? O apóstolo Paulo afirma que a decisão de comungar ou não deve partir da consciência da pessoa (cf. 1Cor 11,28-29). A nós, Igreja, cabe formar bem a consciência das pessoas quanto ao significado do Corpo e do Sangue do Senhor. São corajosas e questionadoras essas palavras do Papa Francisco: “A Eucaristia... não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (A Alegria do Evangelho, n.47). Na última ceia, Jesus se entregou como “remédio generoso” e como “alimento para os fracos” também a Judas e a Pedro, mesmo sabendo que, após a ceia, o primeiro iria traí-lo e o segundo iria negá-lo...

Sendo “corpo doado” e “sangue derramado”, Jesus sempre entendeu sua vida como vida doada aos outros, uma vida que se inclinou sobre as feridas e sobre os sofrimentos dos outros. Assim devemos fazer se queremos ser reconhecidos como discípulos de Jesus Cristo. Muitos de nós comungamos o Corpo e Sangue d’Aquele que veio para servir, mas não nos dispomos a assumir nenhum tipo de serviço em favor do Evangelho e do bem comum da sociedade. Devemos reconhecer que somos pessoas que comungam do sacrifício de Cristo, mas que às vezes achamos que não vale a pena nos sacrificar pela sociedade humana, pela verdade e pela justiça.

A existência de Jesus foi uma “existência para”. Nós, que comungamos o seu Corpo e Sangue na Eucaristia, somos chamados a “viver para”. O sentido da nossa vida não está em viver para nós mesmos, mas para aquela realidade ou para aquelas pessoas que precisam de nós.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de junho de 2022

O FOGO DO AMOR NOS FOI DADO PARA COMBATER O FRIO QUE VEM DE DENTRO

 Missa da Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Provérbios 8,22-31; Romanos 5,1-5; João 16,12-15.

 

            Existe uma história chamada “O frio que vem de dentro”. Conta-se que seis homens ficaram presos numa caverna por causa de uma avalanche de neve. Teriam que esperar até o amanhecer para receber socorro. Cada um deles trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira, ao redor da qual eles se aqueciam. Eles sabiam que, se o fogo apagasse, todos morreriam de frio, antes que o dia clareasse. Chegou a hora de cada um colocar sua lenha na fogueira. Era a única maneira de poderem sobreviver. O primeiro homem era racista. Ele olhou demoradamente para os outros cinco e descobriu que um deles tinha a pele escura. Então raciocinou consigo mesmo: “Aquele negro! Jamais darei minha lenha para aquecer um negro!”. E guardou-a, protegendo-a dos olhares dos demais. O segundo homem era um rico avarento. Ele olhou ao redor e viu um homem da montanha que trazia sua pobreza no aspecto rude do semblante e nas roupas velhas e remendadas. Ele calculava o valor da sua lenha e pensou: “Eu, dar a minha lenha para aquecer um preguiçoso, nem pensar!”. O terceiro homem era negro. Seus olhos faiscavam de ira e ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão ou de resignação que o sofrimento ensina. Seu pensamento era muito prático: “É bem provável que eu precise desta lenha para me defender. Além disso, eu jamais daria da minha lenha para salvar aqueles que me oprimem!”. E guardou sua lenha com cuidado. O quarto homem era um pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Esse pensou: “Esta nevasca pode durar vários dias. Vou guardar minha lenha”. O quinto homem parecia alheio a tudo. Olhando fixamente para as brasas, nem lhe passou pela cabeça oferecer a lenha que carregava. Ele estava preocupado demais com seus próprios pensamentos para dar-se conta de que poderia ser útil. O último homem trazia nos vincos da testa e nas palmas calosas das mãos os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido: “Esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei a ninguém, nem mesmo o menor dos gravetos!”. Com estes pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis. A última brasa da fogueira se cobriu de cinzas e, finalmente apagou. No alvorecer do dia, quando os homens do socorro chegaram à caverna encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha. Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de socorro disse: “O frio que os matou não foi o frio de fora, mas o frio de dentro”.

Essa história retrata o nosso tempo atual, marcado por um forte individualismo, pela falta de vontade de doar-se ao outro, pela indiferença para com o próximo e pela solidão que adoece cada vez mais pessoas. Diferente dessa história, o Pai, o Filho e o Espírito Santo jamais “morreriam” de frio, porque a lenha que os três possuem consigo se chama Amor. O Pai e o Filho se amam e se aquecem mutuamente nesse amor, amor que se chama Espírito Santo. Segundo o apóstolo São Paulo, “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). A questão é saber se estamos deixando nos conduzir por esse amor, que é o Espírito do Pai e do Filho em nós.

O Deus em quem nós cremos nunca foi só e nunca esteve só. “No princípio”, o Filho estava com o Pai: “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito” (Jo 1,1.3). Essa presença escondida de Jesus junto ao Pai aparece no livro dos Provérbios como sendo a Sabedoria: “Desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes das origens da terra... Eu estava ao seu lado como mestre-de-obras; eu era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença, brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens".” (Pr 8,23.30-31). Tudo o que o Pai criou foi a partir do Filho e em vista do Filho. O Filho é o encanto do Pai e sua alegria, enquanto Filho, é estar junto aos seres humanos, seus irmãos.

O Pai entregou ao Filho a tarefa de restaurar a criação, ferida e adoecida pelo pecado. Essa restauração recebeu o nome de “justificação”. “Diante de ti, nenhum ser vivente é justo” (Sl 143,2). O Filho nos deu na sua cruz a graça da justificação. Não somos pessoas justas, impecáveis; somos pessoas justificadas, perdoadas na cruz do Filho. Portanto, se recebemos do Filho a graça da justificação, podemos estar em paz com o Pai. A graça da justificação iniciou um processo em nós: estamos destinados a participar da glória, da comunhão de vida e de amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Justamente porque sabemos que estamos destinados à comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, podemos lidar com as tribulações da vida presente com alegria e esperança, “sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança” (Rm 5,3-4). A tribulação não existe para nos fazer desanimar, mas para treinar em nós a constância, a capacidade da resistência, da “suportação”, como diz o Papa Francisco. Não nascemos capazes de constância, mas nos tornamos capazes dela treinando, exercitando a nossa fé. A constância supõe entender a vida como um processo que pede de nós perseverança, e não como algo que podemos mudar à força e de maneira imediata.

A constância deve gerar em nós “uma virtude comprovada”, ou seja, uma vontade firme em nos tornarmos a pessoa que o Pai nos chamou a ser: pessoas configuradas ao seu Filho. A virtude provada ou comprovada é como o arco e flecha: o arco tensiona a corda para ter força suficiente de lançar a flecha e atingir o alvo. E qual é o alvo? Ele se chama esperança – a força que nos faz transcender, ultrapassar, enxergar a vida além do aqui e do agora. Essa esperança não é humana, no sentido de que não nasce das nossas capacidades, mas sim de uma certeza: o amor do Pai e do Filho foi derramado em nossos corações. Ele se chama Espírito Santo, força do alto. Por isso, essa esperança jamais nos decepciona, porque o Espírito Santo é a garantia da nossa redenção (cf. Ef 1,13-14; 4,30).

Celebrar a nossa fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo é também abraçar a nossa tarefa de sermos uma presença de comunhão onde há solidão, uma presença de amor onde há ódio ou indiferença, uma presença de relação onde há isolamento; numa palavra a tarefa de sermos presença onde há ausência. Há muito frio à nossa volta ameaçando matar congelados ambientes, pessoas, famílias, relacionamentos, comunidades, igrejas, cidades... Ofereçamos a lenha que a Santíssima Trindade nos deu, em vista de aquecermos com o fogo do amor tudo aquilo que está se esfriando no coração das pessoas à nossa volta.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 2 de junho de 2022

O SOPRO DA VIDA

 Missa de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; Romanos 8,8-17; João 20,19-23.

 

            Jesus “soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22). O sopro do Ressuscitado transmite vida. No filme “As crônicas de Nárnia”, este sopro de Jesus é representado pelo Leão (Aslam), que sopra sobre todas as criaturas que a rainha do gelo havia congelado, e eles ganham vida novamente. Este sopro de Jesus nos lembra que o Espírito Santo é tão necessário para a nossa vida quanto o ar que respiramos. Sem o Espírito Santo, sem o sopro de Deus, tudo morre: “Se tirais o seu respiro, elas perecem e voltam para o pó de onde vieram. Enviais o vosso espírito e renascem e da terra toda a face renovais” (Sl 104,29-30).

            Antes de soprar sobre os discípulos, comunicando-lhes o Espírito Santo, Jesus já havia dito a Nicodemos que o Espírito Santo é como o vento (cf. Jo 3,8). No dia de Pentecostes, “veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles (os discípulos) se encontravam” (At 2,2). O vento traz frescor e coloca as coisas em movimento. Mas, para que possamos sentir a sua ação em nós, precisamos abrir as portas e as janelas da nossa casa, do nosso ambiente de trabalho, da nossa própria vida. Foi isso que fez o Papa São João XXIII, em 1962, ao convocar o Concílio Vaticano II: abriu as portas e janelas da Igreja para que o Espírito Santo pudesse entrar e renová-la a partir de dentro.

            O vento vem de fora. Isso significa que a nossa escuta à voz do Espírito Santo exige nos abrir à realidade. Escutar o Espírito Santo exige de nós humildade e coragem, pois ele “sopra onde quer” (Jo 3,8). Uma Igreja aberta ao Espírito Santo é uma Igreja que se deixa questionar pela realidade do mundo atual, e não uma Igreja que vive fechada em seus próprios dogmas. Não somos nós quem dizemos ao Espírito Santo onde Ele deve soprar; a nós cabe receber o vento do Espírito e nos deixar conduzir para onde Ele quer nos levar: “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo é ir aonde devemos ir, e não aonde gostaríamos de ir (cf. At 20,22).

            Se o vento simboliza a presença invisível do Espírito Santo no discípulo de Jesus, sua imagem visível, no dia de Pentecostes, foram as línguas como que de fogo: “Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (At 2,3-4). O sopro emite calor. O sopro do Ressuscitado transmitiu o calor da vida nova ao coração dos discípulos. Nossas palavras nascem do sopro que sai de dentro de nós, passam pelas nossas cordas vocais e emitem sons. As palavras que o Espírito Santo transmite comunicam diálogo, entendimento, comunhão, unidade. Todo cristão que com suas palavras alimenta discursos de ódio que favorecem a polarização dentro da Igreja não é movido pelo Espírito Santo, mas pelo espírito do mal, cuja finalidade é causar divisão, discórdia e separação.

            No dia de Pentecostes, o Espírito Santo capacitou os discípulos a anunciarem as maravilhas de Deus na língua que cada pessoa podia entender (cf. At 2,11). Sem o Espírito Santo, o anúncio do Evangelho às novas gerações é totalmente ineficaz. Só o Espírito Santo pode nos dar uma linguagem adequada para anunciar Jesus Cristo às pessoas do nosso tempo, de modo que o coração delas se sinta tocado, como aconteceu com os discípulos de Emaús: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32).

            O Senhor Ressuscitado comunicou o Espírito Santo aos discípulos em vista de uma missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). O Espírito Santo não é uma força de autoajuda para a nossa vida particular. Ele nos é dado em vista de uma tarefa, de uma missão: “Disse-lhes o Espírito Santo: ‘Separem para mim Barnabé e Saulo, para a obra à qual os destinei’” (At 13,2). A nossa existência é única e, por meio dela, há uma palavra única de Deus que o Espírito Santo deseja dizer à humanidade. Assim como Jesus foi ungido pelo Espírito Santo e passou por este mundo fazendo o bem (cf. At 10,38), assim a unção do Espírito Santo em nós será comprovada através do bem que pudermos fazer ao mundo no qual nos encontramos.

            Enfim, o apóstolo Paulo nos recorda de que existem duas vozes em nós: a voz do Espírito Santo e a voz da nossa carne (egoísmo). Cabe a nós escolhermos a partir de qual voz orientar as nossas atitudes (cf. Rm 8,8-9). Quem escolher viver segundo seu egoísmo, morrerá – perderá o sentido da vida –, mas quem escolher viver segundo o Espírito Santo terá sua vida plena de sentido. Além disso, quem se deixar ser conduzido pelo Espírito Santo não será dominado pelo medo, nem se sentirá sozinho neste mundo, mas terá em seu coração a certeza de pertencer a Deus como um filho amado.

            Segundo o apóstolo, o Espírito Santo garante, certifica, comprova que somos filhos de Deus, exprimindo em nós um clamor: “Abá - ó Pai!” (Rm 8,15). Esse clamor sempre esteve no coração e dos lábios de Jesus, dando-lhe a certeza de que o Pai sempre esteve presente em sua vida. Da mesma forma, o Espírito Santo afasta de nós o sentimento de solidão e de orfandade, fazendo-nos sentir amados e cuidados pelo Pai. Além disso, o Espírito Santo nos faz experimentar Jesus não como uma memória do passado, mas como uma presença atual, viva, dentro de nós, garantindo que, sofrendo com Cristo, nós também seremos glorificados com Ele junto do Pai.

            Especialmente neste dia de Pentecostes, clamemos ao Espírito Santo: “Espírito de Deus, enviai dos céus um raio de luz!  Vinde, Pai dos pobres, dai aos corações vossos sete dons. Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alívio, vinde! No labor descanso, na aflição remanso, no calor aragem. Enchei, luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós! Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele. Ao sujo lavai, ao seco regai, curai o doente. Dobrai o que é duro, guiai no escuro, o frio aquecei. Dai à vossa Igreja, que espera e deseja, vossos sete dons. Dai em prêmio ao forte uma santa morte, alegria eterna. Amém” (Sequência de Pentecostes).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 25 de maio de 2022

SUA EXISTÊNCIA TEM UMA FINALIDADE?

 Missa da Ascensão de Jesus ao céu. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Lucas 24,46-53.

 

            Toda vida um dia terá o seu fim na terra. Toda vida biológica termina na morte. Mas, depois que Cristo morreu, ressuscitou, subiu aos céus e se assentou à direita do Pai, nós pudemos compreender que, muito mais do que um fim, a nossa vida tem uma finalidade: o Pai. Ao celebrarmos a subida de Jesus ao céu, recordamos que também nós “somos cidadãos do céu: de lá aguardamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso” (Fl 3,20-21).

A subida de Jesus ao céu revela que a finalidade da nossa existência é chegar ao Pai, estar na glória junto com Cristo, contemplar a Deus face a face, estar em comunhão definitiva com Deus, experimentar a remoção definitiva da morte, ter as nossas lágrimas enxugadas, os nossos sofrimentos cancelados e receber a recompensa pelos nossos esforços em vivermos segundo o Evangelho. A subida de Jesus ao céu não é apenas a sua glorificação, mas a garantia de que também nós estamos destinados à glorificação (cf. Rm 8,17). Ela é a “esperança à qual fomos chamados” (Ef 1,18); é o reconhecimento do Pai pela vida de todo filho Seu feita doação em favor da salvação da humanidade.

Alguém poderia cair no erro de achar que Jesus, ao subir ao céu, distanciou-se de nós, afastando-se dos dramas que marcam a história humana. Mas não! Ele entrou no céu “por nós” (Hb 6,20), “a fim de comparecer agora diante da face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24); Ele está junto do Pai como nosso advogado (cf. 1Jo 2,1), defendendo-nos da condenação causada pelos nossos pecados. Estando à direita do Pai, Jesus recebeu o poder sobre toda autoridade e força que se impõem a nós, seres humanos, na face da terra, sejam eles humanos ou espirituais. O Pai submeteu tudo ao poder redentor e libertador de seu Filho.

Jesus, a Cabeça da Igreja, está no céu, e nós, membros do seu Corpo, estamos na terra, mas não sozinhos, muito menos abandonados. Antes de subir ao céu, Jesus prometeu nos revestir da força do alto, que é o Espírito Santo: “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” (Lc 24,49). O Espírito Santo nos foi dado para nos animar a partir de dentro, para nos sustentar, para testemunhar que não somos órfãos, mas filhos de Deus Pai, homens e mulheres redimidos na cruz de Cristo e destinados à glória do céu.

Além de nos ajudar em nossa caminhada de fé, o Espírito Santo nos foi dado em vista de uma tarefa, de uma missão, que é levar as pessoas a conhecerem Jesus: “Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8). De cada três pessoas na face da terra, apenas uma foi alcançada pelo Evangelho de nosso Senhor. Além disso, muitos que um dia conheceram Jesus esfriaram na sua fé e deixaram de segui-Lo. Nossa tarefa é anunciar Jesus Cristo principalmente aonde o Evangelho ainda não chegou, ou aonde ele foi esquecido, ou deixou de encantar, de alimentar a esperança no coração humano.

Por falar em esperança, a celebração de hoje precisa nos questionar quanto às nossas atitudes: se somos de fato cidadãos do céu ou se nos tornamos homens e mulheres mundanos, pessoas que perderam a consciência de que sua vida tem uma finalidade. “Quem não faz nada para mudar este mundo, não crê em um mundo melhor. Quem não faz nada para eliminar a violência, não crê numa sociedade fraterna. Quem não luta contra a injustiça, não crê em um mundo mais justo. Quem não trabalha para libertar o ser humano do sofrimento, não crê em um mundo novo e feliz. Quem não faz nada para mudar e transformar nossa terra, não crê no céu” (Pe. José Antonio Pagola).

Não nos esqueçamos de que, no momento em que Jesus subiu ao céu, Ele nos deu a sua bênção, para podermos ser uma bênção para os outros, como Ele o foi: “Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu” (Lc 24,50-51). Não inutilizemos a bênção que recebemos! Não nos esqueçamos também de que, no momento da subida de Jesus ao céu, nós recebemos a promessa do seu retorno: “Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1,11). Como o próprio Jesus afirma no livro do Apocalipse: “Eis que eu venho em breve, e trago comigo o salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho” (Ap 22,12). 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 19 de maio de 2022

NÃO BUSCAR FORA AQUILO QUE ESTÁ DENTRO

 Missa do 6º dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 15,1-2.22-29; Apocalipse 21,10-14.22-23; João 14,23-29.

           

            Estamos caminhando para o final do tempo pascal. Daqui a alguns dias celebraremos a Ascensão de Jesus ao céu e, mais alguns dias, a vinda do Espírito Santo. Por isso, o Evangelho de hoje nos traz palavras de despedida de Jesus. Não se trata de uma despedida de quem vai se afastar dos seus discípulos; antes, se trata de uma despedida da presença externa de Jesus e da promessa da sua presença interna no coração de cada discípulo seu: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23).

                Embora nós desejemos muito ver e tocar em Jesus, Ele entende que o mais importante não é estar ao nosso lado ou diante de nós, mas dentro de nós. E a única forma de isso acontecer é estabelecendo com Jesus uma relação pautada não na obrigação, não no medo, nem na tradição, mas unicamente no amor. Esse amor se traduz numa atitude: orientar-se na vida pela Palavra de Jesus, contida no Evangelho que meditamos a cada dia. Mantendo no coração essa Palavra, Jesus e o Pai passam a morar em nós, a habitar o nosso coração. Isso explica por que muitas vezes não encontramos Deus: nós procuramos fora Aquele que está dentro de nós, como disse Santo Agostinho: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo”.

 No momento em que se despede dos seus discípulos, Jesus faz a promessa do Espírito Santo: “Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito” (Jo 14,25-26). Jesus se refere ao Espírito Santo como “Defensor”, como Aquele que está junto a nós, ao nosso lado, para nos sustentar no combate da vida. Nós necessitamos que o Espírito Santo nos defenda não apenas do mal, mas, sobretudo, que nos defenda do nosso medo, da nossa covardia perante a vida; numa palavra, que Ele nos defenda de nós mesmos, das nossas atitudes que sabotam a nós mesmos, que nos mantém presos ao pecado e que nos adoecem. O Espírito Santo é a voz de Jesus em nós: “No mundo, tereis aflições, mas coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33).

Enfim, ao se despedir dos seus discípulos, Jesus comunica-lhes a Sua paz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,27). Nós nos perguntamos: Como ter paz, num mundo marcado por tanta violência e por tantas guerras? Como ter paz, se nos sentimos ameaçados por doenças graves e incuráveis? Como ter paz, com tantos conflitos dentro de casa e no ambiente de trabalho? Como ter paz, quando nos falta trabalho e quando as dívidas nos atormentam? A paz que Jesus nos oferece nasce da absoluta confiança no Pai. “Eu não estou sozinho, pois o Pai está comigo” (Jo 16,32). Como pergunta o apóstolo Paulo: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as outras coisas?” (Rm 8,31-32).

A paz de Jesus não é a paz do mundo. Esta supõe que tudo à nossa volta esteja bem e nos seja favorável, mas a paz de Jesus não depende de circunstâncias externas. Ela é como a história do rei que fez um concurso, pedindo que os artistas fizessem um quadro que representasse a paz. Logo começaram a chegar ao palácio quadros de todo tipo. Uns retratavam a paz através de lindas paisagens com jardins, praias e florestas; outros a representavam através de arco-íris, alvoradas e crepúsculos. O rei analisou todos os quadros e parou diante de um que retratava uma forte tempestade com nuvens pesadas, redemoinhos de ventos e uma árvore arqueada abrigando, dentro de seu tronco, um pássaro que dormia tranquilamente.

Diante de todos os participantes do concurso, o rei declarou aquele quadro da tempestade o vencedor do concurso. Todos ficaram surpresos, e alguém protestou dizendo: “Mas... Majestade! Esse quadro parece ser o único que não retrata a paz!”. Então o rei respondeu com toda a convicção: “O pássaro dorme tranquilamente dentro do tronco apesar da tempestade lá fora. Esta é a maior paz que se pode ter: a paz interior”. Portanto, a paz que Jesus nos oferece não é a ausência de agitação no ambiente em que vivemos, mas o estado de tranquilidade interior que cultivamos diante das tempestades da vida.

Ainda uma palavra sobre a paz. Santo Inácio de Loyola, durante o seu período de enfermidade, compreendeu que a paz está profundamente relacionada com a vontade de Deus. Sempre que temos atitudes, fazemos escolhas ou tomamos decisões que nos afastam da vontade de Deus, nós perdemos a paz interior. Sempre que escolhemos viver segundo a vontade de Deus, nós sentimos paz, mesmo que viver segundo essa vontade nos custe algum sofrimento.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de maio de 2022

CHORAR PELA PERDA DO PASSADO OU ALEGRAR-SE PELA CERTEZA DO FUTURO?

 Missa do 5º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 14,21b-27; Apocalipse 21,1-5a; João 13,31-33a.34-35

 

            Para onde está dirigido o nosso olhar: para o passado ou para o futuro? Como nós estamos vivendo o tempo presente: lamentando-nos e cheios de tristeza por um passado que não volta mais, ou alegres e cheios de esperança por algo novo que Deus nos reserva no futuro?

            “Vi um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1). Vivendo numa época de grande dificuldade, de muito sofrimento, devido à intensa e violenta perseguição que a Igreja sofria no final do século I da nossa era, João viu o futuro: um novo céu e uma nova terra. Ele não viu isso por ser otimista, ou simplesmente por ter uma esperança humana, mas porque Deus o fez ver “além do véu” – apocalipse significa “re-velar”, tirar o véu. Assim também o Senhor Deus nos dirige a sua Palavra hoje convidando-nos a olhar para a frente, para o futuro, para além do véu da realidade presente, marcada pela deterioração.

            Sim. Muitas coisas se deterioram: relacionamentos, valores, sonhos e ideais; tudo o que é material se deteriora com o tempo, como, por exemplo, as construções. Se olharmos no espelho, perceberemos que nossa pele se deteriora a cada dia, e essa deterioração nos coloca diante do mesmo desafio acima mencionado: para onde eu estou olhando: para frente ou para trás? Meu coração está tomado pela tristeza em relação às coisas que não voltam mais, ou está habitado pela esperança em relação àquilo que Deus está criando, fazendo novas todas as coisas (cf. Ap 21,5)? Minhas mãos estão fechadas, tentando agarrar-se a um passado que não volta mais, ou estão abertas para receber o que o novo que Deus está me trazendo?

            “Passou o que existia antes” (Ap 21,4), assim como passará o que está acontecendo agora. A vida é dinâmica: nós nunca entramos na mesma água duas vezes, porque o rio corre constantemente. No rio da vida, precisamos escolher confiar e nos deixar conduzir pela correnteza, ao invés de desperdiçarmos nossas energias nadando desesperadamente contra a corrente, tentando recuperar algo que não nos pertence mais e que nem mesmo é necessário para o nosso presente. “Eis que faço novas todas as coisas... Estas palavras são dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5). Nossa fé está aberta para o futuro. Por isso mesmo, ela não pode se deixar abater por aquilo que se deteriora em nós no presente.

            Diante de um presente marcado por fortes contrariedades, Paulo e Barnabé convidaram os primeiros cristãos a se encherem de coragem e a “permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: ‘É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus’” (At 13,14). Para nenhum ser humano a vida é um vento que sopra sempre a favor; antes, às vezes os ventos sopram totalmente contrários. É preciso aprender a resistir a esses ventos contrários. “O vento pode soprar o quanto quiser: a montanha jamais se curva diante dele” (provérbio chinês). Toda contrariedade está aí para ser enfrentada, olhada nos olhos, encarada por nós. Se isso vale para qualquer pessoa, vale muito mais para um cristão que, assim como Jesus e os primeiros cristãos, se encontra num mundo que se opõe aos valores do Evangelho.

            “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 13,14). Não se entra no Reino de Deus sem sofrer porque o novo não nasce em nós sem dor, sem luta, sem coragem e perseverança da nossa parte. As lágrimas que agora choramos serão enxugadas por Deus. A morte que agora nos deteriora será extinta por Deus. O luto e a dor que agora nos entristecem darão lugar à consolação que vem de Deus. Estas palavras não são frases de otimismo barato ou de autoajuda; “estas palavras são dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5).

            Assim como nós, Jesus experimentou contrariedades na vida. Ele chorou, sofreu e morreu, mas recebeu a consolação de Deus; experimentou a verdade de que Deus faz novas todas as coisas sendo ressuscitado pelo Pai! Ele nos diz como devemos nos portar diante da vida e das suas contrariedades: não desistindo de amar. “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). O amor ao qual Jesus nos refere não é um sentimento, nem uma emoção, mas uma atitude, uma maneira de viver a vida: com coragem e perseverança. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, (Jesus) amou-os até o fim” (Jo 13,1). Eis o que Jesus nos pede: amar até o fim, e não até nos cansar ou nos decepcionar com as pessoas; amar até o fim, até que o nosso presente se abra ao futuro de Deus. Amar como Jesus nos amou é, sobretudo, amar quem não é amado; amar quando a deterioração chega; amar para além da pele...

            Como nos recorda o Papa Francisco, em tempos de “cultura do provisório”, nos quais as pessoas passam de uma relação afetiva para outra, é preciso amar com perseverança; amar não apenas dizendo um “sim”, mas protegendo este “sim”; um “sim” que diz ao outro que “poderá sempre confiar e não será abandonado, mesmo se perder o atrativo, se tiver dificuldades ou se se apresentarem novas possibilidades de prazer ou de interesses egoístas” (AL n.132). O amor com que Jesus nos amou enfrenta a deterioração e vai além dela, sabendo que “não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade. O amor, que nos prometemos, supera toda a emoção, sentimento ou estado de ânimo, embora possa incluí-los. É um querer-se bem mais profundo, com uma decisão do coração que envolve toda a existência” (AL n.163).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

A QUAIS MÃOS VOCÊ TEM SE CONFIADO?

 Missa do 4º dom. Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 13,14.43-52; Apocalipse 7,9.14b-17; João 10,27-30.

 

Todo ser humano nasce dependente dos cuidados de alguém. Na medida em que ele cresce, ganha autonomia e passa a cuidar de si mesmo. No entanto, essa autonomia não significa autossuficiência. Todo ser humano tem necessidade de pertença; mesmo sendo adulto, ele busca pertencer a alguém, a algum grupo; mesmo sendo adulto, ele busca se confiar a alguém, porque sente não só a necessidade de ser cuidado, mas também de ser orientado a respeito da vida. Isso significa que todo ser humano é, de uma certa forma, uma ovelha conduzida por um pastor. Portanto, a pergunta que precisamos nos fazer é quem, de fato, tem sido o nosso pastor, o nosso cuidador, o nosso orientador.

Até tempos atrás, instituições como Família, Escola e Igreja funcionavam como cuidadoras, orientadoras. Mas atualmente essas instituições estão em crise, e a grande maioria das pessoas está cada vez mais sem referência de cuidado e de orientação, o que faz com que cada um siga o seu caminho e tente sobreviver como pode, neste mundo individualista e profundamente desorientado. A consequência disso é uma humanidade que vive “como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), atingidas por uma profunda desorientação, desorientação esta que leva muitos a se confiarem a mãos erradas: mãos de lobos, e não de pastores; pior ainda, mãos de lobos disfarçados de pastores.

A esse respeito, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil afirma que nosso País está diante de “duas ameaças” que “merecem atenção especial. A primeira é a manipulação religiosa, protagonizada tanto por alguns políticos como por alguns religiosos, que coloca em prática um projeto de poder sem afinidade com os valores do Evangelho de Jesus Cristo... A segunda é a disseminação das fake news, que através da mentira e do ódio, falseia a realidade” (Carta em defesa da democracia nas eleições, 22/04/2022). Por que os falsos pastores conseguem arrebanhar muitos seguidores em nosso País? Porque somos um povo que tem preguiça de pensar; porque substituímos a leitura de livros por programas televisivos vazios e por filmes e vídeos da internet; porque nos deixamos arrastar pelas nossas emoções e não colocamos nossa razão para funcionar.

“As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10,27). O nosso desafio é identificar a voz de Jesus no meio do barulho e da correria da nossa vida moderna. Essa voz pode ser encontrada em nossa consciência, quando silenciamos; ela também pode ser encontrada no evangelho de cada dia, que a liturgia da nossa Igreja nos propõe. Ao mesmo tempo, nós precisamos ser a voz de Jesus para inúmeras pessoas que estão desorientadas à nossa volta, especialmente crianças e adolescentes que sofrem abuso dentro de casa ou que não tem quem os oriente no caminho da vida; jovens que estão perdidos nas redes sociais, seguindo “youtubers” ou “influencers” que os deixam ainda mais desorientados, tornando suas vidas vazias de sentido.    

Jesus disse, a respeito das suas ovelhas: “Elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão” (Jo 10,28). Aqui mais uma vez é preciso deixar claro: embora todos nós queiramos ser livres e autônomos, acabamos por nos confiar às mãos de alguém. A questão, portanto, é saber às mãos de quem eu tenho me confiado. Quem me orienta quanto à vida afetiva e sexual, quanto à vida profissional e financeira, quanto ao lidar com as minhas emoções e com as minhas necessidades espirituais? Quem eu sigo nas redes sociais? O que as postagens dessas pessoas acrescentam à minha vida? Aquilo que eu vejo todos os dias nas redes sociais fortalecem a minha liberdade ou a tornam frágil e incapaz de me ajudar a tomar decisões que sejam importantes para a minha vida?  

Nós somos livres para seguir e nos deixar orientar por quem quisermos. Não esqueçamos o que aconteceu com muitos judeus, na época de Paulo e Barnabé: “Era preciso anunciar a palavra de Deus primeiro a vós. Mas, como a rejeitais e vos considerais indignos da vida eterna, sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos” (At 13,46). Jesus, nosso Pastor, não exclui ninguém do seu rebanho; é a nossa resistência à sua Palavra que provoca a nossa autoexclusão. Ele deseja saciar e nossa fome e a nossa sede, nos conduzindo às fontes da água da vida (cf. Ap 7,16-17), mas nós temos liberdade de escolher continuar nos alimentando de conteúdos vazios nas redes sociais, conteúdos que nos causam desnutrição intelectual, emocional e espiritual. Jesus deseja conduzir cada ovelha do seu rebanho ao Pai, que enxuga as lágrimas de todos os rostos, mas muitos ainda preferem continuar se machucando e provocando para si mesmos situações que são de chorar e de lamentar.

“Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai” (Jo 10,29). Às mãos do Pai, que é maior que tudo o que nos acontece, queremos confiar hoje, em especial, as mães; elas que são, na sua grande maioria, modelos de pastor, de cuidado, de orientação – que se sintam cuidadas e orientadas pelo Pai. Pedimos ao Pai que sacie a fome e a sede de cada mãe, e a conduza às fontes da água da vida, saciando sua sede de afeto, de cura, de amparo, de perdão e de regeneração. Enfim, pedimos ao Pai que enxugue as lágrimas dos olhos de toda mãe que chora devido à desorientação dos seus filhos, devido às feridas do seu relacionamento conjugal ou devido às injustiças deste mundo. Que toda mãe sinta-se no colo de Jesus, Bom Pastor, nos braços do Pai, sanadas, cuidadas e guardadas para a vida eterna. Amém!  


Pe. Paulo Cezar Mazzi