quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"QUERO QUE MINHA CASA FIQUE CHEIA!" (Lc 14,23)

 Homilia 28º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 25,6-10a; Filipenses 4,12-14.19-20; Mateus 22,1-14.

 

O banquete (Isaías) e a Festa de casamento (Evangelho) nos revelam que o Senhor, nosso Deus, é um lar aberto no qual Ele espera todos os seus filhos para a mesa posta, para um banquete que Ele mesmo prepara e no qual abundam comidas e bebidas deliciosas. Tanto o profeta Isaías quanto Jesus nos revelam que Deus tem um sonho em seu coração, o sonho de trazer para a sua mesa todos os seus filhos e filhas, para que reencontrem a fraternidade perdida, para a comunhão que foi prejudicada por separações sem sentido, como o puro e o impuro, o santo e o pecador.

O banquete de Deus simboliza a alegria da salvação. Essa alegria é prometida a toda a humanidade para o fim dos tempos: “ O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos” (Is 25,6). O banquete é para “todos os povos” porque Deus é Pai de todo ser humano e Ele “quer que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2,4). Um detalhe desse banquete: ele é gratuito! Não se paga para participar dele: “Oh vós todos que estais com sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (Is 55,1). Ninguém “paga” pela salvação porque ela não é mérito do ser humano, mas pura gratuidade do amor de Deus.

Por que esse banquete só acontecerá no futuro? Porque ainda é preciso vencer o mal que provoca sofrimentos, injustiças e mortes no mundo em que estamos. Na verdade, o banquete tem por objetivo celebrar a vitória definitiva sobre tudo isso: “O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra; o Senhor o disse” (Is 25,8). É essa promessa que nos faz suportar os sofrimentos do tempo presente e manter a nossa fidelidade a Deus.

Sustentado também por essa promessa, o apóstolo Paulo aprendeu a lidar com os acontecimentos da sua vida sem lhes dar um poder de fatalidade: “Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade” (Fl 4,12). O segredo de viver é não tornar eterno aquilo que é passageiro. Todas as situações que vivemos, boas ou ruins, alegres ou tristes, vão passar. Todo e qualquer acontecimento da nossa vida é passagem e não destino. A vida sempre vai seguir em frente, nos trazendo novas oportunidades e também novos acontecimentos, a respeito dos quais deveremos nos posicionar.

Mas o “segredo” de Paulo estava no seu vínculo com a pessoa de Jesus Cristo: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13). O Senhor ressuscitado está junto a nós em toda e qualquer situação. Sua vitória sobre o mal e a morte nos fortalece, nos sustenta, nos consola, nos levanta e nos ampara em nosso caminhar. Diante de tudo o que nos acontece, o nosso olhar se mantém fixo em Jesus Cristo, que venceu o mundo e nos fará vencê-lo também, conforme sua promessa em Jo 16,33.

A imagem do banquete é retomada por Jesus no evangelho de hoje. Agora se trata do banquete de uma Festa de casamento, cujo convite nos é feito todos os dias: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Senhor!” (Ap 19,9). Participar de um banquete festivo já é por si mesmo algo muito bom! Melhor ainda é termos a honra de sermos convidados por Deus a participar da Festa de casamento de seu Filho com sua Esposa, a Igreja. Quem recusaria um convite desses?

Pois é, muitos não só o recusaram, mas ainda hoje o recusam: “Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram” (Mt 22,5-6). Diante da obstinada recusa do povo de Israel em acolher a oferta de salvação na pessoa do Filho de Deus, o Pai tomou uma decisão surpreendente: “‘Ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’. Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados” (Mt 22,9-10).

“Quero que minha casa fique cheia!” (Lc 14,23). A alegria de Deus é que o maior número possível de pessoas seja salvo. “Mas como é possível que estejam na festa não só os bons, mas também os maus?”, nós questionamos escandalizados. Por um único motivo: porque nós, Igreja, não somos uma assembleia de puros e santos, mas um campo onde trigo e joio crescem juntos (cf. Mt 13,24-30), uma comunidade onde o escândalo sempre será impossível de ser eliminado para sempre (cf. Mt 18,7). O que importa é saber se, enquanto nos preparamos para a festa de casamento, estamos preparando também o nosso traje de festa.  

“Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?” (Mt 22,12). A explicação do significado desse traje se encontra no livro do Apocalipse: “Alegremo-nos e exultemos, demos glória a Deus, porque estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro, e sua esposa já está pronta: concederam-lhe vestir-se de linho puro, resplandecente – pois o linho puro é a conduta justa dos cristãos” (Ap 19,7-8). Nossas imperfeições humanas não têm poder de nos tirar do Reino dos Céus, mas a nossa obstinação em não mudar nossas atitudes injustas podem, sem dúvida, nos expulsar da Festa.

Conclusão: “Muitos são chamados, e poucos são escolhidos” (Mt 22,14). Nossa passagem de cristãos chamados à salvação para a dignidade de sermos escolhidos só se dá quando nos responsabilizamos diariamente pela nossa salvação, buscando nos identificar com Jesus, o homem justo, o Deus que se compadeceu dos injustiçados deste mundo.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

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