quinta-feira, 27 de março de 2014

VOCÊ NÃO CONSEGUE OU NÃO QUER VER?

Missa do 4º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: 1Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Efésios 5,8-14; João 9,1-41.

            Alguns aqui não conseguem enxergar uma saída para a sua vida, uma solução para os seus problemas. Alguns aqui não conseguem mais enxergar a bondade, a beleza, o valor da pessoa com quem convivem há anos. Alguns aqui não aceitam enxergar que estão errados, que estão num caminho de autodestruição. Alguns aqui não admitem enxergar o mal que estão fazendo a si mesmos e aos outros. Alguns aqui só enxergam seus próprios interesses. Alguns aqui têm os olhos fixos numa tela de celular, de tablet ou de computador, mas não voltam o seu olhar para os que estão ao seu lado, precisando da sua ajuda ou simplesmente da sua convivência.
           Existe um não poder ver, mas existe também um não querer ver. Às vezes dizemos que não conseguimos ver/entender o que se passa conosco, mas também pode ser verdade que não queiramos ver/entender o que está acontecendo conosco. Ver, enxergar, também significa tornar-se consciente, e quem se torna consciente não tem desculpas para continuar a viver como vítima, nem de si mesmo, nem dos outros. Será que você quer realmente ver, ou prefere continuar vivendo como cego?
         A nossa cegueira pode ser voluntária, intencional: nós nos acostumamos a viver nas trevas. Não queremos, de fato, a luz; não queremos nos curar da nossa cegueira porque ela nos oferece algumas vantagens, aquilo que a psicologia chama de “ganhos secundários”. Vivendo como cego, não preciso tomar decisões: os outros decidem por mim; não preciso lutar pela vida: posso viver das esmolas que os outros me dão; não preciso assumir nenhuma responsabilidade: posso me esconder dos desafios da vida atrás das mesmas desculpas de sempre.
          Jesus disse: “Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo” (Jo 9,5). ‘Enquanto estou na sua vida, Eu sou a luz da sua vida. Mas a questão é: você quer a minha luz, ou prefere continuar a viver escondido e acomodado nas suas próprias trevas?’ O filho da luz vive segundo a bondade, a justiça e a verdade (cf. Ef 5,8-9). No entanto, muitos acham mais vantagem viver segundo a maldade, a injustiça e a mentira, esquecendo-se de que “tudo o que é condenável torna-se manifesto pela luz” (Ef 5,13). Cedo ou tarde, a luz da verdade desmascara as mentiras da nossa falsa cegueira e nos faz ver o que precisamos ver.
         Este é o convite de Deus para cada um de nós, hoje: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” (Ef 5,14). Desperte! Pare de depender da visão dos outros. Aprenda a enxergar com seus próprios olhos. Não aceite mais ser guiado(a) na vida por pessoas erradas. Lembre-se de que “se um cego conduz outro cego, ambos acabarão caindo num buraco” (Mt 15,14). Como é que um viciado em droga pode ajudar alguém que está querendo sair das drogas? Como é que uma pessoa que vive praticando adultério pode aconselhar positivamente alguém com problemas no seu relacionamento conjugal? Quantos “conselhos” e quantas “ajudas” erradas você recebe de pessoas “cegas”, que todos os dias dão suas opiniões – consideradas “espetaculares” – na mídia?   
           Todos nós passamos por momentos em que não vemos, momentos em que precisamos que alguém nos ajude a enxergar melhor o que está acontecendo conosco. Mas é preciso procurar ajuda com pessoas que tenham o discernimento de Deus, como diz a Palavra: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7), pessoas que nos ajudem a ver a vida segundo os valores de Deus. Precisamos pedir que o próprio Senhor nos faça ver aquilo que precisamos ver. As primeiras palavras que Deus pronunciou na Escritura são: “Que exista a luz” (Gn 1,3). Você pode pedir que o Senhor pronuncie essas mesmas palavras onde quer que haja escuridão em sua vida.
            No final do Evangelho, Jesus declara: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). E, diante dessa pergunta dos fariseus “Porventura, também nós somos cegos?” (Jo 9,40), Jesus respondeu: “Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas, como dizeis ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece” (Jo 9,41). Julga-me, Senhor, segundo a verdade da tua Palavra. Ilumina-me com a luz do teu Evangelho. Faz-me reconhecer em quais situações da minha vida eu me faço de cego, para não assumir minhas reais responsabilidades. Não quero passar minha vida me escondendo atrás de falsas desculpas. Tira o véu dos meus olhos, Senhor Jesus, para que eu não me torne escravo do meu erro, do meu pecado. Unge os meus olhos, também os olhos da minha alma e do meu coração, com a Verdade do teu Espírito, para que eu possa ver segundo Deus. Amém!  

                                          Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 20 de março de 2014

DESOBSTRUIR A FONTE

Missa do 3º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-42.

            Todos nós temos sede, e a nossa sede não é somente de água. Alguns têm sede de justiça, de dignidade e de paz; outros têm sede de afeto, de amor e de perdão; alguns têm sede da verdade e de liberdade; outros têm sede de uma chance, de uma oportunidade... Mais do que tudo, o ser humano tem sede de Deus: “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 42,3). “Minha alma tem sede de ti, meu corpo te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2).
            Algumas vezes, a sede é um apelo do Espírito Santo em nós, para que sejamos mais profundos, para que busquemos a verdade. Outras vezes, a sede é uma denúncia do mesmo Espírito, para que reconheçamos que abandonamos Aquele que é a única fonte de água viva e construímos para nós cisternas rachadas, que não conseguem conter água (cf. Jr 2,13-14). Mas pode ser ainda que estejamos com sede porque descuidamos da nossa fonte interior e ela secou: secou em nós o amor, a compreensão, o diálogo; secou em nós a fé, a esperança, a alegria de viver e de trabalhar pelo Evangelho.
            O descuido com a nossa fonte interior pode fazer com que ela se torne seca, árida e dura como uma rocha. É possível que o coração de muitos de nós esteja assim. Mas Deus disse a Moisés: “Eu estarei lá, (...) sobre o rochedo... Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber” (Ex 17,6). Quando nos tornamos secos, áridos e endurecidos por dentro, precisamos ser “feridos”, sacudidos, tocados firmemente pela Palavra de Deus, para que a nossa fonte interior seja desobstruída. Você já parou para analisar o que pode estar obstruindo a sua fonte interior?   
            A sede indica também o nosso esgotamento. Precisamos nos reabastecer. A questão é: de que forma você se reabastece? De qual poço você tem bebido? Onde você procura saciar a sua sede? Você tem bebido uma água que não te sacia? A água que você bebe é suja, contaminada? Jesus havia dito à samaritana: “Quem beber da água que eu lhe der, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). Quando ela, então lhe pediu: “Senhor, dá-me dessa água...” (Jo 4,15), Jesus lhe respondeu: “Vai chamar teu marido e volta aqui” (Jo 4,16). E a mulher reconheceu diante de Jesus que o homem com quem vivia não era o seu marido.   
            Assim como essa samaritana, nós queremos encontrar, sem muito trabalho, uma água que sacie rapidamente a nossa sede; queremos que Deus nos dê respostas para as nossas perguntas, remédios para as nossas dores, cura para as nossas doenças, libertação para os nossos problemas. Mas quem de nós está disposto a corrigir aquilo que na sua vida está errado, em desacordo com a Palavra de Deus, em oposição à Sua verdade? Quem de nós tem coragem de reconhecer que a sua cisterna está rachada, que precisamos abandoná-la e nos voltar de verdade para o Deus vivo, o único que é Fonte de Água Viva, o único capaz de saciar a nossa sede mais profunda?   
            A falta de chuva que atingiu o Sul e o Sudeste, neste início de ano, é consequência do desmatamento da Amazônia. Estão previstas consequências graves para nós. Há um receio quanto ao racionamento de água, mas quem toma a atitude de parar de desperdiçar água? Há um olhar para o céu e pedir chuva, mas quem toma a atitude de plantar uma árvore? Há uma preocupação quanto ao risco de um “apagão”, mas quem toma a atitude de economizar energia? Enquanto não mudarmos nossas atitudes de esgotamento dos recursos da natureza, vamos sofrer cada vez mais os seus efeitos.
            A água da nossa fonte interior precisa ser descontaminada do veneno do nosso egoísmo. A nossa consciência precisa ser sacudida pela verdade do Evangelho, como aconteceu com a samaritana, que disse: “Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz” (Jo 4,29), o que, traduzido para o nosso contexto, poderia significar: “Venham ver um homem que me disse o que eu precisava escutar, que me fez reconhecer minhas atitudes erradas e me convenceu de que, ou eu mudo, ou a minha fonte interior secará de vez”.     
        O testemunho daquela mulher fez com que muitos samaritanos abraçassem a fé em Jesus, de modo que eles mesmos lhe disseram: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42). Deixemos com que do nosso interior jorre o testemunho do Evangelho para saciar a sede que as pessoas que convivem conosco têm do Deus vivo e da vida eterna. Desobstruamos a fonte do nosso testemunho cristão, retirando de cima dela o medo, a covardia, o comodismo, a desculpa da falta de tempo para servir a Deus. Há muitas pessoas nos pedindo, de forma consciente ou inconsciente: “Dá-me de beber”. Ofereçamos-lhes a água viva do Evangelho que lava, purifica, refresca e revigora as forças do coração humano. 

                                                                    Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 13 de março de 2014

NOSSAS PALAVRAS E NOSSAS ATITUDES TRANSFIGURAM?

Missa do 2º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

            Você convive com diversas pessoas, e também se relaciona com um número muito maior delas pela internet. Entre essas pessoas que fazem parte da sua convivência ou dos seus contatos pela internet, quais delas colaboram com a sua transfiguração? Quais colaboram com a sua desfiguração? Diariamente você vê imagens, lê notícias, ouve músicas, entra em contato com novos pensamentos e novas ideias. De tudo isso que você recebe, o quê te transfigura? O quê te desfigura?
            Sim, você pode perguntar: como posso saber quando alguma coisa ou alguém me transfigura ou me desfigura? Tudo aquilo que afasta você da sua verdade e da luz que é Deus, te desfigura; tudo aquilo que aproxima você da sua verdade e da luz que é Deus, te transfigura.  
            Em todo segundo domingo da Quaresma, o Evangelho nos coloca diante da transfiguração de Jesus, porque ela é uma antecipação da Páscoa, razão de ser da nossa caminhada quaresmal. A transfiguração de Jesus é uma antecipação e uma garantia da nossa ressurreição. Enquanto caminhamos neste mundo, nos deparamos com a cruz, seja a nossa, seja a dos outros, e a cruz, por um momento, joga uma sombra escura sobre a nossa vida, como que nos desfigurando. No entanto, a transfiguração de Jesus purifica o nosso olhar e nos ajuda a enxergar a glória de Deus, a luz da Sua presença, a verdade do Seu amor junto a nós, junto a toda pessoa que faz sua experiência de cruz.
  A leitura do Gênesis, narrando a vocação de Abrão, nos revela como a transfiguração começa a se dar em nós: nós temos que sair! Deus disse a Abrão: “Sai da tua terra... e vai para a terra que eu vou te mostrar” (Gn 12,1). A vida de Abrão estava parada, interrompida, envelhecida: ele iria morrer sem terra e sem filhos. A vida de Abrão estava desfigurada, mas Deus lhe lançou um desafio: ‘Sai! Rompe com as tuas velhas seguranças, confie em mim; Eu vou te indicar o caminho; Eu vou ampliar o horizonte da tua existência; Eu vou fazer de você um grande povo e uma grande bênção para a humanidade!’ (citação livre de Gn 12,2-3).  
  Abrão, não tendo nenhuma garantia da parte de Deus de que cumpriria Suas promessas, confiou, teve fé, obedeceu e “partiu, como o Senhor lhe havia dito” (Gn 12,4a). Aqui não só a vida de Abrão, mas a própria história da humanidade começou a se transfigurar, porque aqui começou a história da salvação. Portanto, a transfiguração começa na sua vida quando você confia na Palavra do Senhor, que lhe convida a sair, a partir, a sofrer “por causa do evangelho, fortificado pelo poder de Deus” (2Tm 1,8b), este Evangelho por meio do qual Jesus Cristo faz “brilhar a vida e a imortalidade” (2Tm 1,10) para todo aquele que nele crê.
 “Sai da tua terra...” (Gn 12,1). Uma das insistências do Papa Francisco em relação a nós, que somos Igreja, é sair: “sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas... Saiamos, saiamos para oferecer aos outros a vida de Jesus Cristo!... Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 46 e 49). Para que a Igreja possa oferecer aos outros a vida de Jesus Cristo, ela precisa de você, precisa que você abrace a sua vocação, a exemplo do que Abrão fez.
 Já que mencionamos o Papa Francisco, que no dia 13 último completou seu primeiro ano de pontificado, é inegável que suas palavras e suas atitudes têm transfigurado o rosto da nossa Igreja. Contudo, alguém disse que enquanto nós apenas admirarmos o Papa Francisco, a nossa Igreja não vai mudar. Mas, a partir do momento em que nós fizermos o que o Papa Francisco tem nos ensinado, aí então a nossa Igreja mudará.
 A transfiguração de Jesus também nos faz entender que as nossas palavras e nossas atitudes podem transfigurar ou desfigurar as pessoas com as quais convivemos e o meio no qual nos encontramos. Há muita gente perto de nós desfigurada por doenças, conflitos, dificuldades; desfiguradas pelos vícios, pela violência, pela tristeza, pela falta de fé ou pela solidão...  Assim como uma nuvem luminosa envolveu os discípulos e, do meio da nuvem, a voz do Pai disse: “Este é o meu Filho amado... Escutai-o!” (Mt 17,5), assim nossa presença pode fazer com que essas pessoas sintam Deus perto delas e entrem em contato com a palavra de Jesus, Aquele que é a garantia da nossa futura e definitiva transfiguração.
 Nesta segunda semana da Quaresma, assumamos uma atitude concreta de nos fazer presente junto a alguém que se encontra desfigurado, e levemos a essa pessoa a luz da transfiguração de nosso Senhor Jesus. Se de fato for impossível estar junto dessa pessoa, tenhamos momentos profundos de oração por ela...


P.S. Se você deseja tomar uma atitude concreta de transfiguração, a Cáritas Brasileira, órgão da nossa Igreja, está socorrendo as vítimas da guerra civil na Síria. Segundo a Cáritas, “mais de 320 mil pessoas já foram atendidas, com alimentos, água, serviços de saúde, roupas e abrigos. No entanto, mais de 9 milhões de pessoas precisam urgentemente de nossa caridade”. No site da Cáritas, você encontra orientações de como ajudar: www.caritas.org.br

                                                             Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 6 de março de 2014

RESISTIR AO TENTADOR; APROXIMAR-SE DO SALVADOR

Missa do 1º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 2,7-9; 3,1-7; Romanos 2,12.17-19; Mateus 4,1-11.

           Havia um jardim (1ª. leitura), mas agora há um deserto (Evangelho). Havia árvores diversas com frutos saborosos (1ª. leitura), mas agora há somente pedras (Evangelho). O que aconteceu? Aconteceu que o ser humano, tendo sido colocado num jardim repleto das bênçãos de Deus, se deixou enganar pela voz do tentador e passou a acreditar que Deus lhe escondia coisas. Aconteceu que o ser humano, tendo a liberdade de comer de todos os frutos do jardim, caiu na mentira do tentador e desobedeceu à ordem de Deus de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que, no fundo, significa: ‘Eu não quero mais viver na dependência de Deus. A partir de hoje, não é mais Deus, e sim eu mesmo quem decido o que é o bem e o que é o mal para mim’. Desse modo, “o pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12).
Para a Sagrada Escritura, Adão e Eva não são os responsáveis pelo jardim ter se deteriorado em deserto e pelo pecado ter afastado a vida da graça em nós. Adão e Eva são apenas um retrato de todos nós: eles retratam a nossa tendência em usarmos mal a nossa liberdade, em cairmos nas armadilhas do tentador, em fazermos o seu jogo, que é o jogo da sedução. No final, o que sobra é a sensação de não suportarmos a nossa própria nudez e as inúmeras tentativas de passarmos a vida tentando nos esconder de Deus e de nós mesmos.    
Se todos nós somos pecadores e desobedientes como Adão, o apóstolo Paulo afirma: “O ato de justiça de um só trouxe, para todos os homens, a justificação que dá a vida. Com efeito, como, pela desobediência de um só, a humanidade foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça” (Rm 5,18-19). Assim, compreendemos porque Jesus inicia sua missão salvadora no deserto: para nos lembrar que a nossa vida cristã é sempre um combate espiritual, e esse combate de intensifica na quaresma quando, nos deixando conduzir pelo Espírito Santo ao deserto, para que ali Deus possa falar ao nosso coração (cf. Os 2,16), encontramos também a voz do maligno, que tenta confundir a voz de Deus em nossa consciência.
Algumas pessoas interpretam as suas próprias tentações como obra de algum espírito que está sobre elas, o que as isentaria de responsabilidade perante os seus atos. Contudo, São Tiago nos alerta que “cada um é tentado pela própria concupiscência*, que o arrasta e seduz” (Tg 1,14). As tentações têm o poder que nós lhe damos. Nós não somos joguetes nas mãos do tentador, mas podemos, sim, nos tornar joguetes nas mãos da nossa própria carência, da nossa fragilidade, daquelas necessidades psicológicas não reconhecidas, não aceitas e não resolvidas – ou mal resolvidas – dentro de nós.
Se Jesus jejuou durante seus quarenta dias de permanência no deserto foi para nos dizer que nós podemos recuperar o nosso autodomínio; podemos submeter a força dos nossos instintos à força do Espírito Santo, que penetra em nossa vontade humana para abri-la a uma vontade maior, que é a vontade de Deus. Além disso, o jejum desintoxica o nosso espírito e nos dá discernimento, clareza espiritual para distinguirmos o que é a voz de Deus em nós e o que é a voz do tentador.
Quando Jesus sentiu fome, o tentador aproximou-se dele e lhe propôs transformar as pedras em pães (cf. Mt 4,3). Da mesma forma, quando você está lutando, sofrendo ou renunciando a algo para se manter fiel à vontade de Deus, o tentador diz que você não precisa lutar, nem sofrer, nem se sacrificar. Deus quer você feliz. Você não precisa suportar esse sofrimento. Não lute contra os seus desejos; pelo contrário, entregue-se a eles! Mas a Palavra de Deus diz: “Há uma recompensa para a tua dor!” (Jr 31,16); “Não tenha medo do que terá que sofrer... Seja fiel até à morte, e eu te darei a coroa da vida” (Ap 2,10).
O tentador propôs a Jesus “aproveitar” sua condição de filho amado do Pai, subir na parte mais alta do templo e lançar-se para baixo (cf. Mt 4,5-6). Afinal, Deus disse que não deixaria que nada de ruim acontecesse àquele que a Ele se confiasse (cf. Sl 91). Esta é a imagem da religião vivida como superstição, não como fé. Hoje em dia, muitos tatuam no corpo o nome ou a imagem de JESUS, a imagem de MARIA ou de algum outro SANTO, andam com escapulários ou terços pendurados no pescoço, mas também bebem, se drogam, correm em alta velocidade, se alimentam mal, expõem-se a riscos desnecessários, achando que Deus ou algum santo irá protegê-los. Não entenderam que a religião não existe para “manter o nosso corpo fechado contra o mal” (superstição), mas para que possamos aprender a escolher o bem ao invés do mal, como diz a Palavra: “Sujeitem-se a Deus; resistam ao diabo e ele fugirá de vocês. Aproximem-se de Deus e ele se aproximará de vocês” (Tg 4,7-8).
       Por fim, o tentador apelou com Jesus: “Eu te darei tudo isso se te ajoelhares diante de mim para me adorar” (cf. Mt 4,9). Dizendo de outra forma: ‘Eu te darei uma vida só de vitórias, se você me colocar no lugar de Deus na sua vida’. De fato, algumas pessoas escolheram declaradamente servir ao maligno e não a Deus, porque dizem: ‘Deus demora; o maligno me responde imediatamente’. ‘Deus propõe um caminho longo; o diabo me oferece um atalho’. ‘Deus fala comigo por meio de perguntas difíceis; o demônio me oferece respostas fáceis’. Mas também há pessoas que aparentemente trabalham para Deus e em nome d’Ele, na Igreja. Contudo, no dizer do Papa Francisco, muitas delas são “carreiristas”, “alpinistas sociais”; entraram na Igreja não para realizar um serviço humilde em favor dos pobres, mas para adquirirem cargos e títulos, tentando compensar um sentimento de inferioridade inconsciente e mal resolvido dentro delas. A respeito disso, Jesus alertou que aqueles que, ao invés de buscarem a glória do Deus único, buscam a sua própria glória, são vazios, e a pregação deles não têm crédito diante dos homens (cf. Jo 5,41-44).                     
        Examinemos a nossa vida, a forma como lidamos com as tentações. Vejamos se temos permitido que nossas paixões, nossos instintos e nossos desejos nos arrastem para longe de Deus, da Sua graça e da Sua verdade. Aprendamos com Jesus a enfrentar com coragem e com a cabeça erguida o nosso combate espiritual, contando com o auxílio do Espírito Santo. Resistamos às tentações e o maligno se afastará de nós. Então, sentiremos a presença dos anjos de Deus se aproximando de nós para nos consolar, depois da cada tribulação sofrida na tentação (cf. Mt 4,11).


* Sinônimo de paixões, instintos, desejos.

                                                           Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

CRER NO CUIDADO DE DEUS

Missa do 8º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 49,14-15; 1Coríntios 4,1-5; Mateus 6,24-34.

       Tome consciência das suas preocupações: E se eu ficar doente? E se eu perder meu emprego? E se eu não tiver dinheiro para honrar com meus compromissos? E se eu sofrer? E se eu fracassar? E se eu morrer? E se meu filho não passar neste concurso ou nesta entrevista de emprego? E se minha filha cair nas drogas? E se determinado mal atingir a minha família?... A lista das nossas preocupações não tem fim, e parece aumentar a cada dia.
   Nunca como hoje as pessoas estiveram não apenas muito ocupadas, mas também excessivamente preocupadas. Mas, de onde nascem as nossas preocupações? A primeira causa, segundo Jesus, é que decidimos nos colocar a serviço do dinheiro e do consumismo. Primeiro, ficamos preocupados em conseguir dinheiro e adquirir certos bens; depois, além de ficarmos preocupados em manter os bens que adquirimos, nos preocupamos em ganhar mais dinheiro para adquirir mais bens, pois essa é a dinâmica do consumismo: “o que é demais nunca é o bastante” (Legião Urbana, Teatro dos vampiros)... No mundo de hoje, todos precisamos de dinheiro e de alguns bens, mas é bom lembrar quem manda em quem, quem possui quem.
A segunda causa do excesso de preocupação que nos consome é a falta de confiança no Pai, que está no céu. Ao afirmar que o Pai tem o cuidado de alimentar até mesmo os pássaros, Jesus nos pergunta: “Vós não valeis mais do que os pássaros?” (Mt 6,26). Numa outra passagem bíblica, Jesus esclarece que nenhum passarinho cai por terra (morre) sem o consentimento do Pai, que está no céu (cf. Mt 10,29). Essa é a questão: saber que Deus cuida de nós não significa esperar que nunca sofreremos ou morreremos; significa, sim, saber que nada nos acontecerá sem que o Pai consinta, permita, e se Ele permitir, se Ele consentir, será sempre em vista do nosso bem, da nossa salvação.
       Para muitas pessoas, soa irônico e até mesmo sarcástico Jesus dizer que o Pai cuida dos pássaros, e devemos ter confiança, porque nós valemos para Ele muito mais do que os pássaros. Como acreditar que Deus é nosso Pai e que Ele cuida de nós, quando há tantas pessoas com câncer, inclusive crianças e jovens; quando há tanta violência e tanta morte acontecendo ao nosso redor? Aqui nós esbarramos na frágil linha divisória que separa o que é consentimento de Deus daquilo que é fruto de uma liberdade humana mal administrada. Em todo caso, para quem deseja recuperar a sua fé na confiança em Deus em meio a uma situação de sofrimento, é importante ter claro que nenhum mal nos atingirá sem o consentimento do Pai, e se Ele consentir, continuaremos a confiar que Ele tudo está conduzindo segundo o Seu desígnio de salvação para conosco.
        Nossa confiança em Deus nunca é inabalável. Também o povo de Israel, vivenciando uma experiência de sofrimento, se sentiu abandonado e esquecido por Deus: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!” (Is 49,14). Aliás, o próprio Jesus se sentiu abandonado pelo Pai na hora da cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). Sentir-se abandonado e esquecido por Deus não significa ter perdido a fé; significa que a nossa fé deve refazer a sua confiança em Deus na noite escura da dor, do sofrimento e da dúvida, até que voltemos a experimentar o cuidado d’Ele para conosco, confiando naquilo que Ele mesmo disse: “Acaso pode a mãe esquecer-se do filho pequeno...? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti” (Is 49,15).
      Quando você estiver preocupado(a) em excesso; quando a ansiedade crescer em você a ponto de se transformar em crise de pânico, lembre-se de que as nossas preocupações não têm o poder de prolongar a duração da nossa vida (v.27). Elas não vão mudar em nada o que tiver que acontecer, o que tivermos que enfrentar. “Não vos preocupeis, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir?... Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso” (Mt 6,31-32). Jesus nos convida a transformar o nosso medo em confiança, a nossa tentativa de controle em entrega de todas as coisas nas mãos do Pai que sabe do que necessitamos. Ele providenciará a força necessária para lidarmos com o que tivermos que lidar, para enfrentarmos o que tivermos que enfrentar.
        Enfim, se você é o tipo de pessoa que se orgulha de viver correndo e acha que não tem o direito de parar (quem sabe, dizendo que não precisa disso!), torne-se consciente de que a doença é a forma que a vida tem de nos obrigar a parar ou reduzir o ritmo, porque estávamos correndo e trabalhando contra nós, contra os nossos limites, contra a nossa natureza, contra a nossa necessidade de repouso. Lembre-se das palavras do salmista: “Só em Deus a minha alma tem repouso, porque dele é que me vem a salvação!... Povo todo, esperai sempre no Senhor e abri diante dele o coração” (Sl 62,6.9). Ocupe-se, esforce-se, trabalhe pelo reino de Deus e por sua justiça, e tudo o mais que você precisa será providenciado pelo Pai (cf. Mt 6,33). Retire sua alma das mãos da ansiedade e coloque-a nas mãos do Pai, onde ela encontra repouso e salvação. Espere pelo Senhor e abra diante d’Ele o seu coração, para que você volte a se sentir cuidado(a) pela Providência Divina.

                                                           Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

FILHOS DO AMOR OU FILHOS DA IRA?


Missa do 7º. dom. comum. Palavra de Deus: Levítico 19,1-2.17-18; 1Coríntios 3,16-23; Mateus 5,38-48.

            Todos nós somos atingidos diariamente pelo mal. É a notícia sobre um ato violento e injusto que chega a nós por algum meio de comunicação; é a atitude, o olhar ou a palavra de alguém que, em casa, ou na rua, ou na escola/faculdade ou no ambiente de trabalho fez com que nos sentíssemos prejudicados, injustiçados ou não amados. O fato é que todos os dias nós entramos em contato com o mal que há no mundo, e esse contato desperta em nós uma defesa instintiva, chamada ira.
            A ira, essa raiva intensa e profunda, embora seja vista como um sentimento negativo, pecaminoso, não aceito por Deus, é apenas um sentimento, e é bom lembrar que nós não escolhemos sentir. Se a ira surge dentro de nós é porque estamos diante de uma situação em que nos sentimos atacados, feridos, injustiçados, e a ira é a forma que temos de nos defender do mal que estamos sofrendo. A questão, portanto, não é se podemos ou não sentir ira, mas como lidamos com ela.
            Se eu vejo uma imagem de violência na televisão ou na internet, instintivamente a minha ira deseja que a pessoa que cometeu tal violência beba do seu próprio veneno: se ela ateou fogo em alguém, que seja ateado fogo nela também; se ela estuprou, torturou e matou alguém, que seja também estuprada, torturada e morta. Toda vez que eu vejo ou sofro uma injustiça, a minha ira grita: “olho por olho e dente por dente!” (Mt 5,38). No entanto, diante da atitude instintiva da nossa ira, a Escritura nos aconselha: “Irai-vos, mas não pequeis: não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar do diabo” (Ef 4, 26-27). Em outras palavras, eu tenho o direito de sentir ira – isso não é escolhido por mim! – mas não devo dar à ira o poder de determinar as minhas atitudes, levando-me a pecar. Antes que o dia termine, eu preciso reconhecer a ira que possivelmente tenha se alojado dentro de mim e dar-lhe uma direção construtiva, para que o diabo não passe a morar dentro de mim através da minha ira.
             Eis, portanto, o conselho de Jesus: “Não enfrenteis quem é malvado!” (Mt 5,39). Não caiamos no erro de nos tornar injustos com a desculpa de que estamos combatendo as injustiças que existem à nossa volta; não nos tornemos maldosos com a justificativa de que estamos tentando eliminar o mal que existe em nossa sociedade. O mal não é eliminado com o mal, mas com o bem. Você tem o direito de se defender de quem lhe faz mal, mas não permita que o mal passe a ser a sua nova identidade para sobreviver neste mundo.  
             Jesus nos lança um desafio: “Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5,44-45). Em que sentido somos desafiados a amar nossos inimigos? No sentido de entender que o nosso amor não pode estar condicionado àquilo que as pessoas nos fazem: se elas forem boas para nós, seremos bons para elas; se elas falarem conosco, falaremos com elas. São os pagãos que agem assim! Mas nós, cristãos, podemos dar um passo a mais e tomar a decisão de amar.
            Quando você se pergunta se vale a pena amar, não olhe para as pessoas, para verificar se elas merecem ou não seu amor; olhe para Deus: quando Ele decide espalhar pela terra a luz do sol ou derramar sobre ela a bênção da chuva, não olha quem naquele momento merece receber o sol ou a chuva. Deus ama porque decidiu amar, e não porque Seu amor é reconhecido e correspondido na mesma medida pela humanidade. A questão, portanto, que Jesus coloca é saber de quem você realmente é filho(a); de quem você escolhe ser filho(a): de Deus ou do maligno?
Se você escolhe viver como filho(a) de Deus, Jesus te lança um outro desafio: “Seja perfeito como o seu Pai celeste é perfeito!” (citação livre de Mt 5,48). A perfeição à qual Jesus se refere é no sentido de aperfeiçoamento. É um convite a você fazer um caminho espiritual, por meio do qual as arestas do seu egoísmo vão sendo aparadas e você vai aperfeiçoando o seu amor pelas pessoas, de modo que ele se torne cada vez mais capaz de gratuidade. 
Quando é que o nosso amor torna-se perfeito como o do nosso Pai celeste? Quando compreendemos que “não há amor sem dor” (Pe. Júlio Lancelotti, citando Edith Stein). Por que muitas pessoas deixaram de amar depois que chegou a dor na vida delas? Porque reduziram seu amor a um sentimento que só sobrevivia se experimentasse prazer ou alegria. Só quem compreende que amar é uma decisão e não apenas um sentimento pode ter no coração um amor que não apenas sobreviva à dor, mas que, também por meio dela, se torne maduro, perfeito, gratuito, como é o amor de Deus em relação a cada ser humano. 
                       
                                         Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

COMO ANDA A SUA LIBERDADE DE ESCOLHA?

Missa do 6º. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 15,16-21; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,17-37.

            É muito comum você encontrar, na internet, manifestações contrárias às igrejas e às religiões, mas não contrárias a Deus. Algumas pessoas, por exemplo, postam no seu Face afirmações do tipo: “Eu quero Deus; não quero religião, nem igreja, nem doutrina”. Pessoas rejeitam religiões, igrejas e doutrinas porque rejeitam proibições.
       Quando Jesus iniciou sua pregação, muitas pessoas se encantaram com Ele, pela forma como falava de Deus. Mas, diante da expectativa de que Jesus tivesse vindo anunciar um Deus sem doutrina, cuja Palavra não nos proíba de nada, Jesus esclareceu: “Não pensem que vim para abolir a lei e os profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). Jesus não veio nos apresentar um Deus que nunca nos diga “Não; isso não pode, isso não deve!” Ele veio nos esclarecer o motivo pelo qual Deus às vezes nos diz: “Não; isso não pode, isso não deve!” E o motivo está em educar a nossa liberdade de escolha: “Diante de ti, ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir” (Eclo 15,17-18).
            A Palavra de Deus existe para nos ensinar a escolher a vida e não a morte, a felicidade e não a infelicidade. Quem se afasta da Palavra sente Deus cada vez mais distante de si. Consequentemente, não experimenta a presença, o amor e a salvação de Deus em si. Quem se aproxima da Palavra, sente Deus cada vez mais próximo de si. Consequentemente, experimenta a presença, o amor e a salvação de Deus em si (cf. Mt 5,19-20).
  A Palavra diz: “Não matarás!”, mas Jesus aprofunda o sentido de “matar”: quando nos enchemos de cólera, ou nos deixamos dominar pela raiva, ou ainda agredimos as pessoas com palavras, isso também é “matar” (cf. Mt 5,22). Se vamos a uma igreja buscar a nossa comunhão com Deus, essa comunhão só se dará depois que tivermos nos reconciliado com a pessoa de quem estávamos distantes. Em outras palavras, quem toma a decisão de viver distante do outro não tem como sentir Deus perto de si (cf. Mt 5,23-24). E se você decide que só vai se reconciliar com a pessoa depois que ela “pagar o último centavo” do que lhe deve, saiba que é você quem ficará preso no seu ressentimento, e dali não sairá até que não beba a última gota do veneno do seu ressentimento (cf. Mt 5,26).
   A Palavra diz: “Não cometerás adultério”, mas Jesus chama a atenção para a dinâmica do desejo em nós. Um homem não escolhe sentir desejo por uma mulher, e vice-versa. O desejo está inscrito em nossa natureza humana. O problema é quando distorcemos o desejo em posse: “eu quero tal pessoa para mim!”; “tal pessoa tem que ser minha!” O problema não está em você sentir desejo por alguém, mas em permitir “ser arrastado” por esse desejo, de forma que ele destrua a sua família e/ou a família da outra pessoa (cf. Mt 5,27-28).
  Uma pergunta: Você sabe quem conhece os seus desejos? Além de Deus, de você mesmo(a) e do seu coração, também o seu celular, o seu computador, o provedor da sua internet, além de uma infinidade de espiões que vigiam seus passos toda vez que você navega na internet. Uma outra pergunta, em relação à forma como você lida com seus desejos: Você é uma pessoa “fácil”? Ao denunciar a infidelidade do povo de Israel para com Deus, o profeta Jeremias disse: “Quem quiser procurar você não terá dificuldade, ele o(a) encontra no seu mês” (Jr 2,24). A expressão “no seu mês” se refere à época do cio. No campo da sexualidade, as tentações normalmente encontram dificuldade em vencer você, ou você já se tornou para elas apenas “café pequeno”?
  Ainda em relação à forma de lidar com nossos desejos, Jesus diz que, se preciso for, devemos arrancar nosso olho ou cortar nossa mão. Em outras palavras, precisamos aprender a dizer “não” a nós mesmos, convencidos de que é muito melhor perder uma ocasião de prazer do que estragar nossa vida, nosso relacionamento, nossa família, por causa daquele momento de prazer (cf. Mt 5,29-30).
     Por fim, a Palavra de Deus nos convida a perceber se a nossa palavra humana tem crédito ou não diante dos outros: “Que o seu ‘sim’ seja sim, e o seu ‘não’, não” (Mt 5,37). Jesus nos ensina a sustentar aquilo que dizemos, a sermos coerentes, a vivermos de acordo com aquilo que falamos, sem a necessidade de “jurar”, pois uma pessoa que precisa jurar, na verdade tem uma palavra fraca, não digna de crédito. Que essas indicações do Evangelho nos ajudem a purificar a nossa liberdade de escolha de todo egoísmo de nossa parte e também da “tirania do prazer”, imposta pela sociedade em que vivemos.     

                                                                                                                                                  Pe. Paulo Cezar Mazzi