quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

QUARESMA: MOMENTO FAVORÁVEL PARA UMA MUDANÇA PROFUNDA EM NÓS

 Missa da quarta-feira de Cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20 – 6,2; Mateus 6,1-6.16-18

 

Para compreendermos a importância do tempo da quaresma, podemos nos lembrar do apelo de Jonas à cidade de Nínive: “Dentro de quarenta dias, Nínive será destruída” (Jn 3,4). A primeira pergunta que podemos nos fazer é esta: Há algo que está sendo destruído (ou correndo o risco de sê-lo) em minha vida ou à minha volta? A força que provoca a destruição em nossa vida se chama pecado, e pecado significa “fazer o que é mal aos olhos de Deus” (cf. Sl 51,6). A destruição ou a ameaça dela em nossa vida pode ser barrada, pode ser revertida em reconstrução. Para que isso aconteça, precisamos mudar de atitude, e tal mudança se chama “conversão”.

Quem nos faz esse apelo de mudança, de conversão, é o próprio Deus: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12), isto é, com sinceridade e em profundidade. Poderíamos lembrar também dessas palavras: “Voltai-vos para mim e sereis salvos, homens todos dos confins de toda a terra” (Is 45,22). O filho só pode ter vida junto do Pai. Não há vida, felicidade, paz ou alegria quando nos afastamos de Deus. E da mesma forma que o nosso afastamento de Deus levou tempo para acontecer, a volta para Ele se dá num tempo simbólico de quarenta dias.

Quarenta dias é um tempo espiritual, chamado pelo apóstolo Paulo de “momento favorável” e “dia da salvação” (2Cor 6,2). É o tempo espiritual onde uma ferida pode ser tratada e curada, onde uma ponte pode ser construída sobre o abismo do distanciamento e da separação, onde pode ocorrer em nós a mudança do coração de pedra (desumanizado) em coração de carne (humanizado). Mais do que tudo, é o tempo de “deixar-se reconciliar com Deus” (cf. 2Cor 5,20).

Jesus também viveu sua quaresma. Antes de iniciar a sua missão, ele ficou no deserto quarenta dias, como veremos no Evangelho de domingo: “O Espírito impeliu Jesus para o deserto. E ele esteve no deserto quarenta dias” (Mc 1,12-13). Por que o deserto? Porque é só numa situação de deserto que conseguimos voltar a ouvir e obedecer à voz de Deus em nossa consciência: “Eu a conduzirei ao deserto e lá lhe falarei ao coração” (Os 2,16).

O Espírito Santo convida-nos diariamente à conversão, porque ela não é um fato que acontece uma vez para sempre. Ninguém caminha na vida sem tropeçar, cair ou se desviar de Deus. Retomar o caminho é uma necessidade constante. Rever nossos valores, nossas prioridades, é necessário para evitar ou interromper um processo de destruição de nós mesmos, dos nossos relacionamentos, dos nossos sonhos e da vida que o Pai deseja para cada um de nós, seus filhos.

No início desse período de quarenta dias de esforço por mudar aquilo que em nós está provocando destruição e morte, Jesus nos convida a rever três áreas da nossa vida: a área da nossa convivência com as pessoas. Neste sentido, a esmola não é simplesmente dar qualquer coisa a quem necessita, só para tranquilizar a nossa consciência. Trata-se de recuperar a nossa sensibilidade social, lembrando o alerta do Papa Francisco: “Surgem novas formas de egoísmo e de perda do sentido social” (FT 11). Outra área da nossa vida é o relacionamento com Deus: vida de oração. Nenhuma mudança em nossa vida é possível sem a ação da graça de Deus em nós. O barro não pode tornar-se coisa alguma se não se colocar nas mãos do Oleiro. Disciplinar-se na oração diária é uma importante penitência para esse tempo de quaresma. Por fim, uma terceira área é a maneira como lidamos com os nossos desejos, afetos e instintos. Nesse sentido, o jejum é um freio de mão que puxamos para interromper um comportamento desenfreado que está nos arruinando. Jejuar significa recuperar a nossa liberdade perante tudo aquilo que nos afeta, fortalecendo a consciência de que podemos não ser responsáveis pelo que sentimos, mas somos responsáveis pelo consentir que determinado sentimento nos leve a pecar, prejudicando a nós mesmos ou ao próximo.

A Campanha da Fraternidade, realizada em toda Quaresma, nos ensina que o pecado tem sempre uma dimensão pessoal e outra social. O tema da CF deste ano é: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). O mal que penetra no mundo tem suas raízes na quebra das relações fraternas. O Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti, nos lembra de que o nosso mundo atual “privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência” (FT 12). Somos chamados a “cuidar da fragilidade; cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo” (FT 115). “Precisamos fazer crescer a consciência de que, hoje, ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém” (FT 137). Que a vivência da Quaresma deste ano nos leve a “sentir todo ser humano como um irmão” (FT 287).

As cinzas que vamos receber sobre a nossa cabeça nos recordam o que o Senhor Deus disse a Adão, após o pecado: “Você é pó e ao pó voltará” (Gn 3,19). A quaresma quer nos ajudar a recuperar a consciência de que todo pecado nos leva para a morte (cf. Rm 6,23). Ter consciência da nossa morte pode nos ajudar a rever os nossos valores e a viver a nossa vida de outra maneira. Quem tem consciência da própria morte não vive perdido em meio a coisas urgentes e acidentais, mas mantém o foco naquilo que é essencial, e o essencial é a nossa salvação.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A LEPRA MODERNA: A PERDA DA SENSIBILIDADE SOCIAL

 Missa do 6º dom. comum. Palavra de Deus: 2Reis 5,9-14; 1Coríntios 10,31 – 11,1; Marcos 1,40-45.

 

Na época bíblica, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, a doença mais temida e mais repulsiva era a lepra. “A lepra é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que leva ao aparecimento de manchas esbranquiçadas na pele e alteração dos nervos periféricos, o que diminui a sensibilidade à dor, toque e calor” (https://www.tuasaude.com/lepra/). Muito interessante essa definição! A consequência da lepra é a diminuição da sensibilidade quanto à dor, ao toque e ao calor. “Diminuição da sensibilidade” é o retrato da nossa época, na qual há uma preocupação exagerada com a estética, com a aparência, com o cuidado com a pele, enquanto se ignora a importância da ética, da formação da consciência e do caráter, da sensibilidade para com o outro. Eis aqui um primeiro alerta da liturgia de hoje: Quantos de nós são saudáveis fisicamente, mas não têm “sensibilidade social”*, isto é, não se preocupam com quem sofre à sua volta?

Olhemos para a cura do leproso Naamã. Tendo sabido que no país de Israel havia um “homem de Deus” chamado Eliseu, Naamã viajou da Síria para Israel, na expectativa de ser curado da sua lepra. O problema é que Naamã havia criado uma expectativa para a sua cura: “Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria” (2Rs 5,11). Como o profeta Eliseu ordenou a Naamã: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo” (2Rs 5,10), Naamã “ficou irritado” e foi embora, achando humilhante ter que mergulhar sete vezes em um rio cujas águas não eram famosas como as águas de dois rios do seu país de origem.

A arrogância de Naamã serve de alerta para nós. Enquanto não descemos do pedestal em que nos colocamos e não nos humilhamos, no sentido de sermos humildes (húmus significa terra), colocando os pés no chão e admitindo que somos simples mortais, independente da posição que ocupamos no mundo, não há chance de cura. A cura começa quando colocamos os pés no chão, quando nos despimos das máscaras e das armaduras que costumamos usar para nos mostrarmos como pessoas fortes e vencedoras, quando, na verdade, somos apenas um “cadáver”, isto é, “carne dada aos vermes”, carne que, por sua definição bíblica, significa: algo passível de apodrecimento.

Naamã, num primeiro momento, não aceitou o fato de que a cura da sua lepra dependia de um processo longo e demorado: mergulhar sete vezes nas águas humildes do rio Jordão. Eis aqui um segundo questionamento para nós: Estamos dispostos a passar por um processo longo e demorado de descontaminação daquilo que infectou nosso corpo, nossa alma ou nosso espírito, e que não pode ser removido de forma imediata?  

Antes de passarmos para a cura do leproso no Evangelho, consideremos essas palavras do salmo de hoje: “Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: ‘Eu irei confessar meu pecado!’ E perdoastes, Senhor, minha falta” (Sl 32,5). Por que um salmo que fala da confissão de pecados no meio de dois relatos de cura de leprosos? Porque, na mentalidade bíblica, a lepra era sinal do pecado e da sua gravidade – aquilo que faz apodrecer o ser humano. Sendo assim, a cura da lepra aponta para a libertação do pecado, algo que só Jesus pode fazer (cf. Jo 8,33-36). O problema é: o que é pecado hoje?

De uma época onde “tudo era pecado”, passamos para uma outra época onde “nada é pecado”. No campo da Igreja, a mudança foi outra: de uma época onde se acentuavam os pecados sociais – não se preocupar com as injustiças e com o sofrimento do próximo – passamos para uma acentuação sobre os pecados individuais – sobretudo de cunho moral, quando, na verdade, tanto os pecados pessoais quanto os sociais são uma realidade que pede conversão. Se atualmente os pregadores moralistas fazem muito sucesso entre os “cristãos” das novas gerações, cuja consciência gira em torno do umbigo dos pecados de cunho moral/sexual, não nos esqueçamos de que Jesus nunca deixou de alertar para os pecados de cunho social. Portanto, a lepra do moralismo é um sério problema dentro da nossa Igreja atualmente, cuja maioria maciça de “cristãos” raramente ou nunca se questiona sobre a sua falta de sensibilidade para com as injustiças que ferem inúmeras pessoas e as mantém afastadas, isoladas, do mundo do consumo.

Enfim, olhemos para a cura do leproso no Evangelho. Desobedecendo à lei religiosa que proibia o leproso de se aproximar de qualquer pessoa (cf. Lv 13,46), esse homem “chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: ‘Se queres tens o poder de curar-me’” (Mc 1,40). A cura só começa a nascer em nós quando temos duas atitudes: a primeira é romper com o nosso isolamento, com o vitimismo; a segunda é declarar a nossa confiança absoluta em Jesus: “Tens o poder de curar-me”. Toda pessoa enferma precisa ter essa confiança, sabendo que o Pai concedeu ao Filho “o poder sobre toda a carne” (Jo 17,2). Jesus tem poder sobre tudo aquilo que em nós é passível de adoecimento, de apodrecimento e de morte. No entanto, esse poder não pode ser manipulado pela nossa urgência ou pelo nosso desespero: “Se queres”.

Muitas pessoas abandonaram a sua fé seja na existência de Deus, seja no seu poder de cura, porque se esqueceram de que Ele é soberano na sua vontade: Deus pode não querer curar, não porque Ele não ama a pessoa que está doente, mas porque, muito mais do que o seu bem físico, o que Ele visa é a sua salvação. Em breve ou muito tempo ainda, nós nos tornaremos cadáveres – nosso corpo morrerá e apodrecerá. Todo ser humano um dia será atingido pela lepra da morte, tenha ele fé ou não. A diferença é que nós, cristãos, temos uma fé que olha para além dessa vida temporária e cheia de ilusão, e se abre para a vida eterna, para a glorificação do nosso corpo (cf. Fl 3,20-21), operada por aquele que, “cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero: fica curado!’” (Mc 1,41).

Através da nossa fé no Evangelho e na Eucaristia, nós nos encontramos hoje diante do Senhor Jesus que, compadecido daquele homem até as entranhas, não apenas falou com ele, mas estendeu a mão e o tocou; tocou num homem de quem todos os demais procuravam se manter distantes. Hoje nós, discípulos de Jesus, somos chamados a estender a nossa mão para alcançar pessoas que, quem sabe, a nossa própria religião excluiu ou de quem ainda acha necessário se manter distante...

 

*No capítulo “As sombras de um mundo fechado”, da Fratelli Tutti, o Papa Francisco denuncia: “Reacendem-se conflitos que se consideravam superados. Surgem novas formas de egoísmo e de perda do sentido social” (FT 11).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

O QUE A MINHA DOENÇA ESTÁ TENTANDO ME DIZER?

 Missa do 5º dom. comum. Palavra de Deus: Jó 7,1-4.6-7; 1Coríntios 9,16-19.22-23; Marcos 1,29-39.

 

            “Luta, decepção, sofrimento, sem esperança”. Essas palavras estão presentes no desabafo de um homem enfermo, muito conhecido no mundo bíblico: Jó. Seu livro foi escrito para desmontar uma tese errada: toda doença ou sofrimento é fruto do pecado e, portanto, castigo de Deus. Essa distorção da imagem de Deus foi corrigida pelo próprio Jó, ao afirmar que, antes de passar pelo sofrimento que passou, ele só tinha ouvido falar de Deus, mas depois da sua dura experiência de dor, Jó conheceu a Deus de maneira mais profunda (cf. Jó 42,5).  

            “Luta, decepção, sofrimento, sem esperança”: tudo isso está contido na experiência da doença. Quando adoecemos, lutamos não só pela vida, mas para manter a nossa fé. Na doença, frequentemente nos decepcionamos com Deus: não esperávamos que Ele fosse permitir aquele sofrimento em nossa vida. Uma vez doentes, sofremos não só por causa dos efeitos da doença em nosso corpo ou em nossa alma, mas sofremos também para manter a nossa confiança em Deus. Por fim, pior do que a doença em si mesma é nos tornarmos uma pessoa sem esperança. Deixar de esperar em Deus é nos fechar a toda possibilidade de cura ou de libertação do nosso sofrimento.

            A doença não é uma possiblidade em nossa vida, mas uma certeza: cedo ou tarde, de uma forma ou de outra, ela nos alcançará, devido à nossa natureza mortal. Além disso, como afirmou o Papa Francisco, “não podemos pretender ser saudáveis vivendo num mundo doente”. A principal fonte de adoecimento vem dos alimentos que ingerimos, cultivados na base de agrotóxicos – alguns cancerígenos – e de hormônios. Outra fonte de adoecimento é o estresse, a correria da vida, o sedentarismo (falta de exercícios físicos), o descuido com a alma (silêncio, meditação, oração) e, mais do que tudo, o vício das telas. Como sabiamente afirmou Renato Russo, “nos deram espelhos e vimos um mundo doente” (Índios, 1986). Através do espelho da tela do celular, do computador, da televisão, diariamente vemos um mundo doente e nos tornamos tão doentes quanto ele.

            Justamente porque o lugar do médico é junto das pessoas enfermas, Jesus sempre se deixou afetar pelo sofrimento das pessoas doentes. Através dele, descobrimos que o nosso Deus não é o “Deus dos justos”, como pensavam os líderes religiosos do judaísmo, mas o “Deus dos que sofrem”. O judaísmo entendia a doença como castigo de Deus. “A exclusão do templo, lugar santo onde Deus habita, lembra de maneira implacável aos enfermos aquilo que eles já perceberam no fundo de sua enfermidade: Deus não os ama como ama os outros” (Pe. José Pagola, Jesus – aproximação histórica, p.195). Ao se colocar junto dos doentes, Jesus afirma que “Deus é, antes de mais nada, o Deus dos que sofrem o desamparo e a exclusão” (Pe. José Pagola, Jesus – aproximação histórica, p.196).

            Por ter uma vida de oração disciplinada e procurar em tudo fazer a vontade do Pai, Jesus se tornou uma fonte de cura para as pessoas enfermas: “Dele saía uma força que curava a todos” (Lc 6,19). Essa força tem um nome: Espírito Santo. Mas as curas que Jesus realizava não aconteciam sem a participação ativa dos doentes; elas só aconteciam mediante a fé. Antes da cura, Jesus sempre procurava suscitar no enfermo sua confiança em Deus. “Jesus não cura para despertar a fé, mas pede fé para que seja possível a cura” (Pe. José Pagola, Jesus – aproximação histórica, p.205). A cada pessoa enferma Jesus pede fé na bondade de Deus, o Deus que “conforta os corações despedaçados, enfaixa suas feridas e as cura” (Sl 147,3).

            “Olhar, dialogar, tocar”. As curas que Jesus realizou normalmente tinham essas três atitudes: olhar, enxergar a pessoa enferma, não ignorá-la, deixar-se afetar pelo sofrimento dela. Depois, dialogar, ouvir a pessoa – falar cura –, mas também questionar o enfermo – sua forma de viver e de lidar com as situações podem causar adoecimento a si próprio. Por fim, tocar na pessoa doente. Nossas palavras e nossas mãos podem ser portadoras de cura: “A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus. E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu” (Mc 1,30-31). Quantas pessoas estão enfermas em suas casas e ninguém da família se dispõe a ouvi-la, a falar com ela, a tocar nela e a ajudá-la a se levantar?

“Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios” (Mc 1,34). Na época de Jesus, todas as doenças psíquicas eram entendidas como possessão demoníaca. Hoje as doenças psíquicas estão crescendo cada vez mais, atingindo inclusive crianças, adolescentes e jovens. Muitas delas são fruto da ausência de pai e de mãe na vida do filho – ausência de diálogo, de afeto e de limite. O uso excessivo de celular, o vício nas redes sociais ou nos jogos eletrônicos e o ficar o tempo todo no quarto, diante do computador, sem conviver e dialogar com pessoas reais, tudo isso é um terreno propício para o adoecimento mental.

“De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto” (Mc 1,35). Ninguém é uma fonte inesgotável de cuidado para com os outros, nem mesmo Jesus. Ninguém deve se deixar sugar e esgotar pelas constantes solicitações dos outros. Ninguém pode ser curado se não se colocar na diariamente na presença do Médico dos médicos: o Pai. A cura acontece pelo tocar, e cabe a cada um de nós disciplinar-se na vida de oração, para dar ao Pai o tempo que Ele necessita para nos tocar e nos curar. Além disso, não se trata de entender a oração como uma mera recarga de bateria para continuarmos a viver a vida de uma maneira doentia. A oração é o momento em que o barulho que nos adoece silencia, e nós temos a coragem encarar a nossa verdade, rever as nossas prioridades e nos conscientizar para o quê devemos dizer “não” e para o quê devemos dizer “sim”.

Enfim, não nos esqueçamos de que doença tem nome. Só é possível tratar uma doença quando se sabe que doença é. Muitas famílias estão enfermas por doenças como falta de organização na vida financeira, falta de limites para os filhos, sobrecarga de um e folga dos demais, alimentação industrializada, falta de coragem em falar o que se sente – quem não explode, implode –, falta de silêncio, limpeza e organização da própria casa, a substituição do diálogo por “cada um diante da sua tela” etc.   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O MAL PRECISA DA NOSSA PERMISSÃO PARA AGIR EM NÓS

 Missa do 4º dom. comum. Deuteronômio 18,15-20; 1Coríntios 7,32-35; Marcos 1,21-28

 

            Muitos duvidam da existência de Deus, mas ninguém duvida da existência do mal. Enquanto Deus não é evidente, o mal é; nós o vemos agir concretamente no mundo, através da guerra, da violência, do ódio nas redes sociais, da desestruturação das famílias, da desigualdade social, do egoísmo, do individualismo e da ganância sem limites, da escravidão dos vícios, do suicídio etc.

            Jesus chama o mal pelo nome: diabo, homicida (assassino), mentiroso e pai da mentira (cf. Jo 8,44). Qualquer pessoa, qualquer empresa, qualquer economia, qualquer política e qualquer religião que ataquem a vida e promovam a morte estão a serviço do mal. Hoje, o mal chega com muito mais facilidade até as pessoas por meio das redes sociais, as quais disseminam mentiras, desinformação e discursos de ódio. Como se isso não bastasse, existe um espaço oculto na Internet chamado “Deep web”, nome que significa “Internet profunda”. Os internautas que navegam ali são criminosos, assassinos, traficantes de drogas, de armas e de pessoas, pedófilos, participantes de seitas satânicas e grupos que pregam atividades imorais e violência explícita contra os seres humanos.

            O fato é que existe hoje cada vez mais um fascínio doentio pelo mal. Alguns chegam a afirmar que “Deus demora; o mal responde rápido”. Muitas pessoas aderem ao mal porque querem respostas rápidas para os seus problemas ou para os seus desejos, e a forma preferida com que o mal seduz as pessoas é a promessa do enriquecimento. Não é à toa que a Escritura diz: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por cujo desejo desenfreado alguns se afastaram da fé, e se afligem a si mesmos com muitos tormentos” (1Tm 6,10). O desejo desenfreado pelo enriquecimento destrói não só casamentos, mas distancia os pais dos filhos e faz com que alguns deles se percam.

            A forma como o mal mostra a sua face escancarada para nós, no mundo de hoje, foi prevista por Jesus: “A maldade crescerá a tal ponto que o amor se esfriará no coração de muitas pessoas. Mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,12). Apesar da sua força destrutiva – lembremos que ele é homicida! –, o mal não entra em nossa vida sem a nossa permissão. Ele precisa do nosso consentimento para agir, para adentrar em nós e começar o seu processo de sedução, mentira, enganação e ilusão. Ele só precisa que lhe abramos a porta e o deixemos entrar; o resto ele faz sozinho.

            Existe uma forma de detectarmos a presença do mal em nós: o contato com a palavra de Jesus. Foi ouvindo essa palavra que “um homem possuído por um espírito mau” (Mc 1,23), reagiu ao que Jesus estava dizendo e gritou: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus” (Mc 1,24). O espírito mau usa o plural – “nos destruir” – porque ele representa o mundo demoníaco, com Satanás e seus anjos. De fato, Jesus veio destruir o mal; ele veio nos tirar do domínio de Satanás e nos devolver aos cuidados de Deus. Mas é preciso que cada pessoa decida romper com o mal; decida fechar a porta que ela mesma abriu para o mal entrar em sua vida. Numa palavra, é preciso que a pessoa renuncie aos ganhos secundários que o mal lhe oferece, enquanto destrói a sua alma.  

            Quando Jesus ordenou: “Cala-te e sai dele!”, “o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu” (Mc 1,25-26). Depois que o mal se instala em nossa vida, ele resiste a sair. É a chamada “crise de abstinência”. Nós precisamos suportar o vazio deixado pela perda das falsas compensações que o mal nos dava; precisamos lutar com firmeza e perseverança na direção de Deus, lembrando dessas palavras: “Resistam ao diabo e ele fugirá de vocês. Aproximem-se de Deus e ele se aproximará de vocês” (Tg 4,7-8).

            Uma última palavra. O mal raramente se apresenta sob a sua real aparência; ele sempre se propõe a nós como algo bom, vantajoso, prazeroso, confortador, compensador. Quanto menos tolerância temos à frustração, ao sofrimento, à espera pela intervenção de Deus em nossa vida, mais caímos nas armadilhas do maligno. E para aqueles que são adeptos da teoria: “Deus demora; o mal responde rápido”, lembrem-se de que Deus dá gratuitamente, enquanto o mal cobra, e cobra caro, cada coisa que nos dá. Seu preço é um só: a corrupção da nossa alma, a perda da nossa salvação.

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi   

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

PARE DE RETARDAR SUA MUDANÇA!

 Missa do 3º dom. comum. Palavra de Deus: Jonas 3,1-5.10; 1Coríntios 7,29-31; Marcos 1,14-20.

 

            O que você faria se recebesse um diagnóstico médico de que tem somente dois meses de vida? Normalmente, quando as pessoas se dão conta de que têm pouco tempo de vida, decidem fazer mudanças que nunca tiveram coragem de fazer: decidem perdoar ou pedir perdão, decidem admitir verdades que nunca admitiram, decidem se abrir para Deus, decidem falar o que nunca tiveram coragem de falar, decidem romper com uma situação de pecado que sempre as acompanhou durante toda a vida...

            Ao longo da nossa existência, vamos tomando consciência de que precisamos mudar, precisamos nos corrigir, precisamos abandonar certos hábitos que fazem mal a nós mesmos, à nossa família, ao mundo em que vivemos. No entanto, a maioria protela a mudança, seja porque não quer perder os ganhos secundários que as atitudes erradas lhe proporcionam, seja porque mudar dá trabalho; exige firmeza, perseverança, renúncia, luta consigo mesmo.

            Só um choque de realidade é capaz de nos tirar da nossa fantasia; só a evidência da destruição pode nos fazer mudar as atitudes que estão nos destruindo; só a consciência da morte pode nos fazer repensar a maneira como vivemos nossa vida até hoje; só a certeza de que o tempo que temos aqui é muito mais curto do que imaginamos pode nos fazer rever nossos valores e nossas atitudes.

            Nínive, capital da poderosa Assíria, fazia e acontecia; achava-se imune a qualquer calamidade, a qualquer risco de destruição. Mas ela foi derrubada da sua ilusão de onipotência ao ouvir a pregação de Jonas: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída” (Jn 3,4). Jonas deixou os ninivitas conscientes de que, se não mudassem suas atitudes, seriam destruídos pelo mal que causavam com o seu estilo de vida egoísta e individualista. Os ninivitas aceitaram fazer um doloroso processo de mudança e salvaram a si mesmos e à cidade.  

            Muitas coisas ruins têm acontecido. No entanto, mesmo com o mundo “desabando” à nossa volta, nós seguimos na correria da nossa vida com a ilusória pretensão de achar que o mal que atinge os outros nunca nos atingirá. Esquecemos do alerta de Jesus: “Se vocês não se converterem, morrerão todos do mesmo modo” (Lc 13,3). Todos nós sabemos que algo precisa mudar no mundo, nas pessoas, nas empresas, nas famílias, nas igrejas, mas quem de nós está disposto a mudar? Mudar dá trabalho e exige esforço, constância, paciência, perseverança, e a nossa geração não tem tolerância com processos. Os ninivitas tiveram um tempo de quarenta dias para mudar suas atitudes, e souberam aproveitar esse tempo. Nós, muitas vezes, não tomamos a decisão de mudar porque achamos que vamos ter tempo para isso depois, e nos esquecemos de que “o tempo está abreviado” (1Cor 7,29).

            O que o apóstolo Paulo quer dizer com “tempo abreviado”? O mesmo que Jesus: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,15). A história humana não está nas mãos do acaso, nem das pessoas que pensam determinar os rumos da humanidade. Deus é o Senhor do tempo e da história. Quando Jesus afirma que o Reino de Deus está próximo está se referindo à intervenção final que Deus fará na história humana, intervenção que consiste em exercer um julgamento, separando o justo do injusto e pondo fim ao mal. Portanto, essa intervenção significa condenação para os injustos e salvação definitiva para os justos.

            “O tempo está abreviado” (1Cor 7,29). Nós não temos o tempo que pensamos ter para somente depois fazermos as mudanças que sabemos serem necessárias em nossa vida. Daí o apelo de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,15). Não há ninguém que não precise mudar em algum aspecto da sua vida. Essa mudança deve ser guiada pelo Evangelho. Ele é “força de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16). Se “a figura deste mundo passa” (1Cor 7,31), o Evangelho é Palavra eterna e também palavra de Vida eterna.

            Três questões: 1) O que está correndo o risco de ser destruído em minha vida por falta de uma decisão firme da minha parta de mudar? 2) O que eu tenho feito do meu tempo? 3) Diante da certeza de que Deus intervirá na história, como Ele me encontrará: como uma pessoa justa a ser levada para o seu Reino ou como uma pessoa injusta a ser condenada à destruição?

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi



quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

TORNE-SE QUEM VOCÊ FOI CHAMADO(A) A SER!

 Missa do 2º dom. comum. Palavra de Deus: 1Samuel 3,3b-10.19; 1Coríntios 6,13c-15a.17-20; João 1,35-42.

 

            Os textos bíblicos que hoje ouvimos nos colocam diante da vocação do profeta Samuel e dos três primeiros discípulos de Jesus: André, João e Pedro. A vocação desses homens nos lembra que a nossa existência é fruto de uma escolha, de um chamado da parte de Deus: “Desde o ventre materno o Senhor me chamou, desde o ventre de minha mãe pronunciou o meu nome” (Is 49,1). A razão de ser da nossa existência não é uma escolha humana, mas divina; não é fruto do acaso, mas de uma vontade: Deus nos desejou, nos quis, nos chamou à vida em vista de uma tarefa, de uma missão, de uma vocação, e devemos estar cientes de que “a nossa vocação nunca é em função de nós mesmos. Deus não nos chama para nos promover ou nos privilegiar, mas para nos enviar para junto de situações que precisam ser mudadas” (José Lisboa M. Oliveira).

            “Samuel, Samuel!” (1Sm 3,4). Samuel era adolescente quando foi chamado por Deus e foi chamado num contexto de degradação da religião: “Os filhos de Eli (sacerdote) eram vagabundos” (1Sm 2,12) e “se deitavam com as mulheres que permaneciam à entrada da Tenda da Reunião” (1Sm 2,23). Séculos mais tarde, um outro jovem ouviria o Crucificado lhe chamar para uma difícil missão: “Francisco, reconstrói minha Igreja, que está em ruínas!”. Hoje Deus chama você para reconstruir a unidade da Igreja, cujo Pontífice (ponte e ponto de unidade) é sistematicamente agredido e desacreditado nas redes sociais por grupos “católicos” conservadores; você é chamado a reconstruir famílias, a fortalecer escolas, a desenvolver a boa Política e a justa Justiça; a defender o meio ambiente; a proteger crianças abusadas dentro de casa; enfim, a revitalizar sua Paróquia, envelhecida e necessitava de “sangue novo nas suas veias” (Pe. Zezinho).

            Samuel teve dificuldade em entender que era o Senhor Deus quem o chamava, e não o sacerdote Eli (cf. 1Sm 3,5.6). Deus não fala diretamente aos nossos ouvidos, mas através da realidade na qual estamos inseridos. Ele nos fala, sobretudo, através da dor de pessoas e de situações que precisam ser mudadas! Mas, como ouvir o chamado do Senhor quando estamos voltados unicamente para nós mesmos, ignorando a realidade à nossa volta, buscando apenas os nossos interesses financeiros ou afetivos, vivendo uma espiritualidade que nos mantém distantes do mundo, enquanto Deus “grita” a nós do meio desse mesmo mundo: “Essas pessoas precisam ser salvas!”?

            Samuel foi orientado a responder ao chamado de Deus com essas palavras: “Senhor, fala, que teu servo escuta!” (1Sm 3,9). Qual tem sido a nossa resposta ao chamado diário que Deus nos faz, por meio da realidade na qual estamos inseridos? Estamos tendo coragem de ouvir o Senhor, ou temos mantido nossos ouvidos e nossa consciência ocupados, cheios de barulho, atordoados por inúmeras desinformações, distanciados da realidade pela indústria da distração, tudo para não ouvirmos a voz de Deus no mais profundo de nós mesmos?

            A dois discípulos de João Batista que começaram a segui-lo, Jesus perguntou: “O que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). O que você está procurando quando passa horas jogando, apostando ou vendo postagens nas redes sociais? O que você está procurando quando maratona séries, assiste a filmes, vê pornografia na Internet ou assiste aos vídeos do seu influencer preferido? O que você está procurando quando ingere bebida alcoólica e/ou drogas; quando faz uma nova tatuagem, quando se sacrifica para ter um corpo “sarado”? O que você está buscando quando faz sua oração em casa, lê a Bíblia, ouve músicas católicas ou vai à missa? O que você está buscando quando faz o que faz no seu dia a dia? Você está buscando ser fiel à vocação, ao chamado que recebeu de Deus, ou a se distanciar o quanto possível disso?

                “O que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). Quando temos a coragem de parar a correria do dia a dia e a nos colocar diante dessa pergunta de Jesus, a nossa vida tem uma chance de recuperar o seu sentido e nós podemos sair das mãos (expectativas ou cobranças) dos outros e tomarmos as rédeas da nossa existência, orientando-a para aquilo que fomos chamados a fazer; mais do que isso, para aquilo que fomos chamados a ser. “Torne-se o que você é”, disse Píndaro, filósofo grego do séc. V aC. Essa verdade pode ser traduzida também em: “Torne-se o que você foi chamado a ser”. Somente quando sintonizamos o nosso coração com o coração de Deus; somente quando respondemos positivamente ao chamado que recebemos; somente quando somos fiéis à vocação que recebemos é que nos realizamos como pessoas.

            Uma última palavra: toda e qualquer vocação será vivida a partir da corporeidade da pessoa. Cinco vezes o apóstolo Paulo usou a palavra “corpo” no breve texto que ouvimos hoje. Dois extremos precisam ser evitados, quando consideramos o nosso corpo: o primeiro vem das pregações moralistas, para as quais tudo o que se refere ao corpo é pecaminoso e demoníaco. O outro extremo é a constante erotização do corpo, produzida pela indústria de consumo. Muitos de nós precisam reconciliar-se com o próprio corpo – aceitar-se como se é. Muitos precisam ouvir o próprio corpo – ele é uma caixa de ressonância da nossa alma (vida emocional). Muitos precisam rever sua espiritualidade, pois o Deus em quem nós cremos “se fez carne” (Jo 1,14): toda espiritualidade que nega ou despreza o corpo é doentia. Da mesma forma como descobrimos a nossa vocação em contato com a realidade na qual estamos inseridos, nós a vivemos a partir da nossa carne, do nosso corpo, o qual deve se tornar “carne” de Deus, toque de Deus, presença concreta de Deus, “afeto” de Deus para as pessoas que fomos chamados a servir.

             

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

NOSSA VIDA DEVE "FALAR" DE DEUS COMO UMA ESTRELA "FALA" DE LUZ NO CÉU ESCURO DA NOITE

 Missa da Epifania (manifestação) do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

 

Na vida de muitas pessoas tem acontecido o que alguns teólogos chamam de “eclipse de Deus”. Devido a uma doença, uma perda, um grande sofrimento; devido ao vazio existencial ou à perda de sentido de vida; devido ao excesso de materialismo, a luz de Deus (a presença de Deus) tem se apagado dentro dessas pessoas. Elas já não veem mais – nem muito menos conseguem sentir – a manifestação de Deus em suas vidas. Além disso, não podemos deixar de mencionar que o “eclipse de Deus” também é produzido pelo contratestemunho de cristãos que não vivem segundo o Evangelho...

A boa notícia é que, mesmo que muitos estejam experimentando em sua vida um certo “eclipse de Deus”, no coração de toda pessoa, até mesmo daquela que pensa não crer em Deus, existe uma busca por Deus, pela Verdade, uma busca por sentido: “É tua face, Senhor, que eu procuro, não me escondas a tua face” (Sl 27,9). Todo ser humano busca a Deus. Em alguns, essa busca é consciente; em outros, inconsciente. Quando a pessoa não sabe interpretar o clamor por Deus em seu coração, acaba dando respostas erradas, como as drogas, o consumismo, o ativismo, as relações sexuais sem compromisso etc.

Muitos hoje desistiram de buscar a Deus, porque constataram que o caminho da fé é árduo, exige perseverança, pois é um caminho feito não apenas de respostas, mas de muitas perguntas. Outro problema é o comodismo espiritual: pessoas que dirigem os olhos para as Escrituras, mas não dirigem os pés para caminharem ao encontro do Senhor; conhecem a verdade, mas não querem se aproximar dela. Contudo, o encontro dos magos com Jesus nos mostra que a nossa busca por Deus nunca será inútil: “Aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe e que recompensa os que o procuram” (Hb 11,6). Nas noites escuras da nossa fé, Deus sempre providenciará uma estrela para nos guiar, até que possamos estar diante de seu Filho, reconhecendo-O como nosso Salvador, como Aquele que o nosso coração sempre buscou.

A luz da estrela que guiou os magos até Jesus nos provoca a vivermos de tal modo que a nossa existência fale de Deus para as pessoas que estão à nossa volta, lembrando que eu não posso conduzir alguém para Deus se eu mesmo não vivo em Deus. Nossa maior tragédia enquanto cristãos, é quando nossas atitudes ocultam Deus, afastando as pessoas da Igreja. Devemos “falar” de Deus para as pessoas com a nossa vida, apesar das nossas fraquezas. Além disso, nossa tarefa como luz, como manifestação de Deus para as pessoas do nosso tempo, sempre será vivida em contraste com as trevas. De fato, a luz só é percebida no contraste com a escuridão. Isso significa que o cristão deve diferenciar-se do mundo, no sentido de não viver como uma pessoa “mundana”. Isso também significa que a luz da nossa vivência cristã deve se manifestar justamente no meio da escuridão do mundo. Quando os cristãos se distanciam do mundo e se resguardam dentro das igrejas, estão fazendo o oposto do que a estrela fez, impedindo as pessoas de serem provocadas e buscar Deus em seu caminho de vida.

Ainda sobre isso, é importante considerar que muitas pessoas do nosso tempo reagem à luz como se fossem morcegos. Habituadas à escuridão do individualismo, da indiferença para com as injustiças à sua volta, essas pessoas não estão abertas à luz, ao menos não num primeiro momento. Por isso, o cristão não pode pretender ser um holofote que agride com sua luz os olhos das outras pessoas, impondo-lhes a “verdade” da sua ortodoxia, da sua “rigidez” religiosa. A luz deve dialogar com quem está habituado a viver na escuridão, convidando a pessoa a fazer um caminho, a abrir-se a um processo de aproximação gradual da luz, da verdade, até que ela compreenda que o benefício de viver na luz é muito mais saudável e libertador do que os ganhos secundários das trevas. 

            Assim como fizeram os magos diante de Jesus, hoje nossos joelhos se dobram diante do Pai, agradecendo-O pelo nascimento de seu Filho, manifestação do seu amor pelo ser humano e do seu desejo de salvá-lo. Agradecemos cada estrela que o Pai faz brilhar no céu escuro da humanidade, provocando cada ser humano a sair da escuridão em que se encontra e a fazer um caminho de libertação, deixando-se iluminar, conduzir e curar por Aquele que é o Caminho, a resposta à pergunta mais profunda que o ser humano tem de felicidade, de paz e de sentido para a sua vida. Diante do ouro, do incenso e da mirra que os magos ofereceram a Jesus, pedimos que o Pai nos ensine a enxergar em cada ser humano o ouro da sua dignidade e da sua unicidade, o incenso do sagrado que carrega em si como filho amado de Deus e a mirra da sua fragilidade, espaço por meio do qual a força do Pai se manifesta como amor que redime, como bálsamo que alivia a dor e como convite ao amadurecimento e à superação dos seus erros.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi