quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"OLHARÃO PARA MIM A RESPEITO DAQUELE QUE ELES TRANSPASSARAM" (Zc 12,10)

Missa da Exaltação da Santa Cruz. Palavra de Deus: Números 21,4b-9; Filipenses 2,6-11; João 3,13-17.

            Suponhamos que você tenha perdido um filho num acidente de carro. Você colocaria na parede da sua sala um pedaço da lataria do carro que matou seu filho? Suponhamos que sua filha ou seu pai tenha se suicidado por enforcamento. Você colocaria na parede da sua sala a corda com a qual ela ou ele se enforcou? Isso não seria um absurdo, ou no mínimo, um terrível mau gosto? Pois é assim que algumas pessoas não católicas nos interpretam em relação ao fato de termos uma imagem de Cristo crucificado em nossa casa ou em nosso local de trabalho.
            Este dia da Exaltação da Santa Cruz nos leva a refletir sobre isso: por que ter uma imagem de Cristo crucificado quando Ele, na verdade, está ressuscitado e assentado à direita do Pai? Por que ter uma imagem do Filho de Deus morto, quando Ele está vivo? De fato, algumas igrejas cristãs não católicas também fazem uso da imagem da cruz, mas nunca com o Cristo morto nela. No entanto, uma profecia do livro de Zacarias nos ajuda a entender porque fazemos uso não somente da cruz, mas do Cristo crucificado: “Derramarei sobre a casa de Davi e sobre habitante de Jerusalém um espírito de graça e de súplica, e eles olharão para mim a respeito daquele que eles transpassaram... Naquele dia, haverá para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém uma fonte aberta, para lavar o pecado e a mancha” (Zc 12,10; 13,1).
    “Eles olharão para mim a respeito daquele que eles transpassaram (na cruz)”. A imagem do Cristo crucificado deve nos remeter ao Pai; deve nos fazer enxergar esta verdade: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único” (Jo 3,16); deu, no sentido de entregar, de permitir que Ele fosse entregue às mãos de homens que o crucificaram. Na cruz não está a imagem de um Deus morto, mas a imagem de um Deus que nos ama a ponto de “perder” seu Filho único para recuperar a cada um de nós, seus filhos adotivos. Na cruz está o valor de cada ser humano para Deus: “(...) não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou com ouro, que fostes resgatados... mas por sangue precioso...” (1Pd 1,18-19). Portanto, se você tem dúvida se vale alguma coisa, se sua existência é considerada por Deus, olhe para o Cristo na cruz... Se você não se sente amado(a) por ninguém, nem mesmo por Deus, olhe o Cristo na cruz e declare como o apóstolo Paulo: “Minha vida neste mundo eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou (numa cruz) por mim” (Gl 2,20).
            Enquanto alguns sentem repulsa da imagem do Cristo crucificado, outros reduzem o significado do crucifixo a um enfeite, a uma joia ou até mesmo a um amuleto. Jesus comparou a sua imagem na cruz com a imagem da serpente de bronze que Moisés levantou no deserto: “Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, ficava curado” (Nm 21,9). Quando olhamos para o Cristo ferido na cruz, para Aquele que se esvaziou de si mesmo, se humilhou e se fez obediente ao Pai até a morte de cruz (cf. Fl 2,7-8), nós podemos ser curados do veneno do orgulho, da arrogância, da autossuficiência. As feridas d’Aquele que nos amou até o fim (cf. Jo 13,1) nos curam da ferida que se abre em nós e na humanidade quando nos negamos a amar, porque amar dói e exige compromisso, presença, fidelidade até o fim.  
            A imagem de Cristo na cruz nos ensina a lidar com a nossa própria cruz e também a dar um sentido para ela. Quando estava chegando a hora de ir para a cruz, Jesus disse: “Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (Jo 12,27). Jesus sentiu, em relação à cruz, a mesma repulsa que qualquer ser humano sente. Mas ele submeteu sua repulsa humana à consciência de que cabia a Ele enfrentar aquele momento, e não fugir dele: “Foi precisamente para esta hora que eu vim”... Quando você está “entre a cruz e a espada”, quando está diante de um grande sofrimento por causa da sua fidelidade a Deus, perceba se você costuma fugir desta hora ou se tem a firmeza de caráter de assumir a sua cruz e de dizer como Jesus: “Foi precisamente para esta hora que eu vim”, isto é, cabe a mim enfrentar isso e não a outra pessoa...
            Uma última palavra: quando você se deparar com a imagem do Cristo crucificado, lembre-se de que Ele também espera que você não desvie o olhar dos crucificados do mundo de hoje, junto aos quais você precisa estar como um verdadeiro discípulo d’Aquele que te deu o exemplo de como lidar com a sua própria cruz e onde estar, quando seus irmãos estão fazendo a sua experiência de cruz... 

                                  Pe. Paulo Cezar Mazzi

           
Sugestão de música para a sua oração:

Eu entregarei (Dago Soares) 

Eu clamarei o poderoso sangue do Senhor sobre mim, e as cadeias que me cercam irão cair, e meu louvor cantarei! Eu lutarei, com a unção que o Senhor deu para mim. Nem as remotas situações vão resistir, não vão resistir.

Eu entregarei as dores que guardei aos pés da Tua cruz, e confiarei. Já não há o que temer! Por tuas chagas posso crer na vitória!

Eu clamarei...

Uma mesa farta o Senhor preparou, diante dos meus inimigos. Minha taça o Senhor transbordou, eu posso crer, eu posso ver!

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

LIGAR-SE OU DESLIGAR-SE DA COMUNIDADE?

Missa do 23º. dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 33,7-9; Romanos 13,8-10; Mateus 18,15-20.

            Existe hoje uma tendência ao isolamento, a querermos viver sozinhos. O motivo é que os relacionamentos estão cada vez mais complicados e viver com o outro torna-se sofrido, difícil. A melhor opção, portanto, é viver sozinho. E essa tendência ao isolamento, ao individualismo, essa tentação a nos sentirmos melhor sozinhos do que com os outros também cresce no meio de nós, cristãos, chamados a viver a nossa fé no seio de uma comunidade.
            Habituados com o individualismo, nós temos cada vez mais entendido a fé como algo estritamente pessoal, particular, a ponto de vermos a religião como uma questão entre nós e Deus, e não como uma questão entre nós, os irmãos e Deus. Embora Deus nunca venha a nós diretamente, mas sempre usando mediações, como a natureza, os acontecimentos e as pessoas, nós temos a pretensão de ir a Ele diretamente, sem nenhuma mediação, principalmente a mediação do irmão, muito menos do irmão com quem temos dificuldade em conviver.
            Antes de mais nada, convém perguntar: quem é o irmão? O irmão é toda pessoa com quem você não escolheu conviver, quando entrou numa comunidade, ou mesmo num ambiente de trabalho, mas que já estava ali ou que entrou ali depois de você. Essa pessoa, com quem você não escolheu conviver, ocupa o mesmo espaço que você, e embora ela seja diferente de você, também pode estar buscando o céu, assim como você. O que Jesus sublinha neste Evangelho é que, embora não escolhendo essa pessoa, você é chamado por Deus a conviver com ela e a vê-la não simplesmente como um alguém, mas como um irmão.
            Como a convivência é marcada por dificuldades, e como a comunidade que busca caminhar para o céu ainda não é ainda o céu, nós temos que lidar com o pecado do irmão, assim como ele tem que lidar com o nosso. Diante do erro do irmão, erro que nos atingiu diretamente ou atingiu a comunidade, Jesus nos desafia a corrigi-lo fraternalmente, como um irmão corrige outro irmão e não como um juiz julga e condena um culpado. A primeira tentativa é falar com ele a sós, evitando humilhá-lo diante de outras pessoas. Se isso não funcionar, devemos voltar a falar com ele, levando conosco algumas pessoas sensatas, que possam ajudar a “recuperar” o irmão. Se isso também não funcionar, devemos levar o problema à autoridade da comunidade, sempre na esperança de que o irmão possa reconhecer o seu erro. Se isso também não funcionar, a comunidade deve “separar” o irmão, a fim de que o remédio amargo desta separação sirva para fazê-lo repensar as suas atitudes e retornar para a comunidade com sua consciência e seu coração modificados.
            No v.18 Jesus explica o porquê dessa insistência em usar todos os recursos possíveis para corrigir o irmão: “tudo o que vocês ligarem na terra será ligado no céu e tudo o que vocês desligarem na terra será desligado no céu”. Religião significa religar. Nossas atitudes, dentro de uma comunidade, devem ser sempre em vista de religar as pessoas com Deus. Mais ainda, a vida comunitária é o lugar onde aprendo que eu não chego a Deus evitando o desafio de conviver com o irmão, com aquele que eu não escolhi, mas que Deus colocou no meu caminho como instrumento Seu para me ajudar a não ser deformado pelo individualismo. Portanto, quando eu decido me desligar do irmão, eu estou me desligando de Deus também.
            Se alguém ainda tem dúvida se é melhor viver a religião sozinho ou com os outros, Jesus afirma que quando a nossa oração é feita em comum, com outras pessoas, ela tem mais poder de chegar a Deus e ser por Ele atendida. Por quê? Porque o nosso maior intercessor junto do Pai é o próprio Jesus e Ele disse que “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20). Aqui fica claro que quando escolhemos nos ligar a Deus sozinhos, sem a mediação de uma comunidade, Jesus não está conosco. Portanto, o deus a quem nos ligamos é um ídolo, uma religião fabricada por nós mesmos, uma espiritualidade que não nos confronta com o irmão, com a mediação escolhida pelo verdadeiro Deus para se revelar a nós e para nos confrontar com a sua Palavra.
            Retornemos ao v.20: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20). Não são poucas as pessoas que, deixando de frequentar uma comunidade, escolhem viver a sua fé reunindo pessoas ocasionalmente em suas casas, formando “pequenas igrejas” ou “pequenos núcleos religiosos”, de preferência com vida independente das religiões tradicionais, institucionais. Jesus disse que estaria presente onde dois ou mais se reunissem “em meu nome”. Para esses pequenos grupos, e para todos nós, cristãos em geral, vale a pergunta: nós estamos nos reunindo com outras pessoas em nome de Jesus e do seu evangelho, evangelho que sempre nos confronta com o próximo, ou em nome da nossa dificuldade de aceitarmos correções vinda da comunidade institucional (igreja), em nome da nossa preferência por nos agrupar a pessoas que pensam como nós e que gostam das mesmas coisas que nós? 
            Em síntese, o recado do Evangelho é este: Jesus se faz sentir presente no seio de uma comunidade onde um se preocupa com a salvação do outro, ao passo que Sua presença não é sentida numa comunidade onde um não se importa com o outro (cf. Mt 18,18.20). 

                                                                      Pe. Paulo Cezar Mazzi



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

CRUZ: CONDIÇÃO OU OPÇÃO?

Missa do 22º. dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 20,7-9; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27.

            Os consultórios médicos, assim como os consultórios de psicólogos e psiquiatras estão cheios. Isto não é somente sinal de que estamos mais doentes hoje do que há tempos atrás, mas também sinal de que nós queremos nos livrar de um incômodo chamado dor, sofrimento, cruz. De preferência, que esse alívio seja rápido e instantâneo. Porém, vale lembrar que uma coisa é cuidar da nossa saúde, outra coisa é não aceitar nenhum tipo de dor; uma coisa é buscarmos a nossa felicidade, outra coisa é acharmos que felicidade e sofrimento não podem ocupar o mesmo espaço na existência humana.  
            “Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia... sofrer muito... devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (Mt 16,21). Quando Jesus usa a palavra “devia” está nos ensinando que lidar com a cruz não é uma opção, mas uma condição de todo ser humano, sobretudo de qualquer discípulo seu. Portanto, não se trata de escolher entre sofrer e não sofrer, mas de escolher a maneira de interpretar e de lidar com o sofrimento.
            Dentro de cada ser humano existe uma repulsa à dor. O nosso ego rejeita sofrer, rejeita ser ferido, humilhado, corrigido. Além disso, o que hoje também prejudica a nossa maneira de lidar com a dor, com a cruz é que nós estamos nos permitindo tomar a forma do mundo. Embora o apóstolo Paulo tenha nos advertido para não nos conformar com o mundo (cf. Rm 12,2), nós estamos cada vez mais adotando a forma como mundo entende que a vida deve ser: Só alegria! Só prazer! Nada de dor, de renúncia, de sacrifício. Nada de cruz! Com isso, desenvolvemos uma visão deformada da vida, da liberdade, da sexualidade, da família, do casamento, da religião, da fé e do próprio Deus...
            O próprio apóstolo Pedro tinha essa visão deformada, ao achar um absurdo Jesus dizer que devia sofrer muito e ser morto: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22). Quantos pais fazem de tudo para que seus filhos não sofram, para que sejam poupados de toda espécie de frustração? Mas o papel dos pais é “blindarem” seus filhos contra as dores e frustrações da vida, ou ensiná-los, desde pequenos, a lidarem com as dores e frustrações da vida? Crianças, adolescentes e jovens que crescem blindados contra a cruz serão sérios candidatos ao alcoolismo, às drogas e ao suicídio, quando tiverem que se deparar com dores e frustrações.
            Eis a resposta de Jesus a Pedro e a cada um de nós, que temos a expectativa de que Deus remova todas as pedras do nosso caminho, cure todas as nossas feridas, responda a todas as nossas perguntas e nos blinde contra todo o mal que existe no mundo: “Afaste-se de mim...! Você... não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” (Mt 16,23). Os homens pensam a vida a partir do seu próprio ego, e o ego sempre busca preservar-se, impor-se, fazer sua vontade, satisfazer seus caprichos. Deus pensa a vida a partir do amor, e o amor não se preserva, mas se doa; não se impõe, mas se propõe; não busca seus próprios interesses, mas o bem do outro; não vive de caprichos, mas vive de sacrificar-se por aquele que ama.
            Se existe um fracasso nosso em relação à cruz, ele se deve ao fato de pensarmos a vida segundo os homens e não segundo Deus; ao fato de que no centro da nossa vida nós estamos colocando a nossa vontade, os caprichos do nosso ego, e não a vontade de Deus. A única forma de lidarmos de maneira adulta com a cruz é renovar a nossa maneira de pensar e de julgar, para podermos distinguir claramente qual é a vontade de Deus a nosso respeito (cf. Rm 12,2). Se a nossa maior preocupação na vida for nos blindar contra o sofrimento, as dores e as frustrações, nós passaremos pela vida sem tê-la vivido de verdade.  
            Aqui fica o convite de Jesus para todo e qualquer ser humano: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Jesus respeita a nossa liberdade de escolha: Ele se propõe, não se impõe. Se queremos segui-Lo, o primeiro passo é a renúncia a si mesmo: renunciar ao seu ego, à sua vontade, aos seus caprichos, aos seus melindres. Renunciar a si mesmo significa dizer “não” a si mesmo, dizer “não” a uma falsa imagem de si; significa colocar no centro da sua vida a vontade de Deus e não a sua, lembrando-se de que “tomar a sua cruz” não consiste em procurar o sofrimento, mas em não fugir daquele sofrimento que é consequência de uma vida que procura viver segundo a vontade de Deus.

                                          Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

AS CHAVES, AS PORTAS E A ROCHA

Missa do 21º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 22,19-23; Romanos 11,33-36; Mateus 16,13-20.

            Na vida, nós precisamos de chaves; precisamos de uma chave para abrir, para ter acesso a algum lugar ou ao coração de alguém. Mas na vida nós também precisamos de uma chave para fechar, para nos proteger de alguém ou de algum perigo externo... Uma chave serve tanto para abrir quanto para fechar, tanto para nos ligar quanto para nos desligar de alguém ou de alguma situação. Na verdade, a chave não é somente um objeto. Ela pode ser uma palavra, um gesto ou uma atitude que tanto pode nos abrir quanto nos fechar em relação a alguém, tanto pode nos aproximar quanto nos manter afastados de uma pessoa.  
            Jesus disse a Pedro: “Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra, será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra, será desligado no céu” (Mt 16,19). Jesus também nos dá uma chave que se chama consciência, ou liberdade de escolha. Assim, a imagem das chaves se torna um questionamento para cada um de nós: Para o quê eu preciso me abrir? Para o quê eu preciso me fechar? Aquilo ao qual eu me ligo ou me conecto na terra está de fato me ligando ou me conectando ao céu?  Em Apocalipse 3,20 Jesus diz: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”. Estamos ouvindo a voz de Jesus em nossa consciência? Estamos abrindo a porta e permitindo que Ele entre em nossa casa, em cada cômodo, em cada área da nossa vida?
            As chaves também simbolizam respostas. Encontrar uma chave é encontrar uma resposta. Para muitas pessoas, Jesus é a resposta para todos os seus problemas, mas no Evangelho de hoje Ele se coloca como uma pergunta, primeiro no sentido impessoal – “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (Mt 16,13), depois no sentido pessoal – “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). O grande problema desta pergunta é que ela se desdobra numa outra: “Quais são as expectativas das pessoas em relação a mim? Qual é a sua expectativa em relação a mim? O que você espera de mim?”
            Muitos esperam que Jesus seja uma chave que lhes abra todas as portas. De fato, citando novamente o Apocalipse, Jesus diz: “Eis que pus à tua frente uma porta aberta que ninguém poderá fechar, pois tens pouca força, mas guardaste a minha palavra e não renegaste o meu nome” (Ap 3,8). Jesus pode, sim, abrir muitas portas para nós, mas tais portas são abertas na medida em que decidimos viver segundo a Sua palavra e não renegar a nossa fé. Além disso, a porta principal que precisamos que seja aberta não é a porta da prosperidade, nem a do sucesso, nem a da vitória, mas a porta da verdade que nos liberta (cf. Jo 8,32). 
              A pergunta sobre quem é Jesus para nós, isto é, sobre o que esperamos d’Ele, volta sempre, em cada fase da nossa vida, mas principalmente em cada experiência de dor, de sofrimento, de medo, de insegurança, de ameaça, de angústia, de solidão... Esta pergunta certamente surgiu em Paulo, quando se encontrava prisioneiro e sofrendo por causa do Evangelho, e ele, então, respondeu: “Eu sei em quem depositei a minha fé” (2Tm 1,12). Pedro também sabia em quem havia depositado a sua fé: em Jesus, “o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Esta fé de Pedro foi comparada por Jesus à firmeza de uma rocha. Isso significa que a rocha não é a nossa pessoa, mas a nossa fé, a mesma fé que nos reúne hoje aqui para que “na instabilidade deste mundo, fixemos o nosso coração onde se encontram as verdadeiras alegrias” (Oração do dia), a mesma fé que temos no Senhor que diz: “Hei de fixá-lo como estaca em lugar seguro” (Is 22,23). É a este Senhor que gritamos na oração e que aumenta no vigor da nossa alma (cf. Sl 138,3). A Ele suplicamos como o salmista: “Eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos” (Sl 138,8).
                 A mesma responsabilidade de ligar e de desligar que Jesus confiou a Pedro também confiou a cada membro da Igreja (cf. Mt 18,18). Portanto, examinemos a nossa conduta cristã, para não sermos merecedores dessas palavras: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque bloqueais o Reino dos Céus diante dos homens! Pois vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que querem!” (Mt 23,13). Por fim, lembremos que ser rocha não significa somente estar esclarecido e convencido da sua fé, mas também trabalhar para confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22,32). Que o nosso serviço em favor da Igreja ajude com que nossa comunidade se torne um “lugar seguro”, um lugar onde as pessoas possam passar de uma fé superficial para um relacionamento profundo com Deus, cuja Presença é como a Rocha: só pode ser sentida na profundidade da fé, compreendendo que só quando nos atrevemos a nos apoiar em Deus é que experimentamos que somos verdadeiramente amparados e sustentados por Ele.  

                                                                                                                                                                                   Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

DEFENDER-SE DO DRAGÃO COM O ESCUDO DA FÉ

Missa da Assunção de Nossa Senhora. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a.; 12,1.3-6a.10ab.; 1Coríntios 15,20-27a; Lucas 1,39-56.

          A vida é feita de lutas, de batalhas. Batalha-se para conquistar a pessoa amada, para fazer um curso superior, para conseguir um lugar no mercado de trabalho. Batalha-se pela família, pela manutenção do vínculo conjugal, pela educação dos filhos. Batalha-se pela própria santificação, pela superação de um vício, pelo rompimento com uma situação de pecado. Batalha-se contra uma doença, mas também batalha-se pela expansão do tráfico de drogas, pela expansão do próprio poder sobre os outros, pela destruição daqueles que são considerados inimigos. Batalha-se, sobretudo, pelo dinheiro e pelo poder. As batalhas são inúmeras: algumas justas, dignas, plenas de sentido; outras injustas, desumanas, sem nenhum sentido.
            João também nos fala de uma batalha que começa no céu e depois passa para a terra: a batalha entre uma mulher e um dragão. A mulher é a Igreja, o Povo de Deus; o dragão é o diabo (cf. Ap 12,9). Enquanto a mulher é apresentada “revestida de sol”, símbolo da luz divina (cf. 1Jo 1,5; Sl 104,2; Is 60,20), o dragão é descrito como “cor de fogo”, símbolo da morte (“assassino desde o princípio” – Jo 8,44). O objetivo do dragão é devorar o filho que a mulher vai dar à luz (cf. Ap 12,4).
            O que pode uma mulher contra um dragão? O que podem as nossas famílias contra as drogas e a violência? O que pode uma pessoa contra uma doença grave? O que pode um povo contra uma guerra motivada por interesses econômicos ou pelo fanatismo religioso? O que podem os recursos naturais contra a nossa cultura do desperdício? O que pode a consolidação da identidade sexual de uma criança, que se dá de 0 a 3 anos de idade, contra a cultura gay? O que pode o ideal de amar até o fim contra a cultura do descartável?
            O constante aumento do mal no mundo não é sinal de que nós nada podemos contra o dragão, mesmo porque a mensagem de Ap 12 é uma só: o dragão é um eterno derrotado – derrotado por Jesus (vs.4-6), pelo arcanjo Miguel (vs.7-8), pelos que creem em Jesus (v.11) e pela própria terra (v.16). Seu único poder consiste em derrubar “a terça parte das estrelas do céu”, ou seja, derrubar os cristãos menos firmes, seduzir e arrastar atrás de si algumas pessoas, sobretudo por meio da tentação do dinheiro e do poder. Portanto, o alastramento do mal no mundo nada mais é do que os gritos de desespero de um dragão que sabe que está próximo da sua derrota definitiva.
            Na sua primeira carta, o apóstolo Pedro diz: “Eis que o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que a mesma espécie de sofrimento atinge os vossos irmãos espalhados pelo mundo” (1Pd 5,8-9). A fé é a nossa resistência, o nosso escudo, a nossa arma para não sermos devorados pelo dragão. Por isso, Isabel disse a Maria: “Feliz aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,45). A fé nos faz experimentar o poder de Deus em nós e nas nossas famílias. Se Maria disse: “O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,49) é porque antes havia dito: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38). É pela nossa fé e nossa obediência à Palavra do Senhor que permitimos que Deus faça grandes coisas em nosso favor e em favor da nossa família.
Ao celebrarmos a Assunção, a elevação de Maria em corpo e alma ao céu, estamos reafirmando a nossa fé nesta promessa bíblica: se é verdade que “todos morrem”, também é verdade que “em Cristo todos reviverão”. Ele vai destruir todo poder do mal e colocar todos os seus inimigos debaixo de seus pés. “O último inimigo a ser destruído é a morte”, subentendendo-se também o dragão, seu autor (cf. 1Cor 15,22.24-26). Se agora estamos associados ao combate de Jesus contra o maligno, é para que depois estejamos associados à sua ressurreição quando, como aconteceu com Maria, formos elevados ao céu, meta final da nossa redenção, da nossa glorificação com Cristo.
           
P.S. Reflexão alternativa:

“Não sou escravo de ninguém. Ninguém senhor do meu domínio. Sei o que devo defender... Quase acreditei na sua promessa, e o que vejo é fome e destruição! Perdi a minha sela e a minha espada. Perdi o meu castelo e minha princesa... Existem os tolos e existe o ladrão. E há quem se alimente do que é roubo, mas vou guardar o meu tesouro, caso você esteja mentindo... Olha o sopro do dragão!... Esta é a terra-de-ninguém. Sei que devo resistir. Eu quero a espada em minhas mãos!... Não me entrego sem lutar. Tenho ainda coração; não aprendi a me render: que caia o inimigo então!... Tudo passa, tudo passará... E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar! E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer! Não olhe pra trás. Apenas começamos. O mundo começa agora. Apenas começamos...”

 (Legião Urbana, Metal contra as nuvens)

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

CONTRARIEDADES

Missa do 19º. dom. comum. Dia dos pais. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13a; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.

            Ninguém passa pela vida sem enfrentar contrariedades, assim como ninguém atravessa o mar da vida sem enfrentar ventos contrários. Mas, para que servem as contrariedades? Para que servem os ventos contrários? Não há uma resposta única. Algumas vezes, as contrariedades surgem para nos fazer colocar os pés no chão, para nos devolver o senso de realidade, para nos ensinar a encarar a vida como ela é. Outras vezes, as contrariedades surgem como uma forma de testar a nossa capacidade de perseverança, para verificar se temos um objetivo sério na vida e se estamos dispostos a lutar para alcançá-lo. Mas também é possível que as contrariedades e os ventos contrários sejam a forma que o maligno encontra para nos fazer desistir dos nossos ideais, abrindo mão dos nossos valores e nos desviando da meta da nossa salvação.
            A forma como lidamos com os ventos contrários ou com as contrariedades da vida está ligada à nossa fé; mais especificamente, à imagem que temos de Deus. Para quem imagina Deus como um Pai que superprotege o filho e que está ali para preservá-lo de todo tipo de frustração, os ventos contrários são motivo suficiente para se revoltar contra Deus e para abandonar a fé. Mas, para quem imagina Deus como um Pai que deseja que seu filho cresça, se torne forte e capaz de encarar a vida com a cabeça erguida, os ventos contrários são sempre uma oportunidade de crescimento e de fortalecimento da sua fé.
            Os ventos contrários têm um rosto bem concreto: é a economia que não anda bem, o desemprego ou a ameaça dele, as doenças e as guerras, os ataques contra a família, a inversão de valores, a violência dentro e fora de casa, as drogas, as pessoas que nos perseguem em nosso ambiente de trabalho, o jogo de cartas marcadas em alguns concursos públicos etc. Enquanto algumas pessoas ainda resistem a esses ventos e procuram manter o rumo da barca da sua vida, outras acharam mais fácil deixar de remar, deixar de lutar, e se permitiram serem arrastadas pelo vento...   
            No meio da noite, da escuridão, da tempestade, os discípulos viram Jesus andando sobre o mar agitado, vindo ao encontro deles. Era “pelas três horas da manhã...” (Mt 14,25). Para alguns cristãos, a oração das três horas da tarde é a oração das causas difíceis, enquanto que a oração das três horas da manhã é a oração das causas impossíveis. Quando nos parece impossível atravessar os ventos contrários e prosseguir com a nossa vida, Jesus nos diz: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27). ‘Coragem! Eu estou com você nesta travessia. Não desista! Não se curve diante do vento!’
            O problema é que nós temos uma dificuldade enorme em ouvir Deus nos falar no meio da nossa tempestade. De fato, ao narrar o encontro de Elias com Deus, a Escritura afirma que “o Senhor não estava no vento... não estava no terremoto... não estava no fogo...” (1Rs 19,11-12). Mas o livro de Jó nos ensina que Deus também fala conosco no meio das nossas tempestades (cf. Jó 38,1). Assim como aconteceu com Elias, nós não vamos encontrar Deus na agitação das nossas emoções, mas somente quando o nosso coração silenciar, a ponto de ouvir “o murmúrio de uma leve brisa” (1Rs 19,12-13a).
            Uma árvore que cresce enfrentando ventos contrários tem o seu tronco fortalecido e suas raízes fincadas no mais profundo da terra. Por isso, ela dificilmente tomba quando os ventos sopram contra. Se não queremos tombar diante das contrariedades da vida, precisamos ter nossas raízes fincadas em Deus, o que significa desenvolver um relacionamento com Ele marcado pela profundidade e não pela superficialidade.
            Hoje comemoramos o dia dos pais e a abertura da Semana Nacional da Família. Por isso, “dobramos os nossos joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família no céu e na terra, para pedir-lhe que conceda que nossas famílias sejam fortalecidas em poder pelo Espírito Santo..., que Cristo habite pela fé em nossos corações e que nossas famílias sejam enraizadas e fundadas no amor” (citação livre de Ef 3,14-17). Que cada membro da nossa família, em especial o pai, não se deixe afundar no mar tempestuoso deste mundo, mas saiba gritar como Pedro: “Senhor, salva-me!” (Mt 14,30).
            É verdade que muitas famílias e muitos pais estão afundando nos seus problemas, nos seus erros, na sua falta de direção, porque se deixaram arrastar pelos ventos contrários, mas Jesus está ao lado de cada família, com sua mão estendida, para nos lembrar que o nosso verdadeiro inimigo não são os ventos contrários, mas a nossa falta de fé, o nosso desânimo, a nossa desistência em remar contra a corrente, mantendo a barca da nossa vida e da nossa família no rumo certo. Agarremo-nos às mãos de Jesus, que está acima de todo poder maléfico, e nos deixemos salvar por Ele. 
   Sugestão de música para sua oração: https://www.youtube.com/watch?v=uHNmtQBM8Fo 

                                                                                                                                                                      Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

DO DESPERDÍCIO PARA A DOAÇÃO; DA INDIFERENÇA PARA A COMPAIXÃO

Missa do 18º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,1-3; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21.

            Todo ser humano sente fome, porque todo ser humano depende de “algo” que está fora dele para viver. A fome nos diz que ninguém de nós é autossuficiente e que nós precisamos uns dos outros para viver. O alimento que sacia a nossa fome só chega à nossa mesa porque inúmeras pessoas que nunca iremos conhecer trabalharam para que a nossa fome fosse saciada.
            Mas a fome que o ser humano carrega dentro de si não é só de pão. A própria Escritura diz: “O homem não vive somente de pão” (Dt 8,3; Mt 4,4). Alguns têm fome de justiça, outros têm fome de paz; alguns têm fome de saúde, de alegria, de esperança; outros têm fome de um lugar no mercado de trabalho; alguns têm fome de perdão; outros têm fome de se sentirem amados. Da mesma forma, assim como existem crianças e adultos subnutridos, existem também crianças e adultos bem alimentados, mas “subnutridos” no que diz respeito à educação, à maneira de tratar os outros, à falta de sensibilidade para com a dor dos outros...
             “Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14,14). Mesmo entristecido pela morte de João Batista, mesmo necessitando ficar sozinho para digerir a sua dor, a sua tristeza, Jesus deixou-se afetar pela dor daquela grande multidão. Essa atitude de Jesus nos diz que, apesar do nosso cansaço, da nossa tristeza ou da nossa dor, sempre haverá espaço em nosso coração para a compaixão. Compaixão significa deixar-se afetar pelo sofrimento do outro; sofrer com ele; acolher o outro dentro de si. Dois exemplos concretos: Nos últimos dias, temos visto nos noticiários inúmeras pessoas que se mobilizam para socorrer os feridos de guerra na faixa de Gaza, assim como tantas outras pessoas se encontram na África, neste momento, lutando para socorrer os atingidos pela epidemia do vírus Ebola. São exemplos que nos ajudam a entender que a compaixão não é apenas um sentimento, mas uma reação, uma atitude nossa diante do sofrimento de alguém.  
            No entanto, nós temos a tendência a agir como os discípulos, que disseram a Jesus: “Despede as multidões...” (Mt 14,16), ao que Jesus respondeu: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Se Jesus nos manda dar de comer a quem tem fome, é para nos lembrar de que o problema da fome não é a falta de alimento, mas o desperdício de alimento. “O Brasil é o quarto produtor mundial de alimentos (Akatu, 2003), produzindo 25,7% a mais do que necessita para alimentar a sua população (FAO). De toda esta riqueza, grande parte é desperdiçada. Segundo dados da Embrapa, 2006, 26,3 milhões de toneladas de alimentos ao ano tem o lixo como destino. Diariamente, desperdiçamos o equivalente a 39 mil toneladas por dia... De acordo com o caderno temático “A nutrição e o consumo consciente” do Instituto Akatu (2003), aproximadamente 64% do que se planta no Brasil é perdido ao longo da cadeia produtiva: 20% na colheita; 8% no transporte e armazenamento; 15% na indústria de processamento; 1% no varejo; 20% no processamento culinário e hábitos alimentares” (http://www.bancodealimentos.org.br/o-desperdicio-de-alimentos-no-brasil/). Isso nos faz lembrar as palavras do Papa Francisco, “A comida que se joga fora é como se fosse roubada aos pobres”.
            O desperdício de comida no Brasil mostra que não é verdade que “só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). Assim como é verdade que no Brasil não faltam recursos – o que falta é vontade política, assim também é verdade que não nos faltam recursos para agir com compaixão para com quem sofre – o que nos falta é vontade; o que nos falta é olhar a vida para além do nosso umbigo ou da tela do nosso celular; o que nos falta é tirar os fones de ouvido, ainda que seja por um momento, para ouvir o pedido de socorro de pessoas à nossa volta; o que nos falta é nos permitir sentir um saudável sentimento de culpa pela fome que também existe perto de nós.
            Aquilo que aos olhos dos discípulos era insuficiente para saciar a fome de toda aquela multidão Jesus tomou nas mãos, “ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção” (Mt 14,19), gesto que lembra as palavras do Salmo 145,15-16: “Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam e vós lhes dais no tempo certo o alimento; vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura”. Os cinco pães e os dois peixes nos dizem que Deus nos dá diariamente os recursos de que precisamos para nos ajudar mutuamente, para resolvermos os nossos problemas, inclusive dentro de casa, no relacionamento com as pessoas. Na verdade, não falta pão, falta doação; falta a vontade de tomar a decisão de “partir” e de “distribuir” aos outros aquilo que temos a tendência de guardar somente para nós.  
            Através do profeta Isaías, Deus faz um convite “estranho” à humanidade: ‘Quem está com sede, quem está com fome, venha, coma e beba sem dinheiro, sem ter que pagar’ (cf. Is 55,1). As expressões “sem dinheiro” e “sem ter que pagar” significam que a salvação que Deus oferece é um dom gratuito de d’Ele a todo ser humano. Deus é generoso em nos doar a salvação por meio de seu Filho Jesus, uma generosidade tão grande que o apóstolo Paulo afirma que em todas as dificuldades que passamos podemos nos considerar vencedores “graças àquele que nos amou!” (Rm 8,37), tendo a certeza de que nada “será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39).
            Neste primeiro domingo do mês vocacional, rezamos pelo ministério ordenado – diáconos, padres e bispos. Jesus nos ensinou a pedir ao Pai que não deixe faltar servidores para o anúncio do Evangelho (cf. Mt 9,37-38). Lembrando o exemplo de Abraão (cf. Gn 12,1ss), de Ana (cf. 1Sm 1,28), da viúva de Sarepta  (1Rs 17,12), de Pedro, André, Tiago e João (cf. Lc 5,11), Dom Pedro Brito afirma que “estes e tantos outros amigos e amigas de Deus, não foram mesquinhos na hora de partilhar e doar... Deram de sua pobreza e experimentaram o quanto Deus agracia um coração generoso. Deus não deixa faltar nada para aquele ou aquela que está disposto a repartir”. Portanto, conclui Dom Pedro, “o que está faltando não é somente vocação e sim doação”. 

                                                     Pe. Paulo Cezar Mazzi