terça-feira, 31 de dezembro de 2024

VIVER O NOVO ANO COMO FILHOS E NÃO COMO ESCRAVOS

 Missa Maria mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

 

Antes de entrarmos no ano de 2025, vamos recordar as palavras de Moisés a Israel, do mesmo entrar na terra prometida: “Lembra-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer... Reconhece no teu coração que o Senhor teu Deus te educava como um homem educa seu filho” (Dt 8,2.5). Para quem olha a vida com os olhos da fé, cada acontecimento tem algo a ensinar, sejam os acontecimentos bons, sejam os ruins, os alegres e os tristes. Para a mentalidade bíblica, a função do pai é “educar” o filho. A palavra “educar” vem do latim educare, educere, que significa literalmente “conduzir para fora” ou “direcionar para fora”. Deus deseja fazer vir para fora o melhor de nós: força, coragem, humanidade, bondade. No entanto, a nossa dificuldade em aceitar sermos educados por Deus pode fazer vir para fora o nosso pior: revolta, raiva,  teimosia, obstinação no erro etc.

            Certamente, muitas coisas que aconteceram ao longo do ano que termina não faziam parte dos nossos projetos, e nem foram causadas por nós. Apesar disso, nós confiamos que “o Senhor desfaz os planos das nações e os projetos que os povos se propõem, mas os desígnios do Senhor são para sempre, e os pensamentos que ele traz no coração, de geração em geração vão perdurar” (Sl 33,10-11). Por isso, bendizemos e agradecemos a Deus não só pelo que pudemos realizar, mas também por aquilo que foi mudado e até mesmo frustrado em nossa vida, porque sua vontade para nós era outra, e a nossa confiança repousa nisso: “Deus faz com que tudo concorra para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio” (Rm 8,28).

Ao entrarmos num novo ano, devemos ter ciência de que “o coração do homem planeja seu caminho, mas é o Senhor que firma seus passos” (Pr 16,9). Estamos aqui para pedir com o salmista: “Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós!” (Sl 66,2). Precisamos que a luz da face do Senhor ilumine o nosso caminho, nos proteja dos perigos e nos dirija segundo a justiça e a verdade. Mais importante de que Deus esteja conosco em nosso caminho de vida neste novo ano, é que cada um de nós se disponha a trilhar o caminho que a sua Palavra nos indica, para que alcancemos a vida e a salvação em seu Filho Jesus Cristo.

            A grande bênção que nós já recebemos de Deus é o fato de Ele ter derramado em nossos “corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!” (Gl 4,6). Esse clamor é uma declaração de confiança: “Eu não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32); “Pai, eu sei que sempre me ouves” (Jo 11,42); “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para atestar que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Não podemos nos comportar perante a vida como escravos (medo), mas como filhos (confiança). Com toda a certeza, cada um de nós está preso a algum tipo de escravidão, com seu próprio consentimento. Isso acontece por causa dos ganhos secundários. Apesar disso, somos chamados a ser livres – “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5,1). Isso supõe aprender a lidar com a frustração, com o tédio, como o “ainda não”, sem cair na tentação de buscar falsas compensações.          

            Estamos no oitavo dia do Natal: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido” (Lc 2,21). A circuncisão era um corte feito na pele do órgão genital do menino, como sinal de consagração, de pertença a Deus. Ora, fazer um pequeno corte em nosso corpo não é tão doloroso quanto tomar a decisão de cortar da nossa vida atitudes, pessoas e situações que comprometem a nossa consagração diária a Deus e à sua vontade. Além disso, hoje é declarado ao mundo o nome do menino que nasceu para a salvação de todo ser humano: “Jesus”, nome que significa “Deus salva”: “Não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12). Em relação a quem ou ao quê você precisa ser salvo(a)? O nome representa a pessoa. Invocar o nome de Jesus significa desejar viver junto d’Ele e pautar a própria conduta imitando-o. Só Jesus pode nos fazer passar da condição de escravos para a condição de filhos: “Se o Filho vos libertar, sereis, realmente, livres” (Jo 8,36).       

Nesta noite pedimos confiantemente ao Pai a sua bênção para o novo ano. “O Senhor te abençoe e te guarde!” (Nm 6,24). Todos precisamos que o Senhor nos guarde não apenas do mal dos homens, mas principalmente do espírito do Mal. Que Ele também nos guarde da covardia, do vitimismo e da falta de vontade em enfrentar aquilo que seremos chamados a enfrentar. “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti” (Nm 6,25). Todos necessitamos da compaixão do Senhor, porque somos falhos e pecadores. Se acontecer de tropeçarmos e cairmos, que possamos nos levantar e prosseguir o caminho, rumo à meta que Deus deseja que alcancemos. “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,26). Todos desejamos a paz, mas esta depende de estarmos na vontade de Deus: quando nos afastamos dessa vontade, perdemos a paz. “Se algo rouba a paz do teu coração, é porque ocupou o lugar de Deus” (São Francisco de Assis).

Que Maria Santíssima, rainha da paz, interceda pela paz no mundo e pelo renascimento da esperança no coração de cada ser humano.

   

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

TODO DESENCONTRO PODE SER TRANSFORMADO EM REENCONTRO

 Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17; Colossenses 3,12-21; Lucas 2,41-52.

 

A febre é sempre um sinal importante: ela indica que há alguma infecção no corpo que precisa ser tratada. No corpo chamado “família” a febre se manifesta normalmente na criança: depressão, transtorno opositor-desafiador (TOD), transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno obsessivo compulsivo (TOC) etc. Quando investigamos a causa da febre descobrimos que as infecções podem ser várias: transtorno de déficit de pai, transtorno de déficit de mãe, ausência de limites, ausência de frustração, ausência de “não”, ausência de afeto, criação/educação terceirizada etc.

Também a Sagrada Família de Nazaré passou por transtornos: espada de dor (cf. Lc 2,35), fuga para o Egito (cf. Mt 2,13), perda do Menino Jesus em Jerusalém (cf. Lc 2,43-44), para nos recordar de que não existe família perfeita, nem ideal. Pais não escolhem filhos e filhos não escolhem pais: a vida nos dá uns aos outros, para que possamos crescer, amadurecer e exercer o cuidado.    

A primeira indicação importante que nos vem do Evangelho é o cuidado da família com a espiritualidade: “Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa” (Lc 2,41). Essa realidade mudou drasticamente: nas famílias onde ainda há pai e mãe, a maioria não pratica nenhuma religião. Cada vez mais as pessoas não veem necessidade de “irem a um templo”; quando rezam, o fazem em casa mesmo. A única pessoa da família que vai ao templo é a avó, via de regra. A atitude de Maria e José de levarem o menino Jesus ao Templo nos recorda uma constatação feita por Içami Tiba: “Pais que levam seus filhos a uma igreja dificilmente terão que visitá-los um dia numa prisão”.  

“Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem” (Lc 2,43). Na vida corrida de hoje em dia quem nota alguém? O horário de trabalho da mãe ou do pai, somado ao tempo de deslocação para o mesmo, impede de notar como os filhos estão. Estes, por sua vez, com os olhos fixados na tela do celular, também não notam como a mãe ou o pai está. A febre do isolamento, do esgotamento, da depressão ou da ansiedade começa a dar sinais, mas ninguém nota; se nota, não se tem coragem de enfrentar a situação, a qual vai exigir um diálogo difícil e a revisão das próprias atitudes.

“Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o encontraram no Templo” (Lc 2,45-46). Nenhuma família está garantida de não perder ninguém. Quando se constata o processo de perda, é preciso iniciar o de busca, de regate, de procura. Os três dias de demora em reencontrar o menino Jesus têm uma ligação teológica com a sua futura ressurreição ao terceiro dia. Portanto, precisamos resgatar a nossa confiança de que, em nossa família, aquilo que se perdeu pode ser reencontrado, assim como aquilo que morreu pode ressuscitar; depende da nossa decisão em trabalharmos unidos a Deus pela reconstrução da nossa casa, pela restauração da nossa família.

“Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura’” (Lc 2,48). As atitudes sinalizam algo, dizem algo. Por que a criança não vai bem, na escola? Por que o filho adolescente está se isolando cada vez mais? Pai/mãe precisa dialogar com o filho, questionar suas atitudes. Isso ajuda a entender o que se passa no seu mundo interior.  

“Jesus respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’” (Lc 2,49). A resposta de Jesus a seus pais contém a chave do seu amadurecimento como pessoa: “devo”. Nenhuma pessoa cresce e se torna responsável fazendo somente o que gosta. É o sentido do dever que torna uma pessoa capaz de tomar decisões firmes e de não retroceder diante das dificuldades. Na medida em que vai crescendo, a criança precisa assumir pequenos deveres. Estudar, arrumar a própria cama, guardar seus brinquedos, ajudar na limpeza da casa são tarefas que não se faz porque se gosta, mas porque se deve fazer. Quem só faz o que gosta não cresce, não se torna adulto e não se responsabiliza pela própria vida; será sempre um adulto infantilizado, um parasita buscando alguém em quem se encostar e a quem sugar.  

“Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente” (Lc 2,51). Só existe obediência quando a mãe ou o pai não busca ser amado(a), mas respeitado(a) pelo filho. O Eclesiástico deixou claro que só é ouvido por Deus na oração quem trata com respeito seus pais e quem não os desampara na velhice.

Ainda uma palavra a respeito da perda: pais que perderam um filho. “Eu devo estar na casa de meu Pai” (Lc 2,49). Filho é dom, e não direito dos pais. Quando a vida inverte as coisas e é a mãe ou o pai que precisa enterrar o filho, é importante lembrar de que aquele filho pertence, antes de tudo, ao Pai. O filho que partiu está na casa do Pai, lugar de cada um de nós; casa onde não há mais dor, nem luto, nem sofrimento, nem lágrimas; lugar onde todos os que foram perdidos serão reencontrados, todos os que morreram serão ressuscitados, e todas as famílias serão restauradas e se tornarão uma só família.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

 

P.S. Países que proíbem ou restringem o uso de celular nas escolas: Suíça, Portugal, Espanha, Austrália, Estados Unidos, França, Finlândia, Holanda, México, Escócia e Canadá. Os pais vão sabotar essa medida no Brasil?

Suécia e outros países abandonam tecnologia e retornam livros impressos para crianças e jovens. 

O que você deu de presente para o seu filho, no Natal? Um brinquedo eletrônico, uma roupa ou um livro?  

Na China o Tik Tok é proibido, e ele é uma rede social chinesa. 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O QUE É O NATAL?

 Missa do Natal. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14 ; Lucas 2,1-14; Isaías 52,7-10; Hebreus 1,1-6; João 1,1-18.

 

“O ser humano caiu, mas Deus desceu. O ser humano caiu miseravelmente, mas Deus desceu misericordiosamente” (Santo Agostinho). 

Natal é descida. Em seu Filho Jesus Cristo, Deus Pai desceu até onde cada ser humano estava caído. Deus desceu para nos fazer subir do abismo em que nos jogamos ou fomos jogados: o abismo do pecado, da dor, do sofrimento, da depressão, da falta de sentido para a vida. “Eu habito em lugar alto e santo, mas estou junto com o humilhado e desamparado, a fim de animar os espíritos desamparados, a fim de animar os corações humilhados" (Is 57,15). 

Natal é luz: “Para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho” (Is 9,1b.5). O nascimento de Jesus é comparado ao “Astro das alturas” (o Sol), por meio do qual Deus nos visita, “para iluminar os que se encontram nas trevas e na sombra da morte” (Lc 1,79). Por mais que fujamos, a sombra da morte sempre parece nos alcançar, por meio de uma doença, de uma perda, de um sofrimento que nos joga numa situação de escuridão, onde não enxergamos luz, saída, sentido. Mas Jesus é “a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9). Ele mesmo se definiu como “a luz do mundo” (Jo 8,12). Mas é preciso que cada ser humano decida deixar as trevas em que se encontra e caminhar na direção da luz. Não nos esqueçamos desse alerta do próprio Jesus: “A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas, porque suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz” (Jo 3,19-20).  

“Luz que vem do alto, luz que traz a vida, vem brilhar em nós, ó luz divina!”

 

Natal é graça: “A graça de Deus se manifestou trazendo a salvação para todos os homens” (Tt 2,11), cumprindo a promessa feita em Is 52,10: “Todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus”. Jesus é a manifestação do amor gratuito de Deus, que nos salva pela graça e não pelo mérito (cf. Ef 2,5.8). Seu amor ama a todos, mas principalmente os que não se sentem ou não são de fato amados pelo mundo. Sua salvação não é oferecida como um prêmio a quem se esforça ou é impecável na sua conduta, mas é como o sol que oferece seus raios gratuitamente sobre bons e maus e como a chuva que se derrama gratuitamente sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45). Jesus nasceu para todos, porque Deus quer que todos sejam salvos (cf. 1Tm 2,4) e também porque todos necessitam ser salvos.

“Eis que já chegou quem devia vir. Deus está conosco: Emanuel, Shekinah! Deus nos visitou, Deus desceu do céu. Céus e terra cantam este dia. Deus desceu do céu e nos visitou. Em seu Filho Santo nos salvou. Graça de Natal, graça fraternal, dentro de Maria ele habitou” (Shekiná, Pe. Zezinho).  

 

 Natal é manjedoura: “Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura” (Lc 2,7). A manjedoura é o lugar onde se coloca comida para os animais. Aquele que teve por primeiro berço uma manjedoura veio nos ensinar que “nem só de pão vive o homem” (Mt 4,4) e que devemos nos esforçar “não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que dura para a vida eterna” (Jo 6,27). Além disso, a manjedoura nos faz uma advertência: “O boi conhece o seu dono, e o jumento aquele que o alimenta, mas o meu povo não me reconhece como seu Deus” (cf. Is 1,3). Nós celebramos o Natal como cristãos ou como pagãos, cujo deus é o estômago? O consumismo perverteu o sentido do Natal ao substituir o essencial pelo excesso e pelo desperdício.  

“Quantas vezes quis tudo pra mim: o poder, o saber, a riqueza... Quão mesquinho parece teu Reino se rejeito as migalhas da mesa” (Irmã Míria Kolling).

 

Natal é hoje: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Aquele cujo nascimento celebramos hoje prometeu estar conosco todos os dias (cf. Mt 28,20), e deseja estar hoje em nossa casa (cf. Lc 19,5): “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20-21). Jesus está presente em nosso presente, nos orientando com sua Palavra, nos alimentando com sua Eucaristia e nos sustentando com a força do seu Espírito.

“Procuro abrigo nos corações; de porta em porta desejo entrar. Se alguém me acolhe com gratidão, faremos juntos a refeição. Se alguém me acolhe com gratidão, faremos juntos a refeição”.

 

Natal é paz na terra: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14). Jesus nasceu para derrubar os muros da inimizade e construir pontes de reconciliação. “Ele é a nossa paz” (Ef 2,14). “Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz” (Is 52,7). Natal pede reconciliação, reaproximação, perdão. Por isso, o Natal nos coloca uma pergunta e nos faz um desafio. A pergunta é: “Onde está teu irmão?” (Gn 4,9); o desafio é: “Não se esconda daquele que é a sua própria carne” (cf. Is 58,7).   

“Onde há ofensa que dói, que eu leve o perdão; onde houver a discórdia que eu leve a união e tua paz!”.

 

Natal é Palavra: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho” (Hb 1,1). Jesus é a Palavra definitiva do Pai para cada filho Seu na face da terra, Palavra que desperta a vida em quem está morto, porque faz passar da morte para a vida aquele que a escuta e nela crê (cf. Jo 5,25): “Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4). O nascimento de Jesus é descrito como o momento no qual “a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Carne é o ser humano na sua fragilidade mais profunda, na sua miséria, na sua mortalidade. Jesus é a Palavra que Deus dirige a cada um de nós quando fazemos a nossa experiência mais profunda de sermos carne. Quando pecamos, essa Palavra nos diz: “Filho, teus pecados estão perdoados” (Mc 2,5). Quando nos perdemos, essa Palavra nos diz: “Eu vim procurar e salvar o que estava perdido” (cf. Lc 19,10). Quando sofremos tribulações, essa Palavra nos diz: “No mundo vocês terão tribulações, mas tenham coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33).  

“Eu guardarei tua Palavra em meu coração. Na tribulação invocarei teu santo Nome, Jesus. A tua destra me sustenta. Da Aliança não esquecerei. Tua Palavra me alimenta: não vacilarei. Leva-me às águas profundas, aviva-me de novo, Senhor! Leva-me às águas profundas e fala ao meu coração!” (Tony Allysson, Águas profundas).

 

Natal é, enfim, tornar-se humano, amar ser humano, não desistir de ser humano, voltar a ser humano: “Neste Natal, faça como Deus: torne-se humano!” (Jung Mo Sung, teólogo coreano).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

FAZER DA NOSSA EXISTÊNCIA UMA OFERENDA A DEUS, PELA SALVAÇÃO DA HUMANIDADE

 Missa do 4º dom. do advento. Palavra de Deus: Miqueias 5,1-4a; Hebreus 10,5-10; Lucas 1,39-45. 

 

Segundo o evangelista Lucas, a vida de cada um de nós está inserida dentro da história da salvação, uma história que abrange três tempos: o tempo da promessa (Antigo Testamento), o tempo do cumprimento (Novo Testamento) e o tempo da Igreja, que se estende até a segunda vinda do Senhor Jesus (Parusia). Nós estamos, especificamente, dentro da última fase da história da salvação.

O tempo da promessa aparece na profecia de Miqueias. A um povo humilhado, angustiado e com um futuro incerto, Deus promete lhe enviar um rei humilde e bom, que vai lhe trazer prosperidade, justiça e harmonia. Detalhe importante: esse rei não nascerá em Jerusalém, no palácio real, onde a vida decorre no meio de intrigas, ambições, corrupções e jogos de poder; mas virá da pequena aldeia de Belém de onde veio o rei Davi, homem segundo o coração de Deus. Ele será a paz, porque trará abundância de vida, harmonia e felicidade plena. A insignificante Belém nos lança uma pergunta: “Onde você procura pelos sinais de Deus em sua vida: nos acontecimentos extraordinários, ou na rotina do seu dia a dia?”.

O grande desafio do tempo da promessa é esperar pelo seu cumprimento: “Deus deixará seu povo ao abandono, até ao tempo em que uma mãe der à luz!” (Mq 5,2). Essa sensação de abandono se refere a um tempo de provação e sofrimento, algo que conhecemos muito bem! No entanto, esse abandono pode se dar também por nós, como Jesus afirma à Igreja de Éfeso: “Você abandonou o seu primeiro amor... Recorde-se onde você caiu, converta-se e retome a conduta de antes” (Ap 2,4-5). Nós até podemos continuar a caminhar com Jesus, mas o fazemos sem o ardor inicial, sem um amor profundo por Ele; talvez, apenas por medo de perder a salvação, mas não por convicção de que Ele é o nosso tudo.   

O Evangelho nos traz o tempo do cumprimento da promessa. O rei prometido já se encontra no ventre de Maria, uma mulher simples e pobre, moradora da insignificante cidade de Nazaré. Estamos diante da “visitação” de Maria a Isabel. Para falar da cura da esterilidade de Sara, mulher de Abraão, a Escritura diz que “o Senhor visitou Sara, como dissera, e fez por ela como prometera. Sara concebeu e deu à luz um filho...” (Gn 21,1-2). Para anunciar o nascimento de Jesus, nosso Salvador, Zacarias disse: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu seu povo” (Lc 1,68). Nós acolhemos as visitas de Deus, ou nos comportamos como a cidade de Jerusalém, quando Jesus a visitou: “Não reconheceste o tempo em que foste visitada!” (Lc 19,44)?  

A visita de Maria fez com que a criança pulasse de alegria no ventre de Isabel e ela ficasse cheia do Espírito Santo (cf. Lc 1,41). Maria e Isabel eram primas. O Evangelho está nos convidando a visitar nossos familiares, a romper o silêncio, a diminuir a distância, a derrubar o muro de separação, a passar por cima do nosso orgulho, a diluir o nosso ressentimento, a vivermos a experiência do milagre da reconciliação. Além disso, hoje somos nós que, junto com o salmista, pedimos: “Lembra-te de mim, Senhor, (...) visita-me com a tua salvação” (Sl 106,4). Cada um de nós necessita ser visitado por Deus, para que a alegria da salvação seja sentida a partir do nosso íntimo. Por isso, em sintonia com o salmo de hoje, nós suplicamos: “Despertai vosso poder, ó nosso Deus, e vinde logo nos trazer a salvação! (...) Visitai a vossa vinha e protegei-a!” (Sl 80,3.15).  

Já meditamos sobre o tempo da promessa (Miqueias) e o tempo do cumprimento (Evangelho). Consideremos agora o tempo da Igreja, o nosso tempo atual. Ele se encontra na carta aos Hebreus, convidando-nos a nos posicionar diante de Deus e da vida como Jesus se posicionou. Desde que veio ao mundo, Jesus escolheu fazer da sua vida uma entrega absoluta à vontade do Pai: “Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,7). Ora, a obediência a Deus implica muitas vezes em sacrificar o nosso ego, os nossos planos, para abraçarmos os planos d’Ele a nosso respeito. O que é que nos move, nos faz todos os dias levantar da cama e enfrentar o mundo: os nossos interesses pessoais, as nossas realizações humanas, ou a fidelidade à missão que o Pai nos confiou?

Para o autor da carta aos Hebreus, fazer a vontade do Pai é fazer da própria vida uma entrega, uma oferenda, um sacrifício: “É graças a esta vontade (escolha diária do Filho em fazer a vontade do Pai) que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb 10,10). A Eucaristia que comungamos é a oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas na cruz. Comungá-la implica em fazermos da nossa vida uma oferenda ao Pai, pela salvação dos nossos irmãos e irmãs. Quem comunga o corpo de Jesus Cristo, mas não está disposto a se sacrificar pela salvação da família, da sociedade humana, da Igreja, do mundo atual, não entendeu o significado da oferenda do corpo de Cristo. Em suma, a pergunta que a Eucaristia nos coloca nunca será: “O que a vida tem a me oferecer?”, mas sempre será: “O que eu tenho a oferecer à vida?”. Isso significa que é a oferenda diária de nós mesmos que fará as pessoas do nosso tempo sentirem-se visitadas por Deus e por Sua salvação.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

DESOBSTRUIR A FONTE INTERNA DA NOSSA ALEGRIA

 Missa do 3º dom. do advento. Palavra de Deus: Sofonias 3,14-18a; Filipenses 4,4-7; Lucas 3,10-18.

 

            “Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém!” (Sf 3,14). Quando foi a última vez que você sentiu alegria? O que é preciso acontecer na sua vida para que você sinta alegria?

            Quando o profeta Sofonias convidou o povo de Israel a se alegrar, o país estava mergulhado na miséria, na violência e no sofrimento. Mesmo diante desse contexto de desolação, o profeta levanta sua voz para anunciar: “Não temas, (...) não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti” (Sf 3,16-17). Ainda que as circunstâncias não sejam favoráveis; ainda que a época em que estamos vivendo seja excessivamente problemática; ainda que estejamos feridos e tenhamos sofrido perdas, não podemos deixar o medo nos engolir, nem nos entregar ao desânimo, porque o Senhor está conosco! Sua presença junto a nós não é uma ameaça, mas um convite à confiança no Seu amor e no Seu poder de tudo transformar.

            Esse mesmo convite à alegria é retomado pelo salmista: “Exultai cantando alegres, habitantes de Sião, porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!” (Is 12,6). A razão da nossa alegria não depende do fato de que tudo esteja correndo bem em nossa vida; ela se apoia na certeza de que Deus é grande; Ele é maior que tudo o que nos acontece e está no meio de nós, junto a nós, dentro de nós, através do Seu Espírito! Portanto, a alegria renasce em nós todas as vezes em que tomamos consciência de que somos habitados por Deus, através do Espírito Santo. Também o apóstolo Paulo, mesmo estando preso, nos convida à alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos” (Fl 4,4). Trata-se de nos alegrar “no Senhor” e por causa do Senhor, em cujas mãos está a nossa existência.

            Não há dúvida de que são muitas as nossas preocupações e os nossos problemas; não há como ignorá-los, mas o apóstolo Paulo nos dá um conselho: “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (Fl 4,6). A inquietação, o medo, o sentimento de ameaça devem dar lugar dentro de nós à confiança e à entrega, fazendo da nossa oração o momento em que colocamos tudo nas mãos de Deus e nos abandonamos por completo aos Seus cuidados. Quando fazemos isso, a inquietação, o medo, a angústia dão lugar à paz: aconteça o que acontecer, estamos sob os cuidados de Deus. Ele sempre faz com que tudo concorra para o bem daqueles que a Ele se confiam e n’Ele esperam.

            Se o motivo da alegria cristã é a proximidade da vinda do Senhor, diante do anúncio desta, feito por João Batista, pessoas de diferentes categorias fizeram-lhe a seguinte pergunta: “Que devemos fazer?” (Lc 3,10.12.14). A alegria está no esperar o Senhor fazendo, isto é, cuidando daquilo que a vida está nos pedindo para cuidar, neste momento. Algumas frases possam nos ajudar a compreender melhor no que consiste a alegria: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita” (Ghandi). “A alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira” (Tolstói). “Há mais alegria em dar do que em receber” (At 20,35). “O sábio não se senta para lamentar-se, mas se põe alegremente em sua tarefa de consertar o dano feito” (Shakspeare). “Não há satisfação maior do que aquela que sentimos quando proporcionamos alegria aos outros” (Masaharu Taniguchi).

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

UMA GERAÇÃO LIGADA NA ESTÉTICA (PELE SEM MANCHA), MAS DESLIGADA DA ÉTICA (CONSCIÊNCIA LIMPA)

Missa da Imaculada Conceição. Palavra de Deus: Gênesis 3,9-15.20; Efésios 1,3-6.11-12; Lucas 1,26-38.

 

Neste ano, a liturgia do segundo domingo do advento cede lugar à Solenidade da Imaculada Conceição, celebrada no dia 08 de dezembro. Recordemos o dogma de fé que fundamenta tal solenidade: “Por uma graça e favor singular de Deus onipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição” (Papa Pio IX, 1854). Em outras palavras, nossa Igreja crê que Maria, diferente de qualquer outro ser humano, foi concebida sem a mancha do pecado original, justamente para ser a mãe do Santo de Deus, Jesus Cristo, nosso Salvador.

O texto do Gênesis nos relata aquilo que a Igreja chama de “pecado original”. Adão e Eva, personagens bíblicos que simbolizam a humanidade nas suas origens, desobedeceram a Deus e comeram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eles são o retrato de todo ser humano que escolhe não viver na dependência de Deus, mas determinar por si mesmo o que é o bem e o que é mal, segundo a sua conveniência. Aqui entra a noção bíblica de pecado: pecar significa “fazer o que é mal aos olhos de Deus” (Sl 51,6). Se alguma coisa nos oferece algum tipo benefício, mas provoca o mal em nós mesmos, em nosso próximo ou na criação (meio ambiente), ela é má aos olhos de Deus e deve ser evitada. O resultado de todo pecado é o sofrimento, a destruição, a infelicidade e a morte.

A pergunta de Deus a Adão é dirigida a cada um de nós, hoje: “Onde você está?” (Gn 3,9). Deus quer que cada um de nós tome consciência de como está sua vida; como temos usado a nossa liberdade; para onde nossas escolhas e nossas decisões estão nos levando e o que elas têm produzido em nossa história pessoal e social. Enquanto Adão se dá conta de que o pecado o afastou de Deus, Eva explica que pecou porque foi enganada: “A serpente enganou-me e eu comi” (Gn 3,13). Na época em que esta página do Gênesis foi escrita, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade, e os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos cananeus. A serpente é apenas um símbolo da sedução do maligno, o “pai da mentira” (Jo 8,44). Nós só pecamos porque nos deixamos enganar, caindo na armadilha do maligno.

A boa notícia no relato do pecado de Adão e Eva é a promessa de que o Filho da Mulher esmagará a cabeça da serpente (cf. Gn 3,15), uma referência a Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria como Santo (cf. Lc 1,35), para nos libertar da condenação do nosso pecado, nos retirar de uma situação de desobediência e tornar o nosso coração capaz de obediência à vontade de Deus, que deseja o nosso verdadeiro bem, a nossa verdadeira felicidade e salvação.

O Evangelho nos anuncia o cumprimento da promessa de Deus, apresentando-nos Maria, a nova Eva, aquela que não dialoga com o maligno, nem se deixa enganar por suas seduções, mas dialoga com Deus na sua consciência, e procura em tudo fazer a sua vontade. A Virgem Maria é saudada pelo anjo Gabriel como “cheia de graça” (cf. Lc 1,28); portanto, como uma pessoa em quem o pecado nunca teve espaço para entrar e macular, sujar, corromper. Diferente de Eva, Maria escolhe obedecer em tudo a Deus, tornando-se, assim, modelo para cada um de nós, sempre que somos convidados a abraçar a missão que Deus deseja nos confiar, para a salvação da humanidade: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). Aqui começa o Natal! Ao dizer “faça-se em mim segundo a tua palavra!”, Maria permite que a Palavra de Deus se faça carne (cf. Jo 1,14), pessoa humana em seu ventre, e nasça Aquele que cujo sangue tem o poder de perdoar nossos pecados (cf. Ef 1,7), verdade atestada também na carta aos Hebreus: “O sangue de Cristo que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha, há de purificar a nossa consciência das obras mortas para que prestemos culto ao Deus vivo” (Hb 9,14).    

            Cristo, vítima sem mancha, nascido da Virgem Maria, imaculada, concebida sem a mancha do pecado original. Ambos são o que cada um de nós é chamado a se tornar: “Em Cristo, ele (Deus Pai) nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor” (Ef 1,4). Nenhum ser humano passa por este mundo sem pecar, sem se manchar: “Se dissermos: ‘Não temos pecado’, enganamo-nos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8). Nossa verdade de filhos de Deus é o fato de que sempre seremos livres para fazer escolhas e tomar decisões, independente das circunstâncias que marcam a nossa vida em cada momento, e nem sempre nossa escolha ou decisão será a de Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38); algumas vezes, em busca de um bem aparente, mas não verdadeiro, nós interromperemos nosso diálogo com Deus, para abrir um diálogo com o Tentador, dizendo-lhe: “Faça-se em mim segundo a tua mentira”. Desse modo, conceberemos o pecado, e mancharemos a nossa história pessoal e social.

            Nesta festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, assumamos o compromisso de cuidar mais da ética (comportamento justo) do que da estética (remover manchas da nossa pele). Não nos esqueçamos do alerta do Papa Francisco: muitos filhos comem pão sujo em casa, porque a maneira como seus pais ganham dinheiro é desonesta. Lembremos do conselho de Jesus: “Deem o que possuem em esmola (socorram os pobres), e tudo ficará puro (sem mácula) para vocês” (Lc 11,41). Cuidemos, enfim, do nosso olhar: “A lâmpada do corpo é o teu olho. Se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado (limpo, imaculado); mas se ele for mau, teu corpo também ficará escuro (sujo, maculado)” (Lc 11,34).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

ESPERAR PELO SENHOR EM PÉ E DE CABEÇA ERGUIDA

 Missa do 1º dom. do advento. Palavra de Deus: Jeremias 33,14-16; 1Tessalonicenses 3,12 – 4,2; Lucas 21,25-28.34-36.

 

Três tempos marcam a nossa vida: o passado, a respeito do qual nada mais podemos fazer, a não ser aprender, aceitar e nos reconciliar; o presente, a respeito do qual somos chamados a abraçar a tarefa que a vida está nos pedindo; o futuro, a respeito do qual nada sabemos, apenas que somos chamados a confiar, pois “o futuro a Deus pertence” (ditado popular), e esse mesmo Deus nos garante na sua Palavra: “Farei cumprir a promessa de bens futuros... Farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra” (Jr 33,14.15). Que Deus sempre cumpre Suas promessas está afirmado por Josué, ao introduzir o povo de Israel na Terra Prometida: “Reconheçam que, de todas as promessas que o Senhor Deus fez em favor de vocês, nenhuma ficou sem cumprimento: tudo se realizou em favor de vocês e nenhuma delas falhou” (citação livre de Js 24,14).

Em relação aos três tempos que marcam a nossa história pessoal e social, nós só temos acesso imediato ao tempo presente. Ele é, de fato, um “presente”, uma oportunidade, um dom da vida, para fazermos escolhas e tomarmos decisões que, de duas, uma: ou farão dele uma mera repetição do passado, ou o abrirão a uma transformação que será testemunhada por nós no futuro. É aqui que entra o sentido do tempo do advento. Advento: esperar por Aquele que vem. Toda celebração eucarística é uma afirmação da nossa esperança na volta de Cristo: “Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26).

“Até que ele venha” – eis a certeza que fundamenta a nossa esperança e sustenta a nossa fé. Nosso presente não está fechado nos problemas que enfrentamos, nas dores que sofremos e nas angústias que suportamos, mas aberto Àquele que vem para salvar os que por ele esperam: “Ele aparecerá uma segunda vez, (...) àquele que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28). Quem desconhece essa verdade tem o seu presente tomado pela ansiedade, pelo medo e pela angústia. Se a ansiedade é o sentimento mais comum no mundo atual é porque falta à maioria das pessoas a confiança quanto ao futuro: esperar pelo nosso Salvador.

O problema é que o nosso presente está marcado por muita coisa negativa que corrói a nossa esperança: o aumento assustador de doenças, a contínua destruição do meio ambiente e as consequentes catástrofes climáticas, a intensidade do aquecimento global, a piora do ser humano como pessoa, a desintegração das famílias, a perda crescente de fé etc. No entanto, esse é o tempo em que fomos chamados a viver e a testemunhar a nossa fé. Por isso, Jesus nos convoca a uma atitude firme: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21,28).

Preste atenção à sua postura corporal e à das pessoas à sua volta: nós estamos em pé ou prostrados, derrubados, caídos? Caminhamos de cabeça erguida ou “derrubada”, inclinada para baixo, voltada para o chão? A cena mais comum são as pessoas com a cabeça inclinada, olhando para o celular. Essa postura diz muito! Somos uma geração puxada para baixo, encurvada, que se prostra facilmente diante de cada acontecimento ruim, cuja cabeça parece pesar sabe-se lá quantos quilos, e por isso vive caída para a frente, olhando apenas para baixo. É a atitude de quem vive o seu presente fechado em si mesmo, não aberto ao futuro, desprovido de qualquer tipo de esperança.

Hoje Jesus diz a cada um de nós: “Levante a cabeça!”. A vida não é somente aquilo que estamos vivendo no momento presente. Não temos que negar ou ignorar que estamos de certa forma presos ao medo, à angústia, à dor, à ansiedade, a situações de injustiça etc. Mas devemos erguer a cabeça porque “a nossa libertação está próxima”! Essa libertação se chama, na Sagrada Escritura, de “Dia do Senhor”, Dia em que Deus intervirá na história humana definitivamente, enviando seu Filho como Juiz para separar o bem do mal, para recolher o trigo (homens justos) no celeiro de Deus e para esmagar as uvas (homens injustos) com os seus pés (cf. Ap 14,14-20); o Dia em que o Senhor Jesus “exterminará todos os que exterminam a terra” (cf. Ap 11,18).

Ora, não se espera pelo “Dia do Senhor” de braços cruzados, com apatia e acomodação; muito menos com uma postura irresponsável perante a própria existência, no estilo “deixa a vida me levar”. Por isso, Jesus nos alerta: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida” (Lc 21,34). Esse estilo de vida pagão está cada vez mais presente na vida dos cristãos do mundo atual. Basta considerar como a maioria das pessoas vive seu domingo, seu fim de semana ou um feriado santo. O coração insensível é símbolo de uma consciência anestesiada, distraída – a indústria do entretenimento trabalha incansavelmente para nos manter distraídos e alienados (fora da realidade); é uma consciência que se tornou incapaz de ouvir a voz do Senhor dentro de si mesma.

O contrário de um cristão que vive como pagão, com a consciência distraída, desfocada, ocupada com “urgências” e distante do essencial, é o cristão que mantem-se firme na sua vida de oração: “Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21,36). Jesus entende a oração não como blindagem, mas como fonte de força para não tombarmos diante dos revezes da vida. A verdade é que, enquanto caminhamos ao encontro do Senhor que vem, todos nós temos momentos de tropeço e de queda. O importante é nos levantar dessas quedas e retomar diariamente o caminho, e só a oração nos dá força para isso. Sem uma vida disciplinada de oração, nossa espera pelo Senhor se esfarela, dissipa-se, evapora. Jesus foi muito claro: “Orai a todo momento”, e não só quando a situação fica difícil ou quando nos sentimos ameaçados. Orar a todo momento é manter a consciência voltada para Deus e pedir, como o salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação!” (Sl 25,4-5).  Tenha um abençoado e fecundo início de Advento!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

QUEM EU PERMITO QUE EXERÇA DOMÍNIO SOBRE MIM?

 Missa de Cristo, Rei do universo. Palavra de Deus: Daniel 7,13-14; Apocalipse 1,5-8; João 18,33b-37.

 

            Para entendermos o título atribuído a Jesus como Rei do universo, recordemos o que Deus disse ao profeta Samuel, quando o povo de Israel quis ter um rei: “Não é a ti que eles rejeitam, mas é a mim que eles rejeitam, porque não querem mais que eu reine sobre eles” (1Sm 8,7). Ao pedir um rei, Israel queria, na verdade, ter a sua segurança garantida por um exército, pois era uma época de muitos conflitos e guerras com diversos povos. O erro de Israel foi se esquecer de que um rei só consegue manter um exército cobrando impostos do seu povo.

            Quem reina sobre nós? Quem nós queremos ou permitimos que reine sobre nós? O rei exerce domínio sobre seu povo. Alguém, alguma situação ou algo exerce domínio sobre você atualmente? Não nos esqueçamos de que ninguém é totalmente livre e autônomo; todo ser humano escolhe debaixo de qual domínio se colocar. Quem não escolhe livremente depender de Deus, acaba por sofrer uma dependência imposta a partir de fora, tornando-se escravo de um vício, de um pecado, de uma relação doentia ou do próprio espírito do mal.

            A história humana já teve inúmeros reis, mas, na verdade, só existe um rei que faz o mundo dobrar os joelhos diante dele: o dinheiro. O fascínio por ele provoca guerras, violência e morte. A servidão a esse “rei” corrompe políticos e líderes religiosos, destrói casamentos e distancia os pais dos filhos. O próprio Jesus foi tentado a “facilitar” a sua vida colocando a sua segurança na ilusão das riquezas: “Eu te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser” (Lc 4,6). Mas Jesus escolheu viver na absoluta dependência do Pai e jamais na falsa autonomia de uma vida financeira confortável. Resumindo, por trás da servidão ao dinheiro está uma dependência escolhida de submissão a Satanás, o “príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30) .

            Depois de descrever o desmoronamento dos reinos humanos, que produzem sofrimento, injustiça, violência e morte, Daniel nos fala do “Filho do Homem”, representação do Deus humano, a quem foi entregue o poder de julgar todas as nações: “Seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7,14). Quem livremente se coloca debaixo do seu domínio salvífico é liberto de todo domínio que escraviza, adoece, fere e mata: “Se o Filho vos libertar, vós sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,36).

            Mas a questão é: nós realmente queremos ser livres? Ser livre significa responsabilizar-se pela sua própria vida. A maioria das pessoas escolhe responsabilizar alguém ou as circunstâncias pelos males que lhes acontecem, esquecendo-se de que são as escolhas e as decisões delas no dia a dia que determinam o seu próprio destino. Que as circunstâncias influenciam a nossa vida, isso é fato, mas influenciar não significa determinar. O que, de fato, determina a nossa vida são as nossas decisões diante das circunstâncias em que nos encontramos. Neste sentido, cada um precisa tomar nas mãos as rédeas da própria vida e assumir o domínio sobre suas escolhas e decisões.

            A liberdade que Jesus veio nos oferecer está intimamente ligada ao conhecimento da verdade: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).  “Eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37). Jesus nunca foi dominado por nenhum tipo de escravidão porque escolheu viver na verdade do Pai. Essa verdade é a Palavra de Deus (“tua palavra é verdade”: Jo 17,17) que nos liberta das mentiras do diabo – o “pai da mentira” (Jo 8,44). Se muitas pessoas hoje vivem debaixo de algum domínio que as escraviza e adoece é porque não querem escutar a voz de Jesus, isto é, não querem obedecer à verdade da sua Palavra, abrindo mão das falsas compensações provenientes da mentira do seu pecado ou dos seus enganos.

            Algumas perguntas que cada um de nós precisa se fazer, nesta Festa de Cristo Rei: Quem eu permito que exerça domínio sobre mim: o Rei do Universo ou o príncipe deste mundo? Eu escolho me orientar diariamente pela verdade que é Cristo ou pelo “pai da mentira”, que é o diabo? Eu me responsabilizo pelo meu destino, que é construído todos os dias pela liberdade que tenho ao fazer escolhas e tomar decisões, ou me coloco numa posição de vítima dos acontecimentos?

 

            Senhor Jesus Cristo, o Pai lhe concedeu o poder de salvar todo ser humano, mas tal salvação é uma escolha que cada pessoa tem que fazer. Eu escolho obedecer à sua voz e viver segundo a verdade do seu Evangelho. Retira-me debaixo do domínio do espírito do mal, o príncipe deste mundo, e guarda-me sob o seu domínio, capaz de me libertar, curar e salvar. Venha o seu Reino! Reine sobre a consciência e o coração de cada ser humano. Estende o seu domínio salvífico sobre toda pessoa escrava do pecado pessoal e desumanizada pelo pecado social. Reine, Senhor, em nossas casas, escolas, locais de trabalho, cidades e países. Revela-nos a verdade capaz de nos libertar das mentiras e dos enganos que nos adoecem. Destina cada um de nós para o seu Reino Eterno. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi     

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O FIM ESTÁ DENTRO DE UMA FINALIDADE

 Missa do 33º dom. comum. Palavra de Deus: Daniel 12,1-3; Hebreus 10,11-14.18; Marcos 13,24-32.

 

Os dois textos principais da Liturgia da Palavra de hoje – o profeta Daniel e Jesus (Evangelho) – querem nos tornar conscientes de que existe um fim. Este fim é a intervenção definitiva de Deus na história humana, para acabar de vez com o mal, a injustiça e a morte e fazer triunfar o bem, a justiça e a vida. Tanto Daniel quanto Jesus falam conosco a partir de uma linguagem apocalíptica, segundo a qual a história humana não está nas mãos de nenhum homem poderoso da face da terra, mas de Deus, cujo Reino se estabelecerá após o fim de todos os reinos humanos, que causaram dor e sofrimento à humanidade.

Aos judeus, que estavam sendo massacrados pelo rei Antíoco IV Epífanes (167 aC), Daniel encoraja afirmando a intervenção de Deus através do Arcanjo Miguel, que se levantará para defender o povo de Deus, que vive mergulhado num tempo de grande angústia: “Será um tempo de angústia, como nunca houve até então... Mas, nesse tempo, teu povo será salvo” (Dn 12,1). Nós também vivemos um tempo de grande angústia, não somente devido aos problemas do tempo presente, mas em relação ao nosso próprio futuro. O que agrava o sentimento de angústia em nós é o enfraquecimento da esperança e a consequente perda de sentido da vida. Temos a impressão de que o mal sempre vence o bem, e o próprio Deus parece ausente da história humana, tendo abandonado o homem a si mesmo.

Mas, na época de Daniel, os judeus perguntavam: ainda que Deus intervenha e faça justiça, acabando com o mal no mundo, de que adiantaria isso se tantos que nós amamos morreram e não serão beneficiados com a salvação de Deus? Eis aqui a resposta de Daniel: os mortos ressuscitarão e terão destinos diferentes: os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida eterna; os que fizeram o mal, para a vergonha eterna (cf. Jo 5,28-29!). Nada ficará impune. Portanto, se vivemos num mundo onde cada vez mais pessoas desistem de fazer o bem e se entregam à indiferença, lembremos a advertência de Jesus: “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,13; Mc 13,13).   

Vivendo num tempo de grande angústia, precisamos renovar diariamente nossa confiança em Deus, rezando com o salmista: “Meu destino está seguro em vossas mãos! Eis por que meu coração está em festa, minha alma rejubila de alegria, e até meu corpo no repouso (na morte!) está tranquilo; pois não haveis de me deixar entregue à morte” (Sl 16,5.9-10). Nossa vida não está nas mãos do acaso, mas de Jesus, a quem o Pai confiou o destino de salvação da humanidade. Se existe um fim, esse fim significa finalidade: “recapitular (reunir, resgatar, sanar) em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10).

Jesus também nos torna conscientes do fim, no Evangelho de hoje. Esse fim será precedido por uma grande tribulação (“No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo!” – Jo 16,33). Após essa tribulação, sol, lua e estrelas perderão o brilho, uma linguagem bíblica apocalíptica para falar da intervenção de Deus para destruir o mal e libertar o seu povo (cf. Is 13,10). Aqui voltamos para a profecia de Daniel: “Os que tiverem sido sábios, brilharão como o firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude, brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12,3). É uma referência à glorificação dos corpos dos ressuscitados.

Na verdade, essa escuridão total do céu já se deu no momento da morte de Jesus (cf. Mc 15,33). Ali começou o julgamento de Deus sobre a humanidade e a condenação de todos os que fazem o mal. Jesus, por sua vez, contrasta a escuridão do céu com a luz da sua vinda gloriosa: “Então vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os anjos aos quatro cantos da terra e reunirá os eleitos de Deus, de uma extremidade à outra da terra” (Mc 13,26-27). Portanto, nós, cristãos, não vivemos angustiados esperando pelo fim do mundo, mas vivemos cheios de esperança pela vinda do nosso Salvador Jesus Cristo: “Ele virá uma segunda vez, (...) para aqueles que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28).

  Olhemos para a nossa história pessoal e social. Nós já experimentamos a angústia do fim diversas vezes: o fim da infância, da adolescência, da juventude, da idade adulta, da saúde, do relacionamento, da vida de uma pessoa que amamos, do nosso animal de estimação, de um sonho etc. Para quantos de nós o fim de algo precioso conseguiu colocar fim à nossa alegria, à nossa fé, à nossa esperança em Deus? Mas hoje a Palavra de Deus nos convida a olhar para além do fim. Não existe “algo” além do fim, mas “Alguém”, nosso Salvador Jesus, Aquele a quem a Igreja, animada, sustentada, pela força do Espírito Santo, chama continuamente: “Vem!” (cf. Ap 22,17). Portanto, o fim está dentro de uma finalidade...

 

Oração: Senhor Jesus, a minha existência está dentro de uma finalidade e não entregue às mãos do acaso. Cada fim que eu já experimentei em minha história de vida só foi permitido pelo Pai porque há uma finalidade, há um propósito, uma razão de ser que ultrapassa a minha compreensão, mas que eu confio, porque sei que o meu destino está seguro em tuas mãos. Quero confiar que o fim deste mundo injusto é necessário para o nascimento de um mundo novo, de “novos céus e de uma nova terra onde habitará a justiça” (2Pd 3,13). Que o Senhor, ao vir, me encontre perseverando no bem, cuidando com fidelidade e amor da tarefa que me foi confiada. Ajuda-me a atravessar esse tempo de grande angústia mantendo meu coração firmado na intervenção final do Pai em vista da restauração de todas as coisas em Ti. Que o teu Santo Espírito complete em mim a obra começada, até o dia da Tua vinda. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

QUAL BARULHO CHAMA A SUA ATENÇÃO?

 Missa do 32º dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 17,10-16; Hebreus 9,24-28; Marcos 12,38-44.

 

            A liturgia da Palavra nos coloca diante de duas viúvas. Elas representam toda pessoa que precisa ser amparada, protegida. Ao meu redor há alguma viúva? Há alguma pessoa desamparada e desprotegida, para a qual eu posso fazer algo? Na verdade, nossas cidades estão cheias de “viúvas”, de mulheres que lutam para sustentar, sozinhas, sua casa e seus filhos. Nossas igrejas também estão cheias de “viúvas”, de mulheres que vêm sozinhas às nossas celebrações: em suas casas, são as únicas que buscam a Deus.

            O profeta Elias, homem de Deus, encontra uma viúva em Sarepta. É uma época de grande fome, por falta de chuva. Elias está com fome e com sede, e pede ajuda à viúva. Esta, por sua vez, não tem praticamente nada em casa: “Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra” (1Rs 17,12). Mas Elias provoca a fé desta viúva: “Primeiro, prepara-me com isso um pãozinho, e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até ao dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra’” (1Rs 17,13-14). E, de fato, não faltou alimento na casa da viúva até o dia em que voltou a chover.

            Às vezes, Deus entra em nossa vida não como Aquele que dá, mas como Aquele que pede. Ele deseja saber se nós vivemos fechados em nós mesmos ou se, mesmo tendo quase nada, não perdemos a sensibilidade de socorrer alguém que esteja mais desamparado do que nós. Deus deseja saber se a nossa fé n’Ele se mantém também no tempo da fome, no tempo do pouco, do quase nada, confiando que “Ele dá alimento aos famintos... Ele ampara a viúva e o órfão” (Sl 146,7.9). Só experimenta o socorro de Deus quem, apesar das suas necessidades, é capaz de socorrer quem está mais necessitado do que ele mesmo.  

            Antes de chamar a nossa atenção para a oferta da viúva, no Evangelho, Jesus nos convida a observar e a tomar cuidado com determinados líderes religiosos que, ao invés de cuidar dos desamparados, estão em constante busca de reconhecimento para alimentar a própria vaidade e afirmar a sua posição de poder. São homens que se afastam da simplicidade, que alimentam um padrão de vida caro e que, quando se aproximam de alguma “viúva”, é em vista de explorá-la financeiramente. São homens que frequentam constantemente as casas das viúvas ricas e nunca encontram tempo para visitar uma viúva pobre. Quando falece um paroquiano pobre, por exemplo, nunca são encontrados para fazer a encomendação do corpo; já quando falece um paroquiano rico, antecipam-se em entrar em contato com a família e prestarem toda a assistência necessária. Quem sabe sua dedicação exemplar, embora hipócrita e interesseira, seja reconhecida e retribuída com uma oferta robusta na missa de sétimo dia?... Em relação a esse tipo de líder religioso, Jesus é muito claro: “Tomem cuidado!” (Mc 12,38); literalmente, “Afastem-se desse tipo de líder religioso!”.   

            Depois de denunciar o péssimo exemplo de alguns líderes religiosos, Jesus convida seus discípulos a aprenderem com a atitude de uma pobre viúva, que depositou no cofre das esmolas do Templo duas pequenas moedinhas. No texto grego, língua em que foram escritos os Evangelhos, as moedinhas se chamam “leptá”. O “leptá” era uma moeda de cobre, a menor e mais insignificante das moedas judaicas. Detalhe: o cofre das esmolas era feito de bronze; quando as moedas caíam dentro faziam barulho. Ora, as ofertas dos ricos faziam muito barulho, pois eles “depositavam grandes quantias” (Mc 12,41)! Quão insignificante deve ter sido o “barulho” das duas moedinhas da viúva!

            Quem é que faz barulho nas nossas comunidades, ao executar um trabalho voluntário ou ao efetuar uma oferta? Não nos esqueçamos de que, quanto mais vazia uma carroça, mais barulho ela faz. Além disso, nossos ouvidos são como os ouvidos de Jesus, capazes de ouvir o insignificante barulho da “insignificante” presença das “viúvas” em nossas comunidades? Sabemos reconhecer e agradecer a doação do dízimo tanto de quem dá “muito” como de quem dá “pouco”? A aplicação do dízimo tem como prioridade as melhorias na Matriz e nas capelas, ou o conforto da casa paroquial ou, pior ainda, as frequentes saídas do pároco para descansar?   

            Para terminar, não nos esqueçamos de que a viúva do Evangelho é a imagem do próprio Jesus: ela “ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Mc 12,44); da mesma forma, Ele oferecerá sua vida na cruz, pela salvação de todo ser humano. Em outras palavras, Jesus se reconheceu numa pobre viúva e não nos líderes religiosos do seu tempo. Qualquer semelhança com a nossa época não é mera coincidência.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

SANTIFICAÇÃO: NOS TORNARMOS A PESSOA QUE FOMOS CHAMADOS A SER

 Missa de todos os Santos. Palavra de Deus: Apocalipse 7,2-4.9-14; 1 João 3,1-3; Mateus 5,1-12a.

 

Existe a pessoa que somos agora: imperfeita, falha, pecadora, movida pelos interesses do próprio ego; mas existe também a pessoa que somos a chamados a nos tornar: a nossa configuração a Jesus Cristo, “o Santo de Deus” (Jo 6,69), o Filho obediente ao Pai, Aquele que escolheu se deixar conduzir pelo Espírito Santo. Todos somos chamados a ser santos, porque o nosso Deus é Santo.

Segundo o livro do Apocalipse, as pessoas santas trazem consigo “a marca do Deus vivo” (Ap 7,2). Diferente de uma tatuagem, essa marca não pode ser vista, porque ela se encontra na consciência da pessoa. É uma marca de pertença. Ela é dada à pessoa que tem a convicção de que nenhum bem pode ser encontrado fora de Deus (cf. Sl 16,2-3). Ainda segundo o livro do Apocalipse, os santos “vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14). A nossa santificação se dá na terra, em meio a muitas tribulações. É em meio a uma sociedade de valores invertidos que cada cristão é chamado a ter mãos puras, um coração marcado pela inocência e uma mente não dirigida para o mal (cf. Sl 24,4).

É verdade que algumas das tribulações que passamos na vida são resultado da nossa obstinação em caminhar fora da vontade de Deus. Contudo, quando procuramos caminhar na fidelidade a Deus, vamos experimentar muitas tribulações, nas quais a nossa vida será mergulhada no sangue do Cordeiro, isto é, no sofrimento de Cristo na cruz pela sua fidelidade ao Pai: “Embora sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência Deus por aquilo que sofreu” (Hb 5,8). Sempre que escolhemos obedecer a Deus, vamos experimentar algum tipo de sofrimento, principalmente de frustração para o nosso ego. Se é verdade que o mundo não reconhece os filhos de Deus (cf. 1Jo 3,1), devemos estar cientes de que precisamos aprender a suportar não apenas sermos ignorados ou tratados com indiferença pelo mundo, mas também sermos criticados, ridicularizados e perseguidos pelo mesmo.      

Jesus, no Evangelho, nos propõe um caminho de santificação: as bem-aventuranças. Elas são atitudes de vida. A proposta de Jesus é que vivamos diariamente a nossa santificação por meio dessas atitudes: ser pobre em espírito, isto é, viver na absoluta dependência de Deus e na confiança em seu amor; ser aflito, no sentido de deixar-se afetar pelo sofrimento alheio; ser manso, tendo paciência consigo mesmo e com os outros; ter fome e sede de justiça, no sentido de não desistir de ser uma pessoa justa e de trabalhar em favor daquilo que é justo; agir com misericórdia para consigo mesmo e para com os outros; ser puro de coração, tendo reta intenção e enxergando o bem que habita em cada pessoa; promover a paz, evitando discórdias desnecessárias e mantendo o foco naquilo que aproxima e reconcilia as pessoas; suportar ser perseguido ou criticado por ser uma pessoa justa, isto é, que procura viver segundo a vontade de Deus; enfim, suportar ser perseguido ou criticado por servir a Jesus e à causa do Evangelho. 

            Segundo o apóstolo João, a santificação é um processo que dura a vida toda e só vai ter a sua conclusão no momento da nossa ressurreição, do nosso encontro com o Senhor Jesus. Partimos daquilo que somos e caminhamos na direção daquilo que somos chamados a ser. O que nós somos como pessoa não é algo definitivo. Estamos em processo, em transformação: a santificação tem por objetivo nos configurar a Jesus, de forma que as pessoas O vejam e O experimentem em nossas atitudes. Eis alguns exemplos concretos de santidade: o neto que decidiu morar com os avós, que estão bastante idosos e com Alzheimer, para cuidar deles ao invés de colocá-los num asilo; a mulher que passou casada a vida toda com um marido infiel, e agora que ele se encontra doente, decidiu cuidar dele; a pessoa que carregou consigo, durante anos, uma doença ou uma ferida e nunca reclamou disso com ninguém...

            Uma última palavra. Na sua Exortação Apostólica sobre a Santidade, o Papa Francisco afirma que “todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra” (GE, n.14). É na rotina de cada dia, nas ocupações diárias, que cada um de nós é chamado a santificar-se e a santificar o mundo. Na prática, isso significa não nos conformar com o mundo (cf. Rm 12,1), isto é, não permitir que o mundo nos deforme, mas procurar distinguir qual é a vontade de Deus diante de cada escolha que fazemos, de cada decisão que tomamos e de cada situação que vivemos.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

É MELHOR VOLTAR A VER OU CONTINUAR CEGO?

 Missa do 30º dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 31,7-9; Hebreus 5,1-6; Marcos 10,46-52.

 

              Estamos diante do último milagre de Jesus no Evangelho de São Marcos: a cura do cego Bartimeu. Bartimeu não nasceu cego, mas perdeu a visão em algum momento da sua vida. Ele é o nosso retrato. Nós também perdemos a visão: deixamos de enxergar um horizonte para a nossa vida; deixamos de enxergar a beleza e o valor da pessoa pela qual um dia nos apaixonamos; deixamos de ver sentido na missão que abraçamos; deixamos de enxergar Deus junto a nós; a rotina e a correria da vida tiraram de nós a capacidade de enxergar as pessoas com as quais moramos, convivemos e/ou trabalhamos; para agravar a nossa cegueira, nossos olhos vivem grudados numa tela – grudados porque viciados –, um vício que nos torna cegos para o que está acontecendo à nossa volta.

               De uma certa forma, a cegueira de Bartimeu é o retrato da nossa fé: nós não podemos ver Deus. O apóstolo Paulo afirma que nós “caminhamos pela fé, não pela visão clara” (2Cor 5,7). Num momento de grande aflição na sua vida, quando não enxergava mais solução para o seu problema, Agar, escrava de Sara, esposa de Abraão, foi chorar perto de uma fonte no deserto. Ali Deus falou com ela, e Agar chamou Deus de “El-Roí”, que pode ser traduzido por: “Tu és o Deus que me vê (que vê a minha aflição) e me faz ver, quando eu não via mais saída para a minha vida” (cf. Gn 16,7-14). O Deus que não podemos ver nos vê – conhece o que se passa conosco – e nos faz ver, nos devolve a capacidade de enxergar a vida para além do problema que estamos enfrentando agora.

Bartimeu não podia ver, mas podia gritar: “Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: ‘Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!’” (Mc 10,47). A fé é exatamente isso: eu grito Àquele que não vejo, mas que sei que me ouve: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma” (Sl 138,3). Mesmo sendo repreendido para que se calasse, Bartimeu gritava mais ainda, até ser ouvido por Jesus. Talvez muitos hoje desencoragem você a rezar, a gritar a Deus... A quais pessoas você dá ouvidos: àquelas que lhe dizem que não adianta gritar, porque Deus não escuta, ou àquelas que lhe dizem: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” (Mc 10,49)?

Quando Bartimeu se colocou diante de Jesus, este lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” (Mc 10,51). Jesus sabia que Bartimeu era cego, mas sua pergunta era necessária para que tomasse consciência do que de fato ele queria para a sua vida. O que eu quero que Jesus me faça: que Ele me dê apenas um anestésico para a minha dor ou que coloque o dedo na minha ferida mais profunda e a faça sangrar, para poder ser tratada e curada? Quero que Jesus me carregue no colo ou que fortaleça as minhas pernas para que eu continue o meu caminho de seguimento d’Ele como verdadeiro discípulo? Quero que Jesus resolva todos os meus problemas num passe de mágica ou que me dê força e sabedoria para colocar em ordem a minha vida?

Bartimeu tinha plena consciência do que queria: “Mestre, que eu possa ver novamente!”. A tradução do texto litúrgico simplificou a palavra do texto grego (“anablepo”), língua original em que foi escrito o Evangelho. Bartimeu não pediu apenas para “ver”, “enxergar”, mas para “ver de novo”, o que comprova que ele não havia nascido cego. Eis a questão: você quer voltar a enxergar? Diante da sua decisão em não mais querer ver, para, quem sabe, não se responsabilizar, você quer voltar a ver e, consequente, se comprometer no processo da cura, da mudança, da libertação do problema que lhe aflige? Você quer voltar a se responsabilizar por sua história de vida e pela missão que você é?

Eis a resposta de Jesus ao pedido de Bartimeu: “Vai, a tua fé te curou” (Mc 10,52). A fé que me cura é a fé que não desiste de gritar ao Deus que eu não vejo, mas que me vê! A fé que me cura é a fé que não perde a coragem de gritar, mesmo quando muitos me dizem: “Não adianta!”. A fé que me cura é aquela que, mesmo quando me sinto numa situação de exílio, abandonado por Deus, continuo a clamar: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas colherão com alegria” (Sl 126,4-5). A fé que me cura é aquela que me faz seguir Jesus continuamente, no cotidiano da minha vida, exatamente como Bartimeu: “ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (Mc 10,52); seguia continuamente, fielmente, permanentemente.

Não nos esqueçamos: “caminhamos pela fé, não pela visão clara” (2Cor 5,7). O que nos mantém no seguimento de Jesus Cristo não é o que vemos, mas o que cremos. Não é o fato de vermos tudo claramente que nos faz caminhar, mas o fato de que cremos, amamos e nos deixamos conduzir por Aquele que nos vê e nos faz ver além das cegueiras do nosso tempo.

 

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi