quinta-feira, 16 de novembro de 2023

NÃO SEJA UM COVEIRO, NEM UM SABOTADOR DE SI MESMO

             Missa do 33. dom. comum. Provérbios 31,10-13.19-20.30-31; 1Tessalonicenses 5,1-6; Mateus 25,14-30.

 

            A primeira verdade da qual a parábola dos talentos quer nos tornar conscientes é a de que todo ser humano tem seu próprio potencial. Aos olhos de Deus, nenhuma pessoa é inválida, muito menos inútil. Cada ser humano vem ao mundo com a capacidade de contribuir para o bem da humanidade. Por isso, um primeiro questionamento que podemos nos fazer é esse: eu tenho consciência do meu potencial, da minha capacidade, da minha força?

            A segunda verdade em relação à qual precisamos nos tornar conscientes é a de que há pessoas que são sabotadoras de si mesmas. Pior do que isso, elas se comportam perante a vida como coveiras de si mesmas: enterram seu talento, sua capacidade, sua força, seu dom. Por que elas agem assim? Quando não é por ignorar suas próprias capacidades, é por comodismo e por preguiça. São pessoas que assumem uma postura de parasitas perante a vida: se encostam nos outros para sugá-los, ao invés de gastarem sua própria energia para resolver seus problemas. Portanto, algumas outras perguntas importantes nos são colocadas por Jesus: eu sou um sabotador ou um coveiro de mim mesmo? Minha postura perante a vida é a de um construtor ou de um consumidor?

            Jesus sempre entendeu a sua própria existência como uma “vida para”. Sua pergunta perante cada situação que se lhe apresentava não era: “Como eu posso desfrutar disso ou lucrar com isso?”, mas: “Como eu posso dar a minha contribuição para que essa situação seja resolvida, ou para que a vida se torne melhor, devido às minhas atitudes?”. Com a parábola dos talentos, Jesus está nos dizendo que o sentido da vida não está em desfrutar de coisas e de pessoas, mas em dar a nossa colaboração, usar a capacidade que nos foi dada, para que as coisas e as pessoas se tornem melhores graças à nossa presença junto a elas.  

            A terceira verdade em relação à qual precisamos ter consciência é a de que todos nós seremos julgados após a morte pela forma como vivemos a nossa vida; sobretudo, por aquilo que fizemos com os dons, os talentos, as capacidades que nos foram dados. Portanto, a pergunta que nos será feita não é se as pessoas com as quais convivemos fizeram alguma coisa para tornar a mundo e a Igreja melhores, mas se nós fizemos aquilo de que éramos capazes para que isso acontecesse.

            Quando olhamos para a realidade à nossa volta, tanto social quanto eclesial, constatamos que o número de pessoas que abraçam uma causa é cada vez menor, em comparação com o número de pessoas que decidiram cruzar os braços, abandonar a tarefa que lhes foi confiada e passar a engrossar a fila dos parasitas, dos coveiros de si mesmos. Se não queremos cair nessa tentação, precisamos nos recordar da palavra que diz: “Não desanimemos na prática do bem, pois, se não desfalecermos, a seu tempo colheremos” (Gl 6,9).

            Cada vez que um ser humano desiste de fazer o bem que é capaz, dá espaço para o mal se tornar ainda maior à sua volta. É por isso que o julgamento sobre o servo que decidiu enterrar o seu talento foi muito severo: “Servo mau e preguiçoso!” (...) “Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão” (Mt 25,26.30). Notemos que esse servo não fez diretamente o mal; ele simplesmente decidiu não fazer o bem de que era capaz. Aqui precisamos nos recordar da palavra que diz: “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4,17).  

            A condenação do servo “mau e preguiçoso” é uma boa ocasião para refletirmos sobre um pecado quase nunca recordado: o pecado de omissão. Somos omissos diante de muitas situações, seja porque não queremos nos indispor com as pessoas; seja porque não queremos sofrer críticas, perseguições ou retaliações; seja porque o individualismo anestesiou a nossa consciência a tal ponto que decidimos apertar o botão do “dane-se”. O grande mal em tudo isso é que quando adotamos a postura do “dane-se”, nos esquecemos de que nós estamos implicados na situação que ficará danificada pela nossa omissão. Muitas das situações perante as quais nos omitimos se voltarão contra nós mesmos.

            Uma última questão. A palavra que mais se repetiu na parábola dos talentos foi “servo”. Embora seja uma palavra “pejorativa” para o mundo atual, no sentido bíblico a mesma tem um significado muito profundo: o servo é um eleito, um escolhido por Deus, uma pessoa diferenciada e capacitada para uma tarefa, uma missão importantíssima. Quando você supera todo pessimismo e decide não enterrar o seu talento, mantendo-se fiel à sua consciência de ser um “servo” de Deus, a serviço da salvação da humanidade, sua vida readquire sentido a cada dia, e no dia do seu julgamento, você ouvirá do Senhor Jesus essas palavras: “Muito bem, servo bom e fiel! como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!” (Mt 25,21.23).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

SEM RESERVA DE ESPERANÇA, A NOSSA FÉ NÃO SUPORTARÁ AS DEMORAS DE DEUS

 

Missa do 32º. dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 6,12-16; 1Tessalonicenses 4,13-18; Mateus 25,1-13.

 

            Imediatismo: tudo deve ser rápido, prático e resolvido de forma instantânea. Não temos tempo a perder; não podemos esperar. Essas são algumas características da geração atual. Independentemente da idade, todos nós desaprendemos a esperar; nossa esperança foi substituída pela ansiedade, pela pressa, pelo nervosismo e pela irritação em ter que esperar.

            Mas, o que nós esperamos? O cristão não espera por algo, mas por Alguém: esperamos pelo Senhor Jesus, “Aquele que é, Aquele que era, Aquele que vem” (Ap 1,8). “De fato, é de perseverança que vocês têm necessidade... Porque ainda um pouco, muito pouco tempo, e aquele que vem, chegará e ele não tardará” (Hb 10,36-37). “Cristo virá uma segunda vez... àqueles que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28).

            Esperar no Senhor e pelo Senhor é uma atitude que desafia a nossa fé: “O noivo estava demorando, e todas elas acabaram cochilando e dormindo” (Mt 25,5). A demora nos desafia porque ela carrega consigo a tentação do abandono: chega de esperar! Muitos desistiram de esperar em Deus e por Deus. Outros optaram por trocar Deus pelo Maligno, alegando que “Deus demora; o diabo responde na hora”. A incapacidade de esperar tem levado pessoas à desistência do casamento, ao abandono de sonhos e ideais, a uma atitude de frieza, endurecimento e vazio de esperança e de sentido perante a vida, ao suicídio; são pessoas cuja lâmpada se apagou por falta de óleo.

            A luz da lâmpada é a fé, o sonho, a vontade de viver, o projeto, a tarefa abraçada, o trabalho iniciado, enquanto que o óleo que mantém a chama acesa é a esperança. Essa esperança não se assenta em nós mesmos, mas em Deus, conforme está escrito: “Os que esperam em ti, Senhor, não ficam decepcionados; ficam decepcionados os que, por qualquer motivo, abandonam a sua fé” (citação livre de Sl 25,3). Muitas pessoas estão à nossa volta como lâmpadas apagadas; nelas não há mais brilho, nem alegria; elas não vivem, nem sonham, porque deixaram de esperar; o corpo ainda tem alguma vida, mas a alma decidiu morrer, por deixar de esperar.

Qual a importância da esperança para a nossa vida? “A esperança é a capacidade de perceber a realidade como estando permanentemente em aberto” (Tomás Halík, A noite do confessor, p.185). As jovens imprevidentes, que não levaram reserva de óleo em suas lâmpadas e por isso precisaram ir à cidade comprar mais óleo, ao voltarem para o encontro com o Noivo (Jesus), encontraram a porta fechada. Quando decidimos abandonar a esperança; quando decidimos não mais esperar em Deus e por Deus, a porta da vida se fecha e nos mantém trancados dentro de um quarto escuro. Esperar pelo Senhor que vem significa manter a nossa vida aberta àquilo que Deus pode e deseja realizar em nós: “Existe recompensa para a sua dor – a dor da espera –; há esperança para o seu futuro” (Jr 31,16.17).

            A demora pela volta de Jesus sempre desafiou a Igreja, desde os primeiros cristãos. Se não queremos nos deixar contaminar pelo cansaço, pelo desânimo e pelo abandono da esperança, precisamos recordar que Aquele que esperamos prometeu estar conosco todos os dias, até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20). Não esqueçamos o seu nome: “Aquele que é (grifo meu), Aquele que era, Aquele que vem” (Ap 1,8). O Cristo que virá na hora em que menos imaginarmos vem nos visitar todos os dias, através de pessoas e de acontecimentos, como ele mesmo afirma: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). “Eu estou à sua porta”, estou aqui e agora.

 

           

Texto complementar: Oração e esperança (Pe. Henri Nowen)

 

            “Cada oração é uma expressão de esperança. Uma pessoa que não espera nada do futuro não pode orar. Só pode haver vida e movimento quando você não aceita mais as coisas como são e olha para frente rumo ao que ainda não é.

Um homem com esperança não se preocupa em saber como seus desejos serão cumpridos. Assim, sua oração não se dirige à graça, mas Àquele que a proporciona. Um homem com esperança não se preocupa em saber como seus desejos serão cumpridos. Assim, sua oração não se dirige à graça, mas Àquele que a proporciona.

Sempre que orarmos com esperança, poremos nossa vida nas mãos de Deus. Medo e ansiedade desaparecem, tudo que recebemos e tudo de que somos privados não são nada senão um dedo apontando na direção da promessa de Deus de que vamos viver por completo”.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

SANTIFICAÇÃO, UM CAMINHO QUE DEVE SER RETOMADO DIARIAMENTE

 Missa de todos os Santos. Palavra de Deus: João 7,2-4.9-14; 1João 3,1-3; Mateus 5,1-12a

 

            “Santo, Santo, Santo” (Is 6,3). Assim Isaías ouviu os serafins proclamando diante de Deus. “Tu és o Santo de Deus” (Jo 6,69). Assim Pedro se referiu a Jesus. “O Defensor, o Espírito Santo” (Jo 14,26). Assim Jesus se refere à promessa de nos enviar o Espírito do Pai. A santidade é a essência do Pai, do Filho e do Espírito.

            Biblicamente, a palavra “santo” significa “separado”. O Pai, o Filho e o Espírito são Santos porque separados do mundo, no sentido de não se deixarem corromper, de serem plenos da verdade e de não terem em Si mesmos nenhum espaço para o mal. Nós, filhos do Pai, chamados a ser discípulos do Filho e a nos deixar guiar pelo Espírito de Deus, somos convidados a buscar diariamente a nossa santificação, o que significa estar no mundo mantendo a consciência de que não somos do mundo.

            Antes de entendermos o que é ser santo, precisamos compreender o que a Sagrada Escritura entende por “mundo”. Muitas pregações demonizam o mundo, omitindo a verdade de que o mal também está dentro das igrejas e religiões, além de encontrar espaço no coração de cada ser humano. Quando Jesus ora pelos seus discípulos, expressa-se dessa forma ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Jo 17,15). Nós não podemos ser tirados do mundo porque o mundo é justamente o nosso campo de missão. Assim como fez em relação a Jesus, o Pai nos enviou ao mundo para salvá-lo, não para condená-lo (cf. Jo 3,16). Quando João afirma que “o mundo inteiro está sob o poder do Maligno” (1Jo 5,19), está se referindo àqueles que não creem no Filho de Deus, e não à humanidade, à qual Deus ama e deseja salvar.

            Se ser santo significa separar-se do mundo, trata-se de manter a nossa consciência voltada para Deus e não nos tornarmos cristãos mundanos, aprendendo a filtrar, a discernir, a separar o que convém daquilo que não convém à nossa salvação. Além disso, ser santo significa caminhar segundo a verdade, contida na Palavra de Deus: “Santifica-os na verdade; tua palavra é verdade” (Jo 17,17). Somente quem se deixa corrigir e orientar pela Palavra de Deus consegue separar-se das mentiras do mundo, mentiras que visam corromper nossos valores, nos fazendo correr todos os dias atrás de falsas promessas de felicidade enquanto perdermos a nossa alma e nos desviamos do caminho da salvação.

            Além de caminhar segundo a verdade, uma pessoa que busca santificar-se jamais deve esquecer de ser justa e trabalhar por um mundo mais justo, pois Jesus dirá a alguns que acreditam serem bons cristãos: “Afastem-se de mim, todos vocês, que cometem injustiça” (Lc 13,27). Para evitarmos essa falsa segurança religiosa, o Papa Francisco nos adverte: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo” (Papa Francisco, GE, n.101). Não podemos buscar uma santidade individualista tornando-nos indiferente às injustiças que fazem pessoas sofrerem à nossa volta. Não nos esqueçamos de que o próprio Jesus deixou claro que um cristão que busca santificar-se é alguém que tem “fome e sede de justiça” (Mt 5,6).

              O livro do Apocalipse nos torna conscientes de que não existe santificação sem luta, e a primeira luta que temos que travar é conosco mesmos, com a nossa preguiça e o nosso comodismo, com o nosso pecado, que sempre visa aquilo que nos dá algum lucro ou algum prazer, ainda que isso seja mal aos olhos de Deus e prejudique outras pessoas. A veste branca só será dada no céu àqueles que passaram por tribulações, que são exatamente o preço que pagamos para não aderir à mentira, à injustiça e ao Maligno. Na verdade, ninguém de nós chegará diante de Jesus com a veste branca, seja porque somos pecadores, seja porque travamos uma batalha espiritualmente sangrenta contra o mal. Nossa veste só ficará branca quando for lavada no sangue do Cordeiro, isto é, quando, apesar do sofrimento, imitarmos Jesus na busca diária de viver segundo a vontade do Pai.

            A santidade é um caminho que Deus nos convida a percorrer todos os dias. Concretamente, trata-se de seguirmos Jesus, o Caminho que conduz ao Pai. Ninguém percorre esse caminho sem tropeçar e cair algumas vezes. Não devemos ficar parados aonde caímos, nem nos deixarmos enganar pelo tentador que quer nos fazer pensar que o tropeço e a queda anularam tudo o que já caminhamos e nos fizeram voltar à estaca zero. Trata-se de nos deixarmos levantar novamente, pela força do Espírito Santo, e retomarmos o seguimento de Jesus, orientando-nos pelo seu Evangelho: “Esquecendo-me do que fica para trás, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto. Portanto, conservemos o rumo” (citação livre de Fl 3,13.14.16).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

DEUS TEM PELE

 Missa do 30º dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 22,20-26; 1Tessalonicenses 1,5c-10; Mateus 22,34-40.

 

Qual é o sinal principal que nos diz que uma determinada pessoa pratica uma religião? Se essa pergunta for feita a Jesus, ele responderá: “Não é a maneira como a pessoa se veste; não é o fato de ela usar um símbolo religioso; não é também o fato de ela falar em Deus ou citar versículos bíblicos etc. O sinal que indica se uma pessoa verdadeiramente segue uma religião é o amor: amor a Deus e amor ao próximo”.

Para Jesus, a religião existe para inserir a pessoa num relacionamento. O primeiro relacionamento é com o Pai. Esse relacionamento não deve ser pautado pelo medo, muito menos pela superstição – se eu me afastar de Deus, tudo começará a dar errado. Embora nós, seres humanos, sejamos movidos de certa forma por necessidades – eu procuro a Deus porque necessito d’Ele, da sua ajuda, da sua proteção etc. –, Jesus deseja nos ensinar a buscar estar na presença de Deus não simplesmente porque precisamos d’Ele, mas sobretudo porque o amamos.

Porém, onde encontrar Deus? Na natureza? Numa igreja? Na Sagrada Escritura? Também! Mas o Deus que Jesus veio anunciar como Pai, embora seja Espírito (cf. Jo 4,24), tem pele! Ele está concreta e historicamente presente no próximo, especialmente na pessoa que necessita de nós. É por isso que Jesus coloca no mesmo grau de importância amar a Deus e amar ao próximo. Isso significa que, segundo Jesus, qualquer forma de espiritualidade que possamos ter só é boa, só é saudável, na medida em que nos torna próximos das pessoas que necessitam de nós.

Justamente porque vivemos num mundo de valores invertidos, cresce cada vez mais em nós a convicção de que afastar-nos das pessoas e conviver com plantas e animais é muito mais fácil do que “lidar com o ser humano”. Desse modo, muitas pessoas escolhem viver sua fé individualmente, dentro de casa, sem vínculo concreto com uma comunidade, com uma igreja, inclusive justificando essa postura pelo fato de terem se decepcionado com pessoas nas igrejas. Embora essa atitude nos deixe instalados na zona de conforto do nosso individualismo, ela é totalmente reprovada pela Sagrada Escritura.

Sempre que caímos na tentação de separar Deus (Espírito, o Transcendente) das pessoas concretas que estão à nossa volta, o próprio Deus nos faz a mesma pergunta que fez a Caim: “Onde está teu irmão?” (Gn 4,9). Como você tem tratado o estrangeiro, a viúva, o órfão, o pobre (cf. Ex 22,20.21.24)? Onde você está quando o seu próximo fica doente, perde o emprego, sofre um acidente, perde alguém da família, envelhece, passa a morar sozinho, torna-se esquecido ou passa a ser ignorado por todos?

Muitas pessoas reclamam de que nunca tiveram um encontro verdadeiro e profundo com Deus. Sabe onde esse encontro acontece? Exatamente quando você esquece de si e encontra tempo para visitar um paciente que está com câncer, um idoso que sofre de solidão, uma criança ou uma família que passa fome, uma pessoa que perdeu um ente querido e precisa desabafar com alguém... Esses encontros possibilitam que você faça uma verdadeira experiência de Deus, o Deus que tem pele, que se fez ser humano na pessoa de seu Filho Jesus, o qual, por sua vez, se identificou com toda pessoa que sofre algum tipo de necessidade.

            Quando Jesus afirma que tudo o que está na Sagrada Escritura se resume no amor a Deus e no amor ao próximo (cf. Mt 22,40), está nos questionando se a nossa religião nos torna mais humanos ou menos humanos. Se a nossa vida de oração e de sacramentos não nos tornar próximos de quem necessita de nós, algo está profundamente errado em nossa maneira de entender Deus e a nossa própria fé. Além disso, essa forma cada vez mais individualista de viver a fé, onde nos mantemos distantes do drama da vida das pessoas que sofrem, nos afasta totalmente de Jesus, cujo coração sempre esteve voltado para o Pai e para as pessoas que sofriam.

            Se Deus está morrendo no coração de muitas pessoas, é porque as mãos delas não tocam mais na pele de nenhum ser humano. O contato humano tem sido cada vez mais substuituido pelo contato virtual. Nossos dedos tocam diariamente e quase o tempo todo uma tela de celular, mas raramente tocam na pele de uma pessoa real. Essa falta de contato com pessoas reais não só nos desumaniza, como também abre em nós um buraco doloroso chamado solidão, uma solidão que nos faz sentir que ninguém se importa conosco, da mesma forma como nós também não nos importamos com ninguém. Desse modo, quando o próximo começa a morrer dentro de nós, Deus também começa a morrer, e a nossa fé perde o sentido, perde a razão de ser.     

            Onde está Deus? Ele está na pessoa do nosso próximo, exatamente naquela pessoa com quem não escolhemos conviver, mas que a vida colocou em nosso caminho por algum motivo. Jesus nos desafia a romper com o fechamento em nós mesmos, com o individualismo, e voltarmos a dar vida à nossa pele, tocando na pele do nosso próximo; concretamente, fazendo-nos próximos de pessoas que são sistematicamente ignoradas pelo mundo atual, cada vez mais desumanizado e vazio de sentido. Sempre que tocarmos na pele do outro ele sentirá que existe para nós, e nós sentiremos o quanto Deus é real e o quanto amar – cuidar daquele que a vida está pedindo para cuidarmos – é o que verdadeiramente dá sentido à nossa existência.

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

UM CÉSAR JAMAIS SERÁ UM MESSIAS

 Missa do 29. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 45,1.4-6; 1Tessalonicenses 1,1-5b; Mateus 22,15-21.

 

            Quando Jesus se fez pessoa humana e veio ao mundo para nos salvar, nasceu na Palestina, a qual estava subjugada ao poder do Império Romano, desde o ano 63 aC. O imperador de Roma, considerada capital do mundo na época de Jesus, era chamado de “César”, título que representava a autoridade máxima. Como cidadãos de um território ocupado pelos romanos, os judeus eram obrigados a pagar impostos a César (na época de Jesus, o imperador Tibério, que reinou de 14 a 37 dC). Tais impostos sustentavam Roma, capital do império, e os luxos e desmandos do imperador.  

            Quem é o nosso César hoje? César é toda pessoa que exerce a autoridade política sobre nós. No caso da democracia, essa autoridade foi escolhida por nós mesmos, através do voto. Concordando ou não, todos nós pagamos impostos a César, e como o grande problema do nosso País é a desigualdade social, todo César – encarnado no poder Executivo, Legislativo e Judiciário – é beneficiado não só por um alto salário, mas também, com raríssimas exceções, com dinheiro desviado, seja para seu enriquecimento particular, seja para “devolver” o dinheiro que o setor privado (empresários) lhe “emprestou” durante a campanha eleitoral.

            A verdade é que não existe César que seja limpo, porque o sistema que o gera é sujo. É verdade também que o Brasil viveu um momento de delírio: acreditou-se que um César “cristão” poderia salvar o País da corrupção. Mas o tempo se encarregou de nos fazer cair na real de que nenhum César é Messias; nenhum César permanece no poder sem comprar o apoio da maioria do Congresso, e para realizar tal compra, precisa tirar dinheiro de algum lugar, lembrando que a fome do Congresso é insaciável. 

            A afirmação de Jesus – “Dai a César o que é de César” (Mt 22,21) – indica que nós, cristãos, temos responsabilidade para com a vida pública e não temos o direito nos tornarmos pessoas corruptas com a justificativa de que todo César é corrupto. O pior estrago que César pode fazer é corromper a nossa consciência e nos convencer de que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Portanto, Jesus questiona o nosso “jeitinho brasileiro”, as trapaças que fazemos para escapar de determinados impostos e também os mecanismos que utilizamos para obter lucro causando prejuízo a outras pessoas. Em suma, Jesus quer saber se nós, cristãos, vivemos como filhos de Deus ou como filhos de César.

            “Dai a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Todo ser humano precisa ser retirado da voracidade das mãos do mercado, que se alimenta do sangue dos pobres, e devolvido a Deus. A Amazônia, o Cerrado, o meio ambiente em geral precisa ser protegido da voracidade de empresários predadores que se enriquecem sempre mais às custas do sangue das florestas desmatadas e dos rios poluídos. Deus nos deu a natureza como Mãe que nos fornece os meios para sobrevivermos. Matar nossa Mãe é cometer um suicídio global. A natureza, o meio ambiente, precisam ser devolvidos a Deus, no sentido de que cada um de nós retome o seu papel de guardião da criação. Os ambientes de trabalho também precisam ser devolvidos a Deus, de forma que os trabalhadores ajam com dedicação e honestidade e os empresários com justiça e humanidade.

            “A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). A César nossas horas de trabalho; a Deus nosso momento de descanso. A César nossa produção; a Deus nossa espiritualidade, nosso momento de deixar que Ele produza em nós cura, restauração, salvação. A César nossa responsabilidade em cuidar do bem comum; a Deus nossa responsabilidade em cuidar do que Ele confiou especificamente aos nossos cuidados – nossa família. A César nosso respeito enquanto cidadãos; a Deus, nossa relação filial. A César nossa consciência crítica; a Deus nossa obediência de fé.

ORAÇÃO: Senhor, Tu és o nosso único Deus. Toca com Tua mão na consciência de todo César do nosso tempo, para que use do seu poder para cuidar do meio ambiente e protegê-lo dos interesses gananciosos do mercado. Concede sabedoria a todo César para que se afaste da corrupção e exerça seu governo segundo a justiça, sempre visando a dignidade e o bem de cada ser humano.

            Livra-nos dos líderes religiosos que usam do Teu nome unicamente para seus próprios projetos de poder. Torna-nos conscientes de que o papel da religião é acompanhar criticamente a política, e não se colocar a serviço dela em vista da manutenção das estruturas injustas de poder que aprofundam sempre mais a desigualdade em nosso País.

            Ensina-nos a dar a Ti aquilo que é Teu, fazendo da nossa oração diária o momento em que nos deixamos amar e cuidar por Ti, orientando a nossa consciência diariamente por Tua palavra, não nos corrompendo diante do poder mundano e cuidando da vida de cada ser humano e do meio ambiente, a fim de promover a fraternidade universal. Por Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!   

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

ROUPA DE FESTA PARA PARTICIPAR DA GRANDE FESTA!

 

Missa do 28º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 25,6-10a; Filipenses 4,12-14.19-20; Mateus 22,1-14.

 

Um presente sem esperança de futuro é um presente fechado no desespero: não há perspectiva, não há pelo quê ou por quem esperar; tudo fica tomado pelo negativo de uma situação que parece que não mudará. O problema é que o nosso olhar não consegue ver além do tempo presente, além do véu do aqui e do agora. Mas existe uma outra forma de ver e de interpretar o tempo presente: é a visão apocalíptica, a visão para além do véu, pois “apocalipse” significa “revelação”, no sentido de “tirar o véu” e nos fazer enxergar que o nosso presente está aberto a um futuro e a uma esperança.

O texto que ouvimos hoje, do profeta Isaías, é um texto apocalíptico que faz a nossa visão transcender o presente e se abrir ao futuro: “O Senhor dará”; “Ele removerá”; “o Senhor Deus eliminará”; “Ele enxugará”; “Naquele dia se dirá: ‘Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou”; “A mão do Senhor repousará”... Mas, o que existe depois do tempo presente? O que nos aguarda no futuro? Um grande banquete! Esse banquete está sendo preparado pelo próprio Deus e é oferecido a todos os povos, porque Deus quer que todos os seres humanos sejam salvos. A razão de ser desse banquete é celebrar o fim da morte, o fim das lágrimas, o fim de todo sofrimento.

O mais importante dessa visão apocalíptica de Isaías é que ela não ficou esquecida no passado, mas foi retomada por Jesus no Evangelho, para nos falar do Reino de Deus, comparado a uma festa de casamento. É exatamente no livro do Apocalipse que essa festa é especificada como a festa de casamento do Cordeiro com sua noiva, a Igreja: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete do casamento do Cordeiro” (Ap 19,9), convite atualizado em toda celebração eucarística que realizamos. Contudo, o comparecimento ao banquete eucarístico tem sido cada vez menor, o que é explicado por, no mínimo, dois motivos: 1) Nossas celebrações eucarísticas, com algumas exceções, estão longe de terem gosto de festa – na maioria das vezes, têm gosto de funeral; são vivenciadas como um rito morto, onde as manifestações de alegria são proibidas pelas normas litúrgicas. 2) Os convidados não têm tempo para irem à festa: estão ocupados demais com o tempo presente para pensarem no futuro; são pessoas presas ao aqui e ao agora, cujas vidas não têm abertura para o sonho, para a esperança, para o Reino de Deus – suas energias são gastam em sobreviver ao reino do mundo, cujo deus é o estômago.  

Diante da recusa dos convidados em participarem da festa de casamento, algo surpreendente acontece: o convite sai do centro e vai para a periferia – sai dos judeus religiosos e vai para os pagãos; sai das pessoas que se julgam merecedoras da salvação e vai para as pessoas julgadas como perdidas – “Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia” (Mt 22,10). Como compreender que na festa do Reino dos Céus entrem também os maus e não somente os bons? O que Jesus quer ressaltar aqui é que salvação não é mérito nosso, mas dom de Deus, fruto do seu amor gratuito (cf. Is 55,1; Mt 5,45).

Mas será que, no fim das contas, tudo acabará em pizza? De modo algum! Ao observar na sala do banquete um homem que não estava vestido com seu traje de festa, o mesmo foi questionado e posto para fora! Esse traje de festa só pode ser compreendido à luz do banquete do Cordeiro: “Estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro e sua esposa (a Igreja, isto é, os cristãos) já está pronta: concederam-lhe vestir-se com linho puro, resplandecente – pois o linho puro representa a conduta justa dos cristãos” (Ap 19,7-8). A gratuidade do amor e da salvação de Deus pede uma resposta da nossa parte: ajustar o nosso comportamento diário à vontade de Deus. Esse “traje de festa” também precisa questionar a maneira como nos vestimos para participar da celebração eucarística...

Eis a conclusão do Evangelho: “Muitos são chamados, e poucos são escolhidos” (Mt 22,14). Diante da vontade de Deus de salvar a todos, cada pessoa precisa responsabilizar-se por sua própria salvação – ter uma conduta justa, num mundo de valores invertidos, para o qual ao valor “justiça” foi substituído pelo “dar-se bem na vida”, mesmo que isso custe causar injustiça aos outros.

Retomando o início dessa reflexão, como está o nosso presente? Fechado em si mesmo ou aberto a um futuro e a uma esperança? Estamos entre os poucos que ainda esperam em Deus, ou já passamos para o lado da grande multidão que deixou de manter sua vida aberta a tal esperança? “Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome... Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,12-13). Nosso presente tem sido vivido na força daquele que nos faz suportar e superar as situações adversas, ou tem sido entregue ao desencanto e ao desespero?  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

NÃO EXISTE JUSTIFICATIVA PARA SE MATAR EM NOME DE DEUS

 Missa do 27. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 5,1-7; Filipenses 4,6-9; Mateus 2,33-43.

 

            A Sagrada Escritura está cheia de cenas de violência e manchada de muito sangue, principalmente no Antigo Testamento. Antes de Jesus Cristo se fazer pessoa humana e vir ao mundo nos revelar o verdadeiro rosto de Deus como Pai amoroso e misericordioso, que deseja a salvação de todo ser humano, tinha-se de Deus a ideia de um Deus guerreiro, inimigo de todo inimigo de Israel, a quem Ele havia escolhido como propriedade particular dentre todos os povos (cf. Dt 7,6.16). Como Israel, durante a maior parte da sua história, precisou enfrentar muitas lutas contra povos inimigos, ele entendeu Deus como “o Senhor dos Exércitos”, e suas lutas não como lutas entre homens, mas entre o Deus verdadeiro e os falsos deuses dos povos pagãos. Daqui nasce o conceito de “guerra santa”: matar em nome de Deus.

            Jesus não apenas nasceu judeu, mas veio ao mundo como o Messias prometido a Israel. Embora houvesse uma grande expectativa religiosa (de caráter apocalíptico) de que o Messias viria liderar uma revolução política, libertar Israel da dominação estrangeira (Império Romano) e instaurar definitivamente o Reino de Deus, um Reino sem dúvida “judaico”, Jesus se revelou como salvador do mundo, e não apenas de Israel, e anunciou o Reino de Deus como uma realidade que transcende a história humana e em cuja mesa de banquete se assentarão muitos do Oriente e do Ocidente, enquanto que os “filhos do Reino serão postos para fora” (Mt 8,12), por não terem tido fé naquele que Deus enviou: seu Filho Jesus.

            O resultado só podia ser um só: os líderes religiosos decidiram matar Jesus, da mesma forma como alguns líderes de Israel apedrejaram e mataram no passado os verdadeiros profetas, por não suportarem ser desmascarados em sua falsa segurança religiosa e política. Tais atitudes violentas aparecem mencionadas por Jesus, no Evangelho de hoje: “espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram” (Mt 21,35). Quanto ao próprio Jesus, morto pelo Império Romano por inveja dos líderes religiosos judaicos, sua execução aparece descrita dessa forma: “Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram” (Mt 21,39).

            A parábola que Jesus nos conta questiona o quanto nós estamos contaminados com a intolerância e a com violência; o quanto cristãos fanáticos desconhecem a Sagrada Escritura, a ponto de tirar versículos bíblicos do seu contexto e utilizá-los para justificar a morte daqueles que eles consideram seus inimigos; o quanto pessoas que se julgam “de bem” projetam em Deus o seu ódio e usam o seu Nome para justificar os muros que elas levantam contra aqueles que não pensam como elas, esquecendo o que afirmou o Papa Francisco: “Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa, só a paz é santa, não a guerra”.

            Jesus entende que a religião existe para tornar o ser humano melhor. Quando uma pessoa, em nome da sua crença religiosa, se desumaniza, algo está profundamente errado. Essa desumanização não significa apenas tornar-se uma pessoa agressiva e defensora da violência, mas insensível e indiferente aos que sofrem devido às injustiças sociais. Foi isso que o Senhor Deus constatou no povo de Israel: “Eu esperava deles frutos de justiça — e eis injustiça; esperava obras de bondade — e eis iniquidade” (Is 5,7). Como consequência dessa inversão de valores na sua vida religiosa, Israel foi abandonado a si mesmo, colhendo os frutos da sua própria violência: “ela será devastada... pisoteada... não será podada nem lavrada, espinhos e sarças tomarão conta dela; não deixarei as nuvens derramar a chuva sobre ela” (Is 5,5-6).

            Não são poucas as situações atuais que nos lembram essas palavras do profeta Isaías: pessoas devastadas pelas drogas, pisoteadas pela criminalidade, uma geração que, por não aceitar ser podada nem lavrada – por não aceitar limite algum – cresce como uma planta selvagem, cuja vida é tomada pelos espinhos e pelas sarças de comportamentos destrutivos; enfim, uma geração “amaldiçoada”, que vegeta no deserto de uma vida sem espiritualidade e sem humanidade, uma terra que sofre com um calor intenso e com falta de chuva porque escolheu virar as costas para Aquele que é Fonte de água viva (cf. Jr 2,13).

            A conclusão da parábola contada por Jesus é muito clara: “Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21,41). Quem provoca destruição na vida dos outros, colherá destruição na sua. Quem, em nome de uma imagem doentia de Deus, se torna desumano, indiferente à dor alheia e colaborador de uma cultura de morte, será atingido pelo próprio mal que ajudou a propagar. “Todos os que pegam a espada, pela espada perecerão” (Mt 26,52). “Quem com ferro fere com ferro será ferido” (sabedoria popular).  

            Jesus fez um alerta aos líderes religiosos judaicos: “O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (Mt 21,43). Este alerta continua válido para todas as religiões de todos os tempos. Deus se ausentará do coração de toda pessoa que aposta na força do mal como solução para seus próprios problemas ou para os problemas da humanidade, simplesmente porque Ele é “o Deus da paz” (Fl 4,9), e somente “os que promovem a paz serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

           Pe. Paulo Cezar Mazzi