sexta-feira, 22 de agosto de 2014

AS CHAVES, AS PORTAS E A ROCHA

Missa do 21º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 22,19-23; Romanos 11,33-36; Mateus 16,13-20.

            Na vida, nós precisamos de chaves; precisamos de uma chave para abrir, para ter acesso a algum lugar ou ao coração de alguém. Mas na vida nós também precisamos de uma chave para fechar, para nos proteger de alguém ou de algum perigo externo... Uma chave serve tanto para abrir quanto para fechar, tanto para nos ligar quanto para nos desligar de alguém ou de alguma situação. Na verdade, a chave não é somente um objeto. Ela pode ser uma palavra, um gesto ou uma atitude que tanto pode nos abrir quanto nos fechar em relação a alguém, tanto pode nos aproximar quanto nos manter afastados de uma pessoa.  
            Jesus disse a Pedro: “Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra, será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra, será desligado no céu” (Mt 16,19). Jesus também nos dá uma chave que se chama consciência, ou liberdade de escolha. Assim, a imagem das chaves se torna um questionamento para cada um de nós: Para o quê eu preciso me abrir? Para o quê eu preciso me fechar? Aquilo ao qual eu me ligo ou me conecto na terra está de fato me ligando ou me conectando ao céu?  Em Apocalipse 3,20 Jesus diz: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”. Estamos ouvindo a voz de Jesus em nossa consciência? Estamos abrindo a porta e permitindo que Ele entre em nossa casa, em cada cômodo, em cada área da nossa vida?
            As chaves também simbolizam respostas. Encontrar uma chave é encontrar uma resposta. Para muitas pessoas, Jesus é a resposta para todos os seus problemas, mas no Evangelho de hoje Ele se coloca como uma pergunta, primeiro no sentido impessoal – “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (Mt 16,13), depois no sentido pessoal – “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). O grande problema desta pergunta é que ela se desdobra numa outra: “Quais são as expectativas das pessoas em relação a mim? Qual é a sua expectativa em relação a mim? O que você espera de mim?”
            Muitos esperam que Jesus seja uma chave que lhes abra todas as portas. De fato, citando novamente o Apocalipse, Jesus diz: “Eis que pus à tua frente uma porta aberta que ninguém poderá fechar, pois tens pouca força, mas guardaste a minha palavra e não renegaste o meu nome” (Ap 3,8). Jesus pode, sim, abrir muitas portas para nós, mas tais portas são abertas na medida em que decidimos viver segundo a Sua palavra e não renegar a nossa fé. Além disso, a porta principal que precisamos que seja aberta não é a porta da prosperidade, nem a do sucesso, nem a da vitória, mas a porta da verdade que nos liberta (cf. Jo 8,32). 
              A pergunta sobre quem é Jesus para nós, isto é, sobre o que esperamos d’Ele, volta sempre, em cada fase da nossa vida, mas principalmente em cada experiência de dor, de sofrimento, de medo, de insegurança, de ameaça, de angústia, de solidão... Esta pergunta certamente surgiu em Paulo, quando se encontrava prisioneiro e sofrendo por causa do Evangelho, e ele, então, respondeu: “Eu sei em quem depositei a minha fé” (2Tm 1,12). Pedro também sabia em quem havia depositado a sua fé: em Jesus, “o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Esta fé de Pedro foi comparada por Jesus à firmeza de uma rocha. Isso significa que a rocha não é a nossa pessoa, mas a nossa fé, a mesma fé que nos reúne hoje aqui para que “na instabilidade deste mundo, fixemos o nosso coração onde se encontram as verdadeiras alegrias” (Oração do dia), a mesma fé que temos no Senhor que diz: “Hei de fixá-lo como estaca em lugar seguro” (Is 22,23). É a este Senhor que gritamos na oração e que aumenta no vigor da nossa alma (cf. Sl 138,3). A Ele suplicamos como o salmista: “Eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos” (Sl 138,8).
                 A mesma responsabilidade de ligar e de desligar que Jesus confiou a Pedro também confiou a cada membro da Igreja (cf. Mt 18,18). Portanto, examinemos a nossa conduta cristã, para não sermos merecedores dessas palavras: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque bloqueais o Reino dos Céus diante dos homens! Pois vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que querem!” (Mt 23,13). Por fim, lembremos que ser rocha não significa somente estar esclarecido e convencido da sua fé, mas também trabalhar para confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22,32). Que o nosso serviço em favor da Igreja ajude com que nossa comunidade se torne um “lugar seguro”, um lugar onde as pessoas possam passar de uma fé superficial para um relacionamento profundo com Deus, cuja Presença é como a Rocha: só pode ser sentida na profundidade da fé, compreendendo que só quando nos atrevemos a nos apoiar em Deus é que experimentamos que somos verdadeiramente amparados e sustentados por Ele.  

                                                                                                                                                                                   Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

DEFENDER-SE DO DRAGÃO COM O ESCUDO DA FÉ

Missa da Assunção de Nossa Senhora. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a.; 12,1.3-6a.10ab.; 1Coríntios 15,20-27a; Lucas 1,39-56.

          A vida é feita de lutas, de batalhas. Batalha-se para conquistar a pessoa amada, para fazer um curso superior, para conseguir um lugar no mercado de trabalho. Batalha-se pela família, pela manutenção do vínculo conjugal, pela educação dos filhos. Batalha-se pela própria santificação, pela superação de um vício, pelo rompimento com uma situação de pecado. Batalha-se contra uma doença, mas também batalha-se pela expansão do tráfico de drogas, pela expansão do próprio poder sobre os outros, pela destruição daqueles que são considerados inimigos. Batalha-se, sobretudo, pelo dinheiro e pelo poder. As batalhas são inúmeras: algumas justas, dignas, plenas de sentido; outras injustas, desumanas, sem nenhum sentido.
            João também nos fala de uma batalha que começa no céu e depois passa para a terra: a batalha entre uma mulher e um dragão. A mulher é a Igreja, o Povo de Deus; o dragão é o diabo (cf. Ap 12,9). Enquanto a mulher é apresentada “revestida de sol”, símbolo da luz divina (cf. 1Jo 1,5; Sl 104,2; Is 60,20), o dragão é descrito como “cor de fogo”, símbolo da morte (“assassino desde o princípio” – Jo 8,44). O objetivo do dragão é devorar o filho que a mulher vai dar à luz (cf. Ap 12,4).
            O que pode uma mulher contra um dragão? O que podem as nossas famílias contra as drogas e a violência? O que pode uma pessoa contra uma doença grave? O que pode um povo contra uma guerra motivada por interesses econômicos ou pelo fanatismo religioso? O que podem os recursos naturais contra a nossa cultura do desperdício? O que pode a consolidação da identidade sexual de uma criança, que se dá de 0 a 3 anos de idade, contra a cultura gay? O que pode o ideal de amar até o fim contra a cultura do descartável?
            O constante aumento do mal no mundo não é sinal de que nós nada podemos contra o dragão, mesmo porque a mensagem de Ap 12 é uma só: o dragão é um eterno derrotado – derrotado por Jesus (vs.4-6), pelo arcanjo Miguel (vs.7-8), pelos que creem em Jesus (v.11) e pela própria terra (v.16). Seu único poder consiste em derrubar “a terça parte das estrelas do céu”, ou seja, derrubar os cristãos menos firmes, seduzir e arrastar atrás de si algumas pessoas, sobretudo por meio da tentação do dinheiro e do poder. Portanto, o alastramento do mal no mundo nada mais é do que os gritos de desespero de um dragão que sabe que está próximo da sua derrota definitiva.
            Na sua primeira carta, o apóstolo Pedro diz: “Eis que o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que a mesma espécie de sofrimento atinge os vossos irmãos espalhados pelo mundo” (1Pd 5,8-9). A fé é a nossa resistência, o nosso escudo, a nossa arma para não sermos devorados pelo dragão. Por isso, Isabel disse a Maria: “Feliz aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,45). A fé nos faz experimentar o poder de Deus em nós e nas nossas famílias. Se Maria disse: “O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,49) é porque antes havia dito: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38). É pela nossa fé e nossa obediência à Palavra do Senhor que permitimos que Deus faça grandes coisas em nosso favor e em favor da nossa família.
Ao celebrarmos a Assunção, a elevação de Maria em corpo e alma ao céu, estamos reafirmando a nossa fé nesta promessa bíblica: se é verdade que “todos morrem”, também é verdade que “em Cristo todos reviverão”. Ele vai destruir todo poder do mal e colocar todos os seus inimigos debaixo de seus pés. “O último inimigo a ser destruído é a morte”, subentendendo-se também o dragão, seu autor (cf. 1Cor 15,22.24-26). Se agora estamos associados ao combate de Jesus contra o maligno, é para que depois estejamos associados à sua ressurreição quando, como aconteceu com Maria, formos elevados ao céu, meta final da nossa redenção, da nossa glorificação com Cristo.
           
P.S. Reflexão alternativa:

“Não sou escravo de ninguém. Ninguém senhor do meu domínio. Sei o que devo defender... Quase acreditei na sua promessa, e o que vejo é fome e destruição! Perdi a minha sela e a minha espada. Perdi o meu castelo e minha princesa... Existem os tolos e existe o ladrão. E há quem se alimente do que é roubo, mas vou guardar o meu tesouro, caso você esteja mentindo... Olha o sopro do dragão!... Esta é a terra-de-ninguém. Sei que devo resistir. Eu quero a espada em minhas mãos!... Não me entrego sem lutar. Tenho ainda coração; não aprendi a me render: que caia o inimigo então!... Tudo passa, tudo passará... E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar! E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer! Não olhe pra trás. Apenas começamos. O mundo começa agora. Apenas começamos...”

 (Legião Urbana, Metal contra as nuvens)

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

CONTRARIEDADES

Missa do 19º. dom. comum. Dia dos pais. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13a; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.

            Ninguém passa pela vida sem enfrentar contrariedades, assim como ninguém atravessa o mar da vida sem enfrentar ventos contrários. Mas, para que servem as contrariedades? Para que servem os ventos contrários? Não há uma resposta única. Algumas vezes, as contrariedades surgem para nos fazer colocar os pés no chão, para nos devolver o senso de realidade, para nos ensinar a encarar a vida como ela é. Outras vezes, as contrariedades surgem como uma forma de testar a nossa capacidade de perseverança, para verificar se temos um objetivo sério na vida e se estamos dispostos a lutar para alcançá-lo. Mas também é possível que as contrariedades e os ventos contrários sejam a forma que o maligno encontra para nos fazer desistir dos nossos ideais, abrindo mão dos nossos valores e nos desviando da meta da nossa salvação.
            A forma como lidamos com os ventos contrários ou com as contrariedades da vida está ligada à nossa fé; mais especificamente, à imagem que temos de Deus. Para quem imagina Deus como um Pai que superprotege o filho e que está ali para preservá-lo de todo tipo de frustração, os ventos contrários são motivo suficiente para se revoltar contra Deus e para abandonar a fé. Mas, para quem imagina Deus como um Pai que deseja que seu filho cresça, se torne forte e capaz de encarar a vida com a cabeça erguida, os ventos contrários são sempre uma oportunidade de crescimento e de fortalecimento da sua fé.
            Os ventos contrários têm um rosto bem concreto: é a economia que não anda bem, o desemprego ou a ameaça dele, as doenças e as guerras, os ataques contra a família, a inversão de valores, a violência dentro e fora de casa, as drogas, as pessoas que nos perseguem em nosso ambiente de trabalho, o jogo de cartas marcadas em alguns concursos públicos etc. Enquanto algumas pessoas ainda resistem a esses ventos e procuram manter o rumo da barca da sua vida, outras acharam mais fácil deixar de remar, deixar de lutar, e se permitiram serem arrastadas pelo vento...   
            No meio da noite, da escuridão, da tempestade, os discípulos viram Jesus andando sobre o mar agitado, vindo ao encontro deles. Era “pelas três horas da manhã...” (Mt 14,25). Para alguns cristãos, a oração das três horas da tarde é a oração das causas difíceis, enquanto que a oração das três horas da manhã é a oração das causas impossíveis. Quando nos parece impossível atravessar os ventos contrários e prosseguir com a nossa vida, Jesus nos diz: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27). ‘Coragem! Eu estou com você nesta travessia. Não desista! Não se curve diante do vento!’
            O problema é que nós temos uma dificuldade enorme em ouvir Deus nos falar no meio da nossa tempestade. De fato, ao narrar o encontro de Elias com Deus, a Escritura afirma que “o Senhor não estava no vento... não estava no terremoto... não estava no fogo...” (1Rs 19,11-12). Mas o livro de Jó nos ensina que Deus também fala conosco no meio das nossas tempestades (cf. Jó 38,1). Assim como aconteceu com Elias, nós não vamos encontrar Deus na agitação das nossas emoções, mas somente quando o nosso coração silenciar, a ponto de ouvir “o murmúrio de uma leve brisa” (1Rs 19,12-13a).
            Uma árvore que cresce enfrentando ventos contrários tem o seu tronco fortalecido e suas raízes fincadas no mais profundo da terra. Por isso, ela dificilmente tomba quando os ventos sopram contra. Se não queremos tombar diante das contrariedades da vida, precisamos ter nossas raízes fincadas em Deus, o que significa desenvolver um relacionamento com Ele marcado pela profundidade e não pela superficialidade.
            Hoje comemoramos o dia dos pais e a abertura da Semana Nacional da Família. Por isso, “dobramos os nossos joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família no céu e na terra, para pedir-lhe que conceda que nossas famílias sejam fortalecidas em poder pelo Espírito Santo..., que Cristo habite pela fé em nossos corações e que nossas famílias sejam enraizadas e fundadas no amor” (citação livre de Ef 3,14-17). Que cada membro da nossa família, em especial o pai, não se deixe afundar no mar tempestuoso deste mundo, mas saiba gritar como Pedro: “Senhor, salva-me!” (Mt 14,30).
            É verdade que muitas famílias e muitos pais estão afundando nos seus problemas, nos seus erros, na sua falta de direção, porque se deixaram arrastar pelos ventos contrários, mas Jesus está ao lado de cada família, com sua mão estendida, para nos lembrar que o nosso verdadeiro inimigo não são os ventos contrários, mas a nossa falta de fé, o nosso desânimo, a nossa desistência em remar contra a corrente, mantendo a barca da nossa vida e da nossa família no rumo certo. Agarremo-nos às mãos de Jesus, que está acima de todo poder maléfico, e nos deixemos salvar por Ele. 
   Sugestão de música para sua oração: https://www.youtube.com/watch?v=uHNmtQBM8Fo 

                                                                                                                                                                      Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

DO DESPERDÍCIO PARA A DOAÇÃO; DA INDIFERENÇA PARA A COMPAIXÃO

Missa do 18º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,1-3; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21.

            Todo ser humano sente fome, porque todo ser humano depende de “algo” que está fora dele para viver. A fome nos diz que ninguém de nós é autossuficiente e que nós precisamos uns dos outros para viver. O alimento que sacia a nossa fome só chega à nossa mesa porque inúmeras pessoas que nunca iremos conhecer trabalharam para que a nossa fome fosse saciada.
            Mas a fome que o ser humano carrega dentro de si não é só de pão. A própria Escritura diz: “O homem não vive somente de pão” (Dt 8,3; Mt 4,4). Alguns têm fome de justiça, outros têm fome de paz; alguns têm fome de saúde, de alegria, de esperança; outros têm fome de um lugar no mercado de trabalho; alguns têm fome de perdão; outros têm fome de se sentirem amados. Da mesma forma, assim como existem crianças e adultos subnutridos, existem também crianças e adultos bem alimentados, mas “subnutridos” no que diz respeito à educação, à maneira de tratar os outros, à falta de sensibilidade para com a dor dos outros...
             “Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14,14). Mesmo entristecido pela morte de João Batista, mesmo necessitando ficar sozinho para digerir a sua dor, a sua tristeza, Jesus deixou-se afetar pela dor daquela grande multidão. Essa atitude de Jesus nos diz que, apesar do nosso cansaço, da nossa tristeza ou da nossa dor, sempre haverá espaço em nosso coração para a compaixão. Compaixão significa deixar-se afetar pelo sofrimento do outro; sofrer com ele; acolher o outro dentro de si. Dois exemplos concretos: Nos últimos dias, temos visto nos noticiários inúmeras pessoas que se mobilizam para socorrer os feridos de guerra na faixa de Gaza, assim como tantas outras pessoas se encontram na África, neste momento, lutando para socorrer os atingidos pela epidemia do vírus Ebola. São exemplos que nos ajudam a entender que a compaixão não é apenas um sentimento, mas uma reação, uma atitude nossa diante do sofrimento de alguém.  
            No entanto, nós temos a tendência a agir como os discípulos, que disseram a Jesus: “Despede as multidões...” (Mt 14,16), ao que Jesus respondeu: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Se Jesus nos manda dar de comer a quem tem fome, é para nos lembrar de que o problema da fome não é a falta de alimento, mas o desperdício de alimento. “O Brasil é o quarto produtor mundial de alimentos (Akatu, 2003), produzindo 25,7% a mais do que necessita para alimentar a sua população (FAO). De toda esta riqueza, grande parte é desperdiçada. Segundo dados da Embrapa, 2006, 26,3 milhões de toneladas de alimentos ao ano tem o lixo como destino. Diariamente, desperdiçamos o equivalente a 39 mil toneladas por dia... De acordo com o caderno temático “A nutrição e o consumo consciente” do Instituto Akatu (2003), aproximadamente 64% do que se planta no Brasil é perdido ao longo da cadeia produtiva: 20% na colheita; 8% no transporte e armazenamento; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo; 20% no processamento culinário e hábitos alimentares” (http://www.bancodealimentos.org.br/o-desperdicio-de-alimentos-no-brasil/). Isso nos faz lembrar as palavras do Papa Francisco, “A comida que se joga fora é como se fosse roubada aos pobres”.
            O desperdício de comida no Brasil mostra que não é verdade que “só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). Assim como é verdade que no Brasil não faltam recursos – o que falta é vontade política, assim também é verdade que não nos faltam recursos para agir com compaixão para com quem sofre – o que nos falta é vontade; o que nos falta é olhar a vida para além do nosso umbigo ou da tela do nosso celular; o que nos falta é tirar os fones de ouvido, ainda que seja por um momento, para ouvir o pedido de socorro de pessoas à nossa volta; o que nos falta é nos permitir sentir um saudável sentimento de culpa pela fome que também existe perto de nós.
            Aquilo que aos olhos dos discípulos era insuficiente para saciar a fome de toda aquela multidão Jesus tomou nas mãos, “ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção” (Mt 14,19), gesto que lembra as palavras do Salmo 145,15-16: “Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam e vós lhes dais no tempo certo o alimento; vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura”. Os cinco pães e os dois peixes nos dizem que Deus nos dá diariamente os recursos de que precisamos para nos ajudar mutuamente, para resolvermos os nossos problemas, inclusive dentro de casa, no relacionamento com as pessoas. Na verdade, não falta pão, falta doação; falta a vontade de tomar a decisão de “partir” e de “distribuir” aos outros aquilo que temos a tendência de guardar somente para nós.  
            Através do profeta Isaías, Deus faz um convite “estranho” à humanidade: ‘Quem está com sede, quem está com fome, venha, coma e beba sem dinheiro, sem ter que pagar’ (cf. Is 55,1). As expressões “sem dinheiro” e “sem ter que pagar” significam que a salvação que Deus oferece é um dom gratuito de d’Ele a todo ser humano. Deus é generoso em nos doar a salvação por meio de seu Filho Jesus, uma generosidade tão grande que o apóstolo Paulo afirma que em todas as dificuldades que passamos podemos nos considerar vencedores “graças àquele que nos amou!” (Rm 8,37), tendo a certeza de que nada “será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39).
            Neste primeiro domingo do mês vocacional, rezamos pelo ministério ordenado – diáconos, padres e bispos. Jesus nos ensinou a pedir ao Pai que não deixe faltar servidores para o anúncio do Evangelho (cf. Mt 9,37-38). Lembrando o exemplo de Abraão (cf. Gn 12,1ss), de Ana (cf. 1Sm 1,28), da viúva de Sarepta  (1Rs 17,12), de Pedro, André, Tiago e João (cf. Lc 5,11), Dom Pedro Brito afirma que “estes e tantos outros amigos e amigas de Deus, não foram mesquinhos na hora de partilhar e doar... Deram de sua pobreza e experimentaram o quanto Deus agracia um coração generoso. Deus não deixa faltar nada para aquele ou aquela que está disposto a repartir”. Portanto, conclui Dom Pedro, “o que está faltando não é somente vocação e sim doação”. 

                                                     Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 25 de julho de 2014

A IMPORTÂNCIA DO DISCERNIMENTO

Missa do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 3,5.7-12; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-52.

            Se perguntarmos às pessoas: “Quais são as ‘coisas’ mais importantes ou mais valiosas da sua vida?”, podemos receber várias respostas: ‘Minha saúde, meus filhos, minha esposa, meu marido, minha família, meu trabalho, minha fé, Deus’ etc.. Mas essas respostas podem ser somente teóricas, ditas “da boca para fora”, sendo que, no coração, o mais valioso para a pessoa pode ser o seu dinheiro, a sua beleza, a sua satisfação sexual, o seu carro, a sua moto, a sua projeção na sociedade etc..
            Existe uma pergunta que nos ajuda a perceber quais são os valores mais importantes da nossa vida, e a pergunta é: “O que enche o meu coração de alegria?”. A alegria indica onde está o nosso coração, o quê ou quem é o nosso tesouro, a nossa pérola preciosa. Jesus disse que o homem que encontrou o tesouro escondido no campo o manteve escondido e, “cheio de alegria” (Mt 13,44), ele foi, vendeu todos os seus bens para comprar aquele campo. “Cheio de alegria”... Quando foi a última vez que você se sentiu assim? O que deixa você alegre? É uma alegria que vem de dentro ou que depende das coisas de fora? É uma alegria duradoura ou passageira?  
            As parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa (cf. Mt 13,44.45) nos falam do valor do reino dos céus. Mas como pensar em “reino dos céus” numa época materialista como a nossa, onde o que vale é o momento presente, o que vale é “comer e beber, já que amanhã vamos morrer” (cf. 1Cor 15,32)? Você acredita na existência do “reino dos céus”? Essa expressão diz alguma coisa a você? Nas duas parábolas, os dois homens venderam “todos os seus bens” (cf. Mt 13,44.46) para adquirir aquilo que era um bem maior. Você é capaz de abrir mão de alguma coisa para estar com o seu coração mais perto do reino dos céus? Se você não tem consciência de que o reino dos céus significa a sua salvação, não será capaz de abrir mão de coisa alguma, muito menos de tudo, para entrar nele...
            Olhemos para o rei Salomão. Quando Deus lhe disse: “Pede o que desejas e eu te darei” (1Rs 3,5), Salomão não pediu longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de seus inimigos. Ele pediu “um coração compreensivo, capaz de... discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9). E o texto bíblico diz que “esta oração de Salomão agradou ao Senhor” (1Rs 3,10). Nossas orações agradam a Deus? O que costumamos pedir ao Senhor em nossa oração? Hoje em dia, as orações mais comuns que sobem ao céu das diversas igrejas e religiões contemplam a saúde, o trabalho, a proteção contra os inimigos etc. Há alguém que se preocupe em pedir ao Senhor um coração justo, condição indispensável para entrar no reino dos céus?
            Salomão pediu ao Senhor um coração capaz de discernir, de separar o bem do mal, o que presta do que não presta. Este talvez seja o nosso pedido mais raro na oração: discernimento. A necessidade de discernimento apareceu na última parábola sobre o reino dos céus: “Uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo” (Mt 13,47). Depois, os homens se sentam, “recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam” (Mt 13,48). A rede pode significar tudo o que os nossos olhos veem, tudo o que os nossos ouvidos ouvem, tudo o que os nossos sentidos captam. Nós não podemos ser um esgoto que engole tudo o que é jogado nele. Precisamos usar o filtro do discernimento para separar, para ficar com aquilo que nos aproxima do reino dos céus, o que contribui para o nosso crescimento humano e espiritual, o que nos aproxima da verdade que nos liberta, e para jogar fora o que nos distancia de tudo aquilo que não contribui para a nossa salvação.
            Muito se tem falado sobre a “mudança de época” que estamos vivendo, onde parece haver uma rejeição a tudo o que é velho e uma aceitação cega a tudo o que é novo. Aqui também é preciso haver discernimento. Jesus diz que a pessoa que se abre ao reino dos céus aprende que há valores que não podem ser perdidos, como também valores que precisam ser resgatados em sua vida (coisas velhas). Da mesma forma, é preciso acolher a novidade do Espírito presente nessa mudança de época em que estamos vivendo, uma novidade que nos desafia a rever os nossos conceitos e a alargar o nosso horizonte de compreensão de Deus e do seu Reino, não nos esquecendo de que “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus” (Rm 8,28); tudo contribui para quem deseja ter um coração justo e ser um sinal vivo do reino dos céus no mundo dos homens... 

                                                                                                                            Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O RESULTADO DA COLHEITA DEPENDE DO QUÊ?

Missa do 16º. dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 12,13.16-19; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-30.36-43.

            Nós gostaríamos de nos sentir somente fortes, mas às vezes temos que nos deparar com a nossa fraqueza. Nós gostaríamos de nos ver somente como vencedores, mas às vezes temos que admitir que também somos perdedores. Nós desejaríamos ser somente santos, mas temos que reconhecer que também somos pecadores. Nós desejaríamos ser habitados somente pela luz, mas temos que reconhecer que também somos habitados pela sombra, pela escuridão. No campo do nosso coração, nós esperávamos encontrar somente trigo, mas nele também existe joio, como o Evangelho acabou de nos mostrar.
            Numa sociedade narcisista como a nossa, onde vivemos preocupados com a nossa imagem, onde gastamos tempo e dinheiro, além de energia física e emocional, para que os outros nos vejam fortes, belos, felizes, vencedores etc., Jesus “puxa o nosso tapete” e nos faz cair na real: ‘Reconheça o joio que há em você. Não ignore a presença do mal que habita também o seu coração, e não só o coração dos outros. Aprenda a dialogar com a sua sombra, pois ela faz parte de você’.
            “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?” (Mt 13,27). Esta é a pergunta que todo ser humano faz: de onde vem o mal? Se Deus existe e se Ele é bom, porque permite também a existência do mal? O filme “Malévola” trabalha questões semelhantes: O que faz com que uma pessoa boa se torna má? Existe possibilidade de uma pessoa má tornar-se boa? “Malévola” nos ensina que, por trás de toda pessoa má, existe sempre uma ferida, um amor que parecia verdadeiro, mas que se revelou como mentiroso, traidor.
   No campo do mundo em que vivemos, é nítido o aumento do joio e a diminuição do trigo. Sobretudo no Brasil, onde a impunidade fala mais alto do que a justiça, vamos nos convencendo de que “o crime compensa”: compensa ser joio, compensa ser desonesto(a) e corrupto(a). Além disso, a causa do aumento do joio também se encontra na desestruturação familiar. Muitas crianças, apesar de nascerem como boas sementes, aos poucos tornaram-se joio porque nunca fizeram a experiência de serem amadas de verdade. Elas crescem ferindo os outros porque estão repassando as feridas que sempre receberam dentro de casa.
  Contudo, aquilo que explica nem sempre justifica. Nós não somos o resultado do meio em que crescemos e nem do meio em que vivemos. Por trás da parábola do joio e do trigo está o mistério da liberdade humana. Dois filhos são criados pelos mesmos pais: um se torna dependente químico, o outro não. Duas crianças crescem no meio da violência de uma favela: uma se torna assassina, a outra não. As duas receberam os mesmos “estímulos”, vivenciaram a mesma pobreza, cresceram no mesmo ambiente, mas cada uma decidiu lidar de maneira diferente com aquilo que recebeu porque, como compreendeu Victor Frankl, nós não somos o resultado do que os outros fizeram conosco; nós somos o resultado do que decidimos fazer com aquilo que fizeram conosco.
  O joio e o trigo existem em todos os campos, assim como no coração de todo ser humano. A questão é: o que eu quero cultivar em mim? A tentação que temos é a de arrancar o joio de uma vez por todas (cf. Mt 13,28). Mas Jesus diz: “Não! (...) Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,30). Não se trata de eliminar da nossa vida a ferida, a doença, a dor, a sombra, a fraqueza, mas de entender o que elas estão querendo nos dizer. Não se trata de jogar pessoas fora da nossa vida só porque descobrimos que elas são falhas – quem de nós não o é? Não se trata de pensar em cometer suicídio, uma vez que não é correto nos identificar com a doença ou com o mal que está em nós. Nós somos mais do que eles.   
            Para quem não suporta reconhecer o joio que carrega dentro de si, talvez seja útil refletir nessas palavras de Oswaldo Montenegro: “Quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você?” (Música A lista). Para quem não aceita reconhecer aquilo que Jung chama de “sombra” – tudo aquilo que rejeitamos em nós, e que, no entanto, faz parte de nós! – talvez seja bom pensar na fala de um homem que decidiu mudar de religião, justificando: “Na religião em que eu estava só me ensinavam a ser bom, mas eu preciso também dar vazão ao mal que existe em mim”. São palavras que chocam, mas que nos ajudam a reconhecer que trigo e joio habitam juntos o coração de todos nós.   
             Invoquemos o Espírito de Deus. Ele “vem em socorro da nossa fraqueza” (Rm 8,26). Somente Ele “penetra o íntimo dos corações” (Rm 8,27). Ele conhece o nosso joio e o nosso trigo. Ele pode nos ajudar a sermos mais tolerantes conosco mesmos e com as outras pessoas. Ele pode nos ensinar a trabalhar a favor do nosso amadurecimento, confiando que o joio nunca conseguirá sufocar o trigo, porque cada um de nós, cada ser humano, foi semeado no campo do mundo como uma boa semente de Deus!

                                                                                                                                                                             Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 10 de julho de 2014

CORAÇÃO ARADO OU IMPERMEABILIZADO?

Missa do 15º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23.

            Você conhece algum “homem de palavra” ou alguma “mulher de palavra”? Você confia na palavra das pessoas? Você é uma pessoa de palavra, isto é, você sustenta aquilo que diz? Você vive de acordo com aquilo que fala aos outros? Essas perguntas servem apenas para constatar que existe hoje um grande descrédito em relação à palavra humana, um descrédito tal que nós já não nos interessamos em ouvir o que os outros têm a nos dizer, assim como também não nos preocupamos em sustentar o que dizemos.
            Se a palavra humana está em descrédito, Deus compara a verdade da sua Palavra com o efeito da chuva sobre a terra: ela irriga, fecunda a terra e faz germinar a semente. Desse modo, Deus afirma: “(...) a palavra que sair da minha boca... não voltará para mim vazia; antes, (...) produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la” (Is 55,11). Do mesmo modo, ao enviar o profeta Jeremias para anunciar a Palavra ao povo de Israel, Deus afirma: “(...) eu estou vigiando sobre a minha palavra para realizá-la” (Jr 1,12).
            Ao comparar a Palavra de Deus com a chuva (Isaías) ou com a semente (Jesus), a liturgia de hoje nos convida a recobrar a confiança naquilo que Deus nos fala: sua Palavra tem o poder de nos fazer passar da morte para a vida, de nos corrigir, nos converter, nos curar, nos transformar e nos salvar. Contudo, a Palavra de Deus não é mágica: assim como a semente só pode germinar se for acolhida pela terra, assim a Palavra precisa da nossa colaboração para produzir seus efeitos em nós, e colaboração significa: obedecer à Palavra, ajustar nossa vida, nosso comportamento de acordo com o que Deus nos fala. Estamos dispostos a fazer isso?
             Antes de a terra receber a semente, ela precisa ser arada. “Arar” significa, de uma certa forma, “machucar” a terra. Às vezes, nós estamos tão fechados à Palavra de Deus que é preciso que um arado passe sobre o terreno do nosso coração, para que possamos receber a semente que é a Palavra. É quando algo nos obriga a parar, a rever a nossa vida, a escutar o que Deus está há tempos tentando nos dizer, mas nunca paramos para ouvi-Lo. Santo Agostinho, São Francisco de Assis e Santo Inácio de Loyola só pararam para ouvir Deus quando ficaram doentes...
            O salmo que hoje meditamos afirma, a respeito de Deus: “transborda a fartura onde passais, brotam pastos no deserto” (Sl 65,12-13). Onde nós permitimos que a Palavra de Deus “passe”, isto é, toque, questione, nos confronte com a sua verdade, ali ocorre uma transformação. Mas essa transformação pode ser abortada por nós de duas maneiras: ou não queremos que a Palavra mexa em determinada área da nossa vida, do nosso comportamento, ou não temos paciência em esperar pelo processo de transformação, o qual comporta o tempo da gestação e as dores do parto...
            Jesus deixou claro que Deus semeia sua Palavra em todos os tipos de terreno, porque Ele “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Mas Ele respeita a liberdade do coração humano. Ele entra onde nós permitimos. A semente da sua Palavra respeita o tipo de terreno que há dentro de nós. Por isso, citando o profeta Isaías, Jesus disse: “o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade” (Mt 13,15). A expressão “coração insensível” também pode ser entendida como “coração impermeabilizado”. Quantos de nós, ouvindo a pregação da Palavra de Deus, nos “protegemos”, nos “defendemos” dela porque não queremos mudar nossas atitudes?
            “Eles ouviram de má vontade”. Nós não sabemos ouvir. Nossos ouvidos estão sempre ocupados (fones). Além disso, no momento em que Deus poderia nos falar na missa ou no culto, alguns estão distraídos com o seu celular, jogando ou trocando mensagens, sem se dar conta de que por trás disso está o maligno, roubando o que foi semeado em seu coração (cf. Mt 13,19). Nós nos tornamos superficiais: recebemos diariamente uma enxurrada de informações e não aprofundamos nada. Como não nos aprofundamos na Palavra de Deus, nossa fé varia de acordo com as circunstâncias: com a mesma intensidade com que nos alegramos ao ouvir a Palavra no domingo, nos entristecemos ao nos deparar com problemas ou dificuldades durante a semana, como se a nossa fé fosse “bipolar” (cf. Mt 13, 20-21). Por fim, nós temos uma vida cheia: estamos sempre ocupados em trabalhar, seja para sobreviver, seja para prosperar. Nossas prioridades são o nosso estômago, os nossos bens materiais e o nosso lazer. Não é prioridade nossa a escuta/meditação da Palavra de Deus (cf. Mt 13,22).
             Apesar de todos esses obstáculos, existe em cada um de nós um espaço de terra boa. Mais do que um lugar ou um espaço, a terra boa é uma atitude de vida, atitude que consiste em ouvir, acolher a Palavra, meditar sobre ela, deixar-se interpelar por ela, perguntar-se: O que Deus está me dizendo por meio dessa Palavra? O que essa Palavra me faz dizer a Deus? A Palavra não é um livro, um folheto, mas uma Pessoa que fala conosco. Confiemos na força que a Palavra de Deus tem de converter e curar cada um de nós, uma conversão e uma cura que se dão até onde permitimos que a Palavra penetre e permaneça em nós. Respeitemos o tempo de gestação da semente. Não avaliemos nosso dia a dia pelo que estamos conseguindo colher, mas, sobretudo, pelo que estamos semeando e permitindo que a graça de Deus semeie em nós. Abramos espaço na terra do nosso coração; acolhamos a semente da Palavra; reguemos o terreno com a nossa oração diária e confiemos, aguardando pelo germinar/frutificar da Palavra em nós. 

                                                                                                                                                                                  Pe. Paulo Cezar Mazzi