terça-feira, 26 de março de 2024

CEIAS QUE TRANSFORMAM

 Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

 

Estamos aqui para celebrar a última ceia de Jesus, na qual ele se entregou aos discípulos num pedaço de pão e num pouco de vinho, antes de entregar o seu Corpo e derramar o seu Sangue na cruz pela salvação da humanidade. Vamos relembrar algumas imagens de ceia que aparecem no Evangelho para tentar compreender o significado de estarmos aqui hoje.

            Numa ceia para a qual Jesus não foi convidado decidiu-se a morte de João Batista (Mt 14,3-12). Existem ceias onde se come e se bebe muito, mas onde o coração se alimenta de ideias e sentimentos de morte. São ceias onde a alegria provocada pela bebida e pelas músicas não consegue criar um clima de fraternidade verdadeira entre as pessoas. Existem ceias que não transformam, mas deformam as pessoas. Mas os evangelhos nos falam de diversas ceias onde Jesus esteve presente e onde houve uma transformação na vida de quem delas participou. Na ceia onde Jesus estava presente uma mulher foi perdoada (cf. Lc 7,36-50 – “Teus pecados estão perdoados”), um homem foi convertido (cf. Lc 19,1-10 – “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”), os pecadores foram acolhidos e os doentes foram curados (cf. Mt 9,10-13 – “Quem precisa de médico é quem está doente. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”). Nessas ceias houve uma transformação porque as pessoas que ali estavam não se alimentaram somente de pão, mas das palavras de Jesus, cuja verdade nos liberta.

            A última Ceia de Jesus com seus discípulos aconteceu “antes da festa da Páscoa” (Jo 13,1). Já havia uma páscoa, celebrada todos os anos pelos judeus, conforme nos relatou a leitura do livro do Êxodo. Nessa páscoa, um cordeiro deveria ser sacrificado ao cair da tarde. Seu sangue marcaria as portas das casas. Sua carne seria comida com pães sem fermento (lembrança da pressa em fugir do Egito) e ervas amargas (lembrança da escravidão vivida ali). Ao fazer memória dessa páscoa do Antigo Testamento podemos nos perguntar: Que praga exterminadora ameaça nossa família hoje? Qual sinal marca a nossa casa como uma casa cristã? O que é sacrificado pelo bem da família? Em muitas casas, vivemos uma inversão de valores: filhos são sacrificados em nome da felicidade dos pais; pais são sacrificados em nome da felicidade dos filhos. Um outro aspecto: os pães sem fermento são a imagem de Jesus, homem não inchado de orgulho; assim somos chamados a ser também (cf. 1Cor 5,7). As ervas amargas, por sua vez, nos recordam o amargo da correção, da frustração, da renúncia, atitudes necessárias para a formação do caráter dos filhos e para a nossa própria santificação.

Voltemos ao Evangelho da última Ceia. Jesus tinha consciência de que chegara o momento de passar deste mundo para o Pai. Ele decidiu amar seus discípulos até o fim. Quando chegar o momento de passar deste mundo para o Pai nós estaremos amando? Amar é servir, cuidando daquilo que nos foi confiado. Jesus quis que seus discípulos se lembrassem dele não como alguém que veio para ser servido, mas como alguém que veio para servir. Quando a nossa comunhão com Jesus é verdadeira, nós nos dispomos a servir: “Deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Nisto seremos reconhecidos como seus discípulos: pela decisão de amar até o fim, até o ponto de nos inclinar sobre aqueles que necessitam da nossa ajuda.  

Cada Eucaristia que celebramos é uma atualização da última Ceia: “Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24.25). Cada Eucaristia alcança o nosso passado (Jesus morreu por nós), o nosso presente (Ele está no meio de nós) e o nosso futuro (Ele virá para nos introduzir no banquete do Reino de Deus): “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, estamos proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26). Cada Eucaristia nos recorda o convite de Jesus: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouve a minha voz e abre a porta, eu entro, faço a ceia com ele e ele comigo” (Ap 3,21). Nesta noite começa a nossa páscoa. Abramos a porta para Jesus e deixemos com que ele nos conduza para fora da escravidão do pecado pessoal e social, e nos faça passar da morte para a vida.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 21 de março de 2024

NENHUMA FÉ SERÁ POUPADA DE SENTIR-SE ABANDONADA POR DEUS

 Missa do domingo de ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Marcos 15,1-39.

 

Jesus “passou pelo mundo fazendo o bem” (At 10,38). Por que, então, ele teve que ser eliminado? Porque quem faz o bem questiona quem faz o mal. A presença da pessoa que faz o bem é como uma luz que incomoda quem se habituou a viver na escuridão, fazendo o mal. Mas quem Jesus incomodou: os líderes políticos ou os líderes religiosos do seu tempo? Os líderes religiosos, conforme acabamos de ouvir no Evangelho: Pilatos “bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus por inveja” (Mc 15,10).

Essa atitude dos líderes religiosos da época de Jesus precisa fazer vir para fora os sentimentos que estão escondidos no mais profundo de nós mesmos: inveja, raiva, ódio, desejo de vingança, desejo de eliminar o outro. Não é porque somos cristãos que não sentimos coisas que são contrárias ao Evangelho. Nós não somos somente filhos de Deus, mas também filhos da nossa época, uma época onde as emoções são mais ouvidas do que a razão (a consciência); uma época de crescente intolerância e de incapacidade de conviver com o diferente; uma época onde, ao mesmo tempo em que cresce a sensibilidade para com a defesa dos animais, cresce a indiferença para com a defesa da vida humana, especialmente dos que vivem pelas ruas.

O que dizer então da inversão de valores? O Evangelho nos pergunta com quem nos identificamos: com Jesus ou com Barrabás? Somos discípulos d’Aquele que oferece sua vida para que outros tenham vida, ou daquele que não se importa com a vida alheia? A multidão preferiu Barrabás, um assassino. Quais são as músicas preferidas hoje? Quais são os artistas, os filmes, as novelas, os livros e os vídeos de maior sucesso atualmente? A inversão de valores do mundo atual ataca diretamente toda pessoa que defenda valores como família, honestidade, fidelidade, justiça etc. Pilatos cedeu à “preferência popular”. E nós, cristãos? Nós nos movemos na vida pressionados pela “preferência” das pessoas à nossa volta, ou nos movemos pela nossa consciência?

O mal é visível e palpável no mundo em que vivemos. Sendo verdadeiro Servo de Deus, Jesus não fechou o seu ouvido, nem virou o seu rosto quando foi confrontado pelo mal – a violência dos homens (cf. Is 50,4-7). Pelo contrário, ele abriu seus ouvidos para ouvir o que o Pai tinha a dizer ao ser humano que sofre. No meio de tantas pessoas desoladas, Jesus nos convida a manter nossos ouvidos abertos ao Pai, para que Ele coloque em nossa boca palavras de conforto para as pessoas que estão abatidas à nossa volta. Uma pessoa que serve a Deus não pode ficar calada diante do sofrimento do seu semelhante.

Na hora em que Jesus estava para ser crucificado, “deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o tomou” (Mc 15,23). Essa bebida servia como anestésico, para que a pessoa que fosse crucificada não sentisse toda a intensidade da dor da crucificação. Jesus rejeita esse anestésico; quer sofrer conscientemente. Como nós nos portamos diante da nossa ou da dor dos outros? Usamos de meios para manter nossa consciência anestesiada? Todos nós somos influenciados por um mundo que não aceita a dor e que oferece uma porção de subterfúgios para não senti-la. As drogas que o digam! Jesus nos desafia a encarar a vida nos olhos e a não fugir daquilo que nos cabe enfrentar.

“Vivemos em uma sociedade da positividade. A dor é a negatividade pura e simplesmente. O treino de resiliência como treino de resistência espiritual tem de formar, a partir do ser humano, um sujeito de desempenho permanentemente feliz, o mais insensível à dor possível. A sociedade paliativa coincide com a sociedade do desempenho. A dor é vista como um sinal de fraqueza. A passividade do sofrer não tem lugar na sociedade ativa dominada pelo poder. Nada deve provocar dor. Esquece-se que a dor purifica” (Byung-Chul Han, Sociedade paliativa – a dor hoje).    

A crucificação foi a violência suprema sofrida por Jesus. Não se trata somente da dor física da crucificação, mas da dor “moral”, a dor de ser declarado perante o mundo um homem “condenado”, condenado pelos homens e condenado pelo próprio Deus! Se Jesus aceitou a violência da condenação à morte foi para livrar todo ser humano de sentir-se condenado e de ser condenado (cf. Rm 8,1). Por isso, hoje Jesus pede a nós, seus discípulos, para sermos uma presença libertadora junto a toda pessoa crucificada por inúmeras formas de violência neste mundo. É missão de todo discípulo de Jesus levar “palavras de conforto à pessoa abatida” (Is 50,4); ser uma presença de conforto junto a toda pessoa atingida por algum tipo de cruz, especialmente para que ela não se sinta abandonada por Deus naquela situação.

O silêncio que Jesus manteve durante o seu julgamento e a sua crucificação foi rompido com uma oração: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Como é possível que aquele que a vida toda confiou no Pai morra sentindo-se abandonado por Ele? Certamente, nunca o Pai esteve tão junto do seu Filho como neste momento de cruz, mas Jesus expressa no seu grito a verdade mais profunda que nos habita: na hora mais intensa da dor, nós não sentimos Deus. Ele está ali, nos sustentando nos Seus braços, mas, naquele momento, nós nos sentimos completamente sozinhos, literalmente abandonados!

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Quantas pessoas que morreram de câncer ou de outras doenças fizeram essa pergunta na hora da morte? Quantas famílias, esposas, maridos, filhos, pais, fizeram essa mesma pergunta, ao perderam alguém que eles amavam? Essa pergunta não pode ser ignorada, porque ela nos habita: para cada ser humano que crê, sempre chegará o momento de questionar Deus. A fé nunca será blindada contra a dúvida, contra o sentimento de abandono por parte de Deus. Então, o melhor que temos a fazer é nos jogar nos braços do Pai dizendo o quanto estamos nos sentindo sozinhos, abandonados, esquecidos, ignorados por Ele!

Se muitas pessoas se escandalizam com o questionamento que o Filho faz ao Pai na hora da morte, um homem não se escandaliza; pelo contrário, se abre à fé, ao ver como Jesus morre: “Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: 'Na verdade, este homem era Filho de Deus!’” (Mc 15,39). A maneira como lidamos com a nossa cruz, com a dor que atravessa o nosso caminho, com o sofrimento que atinge pessoas à nossa volta, pode levar outros à fé. Quem dera as pessoas, ao nos virem sofrer e até mesmo morrer, dissessem a nosso respeito: “Verdadeiramente, essa pessoa era uma filha de Deus!”. A experiência de cruz não se dá em nossa vida para destruir a nossa fé, mas para comprová-la! O Pai permite que a cruz atravesse o nosso caminho não para nos fazer desistir de sermos discípulos de seu Filho, mas para nos confirmar como tais.

Diante desse Pai, “Jesus deu um forte grito e expirou” (Mc 15,37). No grito de Jesus está o grito de cada ser humano por vida, por paz, por justiça, por misericórdia, por perdão... Expirando, Jesus entrega seu hálito de vida (seu espírito) a Deus. Expirar lembra término. Chegará o momento em que iremos expirar, como Jesus. Que o nosso expirar seja vivido segundo as palavras do apóstolo Paulo: “sei em quem depositei a minha fé” (2Tm 2,12). Sei nas mãos de quem eu entrego o meu espírito: nas mãos do Pai que conta cada um dos meus passos errantes e recolhe no seu odre cada uma das minhas lágrimas (cf. Sl 56,9), para enxugá-las e recompensá-las (cf. Is 25,8; Ap 7,17). Quer eu esteja vivo, quer eu morra, continuarei pertencendo ao Senhor Jesus (cf. Rm 14,7-8)!

 

 Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 14 de março de 2024

QUEM NÃO ACEITA "MORRER" NÃO VIVE DE VERDADE

 Missa do 5º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Jeremias 31,31-34; Hebreus 5,7-9; João 12,20-33.

 

O que faz a vida valer a pena? Dinheiro? Sexo? Poder? Fama? Sucesso? Bens materiais? Segundo Jesus, o que faz a vida valer a pena é dedicá-la a uma causa; é gastar a vida para deixar o mundo melhor depois de termos passado por ele.

Enquanto nós entendemos que viver significa preservar-se, poupar-se, Jesus nos faz esse alerta: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12,26). Em outras palavras, enquanto nós entendemos a vida como desfrutar o máximo possível das coisas deste mundo, já que a nossa existência terrena é muito breve, Jesus nos fala de uma outra vida, uma vida plena, que não é atingida pela morte, uma vida verdadeira, mas que só pode ser alcançada quando não nos importamos em “perder”, em gastar, em dedicar a nossa existência terrena a uma causa maior, que não é o nosso bem-estar pessoal, e sim a salvação da humanidade.

Para nos ajudar a compreender o sentido da vida, a razão de ser da nossa existência, Jesus se utiliza da imagem de um grão de trigo: se ele quiser ser poupado, guardado, preservado de ser enterrado, permanecerá apenas um grão de trigo. Mas se ele aceitar ser enterrado e passar pelo processo de “morrer”, produzirá muito fruto. O que é esse “morrer”? É dedicar a nossa existência a algo que a própria vida nos chamou a fazer; é deixar vir para fora aquela fecundidade que está guardada dentro de nós e que nos foi dada por Deus não em função de nós mesmos, mas em função do bem da Igreja, das pessoas, da sociedade humana. O que Jesus está nos dizendo é que, quanto mais nos fechamos em nós mesmos, mais infelizes e vazios nos sentimos. Pelo contrário, quanto mais nos doamos às pessoas ou a uma causa que precisa de nós, mais nos sentimos felizes e realizados.

Doar-se, dedicar-se a uma causa, gastar a vida para tornar a humanidade melhor é um processo doloroso. Jesus também experimentou repulsa diante da dor e da morte: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora!’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” (Jo 12,27-28). Jesus nos encoraja a reconhecer nossos sentimentos e a dialogar com eles. Apesar de todo ser humano mentalmente saudável desejar viver e não morrer, sempre em nossa vida chegará a hora da angústia, a hora de submeter o nosso instinto de sobrevivência à missão ou à causa que abraçamos, a hora de fazermos não a nossa vontade, mas a vontade do Pai, que é doar aquele momento da nossa vida para gerar vida em outras pessoas ou em situações que não nos dizem respeito diretamente, mas que dizem respeito ao bem da humanidade.

“Foi precisamente para esta hora que eu vim” (Jo 12,27). Na vida de cada um de nós existe a hora da cruz, a hora do sacrifício, da renúncia, para nos mantermos fiéis à missão que somos, à tarefa que a vida nos confiou. Por fugir dessa hora, por não aceitá-la em sua história de vida, muitas pessoas abandonaram o casamento, a família, os filhos, os pais, a Igreja, o serviço que haviam abraçado em prol de um mundo melhor. Por não admitirem sofrer, muitas pessoas decidiram tornar-se indiferentes a tudo e a todos, fechando-se em si mesmas e tornando-se grãos de trigo guardados numa gaveta. Elas até podem se sentir “preservadas” da dor de não ter que morrer para gerar vida no mundo ao seu redor, mas já estão mortas por dentro, porque decidiram sabotar a própria fecundidade e esvaziar o sentido da sua própria existência.

Jesus nos propõe viver, e viver em plenitude, mas essa experiência só se dá quando não fugimos da nossa hora de cruz, de sacrifício, de doação, de renúncia; numa palavra, de obediência à vontade do Pai. “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu” (Hb 5,8). Ninguém de nós aprende a obedecer a Deus sem dor, sem sofrimento, não porque Deus deseje nos ver sofrer, mas porque o nosso ego não aceita se submeter à vontade de Deus. De uma coisa devemos ter certeza: nós só seremos felizes e nos sentiremos realizados fazendo a vontade de Deus, isto é, sendo fiéis à tarefa que Ele nos confiou ao nos chamar à existência, mas viver segundo essa vontade nos custará muitas vezes lágrimas, muitas lágrimas, exatamente como aconteceu com Jesus. Contudo são essas mesmas lágrimas que, caindo no solo onde nosso grão de trigo foi enterrado e aceitou morrer, fará germinar a vida fomos chamados a gerar a partir da nossa “morte”.

De novo a pergunta: O que faz a vida valer a pena? A vida vale a pena não pelo tanto que você vive, mas pelo tanto que você aceitar morrer para gerar vida à sua volta.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 7 de março de 2024

AMAR SIGNIFICA SACRIFICAR-SE POR AQUILO QUE SE AMA

 Missa do 4º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Crônicas 36,14-16.19-23; Efésios 2,4-10; João 3,14-21.

 

Nós já percorremos três semanas do nosso caminho quaresmal. Agora que estamos iniciando a quarta semana, já é possível ver algo despontando no horizonte: alguém foi levantado numa cruz! A explicação dessa imagem nos é dada pelo próprio Jesus: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3,14-15). Da mesma forma como o povo de Israel, picado por serpentes venenosas no deserto, encontrou cura e salvação ao olhar para a imagem de uma serpente de bronze, fabricada por Moisés por ordem de Deus (cf. Nm 21,8-9), assim Jesus se tornará na cruz uma imagem da salvação de Deus para a humanidade, mas essa salvação depende da fé: “É necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3,14-15).

A fé que nos salva não está na imagem do Crucificado, e sim no que ela significa, e o próprio Jesus explica: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A primeira verdade na qual somos chamados a crer é esta: Deus ama a humanidade, e a prova desse amor está explícita na cruz de seu Filho. Porém, muitos perguntam que amor é esse que parece ter abandonado a humanidade a si mesma; que amor é esse que permite o câncer e tantas outras doenças, as catástrofes, as guerras, a violência, a desintegração das famílias, a desorientação da humanidade etc.

A imagem do Crucificado coloca em crise a nossa ideia a respeito do amor. Para nós, quem ama faz de tudo para que o amado não sofra. No entanto, Deus vê as coisas de outra maneira. Quem ama educa e corrige o amado (cf. Hb 12,5-13). Quem ama permite situações difíceis na vida do amado, para que ele cresça, amadureça e se torne forte perante os desafios da vida. No Antigo Testamento, Deus amou Israel, e, no entanto, permitiu que seu povo fosse exilado na Babilônia por vários anos (cf. 2Cr 36,19-20). Estando naquela situação de sofrimento, Israel se sentiu abandonado e esquecido por Deus, mas o próprio Deus lhe garantiu: “Se de ti, Jerusalém, algum dia eu me esquecer, que resseque a minha mão! Que se cole a minha língua e se prenda ao céu da boca, se de ti não me lembrar! Se não for Jerusalém minha grande alegria!” (Sl 137,5-6).

A humanidade tem feito inúmeras experiências de exílio, não porque Deus assim o queira, mas justamente por ter virado as costas para Deus. O mundo moderno empurrou Deus para fora; consequentemente, ele se sente tomado por um grande vazio, traduzido em insegurança, medo, apatia, desencanto, orfandade etc. Assim como a experiência do exílio foi uma correção para o povo de Israel, assim Deus permite exílios para corrigir o ser humano, na esperança de que ele reveja as suas atitudes, pare de ferir a si mesmo e ao seu semelhante, e decida voltar a se deixar amar e cuidar por Deus.

Embora o pessimismo tenha tomado conta do coração de muitas pessoas, Jesus nos lembra de uma outra grande verdade: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Todo pregador que distorce a Palavra de Deus para incutir medo e ameaçar pessoas não entendeu o Evangelho. Justamente porque ama a humanidade, Deus “deseja que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2,4). É nossa missão nos colocar junto de pessoas que desistiram não somente de Deus, mas também de si mesmas, e anunciar que não há fim de linha nem estrada sem saída para ninguém. “Não existe mais condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8,1).

Se é verdade que Jesus veio ao mundo para salvar, não para condenar, existe a possibilidade de condenação por parte da pessoa que escolhe as trevas e não a luz: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más” (Jo 3,19). O que Jesus está nos dizendo é que escolher a luz implica em renunciar às trevas, e muitas pessoas, apesar de desejarem a luz – ser salvas –, não estão dispostas a pagar o preço de renunciar às trevas, porque estas lhes dão algum tipo de ganho ou de compensação. Em outras palavras, quem faz o mal não o faz por ser mal, mas por querer ganhar algo com o mal que faz. Só quem aceita perder esse ganho, abrir mão dessa compensação que tem como custo o mal provocado a si mesmo, aos outros, à humanidade, consegue sustentar a sua escolha pela luz.

Jesus entende que escolher a luz significa agir conforme a verdade: “Quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3,21). Em outras palavras, ninguém é salvo por saber ou conhecer a verdade, mas por decidir viver segundo ela. A verdade é o Evangelho (“Palavra da verdade”, cf. Ef 1,13). Quando agimos conforme a verdade, sentimos paz e temos saúde física, emocional e alegria espiritual. Quando agimos em desacordo com a verdade, perdemos nossa paz, começamos a adoecer e a tristeza passa a morar em nosso espírito.   

Três perguntas podem nos ajudar a rezar a nossa vida diante da Palavra de Deus, neste quarto domingo da Quaresma: 1) Eu creio no amor de Deus pela humanidade, manifestado visivelmente na cruz de seu Filho Jesus? 2) Qual sentimento é mais frequente em meu interior: o de condenação ou o de salvação? 3) Eu me esforço para viver segundo a verdade do Evangelho no meu dia a dia?

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

SEU CORPO É UM TEMPLO HABITADO POR DEUS OU OCUPADO POR DEMÔNIOS?

 Missa do 3º. Dom. Quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 20,1-3.7-17; 1Coríntios 1,22-25; João 2,13-25.  

 

            Geralmente, a imagem que os Evangelhos nos dão de Jesus é a de um homem sereno, pacífico, manso e humilde. Mas a cena do Evangelho de hoje nos apresenta um Jesus enérgico, “agressivo”, que, ao ver o Templo, a casa do seu Pai, ser corrompido em casa de comércio, faz um chicote de cordas e expulsa todos do Templo. Essa atitude enérgica de Jesus tem uma justificativa: a religião jamais pode estar a serviço do enriquecimento dos seus dirigentes, sobretudo quando esse enriquecimento é fruto da exploração da miséria dos que buscam na religião o socorro de Deus. Além disso, a religião também não pode ser distorcida em autoajuda, em motivação empresarial, de modo que Deus seja instrumentalizado e colocado a serviço da ambição ou dos sonhos de enriquecimento dos “fiéis” que a frequentam.

“Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2,16). Quantos de nós temos uma relação “comercial” com Deus? Temos sonhos, projetos, desejos, e achamos que Deus é o encarregado de realizá-los. Consciente ou inconscientemente, muitas pessoas estão nas igrejas não para servirem a Deus, mas para se servirem d’Ele, em vista dos seus desejos egoístas. Essa maneira comercial de viver a fé foi chamada por Rodrigo Bibo, autor do livro “O Deus que destrói sonhos”, de “teologia da Xuxa”, uma vez que a mesma costumava cantar uma música cuja letra dizia: “Tudo o que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar” (Lua de Cristal).

  A verdade é que, num primeiro momento, ninguém procura Deus gratuitamente, mas sempre movido por uma necessidade. Normalmente é a dor, e não o amor, que move as pessoas a irem a um templo e a orarem a Deus. Mas Jesus deseja nos conduzir a um nível mais profundo de fé, onde aquilo que nos move na direção de Deus não seja uma necessidade, mas simplesmente o amor, como um filho que procura o pai não porque precisa de algo, mas porque ama o pai e quer ficar na presença dele.

Ao ser questionado sobre seu “ataque” ao sistema corrompido do judaísmo do seu tempo, Jesus fez uma revelação surpreendente, que não foi compreendida de imediato: “Jesus estava falando do Templo do seu corpo” (Jo 2,21). Existem incontáveis templos na face da terra, mas somente Jesus é o verdadeiro Templo, porque somente por meio d’Ele podemos ter acesso ao Pai (cf. Ef 2,18). Numa época em que a descrença e a indiferença religiosa crescem mais do que a procura por Deus nas diversas religiões, todos precisamos ser “chicoteados” por essas palavras do apóstolo Paulo: “Os judeus pedem sinais milagrosos... Nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus... Esse Cristo é poder de Deus” (1Cor 1,22.23.24). O Corpo crucificado de Jesus, presente nos crucificados do nosso tempo, é o lugar do encontro com o verdadeiro Deus.

Se Jesus entendeu o seu Corpo como Templo de Deus, nós também devemos recobrar a consciência de que o Espírito de Deus habita em nós, o que significa que também o nosso corpo é templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19). Desse modo, as palavras de Jesus – “Tirai isso daqui!” – também devem ser entendidas em relação ao nosso corpo. Justamente porque vivemos numa sociedade erotizada, que reduz o afeto ao prazer e à satisfação dos nossos desejos instintivos, o corpo é hoje um templo profanado por inúmeros comerciantes. A pornografia é uma das cinco indústrias mundiais que mais ganha dinheiro. Segundo a neurociência, o seu poder de viciar é mais forte que o da cocaína. Temos também a indústria do tráfico de órgãos: pessoas pobres são sequestradas e têm seus órgãos retirados para a venda no mercado clandestino, “salvando” a vida dos ricos que podem pagar por órgãos traficados. A série “Coração marcado” denuncia isso claramente. Temos ainda o problema da pedofilia e da prostituição infantil, conhecidas, toleradas e praticadas por “gente grande” em muitas partes do nosso País: políticos, juízes, médicos etc.   

“Tirai isso daqui!”. Esta ordem de Jesus precisa questionar a presunçosa autonomia dos que afirmam: “meu corpo, minhas regras”. Como alguém sabiamente disse: “Seu corpo tem suas regras? A vida tem seus direitos!”. Um embrião ou um feto não é um órgão que pertence ao corpo da mulher e que ela pode decidir extirpar dele, se assim o desejar. Além disso, devemos considerar o fenômeno atual das tatuagens. Buscando modelos ou ídolos – destaque para os jogadores de futebol –, as novas gerações mergulham de cabeça na onda de tatuar-se. Ignorando totalmente o próprio corpo como templo de Deus, tatuam-se de maneira cada vez mais extravagante, nunca se dando ao trabalho de perguntar a Deus na sua consciência o que Ele acha daquela tatuagem (Elas conhecem os dez mandamentos???). São “templos pichados” com toda espécie de imagens, frases (inclusive bíblicas!) ou símbolos – um comportamento próprio de uma geração paganizada.  

Muito mais do que diante do chicote de Jesus, o Evangelho de hoje quer nos colocar diante dessa verdade: Jesus “conhecia o homem por dentro” (Jo 2,25). Diante de uma geração como a nossa, excessivamente preocupada com o corpo, mas desleixada quanto à consciência, Jesus nos vê no profundo de nós mesmos; Ele sabe o que se esconde dentro de nós e que ninguém vê. Ele conhece cada pensamento, sentimento e desejo que se escondem nas regiões mais profundas e obscuras de nós mesmos. Ele conhece o lixo que se acumula dentro de nós há muito tempo. Ele enxerga não somente as nossas tatuagens, mas principalmente os motivos que nos levaram a fazê-las. Deixemos com que Ele nos diga o que deve ser tirado do nosso corpo, da nossa alma e do nosso espírito, para que o templo que somos seja reconstruído e volte a ser o lugar da habitação de Deus e não dos demônios que permitimos que passassem a morar dentro de nós.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

SEM SACRIFÍCIO LIVRE E CONSCIENTE NÃO HÁ TRANSFIGURAÇÃO

 Missa do 2º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 22,1-2.9a.10-13.15-18; Romanos 8,31b-34; Marcos 9,2-10.

 

Os textos bíblicos de hoje nos colocam sobre dois montes: o monte Moriá e o monte Tabor. Sobre esses dois montes estão dois filhos e dois pais: Isaac, o filho único de Abraão, e Jesus, o Filho único do Pai. A diferença é que Isaac é poupado do sacrifício, enquanto que Jesus abraça livre e conscientemente a missão de sacrificar-se para salvar todo ser humano. Entre o (quase) sacrifício de Isaac e o sacrifício de Jesus, o apóstolo Paulo nos coloca uma pergunta: “Deus que não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele?” (Rm 8,32). Jesus está prefigurado em Isaac: enquanto Deus Pai poupa o filho único de Abraão do sacrifício, não poupa, mas permite que seu Filho único seja entregue “por todos nós”, do sacrifício da cruz.

A primeira palavra que precisa falar ao nosso coração, na liturgia de hoje, é SACRIFÍCIO. Pelo quê eu me sacrifico no dia a dia da minha vida? Pela minha sobrevivência? Pelo bem-estar da família e dos filhos? Movido(a) pela competição e pelo consumismo? Até onde estou disposto a me sacrificar pela restauração do meu casamento, para me manter fiel ao chamado que Deus me fez, ou para manter a minha consciência reta diante de Deus, em vista da minha salvação? O meu sacrifício é imposto a partir de fora (como o de Isaac), ou abraçado livre e conscientemente por mim (como o de Jesus)?

Deus não permitiu o sacrifício de Isaac para que Abraão – e cada um de nós – compreendesse que Ele não se alimenta do sangue de crianças inocentes, como se fosse um ídolo pagão. No entanto, Ele pediu o sacrifício de Isaac para colocar à prova Abraão e cada um de nós, através de uma pergunta: “Você continuaria a crer em mim e a caminhar comigo se Eu permitisse que perdesse aquilo que você mais ama nesta vida?”. Por trás do pedido que Deus fez a Abraão, de sacrificar Isaac, seu filho único, está uma verdade difícil de compreendermos e aceitarmos: Deus não é somente Aquele que dá, mas também Aquele que tira. Não nos esqueçamos das palavras de Jó: “O Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,20).  

“O mistério do mal e do sofrimento tem conduzido pessoas para Deus, mas também as afastado d’Ele. Que sentido tem um Deus que não sabe o que fazer do sofrimento, ou, se o sabe, não nos quer ajudar? Mas se nós Lhe viramos as costas, será que isso ajuda a nos livrar do sofrimento, ou será que, pelo contrário, nos privará da força para confrontarmos e fazermos frente ao mal e ao sofrimento?” (Tomás Halík, A noite do confessor).

O Evangelho de hoje nos revela que, durante a Quaresma, Jesus quer que subamos com Ele a uma montanha, lugar da comunhão com Deus, lugar onde nos afastamos da compulsão do mundo consumista e da correria de uma vida desenfreada, para ouvirmos o Pai, para recuperarmos a consciência de que nós somos uma missão nesta terra e é só na fidelidade a essa missão que a nossa vida tem sentido. Jesus quis que Pedro, Tiago e João vissem a sua transfiguração, antes de o verem desfigurado na cruz. Da mesma forma, Jesus quer nos ajudar a enfrentar as situações de desfiguração, sabendo que elas não são o rosto definitivo nem nosso, nem da humanidade, nem do nosso mundo: “Os sofrimentos da desfiguração do tempo presente não se comparam com a alegria da transfiguração que se revelará em nós e em toda a criação” (citação livre de Rm 8,18).

As duas outras palavras que precisam falar ao nosso coração são: DESFIGURAÇÃO e TRANSFIGURAÇÃO. Aquilo que se desfigura em minha vida ou à minha volta é algo necessário, como parte de um processo de transformação, ou consequência de atitudes injustas e erradas da minha parte ou da parte de outras pessoas? A desfiguração da amizade social, provocada pelo individualismo e pela indiferença para com o outro, também é produzida por mim, na minha relação com as pessoas no dia a dia? Eu também alimento e ajudo a propagar a desfiguração do Papa Francisco e da CNBB, criticados e atacados por grupos católicos de extrema direita nas redes sociais? Minha presença na Igreja (paróquia, comunidade) tem ajudado a transfigurá-la?

Enquanto olhavam para Jesus transfigurado, Pedro, Tiago e João foram encobertos por uma nuvem e escutaram a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” (Mc 9,7). O momento mais difícil de escutar Deus é quando estamos enfrentando uma situação de desfiguração. No entanto, é o momento mais necessário. Aliás, sempre que estamos desfigurados, precisamos fazer nossas as palavras do salmista: “Guardei a minha fé, mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl 116,10). Por maior que seja o sofrimento que estamos enfrentando e que está nos desfigurando, precisamos guardar a nossa fé, no sentido de mantê-la viva, tendo a mesma certeza do apóstolo Paulo: o mesmo Deus, que sustentou o seu Filho na desfiguração da cruz, em nosso favor, também nos sustentará. Além disso, devemos confiar que nenhuma desfiguração pode destruir essa verdade: Jesus Cristo morreu, ressuscitou e está à direita do Pai, intercedendo por nós! (cf. Rm 8,34). É graças à sua intercessão que a nossa desfiguração se converterá em transfiguração!

Enfim, tenhamos consciência de que TRANSFIGURAÇÃO e SACRIFÍCIO estão interligados. O sacrifício mais custoso é a nossa obediência a Deus, buscando conformar a nossa vida à Sua vontade. Sempre que nos sacrificamos nesse sentido, a nossa vida se transfigura, como consequência de quem está em paz porque sabe que está fazendo exatamente aquilo que foi chamado a fazer; está sendo fiel à sua missão de ajudar a transfiguração o pequeno espaço em que se encontra, como Jesus sempre fez.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

"SENTIR TODO SER HUMANO COMO UM IRMÃO" (FT, n.287)

 Missa do 1º dom. Quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 9,8-15; 1 Pedro 3,18-22; Marcos 1,12-15.

 

            “O Espírito impeliu Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias” (Mc 1,12-13). Hoje, o Espírito Santo impele, empurra, joga cada um de nós numa situação de deserto, porque somente nela podemos ouvir Deus falar ao nosso coração (cf. Os 2,16). O deserto é necessário para que possamos nos afastar de tudo aquilo que tem nos afastado de Deus e dos irmãos. Ele é também uma experiência de correção, de educação, de conversão, de rever qual é a meta da nossa vida. Na Quaresma devemos buscar esse deserto através da nossa decisão de fazer silêncio, de olhar para dentro e de nos confrontar conosco mesmos e com o mal que nos habita.

            Jesus “ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás” (Mc 1,13). As tentações nos ensinam que não é possível tornar-nos a pessoa que fomos chamados a ser sem lutar. Ninguém se torna senhor de si mesmo enquanto não lutar com os demônios que habitam o seu interior e que tentam mandar na sua vida. O confronto com as tentações nos lembra que "as mudanças que contam na nossa vida não acontecem de um dia para o outro ou de forma espontânea. Acontecem no meio de um paciente combate interior" (Cardeal José Tolentino Mendonça). Se quisermos sair da Quaresma curados, libertos, transformados, precisamos enfrentar o combate interior contra a nossa preguiça, o nosso comodismo, o nosso vício e os nossos maus hábitos.

            As armas que Jesus usou durante sua vida para vencer o seu combate interior são as mesmas que podemos usar: a oração, nascida da consciência de que não somos autossuficientes e não podemos vencer o maligno por nós mesmos; a sinceridade diante dos próprios sentimentos, nascida da consciência de que não somos anjos; a paciência conosco mesmos, nascida da consciência de que só sofre quedas quem se dispõe a caminhar; o jejum, nascido da consciência de que podemos administrar nossos instintos e não sermos administrados por eles; a perseverança e a determinação, nascidas da consciência de que “Deus é fiel: ele não permitirá que sejamos tentados acima das nossas forças, mas, junto com a tentação, nos dará os meios de sairmos delas e a força para as suportar” (1Cor 10,13).

Toda experiência de deserto é uma experiência de purificação da nossa fé, de correção da imagem de Deus que temos dentro de nós. Na época de Noé, Deus era interpretado como Aquele que resolveu exterminar, por meio do dilúvio, a vida do ser humano e dos animais da face da terra, por causa da maldade do próprio ser humano (cf. Gn 6,5-7). Quando a experiência do dilúvio terminou, Noé e sua família puderam ter uma imagem mais clara de Deus, como Aquele que fez aliança com a terra e com toda vida que há nela, uma aliança que será lembrada toda vez que surgir um arco-íris (cf. Gn 9,13-15).

Deus não está interessado em fazer guerra aos homens. É por isso que, no lugar do arco de guerra, Ele colocou no céu o arco-íris. Nós não estávamos na arca com Noé, mas vivenciamos a salvação do dilúvio por meio do nosso batismo, conforme afirmou o apóstolo Pedro: “À arca corresponde o batismo, que hoje é a vossa salvação” (1Pd 3,21). A água do batismo foi derramada sobre a nossa cabeça não para limpar o nosso corpo da sujeira, para pedir a Deus uma boa consciência, uma consciência como a de Jesus, voltada para o Pai, que aceita ser conduzida pelo Espírito Santo e que não se deixa enganar pelas mentiras do tentador.

Batizadas ou não, muitas pessoas navegam na Internet praticamente todos os dias. Quantas delas se afogam ou se pervertem nessas águas? Neste sentido, o Papa Francisco alertou na Encíclica Fratelli Tutti: “Não podemos aceitar um mundo digital projetado para explorar as nossas fraquezas e tirar fora o pior das pessoas” (FT, n.204). Talvez, um saudável jejum de redes sociais nos ajudaria a terminar o período da Quaresma melhores, mais humanizados e mais fraternos, mais filhos do arco-íris do que filhos dos arcos de guerra, convencidos de que “toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal” (Papa Francisco, FT, n.261).

Uma última palavra. Durante a sua experiência de deserto, Jesus “vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,13). Todos nós temos instintos selvagens e impulsos angelicais. Devemos evitar a tentação de eliminar um e ficar com o outro. Ambos fazem parte da nossa humanidade. Ambos precisam ser integrados em nosso caminho de conversão e de santificação. A harmonia daquilo que é selvagem com aquilo que é angelical aponta para um mundo reconciliado, para o ser humano pacificado, para a humanidade redimida pelo Ungido do Senhor (cf. Is 11,6.9). Permitamos que o Pai forme em nós os sentimentos do Filho (cf. Fl 2,6), de modo que possamos “sentir todo ser humano como um irmão” (Papa Francisco, FT, n.287).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi