sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

DEUS NÃO DESISTE DO SER HUMANO

Missa do 4º. dom. do advento – Palavra de Deus: 2Samuel 7,1-5.8b-12.14a.16; Romanos 16,25-27; Lucas 1,26-38.


No último dia 16, nove integrantes do Talibã, movimento fundamentalista islâmico, entraram numa escola do Paquistão administrada pelo Exército e mataram 132 crianças e adolescentes. O porta-voz do Talibã justificou o ataque, dizendo: “Queremos que eles (os pais) sintam a nossa dor”. Nós não precisamos visitar o Oriente Médio para nos dar conta do quanto o ser humano tem se desumanizado, seja por causa das injustiças sociais, da luta pelo poder ou do fanatismo religioso. Aqui mesmo no Brasil, devido à violência, à injustiça, à impunidade e à corrupção, é cada vez maior o número de pessoas que dizem não acreditar mais no ser humano.  
Embora a própria Escritura afirme que Deus também chegou ao ponto de ter se arrependido de criar o ser humano (cf. Gn 6,6), porque “viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo projeto de seu coração” (Gn 6,5), o Evangelho deste 4º. domingo do advento narra o momento na história da salvação em que Deus decide enviar seu Filho ao mundo, permitindo que Ele se fizesse pessoa humana no seio de Maria. Se por estar ferido e querer se vingar o ser humano quer que o seu semelhante sinta a sua dor, Deus escolheu se fazer humano por dois motivos: primeiro, para mostrar que Ele veio redimir o ser humano da sua dor; segundo, porque Ele quis assumir em Si mesmo a dor de cada ser humano. Decidindo gerar seu Filho no ventre de Maria, Deus revela que nunca desistirá do ser humano, quem quer que seja ele.
“O anjo Gabriel foi enviado por Deus... a uma virgem” (Lc 1,26). A iniciativa de salvar a humanidade é sempre de Deus, e o caminho que Ele escolhe para realizar a salvação é sempre surpreendente: uma virgem se tornará mãe, sem ter tido relação com um homem. A ausência do homem é proposital: Deus quer deixar claro que a obra é d’Ele e não nossa. Por isso, logo que assumiu seu ministério, o Papa Francisco disse que nós precisamos nos deixar surpreender por Deus. Ele entra em nosso cotidiano, como entrou no de Maria, e sua proposta provoca uma reviravolta em nossa vida, em nossos planos humanos, limitados pela visão estreita que temos de nós mesmos e da vida.
Diante da perturbação de Maria com essa visita inesperada de Deus em sua vida, o anjo lhe diz: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30). O medo tem tomado cada vez mais conta do nosso coração. O termômetro do medo se chama ansiedade, uma ansiedade que surge em nós sempre que, consciente ou inconscientemente, nos sentimos ameaçados por algum perigo, real ou imaginário. Sentimos medo do ser humano, medo do mundo em que vivemos, medo do futuro, medo de fracassarmos, de não darmos conta da vida. Mas o Evangelho diz que Deus está conosco, que Ele acredita em nós, que Ele não desistiu da humanidade, mas quer salvá-la a partir da nossa abertura à Sua graça.
            “Eis que conceberás e darás à luz um filho...” (Lc 1,31). Apesar da ideologia do aborto, a qual afirma que cabe à mulher decidir sobre o seu corpo – como se o filho que ela está gerando fosse um órgão do seu corpo e não uma vida, uma pessoa; apesar da esterilidade; apesar de tantos filhos desejados, mas nunca gerados e de tantos filhos gerados, mas não desejados; apesar do medo de se gerar filhos num mundo como o nosso; apesar de todos os entraves físicos, psicológicos ou emocionais que estancam a vida dentro de nós, Deus acredita em nossa fecundidade; Ele sabe que somos capazes de ir além, de transcender o momento presente e de nos tornar grávidos de um futuro que ainda não se pode ver, mas que se deve esperar.
“O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35). Quanto mais nos sentimos cobertos pela sombra do terrorismo, da violência, da injustiça e da maldade dos homens, mais precisamos nos refugiar em Deus, como faz o salmista: “Piedade de mim, ó Deus, tem piedade de mim, pois eu me abrigo em ti; eu me abrigo à sombra de tuas asas, até que passe o perigo” (Sl 57,2). O Espírito Santo é espírito de força, de fecundidade, de luz, de alegria, de vida. Ele nos faz experimentar que, verdadeiramente, “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). Ele nos faz cantar: Por que tenho medo, se nada é impossível para ti? (3x) Por que ficar triste, se nada é impossível para ti? (3x) Nada é impossível para ti! (2x) Porque duvidar, se nada é impossível para ti? (3x) Nada é impossível para ti! (2x) (Adriana, Nada é impossível para ti).
            Enfim, se a iniciativa é de Deus, a resposta é nossa. E Maria responde: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). Nós estamos aqui como servos do Senhor ou como pessoas que querem se servir do Senhor? Quando ouvimos a sua Palavra, esperamos até que ela se cumpra em nós? Permitimos que a Palavra se cumpra em nós? O Pai poderia ter enviado seu Filho já adulto, mas escolheu este longo caminho da Encarnação: a fecundação, a gestação, o parto etc., até que Jesus se tornasse adulto e começasse o anúncio do Evangelho. Todo esse longo e demorado processo é um questionamento para cada um de nós: Eu confio no tempo de Deus para mim? Deixo-me surpreender por Ele? O que fala mais alto em mim: a crença de que a humanidade não tem mais jeito ou a certeza de que Deus nunca desiste do ser humano? Permito que o Espírito Santo me fecunde com a Sua graça? Aceito ficar debaixo da Sua sombra o tempo que for necessário? Acolho a Palavra de Deus de modo a esperar nela e a permitir que se realize em minha vida

                                            Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

MAIS PERTO DA SUA VERDADE, MAIS PERTO DA SUA ESSÊNCIA

Missa do 3º. dom. do advento. Palavra de Deus: Isaías 61,1-2a.10-11; 1Tessalonicenses 5,16-24; João 1,6-8.19-28.

“Quem é você?... O que você diz de si mesmo?” (Jo 1,19.22). As mesmas perguntas que os sacerdotes e levitas dirigiram a João Batista hoje são dirigidas a cada um de nós: ‘Quem é você?’ ‘Como você se vê?’ ‘O que você pensa de si mesmo(a)?’ Porém, considerando que nenhuma pessoa nasce pronta, mas vai se fazendo a cada dia, essas perguntas se desdobram em outras: ‘O que você tem se tornado?’ ‘Você se tornou a pessoa que gostaria de ser?’ ‘Você é feliz em ser quem é?’ ‘Você é a mesma pessoa dentro e fora de casa, dentro e fora da Igreja, quando está com os outros e quando está só?’.
Antes de João Batista ser questionado sobre a sua identidade, uma afirmação bíblica foi feita a respeito dele: “um homem enviado por Deus” (Jo 1,6). Esta afirmação diz que a nossa existência não é fruto do acaso. Você e eu existimos porque fomos enviados por Deus. Mas, enviados para quê? “Ele veio... para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). Cada um de nós é único e está no mundo para ser um sinal único que aponta para a luz, que é Cristo, para que as outras pessoas que convivem conosco possam se encontrar com a Verdade, que é o próprio Cristo, Verdade que liberta o ser humano das mentiras do mundo e do seu próprio autoengano: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
Se, por acaso, neste momento você se pergunta: ‘Por que estou aqui, nesta casa, neste local de trabalho, nesta escola ou faculdade, nesta cidade etc.?’ lembre-se: é para que as pessoas que convivem com você possam chegar à fé, possam encontrar-se com a verdade de Cristo que liberta da mentira e do autoengano, e faz com que cada ser humano aproxime-se da sua verdadeira essência.
Antes de responder quem ele era, João precisou tomar consciência de quem ele não era: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20). Quantos de nós desconhecemos nossa própria essência, e nos vemos a partir dos olhos dos outros: dos pais, dos amigos, do pregador, da mídia etc.? Quantos têm uma imagem distorcida de si, ou no sentido de engrandecer-se, ou no sentido de diminuir-se? Quantos se definem a partir de um aspecto da vida, sem considerar o todo? Nós começamos a descobrir nossa verdadeira identidade quando começamos a ter coragem de questionar a ideia errada que temos de nós mesmos, ou que os outros sempre tiveram de nós: ‘Eu sou o que eu quero ser ou sou o que os outros querem que eu seja?’ ‘O que determina o rumo da minha vida é o meu passado ou as escolhas que eu faço no meu presente?’ ‘Eu sou doente ou estou doente?’ ‘Eu sou uma pessoa problemática ou estou com problemas, com os quais preciso lidar?’.
“O que você diz de si mesmo(a)?” A nossa cura, a nossa libertação, a nossa paz e a nossa alegria dependem da resposta a esta pergunta tão fundamental, pergunta que nos amedronta e diante da qual fazemos de tudo para não nos colocar... Mas esta pergunta quer apenas nos ajudar a dar passos na direção da nossa verdadeira essência. Talvez você se pergunte: ‘Qual é a minha essência?’ ‘Qual é a minha verdade?’ A resposta está aqui: quanto mais você se sente alegre e em paz com as suas atitudes e com as suas escolhas, mais você está próximo(a) da sua essência, da sua verdade.  
João entendeu qual era a sua essência, a sua verdade: “Eu sou a voz...”. Ser voz é ser canal para que a Palavra possa chegar aos ouvidos e ao coração dos que precisam ouvi-La. Jesus é, por excelência, o Enviado do Pai, o Ungido do Senhor, Aquele que veio trazer “a boa notícia aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos” (Is 61,1). Mas você e eu somos cristãos, ungidos pelo mesmo espírito de Cristo. Apesar das nossas imperfeições, precisamos fazer o que está ao nosso alcance para que as pessoas cheguem à fé por meio de nós (cf. Jo 1,7).
Terminemos esta reflexão considerando alguns apelos do apóstolo Paulo para nós: “Não apagueis o espírito!” (1Ts 5,19). O Espírito de Deus é o “Espírito da Verdade” (Jo 14,17; 15,26; 16,13). Não apagá-Lo significa não nos afastar da nossa verdade, por mais que nos custe permanecer nela. Não apagar o espírito significa também não esfriar em nossa vida de oração. “Examinai tudo e guardai o que for bom” (1Ts 5,21). A Verdade do Espírito deve ser o critério para nos guiar em nossas escolhas e decisões, a fim de nos mantermos fiéis à nossa essência. “Afastai-vos de toda espécie de maldade!” (1Ts 5,22), não apenas daquilo que é mal aos nossos olhos, mas sobretudo daquilo que é mal aos olhos de Deus. “(...) que tudo aquilo que sois – espírito, alma, corpo – seja conservado sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!” (1Ts 5,23). Que todo o nosso ser permita-se ser curado, redimido e liberto pelo Espírito de Deus, a fim de irradiarmos a luz da sua Verdade aos que convivem conosco.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O CAMINHO EXISTE, MAS PRECISA SER DESOBSTRUÍDO

Missa do 2º. dom. do advento. Palavra de Deus: Isaías 40,1-5.9-11; 2Pedro 3,8-14; Marcos 1,1-8.

            Quantas vezes você já se encontrou numa rua sem saída? Quantas vezes, no labirinto da vida, você pensou que havia achado a saída, mas se deparou com uma nova parede? Talvez você tenha desistido de caminhar, porque chegou à conclusão de que não existe saída ou possibilidade de mudança, não existe mais caminho a ser percorrido. No entanto, neste segundo domingo do advento, a Palavra do Senhor afirma que existe um caminho para a cura e para a libertação; um caminho para o reencontro e para a restauração; um caminho para a mudança e para a transformação. Existe um caminho pelo qual Deus pode vir a nós, mas este caminho deve ser preparado por nós.
            “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada do nosso Deus. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas” (Is 40,3-4a). Deserto e solidão são situações onde temos que nos deparar conosco mesmos, reconhecendo que o mal e a perversão também moram em nós. Deserto e solidão são situações onde não podemos fugir de nós mesmos, daquela verdade que à primeira vista parece insuportável, mas que temos que aceitar que é a nossa verdade. Deserto e solidão representam tudo aquilo com o qual eu devo lidar, eu e não outra pessoa.
            Para uma geração como a nossa, que tem se habituado não tanto a buscar Deus, mas apenas as consolações de Deus, Isaías nos lembra que a consolação só é alcançada depois do confronto com a desolação. O nosso encontro com Deus só se dá quando temos a coragem de descer ao porão da nossa casa interior, visitar o deserto da nossa desolação e suportar o medo, o vazio e a dor da nossa solidão. Por quê? Porque a nossa ferida é profunda, e não há outra forma de Deus curá-la, a não ser fazendo uma intervenção “agressiva”, dolorosa, em nós.  
Isaías nos propõe lançar um olhar realista para a estrada da nossa vida. Quantos vales foram abertos e quantos montes foram erguidos nela? Vales são buracos que foram se abrindo e se tornando profundos em nossa vida porque, nos nossos relacionamentos, só retiramos, consumimos, usufruímos e não tivemos o cuidado de repor, de preservar, de revitalizar a relação. Quantos vales hoje separam marido e mulher, pais e filhos, nós e o próximo, nós e Deus? Já os montes são tudo aquilo que pedia para ser enfrentado, mas nós deixamos que se acumulasse dentro de nós – raiva, ódio, ira, mágoa, ressentimento, sede de justiça etc. – e tudo isso acabou por formar um monte que não apenas nos separa do outro, mas nos impede inclusive de vê-lo.  
Para que haja um verdadeiro encontro entre o Senhor e nós, é necessário pôr em ordem a própria vida, endireitando o que está torto e alisando o que está áspero (cf. Is 40,4b). Alguém nasce torto? Alguém nasce áspero? Não. Nós podemos nos tornar tortos ou ásperos pela forma como lidamos com os acontecimentos que marcaram a nossa história de vida. A tortuosidade começa a surgir quando abandonamos a orientação da Palavra de Deus, quando desistimos de pagar o preço da fidelidade e decidimos deixar a vida nos levar para onde ela quiser. A aspereza, por sua vez, é a consequência do fato de termos nos recusado a nos deixar conduzir pelo Espírito de Deus e passado a nos deixar arrastar pela vontade cega do nosso próprio ego, que nos embrutece.  
João Batista foi enviado por Deus como mensageiro, para preparar a humanidade para a primeira vinda de Jesus. Ouvindo João, as pessoas confessavam os seus pecados e eram batizadas. Mas o próprio João disse que Jesus viria realizar não mais um batismo com água, mas o batismo como o Espírito Santo. Se a água pode apenas nos lavar de uma sujeira exterior, o fogo do Espírito tem o poder de penetrar nas profundezas do coração humano e purificá-lo a partir de dentro (cf. Ml 3,1-3). A imagem deste fogo foi mencionada por Pedro ao falar da segunda vinda de Cristo: “(...) os elementos, devorados pelas chamas, se dissolverão, e a terra será consumida com tudo o que nela se fez” (2Pd 3,10).
Todas as estruturas injustas que produzem opressão, sofrimento, humilhação e morte serão consumidas pelo fogo do julgamento de Deus, realizado na pessoa de seu Filho Jesus, que vem para cumprir a promessa do Pai de criar “novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça” (2Pd 3,13). Por isso, a cada um de nós é dirigido este apelo: não abandonar a esperança na promessa de Deus; se ela ainda não se cumpriu é porque Deus está usando de paciência, pois ele não deseja que alguém se perca, mas quer que todos venham a se converter (cf. 2Pd 3,9). O importante é manter o nosso esforço diário em voltar para o Senhor o nosso coração, esforçando-nos por viver uma vida santa, piedosa, pura e pacífica. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

ESPERAR N'ELE E POR ELE

Missa do 1º. dom. do advento. Isaías 63,16b-17.19b; 64,2b-7; 1Coríntios 1,3-9; Marcos 13,33-37.

O tempo do Advento, que iniciamos hoje, além de nos preparar para celebrarmos o nascimento do nosso Salvador, Jesus Cristo, quer nos preparar para a sua segunda vinda, pois a Escritura diz: Cristo “virá uma segunda vez... àqueles que o esperam para lhes dar a salvação” (Hb 9,28). Por isso, o Advento se traduz por uma espera: esperar Aquele que vem. O problema é que nós desaprendemos esperar. Quando temos de esperar, ficamos frustrados. Mas esperar tem a ver com esperança. Nós esperamos no Senhor e pelo Senhor: “Esperamos n’Ele, até que nos salvou” (Is 25,9). Por isso, se você já desistiu de esperar em Deus e por Deus, desperte a sua esperança a partir desta declaração de fé do profeta Isaías: “Nunca se ouviu dizer... que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que nele esperam” (Is 64,3).
A atitude da espera em Deus e por Deus foi descrita por Jesus no Evangelho usando a imagem do porteiro. É o porteiro quem deve abrir a porta para o dono da casa, assim que ele chegar. Além disso, na ausência do dono da casa, é o porteiro quem decide quem ou o quê entra na casa. A casa é um símbolo em aberto: ela pode significar nós mesmos, nosso corpo, nossa consciência (pensamentos), nosso coração (sentimentos); ela pode significar também nossa família, nosso local de trabalho, o meio ambiente etc. Uma vez que você é o porteiro, cabe perguntar-se: Para o quê eu tenho fechado a porta da minha vida e precisaria abri-la? Para o quê eu tenho aberto a porta da minha vida e precisaria fechá-la?’
            A responsabilidade do porteiro é vigiar a casa que está sob os seus cuidados. Vigiar supõe não dormir. Dormir, por sua vez, significa anestesiar a consciência, acomodar-se, distrair-se, fechar-se no próprio individualismo, não dar-se conta do perigo que ronda sua própria vida, abandonar o caminho da justiça, da coerência, da fidelidade ao Evangelho de Cristo. Dormir é fazer corpo mole quanto àquilo que diz respeito à sua própria salvação.  
O Deus em quem esperamos e a quem aguardamos é, segundo o profeta Isaías, “nosso pai” e “nosso redentor” (cf. Is 63,16b). A questão é: quem sente necessidade de um pai? Quem sente necessidade de um redentor? Para quantas pessoas, a figura do pai é desconhecida ou negativa? Quantos já se habituaram a viver a vida sem pai e não sentem necessidade alguma de um? Para quê precisamos de um redentor? Precisamos ser redimidos do quê? Muitos não esperam mais em Deus e por Ele porque acharam melhor aprender a sobreviver sozinhos e a contar unicamente consigo mesmos...
Já na sua época, o profeta Isaías constatou: “Não há quem invoque teu nome (abandono da oração), quem se levante para encontrar-se contigo (abandono da fé – deixar de buscar a Deus)” (Is 64,8). Mas no coração de toda pessoa que sente a necessidade de um pai e de um redentor, uma súplica não aceita ser abafada ou silenciada: “Ah! se rompesses os céus e descesses!” (Is 63,19b.). O Advento nos desafia a redobrar a nossa oração, a nossa busca por Deus, suplicando que os céus se abram e derramem a presença de Deus e da sua salvação no mundo, em cada casa, em cada ambiente de trabalho, no coração de cada ser humano, onde quer que haja guerra, violência, injustiça, doença, dependência química, falta de entendimento, desestruturação familiar, desemprego, fome, ideia de suicídio etc.
Deus faz pelos que n’Ele esperam (cf. Is 64,3). Deixar de esperar em Deus significa sair das Suas mãos, trancar a porta para que Ele não entre, desconectar o nosso coração do Seu, desistir de ficar on line, no que diz respeito à nossa espiritualidade. Deus vem, nos lembra o profeta Isaías, mas vem “ao encontro de quem pratica a justiça com alegria” (Is 64,4), de quem assume uma postura justa perante toda e qualquer circunstância, e não apenas quando está sendo visto, observado ou vigiado. Deus vem e se deixa encontrar por quem caminha nos Seus caminhos, com o coração e a consciência voltados para Ele.
Além de ser um tempo de espera, o Advento também é tempo de conversão, no sentido de reconhecer e nos dispor a rever toda atitude nossa que não deixa a vida se renovar em nós, à nossa volta e no mundo em que vivemos: “Nós pecamos..., nos tornamos imundície..., murchamos como folhas, e nossas maldades nos empurram como o vento” (Is 64,4b.5). Essa estranha sensação que temos de que o nosso mundo (ou casa, local de trabalho, igreja, vida) é manipulado, sacudido e jogado de um lado para outro por uma Mão invisível, que parece ter o prazer de nos jogar contra a parede, como se fôssemos uma bola de papel amassado, tem nome, endereço, RG, CPF, e-mail, telefone fixo, celular etc.: ela se chama “nossas maldades”
“Assim mesmo”, diz o profeta Isaías, apesar de nossa teimosia em assumirmos um comportamento maléfico para nós mesmos, para os que convivem conosco e para o nosso planeta; apesar de insistirmos em nos bater contra uma parede de concreto, nos esquecendo de que somos frágeis como um vaso de barro, temos um Deus a quem suplicar e por quem esperar como pai e redentor: “Assim mesmo, Senhor, tu és o nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Is 64,7).
Portanto, neste início de Advento, nos coloquemos como barro nas mãos do nosso Oleiro... Quero colocar em Tuas mãos a minha vida, me deixar remodelar como um vaso do oleiro. O meu coração ponho hoje em Teu altar. Minha vida está pronta pra recomeçar ao lado Teu. Ser todo Teu, inteiro Teu. Quero ajuntar cada pedaço do meu ser. Ser todo Teu, inteiro teu. Quero Te dar os meus pedaços para que um vaso novo eu possa ser! (bis) (Música “Todo Teu”, de Eros Biondini.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ENXERGAR PARA ALÉM DA TELA DO CELULAR

Missa de Cristo Rei – Palavra de Deus: Ezequiel 34,11-12.15-17; 1Coríntios 15,20-26.28; Mateus 25,31-46.

            “E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz...” (Legião Urbana, Metal contra as nuvens). Chegamos a mais um final de um ano litúrgico. Todo final é carregado de esperança. Quando lemos um livro ou assistimos a um filme ou novela, esperamos que o final nos traga respostas, decifre o mistério, faça justiça – no sentido de que a verdade prevaleça sobre a mentira, a luz prevaleça sobre a escuridão, a morte prevaleça sobre a vida, o bem prevaleça sobre o mal.  
            Se agora vemos as coisas de maneira confusa, no final veremos face a face; se agora as peças do quebra-cabeça da vida estão espalhadas, no final elas se encaixarão perfeitamente umas nas outras; se agora temos que lidar com muitos desencontros, no final haverá o grande encontro; se agora tudo parece estar misturado – a verdade com a mentira, a justiça com a injustiça, o bem com o mal – no final haverá uma separação: “Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros...” (Mt 25,32).
            Nesta cena do Evangelho, conhecida como julgamento final, separar significa fazer justiça: “Eu farei justiça entre uma ovelha e outra” (Ez 34,17). Ainda que estejamos acostumados com a injustiça e a impunidade, a Sagrada Escritura garante que, no final, “todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10). Sim, mas o que significa fazer o bem ou fazer o mal numa sociedade como a nossa, onde os valores estão invertidos, onde aquilo que é o bem passa a ser rotulado de mal, e aquilo que é o mal passa a ser propagandeado como sendo o bem? (cf. Is 5,20).
            Para Jesus, fazer o bem ou fazer o mal se traduz concretamente na forma como nos envolvemos com a dor humana, isto é, se somos solidários ou indiferentes com quem sofre: “Vinde, benditos de meu Pai!... Pois eu estava com fome e me destes de comer... Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que fizestes!... Afastai-vos de mim, malditos!... Pois eu estava com fome e não me destes de comer... Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!” (Mt 25,34.35.40.41.42.45).   
            O envolvimento com a dor alheia começa pelos olhos, chega ao coração e se concretiza nas mãos (atitudes). Tanto os que estavam à direita como os que estavam à esquerda de Jesus lhe perguntaram: “Quando foi que te vimos com fome...?” (Mt 25,37.44). A nossa geração se permite ser afetada pela dor alheia? Como nos envolver com a dor de quem está ao nosso lado, se nossos olhos estão, a maior parte do tempo, fixos na tela do nosso celular? Se é verdade que o que os olhos não veem o coração não sente, como o nosso coração pode ser afetado pela dor do outro, se a única coisa que os nossos olhos veem são os nossos “selfies”*?
            Numa época em que a prioridade dos pastores (líderes políticos e religiosos) deixou de ser cuidar do rebanho e passou a ser cuidar de si, inclusive às custas do rebanho, Deus disse: “Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas... vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersadas num dia de nuvens e escuridão...” (Ez 34,11.12). As nuvens e a escuridão do individualismo e do narcisismo nos fecham em nós mesmos, nos fazem girar doentiamente em torno dos nossos caprichos e desejos, enquanto aqueles que a vida confiou aos nossos cuidados vão se dispersando pelos descaminhos deste mundo. Não é por acaso que aumenta o número de pessoas que se sentem perdidas, extraviadas, quebradas, doentes e injustiçadas...
            Prestemos atenção aos verbos que traduzem a atitude de Deus para com a dor humana: procurar, reconduzir, enfaixar, fortalecer, vigiar, fazer justiça... Ontem, essas palavras se encarnaram na pessoa de Jesus Cristo. Hoje, nós somos chamados a encarná-las em nossa vida de cristãos, acolhendo este convite de Deus: “Preciso das tuas mãos para continuar a abençoar; preciso dos teus lábios para continuar a falar; preciso do teu corpo para continuar a sofrer; preciso do teu coração para continuar a amar; preciso de ti para continuar a salvar” (Michael Quoist, Oração do sacerdote numa tarde de domingo). Na medida em que cada um de nós assumir a sua vocação de batizado, de filho do Pai que comunga da dor humana e irmão do Filho que está presente em cada ser humano que sofre, poderemos colaborar para que a nossa história não esteja mais pelo avesso assim, sem final feliz...   
           
* Selfie significa autoretrato, foto de si mesmo(a). 

                                                                       Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DESENTERRE SEU TALENTO!

Missa do 33º. dom. comum. Palavra de Deus: Pr 31,10-13.19-20.30-31; 1Tessalonicenses 5,1-6; Mateus 25,14-30.

Muitas vezes ouvimos dizer que os consumidores estão mais exigentes, ou que o mercado exige maior qualificação profissional, ou que as empresas estão exigindo resultados, eficiência, metas etc. EXIGÊNCIA tem se tornado, de fato, uma das palavras mais usadas no mundo atual, palavra que ecoa dentro de nós não só como “cobrança”, mas às vezes também como “ameaça”: se eu não alcançar o resultado, se eu não atingir a meta exigida, serei punido(a) ou dispensado(a).
Da mesma forma, o Evangelho que acabamos de ouvir parece estar em pleno acordo com o mercado, exigindo de nós a produção de resultados, o alcance de metas, a multiplicação dos talentos que recebemos e em relação aos quais precisaremos um dia prestar contas a Deus. Mas, o que é um talento? Na época de Jesus, o talento era uma moeda que valia mais ou menos dois quilos de ouro, segundo a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). Jesus usa o talento de forma simbólica: ele representa todo e qualquer tipo de dom que Deus concedeu a cada ser humano. Dessa forma, o apóstolo Paulo pergunta: “O que é que você possui que não tenha recebido (de Deus)?” (1Cor 4,7).
O dom não é algo gerado ou produzido por nós, mas algo recebido de Deus, algo que Deus nos confia para ser trabalhado, cultivado, desenvolvido, amadurecido. Portanto, a primeira intenção de Jesus é nos tornar conscientes dos dons que Deus nos deu, da capacidade que temos de crescer, de nos superar, de transcender, de fazer o bem a nós mesmos, aos outros e ao mundo à nossa volta, como aparece na imagem da mulher forte, mencionada no livro dos Provérbios: “(...) com habilidade trabalham as suas mãos... Abre as suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre” (Pr 31,19-20).
Enquanto muitas pessoas ignoram seus próprios talentos, isto é, desconhecem sua força e seu valor, outras avaliam o talento dos outros pela aparência do pacote que contém o talento. E aqui há surpresa e decepção. Surpresa porque, não poucas vezes, os dois quilos de ouro estão embrulhados num jornal – é o caso daquelas pessoas para as quais não damos importância e que nos surpreendem com atitudes de educação, de respeito, de inteligência, de sensibilidade, de honestidade, de caráter, de retidão de consciência, de humanidade etc. Decepção porque, algumas vezes, o pacote é encantador e enche os nossos olhos, mas quando o abrimos, dentro dele há apenas dois quilos de bijuteria e nada de ouro. Como disse o livro dos Provérbios, “o encanto é enganador e a beleza é passageira” (31,30).
O apóstolo Paulo nos faz um alerta: “(...) não durmamos como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios” (1Ts 5,6), o que significa: vejamos se estamos desenvolvendo todo o nosso potencial (vigilância). Além disso, estejamos sóbrios, acordados, conscientes de quem somos e do bem que podemos fazer ao outros (sobriedade). Trata-se, portanto, de trabalhar nossos talentos e de fazê-los crescer, como agiram os dois primeiros servos da parábola contada por Jesus (cf. Mt 25,16-17).
Quando assumimos a tarefa de nos trabalhar, de colaborar com o nosso crescimento e amadurecimento, de forma a nos tornarmos melhores e ajudarmos a melhorar o mundo à nossa volta, experimentamos uma profunda alegria dentro de nós, uma alegria que vem de Deus, que nos vê caminhar na direção daquilo que Ele mesmo nos propôs como meta de crescimento humano e espiritual (cf. Mt 25,21.23). O triste é que algumas pessoas escolhem passar pela vida sem nada fazer, querendo apenas consumir e usufruir. O máximo de esforço que fazem é cavar um buraco e enterrar o talento que receberam. Dessa forma, cada um precisa se perguntar: Por que escondi o meu talento? Por que o enterrei? Onde o enterrei? Quantos talentos meus estão enterrados debaixo da raiva, da mágoa, do ressentimento, da desnecessária espera do reconhecimento e do aplauso dos outros?
“Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais” (Mt 25,21.23). Jesus deixa claro que trabalhar, no sentido de multiplicar os talentos, é uma questão de ser fiel a si mesmo, à própria verdade, à própria essência. Não se trata de nos tornarmos uma outra pessoa, mas de nos tornarmos a pessoa que fomos chamados a ser quando Deus nos criou. Como diz a música Tocando em frente (Almir Sater): “Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”.
O servo que enterrou no chão o talento que recebeu de Deus foi chamado de “mau e preguiçoso” (Mt 25,26). Ser uma pessoa má não se restringe simplesmente em fazer o mal, mas também em não fazer o bem que tem condições de fazer. Olhe à sua volta. Olhe para dentro da sua igreja ou comunidade: o quanto ela poderia fazer a mais pelo Reino e pelo bem de muitas pessoas, mas não faz porque nela há muitos que, seja por preguiça, comodismo ou individualismo, não fazem o bem que poderiam fazer? Olhe para a sua rua, bairro ou cidade: quanta sujeira, quanto descuido com o meio ambiente, quanto desperdício de água e de energia, quantos bens públicos depredados porque você também está se deixando contaminar pela doença da maldade e da preguiça? Olhe para as pessoas à sua volta: quantas delas você despreza e ignora porque, apesar de serem verdadeiras pepitas de ouro, estão “embrulhadas” num jornal?
Uma palavra final: trabalhar para multiplicar os talentos que recebemos de Deus é algo que nos custa, e às vezes nos custa muito. Se você está cansado(a), desiludido(a) e acha que não vale mais a pena cultivar os verdadeiros valores na sua vida, reflita sobre essas palavras de Martin Valverde, na música SEGUE: Custa para você poder seguir? Custa para você? Tuas forças já não dão? E tua fé, já não pode mais? Segue! Embora sinta que já não consegue mais, segue! Embora já não Me sinta junto de você, segue! Você sabe a Quem está servindo; verá ao final uma linda luz, o rosto de Jesus que vem. Ele traz uma coroa para você, por ter seguido, por ter chegado. Segue, vamos! Segue orando! Segue! Segue n’Ele confiando! Tua oração Ele já olhou, apesar da tua pequena fé. Embora você sinta que está se afogando, segue irmão! Falta pouco para ver tua obra terminar, para que você veja tua fé vencer e tuas lágrimas serem convertidas em alegria. Você chegará! Você chegará! Segue! (minha tradução)
 
 Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O LUGAR ONDE DEUS ESCOLHEU HABITAR

Missa da Basílica do Latrão. Palavra de Deus: Ezequiel 47,1-2.8-9.12; 1Cor 3,9c-11.16-17; João 2,13-22.

Hoje a nossa Igreja convida os católicos do mundo todo a se voltarem para a Basílica do Latrão, em Roma. A partir do século IV, esta Basílica se tornou a primeira catedral do mundo e por muito tempo foi considerada a Igreja-mãe de Roma. Ainda que as comunidades católicas estejam espalhadas por diversas partes do mundo, a Basílica do Latrão nos lembra que todos nós somos pedras vivas (cf. 1Pd 2,5) da única Igreja fundada sobre os apóstolos e que tem Jesus Cristo como pedra principal (cf. Ef 2,22). A expressão “pedra viva” nos fala, primeiramente da firmeza da nossa fé (imagem da pedra) no único Salvador dos homens, Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo. Em segundo lugar, somos pedras “vivas” na medida em que nos tornamos habitação de Deus por meio do Espírito Santo (cf. Ef 2,22).
Quando Salomão construiu o Templo em Jerusalém, se encheu de orgulho e disse: “Sim, eu construí para ti uma morada, uma residência em que habitas para sempre” (1Rs 8,13). Pobre Salomão! Pobres de nós, que nos orgulhamos quando conseguimos reformar ou construir uma igreja, achando que aquela construção ‘garante’ a presença de Deus para sempre no meio de nós! Pobres de nós, padres, que às vezes ficamos fechados em nossas igrejas, agarrando-nos a 1 ovelha que quis ficar conosco, ao invés de termos disposição e coragem de sair das nossas igrejas para ir atrás das 99 ovelhas que se afastaram e se extraviaram, por não terem feito uma verdadeira experiência de Deus enquanto estavam dentro das nossas igrejas.
A construção de templos se multiplica diariamente em nosso país, desde os “templos” que funcionam em garagens de casas particulares até os “mega templos” que abrigam multidões de pessoas. A presença dessa multiplicidade de “templos” é ambígua: por um lado, aparenta ser uma presença de Deus onde as igrejas históricas não conseguiram – ou não tiveram interesse – em chegar; por outro lado, essa multiplicidade está destruindo a imagem de Deus no sacrário da consciência humana, na medida em que a Sagrada Escritura é ali banalizada, manipulada, distorcida e colocada a serviço dos sonhos de consumo dos que frequentam tais “templos”, sonhos que jamais se tornarão realidade porque Deus nunca aceitou ser um ídolo manipulado pela pregação de quem quer que seja.
Segundo o profeta Ezequiel, Deus quer que a Sua presença no meio dos homens seja como um templo, do interior do qual sai um rio de água que, por onde passa, converte a morte em vida: “Aonde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver... haverá vida aonde chegar o rio. Nas margens junto ao rio... crescerá toda espécie de árvores... Seus frutos servirão de alimento e suas folhas de remédio” (Ez 47,9.12). Essa imagem de uma água que sai do Templo e cura quem está fora dele contrasta com a reportagem de capa da revista evangélica Ultimato, intitulada: “A igreja está tão doente quanto o mundo” (setembro-outubro de 2013, edição 344). A revista constata que as igrejas, na sua maioria, adotaram a linguagem do mundo para ser verem cheias de “fiéis”, e estão tendo que abrir mão de parte de suas doutrinas, se desejam que esses mesmos “fiéis” permaneçam dentro delas.
Que tipo de água as igrejas estão oferecendo para seus fiéis: uma água que eles PREFEREM beber ou uma água que eles PRECISAM beber? Que tipo de rio escorre das nossas igrejas: um rio que leva vida e ou que produz morte naquele que dele bebe? Quantas pessoas chegam doentes a uma igreja e encontram no sacerdote, no pastor ou no líder da comunidade alguém tão ou mais doente do que elas, alguém que se aproveita das suas feridas e da sua carência para lhes oferecer não uma cura, mas um momento de compensação, por meio de carícias ou de uma relação sexual, atitude que abre uma ferida ainda mais profunda na pessoa? Sim! Cabe ressaltar que este tipo de atitude algumas vezes também se dá em consultórios de diversos profissionais da área da saúde.
Para a Sagrada Escritura, a verdadeira habitação de Deus é o corpo de cada ser humano (cf. 1Cor 3,16-17; Jo 2,21). Sabemos que um corpo sadio depende de uma mente sadia. Quantas pessoas estão com o corpo definhado, caminhando pelas ruas como “zumbis”, porque sua mente foi esburacada pelo crack? O que tem adoecido a mente de tantos adolescentes e jovens a ponto de sentirem prazer em fotografar ou filmar o próprio corpo nu e postar na internet? O que leva algumas pessoas casadas a exporem a parte mais íntima do seu corpo diante da câmera do computador, para a pessoa que está conectada com elas na internet possa se masturbar?       
        Se muitos de nós estamos aderindo a atitudes permissivas, o problema não se encontra do nosso pescoço para baixo, mas do nosso pescoço para cima. Nós trocamos a voz da nossa consciência pela voz da mídia, que reduz a sexualidade humana ao erótico. Essa mesma mídia se escandalizou há dois anos atrás, quando a atleta Lolo Jones (Olimpíadas de Londres-2012) declarou ser virgem aos 30 anos de idade. Sendo ridicularizada pelas colegas, ela afirmou que competia por medalhas e que, se quisesse fama, teria aparecido nua. “Eu não corro para ser a pessoa mais famosa do mundo. Se eu quisesse isso, (...) faria um vídeo de sexo ou algo assim para ganhar fama”, completou a atleta. Na mesma linha desta atleta, inúmeros jovens em diversos países estão aderindo a uma atitude de vida em relação ao namoro e à própria sexualidade chamada: EU ESCOLHI ESPERAR. Confira isso nos seguintes sites: http://euescolhiesperar.com/ e https://www.youtube.com/watch?v=YxwzEGY0jbc
Ao ver o Templo de Jerusalém profanado por comerciantes, Jesus usou de uma saudável e necessária agressividade para expulsar todos dali, com um chicote na mão e dizendo bem alto: “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2,16). Hoje essas palavras devem ser gritadas à consciência de pessoas “influentes” da nossa sociedade – alguns políticos, médicos, empresários, delegados, juízes etc., que pagam crianças e adolescentes para satisfazerem suas fantasias sexuais. Essas palavras também precisam ser gritadas à consciência de todos os líderes religiosos, muitos dos quais ornamentam suas casas e seus templos com ouro, prata, mármore, vitral, lustres etc., mas se mantém longe de pessoas cujos corpos estão violentados, subalimentados, consumidos pelo álcool e inúmeras outras drogas, pessoas desempregadas ou subempregadas, cuja referência de família se perdeu ou nunca existiu.
Algumas questões finais...
1) “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá... vós sois esse santuário” (1Cor 3,17). Como você está em relação à pornografia na internet, ou em relação à bebida, ao cigarro e a outras drogas?  Você pensa em tatuar ou já tatuou seu corpo? Que tipo de tatuagem você fez? Que sentido ela tem para você? Quanto tempo seu corpo fica paralisado/anestesiado diante de um computador ou de um celular, ao mesmo tempo em que você afirma não fazer nenhuma atividade física por falta de tempo?
2) “Tirai isso daqui!” (Jo 2,16). Que tipo de desintoxicação você precisa se dispor a fazer, não só em relação ao seu corpo, mas também em relação à sua alma, ao seu espírito, à sua vida emocional? Sugestão de música para sua oração: PURIFICA-ME (Tony Allysson) 
3) “O zelo (cuidado) por tua casa me consumirá” (Jo 2,17). Você dedica tempo para cuidar da sua vida espiritual da mesma forma como encontra tempo para cuidar do seu físico? Você ajuda a cuidar e a preservar o meio ambiente? Você faz algo para restabelecer a dignidade do corpo do seu próximo que, por estar desempregado, subempregado ou viciado nas drogas, definha a cada dia?  
4) “Haverá vida aonde chegar o rio” (Ez 47,9). Mentalize seu próprio corpo ou o corpo de alguém que está doente, violentado, faminto, explorado sexualmente ou escravo da dependência química das drogas. Clame a Deus, “fonte de água viva” (Jr 2,13), para que a Sua água escorra por este corpo, banhando cada célula, irrigando cada neurônio, para que onde ali houver morte, a vida possa renascer... 

Pe. Paulo Cezar Mazzi