sexta-feira, 10 de junho de 2016

O QUE VEM PRIMEIRO: O AMOR OU O PERDÃO?

Missa do 11º. dom. comum. Palavra de Deus: 2Samuel 12,7-10.13; Gálatas 2,16.19-21; Lucas 7,36-50.

            Nós sabemos como entrar num buraco chamado “pecado”, mas não sabemos como sair dele. Aliás, com muita facilidade nós encontramos força e disposição em nós mesmos para cavar esse buraco e nos jogar dentro dele, mas depois, não sabemos de onde tirar forças e encontrar disposição para sair dali.
Quando uma situação de pecado começa a se instalar em nossa vida, nós achamos que tudo está sob controle. Nós vemos que aos poucos vamos afundando no erro, sabemos das consequências, mas apostamos ou na impunidade ou na falsa certeza de que, quando quisermos, poderemos pular fora do barco. No entanto, acontece conosco o que aconteceu com o rei Davi: a situação de pecado sai totalmente do nosso controle, e aquilo que era “só” um momento de prazer se transforma numa situação tão ameaçadora para nós, que a única saída que encontramos é cometer um erro absurdo para tentar esconder um erro menor: pra se livrar da acusação de adultério, Davi mandou matar o esposo da mulher com quem se deitou e que agora estava grávida de um filho seu.   
               Todos nós pecamos. Todos nós usamos mal a nossa liberdade na forma de lidar com o dinheiro e com os bens materiais, com a nossa afetividade e sexualidade; todos nós pecamos em relação ao próximo, seja tratando-o com indiferença, seja procurando tirar proveito dele. Todos nós conhecemos não só aquela voz em nossa consciência que nos acusa do erro que cometemos como também aquele sentimento de culpa que tira a paz do nosso coração. Mas a Escritura diz: “Todo homem há de voltar para o Senhor por causa dos pecados” (Sl 65,3-4). Sempre que pecamos, machucamos a nós mesmos ou aos outros. E é a dor dessa ferida que nos faz voltar ao Senhor, que perdoa todas as nossas culpas e cura toda a nossa enfermidade (Sl 103,3).
            O Evangelho de hoje traz uma pergunta: O que vem antes: o amor ou o perdão? Depende de quem estamos falando. Deus perdoa porque ama. Antes de Deus ser perdão, Ele é amor, e porque nos ama, nos perdoa. Em Deus, o perdão é consequência do seu amor por nós. Mas, e em nós, o que vem primeiro: o amor ou o perdão?
            Jesus disse, a respeito dessa mulher pecadora que chora aos seus pés e derrama sobre eles o seu perfume, cobrindo-os de beijos: “os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7,47). O grande amor que esta mulher demonstra para com Jesus é consequência do perdão que ela recebeu dele antes. Mas, antes quando? Segundo os comentadores bíblicos, muito provavelmente esta mulher teve um encontro anterior com Jesus, no qual ela foi perdoada. Seu gesto agora é de gratidão para com ele. E Jesus, diante do amor e da gratidão dessa mulher para com ele, confirma publicamente o perdão que havia concedido antes: “Teus pecados estão perdoados” (Lc 7,48).
            Portanto, o primeiro dom que nós recebemos de Deus é o perdão, como fruto do seu amor para conosco. Na medida em que nos reconhecemos perdoados por ele, nós O amamos. Dizendo de outra maneira, o perdão de Deus para conosco é incondicional e gratuito, assim como o Seu amor. O perdão de Deus para conosco não está condicionado pelo nosso esforço em amar: ‘Primeiro, você me ama; depois, eu te perdôo’; ou então, ‘Se você me amar, então eu te perdoarei’. Pelo contrário, o Evangelho que ouvimos nos convida a reconhecer o perdão que o Pai nos concedeu na cruz de seu Filho Jesus.
            Como você vive sua vida? Como alguém que se sente constantemente em dívida para com Deus? Como alguém que carrega culpa e condenação em seu coração? O apóstolo Paulo disse: ‘Eu vivo minha vida a partir da minha fé em Jesus Cristo, que na cruz me amou e se entregou por mim’ (citação livre de Gl 2,20). O próprio Jesus disse à mulher, no Evangelho que ouvimos: “Tua fé te salvou. Vai em paz” (Lc 7,50). O que te salva do pecado, da culpa e da condenação é a tua fé no perdão de Deus, a fé no amor do Pai que tudo perdoa. Aquilo que pode romper o círculo vicioso do pecado em sua vida é crer no amor de Deus por você, crer na graça que Ele te concede de romper com o pecado, convencendo-se de que não vale a pena pagar o preço que você tem pago para se alimentar das migalhas de falsas compensações que o pecado te dá.
            “Ela muito amou. Tem a minha paz. Vai seguir caminho sem temor. Sabe quem eu sou e será capaz de espalhar na terra o meu amor” (Frei Fabreti, Ela muito amou). Que a consciência de ser perdoado por Deus faça você voltar a demonstrar amor: amor pela vida, por Deus, pelos outros, por si. Que você caminhe com seu coração firmado na paz de Jesus, não mais carregando medo, culpa ou condenação. Que você se lembre de quem Jesus é: o rosto visível da misericórdia do Pai, o Amor que tudo perdoa. Que você possa levar consigo esse perfume do amor que tudo perdoa, para espalhá-lo onde quer que se encontre.       
    
            Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 3 de junho de 2016

ALMAS RETIRADAS DO ABISMO

Missa do 10º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Rs 17,17-24; Gálatas 1,11-19; Lucas 7,11-17.

“Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes quando estava já morrendo” (Sl 30,4). No mundo em que vivemos há diversos abismos engolindo muitas almas. O abismo da migração forçada engole no mar inúmeras almas que tentam escapar da fome e da guerra, sobretudo na África ou em alguns países do Oriente Médio. O abismo do tráfico e do consumo de drogas engole inúmeras almas adolescentes e jovens à nossa volta. O abismo de doenças graves como o câncer, engole almas de todas as idades e de todas as classes sociais. Existem também os abismos emocionais, que engolem inúmeras almas por meio da depressão, da ansiedade, do pânico, da fobia, da falta de sentido para a vida, do suicídio etc.  
Hoje queremos nos colocar na presença do nosso Deus, o único que pode retirar a nossa alma do abismo em que ela porventura se encontra, e nos salvar da morte precoce, prematura, como aconteceu com esses dois jovens: o primeiro deles, ressuscitado por Deus mediante a oração do profeta Elias; o segundo, ressuscitado por Jesus. Talvez muitos de nós já fizemos essa experiência de sermos ressuscitados por Deus. Nossa alma estava no abismo do desânimo, da aflição, do sofrimento ou mesmo da morte, mas a mão de Deus nos alcançou e nos retirou do fundo desse abismo. Então, voltamos a viver, a nos sentir vivos; recobramos o ânimo, a força, a esperança.
As duas ressurreições que nos foram narradas aconteceram num contexto de profunda miséria: duas viúvas pobres perderam seu filho único. Além de não terem o marido para ajudar no sustento da casa, perderam também o filho, única possibilidade de sustento e de futuro para elas. Como se diz, ‘miséria pouca é bobagem’. Deus às vezes parece não só insensível, mas também cruel e impiedoso, quando permite que certas coisas ruins aconteçam a quem já está sofrendo. É uma pancada em cima de outra, é uma dor que se soma a outra, é uma injustiça que se junta a outra. E nós perguntamos: Onde está Deus?
Nesses momentos em que a nossa fé chega ao seu limite de suportar o sofrimento ou a injustiça, precisamos ter uma conversa sincera com Deus, como teve o profeta Elias: “Senhor meu Deus, até a viúva, em cuja casa habito como hóspede, queres afligir, matando-lhe seu filho?” (1Rs 17,20). É claro que não é Deus quem “mata” alguém, mas ele pode permitir que a morte atinja tal pessoa. Elias expressa diante de Deus o seu cansaço ao lidar com o sofrimento e também a sua raiva por não compreender os desígnios de Deus. Mas a sua oração sincera nos revela algo muito importante: ele se dirige a Deus chamando-o de “meu Deus”.
Quando me dirijo a Deus chamado-o de “meu” Deus, estou dizendo que, mesmo com raiva da Sua aparente indiferença para com o sofrimento humano, Ele é o “meu” Deus, o Deus em quem eu creio e o único a quem eu posso recorrer para clamar misericórdia e compaixão, seja para comigo, seja para com as outras pessoas. Elias sabia que somente Deus poderia devolver a vida ao filho da viúva de Sarepta. Por isso clamou: “Senhor, meu Deus, faze, te rogo, que a alma deste menino volte às suas entranhas”. E foi atendido na sua oração.
Se nós não podemos “produzir” ressurreição, podemos suplicar a Deus por tantas pessoas expostas precoce ou injustamente à morte. Se nós não podemos ressuscitar fisicamente pessoas, podemos descer aos abismos onde elas se encontram e ajudá-las a sair dali. Jesus nos convida a ir ao encontro da dor, daquela dor mais terrível, que é a experiência da perda. “Jesus espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente” (Francisco, A alegria do amor, n.308).
            Não tenhamos medo de entrar em contato com quem sofre. Façamos como Jesus. Ele ressuscitou o filho da viúva de Naim por iniciativa própria. Ninguém veio lhe pedir nada. Nós não precisamos esperar as pessoas virem até nós e nos pedirem ajuda. Tomemos a iniciativa de ir ao encontro daquele que está sofrendo. Entremos em contato com as lágrimas de quem chora neste momento. Peçamos a Deus que nos visite hoje, trazendo-nos a vida do seu Espírito...
            “Hoje em minha vida, onde eu estiver, Ele continua a passar. Incansavelmente insiste em me visitar. Em meu coração quer ficar. O mesmo Deus e Senhor hoje passa aqui. A nossa história também quer tocar com a mesma força e poder, incansável amor que procura a quem transformar, que transforma a quem encontrar...” (Ministério Adoração e Vida, Lugares).
                                                             
Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 27 de maio de 2016

ERGA A MARRETA E GOLPEIE FIRMEMENTE A ROCHA

Missa do 9º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Rs 8,41-43; Gl 1,1-2.6-10, Lc 7,1-10.

            “Diga uma palavra, e o meu empregado ficará curado” (Lc 7,7). O Evangelho que acabamos de ouvir nos coloca diante de um belo exemplo de fé no poder da palavra de Jesus. “Basta uma só palavra, e o milagre acontecerá. Basta uma só palavra, e a vitória virá”, diz a música “Basta uma só palavra”, do Ministério Amor e Adoração. Como anda a sua fé na Palavra? Pra você, basta a Palavra, ou é preciso mais algumas coisas, tipo: ver, sentir e tocar pessoalmente em Jesus para só então poder crer?
            Engano nosso achar que a Palavra é mágica. Não basta ter a Bíblia em casa. Não basta ler a Bíblia. Não basta saber de cor trechos bíblicos. A Palavra não é mágica. Se há algo “mágico” aqui, neste relato do Evangelho, é a fé de um estrangeiro no poder da palavra de Jesus. A Bíblia não é um livro de História, nem de Ciência; ela é um livro de Fé, que foi escrito por homens e mulheres de fé, para edificar a fé de quem lê ou escuta suas palavras. Portanto, sem a fé, a Palavra permanece uma letra morta, incapaz de produzir vida. Só a fé nos faz experimentar o poder redentor de cada palavra contida na Sagrada Escritura.
Eis a fé do centurião que pediu a Jesus a cura para o seu empregado: “... eu também estou sob a autoridade de oficiais superiores, e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: Vá, e ele vai; e a outro: Venha, e ele vem; e ao meu empregado: Faça isso, e ele o faz” (Lc 7,8), ao que Jesus respondeu: “... nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé” (Lc 7,9). A fé deste homem estrangeiro é a fé na autoridade da palavra de Jesus. Dizendo de outra maneira, a Palavra de Deus não é uma palavra fraca, mas forte, tão forte que o próprio Deus pergunta: “Não é a minha Palavra... como uma marreta que despedaça a rocha?” (Jr 23,29). Reflita sobre isso: embora a Palavra de Deus tenha a força de uma marreta capaz de despedaçar a rocha, a sua fé é a mão que levanta a marreta e desfere o golpe sobre a rocha...
Crer na autoridade da palavra de Jesus significa submeter-se a esta autoridade. Esta foi a grandeza da fé deste homem estrangeiro. Nós, que anunciamos a Palavra de Deus em cada celebração, em cada encontro de catequese ou dos nossos grupos pastorais, corremos um sério risco de nos “acostumarmos” a tal ponto com a Palavra, que já sabemos o que dizer a respeito dela, e, desse modo, acabamos não nos colocando sob a sua autoridade. Além disso, precisamos considerar o que Jesus disse: “... nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé” (Lc 7,9). ‘Nem mesmo entre vocês, evangélicos ou católicos, encontrei tamanha fé na minha palavra’. Às vezes, uma pessoa que consideramos “pagã” pode ter mais fé em Deus do que nós, que nos consideramos cristãos...   
O Evangelho de hoje nos colocou diante de uma oração de intercessão: um homem manda um pedido a Jesus para que cure um empregado seu. Nós oramos pelos outros ou só por nós mesmos? Nossa oração costuma ir além dos nossos interesses pessoais, para suplicar a Deus pelas necessidades de outras pessoas? Nós confiamos que, de onde Jesus está, à direita do Pai, ele pode dizer uma palavra capaz de curar, de libertar e de salvar a pessoa por quem estamos orando?  
            Uma última questão. “Senhor, (...) eu não sou digno de que entres em minha casa...” (Lc 7,6). Em toda missa nós retomamos estas palavras do centurião, instantes antes de nos aproximarmos da Eucaristia. Quem é digno de comungar? Ninguém, nem mesmo quem preside a Eucaristia. Nós não somos dignos de receber Jesus, mas, antes da comunhão, lembramos o que Ele mesmo disse: “A minha palavra purificou vocês” (cf. Jo 15,3). A palavra de Jesus nos purifica na medida em que permitimos que ela nos corrija e nos recoloque no caminho da justiça e da verdade. Que possamos, em cada celebração eucarística, receber com humildade a palavra de Deus, que é sempre capaz de nos salvar (cf. Tg 1,21).   

Para a sua oração pessoal: Basta uma só palavra (Ministério Amor e Adoração)
https://www.youtube.com/watch?v=UzY6dELqZA4

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 20 de maio de 2016

SEMPRE PRECISAMOS REVER A NOSSA IMAGEM DE DEUS

Missa da Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Provérbios 8,22-31; Romanos 5,1-5; João 16,12-15

Deus não tem imagem. Por quê? Porque, da mesma forma que nenhum recipiente poderia conter dentro de si toda a água do oceano, assim também nenhuma imagem que pudéssemos fazer de Deus poderia conter ou expressar tudo aquilo que Ele é. Deus não tem imagem porque Ele é sempre mais e sempre maior do que aquilo que podemos experimentar ou imaginar. Deus não tem imagem porque Ele é surpreendente: Ele sempre se manifesta em nossa vida de um modo que nunca poderíamos imaginar.  
Embora Deus não tenha imagem, todo ser humano forma, ao longo da vida, alguma imagem de Deus dentro de si. Enquanto algumas dessas imagens aproximam a pessoa daquilo que Deus é, outras afastam. Enquanto algumas dessas imagens ajudam a curar e libertar pessoas, outras colaboram para adoecê-las e aprisioná-las no medo ou na ignorância. Cada um de nós imagina Deus de uma forma, mas quantas ideias erradas nós formamos a respeito de Deus? Além disso, quantas pessoas desistiram de crer em Deus porque a nossa linguagem sobre Ele é – e sempre será – imperfeita e limitada?      
A melhor forma de nos aproximarmos do mistério da Santíssima Trindade, deste Deus que, embora sendo o único e verdadeiro Deus, se revelou a nós como Pai, Filho e Espírito Santo, é fazer como foi pedido a Moisés, quando tentou se aproximar do mistério da sarça ardente: “Não se aproxime daqui; tire as sandálias dos pés porque o lugar em que você está é uma terra santa” (Ex 3,5). Antes de nos aproximarmos do mistério de Deus – mistério porque Ele sempre nos transcende – precisamos ficar descalços, isto é, precisamos esvaziar a nossa mente e o nosso coração de tudo aquilo que julgamos já saber a respeito de Deus, para que Ele nos dê o verdadeiro conhecimento de Si. ‘Tirar as sandálias’ também significa saber que Deus não é um ídolo do qual possamos nos apropriar e usar em nosso benefício, mas três Pessoas a serem acolhidas em nossa casa interior: a pessoa do Pai que nos criou, a pessoa do Filho que nos salvou e a pessoa do Espírito Santo que nos marcou para o dia da redenção final.  
O Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas, mas um único Deus. Eles estão sempre juntos, unidos na mesma missão de conduzir o ser humano à verdadeira Vida. São três pessoas diferentes, mas um respeita o outro, um ajuda o outro, porque um ama o outro. Isso tem algo importante a nos dizer, já que a dificuldade de convivência com as pessoas tem nos levado cada vez mais a optar por ficarmos sozinhos. Nós passamos a evitar estar juntos para não nos machucar. Até mesmo a nossa fé passa a ser vivida assim: em casa, separada de uma comunidade, porque já nos decepcionamos não poucas vezes com algumas pessoas da igreja.  
Talvez a imagem da nota musical nos devolva o desejo de voltar a viver em comunhão com as pessoas. Cada um de nós é como uma nota musical. Sozinhos, não produzimos música alguma, mas também sem nós falta uma nota para que a música fique boa, agradável e completa. Nós sofremos muito e gastamos muita energia emocional tentando mudar os outros, mas o melhor seria que procurássemos amar as pessoas como elas são. Deus nos ama assim, como somos, e no Seu amor procura nos ajudar a crescer, melhorar e amadurecer todo o nosso potencial.
Se temos enfrentado muitas tribulações em nossos relacionamentos, saibamos enxergar tais tribulações como oportunidades para exercitarmos a perseverança no amor, uma perseverança que comprovará em nós a virtude, a força do Espírito de Deus em nós. Esta virtude comprovada, por sua vez, nos abrirá para uma esperança que não decepciona, porque ela nasce do amor do Pai e do Filho que foi derramado em nosso coração por meio do Espírito Santo (cf. Rm 5,3-5).
Nós ainda não somos capazes de compreender muitas coisas, nem a nosso respeito, nem a respeito dos outros e, sobretudo, nem a respeito de Deus. Mas Jesus disse que o Espírito da Verdade nos conduzirá à plena verdade. Peçamos ao Espírito Santo que apague/delete todas as imagens erradas que possamos ter de Deus dentro de nós. Que Ele nos abra ao verdadeiro conhecimento do Deus único, nos fazendo experimentar a presença viva do Pai e do Filho em nós. Que Ele também restaure nossos relacionamentos e nos ajude a respeitar o mistério de Deus presente em cada pessoa, amando-a como ela é e ajudando-a a se tornar aquilo que é chamada a ser como ser humano e como filho(a) de Deus.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 13 de maio de 2016

RESPIRAR O AR RENOVADO DO ESPÍRITO

Missa de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.

Se uma casa permanece por muito tempo com suas portas e janelas fechadas, tudo ali começa a se estragar, a se deteriorar. Se nos encontramos num ambiente fechado, sem que o ar ali dentro se renove, logo começamos a nos sentir sufocados. O ar que respiramos parece estar carregado; carregado não só de poluição, mas de pessimismo, de incerteza, de preocupação. Além disso, para algumas pessoas o ar está carregado de medo, de ameaça, de dor, de desespero, de tristeza e de morte.             
               Nós precisamos de ar, de fôlego, de respiro, mas isso não só no sentido físico; também nossos relacionamentos, nossas ideias, nossa fé, nossa esperança, nosso amor precisam de um ar novo, precisam ser oxigenados. Hoje somos convidados a abrir nossas portas e janelas interiores e exteriores para receber o sopro de Jesus ressuscitado, que nos comunica o dom do Espírito Santo. Nosso barro – nossa fragilidade humana – precisa receber este sopro, para que voltemos a nos sentir vivos a partir de dentro. Nossos ossos secos – nossa vida cansada e nossa esperança desgastada – precisam receber este sopro do Espírito, para nos reerguer e nos reanimar.
            Jesus nos ensinou que o Espírito Santo é um dom a ser pedido ao Pai na oração (cf. Lc 11,13). No entanto, para que pedimos este dom? Para que desejamos o Espírito Santo? A Escritura nos ensina que o Espírito Santo nos é dado como força para socorrer a nossa fraqueza, como fecundidade para curar a nossa esterilidade, como defesa e proteção no combate que temos de travar contra o mal em nós e à nossa volta. Mas não é só isso. O Pai nos concede o seu Espírito não para tudo dê certo em nossa vida, mas para que a nossa vida se abra ao Seu desígnio de salvação.
            Por isso, tão importante quanto pedir o Espírito Santo é estar disposto a deixar-se conduzir por Ele. Às vezes, precisamos chegar ao ponto de permitir que Ele nos “acorrente” e nos leve onde não queremos ir, mas onde precisamos ir, para o nosso bem ou para o bem de outras pessoas. Nosso grande desafio é nos tornar obedientes ao Espírito Santo e não ficar opondo resistência ao que Ele nos diz ou nos impulsiona a fazer. De que adiantaria o Espírito Santo ser este ar puro que tudo renova e a tudo devolve vida, se insistimos em permanecer com nossas portas e janelas fechadas, por medo da mudança que o Espírito Santo quer operar em nós?
              Hoje caberia muito bem um pedido de perdão ao Espírito Santo por tantas coisas que foram e ainda são feitas em nossa Igreja, tendo como motivação de fundo o desejo de poder, a ambição e a vaidade que cada um de nós carrega dentro de si. Tanto ontem como hoje, quantos absurdos e contra-testemunhos nascidos do jogo de poder, do carreirismo, das eleições meramente humanas, da mentira, da injustiça, do roubo, da corrupção e da perseguição foram – e alguns ainda são – cometidos “em nome” do Espírito Santo? Quando agimos assim, nos esquecemos de que o Espírito Santo é o Espírito da Verdade e jamais compactua com o nosso pecado.       
O dia de Pentecostes foi interpretado por Pedro como o cumprimento da profecia de Joel: “Derramarei o meu Espírito sobre toda carne...” (Jl 3,1). O desejo de Deus é que todo ser humano seja abraçado, transformado e reavivado pelo seu Espírito. Assim, pedimos hoje, neste dia de Pentecostes, que o Espírito Santo derrame sua força sobre toda pessoa que se encontra enfraquecida física, emocional ou espiritualmente. Que Ele ajude cada um de nós a olhar a vida nos olhos, a enfrentar aquilo que cabe a nós enfrentar, sem medo, mas com coragem. Pedimos ao Espírito Santo que penetre na alma de todos os que estão caídos no desânimo ou que foram derrubados pelas injustiças humanas, para que reajam e se coloquem em pé diante dessas situações. Que Ele toque com a Sua unção na língua e no coração de todos nós, cristãos, para que anunciemos as maravilhas de Deus na língua em que cada pessoa possa entender e se abrir para a fé no Senhor Jesus. Pedimos que o fogo do Espírito Santo não somente transforme as armas de guerra em instrumentos de paz, mas que também converta o nosso coração de pedra e o torne capaz de perdoar e de crer na força transformadora do amor. Que Ele confirme o selo da Sua presença em nosso coração e renove em nós a consciência de que somos pessoas destinadas à ressurreição e, justamente por isso, nos dispomos a viver os nossos breves dias aqui colaborando com a Sua obra de renovar a face da terra...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 5 de maio de 2016

SÓ SERÁ ELEVADO AQUELE QUE SOUBE SE INCLINAR

Missa da Ascensão do Senhor. Palavra de Deus: Atos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Lucas 24,46-53.

            Tanto o texto dos Atos dos Apóstolos como o Evangelho de hoje nos falam da despedida de Jesus em relação a seus discípulos: Ele deve voltar para o Pai e de lá enviar o Espírito Santo prometido. A Ascensão (elevação) de Jesus ao Céu nos lembra que viver também significa despedir-se. Sempre chega o momento em que temos que nos despedir. A criança se despede da infância para entrar na adolescência; o adolescente se despede para entrar na juventude; o jovem também se despede para entrar na vida adulta; o adulto, por sua vez, se despede para entrar na velhice; o idoso, enfim, se despede para entrar na Vida definitiva.
            Ora, toda despedida dói e causa medo. Sentimos dor por aquilo que temos que deixar, e também sentimos medo porque não sabemos o que nos espera naquela nova etapa da vida. Mesmo assim, a despedida é necessária, porque a vida nos chama a crescer, a ir em frente, a atingir a nossa plenitude humana e espiritual. Mesmo sabendo que os discípulos estavam apreensivos, Jesus foi preparando este momento de subir para o Pai, deixando claro que essa partida era necessária para que ele pudesse nos enviar o Espírito Santo prometido.
            Por mais estranho que pareça, a verdade é que Jesus subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai para estar ainda mais perto de nós! A carta aos Hebreus afirma que Jesus entrou no céu para ser o nosso intercessor diante do Pai (cf. Hb 9,24). Além disso, o apóstolo Paulo afirma que Deus Pai ressuscitou Jesus dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda autoridade, colocando tudo debaixo de seus pés. Desse modo, devemos crer que nenhuma força que se oponha a nós na terra tem mais poder sobre nós do que Jesus (cf. Ef 1,20.22). Portanto, todos os dias precisamos colocar-nos debaixo do poder salvador de Jesus Cristo.  
            Neste dia da Ascensão de Jesus ao céu, nós recebemos uma promessa: “Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1,11). A ligação entre Jesus e sua Igreja, entre a Cabeça da Igreja (Jesus) e seu Corpo (nós, membros desse Corpo), é tão profunda e verdadeira que Jesus, antes de voltar para o Pai, enviou Maria Madalena para anunciar aos discípulos: “Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Jesus quer que nós estejamos também um dia onde Ele se encontra agora (cf. Jo 17,24): na plena comunhão com o Pai, no Céu.
              Nós cremos no Céu? Nós desejamos e temos esperança de estar no Céu com Jesus? A maioria das pessoas vive hoje como se o Céu não existisse. Ora, quem não tem esperança do Céu acaba por permitir que sua vida seja consumida pelo desespero aqui na terra. Quem não tem medo de perder o Céu já perdeu tudo (cf. Mc 8,36-37). Quem despreza o Céu está se privando da verdadeira e profunda alegria que só pode vir de Deus, pois Jesus comparou a entrada no Céu à entrada na alegria de Deus: “entra na alegria do teu Senhor!” (Mt 25,21).           
            Não nos esqueçamos de que crer, esperar e desejar o Céu significa também esforçar-nos por tornar a terra um lugar melhor, mais justo, mais humano, mais parecido com o Céu: “Quem não faz nada para mudar este mundo não crê num mundo melhor. Quem não luta contra a injustiça não crê num mundo mais justo. Quem não faz nada para mudar a terra não crê no céu” (J. A. Pagola).
O mesmo Jesus que se elevou ao Céu sempre se inclinou sobre o ser humano caído, ferido, desprezado e perdido. Antes da elevação, deve existir o inclinar-se. Esta é a missão que Jesus confia a cada um de nós: inclinar-nos para elevar os que estão caídos à nossa volta; despedir-nos de toda atitude de soberba, de arrogância, de elevação artificial e mentirosa, esvaziar-nos do nosso ego tão inflado, para sermos, de fato, um sinal do Céu para quem se encontra nos abismos que foram cavados pelos homens na terra.
            Preparemo-nos desde já para Pentecostes. Especialmente nesta semana, peçamos ao Pai o dom do Espírito Santo (cf. Lc 11,13). Esvaziemo-nos de nós mesmos; reconheçamos a nossa pobreza, a nossa miséria, o nosso nada, a nossa fraqueza, e peçamos pelo socorro do Espírito Santo. Humilhemo-nos debaixo da poderosa mão do Pai, pois a Sua graça resiste aos soberbos, mas é concedida aos humildes (cf. 1Pd 5,5); supliquemos que Ele se compadeça de nós e nos conceda uma presença renovada do Espírito Santo. Peçamos ao Espírito Santo, que sonda as profundezas do coração humano (1Cor 2,10), que visite as nossas profundezas, bem como aqueles que se encontram nas profundezas da sociedade humana, concedendo a todos nós a força de nos elevarmos com Cristo e sermos, uns para os outros, uma presença do Céu já aqui na terra.

                                                         Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 4 de maio de 2016

RECONCILIAR-SE CONSIGO MESMO


Não é coisa do outro mundo entrar em briga consigo mesmo! Há gente que se desgasta batendo de frente com sua imagem no próprio espelho. Entrar em conflito com os sinais de envelhecimento, rejeitando os cabelos brancos e as rugas na testa parece uma reação natural de quem só se enxerga pelo lado de fora. Debruçar-se sobre os erros do passado, vai deixando a pessoa sem forças para investir no presente e desencorajada na construção do futuro.
Um dos importantes segredos do bem viver é cultivar a reconciliação consigo mesmo. Dizer “sim” ao que sou é dispor-se a integrar tudo o que faz parte de minha história: capacidades e forças, fraquezas e conflitos, medos e tendências depressivas, potencialidades e debilidades. Aceitar-se como se é, sabendo que Deus nunca nos procura onde deveríamos estar, mas onde estamos, nem como deveríamos ser, mas como somos. Este é o primeiro passo de reconciliação.
Aceitar-se não significa acomodar-se, mas querer superar-se partindo do primeiro degrau onde nos é possível colocar os pés. Quando nos sonhamos ideais, sem aceitar-nos no real, terminamos nos tornando eternos insatisfeitos. Aceitar-nos é começar pelo real, percorrendo degrau por degrau na grande ascensão de uma vida rica de sentido.
Para fazer este caminho de reconciliação, preciso olhar com olhos de amor para aquilo que não gosto em mim, para aquilo que me põe em desconforto com minha auto-imagem. Isto não se faz por um decreto imediato, mas por um processo permanente de resgate da esperança que somos para nós mesmos, baseados na credibilidade de Deus que nos ama primeiro.
Eu não sou os meus defeitos! Eu não sou minhas sombras e pecados! Carrego comigo a “imagem e semelhança de Deus”, como uma vida em projeto. Esta imagem não fica enterrada por um mal que acontece em mim, nem por um defeito apontado por alguém. Eu sou muito mais do que pareço, muito melhor do que pensam e muito maior do que meu tamanho. “Sou o que sou diante de Deus!” E diante d’Ele não existem desenganados, mas sempre possibilidades de mais vida.
Reconciliar-se consigo mesmo não é um exercício de um dia para a vida toda. É um processo da vida toda a ser reassumido cada dia. Mesmo quando acreditamos que já nos reconciliamos conosco mesmos, sempre aparecem fraquezas que nos irritam, que gostaríamos de negar. Neste momento, devemos novamente dizer “sim” a tudo o que está dentro de nós.
Dentro desta perspectiva damos razão às palavras de São Francisco: “Irmãos, comecemos hoje tudo de novo, porque até agora, pouco nada fizemos.” Esta convicção não é um lance de pessimismo. Ao contrário, é um grito de esperança naquele potencial de vida nova e surpreendente que carregamos conosco e não podemos sufocar com o comodismo e a mediocridade.
Para nossas sombras há sempre uma luz maior para dissipá-las!
Para nossos defeitos há sempre qualidades melhores para superá-los!
Para nossas cruzes há sempre uma ressurreição garantida em Cristo!

http://www.paroquiasantoantoniodopartenon.org/index.php/paroquia/mensagem-do-paroco/290-reconciliar-se-consigo-mesmo