sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A NECESSÁRIA EXPERIÊNCIA DE DESERTO

Missa do 1º. Dom. da quaresma. Palavra de Deus: Gênesis 9,8-15; 1Pedro 3,18-22; Marcos 1,12-15.

“O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias” (Mc 1,12-13). O que significa esse período de quarenta dias? Biblicamente, o número quarenta indica o tempo necessário para que haja uma mudança, uma cura, uma transformação, um renascimento. Embora a nossa geração esteja mal habituada a querer que tudo seja resolvido de maneira rápida, imediata, Deus nos ensina que existe um tempo para que algo de significativo aconteça em nossa vida. Não se cura uma ferida de forma instantânea. Não se passa de uma situação de morte para uma situação de vida de maneira imediata. Existe um processo, e esse processo exige de nós tempo, paciência, confiança, determinação, firmeza de caráter.
O Espírito de Deus nos convida a viver esse tempo de quaresma como o “tempo favorável” (cf. 2Cor 6,2) para a nossa transformação interior. Mas, como é que o Espírito nos conduz “para o deserto”? Ele pode fazer isso permitindo que fiquemos doentes, ou que passemos por um período de aridez espiritual, ou que enfrentemos determinado sofrimento, ou que enfrentemos uma crise... E embora a experiência do deserto nos cause muito desconforto, é importante confiar que nela se dá o nosso amadurecimento, a nossa conversão. O Espírito de Deus sabe que o deserto é um “lugar” onde não queremos ir, mas onde precisamos às vezes ir; é o lugar onde tomamos consciência daquilo que é essencial para a nossa vida e para a nossa salvação. Além disso, se a nossa vida hoje é ocupada cada vez mais pelas redes sociais e nós somos invadidos por uma enxurrada de imagens e mensagens, o Espírito de Deus quer nos conduzir para fora dessas pressões externas, para que possamos voltar a ouvir a voz de Deus de maneira mais clara e profunda: “Eu a conduzirei ao deserto e ali lhe falarei ao coração” (Os 2,16).
Assim como aconteceu com Jesus, toda pessoa que entra numa experiência de deserto se dá conta de que há uma voz enganadora dentro dela: a voz do tentador. Essa voz fala conosco procurando nos confundir, abalar a nossa confiança em Deus e nos fazer pensar que, se Deus nos permitiu entrar numa situação de deserto, é porque não nos ama e não se importa conosco. O objetivo do tentador é nos fazer acreditar que nós estamos sozinhos, absolutamente sozinhos em nosso deserto, entregues ao nosso próprio sofrimento. Por isso, para não nos deixarmos enganar por ele, precisamos nos lembrar sempre de que o mesmo Espírito que amparou Jesus no momento das tentações está amparando a cada um de nós quando somos tentados, como diz a Escritura: “Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças. Mas, com a tentação, ele vos dará os meios de sair dela e força para a suportar” (1Cor 10,13).
Toda experiência de deserto é uma experiência de purificação da nossa fé, de correção da imagem de Deus que temos dentro de nós. Na época de Noé, Deus era interpretado como Aquele que decidiu exterminar, por meio do dilúvio, a vida do ser humano e dos animais da face da terra, por causa da maldade do próprio ser humano: “A terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra” (Gn 6,13). Porém, quando a experiência do dilúvio terminou, Noé e sua família puderam ter uma imagem mais clara de Deus, como Aquele que fez aliança com a terra e com toda vida que há nela, uma aliança que será lembrada toda vez que surgir um arco-íris: “Estabeleço convosco a minha aliança: nenhuma criatura será mais exterminada pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra” (Gn 9,11).
Nossa época é muito parecida com a de Noé, uma época marcada fortemente pela violência que extermina a vida de inúmeras pessoas, uma violência que passou a habitar dentro de nós e é perceptível na intolerância, irritação, agressividade e impaciência com que tratamos as pessoas no dia a dia. Mas o apóstolo Pedro, retomando o acontecimento do dilúvio, nos lembrou hoje que nós fomo banhados nas águas do batismo, batismo que nos deu a consciência de filhos de Deus e de irmãos uns dos outros, de modo que Jesus afirmou: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Embora o diabo seja homicida e procure alimentar em nós a violência, nós devemos rejeitar as suas propostas e nos deixar orientar pelo Espírito de Deus, ajudando as pessoas do nosso tempo a não se afogarem nas águas da agressividade e da violência que produzem morte em nossa sociedade.
Ao narrar, ainda que de maneira muito resumida, as tentações de Jesus, o evangelista Marcos quer nos lembrar que Jesus, assim como nós, nunca teve uma vida fácil e poupada de lutas ou dificuldades. Além de se deparar com as forças contrárias a Deus presentes no mundo, ele teve que lidar com as forças do mal dentro de si, exatamente como acontece conosco. Por isso, devemos manter nossos olhos fixos em Jesus, aprendendo com ele a desmascarar as mentiras do tentador, a nos deixar conduzir pelo Espírito de Deus e a manter a nossa fidelidade a Deus, buscando tornar o seu Reino presente entre nós. Jesus nos convida a crer na força que o Evangelho tem de transformar a consciência e o coração de quem nele crê e por ele se deixa converter, corrigir e orientar.         

Oração: “O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12). Espírito de Deus, quero me deixar conduzir por Ti e por Tua verdade. Mesmo sabendo que todo deserto é uma situação de sofrimento, quero confiar quando Tu permites que eu experimente o deserto, sabendo que aquilo é necessário para a minha conversão e para a minha santificação.
            “Jesus ficou no deserto durante quarenta dias” (Mc 1,13). Senhor, quero confiar que existe um tempo para tudo debaixo do céu. Existe um tempo para que a minha ferida seja curada, para que a minha pergunta seja respondida e para que eu possa fazer a passagem da morte para a vida. Sustenta-me na travessia do meu deserto, renovando a minha confiança nos Teus propósitos a meu respeito. 
“Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças” (1Cor 10,13). Senhor, o tentador conhece as minhas fraquezas; ele sabe como me seduzir e me enganar, e eu muitas vezes caio nas suas armadilhas. Concede-me forças para resistir e lutar contra o mal. Dá-me um coração obediente a Ti. Sei que eu não posso passar por este mundo sem ter que lidar com diversas tentações. Concede-me a força da tua graça, para que eu não caia em nenhuma tentação, mas saia desse combate fortalecido(a). Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

VOLTAR PARA NÃO PRECIPITAR-SE NO ABISMO

Missa da 4ª. feira de cinzas. Palavra de Deus: Joel 2,12-18; 2Coríntios 5,20–6,2; Mateus 6,1-6.16-18.

            Quem de nós alguma vez não fez escolhas erradas ou não tomou decisões erradas? Quem de nós alguma vez não errou o caminho? Não há ser humano que nunca tenha cometido algum erro, que nunca tenha se enganado, ao fazer uma escolha ou ao tomar uma decisão. O tempo da quaresma existe para nos darmos conta dos nossos erros e do estrago que eles têm causado à nossa vida, à vida das pessoas que convivem conosco, à vida da Igreja e da sociedade, à vida do planeta... Mais do que isso, o tempo da quaresma existe para nos lembrar de que é possível corrigir o rumo que temos dado à nossa vida afetiva, profissional, social e espiritual. Se o caminho que estamos percorrendo está nos levando à destruição, é possível voltar, é possível mudar de direção.
            Eis, portanto, o apelo de Deus para nós: “Voltai para mim, com todo o vosso coração” (Jl 2,12). Se não queremos continuar a nos destruir e a destruir a vida à nossa volta, precisamos voltar, precisamos nos converter. Todos os anos a Igreja nos convida a viver o tempo da quaresma porque a conversão não é algo que se dá de uma vez para sempre; ela é um processo que acompanha – ou deveria acompanhar – toda a nossa vida, porque sempre precisamos fazer ajustes em nossa caminhada. O próprio Jesus diz à sua Igreja, no Apocalipse: “Você abandonou o seu primeiro amor. Recorde onde você caiu, converta-se e retome a conduta de antes” (Ap 2,4-5).
            Na sua mensagem para a quaresma deste ano, o Papa Francisco nos lembra esta advertência de Jesus: “Por causa da maldade no mundo, o amor de muitas pessoas se esfriará” (Mt 24,12). É possível que você tenha esfriado no seu amor para com Deus e para com o seu semelhante. De tanto ver violência e injustiça no mundo, de tanto ver corrupção e impunidade em nosso país, é possível que o amor à verdade, à justiça, ao bem e à solidariedade esteja esfriando dentro de muitos de nós. E quando o amor se esfria dentro de nós, é sinal de que o mal está tomando conta do nosso coração. O Papa Francisco nos lembra de que, no livro “A Divina Comédia”, Dante Alighieri descreve o inferno como um lugar onde o diabo está sentado num trono de gelo. A maldade do diabo reina onde o amor esfriou. Por isso, a Campanha da Fraternidade desse ano tem como tema “Fraternidade e superação da violência” e como lema é “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Nós não podemos permitir que a maldade e a violência social esfriem o amor, a fraternidade e a solidariedade em nosso coração. Jesus nos convida a promover a paz, a trabalhar em favor da paz, a nos desarmar e a aprendermos a dialogar com a nossa agressividade.
Voltemos a falar sobre a nossa necessidade de conversão. Por meio do profeta Joel, Deus ordena: “Prescrevei o jejum sagrado” (Jl 2,15). Jejuar também tem o sentido de desintoxicar-se. Precisamos nos desintoxicar da violência. Antes que Caim, por não saber lidar com a sua agressividade, derramasse o sangue de seu irmão Abel na terra (cf. Gn 4,1-12), o ser humano não se alimentava de carne, isto é, não derramava o sangue de animais para se alimentar (cf. Gn 1,29). Abster-se de carne também tem o sentido de entender que eu não preciso derramar sangue na terra para me alimentar; eu não preciso matar o outro para sobreviver. Eu preciso, na verdade, perceber o quanto tenho me tornado uma pessoa meramente instintiva, agindo cegamente a partir da minha agressividade.
Além de propor o jejum como meio de recuperarmos o domínio sobre nós mesmos, sobre os nossos instintos e os nossos afetos, Jesus nos fala da esmola como forma de voltar a enxergar o outro como nosso irmão: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Não podemos permitir que o individualismo do mundo moderno nos torne cegos para as necessidades do nosso irmão. Por meio da prática da esmola, Jesus nos desafia a nos fazer próximo de toda pessoa que necessita de nós.
Por fim, Jesus nos fala da oração como forma de restabelecer o nosso relacionamento com Deus. O nosso mundo se torna cada vez mais um lugar onde não há lugar para Deus, e muitos de nós, que nos dizemos cristãos, temos vivido na prática como se Deus não existisse. A verdadeira oração nasce da convicção de que nós precisamos ser salvos e não há salvador fora de Deus. Mas Jesus nos orienta que a nossa oração não deve ser ocupada o tempo todo com nossas palavras, nossos pedidos e nossas urgências (cf. Mt 6,7); ela deve se tornar o espaço onde voltamos a ouvir Deus e nos permitimos ser curados por sua Palavra. A oração é o “momento favorável” onde a graça de Deus pode realizar a nossa conversão, onde o fogo do Espírito de Deus pode voltar a aquecer o que em nós se esfriou.   
 Uma última palavra. Hoje ouvimos o profeta Joel dizer: “Chorem... os ministros sagrados do Senhor” (Jl 2,17). Como ministros de Deus, choremos nossa infidelidade; choremos o esfriamento da nossa fé e da nossa vida de oração; choremos a perda de sentido do nosso ministério; choremos o enfraquecimento da nossa ação evangelizadora; choremos as nossas tantas liturgias vivenciadas pelo nosso povo como ritos mortos, porque descomprometidas com o sofrimento real das pessoas que não nos preocupamos em atingir com a nossa ação evangelizadora... Que as nossas lágrimas sejam o sinal do derretimento do gelo, sinal da conversão da frieza de um coração que, voltando-se para o Senhor, voltou a sentir-se aquecido por Sua Palavra, voltou a pulsar segundo o Seu Espírito.
Supliquemos: Vem, Espírito de Deus, fazer a grande conversão! Vem, Espírito de Deus, pela poderosa intercessão do nosso Senhor. Liberta e restaura os corações, derrama a efusão em todos nós, envolva-nos em Tuas grandes asas, aquece-nos e queima com Teu fogo! Vem, Espírito Santo, vem! Desfaz toda impureza. Vem, Espírito Santo, vem! Derrama Teus santos dons!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

LEPRAS ATUAIS: COISAS QUE PODEM NOS APODRECER COMO SERES HUMANOS E COMO CRISTÃOS

Missa do 6º. dom. comum. Palavra de Deus: Levítico 13,1-2.44-46; 1Coríntios 10,31–11,1; Marcos 1,40-45. 

            Diariamente o noticiário tem nos falado da febre amarela, da preocupação das pessoas que moram em áreas de risco de contaminação, da problemática da vacinação e da atitude desesperada de algumas pessoas que mataram centenas de macacos, desconhecendo o fato de que o transmissor da febre amarela não é o macaco, mas um tipo de mosquito. O macaco, na verdade, é um importante sinal que mostra em qual região está o vírus da doença e quais pessoas precisam efetivamente ser vacinadas.
            A primeira leitura e o Evangelho de hoje não nos falam de febre amarela, mas de lepra, uma doença contagiosa e muito temida. O medo atual da febre amarela tem uma certa semelhança com o medo da lepra no mundo bíblico. Na época de Moisés, o cuidado para se evitar a contaminação com a lepra era tão grande que o leproso deveria andar “com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’” (Levítico 13,45), para que ninguém se aproximasse dele. Embora isso nos pareça até desumano, o objetivo era evitar o contágio e a proliferação da doença. Mas, antes de ver como Jesus lida de uma outra forma com essa questão, vamos analisar o significado bíblico da lepra para o nosso tempo.
            A lepra é uma doença que surge na pele e que, se não tratada, leva ao apodrecimento daquela região corporal. Ora, a pele lembra a preocupação excessiva da nossa sociedade com a aparência, descuidando da essência. Desse modo, nós temos pessoas esteticamente belas e fisicamente saudáveis, mas corrompidas em sua consciência, em sua honestidade, em sua fidelidade. Temos um cuidado excessivo com a estética, mas um grande descuido com a ética, com o comportamento reto e justo. Além disso, uma vez que a lepra pode levar ao apodrecimento de determinada região do corpo, podemos nos perguntar: O que está apodrecendo em nós e em nossa sociedade? O que dizer da lepra da corrupção, que apodrece a Política e a Justiça em nosso país? O que dizer da lepra da droga e da violência, da lepra da pornografia e da infidelidade? O que dizer da lepra da ideologia de gênero, que está apodrecendo a formação da identidade sexual de muitas crianças? Até que ponto nós também não estamos contaminados com algum tipo de lepra?*
            Embora todo leproso devesse manter-se distante das pessoas para não contaminá-las com sua doença, o Evangelho nos mostra um leproso que, numa atitude de desespero, rompe com a lei religiosa de Moisés, se aproxima e se ajoelha diante de Jesus, suplicando: “Se queres, tens o poder de curar-me” (Mc 1,40). Na verdade, o que faz com que esse leproso se aproxime de Jesus não é só o desespero do seu sofrimento, mas principalmente a sua fé: “Tens o poder de curar-me!” Só a força da fé pode nos fazer sair da nossa situação de desespero e nos lançar aos pés de Jesus, a quem o Pai concedeu o poder de curar, de salvar e de dar a vida eterna a todo ser humano (cf. Jo 17,2). Sem a força da fé, nós ficamos fechados em nossa dor, isolados em nossa solidão, apodrecendo em nossa doença.
            Mas a fé desse leproso comporta um elemento muito importante: o reconhecimento de que Deus é livre e nunca pode ser pressionado ou obrigado a fazer por nós aquilo que Lhe pedimos. Eis o respeito pela liberdade de Deus: “Se queres”. Certamente há uma urgência em nós pela cura, pela libertação de alguma situação de sofrimento. Mas como é importante respeitar a vontade de Deus! Como é importante aproximar-se d’Ele com humildade e respeito, jamais determinando o que Ele deve fazer para nós e quando Ele deve agir em nossa vida! Como é importante não só ter fé no poder de Deus, mas também confiar nos Seus propósitos a nosso respeito, dizendo-Lhe: “Se queres”; ‘Se for da Tua vontade’; ‘Se o Senhor achar que isso é importante e necessário para a minha vida, para a minha salvação’...
            Diante dessa fé humilde e confiante do leproso, “Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: ‘Eu quero: fica curado!’ No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado” (Mc 1,41-42). A primeira atitude de Jesus para com o leproso é a compaixão, compaixão que significa sentir a dor do outro, permitir que a dor do outro me afete. Desse modo, Jesus nos convida a não sermos indiferentes diante daqueles que sofrem. A segunda atitude de Jesus é estender a mão e tocar no leproso. Diante da lepra do individualismo e da frieza nos relacionamentos, diante do fato de que os nossos dedos tocam diariamente a tela de um celular, mas tocam cada vez menos nas pessoas que moram, estudam, trabalham conosco ou cruzam o nosso caminho, Jesus nos convida a humanizar e a devolver vida aos nossos relacionamentos. As pessoas precisam ser tocadas para sentirem que existem, para saberem que não estão abandonadas em sua solidão, em seu isolamento ou sofrimento. Enfim, ao tocar no leproso, Jesus de uma certa forma lhe disse: ‘Eu não tenho medo de ser contaminado por você, por sua doença, por sua imperfeição’. Precisamos combater o contágio do preconceito e ver o outro não como um perigo a ser evitado, mas como um irmão a ser amado e ajudado.
            O leproso havia suplicado: “Se queres, tens o poder de curar-me!” (Mc 1,40). E Jesus agora responde: “Eu quero: fica curado!” (Mc 1,41). Sim. Deus quer a nossa cura. Deus quer a cura dos políticos e dos juízes do nosso país. Deus não quer que a nossa sociedade apodreça na corrupção, nas drogas e na violência. Deus não nos quer apodrecidos em nossa consciência. Deus quer, sim, a restauração das famílias, a cura dos relacionamentos, mas nós também precisamos querer; precisamos não só querer, mas também ter a coragem de tocar nas nossas feridas, para tratá-las, para possibilitar que sejam curadas; precisamos reconhecer a nossa lepra, reconhecer o quanto estamos contaminados por ideias, contravalores, sentimentos e atitudes que estão nos apodrecendo como pessoas e como cristãos, para que, então, o Senhor Jesus possa, com a verdade do seu Evangelho, nos descontaminar e nos curar.

Oração: Senhor Deus, sei que Tu vês não apenas a minha pele, mas a minha alma e as profundezas do meu coração. Sob a luz da Tua palavra eu reconheço que também eu estou sujeito à contaminação da lepra da corrupção, da violência, da inversão de valores, da infidelidade, da entrega da minha sexualidade à cegueira dos meus afetos desordenados. Cura-me, Senhor! Descontamina-me! Não permita que eu apodreça como ser humano e como cristão(ã). Devolve não somente a saúde ao meu corpo, mas, sobretudo, a integridade, pureza e retidão à minha alma e ao meu coração.
            Senhor Jesus, estende Tua mão e toca nas minhas feridas, nas minhas lepras. Livra-me do apodrecimento físico, moral e espiritual. Diante da verdade do Teu Evangelho comprometo-me a me afastar de tudo aquilo que possa me contaminar, me adoecer e me corromper como ser humano e como cristão(ã). Ensina-me a me deixar afetar pela dor do meu semelhante. Ensina-me a usar as minhas mãos para tocar aqueles que precisam do meu afeto, do meu respeito, da minha solidariedade, da minha compaixão. Eu creio que tens o poder de curar-me, de curar a cada um de nós. Assim, como esse leproso do Evangelho, eu agora Te suplico: https://www.youtube.com/watch?v=oSdOBQrOMik (Música “Se queres”, Ministério Amor e Adoração).  

*No canal do Youtube, há um vídeo muito interessante do filósofo Mário Sérgio Cortella, intitulado “Gente podre por dentro”. Vale a pena assistir:

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A FONTE DA NOSSA CURA

Missa do 5º. dom. comum. Palavra de Deus: Jó 7,1-4.6-7; 1Coríntios 9,16-19.22-23; Marcos 1,29-39.
   
            Na Bíblia houve um homem que teve a coragem de “brigar” com Deus. Seu nome era Jó. Depois de perder todos os seus filhos e todos os seus bens materiais, ele perdeu sua saúde e, na sua doença, começou a enfrentar sérios questionamentos em relação à ideia que ele tinha a respeito de Deus. Na verdade, Jó nunca brigou com Deus; ele brigou com ideias erradas que passaram para ele a respeito de Deus, ideias do tipo: “O sofrimento é castigo de Deus”, ou “Coisas ruins só acontecem com pessoas ruins”, ou ainda “Quem caminha com Deus nunca será atingido por alguma dor ou por algum problema”...
            Assim como Jó, nós também temos muitos questionamentos a respeito de Deus como, por exemplo: Por que Ele permite o mal? Por que Ele permite que uma criança morra de câncer? Por que Ele permite que o mal e a injustiça atinjam pessoas boas e inocentes? Por que Ele aparentemente não se importa com aqueles que sofrem? Assim como Jó, a imagem que nós temos de Deus se quebra diante de todo sofrimento que nos parece injusto e totalmente sem sentido. E quando acontece isso, nós somos desafiados e compreender que perder a imagem que nós tínhamos de Deus antes de passar por aquele sofrimento não significa perder Deus. Na verdade, aquela experiência de sofrimento só é permitida por Deus para purificar a imagem que temos d’Ele, para conhecê-Lo melhor e para nos firmar ainda mais em nossa fé no Seu amor para conosco.
            Jesus é a resposta de Deus à pergunta angustiante que o ser humano traz em seu coração quando se depara com a dor e o sofrimento. Nós o vemos hoje entrando na casa de Pedro e curando sua sogra: “Jesus se aproximou dela, tomou-a pela mão e a fez levantar-se” (Mc 1,31). Nós o vemos recebendo, na casa de Pedro, multidões de pessoas doentes e atormentadas pelo mal. “Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demônios” (Mc 1,34). Na pessoa de Jesus Cristo se cumprem as palavras do salmo que meditamos hoje: “Ele conforta os corações despedaçados, ele enfaixa suas feridas e as cura” (Sl 147,3).
            Todos nós temos nossas feridas. Muitos de nós temos alguma doença ou enfermidade, e necessitamos de cura. No entanto, sempre que procuramos por Jesus para sermos curados, precisamos nos lembrar da sua pergunta aos dois cegos, que lhe pediram para serem curados: “Vocês creem que eu lhes posso fazer isso?” (Mt 9,28). Nunca podemos nos esquecer de que, embora Jesus tenha o poder de curar todo tipo de doença e enfermidade, ele sempre deixou claro que a porta de entrada para a cura é a fé: “Filha, a sua fé salvou você. Vai em paz e fique curada de sua doença” (Mc 5,34). Além disso, precisamos estar dispostos a modificar aqueles comportamentos que costumam nos adoecer, pois não teria sentido pedirmos a Jesus a cura quando não nos dispomos a mudar atitudes que alimentam ou provocam doenças em nós e no ambiente à nossa volta.
            Há dois detalhes importantes no Evangelho de hoje. O primeiro deles é o fato de Jesus se retirar para um lugar deserto para orar a sós. Todo cuidador também precisa ser cuidado. Toda pessoa que cuida dos outros precisa cuidar de si; mais do que isso, precisa se permitir ser cuidada por Deus. Jesus sempre teve consciência de que, sem o Pai, sem a força do Espírito do Pai, ele não podia fazer nada. Na verdade, a força da sua cura vinha justamente da oração, da sua união com o Pai. Essa atitude de Jesus, de nunca descuidar da sua vida de oração, nos lembra esta importante verdade: “Temos de moldar nosso deserto onde possamos nos retirar todos os dias, livrar-nos das cobranças e das expectativas do mundo e habitar na presença salvífica de nosso Senhor. Sem esse deserto, perdemos nossa alma, enquanto anunciamos o Evangelho aos outros. Portanto, é responsabilidade nossa reservar tempo e lugar para estar com Deus e só com ele” (Pe. Henri Nouwen, A fornalha da transformação).
            Um segundo detalhe importante é o fato de Jesus não se deixar “devorar” pela necessidade das pessoas; muito menos, cair na armadilha da vaidade, da fama, do perigoso sentimento de ser insubstituível. Quando os discípulos o encontraram orando e lhe disseram: “Todos te procuram”, ele respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da vizinhança, para que eu pregue também lá. Porque foi para isso que eu vim” (Mc 1,38). É extremamente importante que cada um de nós abrace a missão para a qual foi chamado; que cada um de nós se dedique à evangelização das pessoas do nosso tempo com a mesma fidelidade do apóstolo Paulo, fazendo-nos tudo para todos a fim de salvar alguns a todo custo (cf. 1Cor 9,22). No entanto, tomemos cuidado com a vaidade, com o culto de si mesmo, com o pautar o nosso ministério pela projeção de nós mesmos, fazendo de Jesus e da Igreja o palco para a exaltação do nosso próprio ego. Não nos esqueçamos da razão pela qual viemos, da razão pela qual nos tornamos discípulos de Jesus Cristo e anunciadores do seu Evangelho.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O QUANTO VOCÊ CONSENTE QUE O MAL HABITE EM VOCÊ?

Missa do 4º. dom. comum. Palavra de Deus: Deuteronômio 18,15-20; 1Coríntios 7,32-35; Marcos 1,21-28.

            “Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” (Mc 1,27). Uma das características mais marcantes da atuação de Jesus no Evangelho segundo São Marcos é a sua autoridade sobre o maligno: Jesus veio libertar todos aqueles que, ou se deixaram conscientemente acorrentar pelo mal, ou caíram em suas armadilhas sem se dar conta disso. Mas esse exorcismo, essa expulsão do mau espírito na sinagoga de Cafarnaum serve de contraste para um fato preocupante hoje: a admiração que cada vez mais pessoas demonstram pelo mal. Justamente porque nós vivemos numa sociedade pautada na inversão de valores, onde o mal passou a ser propagandeado como bem, e o bem como mal, muitas pessoas decidiram abandonar o bem e permitir que a maldade passasse a morar dentro delas, até mesmo como uma forma de sobrevivência no mundo atual. Portanto, a primeira pergunta que o Evangelho de hoje nos coloca é esta: O quanto o espírito do mal tem habitado em nós com o nosso consentimento?
            O homem que estava ouvindo o ensinamento de Jesus na sinagoga sentiu-se incomodado, da mesma forma que os morcegos se sentem incomodados com a luz. Como cristãos, nós precisamos causar um saudável e necessário incômodo no ambiente em que nos encontramos, no sentido de fazer brilhar a luz do Evangelho na consciência das pessoas que se habituaram a viver nas trevas da maldade. Aliás, nós mesmos precisamos todos os dias nos colocar sob a luz da Palavra de Deus, para que ela revele como está a nossa casa interior, quem é que nela habita: se o Espírito de Deus e ou se o espírito do mal. Neste sentido, é muito importante quando a Palavra de Deus nos provoca algum incômodo; quando, por exemplo, ela nos coloca em crise, tira o nosso sono e nos revela que, em determinado aspecto da nossa vida, nós estamos compactuando com o mal, com o erro, com a injustiça e aquilo precisa ser revisto. Portanto, a segunda pergunta que o Evangelho nos coloca hoje é: Como eu reajo quando me sinto incomodado ou questionado pela Palavra de Deus? Ou ainda: O que costuma me incomodar mais: as trevas da maldade, da mentira e da injustiça ou a luz da bondade, da verdade e da justiça?   
            Incomodado com o ensinamento de Jesus, o mau espírito gritou com ele (v.23). O grito é uma forma de intimidar. Sempre que procuramos nos opor ao mal, ele grita conosco, na tentativa de nos causar medo e nos fazer recuar. Jesus não recuou diante dos gritos do mau espírito e nós também não devemos recuar. Precisamos ter claro que a erradicação do mal em nossa sociedade é, sim, um processo lento e custoso, mas não podemos recuar. Devemos continuar o nosso trabalho de fazer o bem, de promover o bem e de convidar as pessoas a deixarem de viver sob a autoridade do maligno e passarem a viver sob a autoridade de Deus. Além disso, esse grito do mau espírito nos aponta para uma outra questão: grito é sinônimo de barulho, de agitação. Muitas pessoas se acostumaram com isso: elas preferem o barulho, a bagunça, a agitação porque isso está de acordo com a sua própria desordem interior.  
Antes de expulsar o mau espírito daquele homem na sinagoga, Jesus lhe ordenou: “Cala-te!” (v.25). Existem muitas vozes dentro de nós: a voz das nossas preocupações e dos nossos medos; a voz dos nossos desejos e das nossas necessidades; a voz da propaganda, do consumismo e do mundo que constantemente nos pressiona, nos cobra e nos exige; enfim, a voz do nosso pecado. Mas o salmista diz: “Fiz calar e sossegar a minha alma” (Sl 131,2). É tarefa nossa não dar ouvidos a essas vozes que se aproxima de nós para nos perturbar e nos confundir. É tarefa nossa calar e sossegar a nossa alma, para podermos ouvir a voz de Deus em nossa consciência, voz que pode nos devolver orientação, ordem e clareza interior: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!” (Sl 95,8). Aqui, portanto, temos uma outra pergunta: Eu sou um joguete, uma peteca nas mãos do barulho, da agitação, ou sou capaz de buscar o silêncio diariamente, para colocar em ordem a minha vida, os meus afetos e os meus desejos? Neste sentido, vale à pena recordar as palavras do profeta Isaías: “Paz, paz àquele que está longe e àquele que está perto. Mas os ímpios são como um mar agitado, que não pode acalmar-se, cujas ondas revolvem lodo e lama. Não há paz para os ímpios, diz meu Deus” (Is 57,19-20).
            As pessoas que estavam na sinagoga e assistiram ao exorcismo realizado por Jesus, disseram: “Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” (Mc 1,27). O mal obedece a Jesus porque Jesus sempre buscou viver na obediência ao Pai. Portanto, o recado final do Evangelho para nós é este: o mal só exerce autoridade, só exerce domínio, sobre quem não vive debaixo da autoridade de Deus. São Marcos, ao narrar esse exorcismo, insiste na questão de que Jesus falava com quem tem autoridade (vv.22.27). A autoridade de Jesus é, em primeiro lugar, a sua coerência de vida: Ele sempre procurou viver de acordo com o que falou aos outros. Em segundo lugar, a autoridade de Jesus é fruto da sua obediência ao Pai, da sua escuta e da sua disposição em viver segundo a vontade do Pai. A conclusão é muito simples: quando eu permito que o mau espírito assuma o controle da minha vida, não tem como eu expulsá-lo da vida de uma outra pessoa. Quando eu não aceito viver sob a autoridade de Deus, perco a minha autoridade moral ou espiritual sobre aqueles que me escutam.
            Voltemos ao início da nossa reflexão. O mal é uma realidade concreta em nosso tempo. Ele se manifesta na vida pessoal e social, na política, na economia, nas famílias, nas escolas e até mesmo nas igrejas. Jesus tem o poder de nos livrar do mal, mas essa libertação só acontece quando ouvimos, acolhemos e nos deixamos orientar por sua Palavra, nos submetendo ao que Ele nos diz. Além disso, como discípulos de Jesus, nós também temos a missão de ajudar as pessoas a serem libertas do mal que tem provocado estragos na vida delas. Convivendo com tantas pessoas cuja alma está perdida na sua própria desordem interior, precisamos ajudá-las a silenciar, a criarem espaço em si mesmas para ouvirem a voz de Deus em sua consciência e assim poderem decidir não mais viver debaixo do domínio do mal, mas debaixo do domínio salvífico de Deus.
                 
            Oração: Senhor Jesus, visita o nosso mundo, o nosso país, o nosso local de trabalho, a nossa igreja, a nossa casa, a nossa alma, como visitaste a sinagoga de Cafarnaum, e expulsa o mal que habita em nós. Livra-nos do mal que passou a morar em nós sem nos dar conta disso ou mesmo com o nosso consentimento. Muitas vezes, Senhor, a nossa alma se parece com um mar agitado, cujas águas estão sujas, turvas, porque não se acalmam. Caminha sobre essas águas agitadas, Senhor, e concede-nos a tua paz. Cala a voz do mau espírito em nós! Devolve-nos a Deus. Arranca-nos das mãos do maligno e devolve-nos às mãos do Pai. Concede-nos discernimento, para não nos deixarmos enganar pela voz do mau espírito, mas nos orientarmos a cada momento pela voz do Espírito de Deus em nossa consciência e em nosso coração. Que nós possamos caminhar como pessoas libertas, comunicando a tua paz àqueles que estão perto e àqueles que estão longe, essa paz que é um dom do Pai a todos aqueles que se submetem à autoridade da tua Palavra. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

TORNAR-SE CONSCIENTE DA NECESSIDADE DE CONVERSÃO

Missa do 3º. dom. comum. Palavra de Deus: Jonas 3,1-5.10; 1Coríntios 7,29-31; Marcos 1,14-20.

            “Convertam-se!” Este foi o apelo de Jonas aos habitantes de Nínive. Este foi também o apelo de Jesus aos seus ouvintes, no início da sua pregação. Este é também o apelo de Deus a cada um de nós, que hoje ouvimos sua Palavra: “converta-se!”
            Às vezes acontece de nós ouvirmos que tal pessoa “se converteu” a essa ou àquela igreja ou religião, mas a conversão à qual tanto Jonas quanto Jesus se referem não é uma simples mudança de igreja ou de religião, mesmo porque não são poucas as pessoas que, apesar de mudarem de igreja ou de religião, não mudam suas atitudes. A conversão à qual a Palavra de Deus hoje se refere fala da necessidade de uma mudança interna, uma mudança na forma de pensar e de agir. Além disso, a conversão não é algo que se dá de uma vez para sempre; ela é um processo que acompanha (ou deveria acompanhar) toda a nossa vida, porque sempre precisamos fazer ajustes em nossa caminhada, sempre precisamos rever o quanto estamos em sintonia ou não com a vontade de Deus.
            Os habitantes de Nínive só tomaram consciência de que precisavam se converter, de que precisavam mudar suas atitudes, quando ouviram Jonas dizer: “Dentro de quarenta dias, Nínive será destruída” (Jn 3,4). Todos nós temos resistência em mudar e só existe uma coisa que pode quebrar essa resistência: é quando nos damos conta de que, ou mudamos nossas atitudes, ou seremos destruídos pelos nossos erros; ou mudamos nossas atitudes, ou aquilo que nós mais amamos será destruído pela nossa teimosia em não mudar. Mas, ainda aqui existe um outro problema, uma outra coisa que barra o nosso processo de conversão: é quando não nos deixamos convencer pela voz de Deus em nossa consciência; é quando sabemos (mentalmente) que estamos agindo errado diante da vida, mas não temos vontade de mudar, o que significa uma espécie de suicídio ou de uma enorme falta de responsabilidade perante a vida.
            O fato é que “os ninivitas acreditaram em Deus” (Jn 3,5) e decidiram mudar, evitando assim a sua destruição. Numa outra ocasião, Jesus usou esse exemplo de conversão dos ninivitas para fazer o seguinte alerta: “No dia do julgamento, os habitantes de Nínive se levantarão e condenarão esta geração, porque eles se arrependeram diante da pregação de Jonas, e aqui está alguém maior do que Jonas” (Mt 12,6). Nós podemos cair no erro de nos blindar contra o apelo de conversão menosprezando ou descaracterizando a pessoa que Deus usou para nos fazer tal apelo, mas essa desculpa não “cola”, não justifica, porque, na verdade, quem nos chama à conversão é o próprio Deus, ainda que Ele use de mediações que não nos sejam simpáticas.
            Enquanto Jonas justificou a necessidade de conversão mediante o risco de uma destruição iminente, Jesus justifica a nossa necessidade de conversão por causa da chegada do Reino de Deus: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,15). Paulo retoma a afirmação de Jesus, de que “o tempo se completou” e esclarece: “O tempo está abreviado” (1Cor 7,29), o que significa que a vida de todos nós está inserida no plano da salvação de Deus, e, segundo esse plano, nós estamos vivendo o que a Escritura chama de “últimos dias” ou de “ultima hora” (cf. 2Pd 3,3-4; 2Tm 3,1-5; 1Jo 2,18). Não é tempo de “enrolar”, de “fazer corpo mole”, de ficar “deitado eternamente em berço esplêndido”, de fazer de conta que não estamos entendendo o que Deus está nos dizendo; é tempo de agir, de tomar decisão, de fazer as mudanças que são necessárias para a salvação nossa e de toda a humanidade.
Não diferente de Jonas e de Jesus, o apóstolo Paulo nos dá um “choque de realidade”, ao afirmar que “aqueles que desfrutam das coisas deste mundo se comportem como se não desfrutassem, porque este mundo passa” (1Cor 7,31). Muitas coisas nas quais nos apegamos e às quais elegemos como fonte de segurança e de sentido para nós cairão, desaparecerão, deixarão de ter sentido, serão destruídas, se perderão e se desgastarão com o tempo. Por isso, enquanto convivemos com tantas coisas que passam, precisamos buscar nos agarrar Àquele que não passa: Deus e o seu Reino.
Algo ainda precisa ser dito a respeito do apelo à conversão, que Jesus nos faz. Ele disse: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” Se a nossa segurança não pode estar neste mundo que passa, precisamos lançar a âncora da nossa fé na Palavra que não passa. Crer no Evangelho significa crer no próprio Cristo, pois Ele é o Evangelho, Ele é a boa notícia da salvação de Deus para todo ser humano. Crer no Evangelho significa aceitar aquilo que os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João nos transmitiram como única Palavra capaz de nos conduzir para a comunhão com Jesus Cristo e com Sua vida (cf. Jo 20,31), lembrando que “o Evangelho é força de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16). O apóstolo Paulo nos diz mais ainda: quando ouvimos a “palavra da verdade, o Evangelho” da nossa salvação, somos “selados pelo Espírito Santo” para o dia da nossa redenção (cf. Ef 1,13-14).
Se há algo que ainda precisa ser dito a respeito de “crer no Evangelho” é lembrar que ele deve tornar-se nossa norma de vida, de conduta, configurando-nos a Jesus Cristo. Deus nos conceda, portanto, a graça de nos tornarmos um “Evangelho vivo” para os nossos irmãos e irmãs, e que o Evangelho de seu Filho Jesus Cristo torne-se instrumento diário de revisão das nossas atitudes, nos ajudando a fazer a conversão necessária para a salvação nossa e de toda a humanidade.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

UMA PERGUNTA FUNDAMENTAL: O QUE VOCÊ ESTÁ PROCURANDO?

Missa do 2º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Samuel 3,3b-10.19; 1Coríntios 6,13c-15a.17-20; João 1,35-42.

Depois de termos celebrado o nascimento de Jesus (Natal), a sua manifestação aos magos como Salvador de todas as nações (Epifania) e o seu Batismo (última segunda-feira), nós nos deparamos com o início da sua missão e com o chamado (vocação) dos seus primeiros discípulos. Desse modo, o Evangelho de hoje nos coloca diante de uma pergunta fundamental para a vida de todo discípulo de Jesus Cristo: “O que vocês estão procurando?” (Jo 1,38).
Antes de mais nada, essa pergunta diz respeito à nossa vida de fé. O que você está procurando quando vai a uma igreja, ou quando começa a seguir uma religião, ou quando muda de religião ou de igreja, ou quando faz sua oração em casa, ou quando reserva um tempo para ler a Sagrada Escritura? Ao perguntar “o que você está procurando?” Jesus também está perguntando: ‘O que você espera de mim? Quais são as suas expectativas a meu respeito? Por que você decidiu me seguir e se tornar meu discípulo?’
Mas essa pergunta de Jesus também serve para que cada um de nós faça um sério questionamento a respeito da vida, da própria existência. O que eu estou procurando, com a maneira como tenho vivido a minha vida? O que eu estou procurando quando decido me casar, ou quando decido me separar? O que eu estou procurando quando me permito beber ou fazer uso de drogas? O que eu estou procurando quando decido fazer uma (nova) tatuagem ou um corte de cabelo “chamativo”? O que eu estou procurando quando decido fazer uma faculdade, ou prestar um concurso? O que eu estou procurando enquanto navego na internet? O que eu estou procurando quando me permito acessar pornografia na internet ou entrar em salas de bate-papo virtual? O que eu estou procurando quando aceito me corromper, para ganhar dinheiro desonestamente? O que eu estou procurando quando me permito me envolver com uma pessoa casada, prejudicando a minha família e a dela?...
Essa pergunta de Jesus é, ao mesmo tempo, incômoda e libertadora. Ela nos convida a tomar consciência da verdadeira razão que nos leva a fazer aquilo que estamos fazendo. Ainda que nós nem sempre estejamos dispostos a reconhecer os verdadeiros motivos que estão por detrás daquilo que fazemos, esse reconhecimento é importante, seja para confirmar o nosso estilo de vida, seja para modificá-lo, livrando-nos de mentiras e de atitudes que nos mantém imaturos e irresponsáveis perante a vida. Além disso, podemos tirar uma conclusão até certo ponto “negativa” dessa pergunta de Jesus: você normalmente encontra aquilo que procura. Quem procura o bem, encontra o bem; quem procura o mal, encontra o mal. Quem procurar a destruição encontrará a destruição e quem procurar a salvação encontrará a salvação. É uma questão de lógica, de colher aquilo que se semeia; é a lei da vida.
Segundo o texto do livro de Samuel, Deus colocou a Sua voz em nossa consciência para nos orientar em nossa procura pela felicidade, pela realização, pelo sentido da vida. No entanto, essa voz só pode ser ouvida no silêncio. Samuel só começou a ouvir Deus quando era noite, as atividades do santuário haviam terminado e estava tudo em silêncio. Na verdade, nós costumamos evitar esse silêncio porque evitamos nos confrontar com a voz de Deus em nossa consciência. Desse modo, preferimos seguir pela vida sem nos questionar e sem permitir que Deus nos questione, quando poderíamos nos dar a chance de parar, de rever a maneira como temos vivido e de permitir que Deus nos dê uma orientação que devolva sentido e realização à nossa vida.     
            Aos poucos, Samuel foi entendendo que a voz que dentro dele chamava seu nome era a voz de Deus, e ele se abriu a essa voz: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1Sm 3,10). Assim como Samuel, muitos responderam ao chamado de Deus, mas, tão diferente de Samuel, aos poucos se afastaram da voz originária da sua vocação, e passaram a viver sua vida consagrada segundo a desorientação do próprio coração. Desse modo, tornaram-se pessoas sem intimidade com Deus e incapazes de levar os outros a terem essa intimidade. A vocação de Samuel é um convite a retomarmos as raízes da nossa própria vocação e a voltarmos a dar uma resposta que envolva todo o nosso ser, e não apenas a parte periférica da nossa existência, do nosso tempo e dos nossos afetos. Como o salmista, cada um de nós é convidado a tomar consciência de que o Senhor não nos pede sacrifícios impossíveis, apenas que mantenhamos os ouvidos abertos e o coração obediente à Sua voz, e, quem sabe, possamos responder ao Seu chamado alegremente, livremente, espontaneamente, sem obrigação ou mau humor: “Eis que venho... Com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei!’” (Sl 40,8-9).
           Embora nós tenhamos aprendido a espiritualizar a nossa fé, e as nossas celebrações sejam, quase sempre, vividas do pescoço para cima, como se não tivéssemos corpo, o apóstolo Paulo nos lembra que não existe vida de fé, nem adesão a Deus, nem muito menos resposta vocacional, fora do nosso corpo, isto é, sem considerar a nossa sexualidade. Na verdade, ninguém tira de letra essa tarefa de lidar com a própria sexualidade e de integrá-la no seu caminho de fé, e nós corremos o risco de errar de duas maneiras: ou escancarando a porteira e deixando os sentimentos, desejos e fantasias correrem soltos dentro de nós, ou reprimindo e demonizando tudo o que sentimos, como se fosse possível (e mesmo necessário) anular a nossa sexualidade para podermos viver segundo o que Deus nos pede na Palavra.
            Nós acabamos de viver o tempo do Natal, a festa que nos fala da encarnação do Filho de Deus. Jesus, por ter um corpo semelhante ao nosso, também teve que lidar com sua sexualidade, com seus afetos e seus desejos. A única diferença é que ele, sentindo tudo o que nós sentimos, não pecou (cf. Hb 4,15), isto é, não consentiu que seus sentimentos e desejos o levassem a viver fora da vontade do Pai. Desse modo, o apóstolo Paulo nos convida a não ignorar o nosso corpo, a nossa sexualidade, mas a lembrar ao nosso corpo que ele não é apenas carnal; nele habita o Espírito Santo de Deus, e quando os nossos desejos se rendem às nossas fantasias e se permitem ser reduzidos ao erotismo, nós precisamos ter a coragem de nos perguntar: “O que eu estou procurando, ao permitir que a minha sexualidade seja reduzida ao erótico e eu comece e percorrer o caminho da infidelidade, da prostituição e da banalização do meu corpo ou do corpo do meu semelhante?”
            Os discípulos de Jesus nunca foram e nunca serão homens e mulheres desencarnados, seres angelicais ou espíritos evoluídos, mas homens e mulheres com um corpo e uma sexualidade concretos, pessoas que, enquanto estiverem vivas, terão que dialogar com sentimentos e desejos que desconhecem a verdade de que o corpo em que habitam foi resgatado do pecado, foi comprado pelo sangue do Filho de Deus, e que esse mesmo corpo é chamado a glorificar a Deus, vivendo sua sexualidade de maneira consciente, encontrando na pergunta “O que eu estou procurando?” o meio eficaz para não ir atrás de respostas que não respondem e de compensações que não compensam, porque nos afastam da voz d’Aquele que nos chamou pelo nome e concebeu a nossa existência segundo o Seu desígnio de salvação para o bem nosso e de toda a humanidade.

Pe. Paulo Cezar Mazzi