quinta-feira, 10 de outubro de 2024

NÃO BASTA VIVER BIOLOGICAMENTE; É PRECISO SENTIR-SE VIVO A PARTIR DE DENTRO

Missa do 28º dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 7,7-11; Hebreus 4,12-13; Marcos 10,17-27 (forma breve).

 

            Estamos no ano da oração, proposto pelo Papa Francisco em preparação para o Jubileu dos 2025 anos do nascimento de nosso Salvador Jesus Cristo. A oração nos lembra que somos seres necessitados; somos filhos, e o filho vive daquilo que recebe do Pai. Para receber, é preciso pedir. Mas, o que pedir?

            A oração do rei Salomão nos ajuda a perceber o que é o mais importante a ser pedido: “Orei, e foi-me dada a prudência; supliquei, e veio a mim o espírito da sabedoria” (Sb 7,7). Normalmente, o nosso pedido está diretamente relacionado com aquilo que julgamos ser o mais importante para a nossa vida. Salomão não pediu nem ouro, nem prata – riqueza material –, mas Sabedoria, entendendo-a como mais importante que a própria saúde e a beleza. O que nós pediríamos a Deus em nossa oração hoje? Quantas coisas que pedimos a Deus não são verdadeiramente necessárias para a nossa vida, e ainda que sejam para esta vida terrena, não o são para a nossa salvação?

            Aqui entra a pergunta do jovem rico a Jesus: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” (Mc 10,17). Por que uma pessoa muito rica se preocuparia com a vida eterna? Porque ela tomou consciência de que a verdadeira vida não é esta; que há uma necessidade profunda no ser humano que dinheiro ou coisa material alguma consegue responder; que não adianta ter todos os meios materiais para se viver bem quando não se tem uma razão, um sentido, para viver. Pois bem: quem de nós está preocupado com a vida eterna? Quem de nós consegue elevar os olhos acima das necessidades terrenas e se perguntar por sua salvação, pela vida eterna?   

            O jovem rico praticava sua religião de maneira exemplar; não só conhecia como também buscava viver segundo os mandamentos de Deus. Por isso, “Jesus olhou para ele com amor” (Mc 10,21) e, por conhecer cada ser humano por dentro, teve a liberdade de dizer àquele jovem rico: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” (Mc 10,21). “Só uma coisa te falta”. O que me falta para ser plenamente de Deus? O que me falta para poder entrar na vida eterna? Qual coisa, pessoa ou situação tomou o lugar de Deus em meu coração e está comprometendo a minha salvação? Meu tempo é dedicado a muitas coisas que julgo serem importantes para a minha sobrevivência neste mundo, mas que tempo eu dedico para cuidar da minha salvação?

            Quando aquele jovem ouviu a proposta de Jesus, “ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico” (Mc 10,22). Aqui entra a importância da Palavra de Deus em nossa vida: “Ela julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4,12). Ela nos torna conscientes das nossas ilusões e das nossas falsas seguranças. Ela nos revela o quanto nossas atitudes religiosas estão cheias de intenções mundanas, e o quanto Deus é buscado por nós não por Ele mesmo, mas por algo que desejamos que Ele nos dê para a vida aqui e agora. Por ser sinônimo de Verdade, a Palavra de Deus nos confronta com o fato de que, diferente do jovem do Evangelho, o melhor do nosso tempo e dos nossos esforços não são gastos na busca pela vida eterna, mas na busca por uma felicidade mundana. Para a maioria das pessoas, a pergunta que não cala no coração não é “O que devo fazer para ganhar a vida eterna?”, mas “O que devo fazer para ser feliz?”. Em nome da felicidade aqui e agora, pessoas perdem a própria salvação, destruindo a vida de outras pessoas e do Planeta.

Jesus não amenizou as exigências do Evangelho para evitar que o jovem rico fosse embora. Ele apenas aproveitou o acontecimento para fazer um alerta aos seus discípulos de ontem e de hoje: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” (Mc 10,23). Por que? Porque “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10). É a ganância pelo dinheiro que está por trás do tráfico de drogas e de órgãos, do desmatamento e dos incêndios que visam destruir a vegetação nativa e criar pasto para engordar bois e exportar carne; é o desejo por mais dinheiro que corrompe advogados, juízes, políticos e empresários; que leva indústrias a poluírem a água e o ar; que faz a indústria farmacêutica e a indústria das armas promoverem a disseminação da morte em nosso mundo; que leva países a preferirem a guerra à paz; que torna os pais ausentes da vida dos filhos, provocando nestes uma série de enfermidades psíquicas...

A ganância por mais dinheiro cria o inferno não só na vida do ganancioso, mas também na sociedade humana, porque aprofunda a desigualdade social, a qual, por sua vez, dissemina a violência que provoca a morte. Portanto, quem, com sua ganância, cria o inferno na Terra não tem como experimentar o Reino de Deus, que é “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). Quem escolheu dar prioridade em sua vida ao Dinheiro, o deus deste mundo, o deus terreno, ao morrer terá como destino “ser enterrado” (cf. Lc 16,22), e não entrar no Reino dos Céus, pois cada um colhe aquilo que planta.

            “Então, quem pode ser salvo?”, perguntaram os discípulos a Jesus, já que todos nós precisamos de dinheiro para viver e todos nós vemos o dinheiro como garantia de uma vida tranquila. “Jesus olhou para eles e disse: ‘Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível’” (Mc 10,27). A salvação não é mérito, nem conquista do ser humano, seja ele rico, seja ele pobre, mas puro dom de Deus. Ele pode tocar na consciência da pessoa apegada ao dinheiro e convencê-la de que ela precisa de salvação e esta pode ser obtida usando o excesso do seu dinheiro para diminuir as injustiças sociais, como aconteceu com o rico Zaqueu (cf. Lc 19,8-10).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

A FORÇA DA MULHER TANTO PODE GERAR VIDA QUANTO MORTE; TUDO DEPENDE DOS SEUS VALORES.

 Missa de Nossa Senhora Aparecida. Palavra de Deus: Ester 5,1b-2.7,2b-3; Apocalipse 12,1.5.13a.15-16a; João 2,1-11.

 

            “Mulher peregrina, força feminina, a mais importante que existiu. Com justiça queres que nossas mulheres sejam construtoras do Brasil”. Se antigamente a mulher era vista como “sexo frágil”, hoje essa visão está mais do que ultrapassada. A maior força da Igreja são as mulheres, assim como acontece na maioria das famílias brasileiras. São elas que mais rezam, que mais trabalham e que mais lutam para manter nossas igrejas e nossas famílias em pé.

Esse protagonismo da mulher está retratado na figura da rainha Ester. Se todos temem o rei e o seu cetro, símbolo do seu poder, a beleza e a delicadeza de Ester conseguem mudar os planos do rei (destruição em massa dos judeus) e salvar o seu povo: “Concede-me a vida — eis o meu pedido! — e a vida do meu povo — eis o meu desejo!” (Est 7,3). Ester é a imagem da mulher que não é fútil, nem vulgar, nem egoísta. Ela não pensa em si, nem nos seus caprichos pessoais, mas na sobrevivência do seu povo. Diferente de Ester, nós temos muitas mulheres fúteis e vazias, cuja única preocupação é com sua estética. Aliás, quando a mulher quer, ela também pode usar o seu poder para matar e destruir. Exemplo claro disso é a rainha Jezabel (cf. 1Rs 21).

Se Ester intercede e salva seu povo da destruição, Nossa Senhora intercede e salva um casamento. “Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não têm mais vinho’” (Jo 2,3). A mulher tem uma sensibilidade mais aguçada do que o homem. Ela percebe o que falta. O vinho simboliza a alegria. Mas a falta de alegria em muitas famílias precisa nos fazer perguntar: do que depende a alegria de uma família? A alegria da bebida alcoólica, das músicas altas e do consumismo é rapidamente substituída pela ressaca da depressão, pelo sentimento de vazio e pelas dívidas. Mas a atitude de Nossa Senhora nos fala não só da sensibilidade de quem percebe o que falta; muito mais que isso, ela revela uma mulher que tem atitude. Diante daquilo que está faltando numa casa, numa família, em nossa Igreja, num ambiente de trabalho, no mundo, temos que aprender com Nossa Senhora a nos mexer e a tomarmos atitudes para enfrentarmos o problema da falta de vinho.

Só Jesus pode nos dar o vinho novo, símbolo do Espírito Santo, da alegria de Deus derramada em nossos corações, mas é preciso que estejamos dispostos a viver segundo os ensinamentos do Evangelho: “Sua mãe disse aos que estavam servindo: ‘Fazei o que ele vos disser!’” (Jo 2,5). Ela mesma já havia dito ao anjo Gabriel: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra!” (Lc 1,38). A maneira como lidamos com nossa vida no dia a dia – relacionamentos, estudo, trabalho, lazer, afetividade e sexualidade, escolhas e decisões – tem como orientação a Palavra do Evangelho ou as pressões e tendências do momento? A principal atitude é “servir” e não “mandar”. A pior atitude é assumir a posição de sempre esperar “ser servido”.     

            O resultado da intercessão de Nossa Senhora é o surgimento do “vinho novo”, de um vinho melhor do que aquele que havia no começo da festa. Todos nós tememos pela rotina que desgasta o sentido daquilo que construímos. Nos esquecemos de que Jesus tem o poder de fazer novas todas as coisas; de nos dar o dom do Espírito Santo, que renova a face da terra. Ao mesmo tempo, Ele nos pergunta se, de fato, desejamos o novo e se estamos dispostos a mudar nossas atitudes, para que o novo possa nascer: “Ninguém, após ter bebido vinho velho, quer do novo. Pois diz: ‘O velho é que é bom!” (Lc 5,39). Jesus encontrou resistência em muitas pessoas do seu tempo, que não acolheram a novidade do Evangelho. Esse desejo pelo velho é a tendência atual das novas gerações em nossa Igreja.

            Olhemos, enfim, para a imagem de Nossa Senhora no Apocalipse: uma mulher que dá à luz um filho diante de um Dragão. Esse Dragão é o Maligno, pai da mentira e assassino (cf. Jo 8,44; Ap 12,9). Suas seduções sempre provocam uma violência que leva à morte, ainda que tal violência e tais mortes sejam falsamente justificadas para se combater o mal, o inimigo. Nossa Senhora nos convida e trabalharmos pela vida e pela esperança, mesmo vivendo em um mundo contrário à vida e desesperançado, lembrando o conselho de São Paulo: “Se nós trabalhamos e lutamos, é porque pomos a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, sobretudo dos que têm fé” (1Tm 4,10). Não nos esqueçamos de que Nossa Senhora foi aclamada por Isabel com essas palavras: “Feliz aquele que teve fé na palavra do Senhor!” (Lc 1,45).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

QUE AS MINHAS ATITUDES NÃO SEPAREM O QUE AS MÃOS DE DEUS UNIU

 Missa do 27º dom. comum. Palavra de Deus: Gênesis 2,18-24; Hebreus 2,9-11; Marcos 10,2-12 (forma breve).

 

            O ser humano não foi criado para a solidão, mas para a comunhão: “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2,18). Ao mesmo tempo, só pode conviver com o outro quem aprendeu a conviver primeiro consigo mesmo. Nós não somos pedaços de pessoas que precisam encontrar outros pedaços de pessoas para nos tornarmos uma pessoa inteira. A primeira pessoa que precisa ser sua companhia é você mesmo(a). Só pode amar alguém quem aprendeu a amar a si mesmo(a).

Apesar do desejo de Deus de que o ser humano não esteja só, a solidão é hoje a realidade da maioria das pessoas, seja por fatores externos, seja por uma escolha interna. Além disso, se Adão não encontrou entre os animais um ser humano como ele, hoje é cada vez maior o número de pessoas que escolhem animais para conviver, pois estes retribuem ao amor que recebem, além de demonstrarem ser mais “humanos” do que as pessoas. Estranho mundo esse em que vivemos!!! A incapacidade de conviver com outro ser humano tem levado pessoas, em alguns países da Europa, a pedirem autorização da Justiça para se casarem com animais! Progresso ou regressão? Evolução ou involução? São os animais que estão cada vez mais humanizados, ou somos nós que estamos cada vez mais desumanizados? Uma coisa é fato: o encanto por animais é consequência direta do desencanto com as pessoas.

Numa época em que as separações superam as uniões e a opção por não se casar, mas apenas morar junto, é infinitamente maior do que a decisão em se casar, a pergunta que os fariseus fizeram a Jesus a respeito do divórcio é profundamente necessária: tem sentido ainda hoje se casar? Jesus entende que a lei do divórcio, dada no séc. XII aC por causa da dureza de coração dos israelitas, não pode, de maneira alguma, ser mais importante do que o projeto original de Deus para o ser humano: “Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher” (Mc 2,6). Homem e mulher são dois seres humanos, iguais em dignidade, para profundamente diferentes. O divórcio é justamente a incapacidade de conviver com alguém diferente de mim. Como eu não consegui transformar a pessoa na minha imagem e semelhança, eu decido me separar dela.

Obviamente que essa não é a única causa do divórcio. Além disso, há inúmeros “casais de segunda união” que vivem de maneira muito mais cristã e respeitosa do que casais vinculados pelo sacramento do matrimônio. Se Jesus entende que a ação pastoral da Igreja deve ser guardar as noventa e nove ovelhas num lugar seguro e ir atrás daquela que se extraviou (cf. Mt 18,12-14), a nossa ação pastoral junto às famílias funciona exatamente no sentido contrário: enquanto cuidamos de uma família “tradicional”, nos mantemos quase que totalmente ausentes da realidade das noventa e nove famílias em situação “irregular”, agindo exatamente na direção contrária de Jesus e do Evangelho.

A pergunta não pode ser reduzida ao estado de divórcio ou de casamento, mas à razão pela qual o divórcio aconteceu e como a atual família está vivendo. “Há também o caso daqueles que fizeram grandes esforços para salvar o primeiro matrimônio e sofreram um abandono injusto, ou o caso daqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimônio, irremediavelmente destruído, nunca tinha sido válido” (Papa Francisco, AL n.298). “Compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade: uma Mãe que, ao mesmo tempo que expressa claramente a sua doutrina objetiva, não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada... Jesus espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura” (Papa Francisco, AL n.308).    

            Jesus deixa claro que todo divórcio expõe o homem e a mulher ao adultério, ao se contrair uma nova união. No entanto, o próprio Jesus já havia alertado que o adultério nasce no coração, quando os nossos desejos estão desordenados (cf. Mt 5,28). A nossa geração escolheu abrir mão da consciência e entregar à emoção, ao sentimento, à paixão, a (ir)responsabilidade pelas nossas escolhas e decisões. Deixamos de nos comportar como adultos perante a vida, sobretudo afetiva, e damos livre curso aos nossos desejos e afetos desordenados, como é comum acontecer com qualquer adolescente. Desse modo, machucamos e somos machucados, desencantamos pessoas e nos desencantamos com pessoas. Somos, na verdade, uma geração adúltera porque não estamos dispostos a frustrar nenhum dos nossos desejos: entre pagar o alto preço da fidelidade e desfrutar das inúmeras ofertas baratas e ilusórias de prazer momentâneo, não é difícil saber qual será a nossa escolha. Enfim, não nos esqueçamos de que adúlteros são também os pregadores moralistas que condenam ao inferno casais em segunda união, enquanto eles mesmos não vivem a vida de castidade que aparentemente ostentam.

            O mal do divórcio ganhou um fortíssimo aliado, no mundo atual. O adultério hoje está na palma da nossa mão: o celular. A facilidade de acesso a fotos e vídeos é um grande problema, especialmente para as pessoas casadas. Mas a causa do divórcio nem sempre é a infidelidade conjugal. Há também o problema da má administração financeira, os baixos salários, as dívidas, a compulsão em comprar etc. Há ainda a influência de um dos pais (a dependência infantil de um dos cônjuges em relação à mãe), que sempre interfere na relação conjugal. Há ainda os maus conselhos dos colegas de trabalho, cujo casamento fracassou e eles se tornaram ótimos especialistas em “como destruir seu casamento”.

            Sejam quais forem as portas de entrada que abrimos para o adultério e para o divórcio, só existe um interessado em destruir o casamento e ferir a família: o Maligno. Ele é o divisor; sua especialidade é dividir, separar, quebrar, desintegrar, fazer voar em pedaços aquilo que Deus uniu. Não que ele possa disputar com Deus, mas ele ataca o ponto fraco do sacramento do matrimônio: o casal, que ao longo do tempo deixa de trabalhar em sintonia com Deus e começa a ter atitudes que sabotam o que Deus uniu. Por isso, que os casais olhem para a própria aliança que carregam na mão esquerda e se perguntem se suas atitudes, representadas pelas próprias mãos, estão trabalhando para, de fato, manter unido o que Deus uniu.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

TRÊS GRANDES PAULADAS EM NOSSA CONSCIÊNCIA

 Missa 26º dom. comum. Palavra de Deus: Números 11,25-29; Tiago 5,1-6; Marcos 9,38-43.45.47-48

 

            Chegamos ao último domingo do mês da Bíblia. Às vezes, a Palavra de Deus, na liturgia do domingo, nos oferece um único fio condutor para a nossa reflexão, como aconteceu domingo passado: a questão da necessidade de reconhecimento e de aceitação. Hoje, não temos um único fio condutor, mas ao menos três: a questão da inveja no campo religioso, a questão do escândalo que leva as pessoas a perderem a fé e a questão das injustiças sofridas pelos pobres por causa das desigualdades sociais.

 

A inveja no campo religioso.

 

Tanto Josué (1ª leitura) quanto João (Evangelho) tiveram dificuldade em compreender que Deus é livre e age onde quer, independente de qualquer instituição religiosa. O Espírito de Deus é livre como o vento (cf. Jo 3,8) e não pode ser aprisionado por nenhuma instituição religiosa. “Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Os caminhos que Ele usa para isso nunca podem ser determinados por qualquer igreja ou religião.

A inveja nasce do sentimento de inferioridade: eu me sinto menos do que o outro; por isso, qualquer coisa que ele aparente ser ou ter a mais do que eu mexe com a minha inferioridade e me faz invejar o que ele tem ou é. A cura da inveja passa pelo reconhecimento do meu valor como pessoa: eu não sou e não devo ser como o outro, pois isso cancelaria a minha originalidade e a minha unicidade. Somos todos “notas musicais”: nenhuma nota sozinha é capaz de fazer uma canção. É a originalidade de cada nota, em comunhão (harmonia) com as demais, que possibilita o nascimento da música.

Dois grandes erros precisam ser evitados, quando se trata da pluralidade religiosa do mundo atual: o relativismo – a ideia de que tudo é de Deus e tudo leva para o mesmo objetivo – e a pretensão da exclusividade – “Só a minha igreja/religião salva”.  

 

A questão do escândalo que leva à perda da fé.

 

Onde existe o ser humano, existe a possibilidade do escândalo, do erro, da falha, do pecado. Jesus não se escandaliza com o pecado de ninguém, pois ele foi humano como nós e é capaz de se compadecer das nossas fraquezas (cf. Hb 4,15). No entanto, deixa claro que quando uma atitude nossa – consciente e intencional – leva uma pessoa a perder a fé em Deus, isso terá como consequência a nossa condenação eterna. Quem “joga” uma pessoa nos braços do Maligno com o seu erro terá o Maligno por “recompensa”.

            Jesus quer nos tornar conscientes de que todos nós temos o nosso “calcanhar de Aquiles”, o nosso ponto fraco, e quem acha que nunca se tornará causa de escândalo para alguém não se conhece verdadeiramente. A única forma de se evitar causar escândalo é frustrar o próprio desejo. As expressões “cortar a mão”, “cortar o pé” e “arrancar o olho” significam dar um corte em nós mesmos – especificamente, na área do desejo. Aqui precisamos recordar mais uma vez: sentir não significa consentir. O pecado não entra no sentir, mas no consentir. Não escolhemos sentir desejo, mas temos liberdade e responsabilidade quanto ao consentir que ele nos leve a pecar e, consequentemente, a nos tornar causa de escândalo para os outros. Por que causa de escândalo? Porque o próprio Jesus garantiu: “Não há nada encoberto que não venha a ser descoberto, nem de oculto que não venha a ser revelado” (Mt 10,26).

            Se o mundo atual reduziu o sentido da vida a sentir prazer, devemos estar cientes de que frustrar o próprio desejo é uma tarefa difícil, sofrida e que pouquíssimas pessoas se disporão a enfrentar. No entanto, é a capacidade de lidar com frustração que diferencia um adulto de uma criança. Só quem é verdadeiramente uma pessoa madura, adulta, consegue dizer “não” a si mesma. Quanto mais somos pessoas infantilizadas, adultas quanto a algumas questões, mas adolescentes quanto a outras, menos capacidade – e, sobretudo, vontade – temos de frustrar determinados desejos que darão origem a escândalos, que por sua vez farão pessoas desacreditarem de nós mesmos, de Deus e da nossa Igreja.     

 

Gerar ou alimentar desigualdade social é condenar-se perante Deus.

 

São Tiago nos alerta que todo salário mal pago grita aos ouvidos de Deus! Empresários cristãos precisam se libertar da ganância desmedida do enriquecimento individual e tornar suas empresas promotoras de justiça social. A desigualdade de salários nas empresas em geral é, via de regra, absurda e gritante. Os que mais trabalham, os que mais estão expostos a riscos para a sua saúde, são os que têm os salários mais baixos. Se o enriquecimento de uma Empresa é fruto de salários miseráveis pagos aos seus funcionários, esse enriquecimento está condenado perante Deus: “Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida, cevando os vossos corações para o dia da matança. Condenastes o justo e o assassinastes; ele não resiste a vós” (Tg 5,5-6). Todo empresário que paga salários de fome aos seus funcionários enquanto ele mesmo vive uma vida de luxo é um assassino aos olhos de Deus.

 

Enfim, por uma questão de verdade e de justiça, lembremos que o outro lado da moeda se chama “Justiça do Trabalho”, onde muitos trabalhadores desonestos, orientados por advogados igualmente desonestos, vão reivindicar valores financeiros injustos e absurdos, “quebrando” empresários. Todas as pessoas que participam desse jogo sujo, que assassina a verdade e a justiça em nome do dinheiro, terão que prestar contas das suas atitudes perante o Justo Juiz, cuja justiça não tem como ser comprada.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

VOCÊ CONSEGUE AMAR A SUA INSIGNIFICÂNCIA?

 Missa do 25º dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 2,12.17-20; Tiago 3,16 – 4,3; Marcos 9,30-37.

            Todo ser humano tem necessidade de ser reconhecido. Quando somos ignorados ou tratados com indiferença, sofremos. O problema é: que preço estamos dispostos a pagar para sermos reconhecidos e aceitos pelas pessoas? Se considerarmos que vivemos numa sociedade de valores invertidos, o nosso reconhecimento e a nossa aceitação dependem de sermos como a maioria é, e isso compromete a nossa fidelidade a Deus. Sendo assim, precisamos escolher qual preço pagar: o preço de sermos desprezados pelas pessoas, mas valorizados por Deus, ou o preço de ganharmos a aceitação das pessoas, com a condição de nos afastarmos de Deus e da verdade da sua Palavra.

            O livro da Sabedoria nos revela o alto preço que a pessoa de Deus paga por não ser igual à maioria: “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir” (Sb 2,12). Quem deseja viver segundo o Evangelho vai incomodar os que não aceitam a verdade do mesmo, e o preço desse incômodo não é apenas o ser excluído ou ser tratado com indiferença, mas o ser perseguido e atacado, na tentativa de convencer a pessoa a desistir de se configurar a Jesus e se tornar como a maioria é: “Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência” (Sb 2,19). Essas ofensas e torturas são muito comuns nos ambientes de trabalho; quando não, acontecem na própria família ou entre os “amigos”.

Se essa é a condição de quem deseja se configurar a Jesus Cristo, a questão é saber o quanto o cristão consegue suportar ser desprezado pelos homens e se manter fiel às promessas de Deus; o quanto ele consegue manter-se firme na sua fé, como o salmista: “Quem me protege e me ampara é meu Deus; é o Senhor quem sustenta minha vida!” (Sl 54,6).

A inversão de valores, própria de um mundo cada vez mais pagão como o nosso, encontra espaço até mesmo dentro das igrejas. A carta de São Tiago hoje nos revela que as igrejas estão tão doentes quanto o nosso mundo: “Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más” (Tg 3,16). Inveja e rivalidade são sentimentos e atitudes próprias de ambientes onde as pessoas brigam por reconhecimento. Desse modo, o serviço que a pessoa abraçou em favor da comunidade se corrompe em “cargo”, em “lugar de poder”. Essa deformação do Evangelho não está presente somente no Clero (carreirismo), nem é “privilégio” da nossa Igreja, mas está presente em todas as igrejas; mais ainda, pode estar presente em qualquer grupo humano. Portanto, também em nossas pastorais e movimentos, há muitos fiéis contaminados com o vírus da inveja e da rivalidade.  

            Convidando as igrejas a um sério exame de consciência, São Tiago pergunta: “De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós?” (Tg 4,1). É vergonhoso constatar que nas nossas comunidades ocorrem eventualmente “guerras” e “brigas”, tudo por causa de algo mal resolvido dentro da pessoa: a necessidade de ser reconhecida, de ocupar um “cargo” de destaque; a perversão do “servir” em “ter poder” sobre os outros, exatamente como os discípulos de Jesus, que discutiam entre si sobre qual deles era o maior (cf. Mc 9,34).

            A denúncia profética de São Tiago revela o quão doente pode ser tornar uma comunidade de cristãos: “Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir” (Tg 4,2). Quando as igrejas se tornam tão doentes quanto o mundo, como podem as mesmas ser instrumentos de salvação para a humanidade? Todas essas atitudes mundanas – cobiça, matar o outro com palavras ou através do ódio e da inimizade, brigas e guerras para derrubar quem está no “poder” –, só conseguem um resultado: o descrédito da própria igreja; pior ainda, o descrédito do Evangelho e do próprio Jesus Cristo.

            A inversão de valores e o comportamento pagão são tão nocivos que podem corromper até mesmo a oração dos cristãos: “Pedis, (...), mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres” (Tg 4,3). Aqui vale um sério exame de consciência: o que eu peço na minha oração visa unicamente o meu bem-estar pessoal ou o bem dos meus irmãos, da minha igreja? Meus pedidos estão reduzidos às minhas necessidades (ou seriam “ambições”?) materiais, ou eu peço bênçãos espirituais para a salvação de todo ser humano?

            Ao ter consciência de que seus discípulos estavam discutindo sobre quem deles seria o maior, o mais importante, Jesus lançou-lhes um desafio: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9,35). Aqui Jesus vira do avesso a nossa necessidade de reconhecimento! Suas palavras são um convite a sairmos da prisão dessa necessidade doentia de sermos reconhecidos como importantes! Ser o “último” e o “servo” de todos significa não alimentar o nosso ego, que sempre deseja estar no centro das atenções.

Mais do que falar com os discípulos, Jesus tem uma atitude pedagógica: toma uma criança, coloca-a no meio deles e a abraça, dizendo que naquela criança está Ele e também o Pai que o enviou. A criança, na cultura judaica, era a pessoa mais desprezível e insignificante da família e da sociedade. Portanto, Jesus está nos desafiando a colocar no centro de nós mesmos não o nosso ego e a sua necessidade doentia de se sentir importante, mas a nossa própria insignificância. Ao abraçar aquela criança Jesus está nos convidando a abraçar e a amar o nosso ser insignificante perante um mundo de valores invertidos. Enfim, quem quiser se encontrar com o Filho e com o Pai, nunca os encontrará na grandiosidade, mas na pequenez; nunca naquilo que o mundo e as próprias igrejas consideram importantes, mas naquilo que ambos desprezam e consideram insignificantes. Esse é o papel do Evangelho: virar do avesso os contra valores que nos adoecem e ferem nosso convívio com as pessoas.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

ALIMENTAR REPULSA DIANTE DA DOR OU OUVIR O QUE ELA TEM A DIZER?

 Missa do 24º. Dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 50,5-9a; Tiago 2,14-18; Marcos 8,27-35.

Entre duas possibilidades – ganhar ou perder, ser feliz ou sofrer, ser forte como um leão ou frágil como um cordeiro – dificilmente alguém escolheria a segunda opção. A coisa mais natural do ser humano é fugir da dor, desviar-se de dificuldades e desejar uma vida longe de problemas. No entanto, para cada um de nós, a vida se apresenta como ela é, e não como nós gostaríamos que ela fosse. Viver é lidar com dor, e a melhor forma de entender isso é estar consciente de que “se não está em suas mãos mudar uma situação que te causa dor, sempre poderá escolher a atitude com que encara esse sofrimento” (Victor Frankl).  

Jesus foi uma pessoa feliz e, no entanto, a sua vida nunca foi vivida a partir de uma estratégia calculada para se manter o mais distante possível da dor. Muito pelo contrário; ele sempre foi de encontro à dor de quem sofria – “homem sujeito à dor, familiarizado com o sofrimento” (Is 53,3) – e não se desviou da dor que lhe coube enfrentar. Isso fica claro na expressão “eu devo”. Diferente de nós, que na busca do próprio bem-estar nos movemos quase sempre na direção do “eu quero”, Jesus entendeu que o sentido da sua vida estava na fidelidade à missão para a qual Ele veio ao mundo. Por isso, sempre que foi necessário, Ele submeteu o “eu quero” ao “eu devo”.

Sempre que a dor entra em nossa vida, é para nos ensinar algo. O Servo do Senhor entendeu isso, ao afirmar: “O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás” (Is 50,5). Quanto mais nós resistimos em aprender, mais a dor se intensifica em nós, e o nosso grande desafio é não voltar atrás, isto é, não abandonar a missão que somos simplesmente porque a fidelidade a essa missão está doendo neste momento. Assim como o Servo do Senhor, precisamos fortalecer a nossa confiança no fato de que “o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo” (Is 50,7). Assim como o salmista, devemos nos manter firmes na oração, repetindo quantas vezes for preciso: “Prendiam-me as cordas da morte, apertavam-me os laços do abismo; invadiam-me angústia e tristeza: eu então invoquei o Senhor ‘Salvai, ó Senhor, minha vida!’... Libertou minha vida da morte, enxugou de meus olhos o pranto e livrou os meus pés do tropeço” (Sl 115,3-4.8).

Sempre que a dor entra em nossa vida, traz consigo uma pergunta: “Quem é Jesus, para você?”: ele é o Leão no qual você se espelha para ser uma pessoa forte e vencedora, ou o Cordeiro que te convida a abraçar o seu “eu devo”? Quando Jesus tornou os discípulos conscientes do seu “eu devo”, Pedro o tomou “à parte e começou a repreendê-lo” (Mc 8,32). Nós também repreendemos Deus, quando Ele permite a dor em nossa vida. Quem Ele pensa que é, para nos tirar aquilo que nos deu? Por que Ele não elimina o mal do mundo uma vez por todas? Como pode um Deus que é amor deixar a humanidade exposta a tanta dor, como atualmente? Por que Ele escolheu deixar o seu Filho único morrer numa cruz, ao invés de destruir todo tipo de cruz que faz a humanidade sofrer?   

Diante da atitude de Pedro, que estava dizendo indiretamente aos outros discípulos que é preciso desviar-se da dor da cruz o quanto for possível, Jesus foi firme com ele: “Vá para trás de mim, Satanás!” – o lugar do discípulo não é na frente do Mestre, dizendo como Ele deve proceder, mas atrás, aprendendo com Ele como lidar com a dor da cruz. Desviar-se do seu “eu devo” em nome de uma felicidade egoísta, de um prazer momentâneo, de um bem-estar ilusório, é cair nas mentiras de Satanás, o qual nos promete uma vida sem dor. Toda propaganda de uma vida sempre feliz, sem nenhuma dor, é satânica, diabólica, mentirosa.

Jesus nos deixa perplexos, ao dizer para Pedro: “Tu não pensas como Deus, e sim como os homens” (Mc 8,33). Para Deus, a vida comporta luz e sombra, alegria e tristeza, ganho e perda, vitória e fracasso; para nós, homens, a vida só vale a pena quando o polo negativo é eliminado e só desfrutamos do positivo. Para Deus, mais importante do que ter um “como” viver – o máximo de facilidade e o mínimo de dificuldade – é ter uma “razão” para viver. Em outras palavras, o sentido da vida não está em não sofrer, mas em manter-se fiel à tarefa que a vida está lhe pedindo para abraçar neste momento, ainda que isso comporte dor para você. Parafraseando Nietzsche, quem tem uma razão para viver, quem tem uma missão a cumprir, quem tem um sentido para viver, suporta qualquer dor que essa missão comporte. Foi assim que Jesus enfrentou a cruz. É assim que Ele convida você a enfrentar a sua.  

            

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

FECHAR-SE É ADOECER; ABRIR-SE É CURAR-SE!

 Missa do 23º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 35,4-7a; Tiago 2,1-5; Marcos 7,31-37.

 

É muito conhecida a figura dos três macaquinhos: um tapando os olhos; outro, os ouvidos, e o outro, a boca. Ela representa um provérbio budista: “Não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal”. Se esse ensinamento tem validade para não sermos propagadores do mal na sociedade humana, a imagem dos três macaquinhos pode hoje representar também o mal do individualismo, do fechamento sobre si mesmo e da indiferença para com o próximo: “Não veja o próximo, não ouça o próximo, não fale com o próximo”, uma atitude que nos adoece e nos desumaniza.

A cura deste homem surdo, que falava com dificuldade, nos recorda que há uma relação direta entre ouvir e falar: só aprende a falar quem consegue ouvir. Exatamente porque estamos no mês da Bíblia, é oportuno recordar que o discípulo é aquele que primeiro escuta a Palavra de Deus, para depois se tornar capaz de levar uma palavra de conforto à pessoa abatida: “O Senhor Deus me deu língua de discípulo para que soubesse levar ao cansado uma palavra de conforto. Toda manhã ele me desperta, sim, desperta o meu ouvido para que eu ouça como os discípulos” (Is 50,4).

Já foi dito que, no mundo atual, ninguém escuta ninguém. Consequentemente, cada vez mais ninguém fala com ninguém. O maior estrago acontece nas famílias: seja devido aos horários de trabalho e de estudo, seja devido à correria da vida, não existe tempo dedicado à escuta: pais não escutam seus filhos e estes não escutam seus pais, mesmo porque cada um, no momento em que poderiam dialogar, “vai” para o seu celular, substituindo o escutar e o falar com aquele que está no mesmo ambiente por escutar e falar com quem está fora do ambiente.

A primeira cura de que necessitamos é aquela que se refere à escuta: escutar nossa própria consciência, onde Deus nos fala; escutar os sentimentos que habitam em nosso coração; escutar o nosso corpo, que quando não é ouvido por bem, se faz ouvir por mal (doença); escutar as pessoas com as quais convivemos, cujas atitudes comunicam muito mais do que as palavras; enfim, escutar a vida que nos fala por meio dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, precisamos tapar os ouvidos para tantas coisas que nos adoecem, nos fazem mal e nos afastam da nossa própria verdade.  

A segunda cura de que necessitamos é aquela que se refere ao falar. Se é verdade que as palavras podem ferir, também é verdade que podem curar. Às vezes o silêncio é uma forma de agredir o outro. Alguém disse: “Conversem! Conversem sempre! Sobre tudo! Porque o silêncio são pedras, e pedras se tornam muros, e muros dividem”. É preciso comunicar o que se sente, e não esperar que o outro adivinhe o que estamos sentindo. “A cura vem pela fala” (Freud). Importante lembrar também que o falar não é feito somente através de palavras, mas de gestos, atitudes, toques: abraçar, beijar, tocar, acariciar...

            Para curar o homem surdo, que falava com dificuldade, “Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão” (Mc 7,33). Embora o motivo principal seja o fato de que Jesus não queria transformar aquela cura num “espetáculo” para chamar a atenção sobre si mesmo, há aqui uma indicação importante para nós: a cura da minha surdez começa quando eu me afasto do barulho externo da multidão de vozes que fala comigo, impedindo-me de ouvir o meu próprio interior. A multidão de mensagens, de imagens e de vídeos das redes sociais, além de nos intoxicar, nos torna surdos para a voz da sanidade que precisa ser ouvida dentro de nós e nos ajudar a nos concentrar naquilo que de fato é essencial para a nossa vida.   

            Após afastar-se da multidão com o homem, Jesus “colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele” (Mc 7,33). Jesus tocou nos ouvidos e na língua do homem que não ouvia e praticamente não falava. A vida de um relacionamento começa a morrer, começa a atrofiar, quando não existe mais o toque. Nunca como hoje nossos dedos tocam tanto em telas, mas não nas pessoas com as quais convivemos. Nós nos esquecemos de que precisamos ser tocados para saber que existimos.

Eis a terceira atitude de Jesus: “Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abre-te!’ Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade” (Mc 7,34-35). O olhar de Jesus para o céu nos lembra que para Deus nada é impossível. Como afirmou o salmista hoje: o nosso Deus “faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos. O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz erguer-se o caído” (Sl 146,7-8). Através de seu Filho Jesus, o Pai veio sanar a criação, adoecida pelo pecado; Ele veio pronunciar sobre tudo o que está fechado em nós o seu “Abra-se!”.

“Efatá!”; “Abra-se!”. Não se feche na sua dor, na sua solidão, no seu isolamento. Abra-se àquilo que Deus está lhe dizendo, àquilo que a vida está lhe chamando a realizar! Abra-se para ouvir as pessoas à sua volta! Abra-se para falar não só o que você sente, mas também para levar palavras de conforto à pessoa cansada, abatida, deprimida: “Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo!’” (Is 35,4). Abra-se ao amanhã, ao futuro, à esperança, àquilo que Deus deseja realizar em você! Não se feche na sua dor, mas mantenha o seu horizonte aberto àquilo que a vida está lhe trazendo. Não se feche em si mesmo, mas abra-se a tantas pessoas que estão precisando dos seus ouvidos e das suas palavras!

  

Pe. Paulo Cezar Mazzi