quinta-feira, 19 de março de 2020

A CEGUEIRA INTENCIONAL NÃO PODE SER CURADA


Missa do 4º dom. quaresma. Palavra de Deus: 1Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Efésio 5,8-14; João 9,1-41.

“Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece” (Jo 9,41). Existe um “não poder” ver, um “não conseguir” enxergar; mas também existe um “não querer” enxergar, um “não admitir” a verdade a respeito daquilo que a vida está tentando nos fazer ver há tempos. Existe uma cegueira que é proposital em nós: preferimos não ver para não nos comprometer. Essa cegueira é praticamente impossível de ser curada, porque não se trata de não poder, mas de não querer ver.
Este relato da cura de um cego de nascença nos revela que a cura da nossa cegueira começa pela correção da visão distorcida que temos em relação ao sofrimento, interpretando que quando Deus permite que uma pessoa sofra, é porque ela pecou: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9,2). Na época de Jesus, havia uma mentalidade que afirmava que era possível a uma criança pecar antes de nascer, quando ainda estava no ventre de sua mãe. Jesus corrige essa visão distorcida, ao dizer: “Nem ele, nem seus pais pecaram” (Jo 9,3).
Ao fazer barro e colocar sobre os olhos do cego, Jesus nos diz que a cura da nossa cegueira começa quando aceitamos mudar a nossa maneira de ver as coisas, quando aceitamos nos colocar como barro nas mãos de Deus, nosso Oleiro, que pode nos fazer enxergar além das aparências: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,9). A pandemia do coronavírus é um barro que está sendo colocado sobre nossos olhos, olhos habituados a ver somente aquilo que lhe interessa e lhe oferece alguma vantagem; olhos que agora precisam enxergar e admitir a verdade de que somos todos iguais e todos mortais.
O Evangelho nos fala de visões que se chocam: de um lado, os fariseus, que veem Jesus como “um homem que não vem de Deus, porque não guarda o sábado” (Jo 9,16), e os judeus, que veem Jesus como “um pecador” (Jo 9,24); de outro, o homem que era cego e que vê Jesus como “um profeta” (Jo 9,17), como “um homem que veio de Deus” (Jo 9,33). Qual visão nós temos a respeito de Deus, de Jesus, da Igreja, da política etc.? Quantas pessoas estão cegas pelo fanatismo e pela ignorância? Quantas pessoas são doutrinadas por líderes políticos ou religiosos, por pseudos-filósofos, por youtubers etc.? Uma das coisas que nos ajuda a enxergar, a ampliar nossa visão a respeito da vida, é a leitura. Apesar de a geração nova não gostar de ler, a quarentena imposta pelo coronavírus é uma grande oportunidade de fazermos leituras que ampliem e aprofundem nossa visão a respeito de nós mesmos e da vida.
O conflito entre os judeus e o homem que era cego fez com que este fosse expulso da comunidade religiosa (cf. Jo 9,34). Quando começamos a enxergar melhor as coisas, passamos a enfrentar conflitos com pessoas que até então nos impunham a sua maneira de ver. Mas existem certos rompimentos que são necessários e que, embora nos causem sofrimento no momento, acabam nos fazendo bem. Quando começamos a ver com um pouco mais de profundidade, entendemos que precisamos nos afastar de pessoas e de hábitos que são nocivos, que nos adoecem, por nos oferecerem uma visão distorcida da realidade.
Assim como Jesus conversou com o homem que havia sido expulso da comunidade, ele nos pergunta se estamos dispostos a continuar aprofundando a nossa visão, compreendendo melhor a nós mesmos, os outros e a própria vida. Jesus nos convida a aceitar o desafio de permitir que certos acontecimentos quebrem com a imagem que temos de Deus, uma imagem distorcida, incorreta, que precisa ser reformulada porque não está sendo suficiente para sustentar a nossa fé frente aos acontecimentos do mundo atual.
Jesus afirmou que a verdade do seu Evangelho provoca uma reviravolta, fazendo com que “os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). Os fariseus, que se julgavam ter uma visão esclarecida a respeito de tudo, não aceitam enxergar Jesus como salvador, coisa que o cego de nascença enxergou não somente com seus olhos físicos, mas também com os olhos da sua fé. Desse modo, um relato que começou acusando um cego de nascença de ser pecador terminou relevando que o pecado não consiste em ter nascido cego (Jo 9,2-3), mas em insistir em não ver, em não querer enxergar (Jo 9,40-41).
Concluindo nossa reflexão, o Evangelho de hoje deixa claro que a cegueira física – que pode ser curada por Jesus – não é consequência do pecado. Já a cegueira da falta de fé é consequência de um pecado de obstinação e, portanto, não pode ser curada. Desse modo, precisamos tomar para nós a pergunta dos fariseus: “Porventura também nós somos cegos?” (Jo 9,40). Nós também somos pessoas obstinadas em nossa visão estreita e, muitas vezes, míope a respeito da realidade? Até que ponto nós queremos ver? Até que ponto queremos viver como filhos da luz, guiando-nos na vida pela bondade, pela justiça e pela verdade? (cf. Ef 5,8-9). Jesus hoje toca em nossos olhos e nos convida a nos lavar, a mergulhar nas águas da Sua verdade para que possamos começar a ver, a enxergar com outros olhos a nós mesmos, aos outros e a realidade à nossa volta.
           
            Oração: Senhor Jesus, minha visão a respeito da vida algumas vezes é estreita e superficial. Amplia a minha capacidade de ver, de enxergar e de compreender as coisas. Senhor, eu quero aprender a ver em profundidade. Lava meus olhos nas águas da tua Verdade, para que eu veja o que preciso ver, em vista do meu bem, do meu crescimento, e em vista da minha colaboração para que outras pessoas deixem de serem guiadas por outros que têm uma visão distorcida e mal intencionada. Ajuda-me a ver, Senhor, para além das aparências. Ilumina-me com a tua Luz, para que eu caminhe na vida como filho(a) da luz, vivendo segundo a bondade, a justiça e a verdade. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de março de 2020

QUE RESPOSTAS TEMOS DADO À NOSSA SEDE MAIS PROFUNDA DE SENTIDO E DE VIDA?


Missa do 3º dom. quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-42.

            Sede: uma necessidade básica, fundamental, que exige ser satisfeita. Israel sente sede no deserto (cf. Ex 17,3); uma mulher samaritana vai ao poço de Jacó, por volta do meio dia, e encontra Jesus “sentado junto ao poço”, pois Ele contém em si uma água não apenas capaz de saciar temporariamente a sede, mas capaz de dar vida eterna a quem dela beber. E Jesus pede à mulher: “Dá-me de beber” (Jo 4,7). Esse pedido de Jesus é uma provocação à mulher samaritana e a nós: Do quê temos sede? Qual é o nosso anseio mais profundo? Que respostas temos dado à nossa sede?
A sede que o ser humano tem não é somente no sentido de satisfazer suas necessidades básicas ou de sobrevivência, como ter uma casa para morar, uma pessoa para amar, um emprego digno, um salário justo. Nós também temos sede de justiça, de paz, de respeito; temos sede de afeto, de amor, de proximidade e de intimidade; temos sede, sobretudo, de sentido de vida; enfim, temos sede de Deus: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2). Neste mundo árido em que vivemos, de relacionamentos secos, sem afeto e sem profundidade, nós estamos procurando poços que nos ofereçam um pouco de água, isto é, estamos procurando por pessoas que sejam profundas e possam nos oferecer um pouco de água, um pouco de sentido.
Jesus disse à mulher samaritana: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4,10). Jesus é o dom de Deus para todo ser humano; Ele é fonte de água viva, a única água capaz de saciar a sede mais profunda que o ser humano traz em si, mas muitos desconhecem o dom que Jesus é. Muitos continuam a beber de uma água que não sacia: a água do consumismo, das drogas, de uma sexualidade compulsiva e adúltera; a água do materialismo, de uma vida pautada na aparência, na vaidade, bebendo do vazio e sentindo-se sempre mais vazios. O suicídio não é um grito de desespero de quem não encontrou neste mundo água alguma que pudesse saciar sua sede de sentido de vida?   
“A mulher disse a Jesus: ‘Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la’. Disse-lhe Jesus: ‘Vai chamar teu marido e volta aqui’. A mulher respondeu: ‘Eu não tenho marido’” (Jo 4,16-17). Jesus é nossa fonte de água viva e nos oferece gratuitamente da sua água: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37); “Que o sedento venha, e quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22,17). A única condição é reconhecer que a resposta que temos dado à nossa sede está errada; é uma resposta que não responde, uma compensação que não compensa, um vazio que não nos preenche, um remendo incapaz de cobrir o buraco que há em nossa alma.
“Eu não tenho marido” – eis a verdade daquela mulher samaritana. Ela já havia se casado cinco vezes, e o homem com quem morava agora não era seu marido. Todos esses homens foram uma tentativa daquela mulher preencher o seu vazio, mas ela continuava sentindo-se vazia. Quem é o nosso marido? Nosso marido é Deus; o Esposo da nossa alma é Cristo. Enquanto nosso coração não centrar-se em Deus e não deixar-se amar e curar por Ele, nós continuaremos a nos prostituir, a mendigar afeto, a nos vender por um pouco de carinho, de atenção e de segurança. Enquanto não nos abrirmos para que Deus possa derramar o seu amor em nossos corações (cf. Rm 5,5), nós continuaremos a beber de águas contaminadas, sujas, poluídas, que nos adoecerão sempre mais.   
“Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?’” (Jo 4,28-29). Venham ver um homem que me ajudou a me encontrar com a verdade! Venham ver um homem que me libertou das minhas mentiras! Venham ver um homem que me convenceu a respeito dos meus erros, dos meus enganos, dos meus pecados! Venham ver um homem que me ajudou a dialogar com a minha sede e lhe dar uma resposta mais profunda! Venham ver um homem que não me julgou, nem me condenou, mas me acolheu na minha sede mais profunda de sentido de vida!
“Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’” (Jo 4,39). Muitas pessoas à nossa volta estão perdidas, desorientadas, sedentas. Como a mulher samaritana, somos chamados a conduzir essas pessoas para Jesus, a anunciar-lhes que Jesus é a fonte de água viva; só Ele tem a resposta para as nossas perguntas mais profundas. Nossa missão é sermos canais que possibilitem com que a água viva do Evangelho de Jesus chegue ao coração sedento das pessoas do nosso tempo, de modo que também elas possam dizer o que os samaritanos disseram àquela mulher: “(...) nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42). Jesus é verdadeiramente o Esposo da nossa alma, o Salvador não somente dos judeus, não somente dos samaritanos, mas de toda pessoa que tem sede de vida e de salvação.

ORAÇÃO: “Assim como a corça suspira pelas águas correntes, assim suspira minha alma por vós, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo!” (Sl 42,2-3). A ti, Senhor Jesus, “estendo meus braços, minha vida é terra sedenta de ti!” (Sl 143,6). Ó Jesus, tu és o Esposo da minha alma, eu te procuro. “Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2).
Diante da verdade do teu Evangelho, eu reconheço que tenho dado respostas erradas à minha sede de sentido, de afeto e de felicidade. Livra-me das minhas mentiras, Senhor! Tu és a única e verdadeira fonte de água viva para todo ser humano sedento de perdão, de libertação e de salvação. Derrama sobre nós a água vida do teu Espírito! 
Reconduz o nosso coração para o Pai e para o Seu infinito amor. Que todos nós possamos conduzir as pessoas do nosso tempo para Ti, a fim de que cada uma delas reconheça que Tu és verdadeiramente o Salvador do mundo, o único capaz de saciar a nossa sede de sentido e de vida. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 5 de março de 2020

SOMENTE UMA VIDA DOADA PODE TRANSFIGURAR O NOSSO MUNDO


Missa do 2º dom. quaresma 2020. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

            Nosso rosto expressa nosso estado de espírito: se estamos alegres ou tristes, animados ou desanimados, firmados na esperança ou entregues ao desespero, confiantes em Deus ou sentindo-nos abandonados a nós mesmos, tudo isso fica visível em nosso rosto. Além disso, nosso corpo também fala: nossa postura e nosso estado de saúde física expressam como estão nossas emoções.
            Antes de presenciarem a transfiguração de Jesus, antes de verem seu rosto e seu corpo radiantes de luz, Pedro, Tiago e João estavam desfigurados devido a medo, preocupação, angústia e até mesmo a um certo desânimo. Jesus lhes havia advertido a respeito do sofrimento de cruz que o esperava em Jerusalém (cf. Mt 16,21), além de torná-los conscientes de que, se quisessem ser seus discípulos, eles também teriam que renunciar a si mesmos, tomarem cada um a sua própria cruz e segui-Lo (cf. Mt 16,24). Essas palavras de Jesus jogaram um banho de água fria nos discípulos, a ponto de deixá-los desfigurados.
            Mas não são apenas os sentimentos “negativos”, por assim dizer, que nos desfiguram, isto é, que fazem nosso rosto e nosso corpo expressarem pessimismo perante a vida. No mundo de hoje há situações concretas que desfiguram a vida de muitas pessoas, como doenças, desemprego, fome, violência, drogas, perda de sentido da vida, conflitos, separações, luto etc. Contudo, Jesus quer chamar a nossa atenção para a maneira como lidamos com esses problemas, além de nos convidar a ser uma presença de transfiguração na vida das pessoas que estão desfiguradas à nossa volta.
            A transfiguração de Jesus se deu sobre uma alta montanha. Essa alta montanha não se refere somente a um lugar, mas a uma atitude: desde o Antigo Testamento, a montanha se tornou o lugar onde o homem encontra Deus. Jesus, ao subir à montanha com Pedro, Tiago e João, quis ensiná-los a interpretar os acontecimentos da própria vida à luz de Deus. Diante de todo acontecimento que nos perturba, tira a nossa paz e nos enche de angústia, precisamos nos colocar na presença de Deus e pedir a sua luz, sabendo que Ele faz com que tudo concorra para o nosso bem quando o amamos (cf. Rm 8,28). Até mesmo as coisas ruins podem servir aos propósitos de Deus em vista da nossa salvação!
             Na medida em que, como Jesus, buscamos em Deus uma interpretação mais profunda para a situação que estamos enfrentando, uma luz começa a surgir dentro de nós e vai tomando conta de tudo, modificando o nosso estado emocional e físico. Desse modo, o nosso rosto, que antes expressava medo e angústia, agora irradia paz e confiança. Essa luz que transfigurou Jesus serviu para que os três discípulos enxergassem que, por detrás da desfiguração que Jesus sofreria na cruz, estava a transfiguração da ressurreição. Isso significa que não devemos nos assustar com situações que num primeiro momento nos desfiguram – elas são como dores de parto, para fazerem vir à luz o nosso melhor, para que em meio à nossa maior escuridão brilhe a luz da presença de Deus que tudo transforma.  
            Embora não entendessem ao certo o que estava acontecendo, Pedro, Tiago e João foram envolvidos por uma nuvem luminosa. Essa imagem já apareceu no Antigo Testamento como sinal visível da presença de Deus junto ao seu povo, quando este saiu do Egito em direção à Terra Prometida. A nuvem luminosa ia à frente do povo, clareando e indicando o caminho (cf. Ex 13,21). Pela transfiguração de Jesus, Deus quer nos ensinar que uma existência feita dom, como a de Jesus, não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de colocar a sua vida ao serviço dos irmãos.
            Estando os três discípulos envolvidos pela nuvem luminosa, a voz de Deus se pronuncia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Escutai-o!” (Mt 17,5). Só existe um caminho que torna possível transformar nossa desfiguração em transfiguração: escutar Jesus. Devemos escutá-lo, seja quando nos fala a partir nossas das vitórias – momentos de transfiguração – seja quando nos fala a partir dos nossos fracassos – momentos de desfiguração; seja quando nos fala enquanto Crucificado como quando nos fala enquanto Ressuscitado.
            O próprio Jesus, vendo os discípulos muito assustados, caídos com o rosto por terra, “chegou perto deles e, tocando-os, disse: ‘Levantai-vos e não tenhais medo’” (Mt 17,7). Não devemos ter medo quando enfrentamos momentos de desfiguração, pois Jesus nos toca para infundir em nós força e confiança. Como cristãos, continuaremos a ser atingidos pela sombra escura da desfiguração que pesa sobre todos os homens, mas não temos medo e não desanimamos, porque mantemos os nossos olhos fixos na meta da nossa vida cristã, que é o encontro com Cristo transfigurado. Ele, que “não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10), “transfigurará nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, pela força que lhe dá poder de submeter a si todas as coisas” (Fl 3,21). É nessa verdade que repousam a nossa fé e a nossa esperança, princípios da nossa transfiguração espiritual.

            Oração: Senhor Jesus, hoje Tu me convidas a subir contigo à montanha, para apresentar a Deus aquilo que desfigura a minha vida e a vida da humanidade. Perdoa-me pelas vezes em que minha fé e minha esperança se desfiguraram ao me deparar com a cruz que cabia a mim enfrentar. Ainda que eu tenha que caminhar em meio a situações de escuridão, que a luz gloriosa da Tua face resplandeça sobre mim e me mantenha firme na certeza de que a doação da minha vida em favor da humanidade é fundamental para que ela seja transfigurada. Que a nuvem luminosa da presença do Pai se faça sentir na vida de toda pessoa que se encontra desfigurada neste momento. Que a Tua voz de Ressuscitado possa ecoar em mim e, por meio de mim, em todas as situações que necessitam conhecer a vida e a imortalidade do Evangelho. Com firme confiança eu aguardo pela Tua vinda gloriosa, momento em que meu corpo humilhado será transfigurado e conhecerá a verdade da ressurreição e da vida eterna. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi
  

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

RECUPERAR NOSSA OBEDIÊNCIA DE FILHOS


Missa do 1º dom. quaresma 2020. Palavra de Deus: Gênesis 2,7-9; 3,1-7; Romanos 5,12-19; Mateus 4,1-11.

As tentações de Adão e Eva, assim como as tentações de Jesus, são as nossas tentações. Todo ser humano se sente tentado: quando está sofrendo, se sente tentado a desistir da vida; quando está feliz, se sente tentado a pensar que sua felicidade é definitiva; quando está com Deus, se sente tentado a usá-Lo para seus interesses egoístas; quando está sem Deus, se sente tentado a se tornar desumano para poder sobreviver nesse mundo injusto, desigual e violento.
As tentações nunca vêm de Deus; elas nascem da nossa própria mania em querer uma vida sem cruz, um caminho sem dificuldade, uma vida feita somente de vitórias e de sucesso, sem qualquer tipo de luta ou sacrifício. Ora, as tentações estão presentes em nossa vida justamente para nos lembrar de que nenhum ser humano se torna homem – isto é, uma pessoa madura, livre, senhora de si – sem lutar. “Ninguém se torna senhor de si mesmo enquanto não lutar com os demônios que habitam o seu interior e que tentam mandar na sua vida. Além disso, só é possível conhecer o céu quem primeiro conheceu seu próprio inferno interior” (Anselm Grün).
Assim como Adão e Eva, nós somos tentados a desconfiar que Deus não nos ama verdadeiramente e não quer a nossa felicidade. Diante de algum limite que Ele nos coloca – comer de todas as árvores, menos de uma – nós reagimos como uma criança mimada que não aceita ouvir um “não”, que acha que pode tudo e não aceita qualquer limite. Sem medir as consequências, nós decidimos romper com Deus, como que dizendo: ‘Eu não quero mais viver na dependência de Deus. A partir de hoje, não é mais Deus, e sim eu mesmo quem decido o que é o bem e o que é o mal para mim’. Desse modo, “o pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12).
Essa desobediência de todo ser humano a Deus abriu inúmeras feridas na humanidade, feridas que levaram muitos à morte. Desse modo, foi preciso que um novo Adão, um novo ser humano viesse ao mundo, para nos mostrar que é possível sermos obedientes a Deus e, nessa obediência, encontrar a vida e a felicidade que tanto desejamos. É assim que o Evangelho nos apresenta Jesus vivenciando sua quaresma no deserto. Esse deserto não é tanto um lugar quanto uma situação de vida, para onde Deus às vezes permite que sejamos levados, a fim de nos reencontrar com o essencial, a fim de reordenar os nossos afetos e compreendermos essa importante verdade: “Posso fazer tudo o que quero, mas nem tudo me convém. Posso fazer tudo o que quero, mas não me deixarei escravizar por coisa alguma” (1Cor 6,12).
“Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, depois disso, sentiu fome. Então o tentador se aproximou...” (Mt 4,2). A primeira tentação de Jesus se deu numa situação de fome. Sentir fome significa deparar-se com nossas necessidades básicas. Enquanto o tentador nos propõe reduzir a nossa vida ao que podemos consumir, Jesus nos desafia a dialogar com nossas necessidades e a ampliar o sentido da nossa existência, pois somente Deus pode preencher nossas necessidades e somente obedecendo à Palavra dele é que encontraremos a vida plena e a felicidade que tanto desejamos.
            A segunda tentação de Jesus se deu no Templo! “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’” (Mt 4,5-6). Para nos afastar de Deus e da Sua vontade, o diabo não precisa nos tirar da Igreja; ele usa da própria religião para deformar a imagem que temos de Deus, para distorcer o sentido da Sagrada Escritura, de modo que acreditemos que Deus pensa como nós pensamos, quer o que nós queremos, defende o que nós defendemos e gosta do que nós gostamos. Quantos de nós estamos fazendo o que contrário do que Deus quer, enquanto nos imaginamos abençoados por Ele?   
            Por fim, a terceira tentação de Jesus: “O diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, e lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar’” (Mt 4,8-9). Todos nós, seres humanos, nos sentimos pequenos e fracos, e isso nos incomoda. Todos nós nos sentimos inferiores em relação a alguém ou a alguma coisa. Todos nós gostaríamos de nos sentir mais fortes, maiores, mais capazes; todos nós desejamos um dia chegar ao topo, ao lugar mais alto possível. Mas o preço a ser pago é igualmente alto: deixar de sermos imagem e semelhança do Deus que se abaixou, que se fez humano em Seu Filho Jesus, para nos deformar na imagem do pai da soberba, da arrogância, do orgulho, do pai do poder que corrompe e destrói, porque é um poder demoníaco.
            Jesus soube dialogar com suas tentações e desmascará-las à luz da Palavra de Deus. Ele nos lembra que, diante de qualquer tentação, nós sempre permanecemos livres e podemos escolher entre viver segundo a vontade de Deus ou viver segundo o nosso ego, o qual recusa qualquer coisa que seja contrária ao seu bem estar e os seus interesses, rejeitando, desse modo, toda possibilidade de sofrimento, de sacrifício, de renúncia e de cruz. Somente no caminho da obediência ao Pai é que o filho torna-se verdadeiramente homem. Somente imitando o Filho, na sua luta contra o mal, presente em si e no mundo, é que nós nos tornamos pessoas verdadeiramente livres, pessoas que recuperaram seu autodomínio e podem, dessa forma, contribuir para sanar as feridas que pecado pessoal e social tem aberto na humanidade.  

Pe. Paulo Cezar Mazzi
           

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

TEMPO NECESSÁRIO PARA REORDENAR NOSSOS AFETOS


Missa 4ª. de cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20 – 6,2; Mateus 6, 1-6.16-18.

Para machucar, é rápido; para curar a ferida, demora um tempo. Afastar-se e se perder são coisas que podem se dar rapidamente; reencontrar o caminho de volta leva um tempo. Quebrar e destruir é rápido; consertar e reconstruir exige tempo. Esse tempo se chama “Quaresma”.
Quarenta dias: tempo de tratar e curar as feridas que o pecado tem aberto em nós e à nossa volta; tempo de reconhecer o quanto nos afastamos da vontade de Deus e decidir voltar a viver segundo a Sua vontade; tempo de visitar as ruínas, os estragos de tudo aquilo que nossos erros quebraram e destruíram em nossa vida e na vida dos outros; tempo de consertar e de reconstruir aquilo que, devido ao nosso egoísmo e às nossas paixões desordenadas, foi danificado e pede para ser reparado.
A Quaresma existe para nos lembrar que não podemos seguir pela vida aos trancos e barrancos. Sabemos que existem situações que precisam ser enfrentadas, erros que precisam ser admitidos, pecados que precisam ser confessados, responsabilidades que precisam ser assumidas, rumos que precisam ser redefinidos, metas e ideais que precisam ser retomados, desejos e afetos que precisam ser ordenados novamente; em suma, a nossa casa interior está pedindo para ser arrumada, colocada em ordem.
O tempo da Quaresma se inspira nos quarenta dias que Jesus se retirou para o deserto, para jejuar e rezar, para distinguir entre a voz de Deus e a voz do maligno em sua consciência. A maioria de nós não tem condições de retirar-se para um lugar deserto, mas pode retirar-se para o seu deserto interior, acalmar seu coração, deixar seus afazeres por um momento e voltar a visitar o terreno da sua vida interior, dando-se conta de como ele está: se existe mato a ser retirado, adubo a ser colocado, terra a ser arada, semente a ser lançada, para que possamos voltar a ser fecundos e a produzir bons frutos.
Toda pessoa que se dá ao trabalho de fazer seu tempo de deserto acaba por tomar consciência do quanto seus afetos (desejos) estão desordenados, o que faz com que ela se torne uma pessoa que não tem mais a vida em suas mãos, mas é levada de um lado para outro, segundo a desorientação dos seus próprios desejos, das suas afeições em desordem. Quando nossos afetos estão desordenados, acabamos tendo atitudes contrárias à vontade de Deus. Livre e conscientemente, abrimos a porta e permitimos que esses afetos se instalem dentro de nós. Consequentemente, eles acabam com nossa vida de intimidade com Deus, provocando desolação, angústia e nos tornando indiferentes em relação ao próximo.
O tempo da Quaresma nos pede uma decisão firme: “voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o vosso coração... e voltai para o Senhor, vosso Deus” (Jl 2,12-13). Assim também suplica apóstolo Paulo: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). ‘Permitam que Deus cure as feridas que o pecado abriu em vocês. Permitam que Ele encontre aquilo que eu vocês se perdeu e ressuscite aquilo que em vocês foi morto por causa do pecado’. “É agora o momento favorável” (2Cor 6,2) para colocar em ordem a vida de cada um de vocês.
Jesus nos indica o caminho de volta para Deus, revisando os três pricipais relacionamentos da nossa vida: com o nosso próximo (esmola), com Deus (oração) e conosco mesmos (jejum). Conseguimos oferecer a nossa esmola (deixar-se afetar pelo sofrimento do outro) mesmo vivendo numa sociedade individualista, que nos ensina a pensar somente em nós? Fazemos nossas orações a Deus permitindo que Ele questione os nossos projetos e nos desafie com as exigências da Sua palavra, mesmo vivendo numa época onde muitos buscam a Deus somente para seus interesses imediatos? Somos capazes de jejuar, de exercitar o autodomínio, de desenvolver a capacidade de renúncia, mesmo vivendo num mundo que acha mais fácil deixar-se levar cegamente pelos afetos desordenados?
Iniciamos hoje em todo o Brasil a Campanha da Fraternidade, com o lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). A exemplo do próprio Jesus, o Bom Samaritano, e de Santa Dulce dos Pobres, somos convidados a ver a realidade à nossa volta, a enxergar as pessoas e as situações que pedem a nossa compaixão, o nosso envolvimento em favor da vida ferida e ameaçada; somos convidados a passar da indiferença para a compaixão, deixando-nos afetar pelas necessidades do nosso próximo. Enfim, somos convidados a cuidar: cuidar da nossa saúde física, emocional e espiritual; cuidar da vida que se encontra ferida ou ameaçada à nossa volta; cuidar do meio ambiente, dos valores cristãos, da família, fazendo-nos próximos de toda pessoa que precisa de cuidados.
Uma palavra particular sobre o jejum. Jejuar significa administrar os nossos instintos e não sermos administrados por eles. Jejuar também significa descontaminar-se, desintoxicar-se: jejuar de julgar os outros, de dizer palavras que ferem; jejuar de descontentamentos, de pessimismo, de preocupações; jejuar de lamúrias e queixas, de tristeza e amargura; jejuar de tudo o que nos afasta de Deus.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O VÍRUS DO ÓDIO


Missa do 7. dom. comum. Palavra de Deus: Levítico 19,1-2.17-18; 1Coríntios 3,16-23, Mateus 5,38-48.

Há dias atrás, o medo do coronavírus deixou o mercado em pânico e o mundo em alerta, mas esse medo está passando. No entanto, o mesmo mundo que teme um vírus que pode levar inúmeras pessoas à morte se habituou tranquilamente a viver contaminado com um outro vírus, que faz com que as pessoas se matem umas às outras: o vírus do ódio.
Deus nos disse: “Não tenhas no coração ódio contra teu irmão” (Ex 19,17). No entanto, odiar tornou-se algo normal, habitual. O ódio está presente nas famílias (dentro da própria casa ou entre os parentes); nos ambientes de trabalho (algo cada vez mais frequente); nas escolas (entre alunos, e também entre alunos e professores). O ódio está presente nas igrejas (alguns do clero entre si, alguns do clero com o bispo, entre os leigos, entre determinado padre e os leigos, entre cristãos de igrejas diferentes etc.). O ódio está presente na vida das crianças e adolescentes (jogos violentos); está visível no trânsito. Em nosso país, o ódio tornou-se a cor “natural” da política: mensagens, falas, discursos e vídeos são ditos ou editados para se alimentar o ódio mortal entre direita e esquerda. Enfim, as redes sociais são a maior testemunha do quanto estamos propensos ao ódio, o quanto estamos contaminados por esse vírus.
Na Bíblia, a ira é um sentimento muito mencionado, um “sentimento intenso, violento. Sua manifestação extrema é o ódio, o qual procura destruir o outro, senão fisicamente, o faz afetivamente ou psicologicamente” (Ana Bissi). Por ser um sentimento que, como qualquer outro, não é escolhido por nós, mas que se manifesta em nós devido a uma determinada situação, Deus nos orienta na sua Palavra: “Irai-vos, mas não pequeis: não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4,26-27). “Irai-vos” – Deus jamais nos mandaria ficar irados, cheios de raiva ou de ódio. “Irai-vos” significa que Deus compreende perfeitamente a nossa natureza humana e sabe que não escolhemos sentir ira. No entanto, Ele nos aconselha: ‘Quando o sentimento da ira explodir dentro de vocês, não pequem, não deem uma resposta errada à ira que estão sentindo, de modo que ela leve vocês a cometeram algo ruim ou injusto contra o seu próximo’.
“Não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4,27). Deus também nos aconselha a não deixar a ira fervendo dentro de nós por dias e dias. Antes que o sol se ponha, antes que o dia termine, temos que reconhecer o que estamos sentindo e decidir qual a melhor forma de lidar com esse sentimento. Quando não fazemos isso, acabamos dando espaço para o mal (diabo) morar em nós e influenciar fortemente as nossas atitudes, que não mais serão guiadas pelo Evangelho, mas pela raiva cega, exagerada e injusta da nossa ira.  
Jesus teve inúmeros inimigos em sua vida: fariseus, mestres da Lei, sumos sacerdotes, políticos (Império Romano) etc. Como qualquer outro ser humano, ele sentiu a agressão do ódio contra si. Além disso, Jesus também irou-se: às vezes, com os discípulos; às vezes, com o povo; mas, sobretudo, com alguns líderes religiosos da sua época. Assim como qualquer um de nós, Jesus sentiu raiva, ira, mas ele nunca permitiu que esse sentimento morasse definitivamente dentro dele; muito menos permitiu que a ira determinasse suas atitudes para com os outros. O que Jesus fazia era colocar sua ira diante do Pai, na oração, e permitir que o amor do Pai o preenchesse de tal forma que sua ira acabava por diluir-se, como a pedra de gelo se dilui rapidamente quando exposta ao calor do fogo ou do sol.
Portanto, Jesus tem toda a autoridade para nos dizer como ele quer que seus discípulos sejam: “Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,44-45). “Deus derrama o sol e a chuva sobre todos porque reconhece a todos como filhos, na esperança de alguém que o reconheça como Pai e aceite os outros como irmãos. Deus não tem inimigos; tem filhos, os quais estão na minha vida para que eu os ame como irmãos” (Pe. Pagola).     
Embora todos nós naturalmente nos consideramos “filhos de Deus”, cabe a pergunta: de quem realmente somos filhos – de Deus ou de Caim? Deus Pai não é violento. Ele não busca destruir ninguém. Quem se propõe a viver como filho de Deus inevitavelmente sente ódio às vezes, mas não alimenta ódio contra ninguém e não permite que seu ódio o leve a destruir a outra pessoa. Quando Jesus fala do amor ao inimigo, não está pensando em um sentimento de afeto e carinho por ele, mas numa relação radicalmente humana de interesse positivo por sua pessoa. Amar o inimigo não significa tolerar as injustiças e retirar-se comodamente na luta contra o mal. O que Jesus viu com clareza é que não se luta contra o mal quando se destrói as pessoas. Deve-se combater o mal, mas sem buscar a destruição do adversário.  

Oração: Deus Pai, apesar de ser Teu(ua) filho(a), reconheço que Caim às vezes mora dentro de mim. Apesar de ser barro, sinto que uma parte em mim se endureceu como ferro. Algumas situações provocam ira em mim, uma raiva intensa, levando-me até mesmo a odiar pessoas! Derrama Teu amor em meu coração! Derrete, com o fogo do Teu Espírito, tudo aquilo que em mim está endurecido pelo ódio.
Apesar de viver num mundo cheio de intolerância e agressão, eu não quero reproduzir feridas nos outros. Quando a raiva gritar dentro de mim, que eu ouça a voz do Teu amor e oriente minhas atitudes por ela, decidindo não agir segundo a agressão que eu recebo, mas orando por aqueles que me agridem. Concede-me um coração verdadeiramente de filho(a), que se antecipe em fazer o bem aos outros, independente de como sou tratado(a) por eles.
Derruba todo muro de ódio que separa as pessoas nas famílias, nas escolas, nas empresas, na política e nas igrejas. Movidos pelo Espírito do Teu amor, queremos diariamente lutar contra o mal sem destruir as pessoas; combater o mal, sem buscar a destruição dos nossos adversários. Em nome de Jesus. Amém!   

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

PESSOAS DE COMPORTAMENTO AJUSTADO À VONTADE DE DEUS


Missa do 6º. dom. comum. Eclesiástico 15,16-21; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,20-22a.27-28.33-34a.37 (leitura breve).

            Da mesma forma como as margens de um rio canalizam suas águas para que elas possam desaguar no seu destino natural, assim Deus nos deu os Mandamentos, para que pudessem nos ajudar na orientação das nossas escolhas. Se, porventura, um rio perdesse as suas margens, suas águas inundariam tudo ao redor, e o próprio rio perderia a capacidade de atingir o destino para o qual nasceu. Assim também nós: sem a orientação dos Mandamentos de Deus, corremos o risco de nos tornar pessoas prisioneiras das suas próprias paixões, pessoas sem um projeto de vida, sem uma meta a alcançar, porque desorientadas interiormente; numa palavra, pessoas cuja existência sofre uma constante “desorientação” imposta pelo mundo, justamente porque rejeitam a orientação proposta pelo Pai que deseja vida plena para Seus filhos.
            Segundo Jesus, a meta da nossa vida cristã é a justiça: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). Todo discípulo de Jesus é chamado a se tornar uma pessoa justa, isto é, uma pessoa que, no uso da sua liberdade, escolhe ajustar o seu comportamento segundo a vontade de Deus. Na época de Jesus, alguns homens religiosos se consideravam “justos”, mas enquanto eles observavam friamente as exigências dos Mandamentos de Deus, desrespeitavam seu semelhante, não se importavam com as necessidades do seu próximo e ainda condenavam os que não eram “justos” como eles. Jesus nos convida a compreender o sentido mais profundo dos Mandamentos, para que o nosso comportamento de fato seja segundo o coração de Deus e não segundo esta ou aquela lei religiosa.     
“Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás!’ (...). Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo” (Mt 5,21-22). Não é novidade para ninguém que nós estamos mais agressivos e intolerantes. Facilmente perdemos a paciência e ofendemos pessoas, inclusive pessoas que nada têm a ver com os nossos problemas. Outra coisa importante: sempre que sofremos alguma frustração, nós reagimos com agressão. Ora, devido à constante propaganda de consumo a que estamos expostos, muitas das nossas expectativas são exageradas e jamais se realizarão. Assim, nosso nível de frustração quase sempre está alto, o que nos torna pessoas potencialmente agressivas.  
Jesus nos torna conscientes de que, quando não nos damos ao trabalho de dialogar com a nossa agressividade e de orientá-la, a mesma acaba por assumir o controle, levando-nos a “matar” o outro com ofensas, palavrões, difamações (fake news), críticas destrutivas etc. Neste sentido, as mensagens que postamos nas redes sociais tornam-se carregadas de ódio e de intolerância contra toda pessoa que pensa diferente de nós. Também nossa postura no trânsito e a forma como tratamos as pessoas em nosso ambiente de trabalho revelam o quanto a nossa agressividade determina nossas atitudes. A questão, portanto, é reconhecer quando estamos agressivos, identificar a causa da nossa agressividade e escolher a forma melhor de lidar com ela, sem “destruir” a pessoa que está diante de nós.  
“Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,27-28). Atualmente, os sentimentos e as emoções tomaram o lugar da consciência em muitas pessoas. Desse modo, relacionamentos são machucados ou destruídos em nome do “sentir”, do “experimentar uma emoção intensa”, não importando a consequência disso para a nossa vida ou para a vida do outro. Jesus nos propõe um diálogo honesto e sereno com o nosso desejo. O desejo está inscrito em nossa natureza humana, como os poros do nosso corpo. Nós não escolhemos sentir desejo por esta ou aquela pessoa, mas podemos escolher a forma de lidar com esse desejo. Uma pessoa afetivamente imatura jamais consegue frustrar seu desejo, ao passo que uma pessoa afetivamente madura o faz, ainda que a custo de sofrimento. O resultado é este: desejos constantemente satisfeitos nos tornam pessoas fracas e incapazes de atingir objetivos que transcendam a mera sobrevivência. Somente quando temos a liberdade interior de dizer “não” àqueles desejos que sabotam a nossa liberdade e corrompem a nossa consciência é que nos tornamos capazes de viver uma vida plena de sentido.   
“Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: (...) ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum (...). Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso, vem do Maligno” (Mt 5,34a.37). Numa época onde a palavra das pessoas está em descrédito, Jesus nos convida a sermos francos conosco mesmos e com a nossa consciência. O nosso falar não deve estar subjugado ao medo de desagradar o outro, mas unicamente àquilo que é verdadeiro e justo. Quando Deus nos dirige Sua palavra, não visa nos agradar; visa, antes, o nosso bem e a nossa salvação. Assim também, o nosso falar com as pessoas deve ser livre do falso respeito em agradá-las, mas buscar sempre aquilo que corresponde à verdade e à justiça, gostem elas ou não. Concluindo, Jesus revela que toda falta de sinceridade vem do Maligno, o pai da mentira, assim como toda sinceridade vem de Deus, o Deus da Verdade, o Deus em quem não há falsidade.

Oração: Deus Pai, estou diante de Ti com a minha agressividade, a minha afetividade e o meu falar. Quero me tornar uma pessoa justa. Quero ajustar o meu comportamento à Tua vontade. Coloco em Tuas mãos minha agressividade. Todos os dias ela é despertada ou provocada de diversas maneiras. Livra-me de “matar” pessoas através do que penso, sinto ou falo a respeito delas. Ensina-me a identificar quando estou frustrado(a) e a não descarregar essa frustração sobre os outros, agredindo-os.
Deus Pai, o desejo está inscrito em meu corpo. Ele penetra o meu olhar e passa habitar nos meus pensamentos, alimentando de maneira exagerada e enganadora  minhas fantasias. Eu não sou responsável pelo que sinto, mas sou responsável pela maneira como lido com o que sinto. Não quero ser arrastado(a) pelos meus sentimentos, mas aprender a orientá-los segundo o que verdadeiramente convém à minha salvação e ao bem das outras pessoas.

Enfim, Pai, coloco em Tuas mãos o meu falar. Livra-me do falso respeito de querer agradar as pessoas. Concede-me liberdade interior para dizer “sim” quando é necessário dizê-lo, assim como dizer “não” quando também é necessário dizê-lo. Livra a minha consciência da mentira, da hipocrisia, do agir segundo a minha conveniência, para agir sempre segundo a Tua verdade. Em nome de Jesus, Amém! 

Pe. Paulo Cezar Mazzi