Homilia de Sexta-feira Santa. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.
A nossa experiência de cruz é o lugar
onde Deus escolheu manifestar a força da Sua salvação, como diz o Pe. Amedeo
Cencini: “Depois que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais
frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar
e causa de salvação. Ou seja, se um crime horrendo foi o contexto histórico
escolhido por Deus ou por meio do qual o Pai nos salvou, isso quer dizer que
qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de
salvação”.
Quando sofremos, costumamos maldizer a
situação que nos faz sofrer. Maldizemos a doença, o conflito, a crise, a separação,
a perda. Se pudéssemos, eliminaríamos da nossa vida aquele momento. Se pudéssemos,
fugiríamos para outro lugar, mas o lugar da nossa dor é justamente o lugar da
nossa salvação. O sofrimento pelo qual passamos está ali para nos ensinar algo
importante: ou temos uma grande parcela de responsabilidade na dor que estamos
experimentamos, ou aquela dor é o custo da nossa fidelidade a Deus e à nossa
própria consciência.
“Qualquer cenário histórico é ideal para
se viver a própria história pessoal de salvação”. Seu casamento, sua trabalho,
sua família, sua rotina de vida, sua separação, sua perda, sua solidão, seu
fracasso – cada uma dessas situações pode se tornar o lugar ideal para a sua
salvação. Mas, atenção! Nenhum sofrimento salva por si mesmo: é a nossa postura
diante dele que pode nos salvar ou nos arruinar ainda mais. É a consciência de
que a vida ensina somente quem está disposto a aprender que nos torna seres
humanos melhores, a partir do confronto com a dor que nos cabe enfrentar.
O outro lado da moeda: o sofrimento não
existe somente para ser acolhido e aceito; ele também precisa ser questionado. “O
individualismo nega a responsabilidade social do sofrimento. Devem ser
melhoradas não as condições sociais, mas sim as da alma. Analgésicos,
prescritos em massa, ocultam relações sociais que levam à dor. Cada um tem de
cuidar da própria felicidade. Ela se torna um assunto privado. Também o
sofrimento é interpretado como resultado do próprio fracasso” (Byung-Chul Han, Sociedade
paliativa – a dor hoje).
Inúmeras doenças são consequência das
más condições de trabalho. Além disso, a indústria farmacêutica não existe para
curar doenças, mas apenas para aliviar dores. Quanto mais pessoas curadas,
menos lucro para os empresários da dor; quanto mais dor e sofrimento, maior o lucro
deles. Quanto a nós, população, cada um vive sua vida e sofre suas dores
convencido de que “cada um tem de cuidar da própria felicidade”, e quem não
consegue se livrar do sofrimento se sente fracassado como pessoa. Ou seja, não
há nada de errado com o mundo do trabalho, nem com a indústria da dor, mas com
você, que não dá conta de ser feliz.
Há um sentido oculto no sofrimento? Segundo
Thomas Merton, o sofrimento não possui, por si mesmo, qualquer força ou valor. Tudo
depende do modo como o enfrentamos. Sem Deus, a dor é maldição: pode endurecer
a alma e nos tornar amargos. Mas à luz de Deus compreendemos que o sofrimento
nos oferece a ocasião de nos tornar melhores do que somos. A dor ganha valor
quando nos ajuda a rever prioridades, retomar o que estava esquecido e
abandonar o que nos prejudica, mas tratamos como algo precioso.
Jesus morreu por ser verdadeiramente homem.
Isso também significa que a morte nos humaniza. “Somos mais humanos quando
morre nossa onipotência, quando se desfaz a arrogância com que acreditávamos
dominar o mundo. Somos mais humanos quando perdemos a mania de grandeza, de ter
controle sobre tudo, quando somos expostos ao nosso próprio desamparo e
percebemos nossa própria fragilidade. Trazemos dentro de nós uma ferida que não
fecha, uma fome que não sacia, uma sede que não passa” (Nilson Perissé). Tudo
isso é a nossa abertura ao transcendente, a nossa destinação à vida eterna.
Jesus abraçou a sua morte a partir da
imagem de um grão de trigo: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer,
permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Assim também
podemos entender a nossa vida: tudo o que eu quero manter a todo custo (não
morrer) se estraga e adoece (solidão); tudo o que eu abro mão e deixo ir
(morrer) prepara a minha existência para algo muito maior (muito fruto). Em
nosso deixar cair diariamente o grão de trigo que somos, rezemos: “Senhor, eu
ponho em vós minha esperança. Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito. A
vós, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu
entrego em vossas mãos o meu destino” (Sl 31).
Pe.
Paulo Cezar Mazzi