quinta-feira, 25 de abril de 2013

ELE PODE NOS FAZER PASSAR DA MORTE PARA A VIDA


Missa do 5º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 14,21b-27; Apocalipse 21,1-5a.; João 13,31-33a.34-35.

Existe um remédio capaz de curar feridas, inclusive aquelas mais profundas. Existe uma força capaz de mudar as coisas, inclusive aquelas mais difíceis. Esse remédio capaz de curar feridas, essa força capaz de mudar as coisas se chama AMOR. O amor é algo tão forte, tão verdadeiro, tão profundo, que a Sagrada Escritura chega a afirmar que quando amamos, nós passamos da morte para a vida (cf. 1Jo 3,14). “Aquele que não ama, permanece na morte” (1Jo 3,15).
Cada um de nós teve, ao ser gerado, ao nascer e logo nos primeiros meses de vida, sua experiência de amor, a partir dos pais. Como os pais são humanos, e como tudo o que é humano é também limitado, ambíguo, imperfeito, condicionado, pode ser que poucas vezes na vida já nos sentimos amados incondicionalmente. Com toda a certeza, não existe uma pessoa que não tenha sido ferida no seu amor, na sua tentativa de amar e no seu desejo de ser amada. Mas Jesus, que todos os dias da sua vida terrena se voltou para o seio do Pai, onde ele recobrava a consciência de ser Seu Filho amado, nos desafia a amar, nos desafia a fazer essa experiência cotidiana da Páscoa, que é passar da morte para a vida deixando o amor voltar a falar conosco, em nós e nas nossas atitudes.
“Amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34). O mesmo Jesus que nos convida a amar também nos alertou que “por causa do crescimento da maldade, o amor vai se esfriar no coração de muitas pessoas. Mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (citação livre de Mt 24,12), será salvo pela força do amor que carrega dentro de si. Há um crescimento sempre maior da violência, da injustiça, da intolerância, da agressividade, da indiferença para com o outro... Por causa disso, o amor tem se esfriado em nós também.
Mas a fé nos faz ver além do véu da realidade, e enxergar que, por trás da violência, da maldade, das drogas, dos crimes absurdos, existem pessoas que nunca se sentiram amadas, pessoas feridas no mais profundo de si mesmas e que a única coisa que aprenderam a fazer na vida foi repassar para os outros as feridas que receberam desde pequenas. Assim como o que está destruindo a humanidade é a decisão de não mais amar, aquilo que pode salvar a humanidade é a decisão de amar, de perseverar no amor até o fim, sabendo que “é preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14,22).       
“Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). O Evangelho nos convida a amar não como já fomos amados um dia por outras pessoas, mas como Jesus nos amou: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Num mundo que detona com todas as razões que você teria para voltar a crer na força do amor, você só conseguirá perseverar até o fim no amor se cotidianamente se voltar, como Jesus, para o seio do Pai, de onde brota o amor, e reconhecer: “Teu amor é como a rocha, que não se quebra jamais! Teu amor é como o sol a nascer toda manhã” (Pe. Fábio de Melo, Cuidas de mim). 
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35). Diferente do que atualmente é propagado por tantos falsos profetas, aquilo que distingue uma pessoa como discípula de Jesus Cristo, como alguém que encontrou o Deus vivo e verdadeiro, não é a prosperidade financeira, mas o amor. O amor que temos em nós e que expressamos em nossas palavras e atitudes reflete o quanto somos verdadeiros discípulos de Jesus. E quando vivemos como verdadeiros discípulos de Jesus, colaboramos para que Deus abra a porta da fé às pessoas com as quais convivemos (cf. At 14,27).
“A ternura do Senhor abraça toda criatura” (Sl 145,9). Dizem que um pai procurou um mestre espiritual no Oriente, levando consigo seu filho, um menino inquieto, agitado, que constantemente agredia a si mesmo e aos outros, como se estivesse possuído pelo maligno. Depois de ouvir as reclamações do pai, o mestre espiritual chegou perto do menino, e sem dizer palavra alguma, abraçou-o. Ficou assim por um longo tempo. Depois, sem dizer palavra alguma, devolveu o menino ao seu pai, curado...
O amor é assim, o remédio capaz de curar as feridas mais profundas, a força capaz de nos fazer passar da morte para a vida. O amor pode “criar um novo céu e uma nova terra” (cf. Ap 21,1). O amor pode “enxugar toda lágrima dos olhos” da humanidade cf. Ap 21,4). O amor pode “fazer novas todas as coisas” (cf. Ap 21,5). “Estas palavras são dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5)


Pe. Paulo Cezar Mazzi 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A MINHA ALMA EM TUA VOZ ENCONTRA DIREÇÃO


Missa do 4º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 13,14.43-52; Apocalipse 7,9.14b-17; João 10,27-30.

A Sagrada Escritura escolheu a imagem da ovelha e do pastor para falar da nossa relação com Deus. A única coisa que mantém a ovelha unida ao seu pastor é a voz dele. Nenhuma corda, nenhuma coleira, nenhum cabresto. Apenas a voz do pastor. Por isso, Jesus declara: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10,27).
“As minhas ovelhas escutam a minha voz”. Desde o Antigo Testamento, escutar Deus tornou-se condição para Israel se manter vivo (cf. Dt 6,4; Sl 95,7; Sl 81,9). Nós precisamos ouvir Deus, se quisermos viver. Mas, como escutar Deus, se os nossos ouvidos estão sempre ocupados? É verdade que Deus normalmente não fala aos nossos ouvidos, mas sim à nossa consciência e ao nosso coração. Mas, como ouvir Deus, se nos mantemos afastados da voz da nossa própria consciência, se temos medo de escutar nosso próprio coração?
 O fato é que nós nos tornamos pessoas incapazes de escutar. Antes de mais nada, não sabemos escutar as pessoas com as quais convivemos diariamente. Depois, não sabemos escutar nosso próprio interior. Por fim, não sabemos escutar Deus. Ou melhor, não queremos escutar Deus, pois, segundo a Bíblia, escutar é sinônimo de obedecer: “Mas meu povo não ouviu minha voz, Israel não quis obedecer-me” (Sl 81,12). E quando não queremos escutar/obedecer a Deus, perdemos o nosso GPS interior, ficamos sem bússola, sem direção: “então os entreguei ao seu coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos!” (Sl 81,13). 
Paulo e Barnabé declararam que quando rejeitamos a palavra do Senhor, no sentido de não obedecê-la, agimos como pessoas indignas da vida eterna. Somente aquele que escuta a Palavra e a obedece destina-se à vida eterna (cf. At 13,46.48). Também Jesus deixa claro que aqueles que escutam a sua voz e o seguem encontram a vida eterna, não se perdem, não caminham sem direção: “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão” (Jo 10,28). Quando diariamente tomamos a decisão de silenciar e nos colocar diante da palavra do Senhor, nossa vida encontra direção, encontra sentido; não nos perdemos nos descaminhos do mundo.
Não são poucas as pessoas que caminham sem direção, sem sentido, pessoas que têm se perdido e se destruído, que se habituaram a conviver com a voz do próprio egoísmo, da própria ambição e da própria agressividade, pessoas para as quais a voz de Deus se tornou estranha, que não se permitem parar, silenciar e ouvir a voz que pode devolvê-las às mãos de Jesus.
 Jesus nos diz que a ovelha que escuta a voz do seu pastor e o segue confia-se às suas mãos: “Ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai” (Jo 10,28-29). Quando acontecimentos parecem negar esta verdade? Quantos acidentes e quantos atos violentos arrancaram filhos de seus pais, pais de seus filhos, crianças e jovens do seio de suas famílias? Quantos acontecimentos parecem nos arrancar com violência das mãos de Jesus e nos fazer perder completamente a nossa paz?
Jesus sempre se confiou às mãos do Pai. Mesmo assim, teve sua vida por um momento arrancada e entregue à morte. Mas as mãos do Pai o arrancaram da morte e o ressuscitaram. Por isso, só ele pode dizer com segurança: “Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai” (Jo 10,29). Nenhum acontecimento, por mais ameaçador e destrutivo que seja, pode nos tirar da mão do Pai e das mãos de Jesus, a quem o Pai confiou cada um de nós.
Ao mesmo tempo em que o Evangelho nos convida a renovar o nosso compromisso de escuta e obediência para com a voz do nosso Pastor e professar a nossa fé na força da sua mão poderosa, ele nos pede também para sermos bons pastores, fazendo chegar a sua voz ao coração daqueles que à nossa volta estão perdidos, sem direção, arrancando aqueles que pudermos arrancar das mãos do mal, da injustiça e do sofrimento e devolvendo-os às mãos de Jesus, pois a nós também se dirige esta Palavra: “Eu te coloquei como luz das nações, para que leves a salvação até os confins da terra” (At 13,47).  
Rezemos especialmente hoje pelas vocações sacerdotais, religiosas e missionárias, para que não faltem ao rebanho pastores segundo o coração de Deus (cf. Jr 3,15), mulheres e homens portadores da Palavra capaz de devolver a direção, o sentido à vida da humanidade, para que todos reencontrem Aquele que é o verdadeiro e único Pastor, o Cordeiro, que “os conduzirá às fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7,17). 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 11 de abril de 2013

SEM AMOR, AS REDES FICAM VAZIAS


Missa do 3º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 5,27b-32.40b-41; Apocalipse 5,11-14; João 21,1-19.

Na primeira vez que Jesus apareceu aos discípulos, após a ressurreição, Tomé não estava presente e não acreditou no testemunho que os discípulos deram: “Vimos o Senhor!” (Jo 20,25). Então, Jesus apareceu uma segunda vez aos discípulos, e fez questão de dizer a Tomé: “Não seja incrédulo, mas tenha fé!” (Jo 20,27). Agora, o Evangelho nos fala da terceira vez em que Jesus, após a ressurreição, aparece aos discípulos, e o objetivo dessa terceira aparição é falar ao coração de Pedro, o discípulo que havia negado Jesus três vezes na hora da cruz.
Após a ressurreição de Jesus, Pedro seguia sua vida com normalidade. Podemos perceber isso quando tomou a iniciativa: “Eu vou pescar” (Jo 21,3). Ele já era pescador antes de conhecer Jesus. Mas Jesus o havia convidado a segui-Lo e a se tornar pescador de homens (cf. Mt 4,18-20). Portanto, quando Pedro decide ir pescar, ele pode estar retornando à sua antiga profissão de pescador, ou simplesmente dando continuidade à missão que Jesus lhe confiou antes da Sua morte e ressurreição. O fato é que naquela noite os discípulos não pescaram nada (cf. Jo 21,3).
Pedro é a imagem de cada um de nós. Por bem mais de três vezes nós já negamos Jesus; já nos omitimos em falar d’Ele; já nos recusamos a trabalhar para Ele, seja por comodismo, seja para não corrermos o risco de sermos criticados pelas pessoas. Assim como Pedro, nós nos sentimos tentados a abandonar a missão que Jesus um dia nos confiou, ou a desempenhá-la por nós mesmos, sem uma união profunda com o Senhor por meio da oração. E quando fazemos isso, fracassamos.
O que há de errado com a nossa vida? Por que aquilo que estávamos habituados a fazer não funciona mais? Por que, apesar de estarmos trabalhando para Jesus, nos sentimos às vezes fracassados em nosso trabalho? Porque fazemos as coisas por nós mesmos, a partir de nós e não de Jesus; porque trabalhamos para Jesus sem a convicção de que Ele está vivo, ressuscitado junto de nós! A notícia da ressurreição de Jesus pode ter chegado aos nossos ouvidos, mas ainda não fez reviver o nosso coração de discípulos.
      Na medida em que a palavra de Jesus Ressuscitado penetrou no coração dos discípulos e eles a obedeceram, as redes se encheram de peixes (cf. Jo 21,6). Mas o objetivo de Jesus, nesta terceira aparição, era devolver o vigor e a fidelidade ao coração de Pedro. Como Pedro representa cada um de nós, é ao nosso coração que Jesus se dirige neste terceiro domingo da Páscoa, perguntando se nós O amamos mais do que as pessoas com as quais convivemos O amam. Se Jesus nos perguntasse se nós cremos n’Ele, talvez não fosse tão difícil responder. Mas Ele pergunta se nós O amamos. O amor é a única força capaz de nos fazer passar da morte para a vida (cf. 1Jo 3,14). Quando o amor se enfraquece ou morre em nós, tudo à nossa volta se enfraquece e morre. Se as nossas redes estão vazias não é porque não estamos fazendo bem o nosso trabalho, mas porque o fazemos sem amor, sem um amor verdadeiro por Jesus Cristo.
     Na medida em que Pedro, com sinceridade, declara o seu amor por Jesus, Jesus lhe responde: “Apascenta os meus cordeiros... Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15.16.17). O amor não é apenas um sentimento, mas uma atitude que nasce de um sentimento. Quem ama, cuida. Somente quando amamos Jesus é que nos envolvemos no cuidado com as pessoas que Ele nos confia, assim como nos envolvemos no cuidado com a Sua Igreja.
Ao terminar seu diálogo com Pedro, e com cada um de nós, Jesus deixa claro que o amor por Ele implicará algum tipo de sofrimento para nós. Em nossa vida de discípulos, chegará o momento em que nos levarão para onde não queremos ir (cf. Jo 21,18). Por causa do nosso amor por Jesus Cristo e pelo Seu Evangelho, nós experimentaremos a morte, no sentido de sermos ignorados e desprezados, ou quem sabe até mortos pelo mundo! Mas isso servirá para glorificarmos a Deus. Independente do quê nos aguarda no caminho de discípulos, Jesus nos diz: “Siga-me” (Jo 21,19). Siga-me, mesmo na sua fraqueza, nos seus tropeços, no seu amor inconstante por mim. Siga-me, também quando você for obrigado a fazer coisas que não gostaria, quando tiver que sofrer por causa de Mim (cf. At 5,40-41). Siga-me confiando que, se à tarde o pranto vier te visitar, de manhã a alegria virá te saudar, e o teu pranto será transformado em uma festa (cf. Sl 30,6.12). Siga-me, esperando com plena confiança o dia da tua ressurreição!     

 Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 4 de abril de 2013

RESISTIR, COMO SE VISSE O INVISÍVEL




Missa do 2º. dom. de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 5,12-16; Apocalipse 1,9-11a.12-13.17-19; João 20,19-31.

      Oito dias após a Páscoa, Jesus Ressuscitado faz questão de se encontrar com Tomé, o discípulo que impôs uma condição para crer na ressurreição: “Se eu não vir... não acreditarei” (Jo 20,25). Como anda a sua fé? Você também costuma impor condições para crer em Deus, para crer nas Suas promessas, na Sua palavra? Você se identifica com Tomé, como um cristão que sustenta a sua vida apenas por aquilo que vê, ou se identifica como um verdadeiro cristão, que sustenta sua vida por aquilo que crê?
Estamos no Ano da Fé, vivendo numa época em que inúmeros acontecimentos vão contra a nossa fé, porque destroem todas as imagens que temos de Deus – o Deus que se revela na Sagrada Escritura como Amor, Misericórdia, Bondade, Compaixão, Justiça, Providência... Mas não são apenas determinados acontecimentos externos que agem contra a nossa fé. A maneira como o próprio Deus se revela a nós também desafia a nossa fé, quando Ele diz que é “um Deus que se esconde” (Is 45,15) ou quando Ele deixa claro que Seus pensamentos e Seus caminhos não são os nossos (cf. Is 55,8).
Muitas pessoas têm desistido de crer, seja por causa de certos acontecimentos dolorosos, sofridos, absurdos, seja pela maneira como Deus é, misterioso, inacessível, não enquadrado nos nossos esquemas, não cabível nas nossas medidas, um Deus a Quem não podemos de forma alguma ver, no sentido de controlar, mas apenas escutar, no sentido de obedecer. É por isso que a fé se apresenta como algo que nos desafia. A fé, quando autêntica, me coloca no espaço correto da relação com Deus, o espaço da obediência, não do controle.
“Se eu não vir... não acreditarei” (Jo 20,25). Se Deus não Se revelar a mim como eu espero, não terei mais fé n’Ele... Se Deus não remover todas as pedras do meu caminho, não curar todas as minhas feridas, não eliminar todos os meus inimigos e não responder a todas as minhas perguntas, não acreditarei mais n’Ele... Esses exemplos bastam para perceber o quanto somos parecidos com Tomé, o quão facilmente desistimos da nossa fé e passamos a trabalhar contra nós mesmos, esquecendo-nos de que, sem a força da fé, “a vida facilmente se torna um arco cuja corda está arrebentada e do qual nenhuma flecha pode ser lançada” (Henri Nouwen, O sofrimento que cura, p.25).
Esta imagem do arco que se tornou incapaz de lançar uma flecha – imagem de uma pessoa que decidiu seguir pela vida sem a força da fé – contrasta com a imagem de Moisés, lembrado como exemplo de fé para nós na carta aos Hebreus: “Foi pela fé que (Moisés) deixou o Egito, sem temer o furor do rei (o exército do Faraó que se pôs a persegui-lo), e resistiu, como se visse o Invisível” (Hb 11,27). A fé é isso: você caminha na vida por aquilo que crê, não por aquilo que vê; você caminha na vida como se visse o Invisível, resistindo às pancadas que leva, às ameaças que sofre, não se deixando vencer por aquilo que tenta te convencer de que você está caminhando na direção do nada.
Jesus hoje diz a cada um de nós o que disse a Tomé: “Não sejas incrédulo, mas tenha fé” (Jo 20,27). Mesmo diante de tantos acontecimentos que parecem enterrar na morte tudo o que você faz em favor da vida, “não tenhas medo. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17-18). Mesmo se você trancar a porta da sua vida para a fé, mesmo se decidir morrer para a sua fé, Eu tenho as chaves e posso tirar você de dentro da morte da sua fé. Ainda que você não possa Me ver, lembre-se de que “felizes (são) os que creram sem terem visto” (Jo 20,29). Felizes os que, mesmo enfrentando tribulações por causa da Palavra de Deus e do testemunho de fé em Mim, perseveraram na sua fé (cf. Ap 1,9). Felizes os que, meditando a cada dia nos Evangelhos, acreditaram em Mim e, crendo, receberam uma nova vida em Meu nome (cf. Jo 20,31).
    Com a nossa Igreja, coloquemo-nos diante de Jesus Misericordioso e clamemos: "Creio em Ti, Ressuscitado, mais que São Tome, mas aumenta na minh'alma o poder da fé! Guarda a minha esperança, cresce o meu amor. Creio em Ti, Ressuscitado, meu Deus e Senhor!"
  Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 29 de março de 2013

LANÇAR NO CORAÇÃO HUMANO A SEMENTE DA RESSURREIÇÃO


Missa do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos do Apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9.

Enquanto existe vida, existe esperança. Enquanto existe vida, é possível lutar: lutar para vencer uma doença, para superar uma dificuldade; lutar para que se faça justiça, para que nos defender de algo que nos ameaça. Enquanto nos sentimos vivos, nós lutamos; enquanto nos sentimos vivos, não perdemos a esperança. Mas quando chega a morte, não há mais esperança. Quando chega a morte, nos sentimos definitivamente vencidos. Não há mais porque lutar. Não há mais pelo quê esperar.  
Aos olhos humanos, também aos olhos dos discípulos, Jesus havia sido definitivamente vencido pela morte. Mas dois acontecimentos devolveram vida e esperança aos discípulos: o túmulo vazio e o encontro com Jesus Ressuscitado. Por isso, Pedro proclamou: “Eles o mataram, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas... a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,39-41). Se a morte colocava fim a todas as nossas esperanças e a todas as nossas lutas, a Ressurreição de Cristo nos diz que é de Deus que nos vem a última palavra: n’Ele nenhuma esperança e nenhuma luta nossa em favor da vida ficarão sem resposta.  
Porque Jesus foi um “amém” vivo ao Pai, isto é, porque a vida dele sempre foi vivida em conformidade com a vontade do Pai, a Ressurreição de Jesus é o “amém” do Pai à vida de seu Filho. E a boa notícia é esta: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que adormeceram... Em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15,20.22). “Primícias” significam “os primeiros frutos de uma colheita”. Na Ressurreição de seu Filho, o Pai iniciou a grande colheita, que nos dá a certeza de que um dia seremos recolhidos por Ele, isto é, que seremos ressuscitados. Por isso, dizemos com o salmista: “Não morrerei, mas, ao contrário, viverei, para contar as grandes obras do Senhor!” (Sl 118,17).  
Segundo o apóstolo Paulo, a ressurreição não é um prêmio de consolação para depois da morte, e sim uma atitude de vida no hoje da nossa história. Uma vez que cremos na ressurreição de Cristo, devemos nos esforçar “por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus” (Cl 3,1-2). Devemos viver com o coração voltado para o alto, como pessoas que, embora tenham que lidar diariamente com a cruz, são pessoas portadoras da semente da ressurreição. Toda semente guarda uma vida escondida dentro de si. Da mesma forma como o apóstolo Paulo usou a imagem da semente para falar da nossa ressurreição em Cristo (cf. 1Cor 15,42-44), ele nos lembra que a nossa vida, a nossa verdadeira vida, “está escondida, com Cristo, em Deus. Quando Cristo aparecer em seu triunfo, vós aparecereis também com ele, revestidos de glória” Cl 3,3-4).
No campo do coração de cada pessoa que encontrarmos neste Tempo Pascal, lancemos a semente da ressurreição! Diariamente encontramos pessoas que desistiram de buscar as coisas do alto e passaram a viver arrastadas pelas coisas da terra, pessoas que desistiram de crer na força da Páscoa, desistiram de se esforçar em fazer a passagem da morte para a vida porque esta passagem se apresenta, à primeira vista, humanamente impossível. Mas a Ressurreição de Cristo nos ensina que a Páscoa não é obra nossa, e sim obra de Deus em nós! É Ele quem nos faz passar! A fé na Ressurreição nunca é a fé naquilo que você pode fazer, mas sempre é a fé naquilo que Deus pode fazer em você.
O túmulo está vazio porque o Deus em quem nós cremos é o Deus vivo! O túmulo está vazio porque Jesus é o Filho do Deus vivo (cf. Mt 16,16), e hoje ele nos diz: “Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,18). Se Jesus tem consigo as chaves da região dos mortos é porque ele tem poder para fazer sair da morte aqueles que nela entraram, seja os que morreram de fato, seja os que se deixaram morrer em tantos sentidos. É o Senhor Ressuscitado quem nos declara neste dia de Páscoa: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). ‘É vida que brota da vida. É fruto que cresce do amor. É vida que vence a morte. É vida que vem do Senhor. Deixei o sepulcro vazio. A morte não me segurou. A pedra que então me prendia no terceiro dia rolou. Eu hoje te dou vida nova! Renovo em ti o amor. Te dou uma nova esperança. Tudo o que era velho passou! Eis que faço novas todas as coisas!’ (Mensagem Brasil, Faço novas todas as coisas). 
Deus te abençoe na força de Páscoa de seu Filho Jesus! Feliz Páscoa! 
Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quarta-feira, 27 de março de 2013

EU TE FAREI PASSAR


Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,1–2,2; Gênesis 22,1-18; Êxodo 14,15–15,1; Romanos 6,3-11; Lucas 24,1-12

Esta é a noite de todas as noites, a grande noite da Páscoa. Nesta noite, o Senhor se dirige a nós como se dirigiu a Israel na noite da saída do Egito: “Diga aos filhos de Israel que se ponham em marcha” (Ex 14,15). Por que Deus quer que nos coloquemos em marcha? Porque somos um povo pascal, porque somos pessoas pascais, porque a cada dia devemos fazer uma passagem: a passagem da escravidão para a liberdade, do pecado para a graça, da morte para a vida. Mas como colocar-se em marcha? Como fazer a passagem, se o caminho está obstruído, se diante de nós há um imenso mar, uma imensa dificuldade que nos parece impossível de atravessar, de vencer?
É a Palavra do Senhor que nos abre o caminho, para que possamos passar. Quando Israel estava no exílio da Babilônia (séc. VI a.C.), e não via mais como passar, como sair da desolação em que se encontrava, Deus dirigiu a sua Palavra àquele povo para lembrá-lo de que Ele é o Criador, Aquele que fez todas as coisas e as mantém com o poder da sua Palavra (cf. Gn 1,1–2,2), Aquele que iniciou sua obra em cada um de nós, e a quem nos dirigimos pedindo: “Senhor, eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos” (Sl 138,8). Por isso, a imagem do paraíso, descrita na primeira leitura, não é saudade de um passado que não voltará mais, mas esperança de um futuro que será criado por Deus, que tem por desígnio restaurar todas as coisas em seu Filho Jesus (cf. Ef 1, 9-10; Cl 1,19-20).
       Nesta noite de Páscoa, a Palavra do Senhor também nos lembra que sempre que tentamos fazer a passagem, nossa fé é provada: é o momento de oferecermos a Deus o sacrifício do filho (cf. Gn 22,2), o sacrifício das nossas seguranças humanas, e confiar unicamente em Deus, confiar que, aconteça o que acontecer, Deus providenciará aquilo que precisamos para fazer a passagem (cf. Gn 22,8), providenciará o socorro, a ajuda, a proteção. E ainda que venhamos a sofrer perdas nessa passagem, Ele providenciará a sua consolação para nós (cf. Gn 22,13-14). Desse modo, a Palavra do Senhor nos diz que quando não recusamos nada a Deus, quando Lhe obedecemos em tudo, principalmente naquilo que é mais difícil para nós, ali experimentamos a abundância da Sua bênção em nossa vida (cf. Gn 22,16-18).  
Mas é no Êxodo que a Palavra do Senhor nos oferece a imagem por excelência da nossa Páscoa cotidiana. Ali fica claro que o Senhor não apenas caminha à nossa frente, mas também se coloca atrás de nós, para impedir que os inimigos nos alcancem (cf. Ex 14,19-20), como reza o salmista: “Tu me envolves por detrás e pela frente, e sobre mim colocas a Tua mão” (Sl 139,5). Confiando na força do seu Espírito, simbolizada no vento que abre as águas, nós podemos caminhar na direção daquilo que antes parecia intransponível, porque é o Senhor quem nos abre o caminho (cf. Ex 14,21-22), é Ele quem nos faz passar!
São Paulo apóstolo nos lembra, nesta noite pascal, que a força da Páscoa de Cristo nos foi concedida no momento do nosso Batismo. Graças ao Batismo, nós pudemos nos tornar semelhantes a Jesus Cristo na sua morte, para que um dia nos tornemos semelhantes a ele na sua ressurreição. Viver como batizados significa viver como pessoas ressuscitadas, isto é, como pessoas que a cada dia decidem morrer para o pecado e viver para Deus, a exemplo de seu Filho Jesus.   
Por fim, a Palavra do Senhor se pronuncia sobre a passagem mais difícil de todas – muito mais difícil que atravessar o Mar Vermelho a pé enxuto –, aquela que nenhuma pessoa pode fazer por si mesma: a passagem da morte para a vida. Quando nossas esperanças são sepultadas e uma pedra é colocada sobre elas, para dizer que ali se encerra a nossa busca, a nossa luta, a nossa tentativa de passar; quando precisamos admitir que chegou o fim e é o momento de aceitá-lo, a Palavra do Senhor se pronuncia sobre a nossa morte, também sobre a morte da nossa fé, para remover a pedra e dizer que não devemos procurar entre os mortos aquele que está vivo (cf. Lc 24,5-6), da mesma forma como nunca podemos dar por morta a nossa fé, porque para Deus nenhuma passagem é impossível. Portanto, diante do túmulo vazio de Jesus, você pode proclamar com sua fé que o mesmo Deus, que abre os mares, pode abri-lo a você também; o mesmo Deus, que dissipa a morte, pode dissipá-la em você também; o mesmo Deus, que ressuscita os mortos, pode ressuscitar você também!     

Pe. Paulo Cezar Mazzi

Abrindo mares (Pe. Fábio de Melo)

Quando o Mar Vermelho em minha vida impedir a travessia, quando a morte ameaçar invadir a Terra Prometida, por Teu Nome eu irei clamar! Quando as portas se fecharem para mim, quando a tranca eu não puder quebrar, gritarei por Teu auxílio, meu Senhor. Tuas mãos irão me sustentar, me sustentar!

Tu que abres as portas. Tu que abres os caminhos. Tu que abres os mares, abre também pra mim! Tu que amas os fracos. Tu que encontras os perdidos. Tu que dissipas a morte, vem dissipá-la em mim! Vem dissipá-la em mim, Senhor! Vem dissipá-la em mim! Vem dissipá-la em mim, Senhor! Vem dissipá-la em mim!

Ressuscita-me Senhor! Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me, Senhor, pelo poder do Teu amor! Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me! Ressuscita-me!... Tu que abres as portas... 
Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me! Ressuscita-me, Senhor!

O CUSTO DE UMA DIFÍCIL PASSAGEM


Sexta-feira da paixão do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 52,13–53,12; Hebreus 4,14-16; João 18,1–19,42.
  
Nós estamos revivendo o mistério pascal de Jesus, mistério que nos recorda que também nós somos pessoas pascais. Páscoa significa “passagem” e, como vimos ontem, existem passagens que nos desafiam, como por exemplo: passar da doença para a saúde, da solidão para a comunhão, da mágoa para o perdão, da tristeza para a alegria, da morte para a vida... As leituras da Palavra de Deus que acabamos de ouvir nos dizem que a porta que nos possibilita fazer a passagem da qual necessitamos não é a porta larga do bem estar, mas a porta estreita do sofrimento. Como está escrito nos Atos dos Apóstolos: “É preciso passar por muitas tribulações, para entrar no Reino de Deus” (At 14,22).
Se não queremos desistir de entrar pela porta estreita, se não queremos desistir de fazer a nossa páscoa, precisamos olhar para Jesus, olhar para aquele que “não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse”, precisamos olhar para Jesus, o “homem coberto de dores, cheio de sofrimentos” (Is 53,2-3), e aprender com ele a permanecer firmes na fé que professamos (cf. Hb 4,14), a fé pascal, a fé que nos faz passar, que nos faz alcançar o que buscamos. Com Jesus, precisamos aprender a obedecer a Deus por aquilo que sofremos, precisamos aprender a obedecer a Deus também quando sofremos e não somente quando está tudo bem.  
         Se as leituras que ouvimos nos colocam diante da verdade nua e crua do sofrimento de Jesus é para que tomemos consciência do nosso valor para Deus, do preço que Ele pagou para nos resgatar do pecado e da morte eterna. E o preço foi este: o Pai permitiu que seu Filho Jesus fosse “ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes. Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo o seu caminho; e o Senhor fez recair sobre ele o pecado de todos nós” (Is 53,5-6). Como, de fato, está escrito no Evangelho segundo São João, a morte de Jesus serviu para reunir todos os filhos de Deus dispersos (cf. Jo 11,52).
       A celebração de hoje nos coloca aos pés da cruz de nosso Senhor Jesus, cruz que se tornou para nós o trono da graça de Deus, como está escrito: “Aproximemo-nos com toda confiança do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4,16). Seja qual for a sua necessidade de páscoa, seja qual for a passagem difícil que você precisa fazer na sua vida, é no trono da graça da cruz de Cristo que você deve colocá-la, para receber de Deus o auxílio que você necessita.  
        Assim como Jesus teve que enfrentar a sua cruz, nós temos que enfrentar a nossa. A maneira como Jesus lidou com a sua cruz nos ensina que não devemos buscar o sofrimento por si mesmo, mas também não devemos fugir dele quando se apresenta a nós como consequência da nossa fidelidade ao Pai. Assim como Jesus, nós podemos enfrentar a realidade da nossa cruz proclamando com o salmista: “Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito, porque vós me salvareis, ó Deus fiel! Eu entrego em vossas mãos o meu destino; libertai-me do inimigo e do opressor! Fortalecei os corações, tende coragem, todos vós que ao Senhor vos confiais!” (Sl 31,6.15-16.25).
         Na cruz de nosso Senhor Jesus depositamos a vida de todos os jovens, dos jovens crucificados pelas drogas, pelo desemprego, pelas doenças, pela violência, pela falta de sentido para a vida. Na cruz de nosso Senhor Jesus depositamos a vida de todas as famílias, de todos os casais, de todas as pessoas que estão doentes, desempregadas, presas, angustiadas, deprimidas, injustiçadas... Clamemos o poderoso sangue do Senhor sobre elas. A elas proclamemos, como o salmista: “Fortaleçam os corações, tenham coragem, todos vocês que ao Senhor se confiam!” (Sl 31,25). 

              Pe. Paulo Cezar Mazzi

Eu entregarei (Dagö)


Eu clamarei o poderoso sangue do Senhor sobre mim, e as cadeias que me cercam irão cair, e meu louvor cantarei! Eu lutarei, com a unção que o Senhor deu para mim. Nem as remotas situações vão resistir, não vão resistir.

Eu entregarei as dores que guardei aos pés da Tua cruz, e confiarei. Já não há o que temer! Por tuas chagas posso crer na vitória!

Eu clamarei...

Uma mesa farta o Senhor preparou, diante dos meus inimigos. Minha taça o Senhor transbordou, eu posso crer, eu posso ver!