quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SEGUIR O CORDEIRO ONDE QUER QUE ELE VÁ

 Homilia do 2º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 49,3.5-6; 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34.

 

 “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).  Nós escutamos essas palavras em toda celebração eucarística, antes de recebermos a Comunhão. Após batizar Jesus (liturgia de domingo passado), João o apresenta ao mundo como “o Cordeiro de Deus”. Na história da salvação, a imagem do cordeiro aparece, pela primeira vez, no sacrifício de Isaac. Enquanto Abraão sobe a montanha com Isaac, este pergunta ao pai: “Meu pai, eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o sacrifício?”, ao que Abraão responde: “É Deus quem providenciará o cordeiro, meu filho”. De fato, em lugar de Isaac ser sacrificado, Deus providenciou um cordeiro: “Abraão ergueu os olhos e viu um cordeiro, preso pelos chifres num arbusto; Abraão foi pegar o cordeiro e o ofereceu em sacrifício em lugar de seu filho” (Gn 22,7.8.13).

            Jesus é o Cordeiro que o Pai permitiu que fosse sacrificado no altar da cruz para poupar todos nós, seus filhos e filhas, da condenação da morte, como afirma o apóstolo Paulo: “Quem não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós, como não nos haverá de nos agraciar em tudo junto com ele?” (Rm 8,32).

            Segundo o Evangelho de São João, Jesus foi entregue para ser crucificado no momento em que as famílias judaicas sacrificavam seus cordeiros para celebrarem a festa da páscoa (cf. Jo 19,14). Enquanto os cordeiros morriam sem saber o motivo, Jesus é o Cordeiro de Deus que, livre e conscientemente, escolhe dar a vida pela salvação dos filhos de Deus dispersos pelo mundo (cf. Jo 11,52). Como afirma o autor da carta aos Hebreus, “ele (Cristo) se manifestou para abolir o pecado por meio do seu próprio sacrifício” (Hb 9,26).     

            Jesus é o Cordeiro que “tira o pecado do mundo”. Mas em que sentido ele “tira o pecado”, se o vemos agindo em nós e no mundo à nossa volta? São Paulo afirma que a consequência do pecado é a morte (cf. Rm 6,23). Todo pecado que cometemos produz morte em nós mesmos e no ambiente à nossa volta. Mas “a morte foi absorvida na vitória” (1Cor 15,51) de Cristo na cruz. Ele nos libertou da condenação da morte, que o pecado nos impõe, mas não anulou a nossa liberdade de fazer escolhas e, portanto, de pecar.

            Sendo “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), Jesus nos apresenta o caminho da libertação do pecado: “Quem comete o pecado, é escravo... Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,35-36). A libertação do nosso pecado passa por uma escolha diária: viver como filhos no Filho e não aceitarmos viver como escravos do nosso egoísmo, que sempre busca o que convém aos seus desejos e não o que convém ao nosso verdadeiro bem. A cada dia nós somos chamados a nos considerar “mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus” (Rm 6,11).

            Ao enviar seus discípulos em missão, Jesus disse: “Eis que vos envio como cordeiros entre lobos” (Lc 10,3). Somos discípulos do Cordeiro de Deus. Não podemos nos tornar lobos com a desculpa de que isso é necessário, se quisermos sobreviver no meio dos lobos que nos cercam. Todos os dias nós devemos reafirmar a nossa identificação com o Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, assumindo a atitude de verdadeiros servos d’Aquele que nos chamou desde o ventre materno (cf. Is 49,5), e respondendo como o salmista: “Sacrifício e oblação não quisestes, mas abristes, Senhor, meus ouvidos... E então eu vos disse: ‘Eis que venho!... Com prazer faço a vossa vontade’” (Sl 40,7.8.9)

            Se na Sagrada Escritura a imagem do cordeiro está ligada ao sacrifício, não existe maior sacrifício para nós do que fazer a vontade de Deus. Para tal, temos que sacrificar os desejos e caprichos do nosso egoísmo, buscando todos os dias não o que nos convém, mas o que convém ao Reino de Deus. Não nos esqueçamos, enfim, de que a nossa identidade de discípulos do Cordeiro é assim descrita no livro do Apocalipse: “Eles seguem o Cordeiro aonde quer que ele vá” (Ap 14,4). Não somos nós quem determinamos o caminho, esperando que o Cordeiro nos acompanhe, mas é Ele quem escolhe o caminho que somos chamados a trilhar, em nossa identificação como Seus verdadeiros discípulos.

 

Oração: Santíssimo Pai, o Senhor não poupou o Teu Filho do sacrifício da cruz, para salvar teus filhos dispersos. Eu creio que, junto com Ele, o Senhor me dará todas as graças de que necessito. Torna-me verdadeiro(a) discípulo(a) do Cordeiro! Liberta-me da dominação do pecado. Não quero viver como escravo, mas como filho(a). Ensina-me diariamente a morrer para o pecado e a viver para Ti, obedecendo à Tua vontade. Este é o único sacrifício que Te agrada. Que a cada dia eu me disponha a seguir os passos do Cordeiro aonde quer que ele vá, e não aonde eu gostaria que ele me levasse, pois ele é o único Caminho que me conduz ao Teu Reino. Amém.    

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

 

 

 

 

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