quinta-feira, 17 de setembro de 2020

NEM MÉRITO, NEM RECOMPENSA, MAS O DESEJO DE SALVAR A TODOS

 Missa do 25. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,6-9; Filipenses 1,20c-24.27; Mateus 20,1-16a

 

            Desde crianças, aprendemos que existe uma recompensa para o fato de uma pessoa esforçar-se em ser boa, correta e justa. Para nós, é mais do que natural e justo entender que a pessoa que se esforça mais merece alcançar a vitória, enquanto que aquela que se esforça menos ou não se esforça merece somente a derrota. Eis, portanto, duas palavras, dois conceitos, duas ideias muito comuns em nossa maneira de entender a vida e que nos distanciam da maneira de Deus entendê-la: o mérito e a recompensa.

            A ideia de mérito e recompensa pode funcionar muito bem nas empresas, sobretudo quando se pensa em melhorar a produção e em “incentivar” os funcionários a apresentarem resultados mais eficientes, mas é uma ideia perigosa no campo da fé, uma ideia que distorce completamente a imagem de Deus em nós. Quem compreende a vida somente a partir da lógica do mérito e da recompensa não compreende e não aceita o fato de que Deus queira salvar todas as pessoas (cf. 2Tm 2,4); não compreende e não aceita que Jesus tenha vindo para salvar as pessoas consideradas pecadoras e perdidas, e não as pessoas que se consideravam justas (cf. Mc 2,17).  

            A verdadeira imagem de Deus nos é revelada por Jesus na parábola do Evangelho que acabamos de ouvir. Deus Pai sai continuamente, a toda hora, para nos chamar. A história de cada ser humano e de todos nós é exatamente isto: um chamado à salvação. Ao chamar pessoas de manhã bem cedo, às nove horas, ao meio dia, às três e às cinco da tarde, Deus revela seu desejo de que todos sejam salvos. Ele encontra cada ser humano num momento específico da sua vida, ou seja, Deus compreende e acolhe cada ser humano na sua situação particular. Portanto, precisamos estar cientes de que em cada momento da vida pessoal, assim como em cada época da história da humanidade, existe um chamado do Senhor à salvação.

            Até aqui não há problema algum. Saber que Deus deseja que todos sejam salvos nos parece até uma ideia simpática. O problema é quando chega a hora do “pagamento”, a hora em que a nossa simpatia pela salvação de todos se transforma em sentimento de injustiça pelo fato de que nos darmos conta de que a bondade de Deus vai além da sua justiça, não se importando com a nossa medida estreita do mérito e da recompensa. Para surpresa nossa e de quem está lendo ou ouvindo o Evangelho, todos recebem o mesmo salário! Aqui começa o desmonte da nossa imagem de Deus: Ele não é apenas justiça, mas também bondade, misericórdia, gratuidade!

Ao nos contar essa parábola, Jesus quer nos ajudar a conhecer melhor como é o coração do Pai e a despertar em nós a confiança, a alegria e a gratidão pela salvação que Ele oferece a todo ser humano, indistintamente. A justiça de Deus não está presa na ideia de mérito e recompensa. Ela consiste em nos tratar não segundo os nossos méritos, mas o segundo o Seu amor gratuito para conosco, levando em conta principalmente a nossa necessidade de sermos salvos. É como se Jesus dissesse: ‘Meu Pai não olha quem merece; Ele olha quem precisa. Meu Pai não quer salvar apenas aqueles que merecem; Ele quer salvar a todos, porque todos precisam ser salvos’.  

Esse misterioso e surpreendente espaço de gratuidade que existe no coração de Deus aparece descrito no Salmo 127, com essas palavras: “É inútil levantar de madrugada e retardar o vosso repouso para ganhar o pão sofrido do trabalho; esse mesmo pão Deus concede aos seus amados enquanto eles dormem” (v.2). Por mais que isso nos escandalize, precisamos entender que a salvação não é um pão obtido com suor do nosso rosto, mas dom do Pai para todos os seus filhos, para todas as pessoas que necessitam ser salvas, ainda que aos nossos olhos parecem não o merecer!

Para evitar mal entendidos, é importante esclarecer que Jesus não está incentivando a esperteza nessa parábola. Deus conhece o coração de cada um. Os trabalhadores que começaram a trabalhar às cinco da tarde (v.6) só receberam o convite para trabalhar àquela hora. Ninguém deles agiu de caso pensado, de maneira estratégica, ficando escondido o dia inteiro e só aparecendo na última hora para trabalhar. Historicamente, esses trabalhadores representam os povos pagãos, que só se abriram à fé muitos séculos depois dos judeus, representados na parábola pelos trabalhadores que foram chamados logo de manhã.

Diante de tudo o que foi exposto, alguém poderia perguntar: “Que vantagem recebemos por termos observado os seus mandamentos?” (Ml 3,13s). A resposta depende do que entendemos por “vantagem”. Na verdade, nós precisamos nos perguntar se amamos verdadeiramente a Deus ou se estamos apenas interessados na recompensa que Ele pode nos dar mediante aquilo que pensamos ser mérito nosso. Deus não tem pessoas a premiar pelos seus méritos de justiça, mas filhos a resgatar, curar e salvar no Seu amor. Não nos esqueçamos de que não somos pessoas justas, mas pessoas justificadas. Se Deus fosse somente Justo, sem ser também Bom, ninguém de nós teria salvação (cf. Sl 143,2).   

 

ORAÇÃO: Pai, tua graça e teu amor me visitam nas horas mais imprevistas do meu dia. Constantemente, o Senhor passa e me chama a trabalha na tua vinha. Quero acolher o teu chamado; quero abraçar o momento em que a tua graça passa, e me alegrar por fazer parte a Igreja, da assembleia dos que foram chamados por ti a serem salvos em teu Filho Jesus.

Hoje rezo especialmente por todos os homens, por aquelas pessoas que ainda não foram alcançadas pelo anúncio do Evangelho. Sei e confio que o Senhor conhece cada um na sua individualidade e na sua história de vida. Que a graça do teu Espírito desperte a consciência de cada ser humano para o bem, a verdade, a justiça e a bondade. Que a ação pastoral da nossa Igreja seja a expressão visível do teu amor e da tua bondade, que desejam salvar a todas as pessoas.

Livra-me do orgulho e da presunção de ser uma pessoa justa. Que eu jamais duvide da tua justiça, mas confie, sobretudo, na força da tua bondade que sempre encontrará caminhos para chegar ao coração de cada ser humano. Enfim, que eu sempre me alegre pela abertura de cada pessoa à tua graça e possa trabalhar contigo e com teu Filho Jesus pela salvação de todas as pessoas. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi   

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O REMÉDIO DO PERDÃO

 

Missa do 24. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 27,33 – 28,9; Romanos 14,7-9; Mateus 18,21-35.

 

“A maldade crescerá a tal ponto no mundo que o amor se esfriará no coração de muitas pessoas. Mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,12-13). Essas palavras de Jesus, além de retratarem muito bem a época em que estamos vivendo, nos alertam para o perigo de nos tornarmos duros de coração, ou seja, pessoas que não apenas desistiram de amar, de crer na bondade do ser humano, mas também desistiram de perdoar, pois parece que a única coisa que o perdão faz é alimentar a sensação de impunidade.

Ao falar sobre a necessidade do perdão, Jesus não está defendendo de forma alguma a impunidade, mas nos tornando conscientes de que, na história de todos nós, o perdão foi, é e sempre será necessário. Não há ser humano que nunca cometa algum erro, ou que, ao longo da vida, nunca prejudique ou machuque alguém, intencionalmente ou não. Portanto, não há ser humano que não necessite ser perdoado. Essa é a consciência do salmista, quando ora a Deus: “Se levardes em conta as nossas faltas, quem haverá de subsistir? Mas em vós se encontra o perdão” (Sl 130,3-4). Justamente porque em Deus se encontra o perdão, nós também nos unimos ao salmista para bendizê-Lo – dizer o bem que o Seu perdão nos faz!: “Pois ele te perdoa toda culpa, e cura toda a tua enfermidade; da sepultura ele salva a tua vida e te cerca de carinho e compaixão” (Sl 103,3-4).

O perdão que recebemos de Deus na cruz de seu Filho (cf. Ef 1,7; Cl 1,20) nos fez um imenso bem: curou as nossas feridas. Mas, enquanto o perdão cura, a falta de perdão adoece, como nos ensina o Eclesiástico: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?” (28,3). Aqui é importante nos darmos conta de que o autor bíblico não afirmou que quando sentimos raiva, adoecemos; nós adoecemos quando guardamos raiva, ou seja, quando, todos os dias, alimentamos sentimento de raiva em relação à pessoa que nos prejudicou ou nos ofendeu. É impossível não sentirmos raiva de alguém que peca contra nós. A raiva é uma defesa natural, instintiva nossa, para nos proteger da pessoa que nos agride. Porém, quando decidimos prender a pessoa na nossa raiva, ela não sai mais de nós, e aquela presença venenosa nos adoece. Como se diz: “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra” (autor desconhecido).

“Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados” (Eclo 28,2). Se nós necessitamos ser perdoados por Deus é porque somos falhos. Aliás, se o próprio Jesus colocou na oração do Pai nosso o pedido de perdão – “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12) – lembrando que é nessa mesma oração que pedimos ao Pai “o pão nosso de cada dia”, isso significa que o perdão é algo que deve fazer parte do nosso cotidiano. Diariamente nós podemos cometer algum erro, assim como diariamente alguém pode “pisar na bola” conosco. Daí a necessidade diária do perdão.

Ainda a respeito do perdão, o Eclesiástico nos aconselha: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar” (28,6). Nossa vida terrena é muito curta para ser estragada pelo ressentimento da raiva, da mágoa ou do ódio. Essa importância exagerada que damos à ferida que o outro abriu em nós é totalmente desproporcional à duração da nossa vida neste mundo. A vida é curta demais para vivermos em função de mágoas em relação ao passado. Por isso, o melhor que temos a fazer é perdoar, para que nossa vida volte a fluir, para que possamos dormir melhor e termos saúde física, psíquica e espiritual.

Para nos mostrar o quanto a nossa decisão em não perdoar a pessoa que nos feriu é insensata, Jesus faz a comparação entre dois tipos de dívidas ou de prejuízos: uma enorme e outra insignificante. O homem que devia uma quantia enorme teve sua dívida perdoada, justamente porque não tinha como pagá-la! No entanto, esse mesmo homem decidiu não perdoar a dívida insignificante que seu amigo tinha para com ele, jogando-o na prisão “até que pagasse o que devia” (Mt 18,30). A dívida impagável são os nossos pecados, perdoados por Deus; a dívida insignificante são as ofensas do nosso próximo, ofensas que nos recusamos a perdoar. Para quem acha que tem toda razão em não perdoar, o Evangelho faz um alerta: essa pessoa será entregue aos torturadores, até que pague toda a sua dívida (Mt 18,34). Portanto, quando eu decido não perdoar, entrego-me aos torturadores: sou torturado diariamente pelo ódio, pela mágoa, pelo ressentimento, pelo rancor, pela não aceitação do que me aconteceu.

Jesus conclui o Evangelho de hoje nos tornando cientes disso: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt 18,35). “A decisão em não perdoar nos exclui do Pai, porque destrói em nós o nosso ser filhos. Na medida em que decidimos não perdoar, fazemos morrer em nós o perdão que recebemos de Deus. Perdoar é uma questão de coração. É não recordar, não manter no coração o mal que o irmão cometeu, mas recordar o amor que o Pai tem por mim e por ele” (Pe. Pagola).

 

 ORAÇÃO: Deus Pai, Tu és “amor, paciência e perdão” (Sl 86,15). Eu Te louvo e Te bendigo pelo Teu amor manifestado a mim na cruz de Teu Filho, amor que perdoa todos os meus pecados. Acolhe minha alma enferma, adoecida pela falta de perdão. Liberta-me do ressentimento, da raiva e da mágoa. Ajuda-me a enxergar a pessoa que me ofendeu para além do mal que ela me causou.

Senhor Jesus Cristo, Tu me convidas a permitir que a minha vida destrave e volte a fluir, por meio do perdão. Liberta-me da prisão do ressentimento. Que eu saiba me defender das pessoas sem tornar-me uma pessoa desumana. Que eu combata o mal que há no mundo perseverando na força do Teu amor e confiando no perdão como remédio poderoso para curar os males dos desencontros humanos. Amém.      

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

ENTRE EU E DEUS, O MEU IRMÃO

 

Missa do 23. dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 33,7-9; Romanos 13,8-10; Mateus 18,15-20.

 

            Sempre que acontece alguma denúncia contra uma pessoa que representa tal igreja ou tal religião, nós caímos na tentação de jogar fora o bebê junto com a água suja do banho. Se tal pessoa errou ou pecou, nosso julgamento é tão severo que atinge não somente a pessoa que supostamente praticou tal erro, mas também a igreja ou a religião da qual ela faz parte. Essa atitude insensata de jogar fora o bebê junto com a água suja do banho tem feito com que algumas pessoas tomem a decisão de afastar-se de qualquer igreja ou religião, embora continuem ainda a crer em Deus.

            Todo o capítulo 18 do Evangelho segundo São Mateus é um ensinamento de Jesus para a vida da Igreja, isto é, para a vida em comunidade. Nesse ensinamento, Jesus deixa claro que é impossível que numa igreja, religião ou grupo comunitário não exista o problema do escândalo. Literalmente, Jesus diz: “É necessário que haja escândalos” (Mt 18,7). Onde existe o ser humano, existe a possibilidade do erro ou do pecado. Nenhum ser humano está garantido de não errar ou de não pecar. Além disso, podemos entender que “o escândalo é necessário” justamente para comprovar quem tem uma compreensão madura e realista da fé; quem está na igreja ou na comunidade por causa de Deus e quem está lá por causa dos homens; quem se enxerga como um ser humano falho, em constante processo de amadurecimento, e quem se vê como um fariseu puro, uma pessoa pronta, que já atingiu a sua plena maturidade.   

            Jesus já havia mostrado em Mateus 13,24-30.36-43 que tanto a Igreja quanto o mundo são lugares onde crescem juntos o joio e o trigo, e não cabe a nós arrancar o joio para ficar somente com o trigo. Isso significa que não podemos pretender encontrar uma igreja, religião ou comunidade de pessoas onde ali só exista trigo, mesmo porque o joio e o trigo, o bem e o mal, a luz e a sombra se encontram dentro de cada um de nós. O melhor que temos a fazer é acompanhar as pessoas no seu processo de amadurecimento, cuidando do trigo e não perdendo a paz por causa do joio, como nos aconselha o Papa Francisco (EG 24).   

            Sendo muito realista e conhecendo o coração humano, Jesus sabe que precisa nos orientar a respeito da convivência com o irmão, na comunidade de fé. Embora seja uma tendência própria do individualismo moderno o desejo de viver a fé reduzindo-a uma relação exclusiva entre “eu e Deus”, Jesus afirma claramente que, em matéria de religião (religião significa “religar”), a nossa primeira ligação não é com Deus, mas com o irmão. Toda tentativa de me ligar a Deus excluindo-me da convivência comunitária tem como resultado uma religião falsa, um culto vazio, uma fé que não me coloca verdadeiramente em comunhão com Deus (cf. Mt 5,23-24).  

            Na visão de Jesus, o outro não é simplesmente “o outro”, uma pessoa com quem eu não preciso me relacionar, mas o outro é “meu irmão”. Ao entrar para uma comunidade, ao frequentar uma determinada igreja ou religião, eu não escolhi conviver com aquela pessoa. Contudo, tanto ela quanto eu estamos ali para nos encontrar com Deus; estamos ali porque precisamos de cura; estamos ali porque desejamos percorrer um caminho de aprendizado, de crescimento e de amadurecimento, até que nos tornemos a pessoa que Deus nos chamou a nos tornar, a partir da nossa vocação.

            Aos olhos da fé, sabemos que nossa vida não se move num acaso sem sentido, na coincidência, na sorte ou no azar, mas a partir do desígnio de Deus, que faz com que todas as coisas contribuam para o nosso crescimento, para o nosso amadurecimento e a nossa santificação (cf. Rm 8,28). Neste sentido, a presença do “outro” na minha vida não é algo acidental, mas providencial: Deus me quer junto daquela pessoa para ensinar algo a mim e a ela. Deus quer que a minha convivência com “o meu irmão” torne melhor a mim e a ele. Exatamente como fez com o profeta Ezequiel, Deus coloca cada um de nós na vida de uma outra pessoa para “vigiar sobre ela”, no sentido de ajudá-la a caminhar na verdade e a ser reconduzida para junto de Deus sempre que, por descuido, se afastar d’Ele. Se eu não me interessar pela salvação do meu irmão, ele provavelmente se destruirá por falta da minha ajuda, mas eu responderei diante de Deus pela destruição dele!

            O problema é que o “meu irmão”, assim como eu, é alguém falho; alguém que pode errar feio e “pisar na bola” comigo. Nesse caso, Jesus nos propõe um caminho de tentativa de recuperação do “irmão”. O próprio Jesus já havia dito que não é da vontade do Pai do céu que nenhuma pessoa se perca (cf. Mt 18,14). Por isso, devemos fazer o que está ao nosso alcance para “corrigir o irmão”, o que implica, primeiramente, uma tentativa de falar a sós com ele. Esse “falar a sós” evita que o “irmão” seja humilhado em público, no momento em que está sendo corrigido. Se essa tentativa não funcionar, preciso encontrar na comunidade duas pessoas sensatas, amorosas, que me ajudem a convencer o “irmão” de que ele está trilhando um caminho de destruição. Se ele não aceitar a correção, sua atitude de obsessão no erro deve ser comunicada à autoridade da comunidade, que falará com ele. Enfim, se nem diante dessa autoridade ele aceitar reconhecer seus erros, deve ser afastado da comunidade, para se dar conta de que sua obstinação acabará por excluí-lo da convivência com os demais irmãos. Essa é uma medida extrema, carregada da esperança de que o “irmão” reflita sobre suas atitudes e deseje voltar para a comunidade de uma maneira diferente.

            Após nos indicar caminhos para recuperar o irmão que está correndo o risco de se perder, Jesus nos aconselha a oração comunitária. É verdade que ninguém precisa estar numa igreja ou numa comunidade para ter vida de oração, mas Jesus deixa claro que a oração comunitária tem uma força muito maior do que a oração individual (cf. Mt 18,19). Quando nos reunimos para rezar pelo “irmão” que precisa corrigir-se das suas atitudes destrutivas, devemos confiar que nossa oração comunitária atingirá em cheio o coração do Pai que, como vimos, não deseja que algum filho Seu alguém se perca.

            Concluindo, numa época em que o medo da decepção com o “irmão” tem levado algumas pessoas a optarem por uma vida espiritual estritamente particular, privada, sem a presença “do outro”, Jesus afirma que Ele escolheu se fazer presente “onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome” (Mt 18,20). Isso significa que sempre que insistirmos em viver uma fé individualista, uma religião individualista, Jesus não estará ali. Quem se fecha no individualismo, quem cria pequenos grupos religiosos de pessoas que “pensam iguais”, não está fazendo isso “em nome de Jesus”, mas em nome da sua dificuldade em conviver com os outros, em nome do seu farisaísmo em achar-se melhor do que “os outros”, quem sabe não passível de erro como “os outros”. O caminho para Deus passa necessariamente pela minha convivência com o “meu irmão”.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

SEGUIR A CRISTO POR INTEIRO, NÃO APENAS NA PARTE AGRADÁVEL

 

Missa do 22º dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 20,7-9; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27

 

Ouçamos o desabafo do profeta Jeremias: “A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro” (Jr 20,8). Hoje nós podemos ouvir desabafos semelhantes: “Participar da Igreja tornou-se para mim causa de vergonha e de chacota”; ou então, “Seguir Jesus Cristo, isto é, procurar viver como cristão, só me trouxe sofrimento e humilhação”; ou ainda, “Defender os valores do Evangelho só me traz críticas e desprezo por parte de outras pessoas”.

O desabafo de Jeremias, atual na vida de muitos cristãos, nos faz perguntar sobre o que fazer quando o caminho da fé se transforma num caminho de sofrimento. É verdade que todo ser humano sofre, mas é verdade também que o sofrimento se intensifica na vida de uma pessoa que deseja seguir Jesus Cristo e viver segundo os valores do Evangelho, uma vez que o mundo em que vivemos distancia-se cada vez mais dos valores propostos por Jesus. Para evitar tal sofrimento, para evitar sofrer a rejeição do mundo, muitos cristãos deixam de manifestar sua fé, guardando-a somente para si e procurando se adaptar ao estilo de vida do mundo atual.

Se essa postura nos ajuda a sermos poupados de críticas e de perseguições por parte dos que não são cristãos, ela vai no sentido contrário ao que o Senhor nos pede na sua Palavra: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm 12,2). Como cristãos, precisamos nos lembrar de que estamos no mundo, mas não somos do mundo. Nosso pior erro é nos “conformar” com o mundo, ou seja, permitir que o mundo nos “deforme”, distanciando nossa consciência dos valores do Evangelho.

Diversas vezes, o Papa Francisco já nos alertou sobre o “mundanismo espiritual”. “O mundanismo – explica o Papa – é uma proposta de vida, é uma cultura do efêmero, uma cultura do aparecer, da maquiagem, uma cultura do ‘hoje sim, amanhã não’, uma cultura que não sabe o que é fidelidade, porque muda segundo as circunstâncias, negocia tudo. É uma cultura sem fidelidade, um modo de viver também de muitos que se dizem cristãos. São cristãos, mas são mundanos” (Homilia, 16/05/2020). Sendo uma ameaça a todas as igrejas, o mundanismo espiritual tem como objetivo principal deformar a imagem de Deus em nós. É por isso que o Evangelho de hoje se propõe restaurar a verdadeira imagem de Jesus diante de nós.

Surpreendentemente, encontramos o mundanismo espiritual presente já nos discípulos de Jesus, sendo Pedro seu principal expoente. Diante da revelação de que Jesus “devia” sofrer muito, ser rejeitado, morrer e ressuscitar ao terceiro dia, Pedro reagiu imediatamente, afirmando a Jesus que o sofrimento não somente pode, mas, sobretudo, deve ser evitado. Em outras palavras, Pedro formou para si uma imagem de Jesus forte, glorioso, vencedor, um Jesus sem dor, sem sofrimento, sem morte, sem cruz.

Assim como Pedro, nós também temos uma imagem deformada de Jesus. Essa imagem deformada foi muito bem descrita pelo Pe. Zezinho, ao afirmar: “Não querem Jesus, querem a parte suave de Jesus. Não querem o Cristo, querem a parte agradável do Cristo. Não querem a cruz, querem a parte menos dolorosa da cruz. Não querem o manto, querem a parte mais bonita daquele manto. Não querem a Bíblia, querem parte dela: a que prova que estão certos. Assim agem muitos cristãos. Assim talvez nós ajamos” (Pe. Zezinho, Cristo aos pedaços).

Que Pedro fosse um exemplo de “mundanismo espiritual” fica claro nessas palavras de Jesus: “Você não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens” (Mt 16,24). Deus vê a vida a partir de um sentido, de um objetivo, de uma missão; os homens veem a vida a partir do próprio bem estar egoísta, em nome do qual todo sofrimento deve ser evitado, toda dor deve ser anestesiada e toda cruz deve ser eliminada. Ora, se Jesus abraçou a sua cruz não foi por gostar do sofrimento, mas por causa do seu “deve”: “Eu devo enfrentar isso, se quero ser coerente com aquilo que acredito”. Na vida de cada um de nós sempre vai existir um “devo”: é aquele sofrimento que devemos enfrentar se quisermos ser uma pessoa autêntica, inteira, livre, curada.

Eis porque Jesus faz esse alerta a todas as pessoas, indistintamente: “quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mt 16,25). Quem não supera seu comodismo e seu instinto de preservação e só procura por caminhos fáceis, onde não haja sofrimento, não chegará a lugar algum. Quem só vive em função de si e dos seus desejos egoístas passará pela vida como um ser humano atrofiado, uma pessoa que jamais encontrou sentido para sua própria vida. O sentido da nossa vida não está em nós mesmos, mas em algo fora de nós, algo que pede para ser abraçado como uma missão, missão que só nós podemos realizar.

Numa época de forte repulsa à cruz e de rejeição à dor e ao sofrimento, Jesus nos desafia a percorrer um caminho de amadurecimento, tornando-nos pessoas que se libertaram do seu próprio egoísmo para abraçar a missão que a vida nos confiou, uma missão que nos coloca diante do nosso “devo”, do sofrimento que nos cabe enfrentar e da cruz que nos cabe carregar como consequência de uma vida autêntica e plena de sentido.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

FÉ É UMA QUESTÃO DE RELACIONAMENTO

 Missa do 21. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 22,19-23; Romanos 11,33-36; Mateus 16,13-20.

 

Muitos de nós, cristãos, procuramos por Jesus porque esperamos encontrar nele respostas para a nossa vida. No passado, muitos cristãos se colocaram no seguimento de Jesus porque esperavam algo dele. Mas Jesus entende que, de tempos em tempos, é importante fazermos uma parada em nosso caminho de fé e nos deixarmos questionar: Quem ele é para nós? O que esperamos dele? Por que nos identificamos como cristãos? Se hoje muitas pessoas desistem de seguir Jesus, por que nós continuamos a segui-lo? Se muitas pessoas decidiram sair da Igreja, por que nós continuamos a pertencer a ela?

Todas as vezes que a pessoa de Jesus Cristo é vulgarizada, ridicularizada ou atacada por alguém, sobretudo na mídia, assim como todas as vezes que a Igreja Católica ou mesmo o cristianismo é criticado ou combatido por alguém, Jesus volta a nos perguntar: “E pra você, quem eu sou?”. Ao nos perguntar isso, ele está nos convidando a revisar o nosso relacionamento com a sua pessoa: nosso cristianismo é um seguimento cego ou irracional de doutrinas religiosas ou é um relacionamento pessoal e profundo com a pessoa do Filho do Deus vivo?

O apóstolo Paulo afirmava: “Sei em quem coloquei a minha fé” (2Tm 1,12). Nós ainda hoje colocamos a nossa fé em Jesus Cristo? Apesar de ele ultrapassar nossos esquemas e nossos conceitos e nem sempre corresponder às nossas expectativas, nós continuamos a colocar nele a nossa fé? Apesar dos escândalos, dos contratestemunhos de alguns católicos e das falhas humanas da Igreja que Jesus fundou sobre os apóstolos, nós continuamos a dizer “creio na Igreja Católica”?

Diante da pergunta: “E para vocês, quem eu sou?”, Pedro respondeu: “Tu és o Cristo (Messias), o filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Jesus é o Messias prometido por Deus ao seu povo. Ele é o Filho do Deus vivo, habitando entre nós. Ele é o Salvador do mundo (cf. Jo 4,42). Ele é o nosso Médico (cf. Mt 9,12). Ele é a Verdade (cf. Jo 14,6). Ele é fonte de Água viva (cf. Jo 4,10; 7,37-38). Ele é o Pão vivo (cf. Jo 6,35.51). Ele é a Porta (cf. Jo 10,9). Ele é a Luz do mundo (cf. Jo 8,12). Ele é o verdadeiro Pastor (cf. Jo 10,11.14). Ele é a Videira verdadeira (cf. Jo 15,1). Ele é a Ressurreição e a Vida (cf. Jo 11,25). Todas essas respostas, nós as encontramos nos Evangelhos. Mas a questão principal é: Jesus está no centro da nossa vida? Ele é a pessoa com a qual nos relacionamos todos os dias?

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17). Só o Pai pode nos revelar seu Filho: “Ninguém vem a mim (crê em mim), se o Pai que me enviou não o atrair” (Jo 6,44). Só a graça do Pai pode atrair nosso coração, nossos afetos e nossos pensamentos para a pessoa de Jesus Cristo. Portanto, crer em Jesus não é uma questão de mera vontade ou esforço humano, mas uma graça concedida pelo Pai, uma moção interior do Espírito Santo: “Ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12,3). Sem uma experiência interior com a pessoa de Jesus Cristo, aos poucos deixaremos de ser cristãos, porque isso não terá mais sentido para nós.  

Jesus é o Salvador do mundo. Eu tenho consciência de que preciso ser salvo? Jesus é o Médico dos corpos e das almas. Eu me reconheço doente? Eu permito que ele me cure? Jesus é a Verdade. Eu permito que sua Verdade revele o mal que as minhas mentiras me causam? Jesus é fonte de Água viva. Eu busco essa fonte todos os dias, para saciar minha sede de sentido de vida? Jesus é o Pão vivo. Eu tenho fome desse Pão? Eu alimento minha fé? Jesus é a Porta. Eu me esforço por entrar pela Porta estreita do Evangelho? Jesus é a Luz do mundo. Eu desejo caminhar sob a sua luz? Jesus é o verdadeiro Pastor. Eu me deixo conduzir por sua voz em minha consciência? Jesus é a Videira verdadeira. Eu procuro permanecer ligado a esse tronco, para receber dele a seiva do Espírito Santo todos os dias? Jesus é a Ressurreição e a Vida. Eu creio nele para além da dor da morte? Eu me apoio nele diante da dor da perda de pessoas que eu amo?   

Se nós reconhecemos ou não quem Jesus é, isso não muda nada nele, mas pode mudar tudo em nossa vida. Santo Agostinho afirmava: “Quando você se afasta do fogo, ele continua aceso e aquecendo, mas você se esfria. Quando você se afasta da luz, ela continua brilhando, mas você se cobre de escuridão. O mesmo acontece quando você se afasta de Deus”. Podemos também entender que não responder quem Jesus é para nós não vai mudar nada no que ele é, mas vai fazer nossa fé perder o sentido com o passar do tempo, porque, como vimos, da resposta a essa pergunta depende o nosso relacionamento com ele. Tenhamos, portanto, a coragem de nos confrontar com essa pergunta, para que ela atualize a nossa fé e dê um sentido novo e mais profundo ao nosso relacionamento com Jesus.  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O TEMPO DO COMBATE É TAMBÉM O TEMPO EM QUE A PODEROSA MÃO DE DEUS NOS SOCORRE

 Missa da Assunção de Maria. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a; 12,1-6a.10ab. 1Coríntios 15,20-26.28; Lucas 1,39-56

           

            Qual será o ponto final da história terrena de cada um de nós? O ponto final da história terrena de Jesus foi a sua ascensão ao céu, a sua subida, a sua elevação até junto de Deus Pai. Pelo fato de Maria estar unida ao seu Filho desde o momento da concepção, passando por sua vida pública e terminando na cruz, nossa Igreja acredita que, no momento da sua morte, Maria foi assunta, isto é, foi elevada em corpo e alma ao céu. Por que “em corpo e alma” e não somente “em alma”? Porque o corpo de Maria foi um corpo sem a mancha do pecado, preparado por Deus desde toda a eternidade para gerar seu Filho Jesus. “Sendo Maria a ‘cheia de graça’, sem sombra alguma de pecado, quis o Pai associá-la à ressurreição de Jesus” (Missal dominical).

            Mas o que o dogma (afirmação de fé) da Assunção de Nossa Senhora tem a nos dizer? Esse dogma aponta para a “meta final da redenção: a glorificação da humanidade em Cristo. Maria chama hoje os cristãos a se considerarem inseridos na história da salvação e destinados a conformar-se a Cristo na glória... É a mãe que nos espera e convida a caminhar para o reino de Deus” (Missal dominical). Desse modo, podemos entender que o ponto final da nossa história terrena é a nossa glorificação em Cristo. Embora já tenhamos sido salvos por Jesus, nós somos, enquanto Igreja, aquela Mulher grávida que grita em dores de parto. Somos homens e mulheres grávidos de sonhos e de esperanças. Trabalhamos e lutamos diariamente para gerar justiça, reconciliação e libertação para a humanidade, mesmo sabendo que no mundo em que vivemos age o dragão do mal, tentando devorar aquilo que com tanto esforço geramos.  

            Maria nos convida a confiar na intervenção de Deus na história humana. Justamente porque “sua misericórdia se estende de geração em geração, sobre aqueles que o temem” (Lc 1,50), Deus volta seus olhos para os pequenos e humilhados, como “olhou para a humilhação de sua serva” (Lc 1,47). Agindo com a força do seu braço, Ele salva o Filho que nasceu em meio a grandes dores de parto, impedindo que o dragão do mal o devore (cf. Ap 12,5). Isso significa que, se o maligno nos persegue e nos ataca por sermos cristãos, devemos saber que pertencemos a Deus e, justamente no momento mais crítico, onde o mal parece estar muito próximo da vitória, ali Deus intervém e nos salva como seu povo. Portanto, essa imagem do Apocalipse quer nos tornar conscientes de que o mundo sempre será para nós, cristãos, o lugar do combate, da ameaça, de uma fidelidade custosa, o tempo em que o mal parece prevalecer nos seus ataques, mas, sobretudo, é o tempo em que a poderosa mão de Deus nos socorre, nos protege e nos impede de sermos alcançados pelo mal.

            Neste terceiro domingo do mês vocacional, lembramos e rezamos pelas vocações religiosas, por tantas mulheres e tantos homens que escolheram não se casar por amor ao Reino de Deus (cf. Mt 19,12). A vocação à vida consagrada é um chamado a amar: “amar a Deus acima de todas as criaturas (de todo coração, de toda a alma e com todas as forças) para amar com o coração e a liberdade de Deus cada criatura, sem se ligar a nenhuma e sem excluir alguma, amando em particular quem é mais tentado a não se sentir amável ou, de fato, não é amado” (Amedeo Cencini, Virgindade e Celibato hoje). Numa época em que o amor foi reduzido a uma busca egoísta de afeto para preencher as próprias carências, a mulher religiosa e o homem religioso testemunham o amor de Deus, que escolheu amar preferencialmente aqueles que o mundo não ama.  

Também hoje, celebra-se em muitas paróquias e comunidades o encerramento da Semana da Família. De maneira bela e profunda, o Papa Francisco encerra a sua Exortação Apostólica sobre “A alegria do amor” afirmando que “nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar... Deixemos de pretender das relações interpessoais uma perfeição, uma pureza de intenções e uma coerência que só poderemos encontrar no Reino definitivo... Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! Aquilo que se nos promete é sempre mais. Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325).

 

ORAÇÃO À SAGRADA FAMÍLIA

 

“Jesus, Maria e José, em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor, confiantes, a Vós nos consagramos. Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evangelho e pequenas igrejas domésticas. Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado. Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do caráter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus. Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém” (Papa Francisco).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

NÃO RETROCEDER DIANTE DOS VENTOS CONTRÁRIOS

Missa do 19. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13a; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.

 

            Estamos no mês vocacional. Depois de termos celebrado a vocação sacerdotal, no domingo passado, hoje celebramos a vocação paterna, meditando na figura do pai no seio da família. Exatamente hoje a Palavra do Senhor nos fala sobre dois tipos de tempestade: aquela que aconteceu no coração do profeta Elias e aquela que aconteceu com os discípulos, durante a travessia no mar. Isso significa que toda vocação tem seus momentos de tempestade. Toda pessoa que foi chamada por Deus a uma missão tem que lidar com tempestades dentro de si mesma (Elias) e também com tempestades que acontecem no seio da Igreja (discípulos) e da sociedade humana.    

            Assim como aconteceu com o profeta Elias, às vezes a nossa alma transforma-se num mar agitado. Nós desejamos e precisamos nos encontrar com Deus, mas não o conseguimos de maneira imediata, pois Ele não está no furacão dos nossos afetos desordenados e das nossas emoções cegas e descontroladas. Deus também não está no terremoto da nossa raiva intensa e do nosso ódio contra tudo aquilo que consideramos errado e pensamos que deva ser destruído. Enfim, Deus também não está no incêndio da nossa intolerância e do nosso desejo de eliminarmos de uma vez por todas nossas imperfeições e sermos ouro ou prata totalmente puros. Somente quando silenciamos o barulho provocado pelo furacão, pelo terremoto e pelo incêndio que nos habitam, é que podemos encontrar o Senhor e ouvi-Lo na brisa suave do seu Espírito.  

            Assim como Elias, o pai é um homem às vezes perdido dentro de si mesmo, perdido na sua própria tempestade interior, um homem que deve enfrentar seus furacões, terremotos e incêndios interiores, um homem chamado a ter a coragem de silenciar e de ouvir o murmúrio de uma brisa suave, de ouvir a voz de Deus, vivendo sua vocação paterna não mais a partir da sua carne, dos seus instintos egoístas, mas a partir do Espírito Santo que torna o seu espírito humano capaz de domínio de si mesmo. Como fez com Elias, Deus confiou ao pai a missão de purificar a fé da sua família e de dar à sua casa a firmeza e a confiança necessárias para resistir às tempestades da vida.

            Justamente porque nossa vocação nunca é vivida de maneira individualista, mas comunitária e social, o Evangelho nos fala das tempestades que se fazem presentes na Igreja e na sociedade humana. Recentemente, o Papa Francisco afirmou que em um mundo doente como o nosso, a Igreja não pode pretender ser totalmente saudável. Em outras palavras, as tempestades que afetam o mundo, afetam também a nossa Igreja. As doenças e os conflitos que atingem a humanidade atingem também a nós, cristãos. Os ventos contrários que atentam contra a vida das pessoas também sopram contra a Igreja de Jesus Cristo, na tentativa de silenciar a voz do Papa Francisco, dos bispos e de todos os cristãos que se colocam na defesa da vida, da ecologia e contra uma economia que produz morte.   

            Enquanto a barca dos discípulos, imagem bíblica da Igreja, “era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário, Jesus... veio até os discípulos, andando sobre o mar” (Mt 14,24-25). O mesmo Jesus que caminha sobre as águas agitadas e não afunda nelas é aquele que estava em oração ao Pai, por si e pelos seus discípulos de todos os tempos. Isso significa que somente a oração nos capacita lidar com as tempestades; somente a força da oração nos faz atravessar as tempestades sem sermos tragados por elas. Assim como Elias, assim como Jesus, é na oração que podemos silenciar nossas tempestades e voltarmos a ouvir a voz de Deus.

            Àqueles discípulos, que gritavam de medo, Jesus disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27). Jesus quer que nós o reconheçamos junto a nós, em nossas tempestades. Se a voz do medo fala conosco, em nossas travessias e na vivência diária da nossa vocação, a voz da coragem precisa falar mais alto. Quando não superamos esse medo, nossa vocação acaba ficando comprometida. Portanto, assim como Pedro, nós também estendemos nossa mão a Jesus e gritamos: “Senhor, salva-me!” (Mt 14,30). E Jesus prontamente aceita a fraqueza da nossa fé e nos estende a mão todas as vezes que nós caímos ou nos afundamos. “Jesus oferece, pois, à sua Igreja, a vitória sobre as forças do mal e a segurança nas provações, mas pede como condição essencial uma confiança sem hesitação” (Missal dominical, p.769).

            Na Bíblia, o mar representa o mal, cuja força grandiosa tudo domina, uma força ameaçadora para todos nós. Na vida do pai, na vida de cada um de nós, da nossa Igreja, das nossas comunidades e da sociedade humana, o mal é uma realidade presente que precisa ser enfrentada. O mal quer nos fazer acreditar que a travessia para a outra margem não é possível, não dará certo. Ele sempre procura nos manter paralisados no medo e no desânimo, tirando do nosso horizonte a perspectiva da mudança. Mas Jesus continua a nos encorajar e a nos incentivar a fazer a travessia, mantendo os olhos fixos nele, que vem ao nosso encontro nas horas mais sombrias da nossa vida e nos entende a sua mão, para que possamos enfrentar os ventos contrários e chegar à outra margem, à meta que está no horizonte da vocação de cada um de nós.     

             “Senhor, salva-me!” (Mt 14,29). Esse é o grito que o pai e cada um de nós hoje dirige a Jesus. Que o Senhor nos salve de afundarmos na falta de fé; que Ele nos salve de ficarmos paralisados no medo e no desânimo; que Ele salve cada pai  e cada família de serem tragados pelo mal que há no mundo; que Ele salve a nossa Igreja, especialmente o Papa Francisco, nossos bispos, nossos padres, enfim, todos os cristãos. “O vento pode soprar o quanto quiser; a montanha jamais se curva diante dele” (provérbio chinês). Que nós não nos curvemos diante dos ventos contrários, mas diante do Senhor Jesus, o Filho de Deus, que silencia nossas tempestades e navega conosco, levando-nos com segurança e firmeza até o outro lado.

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi