quinta-feira, 23 de maio de 2019

NÃO DEFENDER-SE DA VIDA, MAS SIM DAQUILO QUE NOS INTIMIDA PERANTE A VIDA


Missa do 6º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 15,1-2.22-29; Apocalipse 21,10-14.22-23; João 14,23-29.

            O ventre da mãe que ama o filho que está gerando é um lugar confortável e seguro, mas chega o momento em que o filho precisa deixar o conforto e a segurança do ventre materno e vir ao mundo, para percorrer o caminho que foi chamado a percorrer e realizar a missão para a qual foi chamado à existência. Enquanto a indústria da propaganda e do consumo, associadas à tecnologia, nos vendem produtos que prometem tornar a nossa vida sempre mais confortável, os psicólogos e palestrantes sobre motivação e liderança nos ensinam que, se quisermos crescer, temos que sair da nossa “zona de conforto”, pois ela é o maior obstáculo ao nosso amadurecimento humano e espiritual.
            Jesus está se despedindo dos seus discípulos. Ele vai voltar ao Pai e de lá enviar o Espírito Santo à sua Igreja. Justamente por ser um momento difícil para os discípulos, Jesus lhes diz: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,27). É como se Jesus nos dissesse: ‘Eu escolhi e formei vocês como meus discípulos não para ficarem perturbados e intimidados pelos conflitos que terão que enfrentar no mundo, mas justamente para que vocês encarem a realidade e enfrentem os desafios como pessoas que estão abertas ao crescimento, ao amadurecimento, como pessoas que desejam viver a vida com realismo, intensidade e profundidade, e não fugir dela’. O discípulo de Jesus não é alguém alienado, que vive uma espiritualidade que o afasta da realidade e que o mantém distante do sofrimento das pessoas à sua volta; pelo contrário, o discípulo de Jesus é alguém que se deixa questionar pela realidade para perceber nela o que Deus está lhe dizendo e realizar plenamente a sua missão.
            Por mais estranho que pareça, Jesus está dizendo aos discípulos que chegou a hora de fazer uma inversão. Até agora, eles estavam sendo gestados no coração do Pai e do Filho, mas a hora do parto está chegando e ela trará uma mudança importante: o Pai e o Filho passarão a habitar o coração dos discípulos por meio do Espírito Santo, capacitando-os assim para a missão. É por isso que Jesus diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Deus não quer apenas estar perto de nós ou junto a nós; Ele deseja habitar em nós, morar em nosso coração, no coração de cada ser humano. E quando o Pai e o Filho habitam no coração humano, ele se torna pleno de paz.  
            “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo” (Jo 14,27). A paz que o mundo nos promete depende de inúmeras condições externas: se tivermos saúde e dinheiro, se formos notados e valorizados pelos outros, se não tivermos dificuldades ou obstáculos, se não houver inimigos a combater e problemas a resolver, só então experimentaremos paz. Mas a paz de Jesus não depende de nenhuma circunstância externa; ela é fruto da harmonia interna conosco mesmos, com a nossa verdade e com a vontade de Deus. Santo Agostinho dizia que o nosso coração foi feito para Deus e só achará paz quando estiver em Deus. Quando o Pai e o Filho habitam em nós, nenhum acontecimento externo tira a nossa paz, mesmo porque o Pai e o Filho nos orientam e nos fortalecem diante dos desafios que a vida nos apresenta. Além disso, lembremos do discernimento de Santo Inácio de Loyola a respeito da paz: sempre que alinhamos o nosso coração à vontade de Deus, nos sentimos em paz; sempre que nos afastamos da vontade de Deus, a paz vai embora e no lugar dela vêm a perturbação, a inquietação, a ansiedade e o medo.  
            O Tempo Pascal caminha para o seu final e se encerrará com a festa de Pentecostes, na qual se deu a vinda do Espírito Santo. Por isso, hoje acolhemos com alegria esta promessa de Jesus: “o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito” (Jo 14,26). Jesus chama o Espírito Santo de “Defensor”, no sentido de que Ele estará sempre ao nosso lado nas lutas do dia a dia, orientando-nos, protegendo-nos, fortalecendo-nos. Aqui é oportuno recordar a palavra do apóstolo Paulo a Timóteo: “Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de autodomínio” (2Tm 1,7). Justamente porque não é um espírito de medo, mas de força, o Defensor que Jesus nos prometeu não nos defenderá daquilo que temos que enfrentar, mas nos encherá de coragem e nos lançará para frente, para superarmos os obstáculos e continuarmos em nosso caminho de crescimento, de amadurecimento, de libertação e de santificação.   
Todo ser humano, mas sobretudo todo cristão, tem um combate a combater, e não se trata apenas de um combate em vista da sobrevivência neste mundo, mas em vista do fortalecimento da nossa fé e dos nossos passos no caminho da salvação. Justamente porque a nossa luta é espiritual, nosso Defensor é o Espírito de Deus. Ele nos ensinará aquilo que ainda temos que aprender – e nós sempre temos o que aprender! – e também nos recordará tudo aquilo que Jesus já nos ensinou, para que em cada situação possamos agir como Jesus agiria se estivesse em nosso lugar.   
Foi justamente no momento em que nos ensinou a oração do Pai nosso que Jesus afirmou: “o Pai dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13). Sendo assim, nós oramos: ‘Pai, em nome de teu Filho Jesus, pedimos a presença do Espírito Santo junto a nós, junto a todo ser humano, especialmente junto a cada coração que se encontra perturbado e intimidado diante dos problemas, das angústias, das incertezas e das ameaças do mundo atual. Confirma a graça do Teu Espírito em nós! Divino Espírito Santo, vem com a Tua força socorrer a nossa fraqueza. Tu és o nosso Defensor! Defende-nos do inimigo espiritual, que combate contra a nossa fé. Defende-nos de nós mesmos, do nosso medo, da nossa covardia, da nossa indiferença e da nossa acomodação egoísta. Defende-nos do pecado, da infidelidade, da desonestidade, da corrupção e da perda de sentido da vida. Defende-nos da violência, das guerras, da fome, do desemprego, das drogas e das doenças... Em nome de Jesus, que nos prometeu a Tua vinda, amém!     

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 16 de maio de 2019

SÓ O AMOR NOS SALVARÁ

Missa do 5º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 14,21b-27; Apocalipse 21,1-5a; João 13,31-33a.34-35.

            “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus disse essas palavras num discurso de despedida dos discípulos, como se dissesse: ‘Cuidem da essência de vocês! Cuidem daquilo que é essencial na Igreja que eu construí a partir de vocês! Cuidem de não perder a identidade de vocês! Muita coisa mudará ao longo dos anos, ao longo dos séculos; muita coisa mudará na humanidade, no mundo e na própria Igreja, mas uma coisa não pode mudar, não pode se perder: a essência de vocês como meus discípulos. Amem os outros como eu amei vocês!’.
            Antes de nos esforçarmos em viver o mandamento do amor, precisamos compreender melhor o que é o amor. “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos seu Filho... E nós temos reconhecido o amor de Deus por nós e nele cremos” (1Jo 4,10.16). João nos revela que a nossa existência não se deve tanto ao amor entre um homem e uma mulher – muitos não foram gerados de um ato de amor – mas se deve ao Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8). O amor de Deus estava à nossa espera antes de virmos a este mundo, e esse mesmo amor estará à nossa espera depois que deixarmos este mundo. Também o livro da Sabedoria afirma: “Sim, tu amas tudo o que criaste, (...) se alguma coisa tivesses odiado, não a terias feito” (Sb 11,24).
            A essência de Deus é amor e nós fomos criados à sua imagem e semelhança. Quando desistimos de amar, traímos nossa essência, adoecemos e começamos a morrer. É por isso que João afirma: “Aquele que não ama permanece na morte” (1Jo 3,14). Aquele que não ama ainda não ressuscitou. O problema não é que não existe amor em nós; o problema é que o nosso amor é frágil, inconsistente, um amor que se desfaz com facilidade, como o próprio Deus afirma: “O amor de vocês é como a neblina da manhã, como o orvalho que rapidamente desaparece” (Os 6,4). Diante de uma experiência de traição, de decepção, de não correspondência das nossas expectativas, de não retorno do nosso investimento, nós desistimos de amar. Nos esquecemos de que “amar não é um sentimento, mas uma decisão, uma escolha” (Santa Edith Stein), e não existe amor sem dor.  
            Não existe amor sem dor. Paulo e Barnabé procuravam encorajar as pessoas do seu tempo “a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: ‘É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus’” (At 14,22). Por causa da maldade e da violência que existem no mundo, muitas pessoas estão deixando de crer e de amar. Está se tornando cada vez mais difícil encontrar pessoas que ainda decidam e queiram amar. Mas aqui precisamos lembrar as palavras do apóstolo Paulo: “Se eu não tivesse amor, nada seria... O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,2.7). Da mesma que Jesus amou seus discípulos até o fim (cf. Jo 13,1), nós também somos chamados a amar: até o fim. Além disso, o que movia o amor de Jesus não era o merecimento, mas a necessidade da pessoa. O amor ama preferencialmente aquele que sofre. É o sofrimento do meu irmão que me leva a amá-lo de maneira mais intensa e profunda.     
            Voltemos novamente a olhar para o amor de Deus. No livro do profeta Isaías há uma afirmação importante a respeito de como Deus escolheu e decidiu nos amar: “Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, porém meu amor não mudará” (Is 54,10). Muitas certezas que tínhamos ontem desapareceram; muitos sonhos e muitas esperanças que ontem nos animavam, evaporaram-se. Muita coisa pode ter mudado ao longo da nossa vida, mas há uma certeza que jamais mudará: o amor de Deus por nós, pela humanidade, por cada ser humano. É sobre a rocha dessa certeza inabalável que precisamos construir a nossa existência e nos unir a Deus na construção de um mundo novo, apresentado por João no livro do Apocalipse.
            Num momento de forte perseguição para a Igreja e para os cristãos, Jesus ressuscitado concedeu a João uma visão, testemunhada por ele nessas palavras: “Vi um novo céu e uma nova terra... Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus... Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens... Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, porque passou o que havia antes... Eis que faço novas todas as coisas’” (Ap 21,1.2.3.4.5). Aqui entendemos porque o apóstolo Paulo afirmou que “o amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,2.7): ele está assentado sobre essas palavras do Apocalipse, “dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5), conforme o Senhor ressuscitado disse a João. Enfim, lembremos de que o mesmo Jesus que nos convida a amar as pessoas como ele nos amou, também nos fez um alerta: “A maldade crescerá a tal ponto que o amor de muitos se esfriará. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,12-13). Só o amor nos salvará.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 


Frases de Madre Teresa de Calcutá sobre o amor

O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.

É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado.

A falta de amor é a maior de todas as pobrezas.

Não é o que você faz, mas quanto amor você dedica no que faz que realmente importa.

O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

ÀS MÃOS DE QUEM EU ME CONFIO A CADA DIA?

Missa do 4º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 13,14.43-52; Apocalipse 7,9.14b-17; João 10,27-30.

            Quem conduz você? Por quem ou pelo quê você se deixa conduzir no mundo de hoje? Na verdade, nós não gostamos de “ser conduzidos”. Por nos julgarmos pessoas autônomas e livres, queremos nos conduzir por nós mesmos. No entanto, a liturgia deste quarto domingo da Páscoa nos fala de Jesus como nosso Pastor e de nós mesmos como ovelhas do seu rebanho, e a imagem da ovelha remete para uma verdade que precisamos admitir: todos nós buscamos uma direção, todos nós precisamos de algo ou de alguém que nos conduza, sobretudo neste tempo de grande desorientação em que vive a humanidade. Desse modo, cada um de nós poderia fazer sua esta súplica que o salmista dirige a Deus: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176).  
            O Pai enviou seu Filho como modelo de verdadeiro e bom Pastor, aquele que veio curar a ovelha que está doente, procurar e salvar aquela que se encontra perdida, trazer de volta aquela que se desgarrou do rebanho, proteger aquela que está em perigo, corrigir aquela que está se comportando de maneira inconsequente, até mesmo quebrando sua pata, se for necessário, para que aprenda a ficar junto do Pastor e pare de se expor desnecessariamente a situações de risco. Mas o próprio Jesus deixa claro que só existe uma coisa que liga a ovelha ao Pastor: escutar e obedecer a sua voz: “As minhas ovelhas escutam a minha voz” (Jo 10,27).   
            Escutar Jesus no Evangelho pode parecer algo fácil, mas não é, sobretudo quando sua Palavra denuncia as nossas atitudes injustas, nos torna conscientes dos nossos erros ou vai contra os nossos interesses mundanos. A experiência de Paulo e Barnabé em Antioquia da Pisidia revelou isso: enquanto muitos judeus rejeitaram a pregação deles e se tornaram indignos da vida eterna (cf. At 13,46), muitos pagãos acolheram a Palavra, de modo que Lucas, autor dos Atos, afirma: “todos os que eram destinados à vida eterna, abraçaram a fé” (At 13,48). Portanto, quando não damos ouvidos à voz de Jesus, nosso Pastor, acabamos por nos excluir da vida eterna.
            Muitas igrejas estão sofrendo hoje uma crise muito séria, quando se trata da figura do pastor. Muitos pastores deixaram de lado o ideal de se configurarem a Jesus, o Bom Pastor, e acabaram se tornando ladrões, assaltantes ou mercenários (cf. Jo 10,1.12-13), isto é, pastores que têm como interesse principal não o bem das ovelhas, mas enriquecer-se desonestamente às custas da ingenuidade religiosa delas. Outros se tornaram “guias cegos”, pastores desorientados internamente, alguns viciados em bebida ou em droga; outros, viciados em jogos ou em pornografia. São autoridades moralmente desautorizadas, homens incapazes de conduzir pessoas para Deus porque nem eles mesmos se esforçam por viver em Deus: além de não terem vida de oração séria e profunda, não se esforçam por viver aquilo que pregam aos outros. Por fim, existem os pastores vagabundos, aqueles que estão sempre “muito atarefados em não fazer nada” (2Ts 3,11). Se não cuidam com zelo e dedicação das ovelhas que ainda estão junto deles, imagine se eles se darão ao trabalho de irem atrás daquelas que estão afastadas!    
            Contudo, diante da atual crise de bons e verdadeiros pastores, precisamos tomar cuidado para não jogar fora o bebê junto com a água do banho. Neste sentido, creio que as palavras do Pe. Pagola podem nos ajudar: “Que nós estejamos em crise, não significa que Deus está em crise. Que muitos cristãos tenham perdido o ânimo, não quer dizer que Deus tenha ficado sem forças para salvar. Que nós não saibamos dialogar com o homem de hoje, não significa que Deus não encontre caminhos para falar ao coração de cada pessoa. Que algumas pessoas se afastem das nossas igrejas, não quer dizer que elas não possam ser alcançadas pelas mãos protetoras de Deus. Deus é Deus. Nenhuma crise religiosa e nenhuma mediocridade da Igreja poderão arrancar das suas mãos os filhos e filhas que ele ama com amor infinito. Deus não abandona ninguém. Ele tem seus caminhos para cuidar e guiar cada um dos seus filhos, e seus caminhos não são necessariamente aqueles que nós pretendemos traçar”.
            Jesus deixa claro que, como verdadeiro Pastor, ele vigia, guia e protege cada ovelha do rebanho que o Pai lhe confiou: “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai” (Jo 10,28-29). No meio desse imenso rebanho que é a humanidade, é cada vez mais perceptível a presença de lobos, isto é, de pessoas e de situações que ameaçam a nossa vida. Nunca como hoje temos sentido tanto medo, tanta insegurança, tão ameaçados. Nosso nível de ansiedade – sentimento de ameaça, de que algo ruim vai nos acontecer – está cada vez mais alto. Mas, assim como Paulo disse a Timóteo: “sei em quem coloquei a minha fé” (2Tm 1,12), nós precisamos dizer: ‘sei nas mãos de quem eu confiei a minha vida’.
            É muito confortadora esta verdade: o Pai confiou cada um de nós às mãos de seu Filho, e ninguém pode nos arrancar das mãos de Jesus. Isso é confirmado pelo livro do Apocalipse: “E aquele que está sentado no trono os abrigará na sua tenda. Nunca mais terão fome, nem sede. Nem os molestará o sol, nem algum calor ardente. Porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida” (Ap 7,15-17). Contudo, se é verdade que nenhum acontecimento ruim, nenhum problema e nenhuma pessoa pode nos arrancar das mãos de Jesus, também é verdade que algumas pessoas, ao invés de se confiarem às mãos de Jesus, estão se confiando a mãos erradas, permitindo que pessoas e situações as adoeçam, as machuquem e as levem para a destruição e morte... Cada ovelha é livre para escolher a quais mãos confiar-se...
            Uma verdade precisa ser recuperada e meditada neste Evangelho: “Meu Pai é maior do que todos, e ninguém pode arrancar pessoa alguma das mãos do Pai” (citação livre de Jo 10,29). Precisamos não ser ingênuos diante dessa afirmação de Jesus: basta nos confiar ou confiar aqueles que amamos às mãos do Pai e do Filho e nada de mal acontecerá. Quantas vezes, na oração, confiamos às mãos do Pai e do Filho pessoas que amávamos, mas elas foram arrancadas de nós através de uma doença, de um acidente ou da violência cega dos lobos que intimidam e controlam até mesmo as autoridades em nosso País? As mãos do Pai e do Filho nunca vão anular o fato de que, enquanto estivermos neste mundo, sempre seremos cordeiros vivendo no meio de lobos, e o perigo maior não é o de sermos atacados por algum lobo, mas o de nos transformarmos em lobos por uma questão de sobrevivência.
            “Meu Pai é maior do que todos”. Deus é maior que tudo o que nos acontece. Ele nos confiou aos cuidados de Jesus, o Bom Pastor. Ainda que passemos pelo vale escuro da morte, ainda que sejamos machucados por algum lobo, não devemos temer, pois o bastão e o cajado do nosso Pastor nos protegerão, nos defenderão e nos darão segurança para continuarmos o nosso caminho rumo aos prados da vida eterna (cf. Sl 23,4; Ap 7,17). Enfim, que a nossa comunidade se configure ao Bom Pastor, dispondo-se a ir atrás de cada ovelha que se afastou ou se perdeu, para trazê-la de volta (cf. Mt 18,12-14), pois “não é da vontade do vosso Pai, que está nos céus, que um desses pequeninos se perca” (Mt 18,14).

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 2 de maio de 2019

SE SEU AMOR NÃO FOR ATUALIZADO, VOCÊ MUDARÁ SUAS ESCOLHAS

Missa do 3º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 5,27b-32.40b-41; Apocalipse 5,11-14; João 21,1-19.

            Houve um dia em que você se encantou por alguém, por algum sonho, por um projeto de vida, por uma vocação ou profissão, ou, quem sabe, por Deus, por Jesus, pela causa do Evangelho. Mas, com o passar do tempo, pode ser que inúmeros acontecimentos tenham esfriado seu amor, seu entusiasmo, de modo que o seu encanto, aos poucos, transformou-se em desencanto, e hoje você se pergunta: Vale a pena continuar? Por que continuar? Ainda existe sentido na escolha que eu fiz, na decisão que eu tomei, na resposta que eu dei ao chamado de Deus?   
            Algo estranho acontece no Evangelho de hoje com Pedro e alguns outros discípulos de Jesus. Eles decidem ir pescar, mas, durante aquela noite, não apanham nenhum peixe. Quando o dia amanhece, Jesus está “de pé na margem”, e o evangelista indica aqui dois sinais da ressurreição: o fato de Jesus estar de pé e de o dia ter amanhecido, uma referência à luz da ressurreição. E Jesus lhes pergunta: “Moços, vocês têm alguma coisa para comer?” (Jo 21,5). Essa pergunta de Jesus hoje é dirigida a cada um de nós: ‘Como você tem alimentado sua vocação, seu sonho, seu projeto de vida, seu relacionamento...?’ Alimentar tem a ver com cuidar, com manter vivo. Tudo aquilo que não cuidamos, não alimentamos, morre de desnutrição, morre por descuido; não tem como sobreviver.
            Essa cena da terceira aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos nos remete para o início de tudo, para a vocação dos quatro primeiros discípulos, que também vivenciaram uma situação semelhante de fracasso, mas que viram tudo mudar ao obedecerem à palavra de Jesus (cf. Lc 5,5-6). E agora, o Senhor ressuscitado lhes dá novamente uma palavra que transforma o seu fracasso em sucesso: “Lancem a rede à direita da barca e vocês encontrarão” (Jo 21,6). Essa pesca fracassada dos discípulos pode significar duas coisas: ou eles abandonaram o ideal do Evangelho, após a morte de Jesus na cruz, ou estão fazendo o seu trabalho de evangelização sem deixar-se orientar pela palavra do Senhor ressuscitado, como se tudo funcionasse automaticamente: Jesus ressuscitou, nós fomos enviados por ele a pescar homens (cf. Lc 5,10), isto é, a salvar pessoas da morte, e nossas redes se encherão de peixes sempre que forem lançadas ao mar.
            É verdade que a tecnologia nos oferece aparelhos que funcionam automaticamente, mas as nossas escolhas, as nossas decisões, os nossos sonhos, os nossos relacionamentos e, sobretudo, a nossa fé, não são assim; são valores que pedem para ser atualizados, e se não o forem, perderão o sentido para nós. Muitas pessoas que ontem estavam casadas, hoje estão separadas; muitos relacionamentos que pareciam eternos, dissolveram-se rapidamente; muitas pessoas que ontem professavam uma fé, hoje estão professando outra; muitas pessoas que ontem tinham fé, hoje não têm mais; muitas pessoas que ontem escolheram consagrar sua vida a Deus e à causa do Evangelho, hoje não veem mais sentido em manter essa escolha.
            É aí que entra o diálogo de Jesus ressuscitado com Pedro. O apóstolo Paulo afirma que “os dons e o chamado de Deus são sem arrependimento” (Rm 11,29). Jesus jamais se arrependeu de escolher e chamar aqueles discípulos e a cada um de nós. Mas ele, a cada manhã, nos pergunta o que perguntou a Pedro: “Você me ama?”. Aliás, a primeira ver em que Jesus pergunta isso, há um detalhe muito importante na pergunta: “Você me ama mais do que estes?” (Jo 21,15). Nós amamos muitas coisas na vida, e é até possível que também amemos Jesus, mas a questão que ele nos coloca é a seguinte: ‘Você me ama mais do que qualquer outra coisa?’. Essa pergunta de Jesus pode nos dar a impressão errada de que ele tem uma carência de fundo insaciável, e exige que o amemos de maneira a esgotar todo o nosso amor nele, de modo que nada sobre para os outros. Mas não é isso...
            Quando Pedro responde: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”, Jesus lhe diz: “Apascenta os meus cordeiros... Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15.16.17). O que Jesus está dizendo a Pedro e a nós são duas coisas: 1) O nosso amor para com ele não é uma questão meramente afetiva, sentimental, mas uma atitude, e uma atitude não para com ele, diretamente, e sim para com aqueles que ele confiou aos nossos cuidados. 2) Nós só perseveraremos até o fim no cuidado para com aqueles que a vida nos pediu para cuidar se o motivo principal for o amor, o amor a Deus, o amor ao Senhor que nos chamou à vida e a uma vocação específica: cuidar de pessoas que só podem ser cuidadas por nós. Portanto, o abandono do compromisso assumido tem como causa principal não o cansaço, não a rotina, não o desencanto, mas o esfriamento e a perda do amor.
            Como termina o diálogo entre Jesus e Pedro? Ele termina falando da velhice e da morte de Pedro. Tudo fica velho, com o passar do tempo. Tudo se desgasta, enfraquece, perde a beleza externa. O tempo não perdoa e não poupa ninguém. E se o nosso amor pelas escolhas que fizemos for meramente superficial, isto é, ficar somente na pele, nós não conseguiremos amar nada que fique velho, nem a nós mesmos. Falando com Pedro, Jesus nos ensina que, ao envelhecermos, nosso vigor mudará, nossos sonhos e nossas esperanças diminuirão, nossas ilusões desaparecerão, e nos daremos conta de que muito daquilo que pensávamos fazer não o faremos, porque nosso tempo aqui neste mundo está no fim. Mas, se ao longo da vida conseguimos atualizar o sentido das escolhas que fizemos, nós também conseguiremos dar sentido ao nosso envelhecer e ao nosso morrer.
            Eis a última palavra de Jesus a Pedro e a nós: “Siga-me” (Jo 21,19). Siga-me sempre, seja enquanto você é novo(a), seja quando ficar velho(a). Siga-me sempre, seja quando você está encantado(a), seja quando se sentir desencantado(a). Siga-me sempre, cuidando daqueles que eu confiei aos seus cuidados. Siga-me sempre, mesmo quando tantos outros ao longo do caminho perderem o sentido de me seguir. Siga-me, sem perguntar para onde estou levando você e o que você encontrará depois da próxima curva. Siga-me, confiando que, depois de cada noite de fracasso, eu trarei a você um novo amanhecer e lhe darei uma palavra de orientação, para prosseguir na sua missão. Siga-me, porque, ainda que você não saiba por que está me seguindo, eu sei por que escolhi você. Siga-me!

            Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 25 de abril de 2019

NÃO SEJA UMA PESSOA INCRÉDULA, MAS TENHA FÉ!


Missa do 2º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 5,12-16; Apocalipse 1,9-11a.12-13.17-19; João 20,19-31.

A manhã do domingo de Páscoa nos colocou diante do túmulo vazio de Jesus, o primeiro sinal da sua ressurreição. Já o Evangelho de hoje, nos fala de duas aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos: uma, na noite do domingo de Páscoa; outra, oito dias depois, novamente no domingo, “no dia do Senhor” (Ap 1,10). Por duas vezes, o Evangelho menciona que as portas do lugar onde os discípulos se encontravam estavam fechadas (vv.19.26). O Papa Francisco tem insistido que as portas da Igreja devem estar sempre abertas, seja para acolher aqueles que a procuram, seja para ir atrás daqueles que dela se afastaram ou que dela nunca se achegaram. Quando nos fechamos numa atitude defensiva em relação a um mundo que direta ou indiretamente ataca os valores do Evangelho, corremos o risco de falhar em nossa missão: “Sem experimentar o Senhor Ressuscitado entre nós, vivemos como uma igreja fechada, com medo do mundo... Com as ‘portas fechadas’ não se pode ouvir o que acontece lá fora. Não é possível captar a ação do Espírito no mundo... Uma Igreja sem capacidade de dialogar é uma tragédia, porque a missão de todo discípulo de Jesus é realizar o diálogo de Deus com o ser humano” (Pe. J.A. Pagola).
            Mas o foco principal do Evangelho de hoje é o encontro de Jesus com Tomé, o discípulo que impôs uma condição para crer na ressurreição: “Se eu não vir... não acreditarei” (Jo 20,25). Como anda a sua fé? Você também costuma impor condições para crer em Deus, para crer na sua Palavra? Vivemos numa época em que inúmeros acontecimentos vão contra a nossa fé, porque destroem todas as imagens que temos de Deus – o Deus que se revela na Sagrada Escritura como Amor, Misericórdia, Bondade, Compaixão, Justiça, Providência... Muitas pessoas têm desistido de crer, seja por causa de certos acontecimentos dolorosos, sofridos, absurdos, seja pela maneira como Deus é: misterioso, inacessível, não enquadrado nos nossos esquemas, não cabível nas nossas medidas, um Deus a Quem não podemos de forma alguma ver, no sentido de controlar, mas apenas escutar, no sentido de obedecer. É por isso que a fé se apresenta como algo que nos desafia. A fé, quando autêntica, me coloca no espaço correto da relação com Deus, o espaço da obediência, não do controle.
“Se eu não vir... não acreditarei” (Jo 20,25). Assim como Tomé, às vezes nos colocamos nesta atitude: ‘Se Deus não se revelar a mim como eu espero, não terei mais fé n’Ele. Se Deus não remover todas as pedras do meu caminho, se não curar todas as minhas feridas, se não eliminar todos os meus inimigos e se não responder a todas as minhas perguntas, não acreditarei mais n’Ele’. Esse tipo de atitude torna-se uma sabotagem contra nós mesmos, uma vez que, sem a força da fé “a vida facilmente se torna um arco cuja corda está arrebentada e do qual nenhuma flecha pode ser lançada” (Henri Nouwen, O sofrimento que cura, p.25).
Esta imagem do arco que se tornou incapaz de lançar uma flecha – imagem de uma pessoa que decidiu seguir pela vida sem a força da fé – contrasta com a imagem de Moisés, lembrado como exemplo de fé para nós na carta aos Hebreus: “Foi pela fé que (Moisés) deixou o Egito, sem temer o furor do rei (o exército do Faraó que se pôs a persegui-lo), e resistiu, como se visse o Invisível” (Hb 11,27). A fé é isso: você caminha na vida por aquilo que crê, não por aquilo que vê; você caminha na vida como se visse o Invisível, resistindo às pancadas que leva, às ameaças que sofre, não se deixando vencer por aquilo que tenta te convencer de que você está caminhando na direção do nada.
Jesus hoje diz a cada um de nós o que disse a Tomé: “Não sejas incrédulo, mas tenha fé” (Jo 20,27). Mesmo diante de tantos acontecimentos que parecem enterrar na morte tudo o que você faz em favor da vida, Jesus lhe diz: “Não tenhas medo. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho comigo as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17-18). ‘Mesmo se você trancar a porta da sua vida para a fé, mesmo se decidir morrer para a sua fé, Eu tenho as chaves e posso tirar você de dentro da morte da sua fé. Ainda que você não possa Me ver, lembre-se de que “felizes (são) os que creram sem terem visto” (Jo 20,29). Felizes os que, mesmo enfrentando tribulações por causa da Palavra de Deus e do testemunho de fé em Mim, perseveraram na sua fé (cf. Ap 1,9). Felizes os que, meditando a cada dia no Evangelho, acreditaram em Mim e, crendo, receberam uma nova vida em Meu nome (cf. Jo 20,31)’.
Ao encerrarmos esta reflexão, lembremos que a fé vem da pregação da palavra de Cristo (cf. Rm 10,17), isto é, a fé nasce em nós a partir dos ouvidos e não dos olhos. Neste sentido, o próprio João termina seu Evangelho afirmando que tudo aquilo que ele escreveu “foi escrito para que vocês acreditem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham a vida em seu nome” (Jo 20,31). Para a nossa geração, habituada com inúmeras imagens, vale o alerta de Jesus a Tomé: “Acreditaste porque me viste? Felizes os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29). O que mantém a minha fé viva não é a imagem que eu vejo, mas a Palavra que eu leio, escuto e medito. Além disso, é a Palavra de Deus, lida ou ouvida e meditada, que me ajuda a interpretar aquilo que eu vejo, percebendo a presença escondida de Deus nos acontecimentos do dia a dia.     
Com a nossa Igreja, coloquemo-nos diante de Jesus Misericordioso e clamemos hoje: ‘Senhor Jesus, entra em minha vida, mesmo quando as portas estiverem fechadas pelo meu medo diante do mundo e pela minha descrença na tua ressurreição. Dá-nos a tua paz, que é a vitória sobre o mundo. Segura minhas mãos com as tuas mãos feridas, para que as minhas tenham a coragem de se envolverem e, se preciso for, se machucarem na luta em favor de um mundo mais justo. Infunde em mim a força do teu Espírito diante dos conflitos, para que eu possa experimentar a força da fé que me faz vencer o mundo e não ser vencido(a) por ele. Como o Senhor passou pelo mundo fazendo o bem, que eu possa viver minha vida trabalhando junto com todas as pessoas que, independente de cor, raça ou religião, trabalham pela ressurreição da humanidade. Amém!’ (cantemos) “Creio em Ti, Ressuscitado, mais que São Tomé, mas aumenta na minh’alma o poder da fé! Guarda a minha esperança, cresce o meu amor. Creio em Ti, Ressuscitado, meu Deus e Senhor!”

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 19 de abril de 2019

SEMEADOS FRACOS E MORTAIS, RESSUSCITAREMOS FORTES E IMORTAIS


Missa da Ressurreição do Senhor. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9

            Em um momento crítico de sua história, quando o povo de Israel dizia: “a nossa esperança está desfeita. Para nós está tudo acabado” (Ez 37,11), Deus lhe fez uma promessa: “Eis que abrirei vossos túmulos e vos farei sair dos vossos túmulos... Então sabereis que eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e vos fizer subir de dentro deles, ó meu povo” (Ez 37,12-13).
                No dia de Páscoa, dia em que celebramos a ressurreição de nosso Senhor Jesus, o Evangelho não nos coloca, ao menos por enquanto, diante do Cristo ressuscitado, mas apenas diante do seu túmulo vazio. Por que o túmulo está vazio? Porque, como interpretou erroneamente Maria Madalena, “retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,2)? Não! O túmulo de Jesus está vazio porque nós não podemos procurar entre os mortos Aquele que vive! (cf. Lc 24,5).
            Na verdade, encontrar o túmulo de Jesus vazio no dia de Páscoa é mais importante do que encontrá-lo ressuscitado, porque crer na ressurreição não significa crer que vamos ser poupados de sofrimento ou que não vamos morrer, mas significa crer que vamos vencer o sofrimento e a morte. O nosso sofrer e a nossa morte não devem ser interpretados por nós como negação da ressurreição, mas sim como a situação existencial onde experimentaremos a nossa própria ressurreição, como afirmou o apóstolo Paulo: “Incessantemente e por toda parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus (sua morte), a fim de que a vida de Jesus (sua ressurreição) seja também manifestada em nosso corpo” (2Cor 4,10).
            A fé no Cristo ressuscitado nunca poderá se transformar em blindagem, isto é, em proteção absoluta contra a dor, o sofrimento e a morte, mas como garantia de vitória contra tudo aquilo que hoje fere a nossa vida e a vida da humanidade. Mais uma vez é o apóstolo Paulo quem nos ajuda a compreender isso: “conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição de entre os mortos” (Fl 3,10-11). Assim como a vida que está escondida dentro da semente só desabrocha quando ela morre, ou seja, é enterrada, assim também a nossa ressurreição só se dará a partir da nossa própria morte.
            Por outro lado, a fé no Cristo ressuscitado deve provocar mudanças em nós agora, neste momento: mudanças em nossa maneira de enxergar a vida, de interpretar os acontecimentos, e também mudanças em nossas atitudes, em nossa forma de lidar com os acontecimentos. Eis porque o apóstolo se dirige a nós neste dia de Páscoa com essas palavras: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Cl 3,1-2). Um cristão que crê verdadeiramente que Cristo ressuscitou não anda olhando para baixo, mas para o alto; não caminha na vida vencido pelo peso das preocupações e dos problemas, mas como uma pessoa que confia na presença do Ressuscitado que caminha com ele e o ajuda a enfrentar com coragem as preocupações e os problemas, pois Ele mesmo disse: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33).
            Ao ressuscitar, Cristo venceu o mundo, mas esta vitória não está visível nem explícita em toda parte; ela só pode ser vista na vida de quem crê na ressurreição de Jesus e na sua própria ressurreição. Aliás, o apóstolo Paulo deixa claro como é a vida dos cristãos que creem na ressurreição: “vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória” (Cl 3,3-4). Uma pessoa que crê no Cristo ressuscitado não está revestida de glória aqui e agora; pelo contrário, ela é chamada a não comungar, não compactuar com aquilo que no mundo produz injustiça e cruz, e saber que sua vida de pessoa ressuscitada está escondida com Cristo em Deus, da mesma forma que uma semente carrega escondida dentro de si a vida de uma grande árvore capaz de produzir inúmeros frutos. Como aconteceu com Cristo, assim acontecerá com aqueles que creem na Sua ressurreição: “semeado mortal, o corpo ressuscita imortal; semeado desprezível, ressuscita cheio de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,43-44).
                                  
            Oração: Senhor Jesus, neste dia de Páscoa olho para o teu sepulcro vazio, o primeiro sinal da tua ressurreição. Também eu, muitas vezes, entro e me fecho no sepulcro do medo, do desânimo, da tristeza, da falta de fé e de esperança. Chama-me para fora do meu sepulcro, Senhor, como chamaste Lázaro. Que eu não me escandalize com o sofrimento e a cruz que tenho que lidar neste mundo, sabendo que é a partir dali que nascerá a minha própria ressurreição. Como o apóstolo Paulo, eu também quero entrar em comunhão com os teus sofrimentos na esperança de um dia entrar em comunhão com a tua ressurreição. Sei que a minha vida de pessoa ressuscitada está escondida contigo no céu, da mesma forma que uma semente carrega escondida em si a fecundidade de uma vida que aguarda para nascer. Enquanto caminho neste mundo, quero aprender a olhar para o alto, quero buscar as coisas do alto, procurando florescer aonde a tua mão me plantou, crendo que eu também fui semeado(a) mortal para um dia ressuscitar imortal; fui semeado(a) desprezível para um dia ressuscitar cheio de glória; fui semeado(a) fraco(a) para um dia ressuscitar cheio(a) de força; fui semeado(a) pessoa carnal para um dia ressuscitar pessoa espiritual.   

Cantemos:

Novo dia surgiu e o povo que andava nas trevas viu uma intensa luz, Teu clarão, Tua glória a resplandecer. Novo povo a trilhar um caminho aberto por Tuas mãos. Obra nova, enfim, já podemos ver nova criação. Somos nós este povo alcançado por Tua luz, fruto da Tua obra na cruz. O Senhor nosso Deus que merece o louvor, todo nosso amor, é o Rei que venceu. Ao Cordeiro a vitória, poder, honra e glória! (bis) Ressuscitou! Ressuscitou! Ressuscitou!


Pe. Paulo Cezar Mazzi

SÓ ELE NOS FAZ PASSAR; SÓ ELE NOS FAZ RESSUSCITAR!


Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,26-31a; Gênesis 22,1-18; Êxodo 14,15 – 15,1; Isaías 55,1-11; Romanos 6,3-11; Lucas 24,1-12.

“Eu espero, Senhor, eu espero com toda a minha alma, esperando tua palavra; minha alma aguarda o Senhor mais que os guardas pela aurora” (Sl 130,5-6). Estas palavras do salmista revelam o significado desta noite: estamos em Vigília, estamos participando da Mãe de todas as vigílias, esperando pela Palavra da ressurreição; estamos esperando pelo Senhor ressuscitado mais do que os vigias esperam pela aurora, isto é, pelo fim da noite e pelo nascimento do novo dia.
Caminhando em meio a inúmeros túmulos, túmulos onde estão enterradas pessoas mortas pelas guerras, pela fome, pelas doenças, pelos acidentes, pelas tragédias, pela violência das nossas cidades, pelos traficantes, pelos milicianos, pelo suicídio, pela causa do Evangelho etc., além daquelas que morreram na sua fé, na sua alegria ou na sua esperança, estamos como as mulheres do Evangelho que acabamos de ouvir, levando perfumes conosco, na esperança de que o bom cheiro desses perfumes afaste para longe de nós o mau cheiro da morte.
O salmista dizia: “Eu espero, Senhor, eu espero com toda a minha alma, esperando tua palavra” (Sl 130,5). E a Palavra do Senhor vem como luz que aos poucos vai clareando a noite escura da nossa vida, a noite que ficou mais escura ainda porque determinados acontecimentos apagaram em nós a chama da fé, da esperança, da alegria e do amor. E a primeira luz que o Senhor nos acende é a narrativa da criação: homem e mulher criados à imagem e semelhança de Deus, cuidando da Terra como se cuida de um jardim, alimentando-se de sementes, plantas e frutos, sem derramamento de sangue. “E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que tudo era muito bom” (Gn 1,31). A luz desta Palavra está direcionada para o futuro, pois o Senhor diz: “Eu conheço os desígnios que formei a respeito de vocês – desígnios de paz e não de desgraça, para dar-lhes um futuro e uma esperança” (Jr 29,11).
No entanto, os desígnios do Senhor às vezes se tornam incompreensíveis para nós, de modo que Aquele que quer nos dar um futuro e uma esperança pede que Lhe sacrifiquemos justamente aquilo que é a garantia do nosso futuro e da nossa esperança. Desse modo, a segunda luz que se acende nesta noite é a leitura do sacrifício de Isaac. Ela fala da noite escura da provação de Abraão, a mesma provação que passamos quando Deus permite que a vida tire de nós aquilo que mais amamos. É o momento em que a imagem que tínhamos de Deus se quebra, o momento em que Deus parece esconder de nós o Seu rosto e nos abandonar a nós mesmos. Mas essa noite escura é necessária para o amadurecimento da nossa fé, porque cada um de nós precisa responder a si mesmo: Eu confio em Deus apenas por causa das consolações que recebo d’Ele ou continuaria a confiar mesmo que Ele retirasse da minha vida todas as Suas consolações?
A noite da provação é uma noite longa, mas se quisermos fazer a nossa páscoa, a passagem do medo para a fé, da escravidão para a liberdade, da tristeza para a alegria, precisamos nos colocar a caminho, confiando que o Senhor nos conduzirá a um lugar melhor. Esta é a terceira luz que se acende nesta noite. Diante das situações que nos escravizam ou nos adoecem, o Senhor pergunta a cada um de nós: ‘Você quer verdadeiramente se libertar? Eu sou o Senhor que faço você sair da escravidão do Egito, faço você atravessar o mar Vermelho e faço você entrar na Terra Prometida, mas você precisa se dispor a caminhar comigo, você precisa deixar-se conduzir pelo meu Espírito, pois é a força d’Ele que fará você passar em meios aos obstáculos e prosseguir o seu caminho rumo ao futuro e à esperança que preparei para você’.   
Só existe páscoa (passagem) porque o Senhor abre uma passagem onde ela não existe, e nos faz passar ali. Mas também é preciso que se diga que só existe passagem porque nós decidimos confiar no Senhor e passar. É por isso que o Senhor declara: “Ouçam-me e você terão vida” (Is 55,3). ‘Quem está com sede, venha para as águas! Quem está com fome, venha comer! Não é necessário pagar pela bebida, nem pela comida, porque a minha salvação é dom, é graça, e não mérito de alguma pessoa!’ Eis, portanto, a quarta luz desta noite: “Busquem o Senhor, enquanto pode ser achado; invoquem por Ele, enquanto está perto” (Is 55,6). ‘Façam a páscoa, enquanto a passagem está aberta! Se a vida travou e a passagem não está acontecendo, certamente é porque os pensamentos e os caminhos de vocês se desviaram dos pensamentos e dos caminhos do Senhor. Portanto, coloquem em ordem a vida de vocês!’
São Paulo apóstolo nos traz a quinta luz desta noite. Ele nos lembra que nenhum de nós participou da passagem pelo mar Vermelho, mas todos nós passamos por outra água, a água do Batismo. Graças ao Batismo, nós pudemos nos tornar semelhantes a Jesus Cristo na sua morte, para que um dia nos tornemos semelhantes a Ele na sua ressurreição. Contudo, o Batismo não é algo mágico: não basta ter sido batizado; é preciso esforçar-se por viver como uma pessoa batizada, o que significa decidir morrer para o pecado e viver para Deus a cada dia, a exemplo de seu Filho Jesus.  
Por fim, a Palavra do Senhor nos traz luz sobre a passagem mais difícil de todas, aquela que nenhuma pessoa pode fazer por si mesma: a passagem da morte para a vida. Quando nossas esperanças são sepultadas e uma pedra é colocada sobre elas, para dizer que ali se encerra a nossa busca, a nossa luta, a nossa tentativa de passar; quando precisamos admitir que chegou o fim e é o momento de aceitá-lo, a Palavra do Senhor se pronuncia sobre a nossa morte, também sobre a morte da nossa fé, para remover a pedra e dizer que não devemos procurar entre os mortos Aquele que está vivo (cf. Lc 24,5-6), da mesma forma como nunca podemos dar por morta a nossa fé, porque para Deus nenhuma passagem é impossível. Portanto, diante do túmulo vazio de Jesus, cada um de nós pode suplicar ao Deus que abre os mares, que abra-os a cada um de nós também; que o mesmo Deus, que dissipou a morte de seu Filho, dissipe a morte de cada um de nós também; enfim, que o mesmo Deus que ressuscita os mortos, ressuscite a cada um de nós também!

Cantemos:
   
Quando o mar Vermelho em minha vida impedir a travessia, quando a morte ameaçar invadir a Terra Prometida, por Teu Nome eu irei clamar. Quando as portas se fecharem para mim, quando a tranca eu não puder quebrar, gritarei por Teu auxílio, meu Senhor. Tuas mãos irão me sustentar, me sustentar.

Tu que abres as portas, Tu que abres os caminhos, Tu que abres os mares abre também pra mim! Tu que amas os fracos, Tu que encontras os perdidos, Tu que dissipas a morte vem dissipá-la em mim! Vem dissipá-la em mim, Senhor. Vem dissipá-la em mim. Vem dissipá-la em mim, Senhor. Vem dissipá-la em mim.
Ressuscita-me, Senhor. Ressuscita-me, Senhor. Ressuscita-me, Senhor pelo poder do Teu amor! (bis)

Abrindo mares (Pe. Fábio de Melo)

Pe. Paulo Cezar Mazzi