terça-feira, 27 de março de 2018

DISCÍPULOS DO CORDEIRO

Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

            A liturgia desta noite nos fala da preparação de duas páscoas: a páscoa do Antigo Testamento, quando o Senhor Deus passou pela terra do Egito e convidou seu povo (Israel) a fazer a passagem da escravidão para a liberdade, e a Páscoa do Novo Testamento, quando Jesus abraçou a sua hora de passar deste mundo para o Pai, oferecendo a todos os que n’Ele creem a possibilidade de passarem da morte para a vida. Duas páscoas muito diferentes, mas com um personagem central comum a ambas: o cordeiro.  
            Na páscoa do Antigo Testamento, Deus ordenou às famílias dos hebreus: “Cada um tome um cordeiro por família, um cordeiro por casa” (Ex 12,3). “Tomareis um pouco do seu sangue e untareis os marcos e a travessa da porta, nas casas em que o comerdes” (Ex 12,7). “E comereis às pressas, pois é a Páscoa do Senhor, isto é, a ‘passagem’ do Senhor! Naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei todos os primogênitos” (Ex 12,11-12). O pano de fundo dessa atitude de passar o sangue do cordeiro nas portas das casas vem de uma prática muito antiga dos pastores que, ao terem que percorrer os campos com seus rebanhos, sacrificavam um cordeiro e levavam um pouco do seu sangue à frente, como que abrindo o caminho, na esperança de que esse sangue afugentasse algum tipo de praga que pudesse ferir o rebanho de morte.
            O sangue que os hebreus passaram nas portas de suas casas recordava, antes de mais nada, o sangue de inúmeros hebreus que o Egito derramou, por meio da escravidão, de trabalhos forçados, de violência e de morte, para impedir que se multiplicasse e crescesse (cf. Ex 1,8-16). Mas esse sangue já remetia para o sangue de Jesus na cruz, o verdadeiro Cordeiro que morreria para reunir todos os filhos de Deus dispersos (cf. Jo 11,52). O fato é que o sangue nas portas das casas tornou-se um sinal de proteção para os hebreus: “O sangue servirá de sinal nas casas em que estiverdes. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora quando eu ferir a terra do Egito” (Ex 12,13).
            Diante da páscoa do Antigo Testamento, nós precisamos nos perguntar: quais são as pragas que hoje ameaçam exterminar nossas crianças e nossos jovens? Quais são as pragas que podem exterminar o casamento, a família, as escolas, nossas cidades, nosso mundo? Qual sinal precisamos ter em nossa casa para que o espírito maligno reconheça que pertencemos a Deus e não atente contra nós? Mais do que as portas das nossas casas, é a porta da nossa consciência que precisa ser assinalada com o sangue de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, sangue que é expressão do seu amor por nós: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Quando nos dispomos a amar até o fim aqueles ou a missão que o Senhor nos confiou, o espírito exterminador não encontra espaço para se alojar em nós.
            Deus havia dado uma ordem aos hebreus: “Este dia... haveis de celebrar, por todas as gerações, como uma memória perpétua” (Ex 12,14). Enquanto o povo de Israel se preparava para celebrar a páscoa, Jesus começou a preparar a “sua” Páscoa: “Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Antes de seu corpo ser doado e seu sangue ser derramado na cruz, “o Senhor Jesus tomou o pão (...), partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em minha memória’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em memória de mim’ (1Cor 11,25).
            A Páscoa que Jesus celebra com seus discípulos é infinitamente superior à páscoa do Antigo Testamento, pois ele é o Cordeiro que se oferece livre e conscientemente para a salvação não só do povo de Israel, mas de toda a humanidade. Enquanto inúmeros cordeiros morreram sem saberem o porquê, ao longo dos séculos, Jesus é o Cordeiro que decide livremente nos amar até o fim, tornando-se “corpo doado e sangue derramado” em favor da nossa salvação. Seu sangue é um sangue consciente, e justamente por isso, capaz de operar a redenção eterna, como está escrito: “não com o sangue de bodes e bezerros, mas com o seu próprio sangue, ele entrou no Santuário uma vez por todas, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12).
            Agora a pouco, cantávamos no salmo: “O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor”. A nossa comunhão com o sangue do Senhor significa a nossa comunhão com o seu amor que ama até o fim, uma comunhão que nos convida a fazer de nós mesmos “hóstias vivas”, homens e mulheres que façam da sua existência uma “vida para”, cristãos que se tornem “corpo doado e sangue derramado”, para a salvação da humanidade. Foi por isso que Jesus, na última Ceia, realizou o lava-pés, como acabamos de ouvir no Evangelho: Ele “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (Jo 13,4-5). Ao final desse gesto, disse aos discípulos: “Se eu, o Senhor e mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15).
            Nós, cristãos, somos discípulos do Cordeiro; somos cordeiros vivendo no meio de lobos (cf. Lc 10,3), cordeiros chamados a não se corromperem em lobos como forma de sobrevivência, mas a testemunharem a vitória do Cordeiro que, depois de ter sido sacrificado na cruz, encontra-se agora em pé, à direita do trono de Deus, ressuscitado e vitorioso (cf. Ap 5,6); somos cordeiros chamados a oferecer o nosso sangue, no sentido de trabalhar e lutar pela redenção da humanidade, ajudando a poupar inúmeras casas, famílias, pessoas, de todo tipo de espírito exterminador; enfim, somos cordeiros que nesta noite de preparação para a Páscoa se alimentam do Corpo e do Sangue do nosso Pastor, proclamando a sua morte redentora em favor da humanidade, até que Ele venha para realizar a Páscoa definitiva conosco (cf. 1Cor 11,26).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 22 de março de 2018

ENFRENTAR A VIOLÊNCIA COM FIRMEZA E SERENIDADE


Missa do Domingo de ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Marcos 15,1-39. (Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém: Marcos 11,1-10)

Hoje nós terminamos de percorrer o nosso caminho quaresmal. Durante esses quarenta dias, fizemos a nossa experiência de deserto, para que o Senhor pudesse falar ao nosso coração (cf. Os 2,16). Por meio da sua Palavra, o Senhor nos ensinou a não nos deixar enganar pelas mentiras do tentador (1º. dom.); a confiar n’Ele em toda e qualquer circunstância, principalmente quando somos provados em nossa fé (2º. dom); a permitir que a verdade do seu Espírito purifique o templo que somos (3º. dom); a jamais duvidar do seu amor por nós e pela humanidade, amor comprovado pela entrega do seu Filho na cruz (4º. dom.); e, por fim, nos convidou a fazer da nossa vida uma “vida para” o bem da humanidade, exatamente como um grão de trigo que, aceitando morrer, gera o fruto que alimenta a vida (5º. dom).
Além da sua Palavra, o Senhor nos falou, durante o nosso deserto quaresmal, também por meio da nossa Igreja, desafiando-nos a superar a violência e a restaurar a fraternidade em nossa sociedade (Campanha da Fraternidade). E justamente hoje, neste domingo de ramos, em que fazemos memória da entrada de Jesus em Jerusalém e da sua crucificação nesta cidade, vemos o Filho de Deus exposto à mesma violência que ainda hoje agride e crucifica inúmeras pessoas. Toda essa violência que Jesus sofre em Jerusalém é para nos lembrar que a nossa cidade ainda precisa ser transformada pelo Evangelho; nossa cidade, cada vez mais adoecida pelo individualismo e pela indiferença entre as pessoas, precisa ser convertida em um lugar onde haja solidariedade, compaixão e cuidado de uns pelos outros.
A narrativa da Paixão nos mostra a primeira violência feita a Jesus: ele está “amarrado” (v.1). Na verdade, Jesus se deixou prender, amarrar, porque quis se colocar junto de toda pessoa que se encontra nessa situação, amarrada, presa contra a sua vontade a uma situação de violência. Além disso, ao se deixar amarrar pelos homens, Jesus está nos lembrando que, embora existam situações que nós não escolhemos enfrentar, sempre podemos escolher a maneira como enfrentá-las. E Jesus enfrentou a sua Paixão com firmeza, dignidade e serenidade. Ao ser acusado falsamente pelos sumos sacerdotes, ele manteve seu silêncio, exatamente como o Servo (1ª. leitura) que decidiu manter-se fiel a Deus, mesmo tendo que lidar com a mentira e a maldade dos homens. Como discípulos de Jesus, somos chamados a não nos desviar da violência – ela deve ser encarada e enfrentada (cf. Is 50,6). Contudo, que ela jamais nos intimide e nos faça desanimar de promover a paz e a fraternidade entre as pessoas.
Outra forma de violência que Jesus sofreu foi ser rejeitado pela multidão que gritava: “Crucifica-o!” (Mc 15,13.14). A multidão preferiu Barrabás, um assassino. Quais são as músicas preferidas hoje? Quais são os artistas, os filmes, as novelas, os livros e os vídeos de maior sucesso atualmente? Exatamente como naquela época, a inversão de valores do mundo atual ataca diretamente toda pessoa que defenda valores como família, honestidade, fidelidade, justiça etc. E assim como Pilatos cedeu à “preferência popular”, muitos governantes e muitos meios de comunicação produzem “aquilo que o povo gosta”: não são verdadeiros líderes, mas guias cegos, mantendo estrategicamente grande parcela da humanidade na cegueira da própria ignorância. E nós, cristãos? E você, cristão? Você se move na vida pressionado pela “preferência” das pessoas à sua volta, ou se move segundo a sua consciência? Você tem liberdade interior suficiente para sobreviver emocionalmente à reprovação das pessoas “paganizadas”, ou empurra para debaixo do tapete os valores do Evangelho com uma certa  frequência, porque tem medo de ser rejeitado?          
A outra forma de violência que Jesus sofreu foi a flagelação, e ela aconteceu “dentro do palácio” (v.16). Uma coisa é você, discípulo de Jesus, sofrer aos olhos do mundo; outra coisa é você sofrer sem que ninguém esteja vendo. Sofrer “ao vivo” – quem sabe com transmissão simultânea pelas redes sociais! – tem um certo sabor narcisista: “Estão me vendo! Sou um herói público! O vídeo do meu sofrimento está ‘viralizando’ na internet!” O difícil é sofrer no anonimato; ser um herói ignorado por todos; ser um cristão que sofre a violência do mundo sem que ninguém reconheça sua luta em se manter fiel aos valores do Evangelho...  
A crucificação foi a violência suprema sofrida por Jesus. Não se trata somente da dor física da crucificação, mas da dor “moral”, a dor de ser declarado perante o mundo um homem “condenado”, condenado pelos homens e condenado pelo próprio Deus! Se Jesus aceitou a violência da condenação à morte foi para livrar todo ser humano de sentir-se condenado e de ser condenado. Por isso, hoje Jesus pede a nós, seus discípulos, para sermos uma presença libertadora junto a toda pessoa crucificada por inúmeras formas de violência neste mundo. É missão de todo discípulo de Jesus levar “palavras de conforto à pessoa abatida” (Is 50,4); ser uma presença de conforto junto a toda pessoa atingida por algum tipo de cruz, especialmente para que ela não se sinta abandonada por Deus naquela situação.
Finalmente, não bastasse a violência da crucificação, Jesus sofreu também a violência dos insultos: “(...) salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!” (v.29); “(...) desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!” (v.32); “Os que foram crucificados com ele também o insultavam” (v.32). Como disse o Pe. José Pagola, “todos nós queremos ‘descer da cruz’. Mas o Crucificado é Deus e não um homem justamente porque perde a si mesmo e permanece sobre a cruz. Se procurasse salvar-se e descer, corresponderia às projeções dos nossos desejos. Seria como todos nós, especialistas em descer da cruz e pendurar outros ali”. Pensemos por um momento nos insultos que dirigimos às pessoas em nosso dia a dia; reflitamos sobre a violência verbal, infelizmente incorporada em nossos hábitos cotidianos...
“Então Jesus deu um forte grito e expirou” (v.37). Ouçamos o grito de Jesus hoje: ‘Basta de violência!’ Aos pés da sua Cruz, oremos ao Pai: “Ó Senhor, Deus da vida, que cuidas de toda criação, dá-nos a paz! Que a nossa segurança não venha das armas, mas do respeito. Que a nossa força não seja a violência, mas o amor. Que a nossa riqueza não seja o dinheiro, mas a partilha. Que o nosso caminho não seja a ambição, mas a justiça. Que a nossa vitória não seja a vingança, mas o perdão. Desarmados e confiantes, queremos defender a dignidade de toda criação, partilhando, hoje e sempre o pão da solidariedade e da paz. Por Jesus Cristo teu Filho divino, nosso irmão, que, feito vítima da nossa violência, ainda do alto da cruz, deu a todos o teu perdão. Amém!” (Oração da CF 2005).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 15 de março de 2018

DOAR-SE PODE DOER, MAS É UMA DOR PLENA DE SENTIDO!

Missa do 5º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Jeremias 31,31-34; Hebreus 5,7-9; João 12,20-33.

Como saber se a vida valeu a pena? Ter viajado e conhecido muitos lugares? Ter comido e bebido em abundância? Ter amado (entenda-se também: feito sexo com) muitas pessoas? Ter realizado uma brilhante carreira profissional? Ter se enriquecido? Ter alcançado o maior ou um alto grau na hierarquia do poder? Ter sido reconhecido e aplaudido pelo mundo? Para Jesus, só existe uma coisa que mostra que a vida valeu a pena, isto é, que a nossa vida teve sentido: é o fato de termos aprendido a morrer. Em que sentido? No sentido de que nós dedicamos a nossa vida a fazer os outros viverem; no sentido de que nós aceitamos ser configurados ao grão de trigo que, caindo na terra e morrendo, produz muito fruto.
Da mesma forma como Jesus usou a imagem do grão de trigo para nos ensinar que o sentido da nossa vida está em fazer dela uma “vida para” o bem da humanidade, o Papa Francisco nos presenteou com uma belíssima e profunda reflexão: “Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham sua fragrância para si. Viver para os outros é uma regra da natureza. A vida é boa quando você está feliz; mas a vida é muito melhor quando os outros estão felizes por sua causa”.
Esta é a chave para entendermos o ensinamento de Jesus nesta última semana da quaresma: “Viver para os outros é uma regra da natureza”. O sentido da vida não está em sermos felizes de maneira egoísta, sem nos importar com o sofrimento que atinge os outros. O sentido da vida está em que as pessoas que convivem conosco se sintam melhores porque nós passamos pela vida delas e nos doamos/sacrificamos pelo bem delas. Pensemos na hóstia que comungamos: se o grão de trigo não aceitasse ser enterrado e “morrer” debaixo da terra, não produziria trigo, e se os grãos de trigo não aceitassem ser triturados, não teríamos pão. A hóstia que comungamos é um pão sem fermento porque Jesus foi um homem sem o fermento do egoísmo e da autopreservação. Quem comunga o Corpo de Cristo é chamado a viver não mais em função de si mesmo, mas a fazer da sua vida uma “vida para” o bem da humanidade.     
A imagem do grão de trigo que morre para produzir fruto nos ensina que viver dói. Viver comporta dor. Doar-se para o bem dos outros é sinônimo de sofrimento, embora nos encha de uma profunda alegria. No Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus deixou transparecer a verdade da sua dor ao fazer da sua vida um serviço para a salvação da humanidade: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora!’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (Jo 12,27-28). Quando nos preocupamos com o bem dos outros, quando nos deixamos atingir pela dor que atinge inúmeras pessoas à nossa volta, nós sentimos a mesma angústia que Jesus sentiu. E essa angústia nos incomoda tanto que somos tentados a pedir ao Pai: “Livra-nos, Senhor! Livra-nos de sofrer! Livra-nos de sentir esta dor! Livra-nos desta hora!”
Na vida de toda pessoa que busca ser fiel, honesta e decente; na vida de toda pessoa que faz o propósito de amar até o fim e de se sacrificar por aqueles que ama; na vida de toda pessoa que responde ‘sim’ ao chamado de Deus sempre chega a hora da cruz, a hora da angústia, a hora em que a dor se mostra em toda a sua dureza e crueldade. E aí temos duas saídas: ou rompemos com o compromisso que havíamos assumido, ou enfrentamos aquela dor com o mesmo realismo com que Jesus enfrentou, ao dizer: “(...) foi precisamente para esta hora que eu vim”. Assim, com Jesus nós aprendemos a dizer: ‘Eu não nasci para sofrer, mas sei que a dor faz parte da vida de todo e qualquer ser humano. Se o sofrimento atinge a vida de todas as pessoas, por que eu teria a pretensão de passar pelo mundo sem sofrer? Foi para esta hora que eu vim: a hora de doar-me pelo bem da humanidade, a hora de sacrificar-me para que o mundo se torne um lugar melhor. Eu aceito e abraço a minha “hora” porque tenha consciência de que essa experiência de cruz diz respeito a mim e não a outra pessoa’.       
              Marcel More, um crítico do cristianismo moderno, escreveu: “Os cristãos encontraram uma maneira de sentar-se, não se sabe como, de modo confortável na cruz”. Em outras palavras, muitos de nós, cristãos, comungamos da mesma aversão que o mundo tem da cruz. Sim: cruz é cruz; dor é dor; morrer é morrer. Jesus nunca mascarou a sua dor diante do Pai e nunca encarou a cruz como uma poltrona suave sobre a qual se sentar. Como vimos na carta aos Hebreus, ele chegou a dirigir “preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus. Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu” (Hb 5,7-8). A palavra-chave aqui é “entrega”. Essa foi a forma como Jesus lidou com a sua angústia e com a repulsa que todo ser humano tem diante da morte: entrega. ‘Eu não nego a repulsa que sinto diante do fato de ter que morrer para fazer o bem aos outros, mas eu entrego esse sentimento de repulsa ao Pai e lhe peço a graça de amar até o fim, de ser fiel até o fim, de não me desviar dessa “hora de cruz” que cabe a mim enfrentar’.
Estando às portas da Semana Santa, queremos acolher este ensinamento de Jesus: toda obediência a Deus comporta algum tipo de sofrimento da nossa parte, mas o sofrimento do grão de trigo, que se dispõe a morrer para produzir muito fruto, é um sofrimento pleno de sentido. A nossa fecundidade só se revela na hora em que aceitamos fazer da nossa vida uma “vida para”, como foi a vida de Jesus. E como ele mesmo disse: “(...) quando for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Deixemo-nos atrair pela força redentora da cruz de Cristo, e que a doação da nossa vida ajude a humanidade a elevar-se acima da injustiça, da violência e da morte, produzidas por um mundo que decidiu riscar do seu dicionário a palavra “doação”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

sexta-feira, 9 de março de 2018

DEUS AMA A HUMANIDADE?

Missa do 4º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: 2Crônicas 36,14-16.19-23; Efésios 2,4-10; João 3,14-21.

            A guerra na Síria já matou 470 mil pessoas nos últimos sete anos, sendo que somente nestes primeiros meses de 2018 foram mortas mil crianças. Na África, um continente marcado pela miséria e pela destruição, 236 milhões de pessoas passam fome. A violência no Brasil em 2015 matou mais pessoas do que todos os ataques terroristas no mundo em 2017. Essas e tantas outras situações que envolvem doença, sofrimento e morte levantam uma pergunta: Deus se importa com o que acontece com a humanidade hoje?
            Não são poucas as pessoas que se afastaram da fé e se escandalizaram com Deus por Ele aparentemente não se importar e não fazer questão de intervir para barrar a destruição, a injustiça e o sofrimento no mundo. No entanto, Jesus hoje faz uma afirmação que é fundamental para a nossa fé e para compreendermos a conexão profunda que existe entre Deus e a cada ser humano: “Deus amou tanto o mundo (humanidade), que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Sempre que alguém desacredita que Deus se importa com a humanidade, precisamos ajudar essa pessoa a olhar para o Cristo crucificado e compreender que Deus se importa tanto com a salvação do mundo (humanidade), que “deu” – isto é, entregou –, permitiu que seu Filho único fosse entregue numa cruz, para salvar essa mesma humanidade. Por isso, Jesus faz questão de acrescentar: “De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17).
            Se é verdade que há inúmeras pessoas condenadas ao sofrimento por causa da guerra, da fome, da violência, da pobreza, de tantas injustiças sociais e de tantas doenças, a verdade maior é que Deus permitiu que seu Filho experimentasse a condenação à morte de cruz para que todo ser humano seja redimido de todo e qualquer tipo de condenação. A imagem do Cristo crucificado é a correção bíblica de uma imagem distorcida de Deus, de um Deus que condena o ser humano quando ele peca. Jesus veio nos revelar a verdadeira imagem de Deus: Ele ama cada ser humano e enviou seu Filho para salvar a humanidade, não para condená-la. Só há uma coisa que pode condenar o ser humano: não acreditar no amor de Deus por ele, manifestado em seu Filho Jesus Cristo.
              Eis porque Jesus disse: “Quem nele crê (quem crê no Filho de Deus elevado na cruz), não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome (na pessoa) do Filho unigênito” (Jo 3,18). O fato de muitas pessoas se sentirem condenadas por seus erros e por seus vícios, o fato de muitos se entregarem às drogas, à violência e ao mundo do crime, o fato de tantas pessoas desistirem de si mesmas, da vida e de fazerem o bem aos outros, se deve a isso: elas não acreditam que são amadas por Deus, não acreditam na força redentora da cruz, não acreditam que foram salvas pelo sangue de Jesus derramado na cruz.
            O salmista hoje fez uma pergunta: “Como havemos de cantar os cantares do Senhor numa terra estrangeira?” (Sl 137,4). O que é essa “terra estrangeira”? É o exílio na Babilônia. Sempre que nós vivenciamos uma experiência de exílio, sempre que nos sentimos condenados a uma situação de dor e de sofrimento, perdemos a capacidade de cantar, de louvar, de proclamar a nossa redenção por meio da cruz de Cristo. No entanto, Deus respondeu à pergunta do salmista: “Se de ti, Jerusalém, algum dia eu me esquecer, que resseque a minha mão! Que se cole a minha língua e se prenda ao céu da boca, se de ti não me lembrar! Se não for Jerusalém minha grande alegria!” (Sl 137,5-6). Deus não esqueceu seu povo no exílio, mas “moveu o espírito de Ciro” (2Cr 36,22), um rei pagão, para libertá-lo (1ª. leitura). Assim, quando olhamos para o Filho único de Deus elevado na cruz, temos a certeza de que Deus jamais se esqueceu e jamais se esquecerá de nós ou da humanidade. Se Ele permitiu a entrega de seu Filho único na cruz foi para que nunca duvidemos do quanto Ele nos ama, do quanto Ele ama a humanidade e trabalha pela salvação de cada ser humano.
            Por isso, o apóstolo Paulo faz questão de anunciar por duas vezes: “É pela graça que vós sois salvos” (Ef 2,5.8). Notemos que o apóstolo afirma que nós somos (e não seremos) salvos. A nossa salvação já é um fato consumado na cruz de Cristo. Portanto, se somos pessoas salvas, não tem sentido vivermos como se fôssemos pessoas condenadas, ainda que cada um de nós tenha que lidar com a sua própria cruz. Além disso, Paulo insiste que a salvação é um “dom de Deus” para nós, e não fruto do nosso esforço ou merecimento. Jesus foi entregue à cruz não porque merecíamos, mas porque precisávamos ser salvos. Essa é a grande prova do quanto Deus nos ama, do quanto Deus ama a humanidade: “quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo” (Ef 2,5).       
            Contemplemos Aquele que foi elevado na cruz: da sua face irradia a luz do amor de Deus que redime e salva todo ser humano que crê na verdade desse amor. No entanto, o evangelista adverte que “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más” (Jo 3,19). Apesar do amor e do cuidado de Deus para com a humanidade, apesar dos braços de Cristo estarem abertos na cruz para abraçar cada ser humano, muitos se afastam desse abraço e se permitem ser abraçados e dominados pela mentira e pela maldade, causando destruição a si mesmos e aos outros. Em meio a tudo isso, nós somos chamados a apontar para Aquele que foi elevado na cruz e proclamar a verdade do amor de Deus pela humanidade, por todo ser humano: quem crê nesse amor experimenta em si a salvação e a vida eterna.

Oração – Meu Senhor e meu Deus, eu creio na tua Palavra que diz: “Não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8,1). Quero me deixar abraçar pela cruz redentora de teu Filho Jesus e nunca mais duvidar do teu amor por mim e pela humanidade. Que todas as pessoas que agora se sentem condenadas a uma situação de dor, de injustiça ou de sofrimento sejam abraçadas pela verdade do teu amor e resgatadas de todo tipo de condenação.
            Senhor Jesus Cristo, eu creio que a minha salvação já é um fato consumado na tua cruz. Agradeço-te pela tua entrega na cruz em favor da minha salvação e da salvação de toda a humanidade. A minha vida presente neste mundo, com todas as suas dificuldades e os seus desafios, eu quero vivê-la sustentado(a) por esta fé: o Senhor me amou e se entregou por mim! Que esta fé me eleve acima de toda dor, de todo problema e de todo o mal que eu possa vir a enfrentar neste mundo.
            Espírito Santo, amor do Pai e do Filho derramado em meu coração, peço-te por toda a humanidade. Vem sobre nós e renova a face da terra! Derrama teu bálsamo sobre todas as feridas, ilumina todos os que estão nas trevas, fortalece todos os que estão desanimados e cansados. Faz renascer a fé, a esperança e o amor no coração de cada ser humano. Consola-nos! Fortalece-nos! Defende-nos de todo o mal e confirma na vida de cada um de nós a verdade da salvação que nos veio pela cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!


Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 2 de março de 2018

PROTEJA O SAGRADO

Missa do 3º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 20,1-17; 1Coríntios 1,22-25; João 2,13-25.

            A cena do Evangelho de hoje é tão impressionante que pode até escandalizar algumas pessoas: Jesus fez “um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas” (Jo 2,15). Há uma palavra da primeira carta do apóstolo Pedro que nos ajuda a entender essa atitude tão drástica de Jesus: “(...) é tempo de começar o julgamento pela casa de Deus” (1Pd 4,17). O que Pedro está afirmando é que, quando Jesus vier para julgar as atitudes de cada ser humano segundo a verdade do Evangelho, os primeiros a serem julgados não serão os pagãos ou os ateus, mas os cristãos, as pessoas que se identificaram com os Seus ensinamentos no Evangelho.
            Essa atitude de Jesus nos lembra a crítica de tantos profetas a uma religião que cultua Deus, mas mantém-se distante do drama da vida humana (cf. Am 5,21-24); uma religião que se preocupa com a beleza dos seus templos, mas não se preocupa com a presença de Cristo naqueles que são injustiçados e atingidos por inúmeros sofrimentos (cf. Mt 25,31-46). E assim como Jesus “expulsou todos do Templo”, ele pergunta a alguns ministros do altar: ‘Quantas pessoas vocês expulsaram da minha Igreja, por se vestirem com paramentos caríssimos e celebrarem liturgias pomposas aos domingos, mas durante a semana se comportarem como homens mundanos, priorizando seu próprio bem estar, roubando suas paróquias ou Dioceses, entregando-se aos seus próprios desejos sexuais e mantendo-se distantes daqueles que sofrem? Quantas pessoas se afastaram da minha Igreja porque alguns de vocês, bispos e padres, afastaram a minha Igreja de mim e do Evangelho?’ E certamente Jesus também pergunta a alguns de nós, cristãos católicos: ‘Quantas pessoas se afastaram da minha Igreja porque você, mesmo vindo à missa aos domingos, continua a viver como um pagão durante a semana, maltratando pessoas, cometendo adultério, sendo ganancioso, desonesto e corrupto quanto ao dinheiro, calando-se diante de uma injustiça, sendo indiferente ao sofrimento do seu semelhante e, quando se depara com uma dor ou um problema, desespera-se como uma pessoa que não tem fé?’           
            Ao mesmo tempo em que Jesus purificou o Templo, nos ajudou a compreender que o verdadeiro Templo, o verdadeiro lugar de encontro do ser humano com Deus, é a Sua própria pessoa. Mas não somente Jesus é o Templo; nosso próprio corpo, nossa consciência, nosso coração é o Templo onde Deus habita, por meio do seu Espírito (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19). É para esse templo interior que o evangelista nos remete, ao dizer que Jesus “conhecia o homem por dentro” (Jo 2,25), e só porque Jesus conhece a cada um de nós por dentro é que ele pode hoje gritar à nossa consciência e ao nosso coração: “Tirai isto daqui!”. Portanto, a pergunta que cada um precisa fazer a si mesmo é: “O que precisa ser tirado, o que precisa ser expulso do seu templo interior?”
“Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,3). Os templos modernos do nosso mundo são as agências bancárias, os escritórios comerciais e os shoppings. Como você se comporta em relação ao dinheiro, o “deus” deste mundo que corrompeu o Evangelho de Jesus Cristo, deformando-o em “evangelho da prosperidade” em muitas igrejas neopentecostais? “Não farás para ti imagem esculpida...” (Ex 20,4). Nós vivemos a era da imagem: TVs cada vez maiores em nossas casas e celulares com imagens cada vez mais definidas, que nos mantém hipnotizados e nos distraem por horas... Quais imagens entram pelos seus olhos diariamente e povoam seus pensamentos? “O que os olhos não veem, o coração não sente”. O que essas imagens provocam e alimentam em você? Em relação a quais imagens Jesus está gritando à sua consciência: ‘Tire isso da sua vida!’?
            “Não matarás” (Ex 20,13). Como você, católico, se comporta diante da violência atual? A Igreja tem pedido que nós, católicos, não compartilhemos palavras ou textos ofensivos nas redes sociais, nem participemos de grupos de watsapp que espalhem fofocas ou façam críticas destrutivas àqueles que pensam diferente de nós, dentro e fora da Igreja. Em relação a quais palavras e atitudes agressivas Jesus está gritando à sua consciência: ‘Tire isso da sua vida!’?
            “Não roubarás” (Ex 20,15). Neste tempo de corrupção generalizada em nosso país, onde “todo mundo” tenta levar algum tipo de vantagem, qual é o seu esforço em manter-se honesto, em comportar-se de maneira justa, mesmo e, sobretudo, quando ninguém está vendo o que você faz? “Não cometerás adultério... Não cobiçarás...” (Ex 20, 14.17). Se é verdade que a emoção substituiu o lugar da consciência na sociedade atual e o “ser feliz” tomou o lugar do “ser fiel”, como você tem lidado com os seus desejos? O quê precisa ser expulso da sua vida, para que seu corpo volte a ser templo do Espírito Santo e para que sua casa e a casa do seu semelhante sejam respeitadas como santuários de Deus?  
            “O zelo por tua casa me consumirá” (Jo 2,17). O que motivou Jesus a agir como agiu no Templo de Jerusalém foi o seu zelo, o seu cuidado com a casa do Pai, o seu cuidado com o sagrado. Desse modo, Jesus nos ensina que o sagrado deve ser protegido. A maneira de lidar com a nossa afetividade e a nossa sexualidade, assim como a maneira como olhamos e tratamos o corpo do nosso semelhante, devem ser iluminadas por este cuidado com o sagrado que o nosso corpo e o corpo do nosso semelhante são aos olhos de Deus. Da mesma forma, quando nos deparamos com o corpo do nosso semelhante, exposto a uma profanação chamada fome, doença, droga, violência, agressão, prostituição etc., precisamos agir como Jesus, no sentido de ajudar a devolver a dignidade, o respeito, o cuidado com o sagrado que é aquele corpo.                Deixemo-nos interpelar pelo corpo do Cristo crucificado. O apóstolo Paulo nos faz este convite hoje: não desviemos os nossos olhos e a nossa consciência dos apelos do Cristo crucificado (cf. 1Cor 1,22-24). Seu corpo foi profanado pela violência dos homens, mas esse mesmo corpo foi ressuscitado pelo poder do Pai e, mesmo após a ressurreição, trazia as marcas da cruz em si (cf. Jo 20,20.27). Assim como Jesus, lutemos para promover a paz; combatamos firmemente toda forma de violência, ainda que isso nos exponha a tantos ataques. Não desistamos de anunciar ao mundo Cristo crucificado, cujo sangue derramado carrega em si a força divina de pacificar todas as realidades (cf. Cl 1,20).
            Oração da Campanha da Fraternidade 2018: Deus e Pai, nós vos louvamos pelo vosso infinito amor e vos agradecemos por ter enviado Jesus, o Filho amado, nosso irmão. Ele veio trazer paz e fraternidade à terra e, cheio de ternura e compaixão, sempre viveu relações repletas de perdão e misericórdia. Derrama sobre nós o Espírito Santo, para que, com o coração convertido, acolhamos o projeto de Jesus e sejamos construtores de uma sociedade justa e sem violência, para que, no mundo inteiro, cresça o vosso Reino de liberdade, verdade e de paz. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

PESSOAS COMPROVADAS NA FÉ, NA ESPERANÇA E NO AMOR

Missa do 2º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 22,1-2.9a.10-13.15-18; Romanos 8,31-34; Marcos 9,2-10.   

            “Deus pôs Abraão à prova” (Gn 22,1). Existem as tentações e existem as provações. As tentações, como vimos no primeiro domingo da quaresma, vêm do maligno; ele se aproveita quando estamos fragilizados, vivendo uma experiência de deserto, e começa a nos confundir com suas mentiras e seus enganos, procurando nos afastar do caminho de Deus. Diferente das tentações, as provações não vêm do maligno, mas do próprio Deus, e elas chegam normalmente quando estamos bem, quando tudo está fluindo e funcionando perfeitamente: é quando Deus permite que uma contrariedade nos atinja, que uma situação desagradável venha nos trazer dor e preocupação.
            Por que precisamos enfrentar provações? Porque precisamos crescer, amadurecer. Sem as provações, nós permanecemos infantis em nossa fé e em nosso modo de lidar com a vida. Toda provação tem por objetivo comprovar a verdade da nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor. Assim como numa escola ou faculdade a prova serve para comprovar aquilo que o aluno aprendeu, assim a nossa fé, a nossa esperança e o nosso amor precisam ser comprovados, isto é, precisam ser desafiados e se mostrarem verdadeiros, consistentes, e não teoria vazia, fogo de palha, neblina da manhã, que evapora quando exposta aos primeiros raios do sol (cf. Os 6,4).
            Eis a prova de Abraão: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, (...) e oferece-o (...) em holocausto sobre um monte que eu te indicar” (Gn 22,2). Isaac era para Abraão a prova viva do quanto Deus o amava. Isaac era o grande milagre de Deus na vida de Abraão, pois ele nasceu quando Abraão tinha 99 anos, e nasceu de Sara, uma mulher idosa e até então estéril. Além disso, Isaac era a garantia do futuro de Abraão, a única forma de sua família ter uma descendência. De repente, Deus chega e pergunta a Abraão e a cada um de nós: ‘Você continuaria a crer em mim, se eu permitisse que a vida tirasse de você aquilo que você mais ama? Você continuaria a confiar no meu amor por você, se eu permitisse que você ficasse doente, ou que perdesse o emprego, ou que sofresse uma violência ou uma injustiça? Você continuaria a ter esperança em mim, se eu permitisse que um grande sofrimento, uma grande dor, abalasse toda a sua esperança e você não enxergasse mais um futuro e um sentido para a sua vida?’          
Sempre que nós passamos por uma provação, precisamos nos lembrar de que Aquele que nos prova é o Pai, e o pai que verdadeiramente ama o filho só o coloca à prova porque quer prepará-lo para a vida, para enfrentar o mundo e não para fugir dele. O problema é que, quando somos provados, nós nos sentimos dentro de uma “noite escura”, onde não enxergamos Deus, nem conseguimos senti-Lo como um Pai que está junto de nós. Pelo contrário, a dor da prova abala a nossa fé de tal modo que nós passamos a enxergar Deus como nosso maior Inimigo, como Aquele que nos faz o mal, que nos faz sofrer, como Aquele que quer tirar de nós a razão de ser da nossa alegria, da nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor.        
            É aqui que podemos compreender a grandeza da fé de Abraão: “Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único... Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste” (Gn 22,12.18). O que Abraão fez foi dizer a Deus, com palavras e atitudes: ‘Ainda que o Senhor permita que eu perca o filho que amo mais do que tudo nesse mundo, eu continuarei a crer em Ti!’ Diante da fé comprovada de Abraão, nós hoje somos chamados a declarar com o salmista: “Guardei a minha fé, mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl 116,10). ‘Que eu perca tudo, Senhor, mas não perca a minha fé! Que a vida tire tudo de mim, menos a minha fé e a minha esperança em Ti! Posso aprender a viver sem saúde, sem riqueza, sem prestígio social; posso até aprender a lidar com a perda de alguém que amo, mas eu não conseguiria me manter vivo(a) sem a força da fé e da esperança em Ti!’
            Se é verdade que a provação muitas vezes nos faz duvidar do amor de Deus por nós e do seu cuidado para conosco, o apóstolo Paulo nos lembrou hoje de algo fundamental: “Deus que não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele?” (Rm 8,32). Deus poupou Isaac do sacrifício, mas não poupou seu próprio Filho do sacrifício da cruz, para nos dar a certeza do seu amor para conosco. Ainda que Ele permita alguma perda em nossa vida, já nos deu o seu bem mais precioso – seu Filho Jesus – e juntamente com Ele nos dará todas as outras coisas. Isso significa que toda perda que possamos ter nessa vida já está recuperada e salva em Jesus Cristo. Ele é o Cordeiro que o Pai providenciou para ser sacrificado em lugar do nosso Isaac. O seu sacrifício da cruz nos livra de nos tornarmos “holocaustos”, isto é, de sermos mortos e queimados em consequência do nosso pecado.     
            Uma palavra final. Quando passamos por uma provação, nos desfiguramos, devido ao sofrimento que ela representa. Por isso, o Pai nos convida hoje a subir a montanha e contemplar a face transfigurada de seu Filho Jesus. Muito mais do que Abraão, Jesus é o filho obediente ao Pai. Com Ele aprendemos que sempre que desobedecemos a Deus, nossa vida começa a se desfigurar; sempre que O obedecemos, nossa vida se transfigura. O Pai hoje nos diz: “Este é o meu filho amado; escutai-o!” (Mc 9,7). Mantenhamos nossos olhos fixos em Jesus. Escutemos o que Ele nos diz; aprendamos com Ele, que foi provado em tudo como nós (cf. Hb 4,15), a lidar com as provações e a sairmos delas comprovados em nossa fé, em nossa esperança e em nosso amor.


Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A NECESSÁRIA EXPERIÊNCIA DE DESERTO

Missa do 1º. Dom. da quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 9,8-15; 1Pedro 3,18-22; Marcos 1,12-15.

“O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias” (Mc 1,12-13). O que significa esse período de quarenta dias? Biblicamente, o número quarenta indica o tempo necessário para que haja uma mudança, uma cura, uma transformação, um renascimento. Embora a nossa geração esteja mal habituada a querer que tudo seja resolvido de maneira rápida, imediata, Deus nos ensina que existe um tempo para que algo de significativo aconteça em nossa vida. Não se cura uma ferida de forma instantânea. Não se passa de uma situação de morte para uma situação de vida de maneira imediata. Existe um processo, e esse processo exige de nós tempo, paciência, confiança, determinação, firmeza de caráter.
O Espírito de Deus nos convida a viver esse tempo de quaresma como o “tempo favorável” (cf. 2Cor 6,2) para a nossa transformação interior. Mas, como é que o Espírito nos conduz “para o deserto”? Ele pode fazer isso permitindo que fiquemos doentes, ou que passemos por um período de aridez espiritual, ou que enfrentemos determinado sofrimento, ou que enfrentemos uma crise... E embora a experiência do deserto nos cause muito desconforto, é importante confiar que nela se dá o nosso amadurecimento, a nossa conversão. O Espírito de Deus sabe que o deserto é um “lugar” onde não queremos ir, mas onde precisamos às vezes ir; é o lugar onde tomamos consciência daquilo que é essencial para a nossa vida e para a nossa salvação. Além disso, se a nossa vida hoje é ocupada cada vez mais pelas redes sociais e nós somos invadidos por uma enxurrada de imagens e mensagens, o Espírito de Deus quer nos conduzir para fora dessas pressões externas, para que possamos voltar a ouvir a voz de Deus de maneira mais clara e profunda: “Eu a conduzirei ao deserto e ali lhe falarei ao coração” (Os 2,16).
Assim como aconteceu com Jesus, toda pessoa que entra numa experiência de deserto se dá conta de que há uma voz enganadora dentro dela: a voz do tentador. Essa voz fala conosco procurando nos confundir, abalar a nossa confiança em Deus e nos fazer pensar que, se Deus nos permitiu entrar numa situação de deserto, é porque não nos ama e não se importa conosco. O objetivo do tentador é nos fazer acreditar que nós estamos sozinhos, absolutamente sozinhos em nosso deserto, entregues ao nosso próprio sofrimento. Por isso, para não nos deixarmos enganar por ele, precisamos nos lembrar sempre de que o mesmo Espírito que amparou Jesus no momento das tentações está amparando a cada um de nós quando somos tentados, como diz a Escritura: “Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças. Mas, com a tentação, ele vos dará os meios de sair dela e força para a suportar” (1Cor 10,13).
Toda experiência de deserto é uma experiência de purificação da nossa fé, de correção da imagem de Deus que temos dentro de nós. Na época de Noé, Deus era interpretado como Aquele que decidiu exterminar, por meio do dilúvio, a vida do ser humano e dos animais da face da terra, por causa da maldade do próprio ser humano: “A terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra” (Gn 6,13). Porém, quando a experiência do dilúvio terminou, Noé e sua família puderam ter uma imagem mais clara de Deus, como Aquele que fez aliança com a terra e com toda vida que há nela, uma aliança que será lembrada toda vez que surgir um arco-íris: “Estabeleço convosco a minha aliança: nenhuma criatura será mais exterminada pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra” (Gn 9,11).
Nossa época é muito parecida com a de Noé, uma época marcada fortemente pela violência que extermina a vida de inúmeras pessoas, uma violência que passou a habitar dentro de nós e é perceptível na intolerância, irritação, agressividade e impaciência com que tratamos as pessoas no dia a dia. Mas o apóstolo Pedro, retomando o acontecimento do dilúvio, nos lembrou hoje que nós fomo banhados nas águas do batismo, batismo que nos deu a consciência de filhos de Deus e de irmãos uns dos outros, de modo que Jesus afirmou: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Embora o diabo seja homicida e procure alimentar em nós a violência, nós devemos rejeitar as suas propostas e nos deixar orientar pelo Espírito de Deus, ajudando as pessoas do nosso tempo a não se afogarem nas águas da agressividade e da violência que produzem morte em nossa sociedade.
Ao narrar, ainda que de maneira muito resumida, as tentações de Jesus, o evangelista Marcos quer nos lembrar que Jesus, assim como nós, nunca teve uma vida fácil e poupada de lutas ou dificuldades. Além de se deparar com as forças contrárias a Deus presentes no mundo, ele teve que lidar com as forças do mal dentro de si, exatamente como acontece conosco. Por isso, devemos manter nossos olhos fixos em Jesus, aprendendo com ele a desmascarar as mentiras do tentador, a nos deixar conduzir pelo Espírito de Deus e a manter a nossa fidelidade a Deus, buscando tornar o seu Reino presente entre nós. Jesus nos convida a crer na força que o Evangelho tem de transformar a consciência e o coração de quem nele crê e por ele se deixa converter, corrigir e orientar.         

Oração: “O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12). Espírito de Deus, quero me deixar conduzir por Ti e por Tua verdade. Mesmo sabendo que todo deserto é uma situação de sofrimento, quero confiar quando Tu permites que eu experimente o deserto, sabendo que aquilo é necessário para a minha conversão e para a minha santificação.
            “Jesus ficou no deserto durante quarenta dias” (Mc 1,13). Senhor, quero confiar que existe um tempo para tudo debaixo do céu. Existe um tempo para que a minha ferida seja curada, para que a minha pergunta seja respondida e para que eu possa fazer a passagem da morte para a vida. Sustenta-me na travessia do meu deserto, renovando a minha confiança nos Teus propósitos a meu respeito. 
“Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças” (1Cor 10,13). Senhor, o tentador conhece as minhas fraquezas; ele sabe como me seduzir e me enganar, e eu muitas vezes caio nas suas armadilhas. Concede-me forças para resistir e lutar contra o mal. Dá-me um coração obediente a Ti. Sei que eu não posso passar por este mundo sem ter que lidar com diversas tentações. Concede-me a força da tua graça, para que eu não caia em nenhuma tentação, mas saia desse combate fortalecido(a). Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi