sexta-feira, 28 de agosto de 2015

VEM DE DENTRO, NÃO DE FORA

Missa do 22º. dom. comum. Palavra de Deus: Deuteronômio 4,1-2.6-8; Tiago 1,17-18.21b-22.27; Mc 7,1-8.14-15.21-23.

“Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse?” (Legião Urbana, Que país é esse?). Sujeira pra todo lado: no Executivo, no Legislativo e no Judiciário; nos Ministérios, nas Secretarias, nos Estados e nos Municípios; no Mercado e na Bolsa de Valores, nos Países do Oriente e do Ocidente; nas igrejas cristãs e nas demais religiões... Ninguém está totalmente limpo. Ninguém está totalmente puro. Todos nós precisamos de limpeza e de purificação.
 Mas, de onde vem a sujeira que nos torna “impuros”? Para os fariseus da época de Jesus e de hoje, ela vem dos outros: do contato com quem não é da minha igreja ou da minha religião; do contato com quem não tem a cor da minha pele, que não mora no meu condomínio ou no meu bairro, que não pertence à minha classe social etc. Para os países da Europa, a “sujeira” vem dos imigrantes que todos os dias chegam pelo mar – os que sobrevivem à viagem –, fugindo da fome, da guerra e da perseguição religiosa que estão destruindo seus países de origem. Para o Estado Islâmico, o perigo da impureza vem dos cristãos, que precisam ser exterminados...
E para você? Existe essa preocupação em não se contaminar com aquilo que é “impuro”? Com exceção de uma possível preocupação com os alimentos – se estão contaminados com agrotóxicos, se fazem subir o nível de colosterol e triglicerides, se são transgênicos ou se ativam as células cancerígenas – essa discussão entre puro e impuro não faz parte do nosso cotidiano. Muito pelo contrário; nós temos a tendência a nos adaptar e a aderir facilmente a costumes que, mesmo não estando de acordo com a Palavra de Deus, fazem parte da moda e – o que é o mais importante – nos garantem um lugar na sociedade da aparência, da futilidade e da inversão de valores.
Para recolocar corretamente a questão da contaminação, Jesus esclarece que aquilo que torna uma pessoa impura não é o contato com uma realidade externa – o que eu como ou bebo, com quem eu convivo ou o quê eu vejo pelos meios de comunicação –, mas com quê intenção eu faço essas coisas. Já o apóstolo Paulo dizia: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Cor 10,31). Essa é a questão principal: buscar a glória de Deus. Quando eu deixo de fazer isso e passo a buscar a minha glória pessoal, o meu coração perde o foco e se desvia da sua própria verdade.
Jesus aproveita essa discussão em torno do “impuro” para fazer um questionamento a todas as igrejas: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mc 7,6). Onde está o seu coração enquanto você faz sua oração, ou lê/escuta a Palavra de Deus, ou canta uma música religiosa? Onde está o seu coração quando você se encontra dentro de uma igreja, ou comunga o corpo de Cristo?
O coração humano é o lugar onde fazemos as nossas escolhas e tomanos as nossas decisões, e somente a Palavra de Deus pode devolver-lhe discernimento, ajudando-o a readquirir clareza, liberdade e objetividade diante da realidade externa que nos afeta e dos impulsos que reagem dentro de nós. Por isso, o apóstolo Tiago nos aconselha: “Recebei com humildade a palavra... que é capaz de salvar as vossas almas... Sede praticantes da palavra e não meros ouvintes... A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: socorrer os necessitados em suas aflições e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,21b-22.27).
Se a tendência atual é cada um fechar-se em si mesmo e viver sua fé de maneira individualista, o apóstolo Tiago deixa claro que o que Deus espera de nós é exatamente o contrário: “contaminar-se”, envolver-se com a aflição do nosso semelhante. Neste sentido, o Papa Francisco afirmou, há tempos atrás: “Não se pode fazer o bem sem aproximar-se... Tantas vezes penso que seja, não digo impossível, mas muito difícil fazer o bem sem sujar as mãos. Estou disposto a ‘sujar’ as minhas mãos, se for preciso, para me tornar próximo de quem precisa de mim?”, pergunta Francisco.
Que o Senhor Jesus, que conhece cada um de nós por dentro (cf. Jo 2,25), nos purifique interiormente, conceda discernimento ao nosso coração e lave nossos olhos com a água do Espírito Santo, para que enxerguemos cada ser humano não como uma ameaça de contaminação, mas como uma possibilidade de purificar a nossa compreensão acerca da vida, de nós mesmos e do próprio Deus. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

DEUS É QUE É "DURO" OU VOCÊ É QUE GOSTA DE FAZER "CORPO MOLE"?

Missa do 21º. dom. comum. Palavra de Deus: Josué 24,1-2a.15-17.18b; Efésios 5,21-32; João 6,60-69.

Quando vamos a um médico, psicólogo, orientador espiritual ou amigo, vamos com a esperança de ouvir uma palavra que nos ajude a evitar ou a fugir da dor que estamos sentindo. No entanto, a palavra que cura e liberta é aquela que nos faz enfrentar a dor, que nos torna conscientes dela, que nos reaproxima dela. Quando expomos nosso sofrimento a uma pessoa, esperamos que ela nos dê razão e confirme a ideia que temos de que a culpa/responsabilidade do nosso sofrimento é da outra pessoa. No entanto, pode acontecer que a pessoa que nos ouve nos diga uma palavra que nos faça “acordar” e enxergar que nós mesmos é que somos os maiores responsáveis pela nossa situação de sofrimento. Mas, ouvir isso nos deixa profundamente irritados...
Quantas vezes você saiu irritado(a) de uma consulta, de uma conversa, de uma celebração, de uma confissão, porque ouviu coisas que não desejava ou não esperava ouvir? Quando acontecer de você se irritar com aquilo que o outro lhe disse, pare um pouco e reflita, antes de descarregar a sua raiva sobre ele. Se as palavras que saíram da boca do outro irritaram você, muito provavelmente é porque essas palavras contêm alguma verdade a seu respeito, uma verdade que você não aceita reconhecer.
O apóstolo Paulo nos disse algo muito importante: é pela Palavra de Deus que somos purificados, corrigidos, podados, libertos, santificados (cf. Ef 5,26). No entanto, num primeiro momento, a Palavra dói, machuca, nos tira das nossas ilusões e nos trazem para o mundo real. Isso está claro no início do Evangelho de hoje: “Muitos dos discípulos de Jesus que o escutaram, disseram: ‘Essa palavra é dura. Quem consegue escutá-la?’” (Jo 6,60). Sim. Talvez a Palavra de Deus seja dura porque a nossa teimosia, a nossa obstinação também é dura. Mas talvez nós reclamemos da “dureza” da Palavra porque somos melindrosos, porque não gostamos de ser frustrados nas nossas vontades, porque queremos manter o nosso ego inflado, porque queremos permanecer na nossa zona de conforto.
Josué percebeu que o povo de Israel estava fazendo “corpo mole” diante das exigências da Palavra de Deus. Então ele foi franco e disse: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir... Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor” (Js 24,15). Da mesma forma, Jesus, ao ouvir a crítica de que a sua palavra era muito dura, continuou firme na sua posição e esclareceu: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos disse são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não creem” (Jo 6,63-64). Jesus deixa claro que a palavra do Evangelho visa o nosso espírito, no sentido de edificá-lo, fortalecê-lo, corrigi-lo. Contudo, a nossa carne, o nosso ego, tem desejos opostos ao espírito. A carne (ou o ego) visa seus caprichos egoístas. Sempre que o Evangelho indica um caminho oposto aos nossos caprichos, nossa atitude é de rejeição.
“(...) entre vós há alguns que não creem” (Jo 6,64). Entre nós há pessoas que não admitem reconhecer que estão erradas. Entre nós há pessoas que escolheram passar a vida inteira procurando culpados pela sua infelicidade, ao invés de assumirem a responsabilidade por si mesmas. Entre nós há pessoas que escolhem migrar de uma igreja para outra, de uma religião para a outra, sempre que a Palavra de Deus coloca o dedo na ferida delas e revela que elas não querem uma cura verdadeira, mas apenas um remédio para amenizar a dor; não querem ser revestidas do “homem novo”, mas apenas encontrarem um remendo para se manterem sobrevivendo como “homem velho”.
Mais uma vez, Jesus deixa claro que a acolhida da sua Palavra não é apenas fruto do nosso esforço, mas fruto da graça de Deus (cf. Jo 6,65). É o Pai que abre a porta para que a Palavra entre em nós, para que ela seja internalizada por nós. Como Jesus permaneceu tranquilo e firme nas suas palavras, o Evangelho diz que “a partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (Jo 6,66). Foi quando Jesus se voltou para os doze apóstolos e perguntou: “Vós também quereis ir embora?” (Jo 6,67), ao que Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).
Pelos canais de TV, pelas rádios e pela internet, você encontra hoje inúmeras pessoas proclamando a Palavra de Deus. Com quê intenção? Com a intenção de torná-lo(a) mais um “cliente” da sua igreja? Com a intenção de “vender-lhe” um produto de auto-ajuda ou de sucesso profissional, ou com a intenção de instruí-lo(a), de refutar o que em você não está de acordo com a vontade de Deus, de corrigi-lo(a) e de educá-lo(a) na justiça (cf. 2Tm 3,16)? Palavras (ou o anúncio da Palavra) você vai encontrar sempre, e em diversos lugares. Mas a questão é saber: são palavras de vida eterna? São palavras que conduzem você para a verdadeira vida? São palavras que abrem a sua vida para a plenitude de Deus? Escolha hoje qual palavra/Palavra você quer ouvir... 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

FAMÍLIA: RECOMPENSA PARA A SUA DOR E ESPERANÇA PARA O SEU FUTURO

Missa da Assunção de Nossa Senhora. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab; 1Coríntios 15,20-27a; Lucas 1,39-56.

Ao proclamar o dogma da Assunção de Nossa Senhora, a Igreja crê que Maria, ao final de sua vida terrena, foi elevada em corpo e alma ao céu. Pelo fato de seu ventre ter gerado “na carne” o Filho de Deus, a nossa Igreja acredita que, após a morte, o corpo de Maria não foi decomposto na terra mas levado para o céu. Mas esse dogma da Assunção de Maria também diz respeito a cada um de nós: como Maria, estamos associados à ressurreição de Jesus; como ela, somos destinados à vida eterna; como ela, teremos um corpo glorificado (cf. Fl 3,20-21).
Pensemos no corpo. O corpo sofre, luta, sente dor, experimenta fome e sede, está exposto à violência, ao envelhecimento e à morte. O corpo gera vida (fecundidade), mas também pode não conseguir gerar vida (esterilidade), ou até mesmo rejeitar a vida (aborto). O corpo pode, como o de Maria, caminhar apressadamente em direção àquele que necessita de ajuda, mas pode também ficar acomodado no seu individualismo, nada fazendo para ajudar quem está à sua volta. O corpo pode cuidar da sua saúde, mas pode também desperdiçá-la; pode lutar com todas as forças para viver, mas pode também se expor irresponsavelmente a situações de morte.
Para a sociedade da aparência, o corpo é a única coisa que possuímos e, portanto, a única coisa que importa. No entanto, ficamos chocados quando vemos pessoas portadoras de certas deficiências e que são mais humanas, mais felizes, mais bem resolvidas do que tantas outras que têm um corpo malhado, modelado, invejado, “perfeito”, mas são extremamente egoístas, inseguras, fúteis, neuróticas e vazias de conteúdo. Aqui cabe o conselho de Madre Teresa de Calcutá: "Tem sempre presente que a pele enruga, que o cabelo se torna branco, que os dias se convertem em anos, mas o mais importante não muda: tua força interior". Um corpo  sem força interior é simplesmente um "ca-dá-ver" (carne dada aos vermes); um corpo que vive da sua força interior é uma pessoa destinada à ressurreição. 
   Como hoje encerramos a Semana Nacional da Família, olhemos para o organismo da nossa casa, para esse corpo maior que é a nossa família. A família é um organismo vivo, e cada membro desse corpo é responsável tanto pela sua saúde quanto pela sua enfermidade, tanto pela sua capacidade de superação quanto pelo seu fracasso na maneira de lidar com os problemas. Para nos ajudar a avaliar como estamos atuando no organismo que é a nossa família, o Apocalipse nos coloca diante de dois sinais: a Mulher e o Dragão.
A Mulher está vestida de sol (ressuscitada), tem a lua debaixo dos pés (está acima das intempéries da vida), e usa uma coroa de doze estrelas (Mãe do povo de Deus). Ela está grávida: é a família que não desiste da vida, que não renuncia aos seus sonhos e que tem esperança no futuro, porque Deus disse: “(...) existe recompensa para a tua dor... Há esperança para o teu futuro” (Jr 31,16.17). A imagem desta Mulher nos questiona: Temos atitudes de ressurreição para com nossa família? Nós a ajudamos a atravessar as diversas fases da vida? Quando “anoitece” em nossa casa, procuramos “acender as estrelas” da nossa fé e da nossa esperança uns para os outros?
O Dragão, por sua vez, tem cor de fogo (destruição, ameaça inimiga). Ele está pronto para devorar o filho da Mulher (presença assassina). Mas a cor de fogo também significa atração, sedução. O que tem atraído e seduzido a nossa família hoje? O que pode estar tentando devorar a nossa família? “(...) o Filho foi levado para junto de Deus (...) A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar” (Ap 12,5.6a). Nossa família tem buscado refúgio em Deus? Confiamos na força da ressurreição de Cristo, que é também esperança da nossa ressurreição (cf. 1Cor 15,22)? Confiamos no Pai, que pôs todos os inimigos da família humana debaixo dos pés de Seu Filho (cf. 1Cor 15,24.27a)?
Maria nunca foi uma pessoa “privilegiada”, no sentido de ser poupada das injustiças e dos sofrimentos humanos. No entanto, mesmo experimentando em sua carne a dor humana, ela sempre reagiu positivamente; nunca se colocou como vítima, nem aceitou viver na amargura e no pessimismo. É por isso que a vemos no Evangelho andando apressadamente para a casa de Isabel, saudando-a com a alegria do Espírito Santo e proclamando diante dela: “(...) Meu espírito se alegra em Deus, meu salvador... O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor... Ele mostrou a força de seu braço...” (Lc 1,47.49.51).
Unidos a Nossa Senhora, hoje invocamos a força do braço do Senhor em favor de todas as famílias. “Feliz aquela que acreditou” na Palavra do Senhor! (cf. Lc 1,45). Proclamemos para as famílias esta Palavra, portadora da força e da alegria do Espírito Santo, Palavra que faz com que a fé, a esperança e o amor possam voltar a pulsar no seio de nossas casas. Demonstremos a força do nosso próprio braço por meio de atitudes concretas em defesa da família. Não nos intimidemos diante do Dragão que ameaça devorar nossa família, nem abortemos nossos sonhos e nossas esperanças. Lembremos e confiemos na promessa de Deus: “(...) existe recompensa para a tua dor... Há esperança para o teu futuro” (Jr 31,16.17).

Para a sua oração pessoal: 
MARIA (Fernanda Brun)


Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A FAMÍLIA COMO HOSPITAL, ESCOLA E ASILO

“A família é o hospital mais próximo, a primeira escola das crianças, 
(...) o melhor asilo para os idosos”
(Papa Francisco, Homilia em Guayaquil – Equador – em 06/07/2015)

                        1) A FAMÍLIA precisa também ser HOSPITAL porque é impossível conviver sem atritos, sem com que um machuque o outro com palavras ou com atitudes. Quem ama também sente raiva do amado, quando este comete uma injustiça. No entanto, “o amor (...) não guarda rancor” (1Cor 13,5). Antes que o dia termine, aquele que está magoado, ferido ou com raiva precisa procurar aquele que o feriu para conversar. Não se deve dormir com rancor (cf. Ef 4,26-27).
                        Uma ferida se abre rapidamente, mas só se fecha devagar. Primeiro, é preciso reconhecer a ferida, depois é preciso tratá-la. Nós só podemos ser curados na medida em que nos reconhecemos doentes. Não adianta jogar um pano por cima da ferida. É preciso descobri-la e tratá-la com o remédio do diálogo sincero e do amor que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,7).
                        O nosso Deus “cura os corações despedaçados e cuida dos seus ferimentos” (Sl 147,3). A Ele suplicamos pela cura das nossas feridas em família... PAI NOSSO... AVE MARIA... JESUS, CURA-NOS! JESUS, SALVA-NOS! JESUS, LIBERTA-NOS!

                        2) A FAMÍLIA precisa também ser ESCOLA porque nenhum ser humano nasce pronto. “Educação vem de berço”, diz o ditado. É em casa que a criança vai aprender a distinguir o bem do mal, o certo do errado, o justo do injusto. Assim como uma árvore não pode crescer de qualquer jeito, mas precisa ser podada, assim o ser humano precisa ser educado, podado nos seus caprichos egoístas, aprendendo desde cedo a lidar com as frustrações.
                        Diz a Escritura que Deus nos trata “como filhos. Ora, qual é o filho cujo pai não corrige?” (Hb 12,7). Ninguém gosta de ser corrigido, mas só a correção pode formar o nosso coração na paz e na justiça (cf. Hb 12,11). Diz ainda a Escritura: “Aquele que ama seu filho usará com frequência o chicote... Aquele que educa seu filho terá nele motivo de satisfação” (Eclo 30,1-2). Usar o chicote significa colocar limites, dizer “não”, quando for preciso, e sustentar com atitudes firmes o “não” que foi necessário dizer. 
                        Jesus disse: “Eu repreendo e corrijo todos os que amo” (Ap 3,19). Rezemos para que o Senhor eduque nossas famílias no caminho da justiça e da santidade, concedendo firmeza ao nosso caráter, honestidade às nossas atitudes e retidão à nossa consciência... PAI NOSSO... AVE MARIA... SENHOR JESUS, CONDUZ NOSSOS PASSOS NO CAMINHO DA SANTIDADE E DA JUSTIÇA! (3x)

                        3) A FAMÍLIA precisa também ser ASILO porque tudo se desgasta com o tempo, não só as coisas materiais, mas também nós mesmos, a nossa saúde e as nossas forças. É em casa que se deve compreender que o ser humano vale pelo que ele é, e não pelo que ele produz. É em casa que aprendemos que as coisas mais importantes da vida não são coisas, mas pessoas, e não é porque a pessoa envelheceu que deve agora ser jogada fora ou abandonada a si mesma.
                        Quando éramos crianças, necessitávamos do cuidado dos outros, e na medida em que envelhecemos, voltaremos a necessitar desses cuidados. Deus nos aconselha a cuidar daqueles que estão na velhice e a não causar-lhes desgosto. Mesmo que eles venham a perder a memória, devemos ser pacientes e bondosos para com eles, como o próprio Deus é conosco (cf. Eclo 3,12-13).
                        Assim como o Senhor nosso Deus visitou Zacarias e Isabel, concedendo-lhes a bênção de um filho na velhice, pois Ele mesmo afirma que “o justo brota como a palmeira... e mesmo na velhice dá frutos” (Sl 92,13.15), suplicamos por nossas famílias, para que acolham os seus idosos e se disponham a cuidar deles com amor e paciência... PAI NOSSO... AVE MARIA... SENHOR JESUS, SALVAI OS QUE REMISTES COM O VOSSO PRECIOSO SANGUE! (3x). 

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

FAZER-SE PÃO PARA AQUELE/A QUE NOS DÁ/DEU O PÃO DE CADA DIA

Missa do 19º. dom. comum. Dia dos pais. Palavra de Deus: 1Reis 19,4-8; Efésios 4,30 – 5,2; João 6,41-51.

            Ninguém vive sem pão. Ninguém vive se não se alimentar. O fato de precisarmos do pão de cada dia para viver revela que nenhum ser humano é autossuficiente: ele precisa de algo para viver. Mais do que de “algo”, o ser humano precisa de “alguém” para viver. E quem é esse “alguém”? É aquela pessoa que, com o seu trabalho, coloca o pão de cada dia sobre a mesa da nossa casa. Mais do que isso, é aquela pessoa que, gastando sua vida – morrendo um pouco a cada dia – se faz pão para nós.
             Até tempos atrás, o responsável por garantir o pão em nossa casa era o pai. Hoje já é não é só ele, mas ele e a mãe. Porém, em muitos casos, a responsável por nos dar o pão de cada dia é a mãe, uma vez que mais da metade das famílias brasileiras hoje é sustentada por uma mulher. Ali o pai está ausente tanto física, como emocional e economicamente falando. Seja como for, hoje, neste dia dos pais, queremos rezar pela pessoa que – repito – morreu ou tem morrido a cada dia para se fazer pão para nós.  
            Depois de ter saciado a multidão com os pães e os peixes, e de ter desafiado essa mesma multidão a se esforçar não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que dura até a vida eterna, Jesus se descreve aos judeus como “o pão que desceu do céu” (Jo 6,41), “o pão da vida” (Jo 6,48), “o pão vivo descido do céu” (Jo 6,51). De fato, sobre o altar da cruz, Jesus se ofereceu como “corpo dado” e “sangue derramado”, alimento de vida eterna para todo aquele que crê, oferenda esta antecipada na última Ceia.
           Que lugar tem a Eucaristia em sua vida? Com que frequência você comunga? Enquanto uns passam meses ou anos sem receber a comunhão, outros comungam sempre, mas nem sempre conscientemente. Você tem consciência de está recebendo verdadeiramente Jesus Cristo ao comungar, ou a Eucaristia se tornou para você um alimento insignificante, miserável, “nojento”, banal, como o maná para os israelitas (cf. Nm 21,5)? “Levanta-te e come!”... Com a força desse alimento, (Elias) andou... até chegar ao Horeb, o monte de Deus” (1Rs 19,7.8). Você está convencido(a) de que somente com a força da Eucaristia é que você pode chegar até Deus?  
    Depois que Jesus convidou a multidão a buscar o alimento que dura até a vida eterna, ela começou a ir embora. Agora, são os judeus que começam a ir embora. Como você se sente, ao perceber que as pessoas à sua volta se tornam cada vez mais céticas, descrentes, algumas se declarando agnósticas (Deus sim, religião não); outras, ateias (nem Deus, nem religião)? Por que você ainda continua na Igreja?
   Jesus não se sentiu diminuído como pessoa, nem fracassado na sua missão, ao começar a ficar praticamente sozinho, porque ele tinha uma convicção no seu coração: “Ninguém pode vir a mim (crer em mim) se o Pai que me enviou não o atrai” (Jo 6,44). A fé não é apenas um esforço sério da nossa parte em permanecermos com Jesus, mas sobretudo uma resposta nossa a um dom que o Pai nos oferece: termos a vida eterna em Seu Filho Jesus Cristo. Só Deus suscita a fé no coração do ser humano. Não adianta eu tentar “forçar” uma pessoa a se abrir para a fé. Onde Deus não entra pela graça, é inútil eu tentar entrar pela força.
   Só o Pai pode nos atrair para Jesus. De que maneira? “Todo aquele que escutou o Pai e por ele foi instruído vem a mim” (Jo 6,45). Somente quando escutamos o Pai, isto é, quando damos chance ou condições para o Pai falar ao nosso coração é que nos sentimos fortemente atraídos para Jesus e para a verdade do seu Evangelho. O que atrai hoje o coração das novas gerações, a não ser a tecnologia? Que espaço as novas tecnologias oferecem para que as pessoas hoje ouçam o Pai? Quem está disposto a ouvir a voz do Pai em sua consciência ou em seu coração?
   Terminemos essa reflexão considerando a figura do nosso pai terreno. “Elias entrou deserto adentro... e pediu a morte para si” (1Rs 19,4). Um homem no deserto adentro pode ser um pai fechado em si mesmo, isolado, desencorajado. Quantos pais, à semelhança de Elias, se sentem mortos, incapazes, fracassados, ou como marido, ou como pai, ou como profissional? Em que deserto se encontra seu pai, neste momento? Você poderia fazer-lhe companhia, ou encorajá-lo a sair desse deserto de isolamento? Elias “adormeceu”, mas seu sono não é só cansaço; é também fuga da realidade. Alguns pais fogem da realidade na bebida; outros, no cigarro; outros, nas drogas; outros ainda, na internet. Muitíssimos pais não se alimentam mais de Deus. O bar os atrai; o futebol os atrai; mas a Igreja não os atrai...
  Não caberia a cada um de nós assumirmos diante dos pais o papel do anjo que convidou Elias a reagir ao seu desânimo? “Levanta-te e come!” (1Rs 19,5.7). Levantar = reagir; comer = fortalecer-se. “Ainda tens um caminho longo a percorrer” (1Rs 19,7). Podemos ajudar o pai a se dar conta de que a sua vida não termina naquele cansaço, naquele desânimo, naquela crise, naquela queda... A vida prossegue! Deus é mais, e a missão que Ele confiou a você, pai, ainda não terminou! O pai não é só o provedor, aquele que se faz pão para a nossa família. Ele também tem fome. Ele também precisa que nos façamos pão para alimentá-lo com nossa ajuda, com nosso afeto, com nosso perdão, com nossa presença, com nossa oração...


 Pe. Paulo Cezar Mazzi

domingo, 2 de agosto de 2015

CONSERTAR OU JOGAR FORA E SUBSTITUIR POR UM NOVO?


            Numa conversa com um pedreiro, dias atrás, ele me disse que, atualmente, alguns profissionais (eletricistas, encanadores etc.), quando chamados a uma residência para consertar um problema, convencem a pessoa a jogar fora aquilo que está dando problema e a substituí-lo por um novo. Esses profissionais até poderiam consertar o que está estragado ou dando problema, mas isso dá mais trabalho. Jogar fora e substituir por um novo dá menos trabalho...
            É assim que nós estamos hoje administrando a nossa vida. Consertar, corrigir, quebrar a cabeça (e o coração) para fazer a coisa voltar a funcionar, além de exigir de nós tempo, paciência e esforço, dá trabalho. É muito mais fácil jogar fora e substituir por um novo. Pra quê “perder tempo” tentando consertar? Com isso, vamos agredindo mais ainda o planeta com um monte de entulho que, na verdade, não é entulho, mas algo que foi jogado fora porque não quisemos ter o trabalho de consertar.
            Não é assim que fazemos também com tantos dos nossos relacionamentos? Seja no campo afetivo/familiar, seja no campo da amizade ou profissional, quando algo ficou machucado, trincado, ofendido, quebrado, ou seja, quando algo se estragou ou começou a se estragar, nós não pensamos duas vezes: jogamos fora e substituímos por um novo. Assim, no “lixão” da nossa consciência, do nosso coração, da nossa história de vida, vai se acumulando um monte de entulho, um entulho desnecessário, que não estaria ali se tivéssemos tido um pouco de paciência e de boa vontade para dedicar um pouco mais do nosso tempo e do nosso esforço até que aquilo pudesse ser consertado.
            Deus não nos joga fora. Pelo contrário: Ele “reconstrói Jerusalém... Ele cura os corações despedaçados e cuida dos seus ferimentos” (Sl 147,2.3); Ele “perdoa todas as tuas culpas e cura todos os teus males” (Sl 103,3). Foi Ele quem ordenou ao profeta Jeremias descer à casa do oleiro... “Eu desci à casa do oleiro, e eis que ele estava trabalhando no torno. E estragou-se o vaso que ele estava fazendo, como acontece com a argila na mão do oleiro. Então, a palavra do Senhor me foi dirigida nestes termos: Não posso eu agir convosco como este oleiro, ó casa de Israel?, oráculo do Senhor. Eis que, como a argila na mão do oleiro, assim sereis vós na minha mão, ó casa de Israel!” (Jr 18,3-6).
            Não é porque algo se estragou em nós que temos que nos jogar no lixo. Não é porque algo se estragou nos nossos relacionamentos que temos que jogar as pessoas fora. Por que é que a Bíblia usa simbolicamente a imagem do barro para falar do ser humano (cf. Gn 2,7)? Porque aquilo que se machuca, que se fere ou que se estraga nos nossos relacionamentos pode ser tratado, curado, consertado, restaurado. Para isso, precisamos nos colocar como barro nas mãos do nosso oleiro. Deus é o nosso Oleiro. Sua palavra nos molda, nos corrige, nos conserta, nos aperfeiçoa. É por isso que o salmista declara, e ao mesmo tempo suplica: “Ó Senhor, vossa bondade é para sempre! Eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos!” (Sl 90,17).     
             Neste mês de agosto, em que celebramos a Semana da Família, oremos, jejuemos e trabalhemos para que o Senhor restaure a nossa casa e os nossos relacionamentos. Que tenhamos a coragem de olhar para o entulho da nossa história de vida e modificar aquelas atitudes que costumam estragar os nossos relacionamentos. Se olharmos com atenção, veremos que, no meio desse entulho todo, existem coisas que ainda podem ser recuperadas, consertadas e restauradas. Se nos dispusermos todos os dias a nos colocar como barro nas mãos do nosso Oleiro, por meio da oração, experimentaremos o quanto Ele tem, de fato, o poder de fazer de nós e dos nossos relacionamentos um vaso novo!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 31 de julho de 2015

SEM ESFORÇO, NADA DE VIDA ETERNA

Missa do 18º. dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 16,2-4.12-15; Efésios 4,17.20-24; João 6,24-35.

            Sem esforço, nenhum objetivo é atingido em nossa vida. Sem esforço, não há amadurecimento, nem superação, nem vitória, nem realização. O problema é: devemos nos esforçar em vista do quê? Alguns se esforçam para fazer uma faculdade; outros, para terem um corpo “sarado”. Alguns se esforçam para passar de fase nos jogos eletrônicos; outros, para vencer uma prova. Alguns se esforçam para realizar determinado “sonho de consumo”; outros, para sobreviverem, para formarem seus filhos, para superarem uma crise, para manterem sua família em pé.
            Todo esforço exige renúncia. A multidão, que havia se saciado com os pães e os peixes, renuncia à segurança de suas casas para ir atrás de Jesus. No entanto, Jesus faz este alerta: “Esforcem-se não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna...” (Jo 6,27). Alcançar a vida eterna exige sacrifícios da nossa parte. Estamos dispostos a fazê-los? Acreditamos na vida eterna? Desejamos a vida eterna? Se o nosso desejo pela vida eterna é fraco ou inexistente, nós nunca aceitaremos fazer qualquer esforço, qualquer sacrifício, qualquer renúncia para alcançá-la.
            “Estais me procurando... porque comestes pão e ficastes saciados” (Jo 6,26). Por qual motivo você costuma procurar Deus? Sua fé está reduzida ao seu estômago, aos seus interesses imediatos? Que esforço você faz para alimentar a sua vida espiritual, para se encontrar com Deus, para estar na presença d’Ele, para fazer a Sua vontade, para enfrentar a travessia do deserto rumo à Terra Prometida? Que tipo de sacrifício você está disposto(a) a fazer: enfrentar a fome do deserto, para alcançar a liberdade na Terra Prometida, ou suportar a escravidão do Egito, só porque ali você tem carne e pão com fartura (cf. Ex 16,3)?
            O verdadeiro esforço, necessário para alcançarmos a vida eterna, consiste em crer em Jesus Cristo, aquele que o Pai enviou como Salvador do mundo (cf. Jo 6,29). Mas, por que “crer” em Jesus significa “esforço”? Porque quem crê em Jesus Cristo “deve também andar (se comportar) como ele andou (se comportou)” (1Jo 2,6). Quem de nós está disposto a isto? Quem de nós tem Jesus Cristo como verdadeiro modelo de vida e de conduta? Quem de nós se esforça hoje por conhecer, amar e seguir Jesus Cristo, permanecendo com Ele e crendo n’Ele também na hora da cruz, da provação, da ausência de sinais, da doença, do fracasso e da dor?
            O apóstolo Paulo nos dá uma outra pista sobre qual esforço é necessário para alcançarmos a vida eterna: despojar-nos do “velho homem” e revestir-nos do “homem novo”. O “velho homem” é a pessoa que vai se habituando com seus vícios e seus comportamentos errados, uma pessoa arrastada por emoções cegas, atrofiada na razão e na consciência. Se hoje o envelhecimento mais temido é o da pele, o qual pode ser retardado ou disfarçado, o que nós de fato devemos temer é o envelhecimento da mente, desnutrida de espiritualidade, corrompida nos seus valores. Aqui não se trata de retardar o envelhecimento da nossa mente, mas de renová-la por meio de uma transformação espiritual, buscando ouvir o Espírito Santo e nos deixar guiar por ele. Enfim, ser um “homem novo” significa esforçar-se a cada dia por se comportar verdadeiramente de maneira justa e santa (cf. Ef 4,24).  
            Assim termina, por ora, o diálogo da multidão com Jesus: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (Jo 6,34). O que nós queremos dizer com “este pão”? Talvez estejamos pedindo a Jesus: ‘Senhor, dá-nos sempre consolação! Dá-nos sempre paz! Dá-nos sempre vitória! Dá-nos sempre libertação!’ O perigo aqui está na palavra “sempre”. É a tentação de querer uma vida “sempre” saciada, de querer perguntas “sempre” respondidas, de querer dores “sempre” amenizadas.
            Ao dizer: “Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35), creio que Jesus esteja dizendo: “Sempre” que você esforçar-se por me encontrar, Eu estarei aqui. “Sempre” que você me buscar, Eu me deixarei encontrar por você. Mas não espere de mim por um “sempre” que seja sinônimo de já ter encontrado, de já ter alcançado, e, portanto, de não precisar mais se esforçar por alcançar. Seu esforço será necessário a cada dia, assim como sua renúncia e seu sacrifício, até que você aprenda a se comportar na vida como Eu me comportei, até que você alcance a vida eterna.  

Para sua oração pessoal: FOME DE TI (Radicais livres)



Pe. Paulo Cezar Mazzi