sexta-feira, 22 de julho de 2016

VOCÊ ACREDITA QUE AINDA VALE A PENA REZAR?

Missa do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: Gênesis 18,20-32; Colossenses 2,12-14; Lucas 11,1-13.
           
Como anda a sua vida de oração? Quais as alegrias que você já experimentou na sua oração? Quais as decepções? Nós podemos comparar a oração como um rio. Você é convidado(a) a entrar neste rio e flutuar nele, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo até a presença de Deus. Mas, quantas vezes você entra neste rio, entra em oração, e ao invés de se deixar conduzir pelo Espírito, abraçando a vontade de Deus, você começa a nadar contra a corrente, opondo resistência ao Espírito, porque quer que prevaleça a sua vontade e não a vontade de Deus? Quando você faz isso, acaba por transformar a sua oração num tormento. Isso distancia você da oração.
O texto de Gn 18,20-32 nos coloca diante da oração de Abraão, uma oração que revela três atitudes importantes: humildade, “atrevimento” e insistência: “Estou sendo atrevido em falar ao meu Senhor” (Gn 18,27)... “Abraão tornou a insistir...” (Gn 18,30). Jesus, depois de ensinar seus discípulos a rezar, também sublinha a importância de insistir com Deus na oração. Enquanto muitas pessoas rezam até se cansar, ou quem sabe até se ‘decepcionar’ com Deus, Jesus nos diz que devemos pedir até receber, buscar até encontrar, bater até a porta se abrir (cf. Lc 11,9). Somente quando rezamos de maneira humilde, “atrevida” e insistente é que descobrimos o quanto a força da oração pode em nossa vida.
Assim se expressa o salmista em relação à oração: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma” (Sl 138,3). Quantas pessoas têm perdido o seu vigor e definhado na sua vida espiritual porque deixaram de gritar a Deus, deixaram de rezar? O salmista pede concretamente: “Completai em mim a obra começada... Ó Senhor... eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos!” (Sl 138,8). A oração é necessária para que Deus complete a obra que começou em você. Quanto menos tempo você dedica à oração, quanto menos você se coloca nas mãos de Deus por meio da oração, mais inacabado(a) você se sente.
“Senhor, ensina-nos a rezar...” (Lc 11,1). Como os discípulos, nós sentimos que nossa vida de oração precisa melhorar. Nós necessitamos da oração porque necessitamos de Deus, e somente na oração podemos nos abrir a Deus; somente na oração podemos nos deixar amar e cuidar por Deus. De fato, a primeira palavra da oração que Jesus nos ensinou é “Pai”. Nós não somos órfãos, nem estamos sozinhos neste mundo. Deus é o Pai de cada um de nós e cuida de cada um de nós! E a oração nada mais é do que confiar-se aos cuidados do Pai, deixar-se cuidar por Ele!
Jesus insiste nesta imagem de Deus como Pai, ao exemplificar que se os pais – humanos e imperfeitos – dão coisas boas aos filhos, muito mais “o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!” (Lc 11,13). Por que o Espírito Santo, e não saúde, prosperidade, sucesso, vitória etc? Porque “nem só de pão vive o homem” (Mt 4,4); porque somos cidadãos do céu e devemos buscar as coisas do alto (cf. Fl 3,20; Cl 3,1); porque devemos pedir a Deus não ‘migalhas’, não bens transitórios, mas o Seu maior bem, o Seu maior dom, a Sua maior bênção: o Espírito Santo, sem O qual nada podemos.
Uma última consideração: Sabe qual é o critério para verificar se sua oração foi boa ou se ela atingiu o seu objetivo? A oração é boa não quando você sai dela sentindo-se melhor – embora isso também possa acontecer –, mas quando ela ajuda você a encontrar e abraçar a vontade do Pai a seu respeito...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ACOLHER DEUS E SUA BÊNÇÃO

Missa do 16º. dom. comum. Palavra de Deus: Gênesis 18,1-10a.; Colossenses 1,24-28; Lucas 10,38-42.

            Deus passou pela tenda de Abraão. Jesus passou pela casa de Marta e de Maria. Quando foi a última vez que Deus passou pela sua casa, pela sua vida? Você estava em casa? Você o recebeu? De que maneira?
            Talvez você responda que nunca recebeu a visita de Deus. Será mesmo? Aqueles três homens que passaram diante da tenda de Abraão não tinham nenhum crachá de identificação, do tipo: “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo”; ou então “Representantes do Deus Altíssimo”. Abraão acolheu aqueles três homens simplesmente como homens, como peregrinos que precisavam ser acolhidos, que precisavam comer, beber e descansar um pouco, antes de prosseguirem a viagem. Mas Abraão foi tão generoso, tão gratuito na sua forma de acolher que, para surpresa sua, recebeu uma bênção pela qual esperou a vida toda: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho” (Gn 18,10).
            Essa inesperada visita de Deus a Abraão serve de questionamento para nós: estamos acolhendo Deus, que de forma inesperada e surpreendente nos visita por meio de pessoas e de acontecimentos? Deus nos visita nas coisas mais comuns do dia a dia, e quando O acolhemos como Ele deve ser acolhido, nossa rotina se transforma completamente, como aconteceu com Abraão. No livro do Apocalipse, Jesus afirma: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta eu entrarei, cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Procure perceber se é Jesus que não tem passado pela sua casa, pela sua vida, ou se é você que não tem aberto a porta para ele.         
            A porta da casa de Marta e de Maria foi aberta para Jesus. No entanto, dentro da casa as duas irmãs o acolheram de maneira diferente: enquanto Maria se sentou aos seus pés para ouvir sua palavra, Marta continuou ocupada com seus afazeres. Não há dúvida de que nós temos muito mais de Marta do que de Maria. Estamos sempre e muito ocupados, embora seja verdade que muitos também se ocupam em nada fazer, levando uma vida de parasitas e sobrecarregando os que estão à sua volta.
            A Marta que habita em nós tem um apelido: “urgência”. Nós temos muitas urgências, e na medida em que gastamos tempo com essas urgências, não encontramos tempo para o que é essencial. Mas aí está a advertência de Jesus: “Marta, Marta, você se preocupa e se agita com tantas coisas. No entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só” (Lc 10,41-42). “Pouca coisa é necessária”... Pouca coisa é necessária para você ser feliz, para recuperar seu casamento, para reeducar seu filho, para reencontrar sua paz, para se reconciliar com aquela pessoa, para redescobrir a sua fé... Enquanto você continuar a gastar toda a sua energia correndo atrás daquilo que pensa ser suas urgências e descuidar daquilo que é essencial, sua vida continuará a ser consumida pela angústia e pela inquietação, e você continuará a adoecer.
            “Maria escolheu a melhor parte” (Lc 10,42). Diante de Jesus, que se encontrava naquele momento em sua casa, Maria fez uma escolha: escolheu se sentar aos seus pés e escutá-lo. Há quanto tempo você não pára para ouvir Deus? Há quanto tempo você não se senta aos pés d’Ele, para ouvir sua Palavra? Santo Agostinho, São Francisco de Assis e Santo Inácio de Loyola só pararam para ouvir Deus quando ficaram doentes, e quando O ouviram, mudaram completamente de vida, porque compreenderam o que era essencial.
            Todos os dias, nós precisamos fazer uma escolha: escolher viver a partir do urgente ou viver a partir do essencial. Aquilo que é urgente nos fecha em nós mesmos; não temos tempo para ninguém, a não ser para os nossos interesses. Mas o essencial nos convida a acolher as pessoas que passam diante da nossa tenda. Na medida em que nos esquecemos de nós e nos doamos aos outros, experimentamos algo novo, a nossa visão se alarga e nos abrimos àquilo que Deus quer realizar em nós.
            Diante das tarefas diárias que nos aguardam, aprendamos a fazer como Maria: antes de mais nada, coloquemo-nos em oração como quem se coloca em atitude de acolhida – estamos ali para acolher Deus, para acolher sua Palavra, para acolher a sua bênção, preparada para nós naquele dia. Somente depois de termos ouvido o Senhor e recebido a sua bênção é que podemos nos ocupar das nossas tarefas, sabendo que o resultado dos nossos esforços naquele dia dependerá muito menos daquilo que fizermos e muito mais daquilo que permitimos que Deus faça em nós, durante a oração.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A NECESSIDADE DE FAZER-ME PRÓXIMO

Missa do 15º. dom. comum. Palavra de Deus: Deuteronômio 30,10-14; Colossenses 1,15-20; Lucas 10,25-37.  

            O sacerdote “viu” o homem ferido e caído pelo caminho, “viu e passou pelo outro lado” (Lc 10,31). Assim também o levita: “viu e passou pelo outro lado” (Lc 10,32). O samaritano, por sua vez, “chegou junto dele, viu e se encheu de compaixão. Aproximou-se dele e tratou suas feridas...” (Lc 10,33-34). Num mundo como o nosso, onde ninguém enxerga ninguém, onde o individualismo nos impede de ver o próximo e sentir compaixão por ele, nós ainda vemos? O marido ainda vê a esposa, e vice- versa? Os pais ainda veem os filhos, e vice-versa? Os políticos veem o povo? Se o veem, de que maneira o veem? Nós, cristãos, vemos os que estão feridos e caídos à nossa volta? Ainda somos capazes de sentir compaixão pelos que sofrem?
            Meditando sobre este Evangelho que acabamos de ouvir, o Pe. José Pagola escreveu: “Quando a religião não está centrada num Deus que é Pai dos que sofrem, o culto sagrado pode transformar-se numa experiência que afasta da vida concreta, preserva do contato com o sofrimento das pessoas e nos faz caminhar sem reagir diante dos feridos que vemos nas sarjetas. Como é atual a ‘parábola do samaritano’ nesta sociedade de homens e mulheres que correm cada qual para suas preocupações, se agitam atrás de seus próprios interesses e gritam cada qual suas próprias reivindicações!”
            Jesus, “a imagem do Deus invisível” (Cl 1,15), nos revelou Deus como ‘Pai dos que sofrem’, e o culto que prestamos a Ele só é verdadeiro na medida em que ‘reagimos diante dos feridos que vemos nas sarjetas’ da vida. Reagimos como? Reagimos com misericórdia! Para Jesus, a misericórdia sempre foi mais do que um sentimento; foi uma reação diante de toda pessoa que sofre. É exatamente isso que Jesus espera de mim e de você: que não percamos tempo perguntando “quem é o meu próximo”, mas que nos façamos próximos de quem sofre, usando de misericórdia para com ele (cf. Lc 10,36-37).    
            A parábola do bom samaritano coloca uma pergunta para cada um de nós: de quem eu preciso me fazer próximo hoje? Talvez seja de alguém da minha casa... Na sua exortação “A alegria do amor”, o Papa Francisco afirma que “a família foi desde sempre o ‘hospital’ mais próximo. Prestemo-nos cuidados, apoiemo-nos e estimulemo-nos mutuamente, e vivamos tudo isto como parte da nossa espiritualidade familiar” (n.322). Até que ponto eu também tenho visto (ou quem sabe, evitado ver) alguém ferido e caído na minha família, e ‘passado pelo outro lado’, por não querer tocar na ferida dessa pessoa? Mas, talvez, a pessoa de quem eu tenha que me fazer próximo seja alguém do meu local de trabalho; talvez seja aquela pessoa que não tem a mesma religião que eu, ou que me prejudicou, ou que se tornou minha inimiga...
É difícil fazer-se próximo de quem sofre? Sim, com certeza. No entanto, de quem se poderá esperar a sensibilidade e o compromisso com quem sofre, se não de nós, cristãos, de nós, Igreja? Aqui cabem mais uma vez as palavras do Pe. José Pagola: “Se à Igreja não se lhe comovem as entranhas diante dos feridos que jazem nas sarjetas, tudo o que ela fizer e disser será bastante irrelevante. Só a compaixão pode tornar hoje a Igreja de Jesus mais humana e mais digna de crédito”. Além disso, mesmo sabendo o quanto nos custa nos comportar hoje como bons samaritanos em relação a quem sofre, lembremos do que o próprio Deus nos disse agora a pouco: “Este mandamento que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance... Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática” (Dt 30,11.14).
Escutemos a voz de Deus em nossa consciência e em nosso coração, para sabermos de quem somos chamados a nos fazer próximos, neste momento da nossa vida. Permitamos que Jesus nos ajude a enxergar a vida para além das nossas preocupações, dos nossos interesses, vendo aqueles que estão feridos e caídos à nossa volta e nos fazendo próximos deles. Deixemos com que o Espírito Santo desperte a força da compaixão dentro de nós, para que saibamos reagir com misericórdia quando, no caminho da vida, cruzarmos com alguém que está sofrendo. Acolhamos o desafio que Jesus nos faz, neste Evangelho, como se nos dissesse: ‘Ontem, eu estive no meio de vocês como Bom Samaritano, vendo-os feridos e caídos, me aproximando, me debruçando sobre vocês para tratar das suas feridas. Hoje eu desafio cada um de vocês a fazer o mesmo que eu fiz’. “Vá, e faça você também a mesma coisa” (Lc 10,37).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 1 de julho de 2016

CONFIRMADOS NA FÉ

Missa de São Pedro e São Paulo. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 12,1-11; 2Timóteo 4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19.

Pedro e Paulo: dois homens comuns, limitados e imperfeitos como todo ser humano, mas dois homens transformados pela graça de Deus, escolhidos pelo próprio Jesus para edificarem a sua Igreja no meio dos homens como presença de salvação. Olhando para eles, somos chamados a tomar consciência do nosso próprio lugar na Igreja que Deus conquistou para si com o sangue do seu próprio Filho Jesus Cristo (cf. At 20,28).  
A respeito de Pedro, homem fraco na fé, Jesus disse: “Eu orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. Quando tu, porém, te converteres, confirma teus irmãos” na mesma fé (Lc 22,32). A respeito de Paulo, Jesus declarou: “Este homem é um instrumento escolhido para levar o meu nome diante das nações pagãs...” (At 9,15). Assim como fez com Pedro e Paulo ontem, Jesus hoje chama a cada um de nós para que, como pedras vivas da sua Igreja, possamos confirmar a fé as pessoas que convivem conosco, buscando anunciar o Evangelho da misericórdia ao mundo em que vivemos.
A Igreja que Jesus fundou sobre os apóstolos é uma Igreja que incomoda, como vimos na primeira leitura; uma Igreja que vive debaixo de perseguição e de sofrimentos; uma Igreja que ora incessantemente a Deus por seus membros, para que não deixem de dar testemunho da sua fé. A Igreja que Jesus fundou sobre a fé de Pedro e de Paulo é uma Igreja de homens, composta de pessoas humanas; portanto, uma Igreja imperfeita, que ainda não chegou, mas que se encontra em caminho; uma Igreja que também se encontra debaixo do julgamento de Deus e que é constantemente chamada à conversão.
            A Igreja que Jesus chamou de “minha Igreja”, no Evangelho que ouvimos, é a Igreja de Francisco, uma Igreja pobre, simples, humilde, sem arrogância, nem presunção diante da sociedade humana; uma Igreja que confia no poder de Deus e na verdade do Evangelho, não na falsa garantia do dinheiro e das pessoas “influentes” da sociedade; uma Igreja que escolheu estar no meio das pessoas como um hospital, para tratar os que se encontram feridos.
            Jesus garantiu a sua oração a Pedro, para que ele se fortalecesse na sua fé. A Igreja orou incessantemente a Deus por Pedro, enquanto ele era mantido na prisão. Da mesma forma, nós somos chamados a orar pelo nosso Papa Francisco. Desde aquele 13 de março de 2013, quando abraçou sua nova missão em favor da Igreja de Jesus Cristo, o Papa Francisco tem pedido que oremos por ele. O fato do Papa Francisco, com seu estilo de vida e com suas atitudes, estar devolvendo decência e credibilidade à nossa Igreja, incomoda muitas pessoas, inclusive dentro da Igreja, pessoas que, embora se julguem colocadas na Igreja pelo próprio Espírito Santo, sempre resistiram a Ele (cf. At 7,51).
            A Igreja, quando fiel ao seu fundador Jesus Cristo, comungará do mesmo destino dele: “O servo não é maior que seu senhor. Se eles me perseguiram, também vos perseguirão; se guardaram minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15,20). Assim como Pedro e Paulo, nós também nos dispomos a comungar do mesmo destino de Jesus? Eis o testemunho do apóstolo Paulo, em relação a isso: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7). A fé é também um combate, um combate constante; ora combatemos conosco mesmos, ora com o mundo. Ainda estamos combatendo, ou já “jogamos a toalha”? Nós iniciamos um dia o caminho de fé: estamos dispostos não só a continuar a percorrê-lo, mas também a concluí-lo? Segundo o apóstolo Paulo, a fé é um valor a ser guardado, defendido, protegido. Ela é, de fato, um valor para nós, ou se tornou algo que não nos importamos de perder?  
            Confiemos na oração de Jesus em favor do fortalecimento da nossa fé. Trabalhemos também pela confirmação de fé no coração das pessoas que convivem conosco. Oremos pelo Papa Francisco e colaboremos com ele na revitalização da Igreja presença viva da alegria e da misericórdia de Deus para a humanidade.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 24 de junho de 2016

SEM UMA DECISÃO FIRME, NENHUM OBJETIVO É ALCANÇADO

Missa do 13º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 19,16b.19-21; Gálatas 5,1.13-18; Lucas 9,51-62.

“Então ele (Jesus) tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). O Evangelho de hoje nos coloca diante do início da viagem de Jesus para Jerusalém, uma viagem tão importante que o evangelista Lucas vai gastar dez capítulos do seu Evangelho – 9,51 a 19,28 – para nos falar sobre tantos fatos que aconteceram nela, fatos que têm muito a dizer para a nossa vida, para a vida de todo discípulo de Jesus. Mas, o que nos interessa por ora se encontra na atitude de Jesus, de tomar a firme decisão de partir para Jerusalém.   
Você tem sido capaz de tomar decisões? Você costuma ser firme nas decisões que toma? Que decisões a vida está pedindo para você tomar neste momento? Todos os dias nós temos que decidir; isso pode se dar em relação aos nossos sentimentos, ou à nossa vida profissional, ou às pessoas com quem convivemos, ou à nossa própria fé. Além disso, toda decisão nos põe a caminho de algo. Quando nós nos recusamos a tomar uma decisão, ficamos paralisados na nossa indecisão. Procure, então, perceber se sua vida está parada, estagnada, ou caminhando... Procure perceber se o caminho que está seguindo foi escolhido por você ou se as circunstâncias te colocaram neste caminho, por você não ter tomado uma decisão que era necessária tomar...
 Precisamos ter isso claro: toda decisão nos põe a caminho de algo. Jesus decidiu tomar o caminho de nos salvar, mas este caminho o levaria para Jerusalém o lugar onde ele sofreria, seria rejeitado, morreria e ao terceiro dia ressuscitaria (como nos lembrou o Evangelho de domingo passado). Por isso, ele precisou ser firme nessa sua decisão. Algumas pessoas decidem se casar, outras não; outras decidem se consagrar a Deus. Algumas pessoas decidem ter filhos, outras não. Alguns decidem seguir uma igreja, ter uma religião; outros não. Seja qual for a decisão que você tomou, é preciso perguntar-se: “Eu estou sendo firme na decisão que tomei?”.
Iniciando o seu caminho para Jerusalém, Jesus encontrou um obstáculo: um povoado de samaritanos não o deixou passar por ali com seus discípulos. Imediatamente, Tiago e João perguntaram a Jesus: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?” (Lc 9,54). Por mais firme que você esteja na decisão que tomou, ela não elimina por si só os obstáculos do seu caminho. Antes, esses obstáculos estão ali justamente para verificar o quanto você leva a sério as escolhas que faz e as decisões que toma na vida. E então?  Como você lida com esses obstáculos? Como você lida com a sua raiva, que desejaria destruir aquelas pessoas que resolveram atrapalhar a sua felicidade? Por mais que você invocasse o céu para mandar fogo sobre esses obstáculos, isso nunca aconteceria, porque o caminho não é esse; a solução não é essa. Os obstáculos nos ajudam a encontrar outros meios de continuarmos o nosso caminho. Eles podem ser contornados; portanto, não precisam ser vistos como motivo para desistirmos do caminho que decidimos percorrer.   
No início do seu caminho, Jesus nos ensina três coisas importantes. A primeira delas: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9,58). Isto significa: aprenda a enxergar a vida além do seu próprio bem estar. Quem quer crescer, amadurecer, melhorar seu relacionamento, quem quer curar suas feridas, se santificar ou ser mais plenamente de Deus, precisa sair da sua “zona de conforto”, precisa desinstalar-se e estar disposto a lidar com o desconforto.
O segundo ensinamento de Jesus é à primeira vista estranho: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos; mas tu vai anunciar o Reino de Deus” (Lc 9,60). Jesus convida você a não desperdiçar energia com o que já está morto, mas a canalizar as suas melhores energias para aquilo que está vivo, ou para aquilo que pode viver a partir de você, do seu trabalho, da sua dedicação, do seu amor. Aquilo que já morreu não precisa mais dos seus cuidados, mas aquilo que está vivo, ou que ameaça morrer, sim. Então, cuide daquilo que você é chamado a cuidar.
O terceiro ensinamento de Jesus é um convite a olhar para frente: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). Sempre que você toma uma decisão, é obrigado a deixar algo para trás. O problema é que aquilo que você deixou, de vez em quando vai falar à tua lembrança; você sentirá saudade e se perguntará se tomou a decisão correta. E aí só existe uma maneira de seguir adiante: desprender-se do passado, atualizar a sua decisão a cada dia, olhar para frente e prosseguir, para atingir o seu objetivo.    
Jesus passa continuamente pelo caminho da vida de todo ser humano. Cada um deve dar sua resposta, tomar sua decisão. Quem deseja experimentar a vida que Jesus veio trazer precisa desprender-se, libertar-se: libertar-se em relação às coisas, às pessoas e a si mesmo. Mas, quem de nós deseja verdadeiramente ser livre a esse ponto? O apóstolo Paulo nos lembrou de que: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). No entanto, parece que temos medo dessa liberdade e acabamos nos deixando amarrar de novo a algum tipo de escravidão: um afeto desordenado, um vício, um pecado, uma doença etc. Outras vezes, usamos a nossa liberdade como desculpa para servirmos aos desejos do nosso egoísmo. Por isso, Paulo nos alerta: “Procedei segundo o Espírito... pois a carne tem desejos contra o espírito...” (Gl 5,16.17). Também sobre isso somos chamados a tomar uma decisão: dar ouvidos aos desejos da carne (nosso egoísmo) ou aos desejos do Espírito de Deus, que quer nos conduzir para a nova vida em Cristo.

 Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 16 de junho de 2016

VOCÊ SUPORTA A CURVATURA DA CRUZ?

Missa do 12º. dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 12,10-11; 13,1; Gálatas 3,26-29; Lucas 9,18-24.

            Dizem que há espaços dentro de nós que só surgem depois que passamos por uma dor. Antes de enfrentar aquele sofrimento nós éramos uma pessoa arrogante, egoísta, descuidada com relação ao essencial; não estávamos nem aí pra ninguém. Mas aquela dor de alguma forma nos humanizou, nos fez mais humildes, nos ensinou a cuidar daquilo que realmente é essencial, nos deu uma compreensão melhor a respeito de nós mesmos e das outras pessoas, nos fez mais solidários com quem sofre.  
            Toda dor, todo sofrimento, toda experiência de cruz é como um chacoalhão que a vida nos dá para nos fazer acordar e nos dar conta de que o mundo não gira em torno de nós, dos desejos, dos caprichos e das fantasias do nosso ego. Nossos olhos, que muitas vezes só enxergam os nossos próprios interesses, precisam ser lavados, banhados nas lágrimas de algum tipo de dor, para que enxerguemos a realidade que está à nossa volta e que pede a nossa colaboração para ser transformada, humanizada. Foi por isso que Deus disse aos habitantes de Jerusalém: “... haverá um grande pranto... haverá uma fonte acessível... para ablução e purificação” (Zc 12,11; 13,1).
            A verdade é que ninguém passa pela vida sem se deparar com algum tipo de cruz, e ninguém tira isso de letra. Toda cruz nos coloca em crise, joga por terra as nossas certezas e nos faz questionar não só a nós mesmos, mas o próprio Deus. Nem mesmo Jesus foi poupado disso. Se o Evangelho de hoje se inicia mostrando Jesus em oração, as perguntas que ele faz aos discípulos – “Quem dizem o povo que eu sou?” e “E vós, quem dizeis que eu sou?” – revela o porquê ele estava em oração: Jesus precisava saber a respeito da sua própria identidade e da sua missão diante de Deus.
            Nem tudo era claro para Jesus, assim como não o é para nós. Há experiências de sofrimento que nos levam a questionar até mesmo se vale à pena continuarmos vivendo, se vale à pena continuar na missão que abraçamos, na fé que professamos, na função que desempenhamos. E assim como fez Jesus, nós precisamos aprender a fazer: nos colocar diante do Pai, na oração, e deixar que Ele nos torne conscientes a respeito da Sua vontade para a nossa vida.
            Jesus saiu da oração consciente de quem ele era e de qual era a sua missão: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado... deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (Lc 9,22). Prestemos atenção à palavra “deve”. Existem sofrimentos que não são opcionais, mas fazem parte do caminho que escolhemos trilhar. Se eu quiser salvar meu casamento, recuperar meu filho, crescer como pessoa, me libertar, me santificar, se eu quiser me salvar, “devo” lidar com essa cruz, devo enfrentar tal dor. Aqui se revela a maturidade humana e espiritual de Jesus. Uma pessoa imatura procura passar pela vida desviando-se do “devo” e orientando-se somente pelo “isso me agrada”. Já uma pessoa madura sabe reconhecer qual é o momento em que não deve se desviar do seu “devo”, porque ali está a sua oportunidade de ser fiel aos valores que sustentam a sua vida e que dão sentido à sua existência.   
              O Evangelho de hoje termina com uma advertência: “... quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9,24). Quem dirige a sua vida somente pelo “isso me agrada”, procurando desviar-se de todo tipo de cruz, é como o arco de uma flecha que decidiu livrar-se do cordão que o mantém curvado, ou seja, é uma pessoa incapaz de atingir seus objetivos, pois eliminou a fonte da sua força interior. Por outro lado, quem aceita perder, quem aceita enfrentar a dor, a cruz, o sofrimento é como um arco que compreendeu a importância de ser curvado, pois é dali que sai a sua força para lançar a flecha, atingindo, assim, o objetivo que Deus tem para a sua vida.

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O QUE VEM PRIMEIRO: O AMOR OU O PERDÃO?

Missa do 11º. dom. comum. Palavra de Deus: 2Samuel 12,7-10.13; Gálatas 2,16.19-21; Lucas 7,36-50.

            Nós sabemos como entrar num buraco chamado “pecado”, mas não sabemos como sair dele. Aliás, com muita facilidade nós encontramos força e disposição em nós mesmos para cavar esse buraco e nos jogar dentro dele, mas depois, não sabemos de onde tirar forças e encontrar disposição para sair dali.
Quando uma situação de pecado começa a se instalar em nossa vida, nós achamos que tudo está sob controle. Nós vemos que aos poucos vamos afundando no erro, sabemos das consequências, mas apostamos ou na impunidade ou na falsa certeza de que, quando quisermos, poderemos pular fora do barco. No entanto, acontece conosco o que aconteceu com o rei Davi: a situação de pecado sai totalmente do nosso controle, e aquilo que era “só” um momento de prazer se transforma numa situação tão ameaçadora para nós, que a única saída que encontramos é cometer um erro absurdo para tentar esconder um erro menor: pra se livrar da acusação de adultério, Davi mandou matar o esposo da mulher com quem se deitou e que agora estava grávida de um filho seu.   
               Todos nós pecamos. Todos nós usamos mal a nossa liberdade na forma de lidar com o dinheiro e com os bens materiais, com a nossa afetividade e sexualidade; todos nós pecamos em relação ao próximo, seja tratando-o com indiferença, seja procurando tirar proveito dele. Todos nós conhecemos não só aquela voz em nossa consciência que nos acusa do erro que cometemos como também aquele sentimento de culpa que tira a paz do nosso coração. Mas a Escritura diz: “Todo homem há de voltar para o Senhor por causa dos pecados” (Sl 65,3-4). Sempre que pecamos, machucamos a nós mesmos ou aos outros. E é a dor dessa ferida que nos faz voltar ao Senhor, que perdoa todas as nossas culpas e cura toda a nossa enfermidade (Sl 103,3).
            O Evangelho de hoje traz uma pergunta: O que vem antes: o amor ou o perdão? Depende de quem estamos falando. Deus perdoa porque ama. Antes de Deus ser perdão, Ele é amor, e porque nos ama, nos perdoa. Em Deus, o perdão é consequência do seu amor por nós. Mas, e em nós, o que vem primeiro: o amor ou o perdão?
            Jesus disse, a respeito dessa mulher pecadora que chora aos seus pés e derrama sobre eles o seu perfume, cobrindo-os de beijos: “os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7,47). O grande amor que esta mulher demonstra para com Jesus é consequência do perdão que ela recebeu dele antes. Mas, antes quando? Segundo os comentadores bíblicos, muito provavelmente esta mulher teve um encontro anterior com Jesus, no qual ela foi perdoada. Seu gesto agora é de gratidão para com ele. E Jesus, diante do amor e da gratidão dessa mulher para com ele, confirma publicamente o perdão que havia concedido antes: “Teus pecados estão perdoados” (Lc 7,48).
            Portanto, o primeiro dom que nós recebemos de Deus é o perdão, como fruto do seu amor para conosco. Na medida em que nos reconhecemos perdoados por ele, nós O amamos. Dizendo de outra maneira, o perdão de Deus para conosco é incondicional e gratuito, assim como o Seu amor. O perdão de Deus para conosco não está condicionado pelo nosso esforço em amar: ‘Primeiro, você me ama; depois, eu te perdôo’; ou então, ‘Se você me amar, então eu te perdoarei’. Pelo contrário, o Evangelho que ouvimos nos convida a reconhecer o perdão que o Pai nos concedeu na cruz de seu Filho Jesus.
            Como você vive sua vida? Como alguém que se sente constantemente em dívida para com Deus? Como alguém que carrega culpa e condenação em seu coração? O apóstolo Paulo disse: ‘Eu vivo minha vida a partir da minha fé em Jesus Cristo, que na cruz me amou e se entregou por mim’ (citação livre de Gl 2,20). O próprio Jesus disse à mulher, no Evangelho que ouvimos: “Tua fé te salvou. Vai em paz” (Lc 7,50). O que te salva do pecado, da culpa e da condenação é a tua fé no perdão de Deus, a fé no amor do Pai que tudo perdoa. Aquilo que pode romper o círculo vicioso do pecado em sua vida é crer no amor de Deus por você, crer na graça que Ele te concede de romper com o pecado, convencendo-se de que não vale a pena pagar o preço que você tem pago para se alimentar das migalhas de falsas compensações que o pecado te dá.
            “Ela muito amou. Tem a minha paz. Vai seguir caminho sem temor. Sabe quem eu sou e será capaz de espalhar na terra o meu amor” (Frei Fabreti, Ela muito amou). Que a consciência de ser perdoado por Deus faça você voltar a demonstrar amor: amor pela vida, por Deus, pelos outros, por si. Que você caminhe com seu coração firmado na paz de Jesus, não mais carregando medo, culpa ou condenação. Que você se lembre de quem Jesus é: o rosto visível da misericórdia do Pai, o Amor que tudo perdoa. Que você possa levar consigo esse perfume do amor que tudo perdoa, para espalhá-lo onde quer que se encontre.       
    
            Pe. Paulo Cezar Mazzi