quinta-feira, 18 de novembro de 2021

ESTE REI DEFENDERÁ OS QUE SÃO POBRES, E A VIDA DOS HUMILDES SALVARÁ

 Missa de Cristo, rei do Universo. Palavra de Deus: Daniel 7,13-14; Apocalipse 1,5-8; João 18,33b-37.

 

A figura do rei é bastante estranha para nós. No mundo atual, há pouquíssimos reis. Mas, no mundo bíblico, ela é uma figura muito forte. O rei ideal é aquele que exerce o domínio sobre seu povo em função de protegê-lo, ampará-lo, defendê-lo, garantindo-lhe vida e paz. No entanto, muitos dos reis que já existiram na terra se corromperam e abusaram do seu poder, tornando-se até mesmo tiranos. Também no mundo bíblico nós temos o registro de muitos reis que governaram o povo de Israel, sendo que somente quatro “fizeram o que agrada aos olhos de Deus”. Todos os demais foram rejeitados por Deus. É por isso que, no livro dos Reis, a frase que mais se repete é: tal rei “fez o que é mau aos olhos de Deus”.

O Salmo 72 nos apresenta o rei ideal como sendo aquele que “libertará o indigente que suplica, e o pobre ao qual ninguém quer ajudar. Terá pena do indigente e do infeliz, e a vida dos humildes salvará. Há de livrá-los da violência e opressão, pois vale muito o sangue deles a seus olhos!” (vv.12-14). O rei ideal é aquele que cuida de quem não é cuidado por ninguém, que valoriza quem o mundo despreza, que se coloca ao lado dos que estão desprotegidos e desamparados. A figura desse rei encontrou em Jesus a sua plena realização.

Jesus é o Rei-Pastor que veio buscar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, curar a que está ferida e restaurar as forças da que está abatida (cf. Ez 34,16). No entanto, Ele não aceitou ser “eleito” rei pelas multidões que encontraram nele uma espécie de “provedor” das suas necessidades. Isso ficou claro após ele ter saciado a fome da grande multidão: “Jesus, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo, sozinho, na montanha” (Jo 6,15). Jesus não veio nos manter numa atitude infantilizada perante a vida, de quem só espera receber, de quem é mantido na sua condição de dependência. Ele veio nos levantar, nos colocar em pé e nos tornar conscientes das nossas capacidades e responsabilidades.

Se a figura do rei nos lembra o domínio sobre um povo, Jesus é aquele que veio nos libertar do domínio do mal, do domínio da escravidão do nosso pecado, do domínio de toda situação injusta. Ele veio nos devolver a liberdade de exercermos o domínio sobre nós mesmos. Essa é a questão principal e mais difícil: ter domínio sobre si, sobre seus desejos, seus instintos e sua vontade. Jesus não nos quer dominados pelos vícios, pelo consumismo, pelas ideologias políticas, pela submissão ao dinheiro, pela Internet (redes sociais) e também pela religião.

Ao celebrarmos hoje Cristo, Rei do Universo, lembramos que “o Pai entregou ao Filho o poder sobre todo ser humano” (cf. Jo 17,2), o poder de redimir, salvar e dar a vida eterna a todo ser humano. Esse poder foi exercido a partir da cruz. A cruz foi o trono de Jesus. Sua coroa de espinhos indica que ele é o Rei ferido, o Rei que sente a dor de toda pessoa ferida na face da terra. Ele não é o Rei que derrama o sangue dos seus inimigos, mas o Rei que derrama o seu próprio Sangue para reconciliar tudo o que existe no Universo. De fato, Deus Pai quis “reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo sangue de sua cruz” (Cl 1,20).

A questão principal é: como podemos sair do domínio do mal que tudo adoece, arruína e destrói, e passarmos para o domínio de Cristo, que tudo liberta, cura e restaura? Deixemos com que o próprio Jesus nos responda: “Eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37). A única forma de permitirmos que Jesus reine sobre nós é nos confrontando com a Verdade. Para o mundo atual, não existe a Verdade, mas “verdades”: cada um tem a sua verdade; cada um tem a sua cabeça, a sua liberdade e a sua vontade; cada um faz o que quer. No entanto, a Verdade é uma Pessoa, a Verdade é Cristo. Seu Evangelho é a Palavra da Verdade. Somente esta Verdade nos liberta (cf. Jo 8,32).

Muitas pessoas adoecem e vivem submissas a algo ou a alguém que lhes faz mal porque não conhecem a verdade sobre si mesmas. Elas são como aquele elefante que cresceu amarrado a uma corda e não tem consciência de que ele tem força suficiente para arrebentar aquela corda e ser livre. Jesus é a Verdade que nos torna conscientes da força que nos habita. Quando usamos essa força, nos libertamos de muitas coisas que nos aprisionam e nos adoecem. O problema é que não são poucas as pessoas que preferem uma mentira que aprisiona do que a verdade que liberta. São pessoas que não querem responsabilizar-se pela própria vida, mas ter sempre alguém a quem culpar pela sua infelicidade, pelo seu fracasso.  

“Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37). Neste mundo cheio de mentiras, de máscaras, de aparências, de desinformação, de fake news, precisamos educar a nossa consciência para reconhecer a voz da Verdade em nós, voz que continuamente nos convida a sair do domínio daquilo que nos adoece e escraviza para vivermos sob o domínio daquele que é capaz de nos tornar verdadeiramente livres e capazes de autodomínio.

 

Oração: Senhor Jesus Cristo, reina sobre mim! Estende o teu domínio libertador e salvador sobre todo ser humano, especialmente sobre aquele que se encontram dominados pelo mal, pelo sofrimento, pelas injustiças e pelo pecado. Põe tua Verdade em nossos corações; liberta-nos de toda mentira, de todo autoengano. Que cada ser humano conheça a verdade a respeito de si mesmo e não se permita viver aprisionado na mentira que adoece, tira a paz e leva à autodestruição. Reina com tua Verdade e com tua Paz em nossas famílias, ambientes de trabalho, escolas e cidades. Podes reinar, Senhor Jesus! O teu poder teu povo sentirá. Que bom, Senhor, saber que estás presente aqui! Reina, Senhor, neste lugar!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

NO TEMPO DA ANGÚSTIA, TEU POVO SERÁ SALVO!

 Missa do 33. dom. comum. Palavra de Deus: Daniel 12,1-3; Hebreus, 10,11-14.18; Marcos 13,24-32

 

            No mundo em que vivemos, as mudanças não param de acontecer. Devido à tecnologia, o ritmo dessas mudanças está cada vez mais acelerado. Nem nosso cérebro, nem nosso emocional conseguem assimilar todas essas mudanças. Isso nos provoca angústia, insegurança, medo e aflição. Para onde estamos indo? Quem ou o que está  causando essas mudanças? Tudo isso gera em nós um sentimento de desorientação e de impotência.

            Contudo, o profeta Daniel nos oferece uma luz: “Será um tempo de angústia, como nunca houve até então, desde que começaram a existir nações. Mas, nesse tempo, teu povo será salvo” (Dn 12,1). Vivemos um tempo forte de angústia: desemprego, fome, imigração forçada, violência, banalização da vida, desestruturação familiar, suicídio, falta de perspectiva de futuro, doenças físicas e psíquicas, perda de fé, sentimento de ausência de Deus... Como afirmou o Papa Francisco, “nós não podemos pretender ser pessoas saudáveis num mundo doente”. Tudo o que acontece com o Planeta e com a humanidade nos afeta. Enquanto cristãos, somos parte de uma humanidade não somente ferida, mas que tem um estilo de vida que adoece.

Apesar do sentimento de angústia que marca o nosso tempo, confiamos que a nossa história não está nas mãos do acaso ou de um destino cego, mas nas mãos de Deus. Confiamos que, exatamente em meio a essa situação de angústia, “teu povo será salvo”. Essa salvação de Deus não se refere somente a nós, que ainda estamos na face da terra, mas também àqueles que já morreram. Para eles, haverá uma ressurreição que restabelecerá a justiça. Quando Deus faz justiça, Ele separa uma coisa da outra: “Muitos dos que dormem no pó da terra, despertarão, uns para a vida eterna, outros para a humilhação eterna” (Dn 12,2). Jesus confirma isso: “os que tiverem feito o bem, ressuscitarão para a vida; os que fizeram o mal, para o julgamento” (Jo 5,29).

O Evangelho que ouvimos tem um tom apocalíptico. “Apocalipse” significa “revelar”, “fazer ver além do véu”. Ao mencionar os abalos que ocorrerão no céu e na terra, Jesus não está falando do “fim do mundo”, mas do fim de um mundo específico: o mundo injusto, desigual, gerador de sofrimento, violência e morte para os mais fracos. Esse mundo desaparecerá, para dar lugar a um mundo renovado. Diante de tudo o que se abala e desaba, precisamos nos firmar nas palavras de Jesus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,31). De fato, “o que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça” (2Pd 3,13). Diante dessa certeza, cabe-nos levar uma vida orientada pelo Evangelho, aguardando o cumprimento da promessa de Jesus: “Então vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória” (Mc 13,26).  

O livro do Apocalipse tem no seu horizonte essa segunda vinda de Cristo: “Eis que ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão” (Ap 1,7), até mesmo as pessoas que nunca o conheceram ou que se recusaram a crer nele. Jesus virá como juiz, como aquele que, julgando, separa o trigo das uvas, recolhendo o trigo no celeiro de Deus e esmagando as uvas com os pés, sinal da destruição definitiva do mal sobre a face da terra (cf. Ap 14,14-20). Se no horizonte da história está o encontro de cada pessoa com Jesus, precisamos nos perguntar se estamos cultivando a nós mesmos como trigo (pessoas que praticam o bem e a justiça) ou como uvas (pessoas que praticam o mal e a injustiça). Afinal de conta, “todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba conforme tenha feito durante sua vida no corpo, seja o bem, seja o mal” (2Cor 5,10).     

                Justamente porque vivemos num país acostumado com a impunidade e desacreditado em relação à justiça, precisamos manter nossa consciência viva, desperta, sem nos corromper e sem nos afastar das promessas de Jesus. Precisamos lembrar que nós não somos expectadores de um filme onde se trava um combate entre o bem e o mal. Nós fazemos parte dessa luta e precisamos enfrentá-la com perseverança: “De fato, é de perseverança que vocês necessitam, para cumprirem a vontade de Deus e alcançarem o que Ele prometeu. Porque ainda um pouco, muito pouco tempo, e aquele que vem, chegará e não tardará... Não sejamos como os que abandonam a luta e se perdem, mas homens e mulheres de fé, para a conservação da nossa vida” (citação livre de Hb 10,36-37.39).   

 

            Oração: Senhor Deus, “a angústia cresce em meu coração, tira-me das minhas aflições” (Sl 25,17). Sei que não posso pretender ser uma pessoa totalmente saudável vivendo num mundo doente como o nosso. Forma minha consciência a partir dos valores do Evangelho. Concede perseverança à minha fé e firmeza à minha esperança.

            Senhor Jesus Cristo, eu creio e espero por tua Vinda. Confio na tua promessa de criar novos céus e uma nova terra, onde habitarão a justiça e aqueles que buscam ser justos. Dá-me a graça de cultivar-me como trigo, de não corromper-me no mal e de fazer o bem que estiver ao meu alcance, especialmente aos que sofrem e que são injustiçados. Unindo-me ao Espírito Santo, eu suplico com toda criação e com a Igreja: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20). Vem e resgata o teu povo de todas as suas angústias! Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

SER SANTO(A): TORNAR-SE A PESSOA QUE VOCÊ FOI CHAMADO(A) A SER

Missa de todos os Santos. Palavra de Deus: Apocalipse 7,2-4.9-14; 1João 3,1-3; Mateus 5,1-12a.

 

            Quais são as metas que o mundo nos propõe? Sucesso, felicidade, dinheiro, segurança, fama (aparecer, ser visto pelos outros), vitória etc. Em contrapartida, deixou de ser importante: honestidade, caráter, fidelidade, retidão, compromisso, amar até o fim. Pior ainda, somos ensinados a evitar: renúncia, sacrifício, frustração, autodomínio, dor e sofrimento.

            A meta dos filhos de Deus é a santidade – tornar-me a pessoa que fui chamado(a) a ser; desenvolver meus talentos; identificar e manter-me fiel à tarefa/missão para a qual nasci; não conformar-me ao mundo (não deformar-me), mas configurar-me ao Filho Jesus; viver a partir da verdade de Deus a meu respeito; passar do fazer somente aquilo que “eu quero” para fazer aquilo que “eu devo”, em sintonia com a minha identidade de filho(a) de Deus.

            A santidade é um processo em nós: ora avançamos, ora retrocedemos, ora estagnamos. Ela exige a participação da nossa vontade: “Busquem a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12,14). Ao mesmo tempo, ela é graça, dom de Deus: “A santidade não é fruto do esforço humano, que procura alcançar Deus com suas forças, e até com heroísmo; ela é dom do amor de Deus e resposta do homem à iniciativa divina” (Missal Dominical, p.1367). A santidade é, no fundo, um diálogo entre a vontade de Deus e a nossa vontade humana, quando entendemos que o que Deus quer para nós nada mais é do que a nossa felicidade. É um processo que avança quando nos colocamos como barro nas mãos do Oleiro, mas que também trava ou retrocede quando nos mantemos distantes dessas mãos (cf. Jr 18,6).

            A santificação é um processo que se inicia em nossa vida terrena. Vivendo em um mundo marcado por contravalores, que “chama o bem de mal e o mal de bem” (cf. Is 5,20), as pessoas que buscam sua santificação recebem em sua fronte “a marca do Deus vivo” (Ap 7,2.3). Se essa marca fosse visível, ela seria motivo de “orgulho” para os cristãos. No entanto, é uma marca invisível, porque se refere à consciência da pessoa. Uma vez que o nosso mundo está cheio de marcas externas, feitas para chamar a atenção sobre a pessoa, a santidade é uma marca interna, e, por isso mesmo, ignorada pelo mundo: “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai” (1Jo 3,2). Portanto, só busca a santidade quem compreende que o essencial não é a aparência, mas a essência.

O que significa receber “a marca do Deus vivo”? Essa marca significa “proteção”, mas, sobretudo, “pertença”. É essa pertença que fará com que, após nossa morte, nós estejamos “de pé” (ressuscitados), “diante do trono de Deus e do Cordeiro” (seu Filho Jesus), trajando “vestes brancas” (santidade) e segurando “palmas na mão” (vitória sobre o mal e a morte). Porém, como vivemos em um mundo contrário ao Evangelho, a nossa santificação não se dá sem enfrentar inúmeras tribulações, pois não existe vitória sem luta.    

            As tribulações nos lembram que toda pessoa que busca sua santificação é uma pessoa ferida, porque se posiciona diante da realidade, defendendo os mais fracos e injustiçados. Ser santo significa tomar partido diante da realidade que se nos apresenta: “Sempre tome partido. A neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. O silêncio encoraja o torturador, não o atormentado” (Elie Wiesel, escritor judeu, sobrevivente do Holocausto). Por ter tomado partido dos que sofriam, Jesus foi crucificado. Do mesmo modo, toda pessoa que se posiciona diante da realidade, acaba por se “sujar” com o sofrimento que há no mundo, mas ela terá suas vestes lavadas no sangue do Cordeiro.    

Qual é o tempo mais apropriado para buscarmos a nossa santificação? O tempo presente, o aqui e o agora, cada dia, a vida toda: “A vocação do cristão é a santidade, em todo momento da vida. Na primavera da juventude, na plenitude do verão da idade madura, e depois também no outono e no inverno da velhice, e por último, na hora da morte” (São João Paulo II). Toda ocasião é oportuna para a nossa santificação, porque é ali que somos chamados a examinar a nossa consciência e a fazer escolhas ou a tomar decisões a partir da nossa liberdade e da nossa responsabilidade. Toda a nossa vida é um processo de transformação: “Desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele” (1Jo 3,2).

Enfim, o Evangelho de hoje nos apresenta o retrato dos santos na terra, em cuja existência se dá o processo de crucificação e de ressurreição. “Jesus, crucificado e ressuscitado, é a realização das bem aventuranças. Enquanto crucificado, cumpre a primeira parte delas: é pobre, aflito, tem fome e sede de justiça, é puro de coração, pacificador, perseguido; enquanto ressuscitado, cumpre a segunda parte: o Reino é Seu, é consolado, herda a terra, é saciado, encontra misericórdia, vê a Deus, é Filho de Deus. As bem aventuranças são a carteira de identidade do Filho” (Pe. José Pagola). Elas devem se tornar a nossa também.    

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

VIVOS OU MORTOS, PERTENCEMOS AO SENHOR

 Missa de finados 2021. Palavra de Deus: Jó 19,21-27; 1Coríntios 15,20-26.28; Lucas 12,35-40.

 

    “A mão de Deus me feriu!” (Jó 19,21). Essas palavras de Jó poderiam ser ditas por aqueles que estão doentes, pelos que estão em fase terminal de câncer, pelos que definham por anos em cima de uma cama. Essas palavras também poderiam ser ditas por famílias enlutadas, por pessoas que perderam alguém querido.

    Mas, será mesmo que os ferimentos de Jó – a perda de seus bens, a morte de seus filhos e a perda da sua saúde – foram provocados pela mão de Deus? Não! O que Deus fez foi permitir ao mal que atingisse Jó: “Eu te dou permissão para tocar nos bens dele, mas não nele” (Jó 1,12); “Eu te dou permissão para tocar nele, mas não para tirar-lhe a vida” (Jó 2,6). Nenhum mal nos atinge, sem a permissão de Deus, como ensinou Jesus: “Até mesmo os cabelos da cabeça de vocês estão contados. Vocês valem mais do que muitos pardais” (Mt 10,30-31). Tudo o que Deus permite que aconteça é visando o nosso bem, a nossa salvação. Foi assim que o apóstolo Paulo entendeu: “aprendi a viver na abundância e também a sofrer necessidade; tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).

    Não foi a mão de mão de Deus que feriu Jó. Ele apenas entende que tudo vem de Deus: o bem e o mal, a alegria e a tristeza, a vida e a morte. Mas nós, cristãos, sabemos que a mão de Deus tornou-se mão humana na pessoa de seu Filho Jesus, e suas mãos trabalharam incansavelmente pela salvação de todo ser humano. A mão de Deus não é a mão que fere, mas a mão que foi ferida na cruz, para retirar do sofrimento quem ali se encontra. A mão de Deus é a mão crucificada e ressuscitada de seu Filho Jesus: “Vejam minhas mãos e meus pés... Sou eu mesmo!” (Lc 24,39).

    Contemplando as mãos crucificadas e ressuscitadas de Jesus, nós proclamamos como Jó: “Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão” (Jó 19,25-27). A nossa fé em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado não é uma fé somente para esta vida presente: depois que nossa pele for destruída – nosso corpo consumido pela terra – nós veremos a Deus com o nosso corpo glorificado. Como nos ensina a nossa Igreja, nós cremos na ressurreição da carne: “semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força” (1Cor 15,42-43). 

    Ter consciência da nossa morte nos ajuda a viver de uma outra maneira a nossa vida. “Quando entendemos que não é um dia a mais, mas sim um dia a menos, começamos a valorizar o que realmente importa” (Cora Coralina). Jesus nos provoca a essa mudança de consciência no Evangelho de hoje: “Sejam como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater” (Lc 12,37). No horizonte da nossa existência não está simplesmente a morte, mas o encontro com Aquele que venceu a morte e ressuscitou (cf. Ap 1,17-18). Esse encontro se dará “na hora em que vocês menos esperarem” (Lc 12,40).

    Sendo assim, como devemos nos preparar para esse encontro? Mantendo-nos fiéis à tarefa que Deus nos confiou por meio da vocação que cada um de nós recebeu. Essa tarefa aparece na imagem do “servo” fiel e prudente. O sentido da nossa existência está na tarefa que nos foi pedida para realizar. Enquanto o mundo nos incentiva a desfrutar da vida, pensando unicamente em nós mesmos, Jesus nos convida a fazer da nossa vida um serviço em favor da humanidade, exatamente como Ele, que “veio para servir não ser servido” (Mc 10,45).

    Hoje agradecemos a Deus por nos ter chamado à existência. Nos comprometemos a viver a nossa breve vida buscando ser fiéis à missão que Ele nos confiou. Agradecemos cada pessoa que passou por nossa vida e hoje não se encontra mais na terra. Renovamos a nossa fé no dia da ressurreição, quando Jesus nos unir àqueles que já partiram antes de nós e estão n’Ele (cf. 1Ts 4,13-18). Confiamo-nos todos às mãos do Pai, mãos encarnadas em seu Filho Jesus, crucificadas e ressuscitadas, mãos que cuidam de nós e nos destinam à vida eterna... 

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

UMA GOTA DE AMOR VALE MAIS DO QUE UMA TONELADA DE SACRIFÍCIOS

 Missa do 31. dom. comum. Palavra de Deus: Deuteronômio 6,2-6; Hebreus 7,23-28; Marcos 12,28b-34.

 

    Como identificar uma pessoa que acredita em Deus? O que distingue uma pessoa que crê em Deus de outra que não crê? A resposta não está na roupa que ela usa, nem nas palavras que ela diz, nem na fé que ela professa com a boca, nem mesmo na frequência com que ela vai à igreja ou ao local de culto e de oração. A resposta está nas atitudes da pessoa. Se essas atitudes expressam amor, ela crê verdadeiramente em Deus. Portanto, toda pessoa que afirma crer em Deus, mas não ama, está enganando a si mesma. Toda pessoa que, em nome de Deus e da sua religião, discrimina, odeia ou deseja a morte de alguém, não chegou a conhecer a Deus: “Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor” (1Jo 4,8).

    Se Deus é Amor, o nosso relacionamento com Ele só é verdadeiro quando pautado pelo amor. Muito antigamente, o povo de Israel se relacionava com Deus pautado no oferecimento de sacrifícios de animais. Mas o próprio Deus afirmou: “É amor que eu quero e não sacrifícios” (Os 6,6). O próprio Jesus retomou essa verdade ao se dirigir aos fariseus, que se consideravam homens religiosos exemplares: “Vão e aprendam o que significa: ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’” (Mt 9,13). Misericórdia – um coração capaz de ser afetado pela miséria do outro – é o amor colocado em prática. O que Jesus está dizendo é que uma gota de amor vale mais do que uma tonelada de sacrifícios.

    Como é o nosso relacionamento com Deus? É um relacionamento movido pelo amor ou pelo medo? Por muito tempo, o relacionamento das pessoas com Deus funcionou na base do medo: medo do castigo, medo de que as coisas não dessem certo, medo de perder a proteção e o cuidado de Deus. Hoje, esse medo foi substituído pela indiferença. É cada vez maior o número de pessoas que seguem pela vida indiferentes a Deus, sobretudo porque O sentem indiferente a elas, ao que acontece na vida delas. Quem vai se interessar – pior ainda, quem vai amar – um Deus que permite o sofrimento e a morte na vida de Seus filhos? Para muitas pessoas, antes de se pensar em amar a Deus, é preciso digerir a raiva que têm d’Ele, raiva que desemboca na indiferença para com Ele.

    Em nome da verdade, precisamos reconhecer também que tanto a Igreja quanto nós, cristãos, temos uma parcela de responsabilidade no distanciamento que as pessoas do nosso tempo vão tomando de Deus. Nossas atitudes testemunham que Deus é amor e que Ele ama indistintamente as pessoas – todas as pessoas? Nossas atitudes ajudam as pessoas a desejarem conhecer o Pai que “faz nascer o sol sobre bons e maus e derrama a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,48), ou seja, o Deus que ama incondicionalmente todo ser humano?

    Deus não procura por pessoas que O sirvam como um escravo serve ao seu senhor; Ele procura por filhos que se deixem amar por Ele: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5). Assim como nós ocupamos o centro do Seu coração, Ele deseja ocupar o centro do nosso. Assim como Ele nos ama gratuita e incondicionalmente, Ele deseja nos libertar de um relacionamento “comercial”, pautado na necessidade, para um relacionamento orientado pelo amor que nos faz buscar a Deus por quem Ele é e não por algo que Ele possa nos dar. Dessa forma, nós poderíamos rezar como o salmista: “Eu vos amo, ó Senhor! Sois minha força, minha rocha, meu refúgio e Salvador!” (Sl 17,2-3).

    Após fazermos essa passagem da necessidade de Deus para o amor a Ele, somos convidados por Jesus a trazer de volta para a nossa relação com o Pai a pessoa do nosso irmão: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo!” (Mc 12,31), uma vez que amar a Deus “de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios” (Mc 12,33). Para a Sagrada Escritura, não é possível amar a Deus sem interessar-se pelo ser humano. O amor a Deus é inseparável do amor ao próximo. “Quem não ama seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê... Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). Portanto, toda religião só é verdadeira quando torna o ser humano melhor, mais humano, no sentido de levá-lo a amar o seu semelhante.

    A religião cristã é a religião da cruz, feita de dois traços: um vertical, e outro horizontal. O esforço que nos é pedido em amar a Deus é o mesmo que nos é pedido em amar o próximo, sabendo que amar não é um sentimento, mas uma atitude: “Tudo o que vocês quiserem que os outros lhes façam, tomem a iniciativa de fazê-lo a eles, pois nisso consiste toda a Sagrada Escritura” (citação livre de Mt 7,12). Tomar a iniciativa de tratar as pessoas como gostaríamos que elas nos tratassem – esta é a chave, a maneira de colocarmos em prática o amor para com o próximo.

     Oração: Pai de amor, minha busca por Ti ainda não é movida unicamente por amor, mas pela necessidade que tenho de Ti. Quero aprender a Te buscar não por algo que Tu possas me conceder, mas unicamente por quem Tu és, o Pai que me ama, o Pai que ama incondicionalmente todo ser humano. Que as minhas atitudes ajudem as pessoas a não serem indiferentes ao Teu amor. Retira do meu coração toda raiva, mágoa ou ressentimento, para que eu ame verdadeiramente todo ser humano. Ensina-me a tomar a iniciativa de tratar cada pessoa como eu desejaria ser tratado(a) por ela, pois assim estarei vivendo segundo o Teu amor para comigo. Em nome de Jesus, no amor do Espírito Santo. Amém.

     Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

É MUITO MELHOR UMA VERDADE DOLORIDA DO QUE UMA MENTIRA CONFORTADORA

 Missa do 30. dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 31,7-9; Hebreus 5,1-6; Marcos 10,46-52.

 

            Alguns não conseguem ver saída para seus problemas, não veem horizonte para a sua vida; outros não aceitam ver aquilo que a vida insiste em lhes mostrar, não aceitam ver e reconhecer o que há dentro de si mesmos. Alguns não enxergam suas capacidades, suas potencialidades, mas apenas suas fraquezas; outros são cegos sendo guiados por outros cegos, no campo da política e da religião (cf. Mt 15,14). Alguns católicos recusam a visão de Igreja do Concílio Vaticano II, do Papa Francisco e dos nossos bispos (CNBB), mas aceitam cegamente a visão de Igreja de um padre da mídia ou de líderes Movimentos Religiosos Tradicionalistas.

São muitos os tipos de cegueira no mundo atual. Além de a Covid desencadear um processo de cegueira em muitas pessoas diabéticas, nós temos hoje a cegueira ideológica promovida pelas redes sociais; a cegueira que ocorre dentro de casa – um se recusa a ver o que se passa com o outro – ; a cegueira produzida pelo vício do celular, que impede enxergar o que acontece à volta da pessoa; a cegueira provocada pelas fake news (política de desinformação) – a pessoa nunca leu um livro de Paulo Freire, mas o odeia, rotulando-o de “comunista”. Aliás, qualquer pessoa que se posicione contrária a alguma atitude do atual governo é atacada com discursos de ódio nas redes sociais, inclusive por católicos que se julgam guardiães da “sã doutrina”.

O que fazer quando não enxergamos um caminho, uma saída, uma possibilidade de reconstruir aquilo que foi destruído em nossa vida? Exatamente nessa situação, o profeta Jeremias convidou o povo de Israel a clamar: “Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel” (Jr 31,7). Diante desse clamor, Deus prometeu abrir um caminho, para que o povo voltasse do exílio da Babilônia para o seu país de origem. E o Senhor especificou quais eram as pessoas que percorreriam esse caminho: “entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam” (Jr 31,8). Ao longo da vida, todos nós precisamos percorrer diversas vezes esse caminho de volta para o Senhor, de volta para os braços do nosso Pai.

Qualquer que seja a nossa cegueira neste momento, a nossa impossibilidade de ver uma saída, precisamos fazer nossas as palavras do salmista: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” (Sl 126,4-5). A tristeza não pode nos impedir de lançar sementes. Justamente porque está escuro, precisamos semear luz; porque é tempo de intolerância, precisamos semear tolerância; porque é tempo em que nossa Igreja é acusada de ser composta por “safados e pedófilos”, precisamos semear discernimento e ajudar as pessoas a enxergarem que aqueles que desejam desacreditar a nossa Igreja são os mesmos que promovem as desigualdades sociais e lucram com a consequente violência que tanto mata em nosso País. Em suma, numa época em que se procura passar a visão distorcida de uma Igreja onde ninguém presta, é preciso ajudar as pessoas a enxergarem e distinguirem o bebê da água do banho, para não se jogar tudo fora.

Olhemos para Bartimeu: cego e mendigo; mendigo porque cego. Interessa à elite brasileira, que manda nos políticos, manter o nosso povo cego, com baixa escolaridade e com baixa capacidade de reflexão. Todo cego se contenta em sobreviver com esmolas, com migalhas; um povo cego “sai barato” para o governo. Mas Bartimeu deseja sair dessa sua condição e, ouvindo falar que Jesus estava passando por ali, grita incessantemente por ele: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” (Mc 10,47). O problema é que o grito de Bartimeu era repreendido por muitos. Quantos “católicos” usam as redes sociais para “repreenderem” nossos bispos ou o Papa Francisco quando eles gritam contra as injustiças sociais, a fome, o desmatamento na Amazônia, a violência que tanto mata em nosso País?

Mas Bartimeu não se intimida e grita ainda mais. Assim também deve ser a nossa fé: gritar, até sermos ouvidos; gritar, até que Deus volte o seu rosto para nós e nos salve; gritar, como Israel foi aconselhado a gritar no exílio da Babilônia: “Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel” (Jr 31,7); gritar, a exemplo do salmista que afirmou: “Este infeliz gritou a Deus e foi ouvido, e o Senhor o libertou de toda angústia” (Sl 34,7). E foi assim que o grito de Bartimeu chegou aos ouvidos de Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Então Jesus parou e mandou chamar Bartimeu, que por sua vez jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” Bartimeu respondeu: “Mestre, que eu veja!” (Mc 10,51).

Os Evangelhos foram escritos em grego, e a tradução mais precisa da resposta de Bartimeu a Jesus é: “que eu veja novamente!” Bartimeu não era cego de nascença. Ele ficou cego em algum momento de sua vida e agora deseja “voltar a ver”. Jesus hoje nos faz a mesma pergunta que fez a Bartimeu: “O que você deseja que eu lhe faça? O que você realmente quer? Você tem consciência de que é muito melhor uma verdade dolorida do que uma mentira confortadora? Você quer uma cura profunda, que faça você enxergar a verdade, ou quer apenas um remendo provisório para aliviar a sua dor? Você quer voltar a ver, o que vai exigir que você não viva mais da compaixão dos outros? Você quer enxergar a vida a partir dos seus próprios olhos, ao invés de ficar repetindo discursos dos seus guias cegos?

Diante do sincero desejo de Bartimeu que voltar a ver, Jesus lhe restituiu a visão, dizendo: “Vai, a sua fé curou você” (Mc 10,52). A sua coragem em desejar voltar a ver modificou a sua forma de ver a si, aos outros e à vida. Graças à teimosia do seu grito, graças à persistência de sua fé, você não precisa mais viver como mendigo, mas pode fazer por si, assumindo a responsabilidade por sua própria vida.

Para surpresa de Jesus, após recuperar a visão, Bartimeu não foi embora para casa, mas passou a seguir Jesus, exatamente na etapa final da sua viagem para Jerusalém, onde ele se confrontaria com a cruz. Essa decisão de Bartimeu em seguir Jesus revela uma fé contínua, um seguimento que não é temporário, nem sustentado pela emoção do momento, mas um seguimento que se tornou compromisso de vida. Enquanto os doze discípulos estavam seguindo Jesus com medo de enfrentarem a cruz, Bartimeu tomou a firme decisão de permanecer com Jesus, até o fim.

 

Oração:  Senhor Jesus, eu quero sinceramente voltar a ver; quero confrontar-me com a verdade. Livra-me de ser orientado(a) na vida por guias cegos. Estou consciente de que é muito melhor uma verdade dolorida do que uma mentira confortadora. Quero levantar-me da minha condição de mendigo(a), de quem vive esperando compaixão dos outros, para assumir a responsabilidade perante minha própria vida. Assim como Bartimeu, não quero apenas receber de ti uma graça, um milagre; quero tornar-me verdadeiramente discípulo(a), seguindo-te incondicionalmente, deixando-me provocar pela verdade do teu Evangelho que cura a cegueira do meu coração. Faça-me ver, Senhor, aquilo que eu preciso ver, para ser curado(a), liberto(a) e salvo(a). Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

DO DESEMPENHO QUE ADOECE E ESVAZIA PARA O SERVIÇO QUE DÁ SENTIDO À VIDA

Missa do 29. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 53,10-11, Hebreus 4,14-16; Marcos 10,35-45.

 

            Ninguém gosta de sentir-se fraco ou de perder; todos querem sentir-se fortes e vencer. Ninguém gosta de ficar por último; todos gostam de estar entre os primeiros. O pedido que Tiago e João fizeram a Jesus – “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!” (Mc 10,37) – nos parece bastante sensato e “normal”. Nós também queremos a vitória e não a derrota, a fama e não o anonimato, o estar em evidência e não o ser ignorado, sentir-nos grandes e não pequenos.

            No entanto, Jesus afirma: “Vocês não sabem o que estão pedindo” (Mc 10,38). Vocês não entenderam que o que faz a vida valer a pena não é o poder que vocês podem concentrar nas mãos, mas o serviço que vocês podem prestar à humanidade. Vocês não entenderam que a realização de vocês como seres humanos não se dará pela negação das fraquezas de vocês, mas pelo reconhecimento e aceitação delas, e também pela reconciliação com elas. Além do mais, a primeira pergunta a ser feita não é se você tem capacidade ou mérito de alcançar o primeiro lugar, mas se você tem consciência dos desafios que precisa enfrentar e do processo doloroso de crescimento que deve abraçar, até que alcance seus objetivos.  

            O mundo em que vivemos está cada vez mais exigente. Somos constantemente cobrados quanto ao nosso desempenho. É um mundo centrado no bem estar individual e no alcançar uma vida garantida pelo dinheiro, pelo poder e pelo sucesso. Mas isso nunca acontece, porque as metas são colocadas cada vez mais alto, uma vez que a “máquina” do sistema competitivo não para, e o lugar ao qual ontem nós conseguimos chegar hoje perdeu o sentido, e nos é apresentado uma outra meta a alcançar, um outro lugar a almejar. O que não percebemos é que a constante cobrança por desempenho nos adoece, porque desrespeita os nossos limites, e aí somos obrigados a tomar remédios para aguentar o nível de cobrança desumano que nós mesmos nos impomos ou que a meta do desempenho nos impõe.

             Jesus quer nos ajudar a nos libertar desse sistema de vida que nos adoece constantemente. Ele, que foi “um homem familiarizado com o sofrimento” (Is 53,3), nos ensina que a vida vale a pena não quando evitamos sofrer, mas quando temos um motivo para sofrer, e o motivo não pode ser a busca pela glória, mas a fidelidade a um serviço, à tarefa que nos foi confiada a partir da nossa própria existência. Todo ser humano que tem uma razão para viver, que tem uma tarefa a cumprir, uma missão à qual ser fiel, tem um cálice a beber e um batismo a receber: é o preço pela coerência, o preço por vivermos de acordo com a fé que professamos e com os valores que dão sentido à nossa vida, sabendo que “se com Cristo sofremos, com Cristo reinaremos” (2Tm 2,12).  

            Tão importante quanto nos vermos na busca por reconhecimento de Tiago e João é nos vermos igualmente na aparente “indignação” dos outros dez discípulos (cf. Mc 10,41). Essa indignação se chama “projeção”: aquilo que eu não gosto em mim eu enxergo no outro e critico, rejeito, abomino. A indignação dos dez discípulos escondia atrás dela o mesmo desejo inconfessado e não reconhecido de que também eles estavam sendo movidos pelo “desempenho” em vista do reconhecimento (assentar-se ao lado de Jesus, em sua glória). Sabendo disso, Jesus alertou os doze discípulos: “entre vocês, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja servo de vocês; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (Mc 10,43-44).

            “Entre vocês – Igreja – não deve ser assim”. A Igreja não pode adoecer junto com o mundo, buscando autoglorificação e afastando-se da imensa multidão de pessoas ignoradas por não ocuparem os lugares de destaque neste mundo onde quem pode mais chora menos. A Igreja não existe para ser reverenciada pelo mundo, mas para fazer como Jesus: colocar-se a serviço dos que não são vistos como importantes e necessários, exatamente daqueles que ficam para trás nesta corrida insana por lugares de destaque. Jesus deixou claro que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos” (Mc 10,45). Não caiamos na armadilha de querer ocupar um lugar de poder e de dominação sobre os outros. Isso, além de custar a nossa saúde física e emocional, e de fazer perder a nossa alma diante de Deus, se tornará uma constante fonte de vazio e de frustração.

Ouçamos a nossa consciência; detectemos o serviço que a vida está nos pedindo para abraçar neste momento; peçamos ao Espírito Santo que nos descontamine do espírito de ambição e de poder e revele a cada um de nós o seu próprio “para isso eu vim”; é este serviço que me realiza e enche de sentido a minha vida; é ele que me faz encarar com realismo e serenidade espiritual o cálice que sou chamado a beber e o batismo que sou chamado a receber, à semelhança de Jesus.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi