quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

CONVERSÃO: PERMITIR QUE A VIDA NOS MUDE NAQUILO QUE PRECISAMOS MUDAR

 Missa do 3. dom. comum. Palavra de Deus: Jonas 3,1-5.10; 1Coríntios 7,29-31; Marcos 1,14-20.

 

                Jonas prega à cidade de Nínive sua necessidade de conversão, se não quiser ser destruída. Paulo nos convida a uma conversão, a uma mudança na maneira de entender a vida, “pois a figura deste mundo passa” (1Cor 7,31). Jesus inicia seu ministério convidando-nos a nos converter e a crer no Evangelho. Portanto, o apelo central da Palavra de Deus para nós neste dia é a conversão.

            No sentido geral, conversão significa mudança. Ela se mostra necessária quando nos damos conta de que tomamos uma direção errada na vida. No sentido bíblico, conversão não é apenas mudança de direção, mas um “voltar-se”: Deus nos convida a nos voltar para Ele, para a sua verdade, para o seu Reino, para a sua salvação. Sempre que o ser humano se afasta de Deus e decide por ele mesmo o que é o bem e o que é o mal, começa a percorrer um caminho de autodestruição. Porque não quer que seus filhos se destruam com as próprias mãos, Deus sempre enviou à humanidade profetas como Jonas, para apelar à consciência das pessoas e questioná-las a respeito da direção de morte que estão dando à própria vida.

Como Jonas, nossa missão é ser, no seio das nossas cidades mergulhadas numa constante cultura de morte, um sinal de vida. A presença profética de Jonas nos convida à fé e à confiança: era preciso que ele gastasse três dias, para percorrer toda cidade de Nínive e atingir os seus habitantes, mas bastou apenas um dia de pregação, e as pessoas convenceram uma às outras da necessidade da mudança de atitudes. Aqui fica claro que a conversão não é provocada por nós, mas pela graça de Deus no coração do ser humano. É Ele quem convence a pessoa da necessidade de mudança. A nós cabe ser fiéis à missão que Deus nos confia, cumprindo-a na alegria e na fé de que o bom senso pode triunfar sobre a insensatez do ser humano.

São Paulo nos fala da necessidade de mudarmos nossa maneira de entender a vida, reavaliando aquilo que consideramos importante. As inúmeras mortes causadas por acidentes e por doenças como AVC, infarto, covid 19 e câncer, deveriam nos tornar conscientes de algo que insistimos em não aceitar como fato real: “o tempo está abreviado” (1Cor 7,29). Nós, seres humanos, gostamos de nos iludir e de nos manter alheios à realidade de que a nossa vida neste mundo é extremamente breve. Gastamos a maior parte do nosso tempo e das nossas energias com coisas supérfluas, vazias e sem sentido, e nos esquecemos de que o sentido da nossa vida não está na sua duração, mas na intensidade com que vivemos o nosso breve tempo neste mundo, cumprindo a missão para a qual nascemos.

As palavras do apóstolo Paulo nos dão um choque de realidade, ao nos lembrar que nenhuma situação será definitiva enquanto estivermos neste mundo. Nossas posses são temporárias – e podemos perdê-las de uma hora para outra; a presença das pessoas que nós amamos é temporária em nossa vida; nenhum estado emocional e nenhuma situação existencial, como alegria e tristeza, vitória e derrota, sucesso e fracasso, são definitivos em nós. E por que? Biblicamente, “porque não temos aqui cidade permanente, mas estamos em busca da cidade futura” (Hb 13,14), que é o Reino de Deus; existencialmente, porque a vida é dinâmica e nos provoca a nos mantermos aberto àquilo que ela quer nos ensinar, em vista do nosso crescimento, do nosso amadurecimento e da nossa humanização.  

Enfim, queremos nos abrir às primeiras palavras de Jesus no Evangelho segundo São Marcos. Elas ecoam no exato no momento em que a voz de João Batista é silenciada. A voz de João foi silenciada, mas o Verbo de Deus (Palavra viva, Palavra feita pessoa humana) não foi silenciado. Sua verdade precisa chegar ao coração de cada ser humano. E sua verdade é: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15). Em meio ao nosso tempo humano, tempo que passa rapidamente e que escapa das nossas mãos (cronos), existe um outro tempo, um tempo que se completa: é o tempo de Deus, tempo em que sua graça age como força de salvação (kairós). Na pessoa de Jesus, o Pai visita os reinos humanos, marcados por violência e injustiças, para oferecer o seu Reino, Reino de justiça e de paz, Reino de vida e de salvação, Reino que acolhe a todos, mas que tem lugar preferencial para aqueles que são ignorados pelos reinos humanos: os pobres, os doentes, os deficientes, as mulheres, os idosos, os fracos, os que não correspondem aos padrões de exigência do Mercado que controla os reinos humanos.   

O “Reino de Deus” foi a paixão de Jesus. Ele falará dele por meio de inúmeras parábolas, e toda cura de enfermos e expulsão de demônios que Jesus realizar serão a prova viva de que “o Reino de Deus já chegou”. O Reino não é uma consolação para a outra vida (eterna), mas a manifestação de Deus nesta vida: em seu Filho Jesus, Ele veio curar o ser humano doente, libertá-lo da sua prisão, redimi-lo da sua culpa, retirá-lo da sua morte.

Para acolher o Reino de Deus na pessoa de Jesus Cristo, é preciso conversão. “Não é possível entrar no reino acolhendo como senhor a Deus, defensor dos pobres, e continuar ao mesmo tempo acumulando riquezas precisamente às custas deles” (Pagola, Jesus, aproximação histórica, p.135). Em Jesus Cristo, o Pai veio oferecer a todos o seu perdão, perdão que nos convida a criar um comportamento social mais fraterno e solidário. É preciso acabar com o ódio entre as pessoas e adotar uma postura mais cristã em relação aos adversários, pois Deus não pode reinar numa sociedade onde as pessoas vivem retribuindo o mal com o mal.

Hoje, ao rezarmos o Pai nosso e ao pedir: “Venha a nós o vosso Reino”, peçamos: “Pai, vem reinar. A injustiça e o sofrimento continuam presentes em toda parte. Ninguém conseguirá extirpá-los definitivamente da face da terra. Revela tua força salvadora de maneira plena. Só tu podes mudas as coisas de uma vez por todas, manifestando-te como Pai de todos e transformando a vida para sempre” (Pagola, Jesus, aproximação histórica, p.139).

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O QUE EU ESTOU PROCURANDO?

 Missa do 2. dom. comum. Palavra de Deus: 1Samuel 3,3b-10.19; 1Coríntios 6,13c-15a.17-20; João 1,35-42.

  

As leituras que ouvimos hoje, sobretudo a do livro de Samuel e do Evangelho, nos revelam que nossa existência é um chamado. Nós existimos porque Deus nos chamou à vida. Desde o ventre materno, pronunciou o nosso nome (cf. Is 49,1; Gl 1,15). Como o Papa Francisco gosta de dizer, “o importante é que cada um” descubra seu próprio chamado e “traga à luz o melhor de si mesmo” (GE n.11): “Deus permita que você consiga identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a sua vida” (GE n.24).

Esse é o ponto! A vida de cada um de nós é única. Ela contém uma palavra única de Deus a ser comunicada ao mundo, uma palavra que traduz em nossa existência a presença de Jesus junto às pessoas que convivem conosco e que necessitam da Sua palavra como luz, orientação e salvação. Portanto, nossa existência é uma “pro-vocação”: em Seu Filho Jesus, o Pai nos “pro-voca”, nos chama a responder à vida, à tarefa que Ele quis nos confiar ao nos chamar à existência. Se os animais vivem a partir dos seus próprios instintos, nós, pessoas humanas, somos provocados a viver a partir da nossa vocação, do chamado que recebemos de Deus; se os animais simplesmente “reagem” ao que lhes acontece, nós podemos “responder” aos acontecimentos, procurando nos responsabilizar pela nossa existência, vivendo nossa vida com sentido, e não apenas sobrevivendo.

Discernir o chamado de Deus é um processo lento, e às vezes até mesmo doloroso. Ninguém de nós nasce com uma bola de cristal que esclarece todas as nossas dúvidas. É ouvindo a vida, ouvindo os acontecimentos e, sobretudo, ouvindo a nossa própria alma que vamos nos damos conta da “pro-vocação” que está nos sendo feita. Assim foi com Samuel. Deus poderia ter chamado os filhos do sacerdote Eli para serem seus profetas, mas eles eram pessoas corrompidas, assim como o pai (cf. 1Sm 2). Da mesma forma, acontece hoje: numa época em que também nossa Igreja tem sua credibilidade abalada por escândalos e por uma apática e medíocre atuação pastoral (com algumas exceções), Deus continua a chamar pessoas para “fazerem a diferença”.

Assim como fez Samuel, nós também precisamos ter a coragem de nos perguntar pelo nosso lugar na Igreja e na sociedade, respondendo ao Deus que continuamente nos chama: “Fala, que teu servo escuta” (1Sm 3,10). Precisamos não fugir das “provocações” de Deus e ter a coragem de responder ao que a vida está nos pedindo neste momento. É importante ouvir as inquietações do nosso coração e entender que, somente quando abraçarmos a nossa vocação e formos fiéis à missão que a vida quer nos confiar, é que encontraremos paz e nos sentiremos pessoas realizadas. Diariamente, Deus continuará a “abrir os nossos ouvidos”, falando conosco por meio dos acontecimentos, esperando de nós a mesma disponibilidade de coração que encontrou no salmista: “Eis que venho... Com prazer faço a vossa vontade” (Sl 40,8-9).

Algo nos ajuda a discernir, a perceber as provocações que Deus está nos fazendo neste momento, em vista da missão que somos chamados a abraçar. É a pergunta que Jesus faz a dois discípulos de João, que o deixam e passam a seguir Jesus: “Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: ‘O que vocês estão procurando?’” (Jo 1,38). Nós não gostamos de perguntas, mas de respostas. Nós procuramos por respostas. Mas, às vezes, a melhor resposta que a vida nos dá é nos questionar, é nos fazer perguntas novas e profundas que nos obriguem a parar de fugir de nós mesmos, a ouvir as inquietações do nosso coração e a responder Àquele que está nos provocando.  

Nós fazemos uma porção de coisas, e a maior parte do tempo, as fazemos no “piloto automático”, de maneira mecânica, quase que instintiva, sem nos perguntar para onde aquilo que está nos levando e se aquilo está respondendo à nossa pergunta de fundo, que é a pergunta pelo sentido da nossa vida. Vivendo assim, muitas pessoas deixaram de ver sentido nos compromissos que haviam abraçado e “pularam fora do barco”. As redes sociais estão cheias de pessoas perdidas, que não são capazes de responder nem para si mesmas o que estão procurando. Para preencherem o vazio que sentem, muitas delas correm diariamente atrás do vazio e se tornam ainda mais vazias. Muitas pessoas têm como tarefa principal encheram a própria vida de bagulho e de barulho, simplesmente para não ouvirem a pergunta que grita dentro delas: “O que você está procurando?”.

Nós, seres humanos, não procuramos por alguma coisa, mas por Alguém: “É vossa face que eu procuro, Senhor. Não me escondas a tua face” (Sl 27,8-9). Nós procuramos por Aquele que nos procura. Jesus procura o ser humano para salvá-lo da desorientação e da morte, para salvá-lo de si mesmo. Aquele que nos pergunta hoje: “O que vocês estão procurando?” é o mesmo que afirmou que “veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Resta-nos deixarmos nos encontrar por Ele. Resta-nos segui-Lo, buscar saber onde Ele mora – Ele quer habitar dentro de cada um de nós! Resta-nos nos tornar íntimos d’Ele e permitir que que Ele se torne íntimo de nós.  

“Encontramos o Messias” (Jo 1,41). Jesus é a resposta à nossa busca mais profunda de vida e de salvação. “Encontrei um homem que me disse tudo o que eu fiz! Encontrei um homem que me ajudou a compreender a sede que eu trazia dentro de mim. Encontrei Aquele que é a fonte de água viva para saciar a minha sede de sentido!” (citação livre de Jo 4,29). Que ao longo deste ano nos deixemos encontrar por Jesus e pela verdade do seu Evangelho. Que possamos ouvir as inquietações mais profundas do nosso coração e aprendamos a suportar a inquietante pergunta – “o que eu estou procurando?”. Que não tenhamos medo de responder a essa pergunta fundamental para a nossa vida, tanto no plano humano quanto no espiritual e vocacional.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A ÁGUA DO NOSSO BATISMO DEVE ESCORRER E LEVAR VIDA AOS OUTROS

 Missa do Batismo do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 42,1-4.6-7; Atos dos Apóstolos 10,34-38; Marcos 1,7-11.

 

            Toda pessoa que nasce, nasce para algo, para realizar uma missão, para abraçar uma tarefa em favor do bem da humanidade. Sabendo disso, Jesus, por volta dos 30 anos, sai de sua casa, de sua família, de Nazaré, e dirige-se ao deserto, onde vivia João Batista. Jesus deseja ser batizado, deseja mergulhar sua vida em Deus e ouvir de Deus qual é o propósito da sua existência.

Para ser batizado, Jesus se dirige para o deserto, onde João Batista vivia. O deserto não é apenas um lugar geográfico, mas “teológico”, isto é, um lugar que nos “fala” de Deus, porque é um lugar marcado pelo silêncio, lugar onde nos afastamos de tudo aquilo que é supérfluo, lugar onde nos é possível ouvir a voz de Deus e compreender qual é o sentido da nossa existência.    

De maneira muito simples e direta, o evangelista Marcos narra o batismo de Jesus: “Jesus veio de Nazaré da Galileia, e foi batizado por João no rio Jordão. E logo, ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele” (Mc 1,9-10). Embora a água fosse o elemento essencial do batismo, Marcos chama a nossa atenção para o que acontece no momento em que Jesus sai da água: o céu se abre! Por muito tempo, o povo de Israel (também a humanidade) experimentou em sua vida de fé o céu fechado, como se Deus não falasse mais ao ser humano. Na verdade, o céu estava fechado porque a humanidade havia fechado seu coração para Deus, não ouvindo mais os seus apelos.

No momento do batismo de Jesus, o céu se abre, e se abre não somente sobre Jesus, mas sobre cada ser humano. Em seu Filho Jesus Cristo, o Pai tem algo a dizer à humanidade. Jesus é o próprio céu aberto, porque veio nos falar e nos revelar o Pai. É graças a ele que todos nós “podemos nos aproximar de Deus com toda a confiança” (Ef 3,12). Mais do que tudo, o céu se abriu no momento do batismo de Jesus para que o Pai derramasse sobre ele o Espírito Santo! Com isso, o evangelista que nos ensinar que não é a água do batismo que nos dá o Espírito, mas o Pai. A água é um elemento visível por meio do qual entendemos a absoluta importância do Espírito Santo em nossa vida. Na água está a vida. Sem água, não existe vida; sem água, tudo o que está vivo morre. Como a água dá vida a todas as coisas, assim o Espírito Santo nos vivifica a partir de dentro. E esse Espírito vem do céu, vem do Pai, e é dado a todos os seus filhos e filhas.

Inúmeras pessoas foram batizadas e receberam o Espírito Santo, mas são poucas aquelas que decidiram, após o batismo, conduzir sua vida obedecendo à voz do Espírito Santo em sua consciência: “Todos os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). O batismo não é um rito mágico, mas um momento de decisão: viver verdadeiramente como filho de Deus, obedecendo à sua voz, fazendo a sua vontade e abraçando a missão para a qual ele chamou cada um de nós à existência.  

“Coloquei sobre ele o meu espírito... Ele... não desanimará nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra... Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão... para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas” (Is 42,1.4.6.7). Essas palavras nos tornam conscientes de que o Espírito Santo que recebemos no batismo nos é dado em função da missão que somos chamados a abraçar. A água do nosso batismo não pode se transformar numa água parada, estancada, morta, mas pede para fluir, para escorrer, para levar vida às pessoas com as quais convivemos em nosso dia a dia.   

O cristão batizado é chamado a se tornar uma fonte de água viva para as pessoas que têm sede de Deus, sede de justiça, de misericórdia, de amor, sede de fé, de esperança e de sentido. Se “batismo” significa “mergulho”, somos chamados a viver mergulhados em Deus, para podermos mergulhar outras pessoas n’Ele. Quantas pessoas hoje estão mergulhadas no desespero? Quantos estão mergulhados no vício, num comportamento autodestrutivo? Quantos estão mergulhados no vazio e na falta de sentido? Nosso batismo nos pede para sermos para essas pessoas um “céu aberto”, debaixo do qual possam voltar a ouvir Deus falando aos seus corações e convidando-as a mergulhar n’Ele, verdadeira e única fonte de água vida (cf. Jr 2,13).

Por fim, a cena do batismo de Jesus se encerra com uma declaração do Pai para o Filho: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer” (Mc 1,11). Há poucos dias atrás, o apóstolo Paulo nos lembrava de que não somos escravos, mas filhos, porque recebemos o Espírito de Jesus que clama em nós: “Abbá. Papai!” (Gl 4,6). Esse clamor é, na verdade, uma declaração de fé: não somos órfãos, nem escravos, mas filhos. O Espírito Santo atesta, comprova, que somos filhos de Deus (cf. Rm 8,16). Jesus quer nos dar a mesma confiança que ele tinha no Pai. Nossa vida não está nas mãos do acaso, mas do Pai que nos ama e cuida de nós, no Pai que declara que cada um de nós é Seu filho amado.

Se é assim, porque muitas pessoas, apesar de batizadas, não se sentem nem filhas de Deus, nem amadas por Ele? Porque o batismo nos convida a cultivar um relacionamento de filhos com o Pai. Depois do batismo, o céu nunca mais se fechou sobre Jesus, mas se manteve aberto, porque ele procurou manter seu diálogo com o Pai diariamente, por meio da oração. Jesus quer nos introduzir nessa experiência de intimidade com o Pai. Ele quer nos fazer sentir não somente filhos, mas filhos amados. O Pai ama cada um de nós como ama Jesus, como um filho único. A consciência do nosso batismo deve provocar em nós proximidade e intimidade com o Pai, mergulhados em seu amor, vivendo da força do seu Espírito e sustentados por suas mãos na realização da missão que Ele confia a cada um de nós.

 

Oração: Amado Pai, mergulha-me no teu amor! Abre novamente os céus e fala ao meu coração, fortalecendo em mim a consciência de ser também teu filho amado, tua filha amada. Derrama sobre mim a água viva do teu Espírito, lavando-me, purificando-me, reavivando-me a partir de dentro. Que eu possa mergulhar todos os dias em ti, por meio da oração, bebendo da fonte da tua graça. Que a água do meu batismo flua em mim e escorra por meio de mim, levando amor, fé, esperança e alegria àqueles que convivem comigo. À semelhança de teu Filho Jesus, quero deixar-me conduzir pelo teu Espírito e andar por toda a parte fazendo o bem, sendo luz para quem está na escuridão, libertação para quem está preso e orientação para quem está perdido. Assim seja!

 

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

QUE MINHA VIDA MANIFESTE DEUS ÀS OUTRAS PESSOAS

Missa da Epifania (manifestação) do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 2,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

 

            Na noite de Natal, um anjo do Senhor anunciou aos pastores: “Nasceu para vós um Salvador que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Até então, o nascimento de Jesus tinha sido anunciado como salvação somente ao povo judeu. Mas hoje, na festa da Epifania, palavra que significa “manifestação”, Deus se manifesta por meio de uma estrela a alguns magos do Oriente, respondendo à pergunta que não somente eles, mas que todo ser humano carrega no coração: a pergunta pela salvação, pelo sentido da vida.

            Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Por isso, Ele se manifesta na vida de cada pessoa de uma forma particular, provocando sua consciência, inquietando seu coração, convidando cada um a fazer uma peregrinação, a iniciar um caminho em busca da verdade que liberta, em busca da luz que nos tira das trevas da ignorância, do erro e da falta de sentido de vida: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60,1). Deus Pai convida cada ser humano a se levantar da sua prostração, a sair da escuridão em que se encontra, e caminhar na direção de Seu Filho, luz que “ilumina todo ser humano que vem a este mundo” (Jo 1,9). De fato, Jesus é o “sol nascente que nos veio visitar, para iluminar a todos os que se encontram nas trevas e nas sombras da morte” (Lc 1,78-79).

            O que foi aquela estrela que guiou os magos até Jesus? Ela foi a forma particular que Deus usou para falar ao coração dos magos. Nosso mundo é marcado pela diversidade: diversidade de pessoas, de povos, de culturas e também de religiões. Deus respeita a diversidade e sabe dialogar com cada ser humano, com cada povo e com cada cultura. Porque deseja salvar todos os povos, Ele tem inúmeros caminhos para falar ao coração humano. Não nos cabe dizer a Deus qual caminho Ele deve usar para salvar; nos cabe, sim, estar atentos para os pequenos sinais da Sua manifestação em nossa vida pessoal e social; nos cabe deixar provocar pela ação do Espírito Santo e nos dispor a fazer um caminho com Deus, que nada mais é do que seguir os passos de Seu Filho, o Caminho que conduz à luz e à salvação.

            A luz da estrela que guiou os magos até Jesus, reconhecendo-o como Salvador de todos os povos, nos provoca a vivermos de tal modo que a nossa existência fale de Deus para as pessoas que estão à nossa volta. Sempre é importante lembrar: eu não posso conduzir alguém para Deus se eu mesmo não vivo em Deus. Nossa maior tragédia enquanto Igreja, enquanto cristãos, é quando nossas atitudes ocultam Deus, escondem sua luz, afastando as pessoas do Seu desejo de salvá-las. Não tanto “apesar” das nossas fraquezas, mas permitindo que a graça de Deus aja em nossas fraquezas, devemos “falar” de Deus para as pessoas com a nossa vida, de modo que fique claro para elas que nós sabemos em quem acreditamos, em quem depositamos a nossa fé e a nossa esperança.

            Nossa tarefa como luz, como manifestação de Deus para as pessoas do nosso tempo, sempre será vivida em contraste com as trevas. De fato, a luz só é percebida no contraste com a escuridão. Isso significa que o cristão deve diferenciar-se do mundo, no sentido de não viver como uma pessoa “mundana”. Isso também significa que a luz da nossa vivência cristã deve se manifestar justamente no meio da escuridão do mundo. Quando os cristãos se distanciam do mundo e se resguardam dentro das igrejas, estão fazendo o oposto do que a estrela fez, impedindo as pessoas de serem provocadas e buscar Deus em seu caminho de vida.

            Ainda sobre isso, é importante considerar que muitas pessoas do nosso tempo reagem à luz como se fossem morcegos. Habituadas à escuridão do individualismo, da indiferença para com as injustiças à sua volta e da agressividade própria da intolerância dos tempos atuais, elas não estão abertas à luz, ao menos num primeiro momento. O cristão não pode pretender ser um holofote que agride com sua luz os olhos das outras pessoas, impondo-lhes a “verdade” da sua ortodoxia, da sua “rigidez” religiosa. A luz deve dialogar com quem está habituado a viver na escuridão, convidando a pessoa a fazer um caminho, a abrir-se a um processo de aproximação gradual da luz, da verdade, até que ela compreenda que o benefício de viver na luz é grandemente superior aos ganhos secundários das trevas.  

            Hoje nossos joelhos se dobram diante do Pai, agradecendo-O pelo nascimento de Seu Filho, manifestação do Seu amor pelo ser humano e do Seu desejo de salvá-lo. Agradecemos cada estrela que o Pai faz brilhar no céu escuro da humanidade, provocando cada ser humano a sair da escuridão em que se encontra e a fazer um caminho de libertação, de amadurecimento, de cura, deixando-se iluminar, conduzir e curar por Aquele que é o Caminho, a resposta à pergunta mais profunda que o ser humano tem de felicidade, de paz e de sentido para a sua vida. Diante do ouro, do incenso e da mirra que os magos ofereceram a Jesus, pedimos que o Pai nos ensine a enxergar em cada ser humano o ouro da sua dignidade e da sua unicidade, o incenso do sagrado que carrega em si como Seu filho amado e a mirra da sua fragilidade, espaço por meio do qual a força do Pai se manifesta como amor que redime, como bálsamo que alivia a dor e como convite ao amadurecimento e à superação dos seus obstáculos.  

           

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

 

 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

QUEM DESEJA ESQUECER 2020 RECUSA-SE A APRENDER O QUE ELE VEIO ENSINAR

 Missa Maria, mãe de Deus. Dia mundial da paz. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

 

            A celebração de hoje marca a passagem de um ano para outro. O que fazer com o ano de 2020, que termina? “Devolvê-lo”, porque “veio com vírus”? Muitos dizem que 2020 é um ano para ser esquecido. No entanto, quando o povo de Israel chegou ao fim da caminhada pelo deserto e estava às portas da Terra Prometida, Deus ordenou a Moisés dizer ao povo: “Não se esqueça de todo o caminho que o Senhor seu Deus fez você percorrer no deserto” (Dt 8,2); “Não se esqueça do Senhor seu Deus (de como Ele sustentou você na travessia do deserto)” (Dt 8,11); “Se você se esquecer do Senhor seu Deus, morrerá na Terra em que está para entrar” (Dt 8,19).

            A nossa tendência, enquanto seres humanos, é apagar da nossa lembrança os sofrimentos que passamos. Como o ano de 2020 foi marcado por muito sofrimento, especialmente devido ao coronavírus e suas consequências – morte, luto, perda, enfraquecimento da economia, desemprego, isolamento, distanciamento etc. – a grande maioria das pessoas deseja que este ano seja esquecido. Mas Deus nos ensina que quem quer se esquecer rapidamente do sofrimento que enfrentou não aprendeu nada com ele, e quem se recusa a aprender com o sofrimento continuará a errar pela vida e precisará sofrer dores ainda maiores, até que aprenda aquilo que tem que aprender, para modificar suas atitudes.

            2020 não é um ano para ser esquecido, mas para ser lembrado como o ano em que a humanidade foi forçada a parar e a rever suas atitudes, especialmente sua relação com o meio ambiente. Este ano que termina nos jogou numa profunda crise, e crise significa oportunidade de mudança, de crescimento, de purificação, de amadurecimento. Enquanto muitos terminam esse ano melhores, mais sábios, mais humildes, mais conscientes, mais responsáveis, outros o terminam piores: mais ignorantes, mais estúpidos, mais irresponsáveis, mais cínicos, mais desumanos. A crise é assim mesmo: ela faz vir para fora aquilo que temos dentro de nós. Quem tem abertura para o crescimento, aprende, amadurece e se torna melhor depois de passar pelo sofrimento; quem não tem essa abertura, quem não aceita aprender com a vida, sai do sofrimento pior, responsabilizando os outros pelo seu fracasso como pessoa.

            Sem dúvida que a maioria das pessoas deseja que 2021 seja um ano melhor. Mas quem está disposto a se tornar uma pessoa melhor? Quem de nós, que hoje celebra a passagem do ano diante de Deus, está disposto a se tornar um cristão melhor? Todos querem que Deus os abençoe no novo ano que nasce (Salmo 66, que acabamos de rezar), mas quem está disposto a viver o novo ano na obediência à vontade de Deus? Aqui mais uma vez é preciso lembrar: todos querem que Deus esteja em seu caminho de vida, abençoando seus projetos, mas poucos se sujeitam a caminhar na vida segundo a vontade de Deus. Todos suplicam: “Que o Senhor faça brilhar sobre nós a sua face e se compadeça de nós. Que o Senhor volte para nós o seu rosto e nos dê a paz” (citação livre de Nm 6,25-26), mas quantos, na prática, viverão a maior parte dos seus dias neste novo ano de costas para Deus, sem tempo para cultivar sua vida de oração, seu relacionamento com Ele?

            Nesta noite, em que celebramos Maria, Mãe de Deus Filho, a Escritura nos recorda que “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, (...) para que todos recebêssemos a filiação adotiva... Assim já não és mais escravo, mas filho” (Gl 4,4-5.7). Deus não quer que vivamos o ano novo escravos da ignorância, escravos da tecnologia, escravos do pecado, escravos da mentira – da ilusão de ganhar na mega sena. Deus nos convida a viver o novo ano como filhos; filhos que estão abertos a aprender com o Pai e com nosso irmão mais velho, Jesus; filhos que desejam se deixar conduzir pelo Espírito Santo, que clama em nós a palavra “Abá, Papai!” (Gl 4,6). O Espírito Santo é o Espírito da Verdade. Ele deseja nos tirar do espírito da ignorância em relação à ciência, aos apelos do meio ambiente, aos apelos da própria vida, para que modifiquemos as atitudes que estão nos destruindo enquanto humanidade.  

            Oito dias após o Natal, o Evangelho nos coloca diante de Maria, que sempre procurou guardar e meditar em seu coração os acontecimentos que afetavam sua existência neste mundo. Mais uma vez é preciso dizer que os acontecimentos que nos afetaram em 2020 precisam ser guardados e meditados em nosso coração, não esquecidos. Guardar e meditar no coração aquilo que nos acontece significa nos lembrar de que “o Senhor desfaz os planos das nações e os projetos que os povos se propõem, mas os desígnios do Senhor são para sempre, e os pensamentos que Ele traz no coração de geração em geração vão perdurar” (Sl 33,10-11). Por isso, nos fará bem começar este ano novo pedindo que Deus disponha da nossa vida e faça prevalecer em nossa história pessoal e social não os nossos projetos, normalmente infectados pelo vírus do nosso egoísmo, mas sim os Seus desígnios, desígnios que visam nos dar um futuro e uma esperança.   

“Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido” (Lc 2,21). Nosso ano novo começa diante do nome de Jesus, o único nome que nos foi dado debaixo do céu pelo qual possamos ser salvos (cf. At 4,12). O nome de Jesus não é mágico; o nome representa a sua pessoa. A nossa salvação depende do nosso relacionamento com a pessoa de Jesus Cristo, especialmente procurando viver como Ele viveu, nos comportar como Ele se comportou. É nisso que consiste a nossa salvação.

Enfim, neste Dia Mundial da Paz, o Papa Francisco nos lembra que a paz nasce do cuidado. Sem a cultura ou a atitude do cuidado, não há paz. O primeiro cuidado é com a pessoa humana, o que significa respeito pela sua dignidade e solidariedade perante suas necessidades. Depois, vem o cuidado com o bem comum, o que envolve nossas atitudes perante a sociedade: cuidar do espaço em que vivemos, humanizando nossas cidades. Por fim, o cuidado com a criação, com o meio ambiente, com a Amazônia, com o Planeta.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

FAMÍLIA: FORTALECER OS VÍNCULOS NA HORA DA DOR

 Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-21; Lucas 2,22-40.

 

Há uma ligação estreita entre Natal e família. Natal é família. A maior parte das pessoas celebra o Natal em família. O próprio Deus preparou uma família para que seu Filho viesse ao mundo. No entanto, nossa ideia ou concepção de família precisa se alargar. Há muito tempo a família tradicional – pai, mãe e filhos – deixou de ser o único modelo ou a configuração mais comum de família. A maior parte das famílias hoje não se encaixa mais nesse modelo: a grande maioria é chefiada pela mãe e o pai está ausente; no lugar do sacramento do matrimônio temos uniões irregulares, vínculos conjugais frágeis e troca frequente de parceiros, com filhos nascidos de diferentes pais e convivendo de maneira conflitiva dentro da mesma casa. Além disso, a educação recebida dos pais foi terceirizada pelos colégios particulares – a minoria –, e pela rua – a maioria –, sendo que a internet passou a influenciar fortemente, para o bem e para o mal, a cabeça das novas gerações. Enfim, a desorientação em que se encontra a humanidade atualmente tem na família o seu termômetro mais fiel, e a ação pastoral da nossa Igreja está distante da maioria das famílias.

Essa realidade desafiadora encontra no Evangelho de hoje a sua orientação: “Maria e José levaram Jesus (recém-nascido) a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22). Maria e José nos ensinam que todo filho é um dom de Deus não para os próprios pais, mas para a humanidade, e assim como ele precisa ser cuidado e alimentado fisicamente, precisa também, desde pequeno, ser cuidado e alimentado espiritualmente; ele precisa crescer perto de Deus, inserido numa religião, dentro da qual ele descobrirá o sentido da sua vida, a razão da sua existência.

Devido ao contratestemunho de muitos cristãos, ao materialismo do mundo moderno e à burocracia pastoral da nossa Igreja, muitas crianças já não são trazidas para o batismo ou para a catequese. Elas crescem sem qualquer referência religiosa, inclusive dentro de casa, onde ali não se cultiva espiritualidade. Além dessa carência espiritual, existe hoje carência de educação – “cria-se” filhos, mas não “se educa” filhos. Independente da condição social, as gerações que chegam às escolas são marcadas por uma perceptível fragilidade emocional: são crianças que não sabem lidar com o não, que não suportam serem frustradas. Enquanto algumas são excessivamente mimadas, outras são desprovidas de qualquer referência afetiva; enquanto algumas têm pais ausentes, sempre correndo atrás de dinheiro para sustentar um padrão de vida supérfluo, muitas outras têm pais viciados na bebida e em outras drogas, alheios às suas necessidades de crescimento e de amadurecimento.

O cuidado com a família começa com o cuidado com o(a) cuidador(a) da casa. Nossas paróquias são desafiadas a se aproximarem daqueles que estão à frente de suas famílias e oferecer-lhes amparo emocional e espiritual. Aquele que cuida dos outros deve deixar-se cuidar por Deus e colocar-se debaixo de Sua autoridade, para que possa exercer uma saudável e equilibrada autoridade sobre seus filhos. Mãe e pai precisam conhecer seus próprios limites e não admitirem serem sugados por seus filhos, mas educá-los para caminhem com suas próprias pernas e responsabilizem-se, desde cedo, por pequenas tarefas, de modo a formarem seu caráter; caso contrário, crescerão como parasitas e serão pessoas apáticas perante a vida.     

Um fato nos chama a atenção no Evangelho de hoje: no exato momento em que Maria e José são abençoados por Simeão, recebem dele uma profecia que fala de sofrimento: o filho será um sinal de contradição – por ser verdadeiro, agradará a uns e desagradará a outros; a mãe – o que supõe que quando isso acontecer, José já terá falecido – sofrerá muito, por ver seu filho ser rejeitado pelos mesmos homens aos quais veio salvar. Isso significa que a bênção de Deus não é garantia de blindagem contra dor e sofrimento. Por mais que uma família seja religiosa, ela vive em um mundo contrário à vida e aos valores do Evangelho, um mundo que, se permite que se fale de Deus, é apenas enquanto “filosofia barata de felicidade pessoal” e não como autoridade espiritual que deve guiar a consciência das pessoas em suas atitudes diárias.  

Não existe família que atravesse este mundo sem ser ferida por alguma espada de dor. Além disso, toda família que desejar viver segundo o Evangelho sofrerá intensos ataques por parte do mundo. A Sagrada Família de Nazaré jamais foi blindada contra a dor e a infelicidade; muito pelo contrário. A imagem da “espada de dor” desafia os pais de hoje a educarem seus filhos para a vida real. Desde pequenos, eles precisam tomar consciência de que a vida comporta perda, morte, luto, doença, limites, frustrações, derrotas, cruz. A melhor herança que os pais podem deixar para os filhos é a capacidade de resistirem às “pancadas” existenciais, de olhar a vida nos olhos e não fugir das responsabilidades, a capacidade de lidarem com as crises normais do amadurecimento que todo ser humano é chamado a lidar.    

“O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). Crescer, tornar-se forte e adquirir sabedoria fazem parte de um processo, e todo processo exige tempo, paciência, comportando avanços e retrocessos. Deus conceda a sua graça e a sua bênção a todas as famílias, curando as feridas dos relacionamentos, restabelecendo os vínculos, derramando o remédio do perdão sobre toda mágoa ou ressentimento, protegendo e guardando as crianças e adolescentes do abuso sexual e de outras formas de violência, iluminando a consciência e o coração dos pais, de modo que possam orientar-se pela verdade na condução de suas famílias. Neste ano de tantas perdas, de tanto luto, Deus derrame a consolação sobre toda família que neste momento experimenta algum tipo de desolação, recolhendo suas lágrimas e transformando suas feridas em pérolas, seus sofrimentos em processo de amadurecimento humano e espiritual. Como cristãos, façamo-nos próximos de toda família ferida e fragilizada em sua fé, em sua esperança e em seu amor.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

ACOLHER NO SILÊNCIO DA NOSSA ALMA O VERBO DE DEUS

Missa de Natal. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14; Lucas 2,1-14.

 

            Nós chegamos a este Natal mais inseguros, mais angustiados, com nossa esperança cansada, ou até mesmo abalada. Nós chegamos a este Natal mais tristes e machucados – perdemos parentes ou amigos devido ao coronavírus. Nós chegamos a este Natal com o coração mais sombrio, com mais dificuldade financeira – muitos perderam o emprego ou tiveram seu salário reduzido como efeito colateral da pandemia. Essa pandemia poderia ter tornado o ser humano melhor, focado no essencial, mais humilde, mais solidário. No entanto, em muitos casos, ela fez vir para fora o que as pessoas têm de pior, revelando-se mais egoístas e mais ignorantes. Aliás, o vírus da ignorância revelou-se muito mais contagioso, nesse contexto de pandemia, sobretudo no Brasil, do que o próprio coronavírus.

            Mas, nesta noite de Natal, nós ouvimos o anúncio de que “o povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). De fato, Jesus nasceu como luz que “ilumina todo ser humano que vem a este mundo” (Jo 1,9). Ainda que a maior parte da humanidade desconheça essa luz e viva na escuridão da falta de amor, de fé e de esperança, na escuridão da ignorância, da violência, das drogas e da desestruturação familiar; ainda que muitas pessoas à nossa volta nunca fizeram uma experiência de comunhão profunda com a pessoa de Jesus Cristo e outras rejeitam, como morcegos, tudo aquilo que possa ser luz – o Evangelho, a Igreja, os cristãos, Jesus continua a oferecer-se como sentido de vida para todo ser humano.

Seja para aqueles em cujos corações Cristo ainda não nasceu pela fé, seja para aqueles que o recusam como Salvador, o Natal é a proclamação de que “a graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens” (Tt 2,11). A manifestação do Filho de Deus se deu no momento em que a história mundial estava dominada por um Império – dominação expressa na obrigatoriedade do recenseamento – de modo que Jesus nasceu em condições nada favoráveis, “pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Isso significa que, enquanto o medo e a falta de esperança nos fecham em nós mesmos, Deus bate à nossa porta e nos convida a nos abrir à sua salvação. Enquanto a fé na vida e no próprio ser humano diminui, Deus escolhe visitar-nos nascendo como ser humano na pessoa de seu Filho Jesus. Enquanto nós recolhemos nossas redes e guardamos nossas sementes, porque as condições não parecem ser favoráveis para pescar ou para semear, o Natal nos provoca a lançar as redes e a semear as sementes porque Jesus é Deus conosco: conosco em nossa dor e em nossa fragilidade; conosco em nossa luta em favor da vida. Isso significa que não estamos sozinhos em nossa doença, em nossas dificuldades, em nossas lágrimas, em nosso luto; não estamos sozinhos com nossos medos e com nossa solidão.  

“Nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Do que precisamos ser salvos? Recentemente o Papa Francisco nos recordou, na sua encíclica social Fratelli Tutti, que “a pandemia do Covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos” (n.32). Nós precisamos ser salvos não somente do coronavírus, mas salvos do vírus da ignorância, que faz piada da morte alheia, que nega a realidade do aquecimento global e do desmatamento da Amazônia, que dissemina ódio e desinformação nas redes sociais. Nós precisamos ser salvos de um consumismo que promete saciar a fome dos nossos desejos, mas é incapaz de nos fazer sentir felizes e de dar sentido à nossa própria vida.

Nesta noite de Natal, somos convidados a silenciar a nossa alma para acolher “a Palavra (que) se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Deus tem uma palavra a dizer a cada ser humano: uma palavra de cura para o doente, de direção para o que se sente perdido, de libertação para o que se sente preso, de força para o enfraquecido, de consolo para o que está triste, e essa Palavra é seu próprio Filho feito homem (cf. Hb 1,1-2), pessoa humana, que conhece o chão da nossa história, nossas misérias, nossas lutas e nossas esperanças. E aqui se revela a nossa tarefa como cristãos: fazer ecoar em nossas atitudes o “Verbo de Deus”, colocando-nos junto das pessoas abatidas para levar-lhes uma palavra de conforto da parte de Deus (cf. Is 50,4), o Consolador de todo ser humano.

Nesta noite, nosso olhar se volta mais uma vez para o presépio, especialmente para a manjedoura; ela que antes estava vazia e agora recebe o Menino Jesus. “Nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz” (Is 9,5). Um menino nasce como sinal de que a vida sempre encontrará um meio de renascer, assim como a luz sempre encontrará alguma brecha no meio das trevas para fazer brilhar o seu resplendor. O menino nasce “para nós”, para a nossa salvação, para nos orientar com seu Conselho, para nos socorrer com sua Força, para abrir o nosso presente ao Futuro e para trazer àqueles que nele creem a Paz. Que no coração de cada um de nós haja lugar para Cristo renascer em nós pela fé.

 

ORAÇÃO: Deus Pai, que nesta noite de Natal a luz do nascimento de teu Filho resplandeça sobre a noite escura do medo, do desamor e da falta de esperança. Que todo ser humano seja envolvido pela luz da Tua salvação e reconheça em Teu Filho o Salvador que ele necessita e procura, ainda que de maneira inconsciente. Afasta de nós a escuridão da ignorância. Não queremos ignorar teu Filho – Deus conosco – junto à história de cada um de nós, assim como não queremos ignorar a nossa responsabilidade perante as necessidades da humanidade, no seio da qual nos encontramos como testemunhas da luz e da verdade. Faz ecoar na consciência e no coração de cada ser humano a tua “Palavra feita carne”, de modo que o teu Filho possa nascer em cada coração pela fé. Por Cristo, nosso Senhor. Amém!

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi