sábado, 14 de outubro de 2017

“Os que ensinam a muitos a justiça serão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12,3)

          Professor: chamado a ser uma referência num tempo muito pobre ou até mesmo vazio de referências para as novas gerações; desafiado a ser uma referência de pai ou de mãe para alunos sem experiências significativas de afeto familiar e sem alguém que lhes coloque disciplina e limites; chamado ainda a ter ouvidos de psicólogo, para escutar os pedidos de socorro de crianças, adolescentes e jovens necessitados de orientação para lidar com seus conflitos...
            Professor: chamado a indicar caminhos, a questionar ideias e atitudes destrutivas que colocam em risco a saúde física e emocional não só de seus alunos, mas da escola, da família e da própria sociedade; desafiado a ajudar seus alunos a compreenderem que eles não são simplesmente o “resultado” do que receberam (ou deixaram de receber) de seus pais/responsáveis ou do meio em que foram criados, mas que eles têm dentro de si a liberdade de escolher o que fazer com aquilo que receberam, abrindo-se para um futuro melhor, mais digno, mais humano e mais libertador do que o momento presente.
            Professor: educador, aquele que dialoga com a consciência e com o coração de seus alunos, convidando-os a explorarem o potencial da própria inteligência intelectual e emocional, ajudando-os a se perceberem no seu valor como pessoas humanas, independente da sua capacidade de “produção” e de obtenção de “resultados” naquilo que são chamados a fazer, principalmente diante das pressões e cobranças de uma sociedade competitiva, individualista e consumista como a nossa.   
            Professor: na maior parte das vezes, mal remunerado na sua função, consequência de um País cujo sistema político propositalmente trata com descaso a Educação porque sabe que se ela for de qualidade, impedirá que pessoas corruptas cheguem ou continuem a se manter no poder; alguém que tenta se fazer ouvir numa classe abarrotada de alunos – no caso das escolas públicas/municipais – porque o Estado/Prefeitura, endividado(a) graças a inúmeros desvios, precisa “fechar a torneira” dos gastos públicos, e o faz diminuindo o número de salas de aula e dispensando professores.   
            Numa época onde a escolha de profissões se dá, na maioria das vezes, segundo o critério financeiro (salário), escolher ser professor é algo que só pode ser entendido como vocação, como resposta a um chamado a ser uma pessoa que acredita no valor de uma semente, que entende que o sentido da vida e a realização profissional não estão nos frutos que se colhe a cada dia, mas nas sementes que se lança com suor e lágrimas no cotidiano de uma sala de aula.
            Numa época de inversão de valores como a nossa, ser professor é teimar em acender uma luz no coração de uma sociedade que se acostuma cada vez mais a viver no escuro da ignorância, da superficialidade, do conhecimento raso, do excesso de informações e do vazio de profundidade, uma sociedade onde a busca da verdade que liberta foi substituída pela satisfação egoísta do próprio bem estar, uma satisfação que aprisiona a pessoa na mentira, chegando muitas vezes a causar mal aos outros.
            Numa época onde inúmeras pessoas se sentem sem vida, sem alegria e sem esperança, como os ossos secos na visão do profeta Ezequiel (cf. Ez 37,1-14), nós, Igreja Católica, desejamos que você, caríssimo professor, seja uma pessoa revestida pelo Espírito Santo, para que continue a pronunciar a sua incansável palavra de educação, de conhecimento, de conscientização e de libertação, para que seus alunos possam renascer a partir de dentro, possam deixar vir para fora o melhor que cada um deles tem guardado dentro de si como seres humanos, e assim teremos um futuro e uma esperança para as famílias, para as cidades e para o País.

            Nossa gratidão e admiração pelo serviço que cada um de vocês, professores, tem prestado à humanidade! Deus os abençoe!    

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

PREPARE SUA ROUPA DE FESTA!

Missa do 28º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 25,6-10a.; Filipenses 4,12-14.19-20; Mateus 22,1-14.

            Para falar do propósito de Deus em salvar a humanidade, a Sagrada Escritura escolheu usar a imagem da festa: um grande banquete, no qual se oferecem comidas e bebidas deliciosas e em abundância. Um detalhe importante: este banquete é oferecido a todos os povos, o que significa dizer que a salvação de Deus não está restrita a uma igreja ou a uma religião. Toda igreja e toda religião devem estar a serviço do propósito de Deus em salvar o ser humano, exatamente como os servos na parábola do Evangelho, responsáveis por convidar as pessoas para a festa de casamento do filho do rei.
            A imagem do banquete ou da festa fala, em primeiro lugar, da gratuidade da salvação: da mesma forma que para essa festa ou esse banquete não há ingresso, não há dinheiro a ser pago, Deus oferece Sua salvação como puro dom ao ser humano. Mas aqui acontece algo estranho, retratado por Jesus no Evangelho: muitas pessoas rejeitam o convite para a festa, porque estão ocupadas com suas próprias coisas. São pessoas que alegam não ter tempo para Deus. Elas precisam trabalhar para ganhar dinheiro; precisam estudar para alcançar suas metas profissionais; o tempo delas está totalmente ocupado e preenchido com sua mais nova aquisição – seu mais novo carro, sua mais nova casa, seu mais novo celular ou computador, sua mais nova TV, seu mais novo “brinquedo”...
            Mas a imagem do banquete ou da festa fala também da alegria. A salvação é descrita na Sagrada Escritura como sinônimo de festa, de alegria e de abundância. E aqui nós, Igreja, temos que reconhecer que muitas vezes colaboramos para as pessoas não irem às nossas “festas”, isto é, às nossas celebrações e outras atividades pastorais, pois elas são, via de regra, chatas, enfadonhas, cansativas, marcadas pela mesmice, desprovidas de alegria, de gratuidade e de criatividade. Além disso, são celebrações ou atividades pastorais conduzidas algumas vezes por uma pessoa cansada, triste, desanimada ou até mesmo mal-humorada.
            Muitos reagirão a isso dizendo que a Igreja não é um circo, um lugar para show, e que muitas pessoas hoje estão atrás de espetáculo, de eventos que lhes causem emoção. Embora isso tenha um fundo de verdade, precisamos ter a coragem de reconhecer que muitos ministros de Deus e agentes de pastoral hoje servem a Deus como se fossem “coveiros” (peço perdão aos coveiros, por mencioná-los aqui no sentido negativo); são pessoas incapazes de suscitar alegria e esperança naqueles que as escutam falar sobre Deus, justamente o contrário do que fez o profeta Isaías, quando anunciou Deus como Aquele que é capaz de eliminar a morte e enxugar a lágrima de todas as faces – de todas, não apenas de algumas – o Deus em quem vale a pena esperar: “Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou; este é o Senhor, nele temos confiado: vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo” (Is 26,9).
            Retornando ao Evangelho, Jesus nos ensina que, embora muitas pessoas escolham ignorar Deus no Seu propósito de lhes oferecer a alegria da salvação, Ele continuará a fazer essa mesma oferta a todo e qualquer ser humano: “A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes” (Mt 22,8-9). É assim que Deus quer a nossa Igreja, uma “Igreja em saída”, cujos ministros e agentes de pastoral não permaneçam fechados na sacristia ou em suas casas, mas saiam e se dirijam às periferias existenciais, como nos pede o Papa Francisco: “Saiamos, saiamos para levar a todos a vida de Jesus Cristo! (...) Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida” (A alegria do Evangelho, n.49).  
            Segundo a parábola contada por Jesus, a “insistência” de Deus em oferecer a salvação a todo ser humano deu certo: “a sala da festa ficou cheia de convidados” (Mt 22,10). Porém, “quando o rei entrou para ver os convidados, observou ali um homem que não estava usando traje de festa” (Mt 22,11). Para entendermos o significado deste “traje de festa”, precisamos recorrer ao livro do Apocalipse: trata-se do comportamento justo da pessoa que professa a sua fé em Deus e em seu Filho Jesus Cristo (cf. Ap 19,8). Dizendo de outro modo, embora a salvação seja gratuita e destinada a todas as pessoas, todo aquele que se recusa a praticar a justiça – todo aquele que não se preocupa em se tornar uma pessoa justa – se exclui da presença de Deus. De fato, a Sagrada Escritura deixa claro o quanto Deus aprecia o comportamento justo: “Deus não faz diferença entre as pessoas. Pelo contrário, em qualquer nação, quem o respeita e pratica a justiça lhe é agradável” (At 10,34-35).
            Esta cena trágica no final do Evangelho – um homem sendo retirado da sala da festa e jogado fora, na escuridão (cf. v.13), nos assusta. Tal atitude de Deus – representado pelo rei na parábola – parece contradizer todo o Seu esforço em fazer com que a sala ficasse cheia de convidados. Parece não fazer sentido Deus colocar em ação o Seu grande desejo de que “todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4), e depois excluir da salvação uma pessoa, ainda mais por um motivo aparentemente banal, como a roupa inadequada. Mas essa aparente contradição é proposital: para nós, que hoje ouvimos essa parábola contada por Jesus, precisa ficar claro o quanto nós podemos chegar ao absurdo de nos excluir da salvação, pelo fato de querermos, sim, participar do banquete no Reino de Deus, desde que não tenhamos que nos esforçar minimamente em ajustar a nossa vida à justiça e à santidade do nosso Deus.
            Por mais que a Sagrada Escritura afirme que nós somos salvos por pura graça de Deus (cf. Ef 2,5.8), a salvação não é algo que acontece “passivamente” na nossa vida, à revelia da nossa vontade, sem a nossa colaboração, sem a nossa aceitação, sem o envolvimento da nossa consciência e do nosso coração. Já dizia Santo Agostinho: “Deus, que te criou sem ti, não te salva sem ti”. Aquele que preparou uma grande festa, um grande banquete no seu Reino para todos os povos, é o mesmo Deus que conhece o homem por dentro e que determinou que nada de impuro entrará no Seu Reino (cf. Ap 21,27). Deixemos, portanto, nos revestir da justiça e da santidade do nosso Deus, procurando ajustar o nosso comportamento ao que o Seu Filho nos ensina diariamente no Evangelho.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

UNS SE PERMITEM SER CUIDADOS POR DEUS; OUTROS SE PERMITEM SER PISOTEADOS PELO MALIGNO

Missa do 27º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 5,1-7; Filipenses 4,6-9; Mateus 21,33-43.

Tanto o texto do profeta Isaías quanto o do Evangelho que acabamos de ouvir comparam o ser humano a uma vinha, ou seja, uma plantação de uva. Desde o momento da concepção, essa “plantação” foi cuidada, adubada, regada, protegida por Deus. Tudo foi pensado e preparado pelo Criador para que o ser humano fosse fecundo e desenvolvesse toda a sua capacidade de se tornar uma pessoa correta, justa, bondosa, solidária e pacífica. Mas, eis a surpresa: o ser humano – sobretudo o homem atual – decidiu romper com Deus, não admitindo depender d’Ele, não aceitando mais ser cuidado, cultivado, muito menos podado nos seus desejos egoístas e corrigido por Deus na sua Palavra. E o que Deus decidiu fazer? Ele decidiu respeitar a liberdade de cada pessoa: “Então eu os entreguei à teimosia do seu coração. Que sigam seus próprios caprichos!” (Sl 81,13).
Olhemos para essa grande vinha de Deus, que é a humanidade.  O que vemos nela? Pessoas “pisoteadas” pelo mal, vidas arruinadas pelas drogas (incluindo o cigarro e a bebida alcoólica), famílias desestruturadas, seja pela fragilidade do vínculo conjugal, seja pela exposição constante às injustiças sociais como a violência, a pobreza, as dívidas, o desemprego ou o subemprego... Além disso, algumas pessoas se tornaram vinhas pisoteadas por “animais selvagens”, seja por causa do individualismo dos cristãos dos tempos atuais, seja por causa das autoridades que desviam os recursos públicos para suas contas particulares, não “sobrando” dinheiro para investir na saúde, na educação e na segurança da vinha.
Mas existe ainda uma situação particular: pessoas que, como já foi lembrado acima, expulsaram de suas próprias vinhas o Agricultor (Deus), por não aceitarem ser cuidadas, podadas, cultivadas pela Palavra de Deus. Deus poderia curá-las, mas elas dizem: “Nós não estamos doentes!”. Deus poderia libertá-las dos seus enganos, mas elas dizem: “Nós temos nossa própria verdade!”. Deus poderia protegê-las dos animais selvagens, mas elas decidiram adotar esses animais como seus “bichos de estimação”. São pessoas que dizem acreditar em Deus, mas não admitem ser corrigidas ou orientadas pela sua Palavra. E com isso, elas se tornaram vinhas infestadas pelo mato, pelas pragas e pelas doenças (comportamentos doentios).
Como está sua vinha? Como está a vinha que você é? Existe cerca em volta dela? Você se deixa cuidar por Deus? Você faz da obediência à palavra de Deus a sua proteção contra a inversão de valores que atualmente devasta a vida de inúmeras pessoas? Você se permite ser podado por Deus nos seus desejos egoístas? Você aceita quando a palavra de Deus lhe diz ‘não’, um ‘não’ que atinge em cheio a maneira como você lida com a sua afetividade, a sua sexualidade, a forma como você lida com o dinheiro e a forma como você trata as pessoas no dia a dia? Você ainda teme e procura se proteger contra os animais selvagens, isto é, os contra-valores do mundo atual, ou você já os adotou como seus bichos de estimação? Você se incomoda ao ver tantos ramos da sua vinha enfraquecidos, com quase nenhum fruto ou com frutos doentes, estragados? Você reconhece a sua parcela de responsabilidade na devastação da sua vinha, ou simplesmente tem acusado Deus de ter abandonado a vinha que você é?
Eis a oração do salmista: “Voltai-vos para nós, Deus do universo! Olhai dos altos céus e observai. Visitai a vossa vinha e protegei-a! (...) Convertei-nos, ó Senhor Deus do universo, e sobre nós iluminai a vossa face! Se voltardes para nós, seremos salvos!” (Sl 80,8.20). A devastação de grande parte da natureza, a devastação de inúmeras famílias, a devastação da vida em sociedade, a devastação sempre mais crescente da consciência das novas gerações hoje não é fruto da indiferença de Deus para com a humanidade, mas fruto da obstinação do ser humano em não aceitar ser cuidado por Deus, a obstinação em não admitir que nenhuma igreja ou nenhuma religião lhe diga o que é certo e o que é errado, a obstinação em seguir cegamente os seus próprios caprichos. Essa obstinação tem feito estragos muito grandes na vida pessoal e social do ser humano, e o caminho é um só: conversão. Nós precisamos nos voltar para Deus e suplicar que Ele se volte para nós e nos dê a salvação. Nós precisamos suplicar que Deus não nos abandone a nós mesmos e à desorientação da nossa consciência e do nosso coração, tornados cegos pelo nosso egoísmo.    
Mesmo constatando a devastação dessa imensa vinha que é a humanidade, o aposto Paulo afirma que não podemos nos deixar contaminar pela tristeza, pelo abatimento ou pelo desânimo. Se há muitas coisas que nesse momento nos preocupam e angustiam, devemos apresentá-las a Deus em oração. Ele é o Pai de cada ser humano, mesmo daquele que não crê; Ele é o Agricultor de toda vinha, até mesmo daquela que Lhe rejeitou e O expulsou, não admitindo mais ser cuidada por Ele. Hoje nós clamamos ao Pai e Agricultor que derrame o seu Espírito sobre todo ser humano, sobre essa imensa vinha que é a humanidade, pois só o Espírito Santo pode convencer o mundo a respeito do pecado (cf. Jo 16,8), ou seja, pode convencer cada pessoa a se dar conta do caminho de autodestruição que está trilhando e desejar ter novamente sua cerca reerguida, seu mato podado, sua praga exterminada, sua doença curada e sua fecundidade restabelecida.
Por fim, nos orienta ainda o apóstolo, que procuremos pautar a nossa vida pelos valores como verdade, justiça, honra, bondade, lealdade, coerência. Desse modo, não precisaremos ouvir o que os sacerdotes do tempo de Jesus tiveram que ouvir: “o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (Mt 21,43). Entreguemos ao nosso Pai e Agricultor o jardim da nossa consciência e do nosso coração:
           Eu sou um jardim (Adriana)

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

VOCÊ ESTÁ PRÓXIMO OU DISTANTE DA VONTADE DE DEUS PARA A SUA VIDA?

Missa do 26º. dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 18,25-28; Filipenses 2,1-11; Mateus 21,28-32.

            O nosso ‘sim’ pode se tornar ‘não’, assim como o nosso ‘não’ pode se tornar ‘sim’. Nós certamente conhecemos pessoas que, num momento de grande alegria e entusiasmo disseram ‘sim’ a uma proposta de vida, como o casamento ou a vida consagrada, por exemplo, mas que, quando chegou o momento da dor, do sofrimento, da aridez ou da ausência de felicidade, mudaram de resposta e disseram ‘não’ ao compromisso que antes haviam assumido.
O Evangelho de hoje nos coloca diante de uma inquietante verdade: nossas respostas podem mudar com o passar do tempo. Isso, em si, não é ruim; depende do motivo pelo qual mudamos nossas respostas. Uma pessoa pode passar anos e anos da sua vida tendo um comportamento doentio para consigo mesma e destrutivo para com os outros, mas, de repente, decidir mudar sua conduta, assim como outra pessoa pode viver por muitos anos de maneira correta, digna, justa, e depois se cansar disso, se desencantar, abrir mão dos seus valores mais sagrados e decidir viver de maneira oposta. Eis, portanto, uma outra inquietante verdade que Jesus traz para nós: nada está garantido de não ser mudado. O ‘sim’ que demos ontem pode mudar-se em ‘não’ hoje, e vice versa. Tudo depende da nossa liberdade de escolha e dos valores que neste momento estão ‘valendo’ para nós, isto é, estão dando sentido à nossa vida.  
O fato é que nós sempre podemos mudar; nós sempre podemos nos abrir a mudanças. No entanto, é preciso saber quando a mudança é boa, isto é, quando mudamos para melhor e quando mudamos para pior. Segundo Jesus, a mudança é boa quando reorienta a nossa vida para a vontade de Deus, mas é ruim quando nos afasta dessa vontade. Se a maneira como você está vivendo sua vida afetiva, profissional, social e espiritual está de acordo com a vontade de Deus, Jesus convida você a confirmar seu ‘sim’, a perseverar no seu caminho de fé e no seu esforço em viver segundo o Evangelho. Todavia, se você tem usado sua liberdade para fazer mal a si ou aos outros, em nome de uma suposta e ilusória felicidade egoísta, Jesus convida você a repensar suas atitudes e a redirecionar suas energias para o cumprimento da vontade de Deus, que quer realmente o seu bem, a sua felicidade e a sua salvação.
A boa notícia do Evangelho de hoje é que, enquanto estamos vivos e temos liberdade para fazer escolhas, tudo pode ser mudado. A ‘má notícia’, digamos assim, é o fato de que todos nós podemos mudar, e nisso reside tanto a nossa salvação quanto a nossa perdição: tudo depende se o uso da nossa liberdade nos aproxima ou nos distancia da vontade de Deus. Outra boa notícia do Evangelho: cada dia é uma nova chance, um novo convite de Deus para cada um de nós: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha!” (Mt 21,28). “Hoje” é o dia em que pode se dar tanto a minha condenação quanto a minha salvação. Tudo depende da minha resposta ao convite de Deus. Seja como for, o dia de “hoje” é a oportunidade que eu tenho de confirmar ou de mudar aquilo que eu estou fazendo.
A liberdade de escolha é uma coisa que também incomoda e que às vezes nos angustia. Muitos de nós gostaríamos de viver no “piloto automático”, sem precisar rever nossas escolhas e nos perguntar se estamos ou não no rumo certo. Mas a vida insiste em nos lembrar que, apesar das escolhas que já fizemos e das respostas que já demos ontem, continuamos a ser livres hoje e precisamos decidir qual rumo queremos dar à nossa existência, à nossa vida afetiva, profissional, social e espiritual. Neste sentido, vale a pena fazermos nossas as palavras do salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação; em vós espero, ó Senhor, todos os dias!” (Sl 25,4-5).
Enfim, o alerta de Jesus para os líderes religiosos do seu tempo também serve para nós. Pessoas que os sacerdotes e anciãos consideravam perdidas, condenadas, passaram à frente deles no Reino dos céus, porque acolheram o apelo de conversão de João Batista. Os sacerdotes e anciãos, por sua vez, que não se consideravam necessitados de conversão, ficaram para trás. Assim, não sejamos apressados em concluir que existem pessoas que estão definitivamente condenadas diante de Deus. Ninguém está definitivamente condenado, nem definitivamente salvo, porque ninguém está, diante de Deus, privado da chance (e do risco) de mudar. Diante da oferta de salvação, a vida permanece aberta para todo ser humano. Até o seu último suspiro, a pessoa pode se abrir ou se fechar à graça de Deus e à Sua oferta de salvação.
Para nós, que supostamente dissemos ‘sim’ a Deus, é bom não esquecer de que até o fim da vida nossa resposta ao que o Senhor nos propõe na sua Palavra pode mudar. Daí o alerta do apóstolo Paulo: “Aquele que julga estar em pé, tome cuidado para não cair” (1Cor 10,12). Que o Senhor nos conceda uma sincera humildade em nossa vida de discípulos de Seu Filho e a graça de uma constante atualização do nosso ‘sim’, para continuarmos a fazer a Sua vontade. Sobretudo, que a cada dia diminua a distância entre saber o que Deus quer de nós e a nossa disposição em fazer o que Deus nos pede na Sua Palavra.


Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

DEUS EMBARALHA NOSSO QUEBRA-CABEÇA

Missa do 25º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,6-9; Filipenses 1,20c-24.27a; Mateus 20,1-16a.

Vamos direto ao ponto: a quem Jesus quis se dirigir ao contar essa estranha parábola? Aos fariseus, que se consideravam justos e, portanto, merecedores de salvação, e que consideravam os pagãos pessoas injustas e, portanto, merecedoras de condenação. Eis a fala dos fariseus na parábola: “Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro” (Mt 20,12). O problema dos fariseus da época de Jesus, e de tantos de nós hoje, é a questão do mérito: achar que os outros não merecem ser salvos, não merecem ganhar uma diária, como nós, que trabalhamos o dia todo. Quando pensamos assim, nos esquecemos de uma verdade fundamental na Sagrada Escritura: Deus não nos salva porque merecemos, mas porque precisamos ser salvos; Ele escolheu nos salvar movido unicamente pelo Seu amor e não “pressionado” pelos nossos méritos.
“Tu os igualaste a nós” – isso de fato parece extremamente injusto. Mas, será que Deus não vê? Será que Ele não sabe distinguir quem é esforçado de quem é folgado, quem leva a vida a sério e quem empurra a vida com a barriga? Será mesmo que Deus nos trata a todos como se fôssemos farinha do mesmo saco? Certamente que não! Ao contar essa parábola, Jesus não está dizendo que, se depender de Deus, tudo acabará em pizza. O fato de o patrão encontrar pessoas desocupadas em diversos horários ao longo do dia e convidá-las a trabalharem na sua vinha lembra que cada um de nós tem a sua própria história de vida e o seu momento próprio de encontro com Deus: uns puderam conhecer a Deus na infância; outros, somente na adolescência; outros conheceram a Deus na juventude; outros ainda, na vida adulta, e outros, somente na velhice.
Não há dúvida de que o escândalo maior dessa parábola é o fato de que os trabalhadores que começaram o trabalho às cinco da tarde receberam a mesma diária daqueles que trabalharam o dia todo. O que Jesus quer nos ensinar com isso? Primeiro, Ele quer nos lembrar de que nunca é tarde para nos converter e produzir o fruto que Deus Pai nos pede. Aliás, este é o convite do profeta Isaías: “Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto” (Is 55,6). Além disso, precisamos considerar que esses trabalhadores da última hora não eram culpados por não estarem trabalhando: se eles passaram o dia inteiro sem trabalhar é porque ninguém os contratou, e não porque eram folgados ou deram uma de “espertos”.
No fundo, essa parábola de Jesus embaralha as peças do nosso quebra-cabeça a respeito de Deus, convidando-nos a levar a sério o que o próprio Deus nos disse: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra” (Is 55,8-9). Jesus sabe que nós todos pensamos a vida a partir da lei do mercado, segundo a qual “o resultado é sempre proporcional ao investimento”. E nós achamos que essa é também a maneira de Deus agir: vincular a salvação segundo o mérito de cada pessoa. Ao frustrar as nossas expectativas em relação a Deus, Jesus está nos alertando que podemos estar muito enganados em relação àquilo que esperamos que Deus faça a nós ou, quem sabe, àqueles que consideramos não dignos de salvação. Deus é dom, não merecimento. Se o patrão, que nesta parábola representa Deus, pagou a todos igualmente sem considerar o tempo e o trabalho realizado, é porque “a salvação não é um pão obtido com suor do próprio rosto, mas dom do Pai aos seus filhos” (J. A. Pagola).
“Eu quero dar a este que foi contratado por último – que se tornou justo nas últimas horas da sua vida – o mesmo que dei a ti – que viveu como justo a vida toda” (citação livre de Mt 20,14). Em outras palavras, nós somos tratados por Deus não segundo a pequenez dos nossos méritos, mas segundo a grandeza do Seu amor para conosco. Deus escolheu ser amor para com todos – “O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura” (Sl 145,9) – e Seu amor “não é para ser comprado o merecido, mas para ser acolhido com gratidão e alegria” (J. A. Pagola).
Jesus, ao contar essa parábola, alimentou a decepção dos fariseus em relação a ele, a mesma decepção que algumas pessoas da nossa Igreja hoje sentem em relação ao Papa Francisco: “Os bispos carreiristas estão decepcionados. A nomeação para uma cidade era só um passo para uma posição de maior prestígio... Agora, vem este Papa e convida os bispos ambiciosos e vaidosos a ter o cheiro das suas ovelhas... Que horror! Uma parte do clero também está decepcionada. Este clero sente-se perdido. Criado no estrito cumprimento da doutrina, indiferente ao povo de Deus, já não sabe o que fazer. Tem de recuperar um sentido de ‘humanidade’ que o escrupuloso cumprimento das normas da Igreja tinha atrofiado. Pensava que estava, como ‘sacerdote’, acima dos fiéis e, agora, este Papa convida-o a descer e a colocar-se ao serviço dos últimos... Decepcionados também estão os leigos... tradicionalistas superapegados ao passado. Para estes, o Papa é um traidor, a ruína da Igreja... Os mais entusiasmados com ele são os pobres, os marginalizados e invisíveis, e também aqueles cardeais, bispos, padres e leigos que, durante décadas, estiveram afastados por causa da fidelidade ao Evangelho, encarados com suspeita e perseguidos por causa da sua mania louca de ligar mais à Sagrada Escritura do que à tradição” (Alberto Maggi, Desilusão).
            Encerro esta reflexão com as sábias palavras do Pe. J. A. Pagola, a respeito do Evangelho de hoje: “Se alguém deseja como recompensa não o Senhor, mas a própria justiça, perdeu tempo e está se colocando fora da graça. Deseja o salário do próprio esforço, não o pão da graça. A este Deus responde: ‘Aquilo que você pretende ter como direito seu sou Eu mesmo, que por amor quero dar-me a todos’. Provavelmente, mais de um cristão se escandalizará ainda hoje ao ouvir falar de um Deus a quem o Direito Canônico não obriga, que pode doar sua graça sem passar por nenhum dos sete sacramentos e salvar, inclusive, fora da Igreja, homens e mulheres que nós consideramos perdidos”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CUIDE DESSA PONTE. VOCÊ TAMBÉM PRECISARÁ PASSAR POR ELA.

Missa do 24º. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 27,33–28,9; Romanos 14,7-9; Mateus 18,21-35.

            Na oração do Pai nosso Jesus nos ensinou a pedir não somente “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, mas também “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Da mesma forma como existe “o pão nosso de cada dia”, existe também “o perdão nosso de cada dia”, mas este perdão só pode ser exercitado por nós depois de termos reconhecido e lidado com “a raiva nossa de cada dia”. Portanto, antes de nos colocarmos diante das exigências do perdão, precisamos conversar sobre a realidade da raiva em nós.

            Primeiro a raiva, depois o perdão
            Eis uma séria advertência da Sagrada Escritura a respeito da raiva: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?” (Eclo 28,3). Para não entendermos de maneira distorcida a Palavra de Deus, é importante sublinhar que a advertência recai sobre a atitude de “guardar” raiva, não de “sentir” raiva. De novo aqui é importante lembrar que nós não escolhemos sentir raiva; nós apenas podemos escolher a forma como vamos lidar com a raiva que estamos sentindo, e a pior forma é permitir que ela nos torne tão destrutivos quanto aqueles que destroem a vida e os valores mais sagrados à nossa volta.   
Como a raiva surge em nós? Ela surge sempre que sofremos uma injustiça ou sempre que testemunhamos uma injustiça ao nosso redor. A raiva é uma reação natural diante de algo que atenta contra a nossa vida ou contra a vida de alguém que amamos. Na verdade, a raiva é uma defesa instintiva que temos dentro de nós; ela é a força da nossa agressividade, provocada a reagir diante de algo que está nos prejudicando; ela é também a força que podemos usar para retirar o punhal que nos atingiu, para que a ferida que se abriu ali comece a ser tratada, curada. Portanto, a cura de uma ferida passa pelo reconhecimento da raiva que está em nós e pela mudança na maneira de lidar com ela, e a pior forma de lidar com a raiva, segundo o Eclesiástico, é permitir que ela passe a morar definitivamente dentro de nós, transformando-se numa espécie de veneno que nos adoece de maneira incurável.
Uma outra dica que a Palavra de Deus nos dá, ao reconhecermos a raiva que carregamos conosco, é esta: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar” (Eclo 28,6). Tomar consciência de que um dia morreremos, que não levaremos nada deste mundo e que nos encontraremos com o Deus que retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta (cf. 2Cor 5,10), é um convite a não fazermos justiça por conta própria, mas deixarmos espaço para que a ira de Deus realize a verdadeira justiça (cf. Rm 12,19). Portanto, a nossa raiva deve ceder lugar à ira de Deus, que não deixa nada impune, que tudo julga com justiça.  

Depois da raiva, o perdão
Eis uma verdade bíblica que nos ajuda a fazer a necessária passagem da raiva para o perdão: “a ira do homem não é capaz de cumprir a justiça de Deus” (Tg 1,20). Se a raiva é necessária para nos defender da pessoa que nos causa uma injustiça; se a agressividade da raiva nos ajuda a arrancar de nós o punhal que nos atingiu, uma vez retirado o punhal é preciso dar um outro passo em vista da cura da nossa ferida: o perdão. Só o perdão cura. Mas no que consiste o perdão? De maneira alguma podemos confundi-lo com passividade, conformismo, covardia ou indiferença perante o mal que vemos ao nosso redor. Ao nos convidar ao perdão, Jesus não está nos incentivando a sermos avestruzes, que enfiam a cabeça na terra fingindo não ver a injustiça que nos atinge. Perdoar não significa fazer de conta que não houve dano, mas escolher enxergar a vida para além do dano que nos causaram. Se a mágoa ou o rancor nos mantém presos ao passado, o perdão nos lança para frente, nos convida a virar a página da vida e a permitir que ela volte a ter sentido para nós.
É preciso ter consciência disso: o perdão não é algo natural ou espontâneo em nós. Natural ou espontâneo é o ódio, a raiva, a mágoa. Quem luta para conseguir perdoar luta para superar aquilo que de mais primitivo o ser humano tem dentro de si: o desejo de vingança. Dizendo de outra forma, o perdão é uma espécie de “violência’ contra o nosso desejo de vingança, contra a nossa sede de uma justiça que seja imediata, e nós só nos disporemos a travar essa luta se tivermos a firme convicção de que o perdão é o único remédio para as feridas que os outros abriram em nós
Muitos são aqueles que tentam fugir da tarefa diária do perdão, alegando que só Deus pode perdoar; eles são apenas seres humanos e não têm esse “poder”. Porém, a parábola que Jesus contou deixa muito claro que nós não só podemos como também devemos perdoar porque já fomos infinitamente perdoados por Deus. Uma pessoa que decide não perdoar é alguém que está destruindo a ponte sobre a qual um dia terá que passar*. Todos nós erramos. Todos nós nos enganamos. Todos nós nos afogamos algumas vezes nas águas profundas da nossa raiva. Portanto, todos nós precisamos de perdão. E não nos esqueçamos de que, tão difícil quanto perdoar alguém que nos feriu é perdoar a nós mesmos, assim como perdoar a Deus, por Ele ter permitido que alguma injustiça nos atingisse. Neste sentido, não são poucos os cristãos que estão com a sua relação com Deus prejudicada porque não conseguem ou não aceitam perdoá-Lo...

Perdoar significa soltar o pescoço da outra pessoa
No filme A Cabana há uma cena magnífica, quando o pai, carregando em seus braços o corpo de sua filhinha assassinada, diz em pensamento ao assassino: “Eu perdoo você. Eu perdoo você”. Ele entrega o corpo de sua filhinha a Jesus, permitindo que ela finalmente seja enterrada. Esse pai só conseguiu fazer isso depois de ter dialogado com Deus e compreendido que perdoar aquele assassino significava entregá-lo a Deus, para que fosse por Ele redimido; perdoar não significava esquecer o que aquele assassino fez, mas apenas soltar o seu pescoço...
Portanto, solte suas mãos do pescoço da pessoa que lhe fez ou está lhe fazendo mal. Entregue-a a Deus, para que ela se depare com a consequência dos seus erros e possa ser redimida. Peça a Jesus para ajudar você a enterrar o que precisa ser enterrado, e assim você poderá voltar a se sentir vivo e reencontrar o sentido de querer estar vivo. O quanto depender de você, reconstrua a cada dia a ponte do perdão. Um dia você também precisará passar por ela.

* “Aquele que não perdoa destrói a ponte sobre a qual ele mesmo deve passar” (George Herbert)

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

ERROS DEVEM SER CORRIGIDOS, NÃO TOLERADOS

Missa do 23º. dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 33,7-9; Romanos 13,8-10; Mateus 18,15-20.

            Nós podemos discordar em muitas coisas, mas em uma concordamos: está difícil conviver com as pessoas hoje. E essa dificuldade tem nos levado cada vez mais a nos isolar, nos afastar, nos fechar, mesmo que essas atitudes acabem por prejudicar a família, o ambiente de trabalho, a comunidade, a sociedade.
            Diante do crescente individualismo e da nossa tendência a nos afastar das pessoas, Jesus nos convida a recuperar o valor da vida em comunidade, a importância do relacionamento. Se desejamos ser pessoas emocional e espiritualmente saudáveis, precisamos cuidar das nossas relações, precisamos ter a coragem de reconhecer e tratar as feridas dos nossos relacionamentos familiares, profissionais, comunitários e sociais. Além disso, se as pessoas em geral reagem às dificuldades nos relacionamentos decidindo romper com os mesmos, espera-se de nós, cristãos, um outro tipo de atitude, onde as dificuldades sejam enfrentadas não simplesmente a partir da “carne”, isto é, do egoísmo, mas a partir do espírito, isto é, da nossa capacidade de transcender, de buscar não simplesmente aquilo que nos convém, mas aquilo que convém aos nossos relacionamentos.
            “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo!” (Mt 18,15). Justamente porque não existe relacionamento sem ferimento e sem conflito, Jesus nos lembra que a Igreja não é uma comunidade de “perfeitos”, mas de pessoas “de carne e osso”, limitadas e imperfeitas, pessoas que estão fazendo um caminho de conversão, de amadurecimento e de santificação, pessoas passíveis de erro e, justamente por isso, necessitadas de correção. Jesus quer nos tornar conscientes de que, da mesma forma como todos nós podemos errar, porque somos humanos, todos nós precisamos estar abertos à correção.

            A difícil tarefa de corrigir e de aceitar ser corrigido
            A correção do irmão que erra encontra duas dificuldades. A primeira delas é o medo que temos de perder o afeto da pessoa que precisamos corrigir. Esse é um medo muito comum em muitos pais hoje em dia. Eles se esquecem de que “quem ama, educa”; quem ama, corrige. A não correção dos filhos, por medo de magoá-los ou “machucá-los”, não é amor, mas omissão da parte dos pais. Filhos não corrigidos por seus pais tornam-se “pessoas-problema”, problema para si mesmos, para os pais e para a sociedade; são rios que, por não aceitarem suas margens, transformaram-se em brejo; são árvores que, por não aceitarem ser podadas, só conseguem produzir frutos de baixa qualidade.       
            A outra dificuldade no campo da correção fraterna é a “imaturidade”. Ela faz com que a pessoa corrigida fique magoada, ressentida, e passe a olhar o irmão que a corrigiu como seu inimigo. A verdade é que a correção é um momento difícil para todos nós. Ela nos obriga a reconhecer que existem sombras na nossa imagem, que não somos tão bons quanto pensamos ser e, portanto, precisamos rever a nossa maneira de ser, de fazer as coisas e de tratar as pessoas. No fundo, é preciso ter uma boa dose de humildade para aceitar ser corrigido.

            A ausência de correção favorece a impunidade
Justamente porque Jesus dirigiu todo o discurso de Mt 18 à Igreja e não ao mundo, nós precisamos reconhecer que a impunidade não é uma doença grave que atinge apenas setores da nossa sociedade, sobretudo a política; ela está presente também em nossa Igreja. Uma das causas de não-correção fraterna em nossa Igreja é a política dos interesses pessoais: diante de um bispo que devora os bens da Diocese para o seu luxo pessoal, alguns padres não o corrigem porque desejam ser bispos e, numa eventual consulta, não querem ser “queimados” pelo bispo em questão; outros padres não o corrigem porque não querem sofrer retaliações, como por exemplo, serem transferidos de suas paróquias; outros ainda não o corrigem porque ambicionam ser designados um dia para paróquias com uma ótima saúde financeira; por fim, existem padres que não têm como corrigir o bispo em questão porque são a sua “versão paroquial”, pela maneira corrupta como “administram” o dinheiro de suas respectivas paróquias, em vista do seu enriquecimento particular*.  
            É bom que se repita: toda ausência de correção favorece a impunidade. Jesus é firmemente contrário a todo tipo de impunidade. Por isso, depois de todas as tentativas para se corrigir o irmão que erra, Ele nos orienta: “Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público” (Mt 15,17). Embora em Mt 9,11-13 a expressão “pagão/pecador público” se refira aos fracos que precisam ser acolhidos com misericórdia, aqui ela tem um outro sentido: Jesus deixa claro que a Igreja deve fazer o irmão que erra confrontar-se com a consequência dos seus erros, pedindo-lhe uma decisão séria quanto à sua necessidade de corrigir-se. Caso ele se recuse a mudar, continuando a levar uma vida frontalmente oposta ao que Jesus ensina no Evangelho, deve ser “colocado no cantinho para pensar”, ou seja, deve assumir a consequência de ficar à margem da comunidade, por sua própria obstinação em não mudar seu comportamento.
O que precisa ficar claro para todos nós é que pessoas que recusam corrigir-se e, por apostarem na impunidade, continuam a provocar danos emocionais, morais, financeiros ou espirituais na família, na escola, no local de trabalho, na Igreja e na sociedade em geral, são “manchas de óleo que precisam ser contidas”, são pessoas que precisam ser “interditadas”, isto é, impedidas de continuarem a fazer os estragos que têm feito, sobretudo quando esses estragos atingem diretamente a fé dos mais simples e daqueles que procuram pautar sua vida segundo a justiça e a verdade. Dizendo de outra forma, Jesus é muito claro: se existem erros, eles devem ser corrigidos, não tolerados. Uma vez que estamos celebrando o mês da Bíblia, lembremos que uma das “funções” da Palavra de Deus é justamente “corrigir, em vista de educar a pessoa na justiça” (cf. 2Tm 3,16).
                         
A força da oração comunitária
No final do Evangelho, após falar da necessidade da correção fraterna, Jesus lembra a nós, Igreja, que temos um forte instrumento de recuperação/correção do irmão que erra – a oração comunitária: “Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus” (Mt 15,19). A busca do irmão desencaminhado, a tentativa de recuperá-lo e também a sua “interdição”, tudo o que seja “ligar” ou “desligar”, deve ser acompanhado pela oração em comunidade. Portanto, as tensões da comunidade devem ser superadas orando a Deus e, ao mesmo tempo, recordando a promessa da presença do Ressuscitado junto da sua Igreja: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles” (Mt 15,20).  

            *Pelo menos em relação ao bispo em questão, isso é página virada na Diocese de Jaboticabal. O mesmo não se pode dizer dos padres passíveis de serem corrompidos e fomentadores de corrupção.  

            Oração
            Pai, tenho consciência de que muitas vezes preciso ser corrigido. Não quero ser teimoso como um animal, que só pode ser freado nos seus impulsos por meio de cabresto e chicote (cf. Sl 32,9). Peço-Te um coração dócil às Tuas correções. Sei que não somente preciso, mas também posso me tornar uma pessoa melhor, um cristão melhor. Quero deixar-me corrigir por Tua palavra, a fim de que o meu coração seja formado na justiça e na santidade. Concede-me humildade e maturidade suficientes para aceitar as correções que devo aceitar. Que em mim não haja falsidade, nem arrogância, nem orgulho que impeçam o Espírito Santo de me educar, de me corrigir sempre que necessário, Ele que é chamado “o educador” (cf. Sb 1,5).
            Pai, peço também que o Senhor me conceda a serenidade e a firmeza necessárias para corrigir o meu irmão que erra. Liberta-me do medo infantil de perder o afeto das pessoas, medo que me torna covarde e omisso diante do erro delas. Não devo e não quero colaborar com a impunidade. Não devo e não quero tornar-me passível de corrupção, nem muito menos fomentador dela na minha família, no meu trabalho, na minha igreja e na sociedade onde vivo. Livra-nos a todos do mal da impunidade. Ajuda-nos a encontrar caminhos eficazes para interditar todos aqueles que, por se recusarem a se corrigir, continuam a causar mal às famílias, às igrejas e à sociedade. Em nome de teu Filho Jesus, amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi