quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O HOMEM MUNDANO NADA ESPERA; O HOMEM ESPIRITUAL TUDO ESPERA

 Missa do 1. dom. do advento. Palavra de Deus: Isaías 2,1-5; Romanos 13,11-14a; Mateus 24,37-44.

 

Houve um tempo em que a espera enchia a vida de sentido. Esperava-se a Páscoa para se comer o “ovo de Páscoa”; esperava-se o Natal para se ganhar o presente desejado; esperava-se o casamento para se experimentar o prazer de uma relação sexual. Mas o tempo da espera foi eliminado da existência humana. Antes mesmo do tempo da Quaresma, os ovos de chocolate são comprados e consumidos, de forma que o dia da Páscoa não tem mais novidade alguma a se aguardar. Da mesma forma, as famílias de boa condição financeira presenteiam seus filhos em qualquer tempo, e a relação sexual deixou de ser exceção, passando a ser regra no namoro. Portanto, não há mais o que esperar, e o não ter pelo quê esperar esvaziou a vida de sentido.  

Advento é tempo de espera. Não estamos esperando apenas alguma coisa acontecer, mas estamos esperando o nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo: “Ele virá, uma segunda vez, (...) àqueles que o esperam, para lhes dar a salvação” (Hb 9,28). O tempo do advento existe para nos ensinar a importância da espera. Uma vida sem espera é uma vida sem horizonte, sem amanhã. Todos nós precisamos esperar: esperar pela resposta à nossa pergunta; esperar pela cura da nossa ferida; esperar até que a noite termine e nasça o dia; esperar até que seja completada a obra que Deus iniciou em cada um de nós: “Tenho plena certeza de que aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1,6), isto é, da segunda Vinda de Cristo.   

Só a espera nos livra do desespero e de uma vida sem sentido. Foi a espera em reencontrar pessoas da própria família que fez com que muitos judeus não enlouquecessem e não se suicidassem nos campos de concentração. A espera é o gemido do Espírito Santo em nós: “gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo” (Rm 8,23). O tempo do Advento existe para nos tornar conscientes de que vivemos o tempo do “ainda não”: ainda não terminamos a corrida; ainda não encerramos a luta; ainda não chegamos à meta. Precisamos aprender a suportar o “ainda não”, até que o Senhor Jesus venha e cumpra cada uma das suas promessas a nosso respeito.

Nós, cristãos, estamos vivendo o tempo entre a Páscoa e a segunda Vinda de Cristo, entendido biblicamente como o tempo da conversão, da necessária perseverança, da fidelidade ameaçada, da fé combatida. No horizonte da história humana há uma promessa: o insignificante monte Sião, uma pequena colina sobre a qual foi construído o templo de Jerusalém, se erguerá e se tornará o ponto mais alto da terra (cf. Is 2,1-2), onde Jesus se encontrará com seus eleitos. Em outras palavras, a aparente insignificância da nossa rotina, dos nossos dias e das nossas atitudes em tornar o mundo melhor, será recompensada pelo próprio Jesus que “passou por este mundo fazendo o bem” (At 10,37).

Se não queremos que em nossa existência a espera seja substituída pelo tédio, pelo vazio, pela perda de sentido, precisamos “acordar”. O apóstolo Paulo nos alerta para o perigo do sono, da distração, de quem, por descuidar da sua vida espiritual, reduziu a sua esperança a uma vida mundana: sua existência se resume em comer, beber, consumir, desfrutar, competir, sem dar à própria uma direção, uma razão, um sentido. A pessoa funciona como uma mera engrenagem dentro de uma máquina, vivendo automaticamente, fazendo o que é mandada – ou o que foi “programada” (a partir de fora) para fazer. Quando se dá conta, a vida passou e ela não viveu, mas “foi vivida”.  

Jesus deseja nos despertar do sono de quem vive no automatismo, fazendo uma porção se coisas sem se perguntar para onde sua vida está indo. Ele nos recorda que a sua Vinda encontrará a humanidade exatamente como o dilúvio a encontrou: as pessoas comiam, bebiam, casavam-se, trabalhavam, divertiam-se, sem se dar conta de que algo estava acontecendo. Elas “nada perceberam até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (Mt 24,39). Quem vive a partir da carne, de maneira mundana, “nada percebe”: a existência, para essa pessoa, não tem um para que, uma razão de ser, um sentido, mas quem vive a partir do espírito sabe que sua existência tem uma finalidade, e as escolhas que ela faz hoje refletirão no seu destino final.  

A diferença entre viver de maneira mundana e viver de maneira espiritual aparece nessas palavras de Jesus, revelando que, no momento da sua Vinda, um homem “será levado e o outro será deixado”; uma mulher “será levada e a outra será deixada” (Mt 24,40-41). A Vinda de Jesus surpreenderá a todos (como um ladrão), mas aqueles que o esperaram, que suportaram em suas vidas o “ainda não”, que se mantiveram firmes na fé, serão salvos, justamente porque receberão a concretização daquilo que esperaram: a própria salvação.  

 Algumas perguntas podem nos ajudar neste início de Advento: O que eu espero da vida? Eu lanço as sementes para colher aquilo que eu desejo e espero? Eu suporto na minha história de vida o “ainda não”? Como o Senhor Jesus me encontrará: promovendo desavenças, conflitos, brigas e rivalidades, ou promovendo a paz (cf. Is 2,4; Rm 13,13)? Ele me encontrará agindo com honestidade e perseverando na minha vida espiritual, ou levando uma vida mundana: comendo, bebendo e me prostituindo?

Vivemos esperando dias melhores: dias de paz, dias a mais dias que não deixaremos para trás... Vivemos esperando o dia em que seremos melhores: melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo” (Dias melhores, Jota Quest).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

QUEM EU PERMITO QUE EXERÇA DOMÍNIO SOBRE MIM?

 Missa de Cristo, Rei do Universo. Palavra de Deus: 2Samuel 5,1-3; Colossenses 1,12-20; Lucas 23,35-43.

 

Onde, na Bíblia, começou essa história de o povo de Deus (Israel) ter um rei? Ela começou quando Samuel, o último juiz de Israel, estava idoso: “Constitui sobre nós um rei, que exerça a justiça sobre nós” (1Sm 8,5). A ideia da monarquia podia parecer boa – um rei que exerça a justiça – mas não era. Não somente Samuel, mas o próprio Deus também era contrário à monarquia: “Não é a ti que eles rejeitam, mas é a mim que eles rejeitam, porque não querem mais que eu reine sobre eles” (1Sm 8,7). Apesar disso, Deus consentiu que Israel tivesse um rei.

Nós também, povo brasileiro, gostaríamos de ter um rei, um homem forte, inteligente e poderoso, que pusesse ordem na casa; um homem que nos oferecesse proteção e que acabasse com tudo o que existe de ruim em nosso País; um homem que nos garantisse paz, prosperidade e o pão de cada dia. Aliás, foi exatamente após a multiplicação dos pães que o povo quis fazer de Jesus o seu rei: “‘Esse é, verdadeiramente, o profeta que deve vir ao mundo’. Jesus, porém, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo, sozinho, na montanha” (Jo 6,14-15). Jesus recusou-se a ser rei daquela multidão porque ele não veio nos desresponsabilizar perante a vida. Uma cidade, um estado ou um País não dependem unicamente de quem os governa, mas de cada pessoa que habita aquela cidade, aquele estado, aquele País.

O povo de Israel teve inúmeros reis, principalmente porque, em grande parte da sua história, foi um País dividido entre Reino do Norte e Reino do Sul. A imensa maioria dos reis do Reino do Norte e do Reino do Sul “fizeram o que é mau aos olhos do Senhor”, uma frase que se repete constantemente no Livro dos Reis. Somente quatro reis foram aprovados por Deus, fazendo o que era correto aos seus olhos. Dentre eles, está o rei Davi, que aparece na primeira leitura unificando o País. Um País dividido está condenado a destruir-se com suas próprias mãos, pelas atitudes dos seus habitantes. Um País dividido é um País onde quem reina não é Deus, o Pai que quis reconciliar a todos em seu Filho Jesus Cristo, “realizando a paz pelo sangue de sua cruz” (Cl 1,20), mas o diabo, o divisor, aquele que envenena o coração humano com ódio para desumanizar pessoas, tornando-as homicidas.

Desde o Antigo Testamento, a figura do Rei foi associada à figura do Pastor. A função do Rei é apascentar, é cuidar do rebanho que lhe foi confiado. Diante do fracasso dos inúmeros reis de Israel, que se tornaram “pastores de si mesmos” (cf. Ez 34,8), Deus se comprometeu em apascentar ele mesmo o seu rebanho: “Buscarei a ovelha que estiver perdida, reconduzirei a que estiver desgarrada, cuidarei da que estive fraturada e restaurarei a que estiver abatida... Eu as apascentarei com justiça” (Ez 34,16). Essa promessa se cumpriu em Jesus Cristo, o Bom Pastor, o Rei Pastor, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. Mt 20,28).

Enquanto os reis vivem em palácios, Jesus não tem onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9,58); enquanto os reis fazem banquetes esplêndidos, onde se decide, inclusive, a morte de pessoas inocentes (cf. Mc 6,25), Jesus se senta à mesa com os pecadores e com pessoas que jamais seriam convidadas para um banquete, por serem pobres (cf. Mt 9,10-11; Lc 14,12-14); enquanto os reis se sentam num trono, para comandar as guerras, Jesus se deixa colocar numa cruz, a partir da qual entrega a sua vida para libertar todos os condenados e para retirar a humanidade debaixo do domínio de Satanás, o “príncipe deste mundo” (Jo 12,31).  

Durante a sua permanência na cruz, Jesus ouviu por três vezes a expressão “salve-se a si mesmo!” (cf. Lc 23,35.37.39). Os reis têm exércitos e armas para se defenderem, mas Jesus é o Rei que tem como armas unicamente o amor e o perdão. Ele não tem exército nem armas porque não tem inimigos a destruir, mas filhos a resgatar do domínio do pecado e introduzi-los no Reino do seu Pai. Mesmo sendo Rei, Jesus não se desviou da cruz, para nos ensinar que ele não veio eliminar a dor da vida, mas nos encorajar a nos responsabilizar pela nossa existência, amando até o fim, apascentando até o fim, cuidando até o fim daquilo que a vida nos pediu para cuidar, ainda que tudo isso comporte algum tipo de dor. O Rei Jesus veio nos ensinar que o sentido da vida não está em não sofrer, mas em viver por uma causa, ainda que isso nos traga sofrimento.

Enquanto os “reis” da terra condenam pessoas ao sofrimento, praticando uma política de morte e defendendo uma economia que mata, Jesus se permitiu ser um Rei condenado entre os condenados. E exatamente nessa condição de condenado, ele se tornou causa de libertação e de salvação para um condenado: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado” (Lc 23,42). Jesus lhe respondeu: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). Esse é o domínio que Jesus, Rei do Universo, exerce sobre todo ser humano que o escolhe como Rei e Pastor: um domínio de libertação, de absolvição, de cancelamento de toda e qualquer condenação, de modo que Paulo apóstolo afirmou: “Não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8,1).

Hoje nos aproximamos do trono do nosso Rei e Pastor, suplicando que ele se lembre de nós em seu Reino; que ele se lembre de todos os condenados na face da terra, de todos os que precisam ser resgatados do domínio do mal, do pecado e de qualquer tipo de injustiça que continue a crucificar pessoas em nosso tempo; que o seu sangue redentor realize a paz em nosso País, em nosso local de trabalho, em nossas igrejas, no mundo todo. Que não seja mais o ódio a exercer domínio sobre nós, mas o amor e o perdão, para que as pessoas à nossa volta saibam que o Pai deseja realizar a paz em cada canto da terra, pelo sangue redentor de seu Filho, derramado na cruz “para reunir todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,52).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O NOVO SÓ NASCE DA DESTRUIÇÃO DO VELHO

 Missa do 33. dom. comum. Palavra de Deus: Malaquias 3,19-20a; 2Tessalonicenses 3,7-12; Lucas 21,5-19.

 

Os textos bíblicos de hoje nos colocam diante de um gênero literário chamado “apocalíptico”. Os escritos apocalípticos têm um caráter pessimista e também otimista: são pessimistas em relação ao mundo mau, às pessoas injustas; mas são otimistas em relação a todos aqueles que procuram se manter fiéis a Deus, não se corrompendo com o mundo e não se tornando más por questão de sobrevivência.

“Apocalipse” significa tirar o véu, revelar. Os escritos apocalípticos querem nos ajudar a enxergar além do véu da realidade presente, e compreender que a história humana não está nas mãos de nenhum regime político, de nenhum ser humano poderoso. Atualizando para os nossos dias, devemos ter a convicção de que a história humana não está nas mãos do mercado, de meia dúzia de pessoas extremamente ricas e poderosas, que decidem os rumos das nações, que decidem até mesmo quem vive e quem morre, a partir de onde elas decidem investir financeiramente.

Para o autor apocalíptico, a história está nas mãos de Deus, o único que realmente governa o mundo, e todos os acontecimentos, por mais contraditórios que sejam, servem unicamente aos seus desígnios a respeito da humanidade. Uma das convicções apocalípticas mais fortes na Bíblia se refere ao “Dia do Senhor”. Esse “Dia” fala da intervenção definitiva de Deus na história humana, exterminando da face da terra todos os que fazem o mal, que praticam a injustiça e que levam outros à morte, e salvando “os eleitos”, isto é, as pessoas que perseveram na prática da justiça, fazendo o bem e promovendo a vida ao seu redor.

O profeta Malaquias descreve o “Dia do Senhor” com a imagem do fogo: esse fogo destrói as pessoas más como se fossem palha seca, ao mesmo tempo em que é descrito como “sol da justiça”, trazendo a salvação definitiva para as pessoas boas. Já o apóstolo Paulo constata que algumas pessoas, apostando na iminência do “Dia do Senhor” – a volta do Senhor Jesus – decidiram cruzar os braços e não fazer mais nada, esperando Jesus voltar. Paulo afirma que não é essa a conduta que se espera de um cristão, mas que ele continue a trabalhar todos os dias, pelo bem de si mesmo e dos outros. Jesus não traz uma intervenção mágica que desresponsabiliza o homem.  

Enfim, o próprio Jesus, no Evangelho de hoje, fala conosco usando uma linguagem apocalíptica: “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (Lc 21,6). Essas palavras se referem à destruição do Templo de Jerusalém, algo impensável para as pessoas na época de Jesus! Ora, que os impérios humanos sejam destruídos, isso pode até nos deixar assustados, mas, afinal de contas, são construções “humanas”. Agora, que Deus permita que até mesmo o Templo em que Ele habita seja destruído, isso nos deixa perplexos! Se até mesmo aquilo que julgamos ser divino pode ser destruído, em quê ou em quem podemos confiar o nosso destino?

A princípio, essa afirmação de Jesus – “Tudo será destruído” – serviria apenas para aumentar ainda mais a nossa angústia, a nossa ansiedade, o nosso medo em relação ao futuro. Mas o que Jesus quer é que nós estejamos abertos à vida, e a vida muda constantemente. A vida é dinâmica; Deus é dinâmico. Até mesmo a nossa rotina, que parece ser a mesma, está inserida num movimento, num desígnio maior, que é o plano de Deus. O Deus que intervirá de maneira definitiva no fim dos tempos, está intervindo todos os dias na história humana. Ele tem um propósito para cada um de nós, para toda a humanidade. Todos os acontecimentos tendem para um desfecho. Se Deus permite que algo muito precioso para nós seja destruído, não é porque Ele não nos ama ou seja indiferente ao que nos acontece, mas porque seus desígnios ultrapassam a nossa compreensão presente e projetam a nossa vida para um futuro que o próprio Deus está nos preparando.

A Terra não é o Céu. Este mundo desigual, injusto e cheio de sofrimento não é o mundo que Deus criou e que deseja para nós. O horizonte de toda linguagem apocalíptica aponta para uma promessa de Deus: “O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça” (2Pd 3,13). No horizonte da nossa existência está uma vida sem injustiça, sem maldade, sem dor, sem destruição, sem morte. Mas nós vivemos no “ainda não”. Ainda temos que viver em um mundo marcado por dores e sofrimentos. Essa é a época em que cada um de nós foi chamado a viver e a dar testemunho da sua fé e da sua esperança em Cristo: “Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé” (Lc 21,13). Exatamente num contexto de forte individualismo, de indiferença, de descaso para com a vida alheia, de maldade, dor e sofrimento é que devemos testemunhar a nossa fé.

Mas qual é a nossa fé? É a certeza de que nenhum fio de cabelo cairá da nossa cabeça sem o consentimento do Pai. Tudo o que Ele permitir que seja modificado ou até mesmo destruído em nossa vida, acontecerá apenas porque Ele tem um desígnio maior a nosso respeito. Por isso, diante de cada perda, de cada dor, de cada acontecimento aparentemente absurdo e sem sentido, nós pediremos confiantemente: “Venha a nós o vosso Reino! Seja feita a vossa vontade!”. Diante de cada plano nosso desfeito e da pretensão humana daqueles que julgam serem os donos do mundo, decidindo os rumos da humanidade, nós proclamaremos: “O Senhor desfaz os planos das nações e os projetos que os povos se propõem. Mas os desígnios do Senhor são para sempre, e os pensamentos que ele traz no coração, de geração em geração vão perdurar” (Sl 33,10-11).

Guardemos no coração essas palavras de Jesus: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (Lc 21,19). Permaneçamos firmes, cuidando daquilo que a vida está pedindo para cuidarmos, neste momento. Permaneçamos firmes na fé, na esperança e na caridade. Permaneçamos firmes no bem que somos chamados a fazer, enquanto aguardamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

SANTIDADE: FAZER VIR À LUZ O MELHOR DE NÓS MESMOS

 Missa de todos os Santos. Palavra de Deus: Apocalipse 7,2-4.9-14; 1João 3,1-3; Mateus 5,1-12.

Como nasce a devoção aos Santos? Normalmente, ela nasce a partir de uma necessidade, de uma urgência, de um pedido de intercessão. Mas pode acontecer também que essa devoção nasça da leitura da história de vida de um(a) Santo(a), que acaba inspirando a pessoa a buscar o seu melhor: “Importante é que cada fiel entenda o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo” (Papa Francisco, GE, n.11). Nessas palavras do Papa Francisco fica claro que ser santo não consiste em nos tornarmos uma pessoa diferente daquela que somos, mas em nos tornarmos a pessoa que fomos chamados a ser, deixando vir à luz o melhor de nós mesmos.

A comemoração de todos os Santos nos recorda a nossa vocação, o nosso chamado à santidade: o Pai Santo “nos quer santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa... Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra” (Papa Francisco, GE n.14). Deus não quer que vivamos uma vida sem sentido, sem alma, sem razão de ser, sem alegria. O tempo em que fomos chamamos a viver e o lugar aonde a mão de Deus nos plantou são exatamente o contexto onde somos chamados a abraçar a nossa vocação à santidade. É ali, e não em outro lugar, que se encontra a ocasião mais oportuna para a nossa santificação, para desenvolvermos o melhor de nós mesmos. É na rotina de cada dia, nas ocupações diárias, que cada um de nós é chamado a santificar-se e a santificar o mundo.

No livro do Apocalipse, as pessoas santas recebem a marca do Deus vivo em sua fronte = consciência (cf. Ap 7,3). No entanto, no mundo atual, quase não se fala de consciência. Tudo é reduzido à emoção, ao coração. Muitas pessoas, ao fazerem uma escolha ou tomarem uma decisão, não consultam sua consciência, mas sim as emoções que sentem no momento. Por isso, erram muito: ferem e são feridas. Por outro lado, a consciência é o lugar da nossa liberdade e da nossa responsabilidade. É a partir da nossa consciência que podemos superar o mero “reagir” ao que nos acontece, para tomarmos a decisão que nos é pedida, em vista de lidarmos da melhor forma com o que nos acontece.

O caminho da nossa santificação passa pelo Evangelho e pela nossa configuração a Jesus Cristo, “o Santo de Deus” (Jo 6,69). Neste sentido, o Papa Francisco nos recorda que “para viver o Evangelho, não podemos esperar que tudo à nossa volta seja favorável” (GE, n.91). Muito pelo contrário: o mundo em que vivemos está em profundo desacordo com os valores do Evangelho, o que significa que, se quisermos nos configurar a Jesus Cristo, teremos que lidar com o desprezo, a indiferença ou até mesmo a perseguição por parte do mundo. É por isso que o Papa Francisco afirma: “Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade” (GE, n.94). Em outras palavras, quem busca sua santificação não segue a direção do vento, mas orienta-se por uma meta, e não deixa de caminhar na direção dessa meta só porque os ventos são contrários.

Assim como nós, Jesus percorreu seu caminho de santificação, de plena conformação da sua vontade humana à vontade do Pai. Ele deixou esse caminho descrito para nós nas bem-aventuranças, as quais devemos entender como atitudes de vida: ser pobre em espírito, isto é, viver na absoluta dependência de Deus e na confiança em seu amor; ser aflito, no sentido de deixar-se afetar pelo sofrimento alheio; ser manso, aprendendo a lidar consigo mesmo e com os outros; ter fome e sede de justiça, no sentido de não desistir de ser uma pessoa justa e de trabalhar em favor daquilo que é justo; agir com misericórdia para consigo mesmo e para com os outros; ser puro de coração, tendo reta intenção e valorizando o bem que habita em cada pessoa; promover a paz, desarmando-se e ajudando os outros a se desarmarem no relacionamento cotidiano; suportar ser perseguido ou criticado por ser uma pessoa justa; enfim, suportar ser perseguido ou criticado por servir a Jesus e à causa do Evangelho.  

Enfim, devemos ainda recordar um outro aspecto importante, para o nosso caminho de santificação: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo” (Papa Francisco, GE, n.101). As pessoas santas não são aquelas que se mantêm distantes da dor humana; pelo contrário, são aquelas que enxergam onde há injustiça e se colocam na defesa dos injustiçados, à semelhança de Jesus. Não por acaso, nos foi dito no livro do Apocalipse que os Santos “vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14). Enfrentemos com coragem as tribulações que nos são propostas pela vida, consequência da nossa busca em nos santificarmos e vivermos segundo o Evangelho de Jesus.   

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

O JESUS SEGUNDO O EVANGELHO TE REPRESENTA?

 Missa do 31. dom. comum.  Sabedoria 11,22 – 12,2; 2Tessalonicenses 1,11 – 2,2; Lucas 19,1-10.

 

            “Rezo para que Nossa Senhora Aparecida proteja e cuide do povo brasileiro; que o liberte do ódio, da intolerância e da violência” (Papa Francisco). Quem foi que conseguiu implantar no coração do nosso País tanto ódio, tanta intolerância e tanta violência? Nunca como nos tempos atuais o ódio esteve tão presente no meio de nós. Nós o percebemos dentro das famílias, nos ambientes de trabalho, nas escolas, nas ruas e até mesmo dentro das igrejas. O ódio nada mais é do que o veneno do maligno em nós. O diabo é o divisor: ele implanta ódio no coração das pessoas para dividir um país, uma cidade, um ambiente de trabalho, uma família, uma igreja. Uma vez divididos, somos mais fáceis de sermos dominados pelo maligno.

            Contrapondo-se ao ódio, que nos torna intolerantes e violentos em relação às pessoas que não pensam como nós, o livro da Sabedoria nos fala do coração de Deus; um coração que tem compaixão de todos, que não se vinga dos pecados dos homens com agressividade, porque tem esperança de que eles se arrependam; um coração que ama tudo o que existe; um coração que não odeia ninguém. Deus não odeia ninguém! A todos ele trata com bondade; quando precisa corrigir alguém, o faz com carinho, com paciência, na esperança de que a pessoa se afaste do mal.

            Quem foi que nos afastou do Deus bíblico, do Deus que ama a todos e a ninguém odeia? Quem foi que nos ensinou a projetar em Deus o nosso ódio, a nossa intolerância e a nossa violência, achando que ele compactua com o nosso desejo diabólico de destruir pessoas que não pensam como nós? Quem foi que nos perverteu em cristãos cheios de ódio, vivendo de costas para o Evangelho? Quem foi que nos incentivou a postar frases do tipo “O Papa Francisco não me representa” ou “A CNBB não me representa”? O Deus descrito no livro da Sabedoria, o Deus que ama a todos e a ninguém odeia, te representa???

            A imagem do Deus bíblico, que quer salvar a todos porque ama a todos e a ninguém odeia, está profundamente impressa nas palavras e nas atitudes de Jesus, conforme acabamos de ver no Evangelho de hoje. Para entendermos o escândalo que foi o fato de Jesus entrar na casa de Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos e muito rico, temos que levar em conta duas coisas. Primeiro, os cobradores de impostos eram odiados pelos judeus, porque estavam a serviço da dominação romana. Além de serem odiados, eram vistos como corruptos. Se Zaqueu era muito rico, podemos supor que também era muito corrupto. Em segundo lugar, a riqueza sempre aparece nas palavras de Jesus como o maior inimigo que pode nos impedir de entrar no Reino de Deus (cf. Lc 6,24-25; 16,13-15; 18,24-25). Isso nos ajuda a entender o escândalo do povo, quando diz: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador” (Lc 19,7).

            Que um padre ou um bispo hospede-se na casa de uma pessoa rica, isso não tem nada de escandaloso nos dias atuais. Muito pelo contrário. Afinal, não são as pessoas ricas que fazem doações importantes para a manutenção da paróquia ou da Diocese? Por isso, se quisermos nos deixar afetar pelo escândalo do povo, ao ver Jesus ir hospedar-se na casa de Zaqueu, precisamos imaginar a nossa reação vendo o padre da paróquia ou o bispo da Diocese hospedar-se na casa de um traficante, de um homossexual, de um casal em segunda união, de uma mãe solteira, de um ex-presidiário, de uma senhora que mora na periferia da cidade... 

            O Jesus bíblico, o Jesus do Evangelho, não é o Jesus que defende os nossos valores de “pessoas de bem”, mas que questiona a nossa hipocrisia, o nosso farisaísmo, o nosso manter-nos afastados das pessoas que precisam ser salvas, exatamente aquelas das quais queremos nos manter distantes porque “não comungam dos nossos valores”. Ao dizer a Zaqueu: “Hoje eu devo ficar na tua casa”, Jesus está nos dizendo que é nosso dever, enquanto cristãos, nos fazer presente na casa das pessoas que nós consideramos perdidas. Daqui a um mês praticamente, iniciaremos a Novena de Natal. Onde nós a rezaremos? Também nas casas dos inúmeros Zaqueus da nossa cidade, ou somente nas casas dos católicos praticantes, daqueles que pensam como nós?

            A atitude de Jesus, que também surpreendeu o próprio Zaqueu, fez com que ele mudasse sua forma de lidar com o dinheiro: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (Lc 19,8). Quantos de nós estamos na Igreja há anos, mas nunca permitimos que o Evangelho questionasse a nossa relação com o dinheiro? Quantos de nós acusam o Papa Francisco ou a CNBB de serem “de esquerda” quando denunciam as injustiças sociais que causam inúmeros sofrimentos aos pobres? O verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo, que chama todos à conversão e que sempre se coloca na defesa dos pobres, representa você, ou você vai se defender dele, acusando o pregador de ser marxista?   

            Jesus justifica a sua hospedagem na casa de Zaqueu afirmando que veio “procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Uma Igreja que permanece fechada em si mesma, defendendo-se do mundo, não entendeu o Evangelho. Um cristão que decidiu trocar o Deus que ama a todos e a ninguém odeia por um Deus que autoriza o ódio ao diferente, virou as costas para a Sagrada Escritura. Um cristão que reduz o Evangelho a preceitos espirituais e morais e não opõe às injustiças sociais, nem se preocupa com a ruína dos pobres, já virou as costas para Jesus Cristo há muito tempo, mas ainda não se deu conta disso. 

            Na vida cristã não cabe neutralidade. É impossível ser fiel ao Evangelho e “representar” cristãos que não se deixam questionar por suas exigências. Quando ouvir desses cristãos que você não os representa, agradeça a Deus e alegre-se! Isso é sinal de que você está no caminho que o Papa Francisco e a CNBB escolheram percorrer: o caminho da fidelidade ao Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, ainda que isso lhes custe o ódio dos cristãos que se julgam “pessoas de bem”.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

TOME CUIDADO COM A SOBERBA ESPIRITUAL

Missa do 30º dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 35,15b-17.20-22a; 2Timóteo 4,6-8.16-18; Lucas 18,9-14.

 

            Até que ponto a religião nos torna melhores, enquanto seres humanos? Ter uma religião nos humaniza, nos torna mais capazes de compaixão e de solidariedade para com o próximo, para com quem sofre? Será que o fato de sermos pessoas religiosas nos dá um certo orgulho e nos faz pensar que somos melhores que os demais seres humanos?

            Jesus nasceu dentro da religião judaica. Ao crescer, se deu conta que sua religião havia se fechado em si mesma, afastando-se das pessoas que mais precisavam de salvação. Dentro da religião de Jesus, havia um grupo que se considerava “pessoas de bem”, pessoas não contaminadas pelo pecado do povo “ignorante”: os fariseus. Aliás, o próprio nome “fariseu” significa “separado”. Enquanto os fariseus faziam questão de manter distância das pessoas que eles consideravam pecadoras, Jesus fez questão de se colocar junto a essas pessoas, entendendo que o lugar do Médico é junto aos que estão doentes, assim como o lugar do Salvador é junto daqueles que se reconhecem necessitados de salvação.

            Algo que preocupava muito Jesus era a presunção religiosa dos fariseus (o “fermento dos fariseus” – Mc 8,15): a presunção de se acharem salvos, uma presunção que tinha, como outro lado da moeda, o desprezo pelos outros: “Eu estou salvo; os outros estão perdidos. Eu estou na luz; os outros vivem na escuridão. Eu enxergo; os outros estão cegos”. Até que ponto essa presunção não está em nós, também? Já foi constatado que muitos católicos hoje em dia sofrem de uma doença chamada “soberba espiritual”. Essa soberba faz com que eles se achem mais católicos do que o Papa Francisco e mais fiéis à doutrina do que os nossos Bispos. Essa soberba espiritual faz com que alguns deles postem em suas redes sociais frases do tipo: “O Papa Francisco não me representa”; “O Bispo não me representa”; “A CNBB não me representa”.  

            Jesus mostra no Evangelho de hoje que a nossa soberba espiritual ou a nossa humildade aparecem na hora em que vamos fazer nossa oração. Durante a sua oração, uma pessoa que sofre de soberba espiritual exalta a si mesma perante Deus, enquanto que, ao mesmo tempo, despreza os outros, que não pensam como ela, que não são “boas” como ela se julga ser. O grande problema é que no coração de um fariseu, de uma pessoa cheia de si, não há espaço nem para Deus, nem para os outros. Só cabe ali o seu próprio ego. Pior ainda: uma pessoa que sofre de soberba espiritual não sente a necessidade de ser salva; pelo contrário, ela já se presume salva, e julga os outros como pessoas perdidas, sem salvação, pessoas das quais ela procura se manter distante, chegando até mesmo a sentir ódio delas.  

            O contrário da soberba espiritual é a humildade. O coração da pessoa humilde é como um jarro vazio: ali cabem os outros e ali cabe, sobretudo, Deus. A oração da pessoa humilde jamais expressa a presunção em estar salva, mas a consciência de que ela necessita ser salva. Diferente do cristão fariseu, o cristão humilde nunca olha os outros como pecadores desprezíveis, mas enxerga a si mesmo como pecador e necessitado de salvação, a exemplo do apóstolo Paulo: “Cristo Jesus veio ao mundo salvar os pecadores, e eu sou o primeiro que necessito ser salvo” (citação livre de 1Tm 1,15).

            Após mostrar o contraste da oração da pessoa soberba e da pessoa humilde, Jesus chama a atenção para o efeito que a oração produziu em uma e em outra: o homem que se reconheceu pecador e necessitado de salvação voltou para casa “justificado”, enquanto que o outro não. Voltar para casa “justificado” pode ser compreendido como voltar para casa curado, transformado, liberto, salvo. Assim como a condição para ser curado é ter consciência da própria doença, a condição para ser justificado é ter consciência do próprio pecado.

            Para compreendermos a importância do termo “justificado”, precisamos nos lembrar de três verdades bíblicas: “Diante de ti, nenhum ser humano será declarado justo” (Sl 143,2); “Não existe pessoa justa, não existe uma sequer; todas se transviaram e se corromperam” (Rm 3,10-11); “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus, mas são justificados gratuitamente, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (Rm 3,23-24). A justificação não é prêmio que eu recebo pelos meus esforços ou pelos meus méritos, mas unicamente graça; graça que me foi concedida na cruz de Cristo. Eu não sou um homem justo; sou um homem miserável e pecador, mas que foi gratuitamente justificado, isto é, tornado justo, pelos sofrimentos de Cristo na cruz.

            Tomemos cuidado com o fermento dos fariseus, que é a soberba espiritual, a presunção em ser uma pessoa de bem, enquanto julga os outros como se fossem pessoas do mal. Não sejamos escândalo para o mundo. Não permitamos que a religião nos torne arrogantes e cheios de nós mesmos, olhando os outros de cima para baixo; pior ainda, ignorando os demais. Não nos esqueçamos da advertência de Santo Agostinho: “Há pessoas que estão dentro, mas vivem como se estivessem fora. Há pessoas que estão fora, mas vivem como se estivessem dentro”.

Aprendamos com Jesus, com o Papa Francisco e com tantas pessoas que, mesmo fora da Igreja, escolheram descer o degrau da soberba para se colocarem junto daqueles que estão abatidos e humilhados, justamente porque essa continua sendo a escolha de Deus: “Eu habito em lugar alto e santo, mas estou junto com o humilhado e desamparado, a fim de animar os espíritos desamparados, a fim de animar os corações humilhados” (Is 57,15).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A VERDADEIRA FÉ SÓ SOBREVIVERÁ SE APRENDER A SUPORTAR A APARENTE INDIFERENÇA DE DEUS PARA CONOSCO

 Missa do 29. dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 17,8-13; 2Timóteo 3,14 – 4,2; Lucas 18,1-8.

Jesus nos deixa claro, no Evangelho de hoje, que é necessário rezar sempre e nunca desistir. Ele mesmo rezava sempre, todos os dias; se não conseguia fazê-lo durante o dia, por causa das multidões que o procuravam, fazia-o à noite, ou de madrugada, mas jamais deixava de rezar.

A oração não é uma questão de tempo, nem de vontade. Ela nasce de uma convicção: sem Deus, eu nada posso. O texto do livro do Êxodo que hoje ouvimos deixa claro que, durante a nossa vida, teremos inúmeros combates a enfrentar, e se não rezarmos, seremos sempre derrotados. A nossa vitória não depende das nossas forças, nem das nossas estratégias, mas unicamente da oração. Com afirma a Sagrada Escritura: “Um rei não vence pela força do exército, nem o guerreiro escapará por seu vigor. Não são cavalos (armas) que garantem a vitória; ninguém se salvará por sua força” (Sl 33,16-17). Ninguém vence as dificuldades da vida apoiando-se apenas em si mesmo, na sua força física, no seu dinheiro, na sua inteligência, na sua estratégia ou nas suas armas. Para vencermos os combates da vida, todos nós necessitamos da força do Alto, que só nos é concedida na oração.  

Mas, e quando a oração se torna uma luta entre nós e Deus? E quando, na oração, acontece uma batalha entre a nossa vontade e a vontade de Deus? Segundo David Benner, “nós podemos comparar a oração como um rio. Você é convidado a entrar neste rio e flutuar nele, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo até a presença de Deus. Mas, quantas vezes você entra nesse rio e, ao invés de se deixar conduzir pelo Espírito, abraçando a vontade de Deus, você começa a nadar contra a corrente, opondo resistência ao Espírito, porque quer que prevaleça a sua vontade e não a vontade de Deus? Quando você faz isso, acaba por transformar a sua oração num tormento. Isso distancia você da oração”.

A oração não é o lugar onde nós dobramos Deus à nossa vontade, mas o lugar onde precisamos acolher a vontade de Deus e confiar que aquilo que ele quer para nós é, de fato, o melhor. Nós temos a mania de achar que a nossa oração é bem sucedida quando saímos dela tendo conseguido aquilo que queríamos. Mas não. A oração bem sucedida é aquela da qual saímos dispostos a fazer a vontade de Deus! E Deus deseja que nós não fujamos dos confrontos da vida, mas que os enfrentemos com coragem, paciência e determinação. Neste sentido, é importante compreendermos que “pedir uma coisa a Deus não é certamente pretender que ele faça, em nosso lugar, o que nós devemos fazer” (missal dominical, p.1269).

Essa determinação aparece nas palavras de Jesus ao mencionar a atitude da viúva, que todos os dias batia à porta do juiz para pedir que lhe fizesse justiça. “Durante muito tempo, o juiz se recusou” (Lc 18,4). É aqui que a nossa confiança na oração começa a se desfazer: temos a impressão de que Deus se recusa a nos ouvir; se ouve, se recusa a nos atender, como se não se importasse com a nossa causa. O que chama a atenção, no exemplo que Jesus usa, é que a viúva não pede ao juiz um favor, que atenda a um capricho seu, mas que lhe faça “justiça”. Ora, a função de um juiz não é justamente essa: fazer justiça?

Propositalmente, Jesus usa o exemplo desse juiz para nos falar de Deus como aquele que jamais deixaria de fazer justiça a quem por ele clama, na oração: “Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa” (Lc 18,7-8). Eis a certeza que Jesus quer que tenhamos: Deus não ignora as injustiças que seus filhos sofrem neste mundo. Ele lhes fará justiça, sim. Não podemos jamais duvidar disso. Não podemos jamais substituir a nossa confiança em Deus pela sensação de que ele é indiferente ao que nos acontece.

Mas o problema persiste: Quando Deus nos fará justiça? Quando Deus intervirá, para acabar com o mal que nos aflige? O que Jesus quer dizer com esse “bem depressa?”. Quantas causas nossas foram perdidas? Muitas pessoas deixaram de rezar exatamente porque Deus não lhes fez justiça; elas suplicaram incansavelmente, mas ele não impediu a morte, não impediu a falência da empresa, não impediu a guerra, não impediu a destruição, nem o mal.

Diante da decisão de muitas pessoas em deixar de buscar a Deus na oração, Jesus nos pergunta se, quando ele voltar, encontrará fé sobre a terra; se encontrará alguém que ainda tenha fé. Ter fé nunca foi e nunca será simples, porque a realidade em que vivemos é ambígua: nela se misturam o bem e o mal, a verdade e a mentira, a justiça e a injustiça, e essa ambiguidade deixa nossa fé confusa. Além disso, nossa fé em Deus sempre cria expectativas: ele vai nos atender! Ele vai intervir! Ele fará justiça! Mas, como nos lembra o Pe. Tomás Halík, no seu livro, “A noite do confessor”, “O discurso de Deus é a própria vida, a vida que é uma correção constante, e por vezes dolorosa, dos nossos desejos e ilusões” (p.106). Nossa fé, às vezes, precisa ser purificada dos nossos desejos e ilusões, os quais nada têm a ver com a vontade de Deus, e essa purificação só se dá numa experiência de forte decepção com Deus.

Só uma fé que já se decepcionou com Deus e “brigou” com ele, mas mesmo assim não o abandonou, não o jogou fora, pode se manter viva até a volta de Jesus. Essa fé deve nos ajudar a entender que, apesar do silêncio de Deus, jamais devemos deixar de dialogar com ele, na oração. Ele tem projetos e planos que nós, na nossa impaciência, não conseguimos compreender. Portanto, lembremos mais uma vez a carta aos Hebreus: “Sem a fé, é impossível agradar a Deus. Pois aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe e que recompensa os que o procuram” (Hb 11,6).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi