sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SENTIR-SE TENTADO NÃO SIGNIFICA CONSENTIR NO PECADO

Missa do 1º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Deuteronômio 26,4-10; Romanos 10,8-13; Lucas 4,1-13.

               Talvez você tenha feito um propósito de mudança, de santificação ou de conversão para esta quaresma. Talvez você tenha colocado diante de Deus a sua necessidade de fazer a páscoa, isto é, a passagem de uma situação de morte para uma situação de vida. Seja qual for o seu propósito de mudança ou a sua necessidade de fazer uma determinada passagem, as tentações de Jesus querem lembrar você de que sempre há um confronto a ser enfrentado, um confronto espiritual.
              Como acontece com todo ser humano, Jesus foi tentado durante toda a sua vida terrena – este é o significado dos “quarenta dias” (Lc 4,2) e, sobretudo, da expressão “no tempo oportuno” (Lc 4,13). Aliás, aqui já podemos adiantar uma reflexão: qual é o “tempo oportuno” para o mau espírito nos tentar? A tentação sempre fala mais forte conosco nos períodos de crise ou de desolação, nos prometendo soluções rápidas, receitas miraculosas, alívio imediato para a nossa dor. É principalmente quando você não está bem que o mau espírito fala com você.
             De maneira geral, como é que nós somos tentados? Nós somos tentados a não cumprir com nossas obrigações; a abandonar compromissos; a buscar caminhos mais fáceis e rápidos, ainda que não sejam corretos, nem justos. Nós somos tentados a dar livre curso à nossa agressividade; a não esperar em Deus, mas a fazer justiça com nossas próprias mãos. Nós também somos tentados a desistir de lutar e mesmo de viver; a eliminar todas as nossas fraquezas e sermos revestidos unicamente do poder de Deus. Enfim, nós somos tentados a eliminar para sempre o mal do meio de nós e também dentro de nós, como se isso fosse possível.  
             As tentações de Jesus revelam-me uma verdade difícil de aceitar: o mal que eu vejo nos outros também mora em mim. Sim, o mal também habita em mim. Eu o percebo claramente na perversão da minha sexualidade, na minha agressividade (sentimento de vingança), no meu egoísmo, na minha ambição pelo dinheiro (pequenos atos de corrupção), no meu desejo de poder etc. Assim como fez com Jesus, o mau espírito também me diz que eu não preciso sofrer privação de nada; que, se eu servi-lo, ele me fará prosperar grandemente; enfim, que eu não preciso abrir mão de Deus, mas, se quiser, posso usá-Lo na minha fé unicamente para meu proveito próprio.           
               Jesus conseguiu resistir às propostas do tentador porque ele tinha intimidade com a palavra de Deus: “A Escritura diz” (Lc 4,4.8.12). O apóstolo Paulo nos lembra que a palavra de Deus deve se tornar para nós “palavra da fé”, e assim ela será nossa defesa contra o tentador. Em que sentido “palavra da fé”? Uma palavra que esteja em nossa boca (confessar Jesus como Senhor) e em nosso coração (crer que Deus o ressuscitou). Essa mesma palavra nos oferece uma indicação importante sobre como podemos lidar com as tentações: “Sujeitem-se a Deus; resistam ao diabo e ele fugirá de vocês. Aproximem-se de Deus e ele se aproximará de vocês” (Tg 4,7-8).
              Eu não posso ficar passivo diante do mau espírito. Preciso opor-lhe resistência, e a melhor resistência é sujeitar-me a Deus: eu reconheço meus sentimentos, os acolho e decido livremente sujeitá-los a Deus, ao Seu querer. Em outras palavras, se eu nem sempre escolho me sentir tentado, sempre posso escolher entre consentir ou não àquela tentação. Portanto, assim como Jesus fez, eu posso escolher sujeitar-me ao querer de Deus. É d’Ele que eu devo me aproximar mais ainda, principalmente quando me sinto tentado. Desse modo, o mau espírito se afasta de mim, porque escolhi livremente sujeitar a minha vida ao senhorio de Deus.
                Eis uma oração que pode lhe ajudar:
               A cruz sagrada seja minha luz. Não seja o dragão meu guia. Que seja Jesus. A cruz sagrada seja minha luz. Não seja o dragão meu guia, não. Seja expulso, inimigo de meu Deus! Bebe tu mesmo os venenos teus! Não me oferece coisas vãs não, não. É mal o que me oferece. Desaparece! Não me oferece coisas vãs não, não. É mal o que me oferece. Seja expulso inimigo de meu Deus! Bebe tu mesmo os venenos teus! Então, vem, Senhor Jesus, vem com tua cruz. Salvador, seja minha luz! Então, vem, Senhor Jesus, luta em meu lugar. Redentor, vem me libertar! (Anjos de Resgate, A cruz sagrada) 

                                                                     Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

É TEMPO DE SANEAMENTO

Missa da quarta-feira de cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20–6,2; Mateus 6,1-6.16-18.

É tempo de SANEAMENTO. Este importante tempo de Quaresma que hoje iniciamos tem como pano de fundo a Campanha da Fraternidade, a qual nos propõe como princípio de vida o SANEAMENTO, palavra que significa curar, recuperar, tornar limpo, retornar ao estado original, sanar, higienizar, tornar saudável. O saneamento não é somente uma série de medidas que torna uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para a população, mas também um conjunto de ações para estabelecer a ética e a justiça. Por isso, ouvimos falar da necessidade de “saneamento da administração pública” ou de “saneamento das contas públicas”, por exemplo.
            Aqui podemos recordar mais uma vez as palavras da música “Que país é esse?” (Legião Urbana): “Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse?”. Sim. Infelizmente temos que admitir: há sujeira pra todo lado. Desde a forma como lidamos com o lixo em nossa casa até a forma como tantos políticos e empresários lidam com o dinheiro público, há sujeira pra todo lado. E onde há sujeira, há doença e risco de morte.
            Mas, de onde vem a sujeira que provoca doença e morte em nosso meio? Ela vem do pecado – do pecado pessoal e social. Se o meio ambiente está sujo, se tantos políticos e empresários estão contaminados com o vírus da corrupção, se tantos adolescentes e jovens estão adoecidos pelo vício da bebida e das drogas, se a sociedade padece ferida pela violência, é porque a nossa consciência, de maneira geral, se encontra suja, tão suja que nós temos dificuldade em reconhecer o nosso pecado, como fez o salmista: “Eu reconheço toda a minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente.... Pratiquei o que é mau aos vossos olhos” (Sl 51).
           A primeira coisa que precisa ser saneada, recuperada, limpa, é a nossa consciência, o lugar onde Deus nos fala: “Voltai para mim com todo o vosso coração... Prescrevei o jejum sagrado, convocai a assembleia, congregai o povo... Chorem... e digam: Perdoa, Senhor, a teu povo...” (Jl 2,12.15-17). Desde o Antigo Testamento, o jejum aparece como uma atitude importante de saneamento, de limpeza, de desintoxicação. Quando jejuamos, damos ao nosso organismo o tempo que ele precisa para se desintoxicar. Por outro lado, o jejum não visa apenas recuperar a saúde do nosso corpo, mas principalmente o nosso autodomínio: não podemos viver arrastados pelos nossos desejos e impulsos, mas precisamos administrá-los em vista do nosso verdadeiro bem.
           O jejum que agrada a Deus não é simplesmente não comer isto ou aquilo, mas abster-se de agredir as pessoas com palavras ou atitudes, abster-se de pensamentos e sentimentos que entulham de lixo a nossa consciência e o nosso coração, não nos fechar sobre nós mesmos, mas nos abrir àqueles que precisam de nós: doentes, necessitados, desempregados etc. Também é muito importante jejuar de imagens. Estamos intoxicados por imagens da TV, do celular, da internet: imagens de pornografia, que distorcem a nossa sexualidade; imagens de violência, que aumentam a nossa agressividade e perturbam o nosso espírito. Por fim, também precisamos nos desintoxicar de imagens erradas que temos de Deus: seja o “Deus-juiz”, que se revela como violento e ameaçador, seja o “Deus-pizza”, sinônimo de impunidade.
           O Papa Francisco tem insistido em nos falar de Deus como “misericórdia”. A Quaresma é este tempo apropriado para nos deixarmos reconciliar com Deus e nos permitir ser abraçados por Sua misericórdia. Envolvidos nos braços do Pai, pedimos, como o salmista: “Criai em mim um coração que seja puro”, limpo, curado, saneado, recuperado em seu estado original; um coração puro, isto é, sem o fermento da vaidade ao dar esmola, ao orar, ao jejuar. Que a nossa esmola seja expressão da nossa verdadeira comunhão com a dor do nosso próximo. Que a nossa oração seja um constante configurar-se com o Pai misericordioso. Que o nosso jejum seja, enfim, um constante abandono de tudo aquilo que não nos é essencial, para que possamos, uma vez desintoxicados, colaborar para o saneamento do ambiente à nossa volta.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

RECONSTRÓI A MINHA IGREJA!

Diante do desejo de acomodação (estar enraizado, estabelecido) e da exigência de garantias (Onde é? Como é? O que me espera?), “sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei... Seja uma bênção” (Gn 12,1.2). Reconstrói a minha Igreja!
Talvez você pergunte: “Quem sou eu...?” (Ex 3,11), para assumir tal missão, para abraçar tal risco? “Eis que não acreditarão em mim, nem ouvirão a minha voz” (Ex 4,1). “Perdão, meu Senhor, eu não sou homem de falar... Envia o intermediário que quiseres” (Ex 4,10.13), mas Eu te digo: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12); “Eu estarei em tua boca, e te indicarei o que você deverá falar” (Ex 4,12). Mesmo com a tua limitação, reconstrói a minha Igreja!
Numa época em que se perdeu a perspectiva de futuro, onde tudo se reduziu ao aqui e agora, onde o anseio pelo Reino se fragmentou em desejos de mercado – bem estar, sucesso, vitória, conquista, felicidade – “seja forte e corajoso, pois você deverá fazer entrar este povo na terra que o Senhor jurou dar aos seus pais... O próprio Senhor irá à tua frente, Ele estará com você! Nunca te deixará, jamais te abandonará! Não tenha medo, nem se apavore” (Dt 31,7-8). Reconstrói a minha Igreja!
Ainda que você tenha plena consciência da sua pequenez – e é bom mesmo que tenha – e diga “Como posso salvar (um povo)? Meu clã é o mais fraco... e eu sou o último na casa de meu pai” (Jz 6,15), Eu te digo: “Vai com a força que está em ti...” (Jz 16,14). Lembre-se de que você não recebeu “um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de autodomínio” (2Tm 1,7). A partir desse espírito que te anima, reconstrói, pois, a minha Igreja!
Diante de um mundo cada vez mais secularizado, com famílias desestruturadas, adolescentes e jovens mergulhando de cabeça nas drogas, a violência crescente, as injustiças se tornando parte do cotidiano, as religiões e as igrejas se vendo como “empresas” concorrentes, pergunto-Me: “Quem eu vou enviar? Quem irá por nós?” (Is 6,8). Há alguém que se apresente para reconstruir a minha Igreja?
Sim! Você dirá: “Ah! Senhor Deus, eis que eu não sei falar, porque sou ainda criança!” (Jr 1,6). Sim! Quando você se colocar a Meu serviço, viverá momentos de profunda crise, de grande arrependimento, chegando até ao ponto de desejar não ter nascido (“maldito o dia em que nasci!” – Jr 20,14), porque sua missão será ingrata: antes de construir e plantar, você deverá primeiro arrancar e destruir, exterminar e demolir, e as pessoas o odiarão por isso. Mas “a quem eu te enviar, você irá, e o que eu te ordenar, você falará. Não tema diante deles, porque eu estou com você para te salvar” (Jr 1,7-8). Nunca se esqueça disso: “Eu estou vigiando sobre minha palavra para realizá-la” (Jr 1,12). Portanto, vai e reconstrói a minha Igreja!
Cuidado com a busca por resultados! A cultura em que você vive visa exatamente isso: resultados, eficiência, metas atingidas. Mas isso nada mais é do que casa construída sobre a areia. Construa a sua sobre a rocha. Eu te enviarei a pessoas que precisam te ouvir, mas que não vão querer te ouvir. Porém, “quer te escutem, quer deixem de escutar..., saberão, ao menos, que um profeta esteve com eles” (Ez 2,5). Independentemente dos resultados, reconstrói a minha Igreja!
Minha Igreja necessita de reformas profundas. Os remendos, sempre tímidos, não têm funcionado (cf. Mt 9,16). Em muitos lugares está faltando vinho (cf. Jo 2,3), alegria, entusiasmo, vida, porque a lei passou a ser mais consultada do que o Espírito; o serviço passou a ser entendido como cargo; acostumaram-se a falar de Mim sem falar antes comigo, por meio da oração e da escuta da minha Palavra; aquela que meu Filho banhou e purificou, para ser Sua esposa imaculada (cf. Ef 5,26-27), carrega consigo manchas de prostituição, tanto no campo sexual quanto financeiro... É hora de reconstruir a minha Igreja, lembrando que tal reconstrução se dará “não pelo poder, nem pela força, mas por meu espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4,6).
Eu te escolhi “como um instrumento para levar o meu nome diante das nações” (At 9,16); separei você desde o seio materno e te chamei por minha graça (cf. Gl 1,15). Aos olhos do mundo, seria muito mais lógico que Eu ou escolhesse outra pessoa – quem sabe mais madura e capacitada do que você, para reconstruir a minha Igreja –, ou então que removesse de você todo tipo de limitação, fraqueza ou imperfeição. Mas, não vou fazer isso. Você carregará o tesouro da sua vocação em vaso de barro, para que fique claro aos demais que se trata de um dom meu e não de uma qualidade sua (cf. 2Cor 4,7). Você levará consigo uma espécie de espinho na carne, para que não se encha de soberba, nem se torne arrogante (cf. 2Cor 12,7). Porém, tenha a certeza de uma coisa: sempre que se sentir fraco, poderá experimentar a minha força (cf. 2Cor 12,9). Vamos! Reconstrói a minha Igreja! 

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

ELE PRECISA DE VOCÊ, DO SEU TRABALHO...

Missa do 5º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 6,1-2a.3-8; 1Coríntios 15,1-11; Lucas 5,1-11.

            Certa vez, quando Jesus foi questionado pelos judeus por ter curado um homem no dia de sábado – dia do “descanso” de Deus, segundo a lei de Moisés –, Jesus disse: “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5,17). Deus trabalha. Ele não está sentado no Seu trono simplesmente assistindo ao que acontece com a humanidade. Ele trabalha, porque Sua obra de redimir e salvar tudo o que criou continua em andamento. Esta obra, como nos lembrou o salmista hoje, deve ser completada em cada um de nós (cf. Sl 138,8).
           Ao mesmo tempo em que Deus trabalha continuamente pela salvação da humanidade, Ele chama pessoas para colaborar com Ele neste trabalho. Foi o caso do profeta Isaías, que ao participar de uma celebração no Templo, sentiu em seu coração um forte apelo de Deus: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”, e Isaías prontamente respondeu: “Aqui estou! Envia-me” (Is 6,8).
           Hoje Deus continua a dirigir à nossa consciência o mesmo apelo: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” Quem irá por mim junto às crianças e adolescentes nas escolas, junto aos professores e funcionários, junto às famílias desestruturadas? Quem irá por mim junto aos refugiados, aos estrangeiros, aos moradores de rua? Quem irá por mim junto aos desempregados, aos doentes, aos aflitos? Quem irá por mim junto aos políticos, juízes, empresários, junto aos corruptos, aos criminosos, junto àqueles que cometem injustiças contra os outros?
           E então, qual é a sua resposta? Você tem a coragem de dizer: “Estou aqui! Envia-me”? Você compreende que Deus precisa também de você, para que a obra d’Ele possa ser completada no mundo? Assim como Isaías, como Paulo e os demais apóstolos, cada um de nós é chamado a trabalhar pelo evangelho, a anunciar a misericórdia de Deus àqueles que convivem conosco, a tantos que dela necessitam.
           “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5,17). Para anunciar a Palavra de Deus aos seus ouvintes, Jesus toma emprestado um instrumento de trabalho – um barco de pesca. Depois de ter falado à multidão, para comprovar a eficácia da Palavra de Deus na vida daquele que a ouve e a obedece, Jesus disse a Simão, dono do barco: “Avança para as águas mais profundas e lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4). Simão, como experiente pescador, sabendo que não se pesca durante o dia, respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes” (Lc 5,5).
           Assim como Simão, nós sabemos que “o mar não está pra peixe”. Existem situações ao nosso redor diante das quais já nos debruçamos e nos esforçamos por modificar, mas que continuam iguais, ou até piores. No entanto, “em atenção à tua palavra”, por obediência ao Deus que nos fala e nos lança o Seu apelo, nós devemos ir para as águas mais profundas e lançar novamente as redes para a pesca. Trabalhar com Deus e por Ele é assim: não fazemos as coisas porque as condições são favoráveis e o resultado está garantido. Mesmo quando tudo indica que o trabalho será perdido, lançamos as nossas redes porque Ele nos mandou lançá-las.
           Olhando para a nossa realidade, onde se encontram as águas mais profundas? Elas são exatamente aqueles lugares onde o evangelho ainda não chegou. Elas são o coração daquelas pessoas às quais desistimos de anunciar Jesus Cristo, assim como aquelas às quais nunca O anunciamos. Porém, essas águas também falam de algo dentro de nós, falam de profundidade. Nossos relacionamentos estão marcados pela superficialidade: com Deus, conosco mesmos e com os outros. Tudo aquilo que fazemos, até as coisas mais rotineiras, precisamos fazer com profundidade.
           Jesus nos convida a mergulhar mais fundo para descobrir a força que está escondida em nós, assim como a capacidade que o outro tem, capacidade até então desconhecida por ele e por nós. Jesus passa hoje pelo nosso trabalho, entra em nosso cotidiano, e nos faz um convite: Preciso que você se torne comigo um “pescador de homens” (Lc 5,10). Preciso de você para salvar pessoas. Preciso que use o seu trabalho como meio/instrumento de evangelização. Preciso que você direcione o seu talento, a sua capacidade, os seus dons, para algo mais importante...

Para a sua oração: Canção de Pedro (Dom).

                                                                      Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

SUA EXISTÊNCIA DEVE FAZER ECOAR A PALAVRA COMO BOA NOTÍCIA

Missa do 3º. dom. comum. Palavra de deus: Neemias 8,2-4a.5-6.8-10; 1Coríntios 12,12-14.27; Lucas 1,1-4; 4,14-21.

           As leituras que acabamos de ouvir nos falam da força da Palavra de Deus na vida daquele que nela crê: a Palavra que devolve alegria e força ao coração humano (1ª. leitura), a Palavra que revela o lugar que cada um de nós ocupa no Corpo de Cristo, que é a Igreja, (2ª. leitura), a Palavra que nunca é mera repetição do passado, mas sempre tem algo a dizer para o “hoje” da nossa vida (Evangelho).
           O texto de Neemias serve de exame de consciência sobre a maneira como nos colocamos diante da Palavra, sobretudo quando a ouvimos na Igreja. A Palavra coloca em pé, isto é, levanta, tira da prostração aquele que a escuta. A Palavra faz você se inclinar e se prostrar não diante dos seus problemas ou das injustiças sociais, mas diante do Deus que é maior do que os problemas e as injustiças humanas. A Palavra questiona os motivos da nossa tristeza e nos devolve as razões da nossa alegria. Mas para isso, precisamos ouvir a Palavra com atenção e acolhê-la com o nosso “Amém!”, colocando nela a nossa fé, como quem finca uma estaca no chão. Lembremo-nos de que a palavra “Amém!” era no nome das estacas que Israel usava para fincar suas tendas no chão, enquanto peregrinava pelo deserto.     
           A carta de São Paulo nos mostra que a Palavra respeita a individualidade de cada um de nós, mas nos convida a trabalhar pela unidade do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Um membro não pode dizer ao outro: “Não preciso de ti” (1Cor 12,21). Ninguém de nós é autossuficiente; precisamos uns dos outros. Além disso, é importante perceber como lidamos com as fraquezas que se encontram em nós mesmos e nos outros, pois “os membros do corpo que parecem mais fracos são muito mais necessários do que se pensa” (1Cor 12,22). Quando individual ou comunitariamente rejeitamos aquilo que é fraco, essa rejeição se volta contra nós. Uma comunidade, assim como qualquer pessoa, é saudável somente na medida em que reconhece, respeita, acolhe e se reconcilia com aquilo que nela é fraco. Por fim, a Palavra de Deus nos convida a desenvolvermos o cuidado de uns pelos outros: “os membros zelem (...) uns pelos outros. Se um membro sofre, todos sofrem com ele...” (1Cor 12,25-26). Isso significa desenvolver uma atitude de misericórdia uns para com os outros.
           Jesus é a Palavra que se fez carne, isto é, pessoa humana (cf. Jo 1,14). Por meio de Jesus, entendemos que a Palavra de Deus na verdade é uma Pessoa que fala conosco e que vem anunciar no “hoje” da nossa vida a salvação que vem de Deus. Por todo lugar onde andou, Jesus anunciou a Palavra de Deus como ela verdadeiramente é: uma boa notícia que devolve a alegria aos pobres, a libertação aos que estão presos e a visão aos que não conseguem enxergar, a Palavra que proclama “o ano da graça do Senhor” (Lc 4,19).
           Desde o dia 08 de dezembro, estamos vivendo em nossa Igreja o Ano Santo da Misericórdia, aberto pelo Papa Francisco, consciente de que “ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus”. Neste sentido, nós, Igreja, devemos nos tornar sempre mais “a casa que acolhe a todos e não recusa ninguém” (palavras do Papa Francisco). Para isso o Espírito Santo consagrou a cada um de nós, a fim de que a nossa vida seja um anúncio vivo da misericórdia do Pai para com todo ser humano; concretamente, para com aqueles com os quais nos encontramos no dia a dia.
           “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). A Palavra de Deus, escrita “ontem” por homens e mulheres inspirados pelo Espírito de Deus, sempre tem algo a dizer para o “hoje” da nossa história pessoal e social. Cabe a você ouvi-la “hoje”. Cabe a você, a cada manhã, abrir o seu ouvido para que o Senhor possa falar ao seu coração e tornar você capaz de levar uma palavra de conforto a toda pessoa abatida que encontrar (cf. Is 50,4). Cabe a você tornar-se consciente de que, com a sua existência única neste mundo, você é também uma palavra única de Deus para aqueles que convivem com você no dia a dia.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A LAMA SE ALASTRA E MATA PORQUE A ÁGUA SANTIFICADA DO NOSSO BATISMO TEM JORRADO POUCO

Missa do Batismo do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 42,1-4.6-7; 

Atos dos Apóstolos 10,34-38; Lucas 3,15-16.21-22.

A lama. “Faz tempo que a gente se acostumou com ela. Foi entrando na vida diária. Subindo pelas canelas até chegar ao pescoço. Rompeu barragem. Destruiu cidades. Poluiu rios. Impactou o ambiente. Matou gente. Tudo, agora, é lama... Tanta lama não se forma por acaso. Requer esforço (ou falta de). Vai embrutecendo sentidos, sentimentos e ideias. Vira descaso, desilusão, acomodação, negligencia impunidade. Invade corações e mentes. Corrompe a alma, enfim... O mar de lama começou na alma de cada um. Sem limpar a alma, não existe futuro possível. As almas estão poluídas, desencantadas. Antes de tomar a realidade de assalto, a lama invadiu a alma. Apodreceram valores, sonhos, ideias e ideais. Tornou almas desinteressadas, mesquinhas, enlameadas. Pequenas mesmo.  E se a alma é pequena, nada vale a pena” (Elton Simões, Mar de lama).
            Como está sua alma? Limpa ou enlameada? Íntegra ou corrompida? Capaz de misericórdia perante a dor alheia ou indiferente a ela? Como um verdadeiro servo de Deus, você também “não se deixa abater enquanto não estabelecer a justiça na terra” (Is 42,4), ou já se habitou a tal ponto com a injustiça que hoje é mais um a promovê-la nas suas atitudes cotidianas? Seus olhos estão limpos, foram lavados com água, de modo que você consegue enxergar que a cana rachada ainda pode ser recuperada e que o pavio que ainda fumega precisa ser valorizado (cf. Is 42,3) – o que significa agir com misericórdia? Ou seus olhos estão tão sujos da lama do individualismo e do pessimismo que você só enxerga as pessoas e a realidade social como casos perdidos, sem solução?
            A celebração do Batismo de Jesus nos fala da necessidade que temos de ser purificados com o banho da água e santificados pela Palavra (cf. Ef 5,26). “Hoje Cristo entrou nas águas do Jordão para lavar o pecado do mundo” (São Pedro Crisólogo). Nós precisamos ser lavados da lama do pecado pessoal e social que obscurece os nossos olhos, corrompe a nossa consciência e torna o nosso coração indiferente ao nosso próximo. Nós precisamos nos voltar para Aquele que é a nossa fonte (cf. Sl 87,7), a “fonte de água viva” (Jr 2,13), para Aquele que veio abrir os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão e livrar do cárcere os que vivem nas trevas (cf. Is 42,7).
            “Cristo foi batizado não para ser santificado pelas águas, mas para santificá-las” (São Máximo de Turim). A água que foi derramada sobre nós no dia do nosso batismo foi santificada por Jesus. Quando ainda não tínhamos consciência do pecado, mas já carregávamos conosco a tendência para o pecado, própria de todo ser humano, a Igreja nos mergulhou nas águas do batismo, santificadas por Cristo, para que, desde pequenos, pudéssemos ouvir a voz de Deus sobre as águas (cf. Sl 29,3-4) a dizer a cada um de nós: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu benquerer” (Lc 3,22).
            Ao se referir ao batismo de Jesus, o apóstolo Pedro ressalta que “depois do batismo... Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem...” (At 10,37-38). O que aconteceu conosco depois do nosso batismo? O que acontece com as crianças que ainda hoje são batizadas? Há uma continuidade na escuta da voz do Pai, por meio da Sua palavra – em casa, nas missas, na catequese? O Espírito Santo que nos foi dado no batismo tornou-se o nosso Condutor (cf. Rm 8,14) ou uma Presença totalmente ignorada dentro de nós? Nós somos pessoas permeáveis ou impermeáveis ao Espírito de Deus? Como batizados, nós andamos por toda a parte procurando fazer o bem que nos é possível fazer, ou estamos contribuindo para que a lama do mal continue a contaminar o mundo à nossa volta?  
            Após ser batizado, Jesus se colocou em oração. “E, enquanto rezava, o céu se abriu” (Lc 3,21). Sem oração, o céu não se abre. Sem oração, o Espírito Santo não nos é dado (cf. Lc 11,13). Sem oração, não ouvimos o Pai falar conosco (cf. Lc 3,22). Sem oração, perdemos o contato com Aquele que é a nossa fonte de água viva, e passamos a nos sentir mergulhados num mar de lama, atolados na lama do pecado pessoal e social.
            Hoje somos convidados a renovar as promessas do nosso batismo para que o céu, que ainda parece fechado sobre a vida de tantas pessoas, volte a se abrir; para que o mar de lama, que se torna cada vez mais extenso, contaminando e matando toda possibilidade de vida, de justiça e de paz à nossa volta, seja aos poucos vencido, purificado pela água que jorra de cada um de nós, aquela água santificada por Cristo que recebemos no batismo e que precisa voltar a fluir, para o nosso bem e o bem da humanidade. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 2 de janeiro de 2016

A LUZ, QUANDO VERDADEIRA, CONDUZ PARA A ADORAÇÃO

Missa da Epifania (manifestação) do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

            Onde há luz há vida, há presença. Se as luzes da casa estão acesas, significa que há alguém ali. A luz atrai, mas, às vezes, atrai para a morte; às vezes nós nos comportamos como moscas ao redor de uma luz que nos fascina, nos atrai, mas acaba por nos cegar e matar. Muitas crianças e adolescentes estão tendo insônia porque, antes de dormirem, ficam muito tempo expostos à luz da tela do celular... Que tipo de luz está presente em sua vida? Que tipo de luz te atrai, te seduz? Em torno de qual luz você tem girado? É uma luz que te cega ou que realmente te faz ver/enxergar?
            Diz o salmista, a respeito de Deus: “Com a tua luz nós vemos a luz” (Sl 36,10). Só na luz de Deus, que é a Verdade, você pode ver/enxergar a sua própria luz, a sua própria verdade. Assim, entendemos que a verdadeira luz é aquela que não só nos faz ver o que está à nossa volta, mas também enxergar o que há dentro de nós. Nós precisamos estar sob a luz que é Deus, para que possamos nos ver como realmente somos, para nos darmos conta do que em nós é luz e do que em nós ainda é escuridão.
            Este é o convite do profeta à cidade de Jerusalém: “Levanta-te, acende as luzes... Está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória se manifesta sobre ti” (Is 60,1-2). Levante-se! Reaja! Tome posição diante dos acontecimentos! Não aceite que as trevas te encubram! Acenda a sua luz! Seja uma luz para os outros! Mesmo que a política, a economia, o mercado estejam envolvidos em trevas, e nuvens escuras cubram cidades, escolas, locais de trabalho, igrejas etc., seja luz para a sua casa, para as pessoas com as quais você convive no dia a dia! Viva sob a luz que é Deus, e sua luz se acenderá sobre os outros.   
            Os magos do Oriente disseram, a respeito do nascimento de Jesus: “Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2). Nós devemos ser uma luz, uma estrela que conduza as pessoas para a adoração. Jesus disse à samaritana que o Pai procura adoradores que O adorem em espírito e verdade (cf. Jo 4,23). O Pai não procura fanáticos cegos que enriqueçam seus líderes religiosos. O Pai também não procura fanáticos cegos que alimentem a violência religiosa, a chamada “guerra santa”. O Pai procura pessoas que, livre e conscientemente, se deixem conduzir pelo Espírito Santo e pela Verdade do Evangelho, que é Cristo.
            O Pai procura adoradores. Mas, o que é adorar? Ao encontrarem Jesus nos braços de Maria, os magos “ajoelharam-se diante dele e o adoraram” (Mt 2,11). A adoração nunca é uma atitude forçada ou superficial. Ela acontece naturalmente, quando a presença de Deus nos invade de tal modo que caímos de joelhos, reconhecendo a nossa miséria, o nosso nada. O apóstolo Paulo afirma que a adoração é consequência da escuta da Palavra por parte da pessoa: “os segredos do seu coração serão desvendados; ela se prostrará com o rosto no chão, adorará a Deus e proclamará que Deus está realmente no meio de vós” (1Cor 14,25). 
            Todo sacerdote tem essa importante tarefa de ser uma estrela que conduz o povo a ele confiado à verdadeira adoração ao único Deus, tomando cuidado com a tentação sempre presente do altar se tornar um palco para o show do eu. Quanto mais ostentação, quanto mais arreios, quanto mais o sacerdote chama a atenção do povo para si mesmo, menos chance de haver verdadeira adoração. Quanto menos penduricalhos, quanto menos ritualismo, quanto mais interioridade da Palavra, melhor. Só ela pode abrir o coração para a adoração ao verdadeiro Deus.   
            Ao adorarem Jesus, o rosto visível da misericórdia do Pai, os magos ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra. O ouro significa o que você tem de mais precioso; o incenso, o que você tem de mais sagrado; a mirra, o que você tem de mais humano, sua dor mais intensa, sua ferida mais profunda. Deus não nos pede nada. Também não adianta nada estarmos caídos de joelhos diante d’Ele, quando o nosso coração está prostrado diante de algo ou de alguém que se tornou muito mais significativo para nós do que o próprio Deus. Revisemos se temos sido uma estrela que aponta para Deus e conduz as pessoas para a verdadeira adoração. Revisemos se temos ofertado a Deus de todo o coração o que temos de mais precioso, de mais sagrado e de mais humano... Que a nossa permanência diária sob a Sua luz possa nos ajudar a voltar a enxergar a nossa verdadeira luz... 

Pe. Paulo Cezar Mazzi