quinta-feira, 11 de março de 2021

DEUS É VERDADEIRAMENTE AMOR?

 

Missa do 4. dom. da quaresma. Palavra de Deus: 2Crônicas 36,14-16.19-23; Efésios 2,4-10; João 3,14-21.

 

Quantas pessoas ainda creem em Deus? Muitas pessoas deixaram de crer em Deus por causa das imagens deformadas d’Ele que lhes foram mostradas. Muitos deixaram de crer em Deus porque os homens que lhes falavam d’Ele negavam com as atitudes aquilo que anunciavam com a boca. Maior ainda é o número das pessoas que abandonaram a fé em Deus porque Ele não impediu o sofrimento, a dor, a morte, o absurdo e a tragédia na vida da humanidade.

Considerando as pessoas que ainda hoje mantêm sua fé em Deus, precisamos perguntar: em qual Deus as pessoas creem? Alguns creem num Deus juiz, implacável em seu julgamento contra os pecadores. Outros creem num Deus que manda exterminar da face da terra todos os “infiéis”, isto é, todos os que não creem n’Ele. Outros ainda creem num Deus que não se importa com o corpo das pessoas – se passam fome, se estão desempregadas, se são violentadas, se sofrem injustiças – mas apenas com a salvação da alma delas.

“Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer” (Jo 1,18). Somente o Filho pode nos revelar o verdadeiro rosto do Pai. Todas as ideias, conceitos e imagens que possamos ter a respeito de Deus precisamos confrontar com a revelação que o Filho faz do Pai nos evangelhos. Nós só podemos conhecer o Pai se nos aproximarmos do Filho: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27). Portanto, se dissemos, com toda a razão, que “Jesus é Deus” – divino como o Pai – precisamos também dizer verdadeiramente que “Deus é Jesus” (José Maria Castillo), isto é, Deus age, fala e se mostra a nós na pessoa de Jesus Cristo.

A maneira como Deus se revela em seu Filho Jesus está expressa no Evangelho de hoje, pela boca do próprio Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Deus amou; Deus ama. Toda pessoa que faz uma verdadeira experiência de amor, faz uma verdadeira experiência de Deus, porque “Deus é amor” (1Jo 4,8). E Jesus deixa claro que o amor de Deus se manifestou concretamente ao mundo, isto é, à humanidade. Foi por isso que Jesus nos ensinou a orar a Deus chamando-O de “Pai nosso que estais nos céus”; não num determinado templo, não numa determinada religião ou igreja, mas “nos céus”, acima de todos os seres humanos porque Pai de todos os seres humanos.

Deus ama a humanidade, essa mesma humanidade que nós julgamos perdida, na qual a maioria das pessoas vive como se Deus não existisse; essa mesma humanidade que muitas vezes se comporta de maneira contrária à vontade de Deus. Porque ama a humanidade, Deus Pai não tem homens a exterminar, mas filhos a resgatar e salvar. Porque ama a humanidade, o Pai “deu o seu Filho único”; “deu” primeiramente no sentido de enviar o seu Filho “para procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10), mas “deu” também no sentido de “entregar”, de permitir que seu Filho fosse entregue numa cruz. O Pai não enviou o seu Filho para morrer numa cruz, mas para salvar a humanidade. Se a consequência desse desejo do Pai foi a morte de seu Filho único, Ele aceitou essa morte por dois motivos: primeiro, para que o Filho, morrendo como um condenado, nos resgatasse de todo tipo de condenação (cf. Rm 8,1); segundo, para que a humanidade, ao olhar para o Filho crucificado, sempre se lembrasse do quanto o Pai a ama.

Deus não tem imagem, mas Jesus “é a Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15). Diante de tantas imagens deformadas de Deus, precisamos olhar para o Filho crucificado e compreender: isso aconteceu porque Deus ama a humanidade. É na cruz que se revela o amor do Pai por todo ser humano. No entanto, é quando as pessoas fazem sua experiência de cruz que elas duvidam não só da existência de Deus, mas sobretudo de que Ele as ama. É verdade que “não podemos entender a frase ‘Deus é amor’ (1Jo 4,8) de um modo muito ingênuo demais, como se Deus dispusesse tudo com amor. A realidade muitas vezes brutal do mundo nos força a não entender ingenuamente Deus como Pai amoroso” (Anselm Grün). Para nós, seres humanos, quem ama não deixa o amado sofrer. Mas para Deus, o amor permite que o amado sofra quando aquele sofrimento é para o seu bem e a sua salvação. Para Deus, o amor aceita receber sobre si o ódio do mundo e ser morto por ele, para que fique claro à humanidade que o ódio só produz morte; o amor é a única coisa que nos faz viver.

“Deus é Jesus”; o Pai escolheu revelar a nós o seu rosto na pessoa do Filho, e o Filho esclarece: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Os braços abertos do Filho na cruz são os braços do Pai que abraçam todos os condenados e os feridos da humanidade. Todas as pessoas que sofrem precisam se sentir abraçadas pelo Pai na cruz de seu Filho. Todas as pessoas que neste momento estão crucificadas precisam ser sinceras e corajosas e fazerem ao Pai a mesma pergunta que o Filho lhe fez: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Todas as pessoas que, por diversas situações, estão se sentindo crucificadas precisam se deixar abraçar pelo Pai, como fez o Filho ao dizer: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46); em tuas mãos entrego o meu adoecer, o meu sofrer, o meu perder, o meu morrer.

 

Oração: Deus, nosso Pai, o Senhor disse que as montanhas e as colinas podem até mudar de lugar, mas o teu amor por nós, pela humanidade, não mudará (cf. Is 54,10). Queremos pedir perdão pelas vezes em que duvidamos do teu amor, porque a dor, a injustiça, o sofrimento não nos deixaram sentir a tua presença junto a nós. Pedimos que os braços da cruz de teu Filho possam abraçar todo ser humano; em especial, aquele que sofre neste momento, aquele que precisa voltar a crer em Ti, que precisa se sentir amado por Ti. Liberta a humanidade de todo tipo de condenação. Fortalece a nossa fé em teu Filho Jesus. Ensina-nos a falar corretamente de ti para as pessoas do nosso tempo. Que o teu amor misericordioso e fiel se derrame sobre todo ser humano, curando suas feridas e trazendo-o para junto do teu coração. Em nome de Jesus. Amém!  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 4 de março de 2021

TEMPLOS PURIFICADOS, DEFENDIDOS E CUIDADOS

 Missa do 3. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 20,1-17; 1Coríntios 1,22-25; João 2,13-25.

 

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração! Examina-me, e conhece minhas preocupações. Vê se não ando por um caminho fatal e conduze-me pelo caminho eterno” (Sl 139,23-24).  O Evangelho de hoje é um convite a permitir que Jesus visite o templo do nosso corpo, da nossa consciência e do nosso coração. Que Ele, que conhece o ser humano por dentro, possa examinar nossos pensamentos e sentimentos, as intenções que trazemos guardadas em nosso coração, e trazer à luz tudo aquilo que está escondido na sombra, no oculto de nós mesmos. Que Ele nos torne conscientes das motivações que estão por trás de atitudes que nos adoecem, ou que nos levam a pecar, que nos levam a nos comportar de maneira oposta aos seus ensinamentos.     

            Jesus esteve poucas vezes no Templo de Jerusalém. A maior parte da sua vida, ele passou fora dos templos, porque escolheu colocar-se junto daqueles que não podiam entrar nos templos: os pobres, os pecadores, os doentes, aqueles que a religião e política da época de Jesus desprezavam e viam como “gente perdida”. Jesus dedicou toda a sua vida a reconstruir o templo no qual Deus mais deseja habitar: o ser humano. Por isso, ele curou doentes, ressuscitou mortos, expulsou demônios, perdoou pecadores, absolveu culpados e condenados. Por compreender o ser humano no sentido bíblico – corpo, alma e espírito –, Jesus sempre procurou restaurar a vida na sua dimensão física, emocional e espiritual.

            O Evangelho nos coloca diante dessa atitude de Jesus: “Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas” (Jo 2,15). O Jesus manso e humilde de coração, bondoso e misericordioso, se enche de indignação contra uma religião que se converteu em negócio lucrativo, uma religião que se mantém distante dos que sofrem, que se cala diante das injustiças e se apoia no dinheiro daqueles que exploram os mais pobres. A indignação de Jesus é a mesma de Deus na época do profeta Isaías: “Quando estendeis vossas mãos, desvio de vós os meus olhos... Vossas mãos estão cheias de sangue” (Is 1,15). Para Deus, é inconcebível que um cristão seja contra o aborto e a mesmo tempo a favor da pena de morte. É inconcebível que um cristão separe o seu culto a Deus da sua vivência comunitária e social: “Aquele que não pratica a justiça e não ama o seu irmão não é de Deus” (citação livre de 1Jo 3,10).

            Jesus é o verdadeiro e único templo de Deus, um templo de portas abertas para todos, não somente para quem se considera bom cristão. No Templo de Jerusalém havia um muro que separava os judeus dos gentios (pagãos). Mas o apóstolo Paulo afirma que, com o seu corpo pregado na cruz, Jesus derrubou esse muro de inimizade que separava os povos (cf. Ef 2,14): “É por meio dele que todos nós, judeus e gentios, num só Espírito, temos acesso ao Pai” (Ef 2,18). O Pai de Jesus não habita exclusivamente no Templo de Jerusalém, nem em qualquer outro lugar sagrado; Ele é o “Pai nosso que está nos céus”, acima de todos os seres humanos porque Pai de todos eles, sem discriminação nem exclusão alguma.

            Ao purificar o Templo de Jerusalém, Jesus nos deixou uma nova compreensão do Templo onde Deus habita: “Jesus estava falando do Templo do seu corpo” (Jo 2,21). De fato, o apóstolo Paulo afirmará mais tarde que o corpo do cristão é templo do Espírito Santo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19). A cultura moderna dá muito valor ao corpo, mas não enquanto templo do Espírito de Deus e sim enquanto fonte de sedução e objeto de consumo. De um lado, temos corpos sarados, esteticamente perfeitos, mas habitados por um espírito atrofiado, porque a dedicação com o físico não se dá no campo espiritual. De outro lado, temos corpos profanados pela fome, pelo abuso sexual, pelas drogas, pela prostituição, corpos tomados por doenças e corpos que se tornaram gibis ambulantes, devido às suas inúmeras tatuagens.

            Que compreensão temos do nosso corpo? Enquanto alguns cultuam seu corpo “perfeito”, outros rejeitam o próprio corpo, porque ele está fora dos padrões de estética exigidos pela sociedade da aparência. Quantos precisam reconciliar-se com seu próprio corpo? Quantos precisam parar de agredir o próprio corpo com aquilo que comem, bebem e pela maneira como se vestem? Quantos precisam prestar atenção àquilo que o corpo está lhes comunicando quando “somatiza” doenças emocionais?

            “O zelo (cuidado) por tua casa me consumirá” (Jo 2,17). Que cuidado temos para com nossa Igreja? Quantos de nós temos compartilhado mensagens de ataque à nossa própria Igreja nas redes sociais? Quantos de nós rejeitam o Magistério do Papa Francisco e dos nossos Bispos, representados pela CNBB, mas acolhem sem discernimento doutrinas de sacerdotes e leigos católicos que semeiam discórdia e divisão em nossa Igreja? Quantos de nós estamos conscientes da necessidade de fazermos a nossa doação no Dia Nacional da Coleta da Solidariedade (28 deste mês), por meio da qual a CNBB sustenta diversos trabalhos de amparo, defesa e reconstrução de “templos humanos” em nosso País?

“Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. Mas Jesus não lhes dava crédito, pois ele conhecia a todos; (...) ele conhecia o homem por dentro” (Jo 2,23-25). Muitos se dizem cristãos. Muitos se consideram “verdadeiros” católicos. Mas Jesus conhece cada um de nós. Ele sabe quem se deixa questionar pela incômoda verdade do seu Evangelho e quem faz do Evangelho um verniz para destacar o brilho de sua própria imagem. Jesus conhece quem são os cristãos que trabalham em defesa dos templos agredidos e profanados em nosso País e quem são aqueles que se mantêm distantes desses templos, preocupados unicamente com o templo da sua alma e com a glória mundana da Igreja.   

 

            Oração: Senhor Jesus Cristo, visita-me com a luz da tua verdade. Quero tomar consciência do estado em que se encontra o templo que eu sou. Purifica-me dos meus pecados. Livra-me de pensamentos e sentimentos que adoecem o meu corpo. Faz nascer em mim o desejo de cuidar da tua casa, que é a Igreja. Que eu seja nela não um construtor de muros que separam, mas de pontes que unem e criam comunhão. Cura as feridas de divisão que foram abertas no meio de nós, para nos separar do Papa Francisco e dos nossos Bispos. Sustenta o trabalho de todos os cristãos que lutam pela defesa dos templos agredidos e profanados em nosso País. Que todos sejamos curados em nosso corpo, fortalecidos em nossa alma e reavivados em nosso espírito. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

SUPORTAR A PROVAÇÃO QUE NOS TRANSFIGURA

 Missa do 2. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 22,1-1.9a.10-13.15-18; Romanos 8,31b-34; Marcos 9,2-10.

 

O Evangelho do primeiro domingo da Quaresma nos falou das tentações que tanto Jesus quanto nós temos que enfrentar ao longo da vida. Neste segundo domingo, ele nos fala das provações. Enquanto as tentações vêm do espírito do mal e procuram nos afastar da vontade de Deus, as provações vêm do próprio Deus e visam nos confirmar na sua vontade. Enquanto as tentações tendem a nos desfigurar, sobretudo se cedemos a elas e pecamos, as provações podem nos transfigurar, quando saímos delas mais decididos ainda a viver segundo a vontade de Deus.

O grande relato da provação está no sacrifício de Isaac, quando Deus pediu a Abraão que lhe devolvesse seu único filho, a garantia de que ele seria pai de uma multidão de pessoas. Por trás desse relato está a necessidade de Abraão conhecer melhor a Deus, pois naquela época alguns povos pagãos tinham o costume de sacrificar crianças para obterem favores dos deuses aos quais cultuavam. Quando o anjo do Senhor segura a mão de Abraão e impede o sacrifício de Isaac, deve ficar claro para todos nós, filhos de Abraão, pai da nossa fé, que Deus não é um monstro que exige sacrifícios de vidas humanas para nos dar suas bênçãos. Muitos séculos mais tarde, quando Israel perguntar: “Darei eu meu primogênito pelo meu crime, o fruto de minhas entranhas pelo meu pecado?” (Mq 6,7), o profeta Miqueias responderá: “Foi-te anunciado, ó homem, o que é bom e o que Deus exige de ti: nada mais do que praticar a justiça, amar a bondade e caminhar humildemente com teu Deus!” (Mq 6,8).

Se as tentações são difíceis, igualmente o são as provações. Quando estamos sendo provados em nossa fé, não enxergamos a presença de Deus junto a nós. Pelo contrário, parece não só que Ele escondeu de nós o seu rosto, como também se tornou como que nosso Inimigo, pois sentimos que é d’Ele que está vindo o mal sobre nós, justamente d’Ele, o Deus que é Pai e que é amor! Esse é o grande desafio da provação: continuar a confiar no amor de Deus por nós quando Ele está permitindo que tanta coisa ruim nos aconteça. O mal nunca vem de Deus, mas nenhum mal nos atinge sem que Deus permita. É isso que coloca em crise a nossa fé: como continuar a crer e a confiar que o Pai nos ama como filhos, mesmo quando permite que algo ruim nos aconteça?

Toda provação nos joga dentro de uma noite escura, e nós só poderemos atravessar essa noite escura se mantivermos o nosso olhar fixo nesta Palavra: “Deus que não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele?” (Rm 8,32). Se no momento da provação sentimos que parece que Deus se voltou contra nós, o apóstolo Paulo corrige essa ideia errada: como poderia estar contra nós o Pai que nos deu seu Filho único como Salvador? Como você poderia pensar que está sozinho(a) nessa provação e que Jesus ignora a sua situação, quando, na verdade, Ele está ressuscitado à direita de Deus, intercedendo por você? 

Do Monte Moriá, lugar do sacrifício de Isaac, passamos para o Monte Tabor, lugar onde Jesus se transfigurou diante de três discípulos. Nossa vida tem momentos de planície: é o nosso contato diário com a realidade, uma realidade que questiona a nossa fé e desafia os nossos valores cristãos. Essa realidade que nos cerca tem um rosto desfigurado pelo pecado, pelas injustiças, por uma sociedade que se guia por contravalores. Jesus nos ensina que precisamos, em alguns momentos, sair da planície e subir a montanha para nos encontrar com o Pai, na oração, e receber d’Ele uma interpretação correta da realidade, descendo depois para junto dela a fim de ajudá-la a se transfigurar.  

Os grupos que nas redes sociais têm combatido a Campanha da Fraternidade deste ano não aceitam enxergar o que a realidade está mostrando a todos nós. Como ela desafia a nossa fé e os nossos valores cristãos, esses grupos escolhem negá-la. Quando a realidade se mostra desfigurada no desmatamento da Amazônia, na violência social, nos discursos de ódio disseminados nas redes sociais e na política de morte instaurada em nosso País, eles negam tal desfiguração afirmando que “isso é pauta esquerdista”, quando, na verdade, é pauta de todo discípulo de Jesus chamado a transfigurar a realidade que à sua volta se encontra desfigurada.

Neste momento em que a polarização política foi trazida para dentro da nossa Igreja por pessoas que desejam viver sua vida cristã permanentemente sobre o monte da Transfiguração, sem descer à realidade que as desafia e as questiona, o Evangelho nos convida a manter nossos olhos fixos em Jesus. “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” (Mc 9,7). Jesus nunca fugiu do confronto com a realidade do seu tempo, mas fez questão de tocar nela e de transfigurá-la. Ele nos ensina que deixar-nos afetar por aquilo que está desfigurado à nossa volta é o que se espera de todo verdadeiro discípulo seu. Mantenhamos nossos olhos fixos n’Ele, e não naqueles que se encontram num extremo ou noutro da polarização que tem desfigurado o rosto da nossa Igreja no Brasil.  

 

Oração: Senhor Jesus Cristo, queremos entregar a ti a realidade do nosso tempo, desfigurada pelo pecado pessoal e social, pela violência, pelas injustiças e pela desigualdade social. Permanece conosco em nossos momentos de provação. Que eles possam comprovar a verdade da nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor. Livra-nos das imagens erradas e doentias que temos de Deus. Revela-nos o verdadeiro rosto do Pai. Que as nossas palavras e as nossas atitudes de verdadeiros discípulos teus ajudem a transfigurar os ambientes em que nos encontramos no dia a dia e o mundo em que vivemos. Enfim, que possamos aguardar com plena confiança o dia da tua vinda, quando nosso corpo, desfigurado pela morte, será transfigurado e se tornará semelhante ao teu. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

QUEM SÃO OS QUE CRITICAM A CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA 2021?

 


“Os grupos contrários à Campanha da Fraternidade se consideram ‘catolicíssimos’. Todos eles são muito conservadores e muito reacionários a qualquer tipo de mudança dentro da sociedade. E como eles se dizem muito católicos, são contra o ecumenismo, que é o diálogo entre as religiões cristãs. São contra todos os temas difíceis que a sociedade hoje está vivendo. Por exemplo, o problema do racismo, do feminicídio, da homofobia, dos indígenas, da intolerância religiosa. São contra tudo isso para dizer que são contra o Concílio Vaticano II que o Papa Francisco está colocando em prática pra valer” (Dom Joaquim Mol, bispo auxiliar de Belo Horizonte).

“Alguns grupos estão fazendo um processo de demonização da Campanha da Fraternidade. Isso é um equívoco grave. A Campanha da Fraternidade é aprovada e apoiada pelos últimos Papas, desde 1964: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Todos esses Papas aprovaram e apoiaram a Campanha da Fraternidade. Infelizmente, alguns grupos que se dizem católicos desejam acabar não só com a Campanha da Fraternidade, mas também com toda e qualquer expressão social da fé. São pessoas e grupos que não aceitam o Papa Francisco, não aceitam o Concílio Vaticano II. O nome disso é ‘excomunhão’: está fora da comunhão. Se o cristão católico não aceita o Papa Francisco nem o Concílio Vaticano II, ele se colocou fora da comunhão” (Dom Paulo Jackson, bispo de Garanhuns).

“Esses grupos exigem uma Quaresma que seja vivida apenas como dimensão individual da conversão (intimismo religioso). O eixo disso tudo é ideológico, uma ideologia religiosa fundamentalista. Ora, não existe conversão pessoal sem que exista uma conversão à realidade social. Por que? Porque o centro da fé cristã é a doutrina da Encarnação do Verbo. O Filho de Deus assumiu e redimiu toda a realidade histórica. Esses grupos não leram o Concílio Vaticano II. Se o leram, não o entenderam. Eles estão contra o Magistério de todos os Papas que vieram depois do Concílio, desde Paulo VI até Francisco. Eles sofrem de soberba espiritual: ‘nós, nosso pequeno grupo, sabemos mais do que os 2.500 bispos reunidos com o Papa em Concílio Ecumênico’. Ora, quem se opõe ao Concílio, se opõe ao Espírito Santo” (Pe. Leonardo Lucian Dall Osto, Diocese de Caxias do Sul).

“Quando nós não queremos enfrentar a realidade porque ela nos é incômoda e porque enfrenta os nossos conceitos, nós nos revoltamos contra ela e usamos a religião como pano de fundo para essa revolta. O que está por trás das críticas ao texto-base da Campanha da Fraternidade é aquilo que está por trás das críticas ao Concílio Vaticano II: um determinado grupo de pessoas que, incomodado pela realidade, não a aceita; se fecha à realidade, a nega, e diz: ‘nós, que somos guardiães da sã doutrina, estamos dizendo que isso não é verdade, que esses dados são dados manipulados, são dados da extrema esquerda’” (Pe. Leonardo Lucian Dall Osto, Diocese de Caxias do Sul).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

NÃO CAIR NA TENTAÇÃO DA POLARIZAÇÃO

Missa do 1. dom. quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 9,8-15; 1Pedro 3,18-22; Marcos 1,12-15.

 

            Estamos vivenciando os primeiros dias do tempo da Quaresma, tempo favorável para a nossa salvação (cf. 2Cor 6,2). A Quaresma é um tempo forte de conversão, a qual consiste em nos voltar para Deus de uma maneira mais intensa e profunda: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12); “Voltai-vos para mim e sereis salvos, homens todos dos confins de toda a terra” (Is 45,22). A Quaresma é um tempo de revisão de vida onde podemos viver a experiência do filho pródigo, tomando decisões em vista de salvar a nossa vida pessoal, comunitária e social: “Vou me levantar, voltar para o meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei’” (Lc 15,18).

            Da mesma forma como o Espírito Santo levou Jesus para o deserto, para que permanecesse ali por quarenta dias, assim esse mesmo Espírito deseja conduzir cada um de nós para uma experiência de deserto, em vista de nos desintoxicar de pensamentos, imagens e sentimentos que adoecem a nossa vida pessoal, comunitária e social. O deserto não é um lugar, mas uma experiência que coloca em ordem os nossos afetos e nos ensina a rever os nossos valores, deixando de lado aquilo que é supérfluo e mantendo o foco naquilo que é essencial. O deserto é uma experiência de privação – daí a importância do jejum – mas um jejum que de fato agrada a Deus porque nos abre às necessidades do nosso próximo (cf. Is 58,1-9a).

            Quando Jesus iniciou sua Quaresma, o espírito do mal estava lá, esperando por ele no deserto para tentá-lo, para confundi-lo (cf. Mt 4,1; Mc 1,13; Lc 4,2). Assim também nós iniciamos o nosso tempo quaresmal sentindo a força do mal agindo em nossa Igreja para dividi-la (“diabo” significa “aquele que divide”), colocando-nos uns contra os outros. No exato momento em que o Espírito Santo, através da Campanha da Fraternidade, nos convida a construir pontes que possibilitem o diálogo, a comunhão e a paz nas igrejas e na sociedade, o espírito do mal impulsiona pessoas a fazerem e a disseminarem discursos de ódio nas redes sociais, construindo muros que nos separam uns dos outros.

            É próprio do espírito do mal distorcer a verdade, para confundir e causar discórdia. Uma das distorções feitas por grupos contrários à Campanha da Fraternidade deste ano é acusá-la de promover a cultura gay, quando, na verdade, o momento em que o texto-base trata desse tema é simplesmente para constatar que em nosso país a violência e a política de morte atingem de modo mais grave negros, pobres, índios, mulheres, migrantes e homossexuais (pp.20-40). Quem tem discernimento sabe que existe diferença entre defender a vida de uma pessoa homossexual e defender sua prática homossexual. Além do mais, quem rotula uma pessoa homossexual de ser “pecadora” e “pervertida” está mais para discípulo dos fariseus do que discípulo de Jesus Cristo.

            Precisamos estar atentos às mentiras e às distorções do espírito do mal. Ele procura nos fazer desistir do diálogo, nos fecha em nossa visão míope a respeito da realidade e nos torna convencidos de que somos pessoas do bem e estamos do lado da verdade; os outros é que estão errados. Não podemos cair na tentação da polarização: de um lado, aqueles que querem uma Igreja preocupada unicamente com o espiritual; de outro, os que querem uma Igreja voltada prioritariamente para o social. O nosso modelo sempre foi e sempre será Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ao se encarnar, ele não só experimentou em si mesmo a força da tentação, como também se contrapôs às estruturas de pecado social que produziam injustiças, sofrimento e morte para inúmeras pessoas. Jesus veio redimir e salvar o ser humano por inteiro, na sua dimensão corpórea, psíquica e espiritual.

Lembremos da Aliança que Deus fez com Noé: “Estabeleço convosco a minha aliança: nenhuma criatura será mais exterminada pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra” (Gn 9,11). Não usemos as redes sociais para disseminar discursos de ódio que afogam o bom senso, destroem pontes e levantam muros entre as pessoas. “Vamos precisar de todo mundo pra banir do mundo a opressão. Para construir a vida nova, vamos precisar de muito amor” (Beto Guedes, O sal da terra). A humanidade está se afogando no dilúvio da violência, da fome e da pobreza, consequências de uma política de morte que prioriza o dinheiro e não o ser humano. Ou nos salvamos juntos, ou pereceremos todos juntos.   

            Vivamos coerentemente o nosso batismo. Ele nos inseriu na Igreja, corpo místico de Cristo (cf. 1Cor 12,12-26). Se um membro do corpo trabalha contra outro membro, o corpo adoece. Se o lado direito do corpo trabalha contra o esquerdo, e vice-versa, o corpo adoece e pode morrer. O nosso inimigo não é o irmão que está em nossa própria Igreja ou numa outra igreja. O nosso inimigo é o espírito do mal, que nos coloca uns contra os outros para poder reinar sobre todos nós. Supliquemos ao Espírito Santo para que nos descontamine do ódio e da polarização, e nos torne instrumentos da comunhão que Ele deseja restaurar em nossa Igreja, entre os cristãos e entre as diversas religiões, em vista da salvação da humanidade.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

CONVERSÃO: VOLTAR-NOS PARA AQUELE QUE PODE NOS SALVAR

 Missa de Cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20 – 6,2; Mateus 6,1-6.16-18.

             Quaresma, um tempo de quarenta dias. Como o apóstolo Paulo acabou de afirmar, um “tempo favorável” para a nossa salvação. Para chegar ao monte Horeb e se encontrar com Deus, Elias caminhou quarenta dias (cf. 1Rs 19,8). Para iniciar a sua missão de nos salvar, Jesus permaneceu no deserto quarenta dias (cf. Mc 1,13). Jonas, por sua vez, assim pregou à cidade de Nínive: “Daqui quarenta dias, Nínive será destruída” (cf. Jn 3,4). Assim como os ninivitas tiveram um tempo de quarenta dias para se converterem e mudarem suas atitudes, assim a quaresma se abre hoje para nós como um tempo forte de conversão.

No sentido geral, “conversão” significa “mudança”. Ela se mostra necessária quando nos damos conta de que tomamos uma direção errada na vida, trazendo destruição para nós mesmos, para os outros e para o mundo em que vivemos. No sentido bíblico, porém, a conversão tem um sentido mais profundo. Ele não é apenas mudança de direção, mas um “voltar-se”: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração (...). Voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2,12-13).

O tempo da quaresma é um tempo de revisão de vida, o tempo em que, como o filho pródigo, podemos tomar uma decisão em vista de salvar a nossa vida pessoal, comunitária e social: “Vou me levantar, voltar para o meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei’” (Lc 15,18). Enquanto Igreja, somos membros do Corpo de Cristo, e o nosso pecado pessoal afeta esse Corpo. Enquanto seres humanos, estamos inseridos na sociedade humana, e o nosso pecado pessoal também produz sofrimento no corpo social. “Voltai-vos para mim e sereis salvos, homens todos dos confins de toda a terra” (Is 45,22). A quaresma não tem por objetivo apenas a nossa salvação individual, mas a salvação da humanidade como um todo.

De quem depende a nossa conversão? Em primeiro lugar, de cada um de nós, tomando consciência da mudança que precisamos fazer em nossas atitudes, em nossa conduta de vida afetiva, profissional e espiritual. Mas a conversão é, sobretudo, obra de Deus em nós. Só Ele pode nos convencer da necessidade de mudança; só a sua graça pode transformar nosso coração endurecido como pedra num coração humanizado e dócil à ação do Espírito Santo (cf. Ez 36,26). Justamente porque a conversão é fruto da graça de Deus em nós, o apóstolo Paulo faz este apelo: “Deixem-se reconciliar com Deus!” (2Cor 5,20). Permitam que Deus cure as feridas que o pecado abriu em vocês, na Igreja e na sociedade humana! Deixem-se conduzir pelo Espírito Santo; deixem-se transformar por sua graça!

Jesus nos recorda no Evangelho que a nossa vida é feita de relacionamentos: nós nos relacionamos com o próximo, com Deus e conosco mesmos. Esses relacionamentos estão saudáveis ou adoecidos? Eles têm gerado em nós paz ou conflitos? Para sanar o nosso relacionamento com o próximo, Jesus nos fala da esmola. Ela deve se traduzir em atitudes de compaixão para com quem sofre, para com quem necessita de nós. Para sanar o nosso relacionamento com Deus, Jesus nos fala da oração. Ela deve se tornar o espaço que damos a Deus para que Ele nos cure, nos corrija e nos transforme pela ação da sua graça. Enfim, para sanar a nossa relação conosco mesmos, Jesus nos fala do jejum como retomada da nossa liberdade diante dos nossos instintos. O jejum reordena a nossa vida, porque nos faz passar do “reagir” ao que sentimos para o “responder” àquilo que nos afeta, e responder a partir da nossa vocação de filhos de Deus e não como simples pessoas mundanas.

“Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14). Uma vez que o nosso pecado pessoal atinge a Igreja em que nos encontramos e a sociedade em que vivemos, tornando-se também pecado social, a Campanha da Fraternidade nos chama à conversão convidando-nos a modificar aquelas atitudes que são opostas ao Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Segundo Efésios 2,14-16, Cristo “derrubou o muro de inimizade” que se parava os povos; em seu corpo pregado na cruz, “ele destruiu a inimizade” e reconciliou todos os homens com o Pai. Ora, se Cristo derrubou o muro da inimizade, por que alguns católicos estão usando as redes sociais para erguer um muro de inimizade entre o povo católico e o Papa Francisco, entre o povo católico e a Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB)? Se Cristo orou ao Pai pedindo pela unidade entre os cristãos – “Pai, que todos sejam um, para que o mundo creia que tu me enviaste” (cf. Jo 17,21), por que alguns católicos usam as redes sociais para combater o diálogo e a unidade entre a nossa Igreja e outras igrejas cristãs?

Quando Jesus iniciou sua quaresma, o diabo estava lá, esperando por ele no deserto para tentá-lo, para confundi-lo (cf. Mt 4,1; Mc 1,13; Lc 4,2). Assim também nossa Igreja no Brasil inicia sua quaresma sentindo a força do maligno agindo nela, para dividi-la, colocando uns contra os outros. Se o espírito do mal divide, o Espírito Santo une; se o espírito do mal levanta muros de inimizade entre as pessoas, o Espírito Santo constrói pontes que possibilitam o diálogo, o entendimento e a comunhão. Deixemo-nos guiar nesta quaresma pelo Espírito Santo, e assim não cairemos nas armadilhas do espírito maligno.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi     

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

LIVRA-NOS DESTE VÍRUS E DE TODOS OS OUTROS

 

Livra-nos, Senhor, deste vírus, mas também de todos os outros que se escondem dentro dele.

 

Livra-nos do vírus do pânico disseminado, que em vez de construir sabedoria nos atira desamparados para o labirinto da angústia.

 

Livra-nos do vírus do desânimo que nos retira a fortaleza de alma com que melhor se enfrentam as horas difíceis.

 

Livra-nos do vírus do pessimismo, pois não nos deixa ver que, se não pudermos abrir a porta, temos ainda possiblidade de abrir janelas.

 

Livra-nos do vírus do isolamento interior que desagrega, pois o mundo continua a ser uma comunidade viva.

 

Livra-nos do vírus do individualismo que faz crescer as muralhas, mas explode em nosso redor todas as pontes.

 

Livra-nos do vírus da comunicação vazia em doses massivas, pois essa se sobrepõe à verdade das palavras que nos chegam do silêncio.

 

Livra-nos do vírus da impotência, pois uma das coisas mais urgentes a aprender é o poder da nossa vulnerabilidade.

 

Livra-nos, Senhor, do vírus das noites sem fim, pois não deixas de recordar que Tu Mesmo nos colocaste como sentinelas da aurora.

 

José Tolentino Mendonça
Cardeal, poeta e teólogo português.

 

Fonte: Texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021, pp.27-28.