quinta-feira, 21 de maio de 2015

DESPERTAR A PRESENÇA ADORMECIDA DENTRO DE NÓS

Missa de Pentecostes – Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.

Existe uma Presença escondida em toda a Criação, principalmente no mais íntimo de cada ser humano. Existe uma Presença ignorada dentro de nós, uma Presença que, contraditoriamente, sentimos como ausente da nossa vida, seja porque A ignoramos, seja porque A desconhecemos, seja porque A esquecemos adormecida dentro de nós. No entanto, essa Presença pode ser despertada dentro de nós a partir da oração: “(...) o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13). Sim. É para isso que estamos hoje aqui: para pedir ao Pai, em nome de seu Filho Jesus, que confirme, que reavive a Presença do Espírito Santo em cada um de nós.
            Jesus comunicou o Espírito Santo aos discípulos soprando sobre eles (cf. Jo 20,22). No século VI a.C., Deus havia mandado Ezequiel profetizar o Espírito Santo sobre o povo de Israel no exílio, o qual vivia dizendo: “Os nossos ossos estão secos, a nossa esperança está desfeita. Para nós está tudo acabado” (Ez 37,11). E Ezequiel profetizou: “Espírito, vem dos quatro cantos da terra e sopra sobre esses mortos para que vivam” (Ez 37,9). E assim se fez, conforme a promessa de Deus: “Porei o meu espírito dentro de vós e vivereis” (Ez 37,14).
            Hoje, nós pedimos: ‘Sopra, sopra Espírito! Sopra sobre os nossos ossos secos, pois quando envias o Teu sopro, tudo renasce, e assim renovas a face da terra (cf. Sl 104,30)! Sopra Espírito, e põe-nos novamente em pé. Levanta-nos de nossas quedas e de nosso cansaço; varre para longe de nós o pessimismo e o desânimo! Assim como encheste a casa onde estavam os discípulos, no dia de Pentecostes (cf. At 2,2), enche a casa de cada família com a Tua santa Presença! Com o Teu vento, varre para fora de toda casa os ressentimentos, derruba as barreiras que ainda mantêm separadas as pessoas. Comunica Tuas línguas de fogo a cada casa, a cada família, para retirar do túmulo do silêncio e do isolamento os que nele decidiram se enterrar; aquece o que se esfriou em nós, torna flexível o que se enrijeceu dentro de nós!’
            Jesus havia prometido que o Espírito Santo seria o nosso Defensor (cf. Jo 14,15; 15,26). Por isso, hoje suplicamos: ‘Defende-nos, Espírito Santo, do maligno, das suas seduções e das suas armadilhas! Defende-nos do mal do individualismo, que nos torna indiferentes para com quem sofre. Defende nossa sociedade da violência, uma violência muitas vezes nascida da injusta distribuição de renda, da corrupção e da impunidade. Defende as famílias, os casamentos; defende os pais do desemprego e os filhos das drogas. Defende os cristãos que estão sendo duramente perseguidos em diversos países, sobretudo no Oriente Médio! Defende-nos de toda mentira econômica, política e religiosa que adoece, escraviza e oprime a humanidade, pois Tu és “o Espírito da Verdade” (cf. Jo 14,16; 15,26; 16,13).            
            Segundo o apóstolo Paulo, somente o Espírito Santo pode nos fazer reconhecer Jesus como Senhor, como Aquele que ressuscitou e vive para sempre (cf. 1Cor 12,3b), assim como somente o Espírito Santo pode testemunhar ao nosso espírito humano que somos verdadeiramente filhos de Deus (cf. Rm 8,16). Por isso, nós também clamamos: ‘Espírito Santo de Deus, faze-nos verdadeiramente reconhecer Jesus como Senhor e Salvador; faze-nos experimentar a Sua presença como Ressuscitado dentro de nós e em meio a nós, no seio das nossas famílias e das nossas comunidades. Coloca-nos debaixo da autoridade do Senhor Jesus, a quem o Pai concedeu o poder de redimir e salvar todo ser humano. Que nunca nos sintamos órfãos ou desamparados; pelo contrário, que sintamos o Pai em nós e que Lhe sejamos obedientes, como verdadeiros filhos e filhas!’
            Ainda segundo o apóstolo Paulo, “(...) o Espírito socorre a nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós... e aquele que perscruta os corações sabe qual o desejo do Espírito; pois é segundo Deus que ele intercede pelos santos (cristãos)” (Rm 8,26-27). Perscruta-nos, Espírito Santo! Examina o nosso coração! Há uma ferida em cada um de nós que só o Senhor pode curar, assim como há um vazio em cada um de nós que só o Senhor pode preencher. Suscita em nós um profundo e verdadeiro espírito de oração. Disciplina o nosso coração para que possamos permanecer diariamente na presença do Pai o quanto for necessário, até que Ele complete a Sua obra em nós. Intercede ao Pai por nós, Espírito Santo! Intercede ao Pai não segundo aquilo que achamos que precisamos, mas segundo aquilo que o Pai sabe ser o melhor para cada um de nós. Enfim, neste dia de Pentecostes, derrama-Te sobre todo ser humano; desperta-Te dentro de cada ser humano. Que nos deixemos conduzir por Ti (cf. Rm 8,14)! Que não oponhamos mais nenhuma resistência a Ti (cf. At 7,51)! Apossa-Te de cada um de nós, Espírito Santo de Deus! Em nome de Cristo Jesus, amém!’ 

                                                           Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 15 de maio de 2015

RECUPERAR O ENDEREÇO DO CÉU

Missa da Ascensão do Senhor. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Marcos 16,15-20.

            Você acredita no Céu? Você acredita que, depois da morte, existe um depois? Você acredita que o amor de Deus, que estava à sua espera quando você veio a este mundo, estará à sua espera, quando você deixar este mundo? Você deseja o Céu?
O que é o Céu? O profeta Isaías descreveu o Céu como sendo a atitude de Deus de remover da face da terra todo luto, toda dor, toda injustiça, todo sofrimento. É quando Deus “enxugará as lágrimas de todos os rostos” (cf. Is 25,6-9; Ap 21,4). Jesus, por sua vez, comparou o Céu a um banquete, para o qual todos são convidados. Apenas uma exigência é feita: que estejamos vestidos com traje de festa, traje que significa o comportamento justo (cf. Mt 22,1-14; Ap 19,7-8). Por fim, o apóstolo Paulo descreveu o Céu como sendo o momento em que o imperfeito em nós se transforma em perfeito, e nós podemos contemplar a Deus face a face (cf. 1Cor 13,10.12).   
            Se professamos a nossa fé em Jesus Cristo, que “subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai todo Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”, isso deve ser para nós motivo de alegria, pois a elevação de Jesus ao Céu já é nossa vitória! Ele mesmo disse: “Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Jesus vive na comunhão plena com o Pai, comunhão que um dia viveremos também! Além disso, o autor da carta aos Hebreus afirma que Jesus entrou “no próprio céu, a fim de comparecer agora diante da face de Deus a nosso favor” (Hb 9,24). Portanto, a elevação de Jesus ao Céu nos conforta com a certeza de que Ele intercede dia e noite ao Pai pela vida e pela salvação de cada um de nós (cf. Hb 7,25)!
            Muitos não sabem da existência do Céu, assim como muitos não esperam pelo Céu. Muitos deixaram de crer no Céu, assim como muitos entendem o Céu somente como uma ilusória consolação para não se enlouquecer em meio aos sofrimentos do mundo presente. Muitos ‘perderam o endereço’ do Céu, e por isso deixaram de esperar o prêmio pela santidade, assim como deixaram de crer na recompensa de manterem a sua alma pura (cf. Sb 2,2). Quem não espera pelo Céu abandona o caminho da justiça e se corrompe, criando o inferno para si e para os outros na terra...
            A elevação de Jesus ao Céu coloca algumas perguntas para cada um de nós: Sua presença junto às pessoas é uma presença que aponta para o Céu? Você vive como um “cidadão do Céu”, de onde aguarda ansiosamente o seu Salvador Jesus (cf. Fl 3,20)? Você é capaz de carregar temporariamente a humilhação de Jesus, consciente de que você não tem aqui cidade permanente, mas está à procura da cidade que está para vir (cf. Hb 13,13-14)? Você é capaz de sofrer a perda de alguém pela morte, guardando no seu coração a certeza de que reencontrará este alguém no Céu (cf. 1Ts 4,13-17)? Você resiste à tentação de se corromper e luta para se manter no caminho da justiça, porque acredita firmemente que o Céu é o momento em que Deus fará justiça, retribuindo a cada um de acordo com as suas atitudes, e que deixou bem claro que nenhuma pessoa injusta herdará o Céu (cf. 1Cor 6,9; 2Cor 5,10; Ap 22,12)?
            A Terra precisa se voltar para o Céu porque, em Jesus, o Céu se voltou para a Terra, para redimi-la e salvá-la. Cada um de nós, discípulos de Jesus, temos por missão devolver à humanidade o endereço do Céu, anunciando a todo ser humano a alegria do Evangelho, de modo que as consciências não se deixem mais enganar pelo maligno, uma nova comunicação aconteça entre as pessoas, ninguém mais se contamine com o veneno da maldade, da corrupção e da injustiça, e as feridas sejam tratadas e curadas. Lembremos: nós não estamos sozinhos nesta missão. O Senhor Jesus nos acompanha do Céu, com o auxílio da Sua graça (cf. Mc 16,20). 

                       Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 8 de maio de 2015

AMADOS ANTES DE EXISTIRMOS

Missa do 6º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 10,25-26.34-35.44-48; 1João 4,7-10; João 15,9-17.

            Você já se perguntou por que você existe? Você existe porque foi amado(a) por Deus antes de existir! Exatamente! Antes de existirmos, fomos amados! Só existimos porque fomos primeiro amados por Deus. Diferente da mãe, que começa a amar o filho depois que toma consciência de que está grávida dele, Deus primeiro nos amou, e depois nos concebeu em Seu coração. A existência de cada ser humano se deve unicamente a esta verdade: ele foi amado por Deus. Mais do que o amor da mãe ou do pai, o amor de Deus estava à nossa espera, quando viemos a este mundo.
            Apesar desta verdade bíblica, muitos ignoram que são amados por Deus, assim como muitos não se sentem amados por Ele, sobretudo porque fizeram ou estão fazendo uma forte experiência de sofrimento, quando tantas coisas desabam ou quando tantas certezas humanas são abaladas. No entanto, o próprio Deus declara a cada um de nós, como declarou a Israel: “Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, porém meu amor não mudará” (Is 54,10). Você pode estar decepcionado(a) e profundamente desencantado(a) com o amor que deu às pessoas ou que recebeu delas, mas o Meu amor por você não mudará; não mudará nem mesmo diante do seu pecado, da sua recusa em se deixar amar por Mim, diz o Senhor. É por isso que está escrito: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados” (1Jo 4,9-10).
            “Quem não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4,8). Podemos entender também que quem nunca se sentiu amado nunca sentiu Deus em sua vida. Quantas crianças nunca se sentiram amadas? Quantos estão no mundo da violência e da criminalidade porque nunca foram amados? Quantos se sentem indignos e “não merecedores” de serem amados? Antes de existir a violência contra o outro, existe a violência contra si; antes de existir um desamor pelo outro, existe um desamor por si. Nós temos sido para essas pessoas imagem e semelhança do Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8), amor que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,7)? Alguém disse que não devemos julgar o nosso dia pelos frutos que colhemos, mas pelas sementes que conseguimos lançar. Da mesma forma, no final de cada dia, a pergunta principal não deveria ser: “Quantas pessoas me amaram hoje?”, mas “Para quantas pessoas eu consegui ser hoje uma presença do Deus que é amor?”
            “Permanecei no meu amor” (Jo 15,9), nos disse Jesus. Ninguém dá o que não tem. A nossa primeira tarefa consiste em permanecer na presença de Jesus, nos deixar amar por Ele, para que depois possamos nos fazer presentes na vida das outras pessoas, conseguindo permanecer com elas também, e sobretudo, nas situações difíceis. “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). Se a nossa tristeza vem do medo de não sermos amados, a nossa alegria vem de saber que existimos porque somos amados. Enquanto muitos hoje verificam se são amados pelo número de curtidas no seu Face ou pelo número de visualizações no vídeo que postaram no Youtube, Jesus nos ensina que a alegria não depende de circunstâncias externas; ela nasce do encontro com a própria verdade, da harmonia e da sintonia com aquilo que se é.
            Neste dia rezamos especialmente por todas as mães: por aquelas que conseguiram passar para seus filhos a confiança básica de que são amados e também por aquelas que não o conseguiram; por aquelas que fizeram em suas casas a experiência de serem amadas e também por aquelas que não o fizeram; por aquelas que abriram mão do pseudo amor de um companheiro, em vista do bem dos filhos, e por aquelas que fizeram o contrário; por aquelas que estão firmadas em Deus e também por aquelas que estão com sua fé abalada; por aquelas que levaram a gravidez até o fim e por aquelas que decidiram abortar. Que todos nós possamos ser, de alguma forma, uma presença materna para outras pessoas, fortalecendo nelas a consciência de que são amadas incondicionalmente por Deus.

Para sua oração pessoal: PERMANECER NO AMOR (DOM)
https://www.youtube.com/watch?v=JCOe5l6EwTU

                                                              Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 30 de abril de 2015

SER CAPAZ DE PERMANECER E DE TER RAIZ EM SI MESMO(A)

Missa do 5º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 9,26-31; 1João 3,18-24; João 15,1-8.

            Nos caminhões, nas floriculturas ou nos viveiros que vendem mudas de árvores frutíferas, normalmente encontramos propagandas do tipo: “Jabuticabeira já produzindo!” Essa é a questão: “Já produzindo!” Para uma geração como a nossa, que vive sob a dinâmica da pressa e do imediato, não tem sentido plantar uma árvore que demore 25 anos para crescer e começar a produzir frutos. Queremos os frutos já, agora, para nós e não para os outros que vierem depois de nós! Estamos tão adoecidos pelo individualismo que nos tornamos incapazes de cultivar algo que não será desfrutado por nós, mas para os que vierem depois de nós.
            Sabemos que nas últimas décadas, a produção de alimentos foi acelerada. Os hormônios embutidos na ração dada aos animais fazem com que eles estejam prontos para o abate em 45 dias, coisa que antes demorava de dois a três meses. Os defensores do “já produzindo!” alegam que a humanidade cresceu muito e é preciso acelerar a produção de alimentos. Desse modo, a maioria dos alimentos chegam à nossa mesa “incrementados” com hormônios, agrotóxicos ou modificados geneticamente. Isto certamente tem um custo para a nossa saúde...
            No Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus também fala da importância de produzirmos frutos. No entanto, o nosso fruto não pode ser forçado, não pode ter um gosto artificial, nem muito menos ser um fruto que transmite doenças para quem dele se alimenta. Para Jesus, o nosso fruto só pode nascer da atitude de permanecer: permanecer nas mãos do Pai, sobretudo quando Ele, o agricultor, precisa nos podar para que o nosso fruto se torne melhor; permanecer em Jesus nas diversas estações existenciais – quando é outono e nossas folhas caem; quando é inverno e parece que morremos por completo; quando é primavera e a vida escondida em nós começa a dar sinais de ressurreição; quando é verão e nossas flores dão lugar a frutos que transmitem vida aos outros.
            “Permanecer” é uma palavra carregada de ambiguidade para a nossa geração. Muitos de nós permanecemos horas numa academia, ou diante da TV, do celular ou do computador, mas não conseguimos permanecer quinze minutos em oração diante do Senhor. Muitos de nós nunca fomos educados a permanecer, porque no primeiro choro que emitimos ou na primeira birra que fizemos, vieram imediatamente nos dar algum tipo de consolo, ainda que errado. Os frutos só são abundantes quando as raízes são profundas. No entanto, muitos de nós não aceitamos nos enraizar em nada: assim que somos frustrados em nossos desejos, sacudimos a terra das nossas raízes e vamos em busca de um outro lugar onde nossos caprichos possam ser plenamente satisfeitos – como se esse lugar existisse...      
            Na parábola do semeador, Jesus deixa claro que algumas pessoas não têm raiz em si mesmas; são volúveis, inconstantes: sempre que surge uma dificuldade, abandonam o barco (cf. Mt 13,21). São pessoas que estão com Deus enquanto Ele lhes fornece água e adubo, mas que se revoltam contra Ele quando chega o momento de serem podadas em alguma coisa. São pessoas que cada hora estão numa igreja, numa religião, num emprego, num relacionamento, numa modalidade esportiva etc. São pessoas que se cansam facilmente do mundo exterior porque não cuidam da sua raiz interior.
               O que é essa raiz interior? É a convicção acerca do que Jesus acabou de nos afirmar: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). É a convicção de que quando você se coloca em oração, deve permanecer ali, independente se está experimentando consolação ou desolação. É a convicção de que há galhos em você que se tornaram estéreis, inúteis, e precisam ser cortados e jogados fora, assim como há galhos em você que, embora estejam produzindo alguns frutos, precisam ser podados, para que os frutos se tornam melhores. Muitas pessoas se desenraizaram de Deus porque não entenderam ou não aceitaram o momento da poda. No entanto, sem poda não há fecundidade, e toda poda fere nosso narcisismo, humilha nosso orgulho, desmascara nossa ilusão... Quem não aceita passar pela tristeza da poda não experimenta a alegria de ver-se produzindo frutos.
            Algumas perguntas: Que frutos nossa comunidade/Igreja produz para a sociedade humana? Que frutos eu posso produzir em casa, no local de trabalho, na escola/faculdade, na minha comunidade de fé? O que precisa ser podado em minha vida, em meu relacionamento, em minha casa, em meu local de trabalho, em nossa comunidade de fé? Que frutos eu tenho colhido em minha permanência na internet? Eu tenho raiz em mim mesmo(a)? Onde, em quê ou em quem as minhas raízes estão agarradas neste momento? 

                                                                    Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O BOM PASTOR, O MERCENÁRIO E O LOBO: COM QUEM VOCÊ SE IDENTIFICA?

Missa do 4º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos dos apóstolos 4,8-12; 1João 3,1-2; João 10,11-18.

            No trecho que ouvimos hoje da conhecida parábola do Bom Pastor encontramos quatro personagens: o bom pastor, o mercenário, o lobo e as ovelhas. Em relação a Jesus, que se define claramente como “o bom pastor” (cf. Jo 10,11.14), nós deveríamos nos sentir e viver como ovelhas, mas, em relação às outras pessoas, nós corremos o risco de nos comportar também ou como pastores, ou como mercenários, ou ainda como lobos! Somos pastores quando cuidamos; somos mercenários quando usufruímos; somos lobos quando destruímos.  
            Já na Idade Moderna, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) afirmou que “o homem é lobo do homem”, ou seja, todo ser humano tem o instinto natural de sobreviver, de se preservar, e se para isso for preciso atacar, ferir ou mesmo matar seu semelhante, ele o faz. O problema é que hoje nós vemos o ser humano agindo como lobo em relação ao seu semelhante não simplesmente por uma questão de sobrevivência ou de auto-preservação, mas sobretudo por dinheiro – a “mão invisível” do Mercado é, na verdade, a “pata” do grande lobo invisível que condena à morte inúmeros seres humanos todos os dias –, pelo fanatismo religioso ou por “nada”, simplesmente porque hoje a vida humana não vale nada e matar não significa nada.
            Para sobreviver a esse mundo desumanizado e a essa cultura de morte, nós estamos cada vez mais adotando posturas de lobos e nos afastando da nossa identidade de ovelhas. Não podemos nos esquecer de que, dentro de cada um de nós habita um lobo e um cordeiro. É verdade que às vezes precisamos dar vazão ao nosso lobo interior, no sentido de lutar com todas as forças para defender a família, os filhos, o casamento, os valores, a fé, a justiça, a vida... Contudo, é preciso que o nosso lobo e o nosso cordeiro aprendam a dialogar e a conviver, pois ambos fazem parte da nossa verdade como seres humanos.
            Se o lobo é um perigo evidente, o mercenário é um perigo sutil. Em nome da democracia, da civilização, da liberdade de expressão, da liberdade religiosa etc., nós estamos rodeados de mercenários, isto é, de pessoas que ocupam cargos de autoridade aparentemente para cuidar de nós, quando, na verdade, não são pastores, mas mercenários: a única preocupação deles é obter lucro, enriquecer-se, mesmo que, para isso, tenham que fechar os olhos para situações que provocam sofrimento, injustiça e morte às ovelhas que lhes foram confiadas. Todo mercenário é um fantoche nas mãos de um lobo chamado dinheiro: ele nunca se importa com a vida das ovelhas, mas apenas com o seu enriquecimento pessoal. Sua alma deixou de pertencer ao Bom Pastor e passou às mãos do grande Lobo há muito tempo...
            Nós também podemos agir como mercenários. Eis alguns exemplos: “O que eu posso lucrar com essa pessoa?”; “De que maneira ela pode me ajudar a chegar aonde eu almejo?”; “Quando a doença chegou para a minha esposa / para o meu marido, meu compromisso matrimonial acabou”; “Para não ter trabalho com meus filhos, eu terceirizo a criação/educação deles”. Numa palavra, se o mercenário sacrifica seu tempo, renuncia ao descanso ou ao lazer e suporta algum sofrimento, é unicamente para ganhar mais dinheiro e nunca para cuidar das ovelhas que lhe foram confiadas.
            Pedro deixou claro que somente na pessoa de Jesus Cristo, nosso Bom Pastor, é que podemos encontrar cura e salvação: “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos” (At 4,12). No entanto, é importante lembrar o que afirma o salmo do bom pastor: “Ainda que eu caminhe por vale tenebroso nenhum mal temerei, pois estás junto a mim; teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo” (Sl 23,4). O pastor tem em suas mãos dois instrumentos para cuidar das suas ovelhas: o bastão e o cajado. Enquanto o bastão é utilizado para defender as ovelhas dos ataques dos lobos e de outras feras, o cajado é utilizado para recuperar a ovelha que corre risco de cair no precipício. Isso significa que o verdadeiro pastor não é somente aquele que protege e cuida, mas que também educa e corrige.
            Se hoje nós temos crianças que precocemente agem como pequenos lobos em relação aos seus colegas de escola, e também em relação aos professores, é porque seus pais (quando os têm) usam demais o cajado (proteção e cuidado), mas quase nunca ou nunca o bastão (educação e correção). Além do mais, é importante lembrar que quando uma ovelha teima em ficar longe do seu pastor, se expondo de maneira irresponsável e desnecessária a certos perigos, o pastor precisa de certa forma “agir contra” o seu coração e quebrar a perna da ovelha, para que ela aprenda a ficar perto dele e não mais expor-se irresponsavelmente a riscos de morte. Isso suscita uma pergunta: eu aceito as correções que preciso receber do meu Bom Pastor, para me deixar educar no caminho da justiça e da santidade, ou quero apenas o Seu cuidado e a Sua proteção?
            P.S. Para nós, padres e bispos que, às vezes, devido à nossa insegurança interior ou à nossa duplicidade de vida, precisamos ficar o tempo todo afirmando a nossa autoridade perante o nosso rebanho por meio de ameaças, vale lembrar que a nossa autoridade de pastores só é reconhecida pelo rebanho na medida em que vivemos sob a autoridade do Bom Pastor e procuramos nos configurar ao Seu coração, nos submetendo diariamente ao bastão da Sua palavra, como Ele sempre se submeteu à palavra do Pai...

Para sua oração pessoal: CURA INTERIOR (Pe. Fábio de Melo)

                                                                      Pe. Paulo Cezar Mazzi



sexta-feira, 17 de abril de 2015

LIBERTOS DA IGNORÂNCIA QUE NOS ADOECE E QUE TAMBÉM PODE NOS DESTRUIR

Missa do 3º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 3,13-15.17-19; 1Jo 2,1-5a; Lucas 24,35-48.

            O que leva uma pessoa a passar pela vida fazendo mal a si mesma e/ou aos outros? O que leva alguém a passar a vida inteira acorrentado a um vício? O que faz com que um relacionamento que tem tudo para dar certo dê errado? O que explica a atitude fanática de matar pessoas em nome de Deus ou em nome do dinheiro? O que está por trás dessa inversão de valores em que vivemos e que faz com que rejeitemos o bem e escolhamos o mal? A resposta para todas essas perguntas é uma só: a IGNORÂNCIA.
            Esta foi a denúncia do apóstolo Pedro ao povo judeu, após a ressurreição de Jesus: “Vós rejeitastes o santo e o justo e pedistes a libertação para um assassino... Vós agistes por ignorância... Arrependei-vos e convertei-vos...” (At 3,14.17.19). Quantas coisas erradas já fizemos na vida, ou ainda estamos fazendo, por ignorância, porque ignoramos o nosso valor, a nossa capacidade, a nossa verdade, ou porque ignoramos o valor e a capacidade das pessoas que convivem conosco? Quantas coisas ignoramos a respeito de nós mesmos, das outras pessoas e do próprio Deus?
Uma conhecida parábola descreve as consequências da ignorância em nossa vida: um jovem passa por um circo, vê um elefante enorme amarrado por uma das patas a uma pequena estaca e se pergunta por que o elefante, com toda a sua força física, não rompe a corda e não se liberta daquela vida aprisionada... É quando alguém lhe explica que, desde filhote, o elefante cresceu amarrado àquela estaca: ele só permanece preso ali porque desconhece, ou seja, IGNORA a força que tem. Assim como esse elefante, muitas pessoas passam sua vida amarradas a uma estaca chamada droga, relacionamento doentio, situação injusta, condição indigna etc., porque IGNORAM/desconhecem a força que têm...
Mais uma vez, o Senhor Jesus ressuscitado vai ao encontro dos discípulos e vê o coração deles tomado por preocupações e dúvidas. Por que as preocupações e as dúvidas encontram mais espaço em nosso coração do que a confiança, a fé, a alegria e a esperança? Porque ignoramos/desconhecemos não só a presença do Ressuscitado junto a nós, como ignoramos/desconhecemos que somos portadores da verdade e da força da ressurreição em nosso coração. Por que muitas vezes nosso coração está cheio de culpa e vivemos nos condenando e nos punindo – muitas vezes de maneira inconsciente –, devido a pecados que cometemos? Porque ou ignoramos/desconhecemos, ou nos esquecemos de que “temos junto do Pai um defensor, Jesus Cristo, o justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados...” (1Jo 2,1-2).   
No livro do profeta Oséias encontramos o retrato de um país destruído pela ignorância, retrato que se encaixa perfeitamente não só no Brasil, mas em tantos outros países da atualidade: “Não há sinceridade nem bondade, nem conhecimento de Deus na terra. Juram falso, assassinam, roubam, cometem adultério, usam de violência e acumulam homicídio sobre homicídio... Meu povo está sendo destruído por falta de conhecimento” (Os 4,1-2.6), ou seja, por ignorância.
No âmbito pessoal, o nosso maior problema não é a ignorância em si, mas o fato de que aprendemos a usar a ignorância como forma de sobrevivência, isto é, como desculpa para não nos trabalhar, para não enfrentar os verdadeiros conflitos que estão levando à ruína nosso relacionamento, para não nos desinstalar da sala da nossa casa e da frente da TV ou do computador, onde recebemos “atualizações” diárias de uma ignorância inteligentemente programada pelos meios de comunicação para nos manter “domesticados”, como aquele elefante preso a uma estaca por uma corda.
            Jesus ressuscitado “abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras...” (Lc 24,45). Até que ponto você deseja conhecer a verdade que é capaz de te libertar (cf. Jo 8,32)? Até que ponto você deseja que seja retirado dos seus olhos o véu que impede você de ver a vida como realmente ela é (cf. 2Cor 3,12-16)? Até que ponto você está disposto(a) a jogar fora a muleta da sua ignorância e ter a coragem de parar em pé sobre suas próprias pernas, ao invés de continuar a responsabilizar os outros pela sua infelicidade? 
            Senhor Jesus, hoje venho a ti com a minha ignorância. Embora ela tenha se tornado uma boa desculpa para eu não fazer as mudanças que preciso fazer, eu reconheço que preciso ser liberto(a) dela, Senhor. Preciso ter a coragem de tirar o véu, de jogar fora a muleta, de assumir atitudes concretas para não continuar mais a destruir a minha vida e a vida dos outros por causa da minha ignorância. Abre a minha inteligência, Senhor. Torna-me consciente do meu valor, da minha dignidade e da força da Tua ressurreição em mim. Torna-me também consciente do valor e da dignidade das outras pessoas. Que eu possa ajudá-las a reconheceram a força que carregam dentro de si, para se libertarem das amarras pessoais e sociais que as mantém prisioneiras de sofrimentos que, aos Teus olhos, são totalmente injustos e desnecessários. Retira-nos a todos da ignorância, Senhor, para que nenhum povo caminhe mais na direção da sua própria destruição. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DOS FERIMENTOS EM FAVOR DA VIDA NASCE A RESSURREIÇÃO

Missa do 2º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 4,32-35; 1João 5,1-6; João 20,19-31.

            Um dos ditados populares mais conhecidos é este: “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Na época atual, as pessoas que procuram por Deus querem senti-Lo. Se elas escolhem esta ou aquela igreja, esta ou aquela religião, é porque ali elas “sentem” a presença de Deus. Mas, como sentir um Deus que não podemos ver? Como nossa fé pode – e na verdade, deve – ir além do “ver” e do “sentir”, já que o apóstolo Paulo afirma que nós, cristãos, “caminhamos pela fé e não pela visão” (2Cor 5,7)?  
            No mesmo dia em que ressuscitou, Jesus encontrou seus discípulos “ao anoitecer” e com as “portas fechadas”. Esse “anoitecer” representa a sombra escura que tomou conta do coração dos discípulos por causa da morte de Jesus na cruz. Esse “anoitecer” também fala das noites escuras da nossa fé, quando não sentimos mais a presença de Deus, justamente porque não enxergamos os sinais dessa presença junto a nós. Isso faz com que fechemos as nossas portas, porque nos sentimos intimidados diante de um mundo que cada vez mais duvida da existência de Deus.
            Neste tempo pascal o Cristo ressuscitado entra em nossas noites escuras e atravessa nossas portas fechadas para nos dizer: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Os conflitos e as tribulações continuarão a se fazer presentes em nosso caminho de fé. Continuaremos a ser provados severamente (cf. Sl 118,18), mas nosso coração pode estar em paz porque Jesus venceu o mundo, o mal e a morte. Para provar isso, ele “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20). Por que as marcas dos ferimentos na cruz ainda estão presentes num corpo já glorificado, transformado pela ressurreição? Para nos lembrar de que, da mesma forma como o nosso corpo carrega agora as marcas da morte de Cristo, esse mesmo corpo carregará também as marcas da sua ressurreição (cf. 2Cor 4,10). Além disso, são as nossas feridas, nascidas da nossa luta por um mundo melhor, que podem fazer com que esse mesmo mundo ressuscite.     
           Ao ouvir o testemunho dos discípulos a respeito do encontro que eles tiveram com Jesus ressuscitado, Tomé não acreditou: “Se eu não vir a marca dos pregos..., se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20,25). Assim como Tomé, cada ser humano precisa ter o seu encontro pessoal com Jesus. Mas aqui existem dois perigos: o primeiro consiste em cairmos no erro de exigir de Jesus revelações particulares, tratamento VIP, reduzindo a nossa fé à satisfação de algum capricho ou à exigência de um “tratamento diferenciado”, porque nos julgamos pessoas “importantes / especiais”. O segundo perigo é nos esquecermos de que a fé vem da pregação da palavra de Cristo (cf. Rm 10,17), isto é, a fé nasce em nós a partir dos ouvidos e não dos olhos. Neste sentido, o próprio João termina seu Evangelho afirmando que tudo aquilo que ele escreveu “foi escrito para que vocês acreditem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham a vida em seu nome” (Jo 20,31).
            Para a nossa geração, bombardeada por tantas imagens, vale o alerta de Jesus a Tomé: “Acreditaste porque me viste? Felizes os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29). O que mantém a minha fé viva não é a imagem que eu vejo, mas a Palavra que eu leio/ouço e medito. Além disso, é a Palavra de Deus, lida ou ouvida e meditada, que me ajuda a interpretar aquilo que eu vejo, percebendo a presença escondida de Deus nos acontecimentos do dia a dia.      
            Jesus fez questão que Tomé tocasse nas suas feridas, ao mesmo tempo que o repreendeu: “Não sejas incrédulo, mas fiel” (Jo 20,27). Nossas mãos vivem tocando a tela de um celular, mas não tocam na pele de quem convive conosco. Nossos olhos se voltam constantemente para a tela de um celular, mas não se dirigem para olhar o rosto de quem convive conosco. Parece que nos esquecemos de que nós precisamos ser tocados para saber que existimos. Por outro lado, é preciso também nos questionar sobre a maneira como tocamos no outro – se é com respeito ou como quem se apossa de um objeto a ser utilizado, de um bem qualquer a ser consumido. 
            Não tenhamos medo de enxergar as nossas feridas e também as feridas de quem convive conosco ou cruza o nosso caminho. As mãos e o lado de Jesus crucificado e ressuscitado nos ensinam que ninguém ama e serve sem se ferir, mas é justamente desses ferimentos que nasce a ressurreição para o mundo. Assim como os primeiros cristãos, contagiados pela alegria da ressurreição de Jesus, não consideravam como próprias as coisas que possuíam, “mas tudo entre eles era posto em comum” (At 4,32) – até mesmo “o dinheiro... era distribuído conforme a necessidade de cada um” (At 4,34-35) –, que possamos nos sensibilizar com as necessidades materiais, humanas, afetivas ou espirituais das pessoas que convivem conosco na família, no trabalho, na escola/faculdade, na própria igreja...

Pe. Paulo Cezar Mazzi