sexta-feira, 20 de abril de 2018

O CUIDADO: NECESSIDADE E TAREFA DE TODOS NÓS

Missa do 4º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 4,8-12; 1João 3,1-2; João 10,11-18.

            O Evangelho nos coloca diante de três imagens: a imagem do verdadeiro Pastor (o “bom” Pastor), a imagem do falso pastor (o “mercenário”, aquele que trabalha tendo como foco de interesse não o bem das ovelhas, mas o dinheiro) e a imagem da ovelha. Esta última imagem tem atualmente uma conotação negativa, pois ser “ovelha” significa, aos olhos da sociedade atual, ser uma pessoa “dirigida”, “guiada”, “conduzida” por alguém, e isso parece ferir a liberdade e a autonomia que hoje o ser humano tanto reivindica para si. De fato, muitas pessoas se afastaram de qualquer tipo de igreja e de religião por não admitirem ser “domesticadas”, “conduzidas”. Porém, é cada vez maior o número de pessoas que caminham na vida perdidas, desorientadas, fazendo mal a si mesmas e aos outros, por terem se afastado da voz de Deus em sua própria consciência. São pessoas que descartaram da construção da sua vida a pedra principal, a “pedra angular” (Sl 118,22).
            O que é a pedra angular? É uma pedra que, sendo retirada da construção de uma obra, faz com que toda a obra desmorone, vindo abaixo. No sentido espiritual, descartar a pedra angular significa descuidar, tratar com descaso, abandonar aquilo que é essencial, aquilo que é o mais importante na vida. O apóstolo Pedro disse claramente que Jesus Cristo é a pedra angular (cf. At 4,11). Muitos decidiram “jogar fora” a pessoa de Jesus; outros, se não chegaram a jogá-Lo fora, decidiram não mais alimentar seu relacionamento com Ele; são pessoas que descuidaram ou mesmo abandonaram sua relação com Jesus. A consequência disso é que elas se tornaram pessoas que desabam com facilidade diante dos problemas, pessoas cuja construção de vida desmorona e arruína, por não estarem assentadas/fundamentadas sobre um alicerce sólido.         
            Ao se referir a si mesmo como “o bom Pastor” e ao falar de cada um de nós como “ovelha”, Jesus quer nos lembrar que todo ser humano depende de algo ou de alguém. Ninguém é autossuficiente. Quando escolhemos não depender de Deus, passamos a depender do mundo; quando escolhemos não viver sob o domínio do verdadeiro e bom Pastor, acabamos nos deixando dominar pelos lobos do nosso tempo; quando não aceitamos viver sob o domínio do bom Pastor, acabamos por viver sob o domínio de mercenários, de pessoas e situações que não se importam verdadeiramente com o nosso bem, mas visam unicamente lucrar conosco, ganhar dinheiro em cima da nossa fragilidade, da nossa ignorância, da nossa carência.
A ovelha simboliza toda pessoa que precisa ser cuidada. Quem cuida de você? Você se deixa cuidar por Deus? Além disso, quais pessoas estão hoje sob os seus cuidados? Você cuida delas segundo o modelo do “bom Pastor”, dando a vida e se sacrificando pelo bem dessas pessoas, ou cuida delas segundo o antimodelo do “mercenário”, negando-se a se sacrificar pelo bem dessas pessoas ou, pior, fazendo do seu aparente cuidado uma cortina de fumaça: enquanto elas pensam estar sendo cuidadas por você, você as está roubando, lucrando com a ignorância religiosa dessas pessoas, que confiam em você quase que cegamente?
Não há como negar que nós estamos vivendo num tempo de grande carência de bons pastores e de multiplicação de mercenários, de pessoas que fazem o mínimo, que oferecem ao seu rebanho apenas o básico, o arroz com feijão, porque seu coração de pastor está num outro lugar, pulsando não por suas ovelhas em geral, mas apenas por uma em particular. Também não há como negar que existe hoje um forte desencanto pelos pastores, e esse desencanto tem gerado desconfiança, medo, afastamento e dispersão no rebanho. Mas aqui precisamos recordar as palavras do salmista: “É melhor buscar refúgio no Senhor, do que pôr no ser humano a esperança; é melhor buscar refúgio no Senhor, do que contar com os poderosos deste mundo!” (Sl 118,8-9). Nossos olhos precisam se manter fixos em Jesus, o bom Pastor, e não se perder na desilusão que possamos ter com os pastores humanos.
“Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,14-15). Jesus mantém com cada uma das suas ovelhas uma relação única, especial, pessoal; Ele conhece os seus sofrimentos, dramas, sonhos e esperanças. Cada um de nós é chamado a aprofundar o seu relacionamento pessoal com Jesus porque só n’Ele encontramos salvação, como disse claramente Pedro, cheio do Espírito Santo: “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos” (At 4,12). Aqui é importante repetir: só em Jesus Cristo encontramos a salvação porque Ele é a pedra principal da construção da nossa vida: quando descartamos essa pedra, todo o edifício da nossa vida desaba.
Ao se declarar como bom Pastor desse imenso rebanho que é a humanidade, Jesus também disse: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16). Essas palavras nos falam da nossa missão de cristãos, de pessoas chamadas a cuidar das ovelhas que a vida coloca próximas de nós. Tudo o que existe e vive precisa ser cuidado para continuar a existir e a viver: uma planta, um animal, uma criança, um idoso, o planeta Terra... Sem cuidado, deixamos de ser humanos. Sem cuidado, deixamos de ser bons pastores e nos tornamos mercenários, pessoas que só agem por interesse. Santo Agostinho, no século IV, escrevia: “Jesus diz a Pedro: Apascenta as minhas ovelhas, e não as tuas ovelhas: apascenta-as como minhas e não tuas”. Que o nosso cuidado para com as pessoas leve isso em conta.
Hoje é o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Em sua mensagem para este dia, o Papa Francisco nos fala da importância de escutar, discernir e viver segundo a vocação que recebemos de Deus. Somos chamados a “escutar” o Senhor que nos fala muitas vezes “de forma silenciosa e discreta, sem Se impor à nossa liberdade”, afirma Francisco. Deus fala conosco especialmente na dor e na dispersão das Suas ovelhas, convidando-nos a cuidar delas como bons pastores. Porém, como vivemos num tempo marcado por muito barulho, precisamos “discernir” a voz do Senhor, essa voz que nos ajuda a “fazer as opções fundamentais” que nos configuram a Jesus Cristo, o profeta de Deus. “Como um vento que levanta o pó, o profeta perturba a falsa tranquilidade da consciência que esqueceu a Palavra do Senhor, discerne os acontecimentos à luz da promessa de Deus e ajuda o povo a vislumbrar, nas trevas da história, os sinais duma aurora”, explica Francisco. Por fim, somos chamados a abraçar a nossa vocação e a “viver” de modo digno da mesma. “A vocação é hoje! A missão cristã é para o momento presente! E cada um de nós é chamado – à vida laical no matrimônio, à vida sacerdotal no ministério ordenado, ou à vida de especial consagração – para se tornar testemunha do Senhor, aqui e agora”, diz Francisco.

Oração: Senhor Jesus, Tu és a pedra angular da construção da minha vida. Sem apoiar-me em Ti eu nada posso; sem orientar-me pela Tua palavra, o edifício da minha vida desaba. Sejas Tu, Senhor, o meu fundamento, o meu alicerce. Ampara-me sobre a rocha da Tua verdade, para que a construção da minha vida resista às tempestades desse mundo. Tu és, Senhor, o meu Pastor, por isso nada em minha vida faltará!  
Sou Tua ovelha, Senhor; pertenço ao Teu rebanho. Concede-me um coração capaz de ouvir, reconhecer e obedecer Tua voz. Livra-me do engano e das mentiras dos mercenários, daqueles que falam de Ti, mas têm o coração longe do Teu Evangelho, aqueles cujo coração está corrompido pela ganância do dinheiro. Protege-me dos lobos, Senhor; protege-me daqueles que atacam e agridem a minha vida física, emocional e espiritual. Concede-me discernimento para que eu não me deixe enganar por aqueles que, na política ou na religião, são lobos disfarçados de cordeiros. Tu és, Senhor, o meu Pastor, por isso nada em minha vida faltará! 
Muitos se desencantaram com os Teus pastores, Senhor Jesus. Muitos foram feridos em seu corpo e em sua alma por pastores pedófilos, que não roubaram apenas a inocência de crianças e adolescentes, mas roubaram-lhes também a fé! Visita, Senhor, todas as pessoas que estão machucadas em sua fé. Devolve-lhes a confiança em Ti. Que elas sejam curadas pela força do Teu amor de bom Pastor. Livra a nossa Igreja dos maus pastores e suscita no meio de nós pastores segundo o Teu coração! Tu és, Senhor, o meu Pastor, por isso nada em minha vida faltará! 
Pastorear significa cuidar. Cuida de cada um de nós, Senhor, e ajuda-nos a cuidar de todos aqueles que se encontram à nossa volta. Configura cada pai, mãe, educador, cada líder político e religioso ao Teu coração de bom Pastor. Toma em Teus braços cada ovelha que se encontra perdida, extraviada, doente, machucada, ameaçada em nosso mundo. Ensina-nos a dialogar com as outras igrejas e as outras religiões, para que, juntos, possamos agir na defesa e no resgate da vida de cada ovelha desse imenso rebanho que é a humanidade. Congrega-nos a todos no Teu único rebanho! Amém! Tu és, Senhor, o meu Pastor, por isso nada em minha vida faltará!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 13 de abril de 2018

COMO EU LIDO COM O MEU "É PRECISO"?

Missa do 3º. Dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 3,13-15.17-19; 1João 2,1-5a; Lucas 24,35-48.

            Não é uma tarefa fácil devolver vida a quem desistiu de viver, assim como não é uma tarefa fácil devolver saúde a quem se habituou a viver como uma pessoa doente – pior ainda, a se identificar com sua doença. Na verdade, o nosso grande desafio, como testemunhas do Senhor ressuscitado, é ajudar as pessoas do nosso tempo – muitas delas mortas em sua fé e em sua esperança – a recuperarem o sentido da própria vida, a desejarem voltar a viver a partir da sua fé e da sua esperança.
            O Evangelho que acabamos de ouvir nos mostra que Jesus encontrou muita resistência no coração dos discípulos em relação a crer na Sua ressurreição. Eles estavam tomados pelo medo, pelas preocupações e pelas dúvidas. Assim como os discípulos, nós vivemos num mundo onde os sinais da ressurreição, os sinais da vitória da vida sobre a morte, são muito pequenos – até mesmo insignificantes – diante dos sinais da morte que parece sempre sobrepor-se à vida. Se a cada domingo nós celebramos a nossa comunhão com a Palavra e com a Eucaristia do Senhor ressuscitado, durante a semana temos que lidar com acontecimentos que parecem negar a ressurreição, como por exemplo uma doença, um problema, um conflito, sem falar das más notícias como as guerras, os acidentes, as injustiças, a corrupção etc. São fatos que, se não chegam a diluir a nossa fé na ressurreição de Jesus, parecem diluir a nossa fé e a nossa esperança em viver como homens e mulheres ressuscitados e capazes de gerar ressurreição em nossa sociedade.    
            Mas este terceiro domingo da Páscoa nos mostra a preocupação e o esforço de Jesus em acordar os discípulos e retirá-los do sono da morte, do desânimo, da apatia, do pessimismo e do derrotismo, como se Ele lhes dissesse: ‘É inconcebível um cristão sem fé e sem esperança! É inconcebível um discípulo meu entregue ao desânimo! “Vede minhas mãos e meus pés!” (Lc 24,39). Se eu venci o sofrimento e a morte, vocês podem vencê-los também! Se eu abracei a minha hora de cruz permanecendo fiel à missão que o Pai havia me confiado, vocês também podem fazer o mesmo! Se eu consegui amar até o fim, vocês também conseguirão! Não permitam que o mundo enterre a fé e a esperança de vocês!’
            Depois de ter comido um pedaço de peixe assado com os discípulos, para mostrar-lhes que ele não era um espírito ou um fantasma, mas um corpo ressuscitado, Jesus lhes disse: “(...) era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44). Há uma carga teológica muito grande nessa expressão de Jesus, tão cara ao evangelista Lucas: “era preciso”. Ela significa que nada na vida de Jesus foi acidental ou obra do acaso. Tudo o que aconteceu com Jesus – sobretudo o fato de ele ter sido rejeitado pelos homens e morto numa cruz – foi previsto pelo Pai. Deus Pai não só previu, mas também permitiu o sofrimento de seu Filho, revertendo tal sofrimento para a salvação da humanidade. Mas, sobretudo, o Pai reabilitou seu Filho diante da humanidade, confirmando cada palavra sua e cada gesto seu ao ressuscitá-lo dos mortos e estabelecê-lo como Juiz e Senhor de cada ser humano (cf. At 10,42).
            Na vida de todo cristão, na vida de cada um de nós, também existe um “é preciso”. “É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). Por quê? Porque mesmo depois que Jesus venceu a morte e ressuscitou, o mundo continua a ser um lugar marcado pela cultura de morte, pela violência, pelo descaso para com a vida, um mundo que prioriza o mercado em detrimento do ser humano, um mundo que ataca a família, rejeita Deus, opõe-se à Igreja, combate o Evangelho e produz destruição para si mesmo. Nós, cristãos, precisamos estar conscientes de que este mesmo mundo que feriu Jesus também nos ferirá, na medida em que procurarmos viver como Jesus viveu. Portanto, cada um de nós precisa assumir aquilo que diz respeito ao seu “é preciso”.
            Para cada um de nós existe um “é preciso”: É preciso enfrentar o mal que há no mundo; é preciso combater o bom combate; é preciso aceitar o fato de que o Reino de Deus ainda está em processo; é preciso aprender a suportar as dores de parto, até que a ressurreição de Cristo possa gerar a vida nova em cada pessoa que convive conosco; é preciso enfrentar o medo, as preocupações e as dúvidas que às vezes falam mais alto em nós do que a verdade da ressurreição; é preciso testemunhar Cristo ressuscitado não só para aqueles que O desconhecem, mas também para aqueles que O rejeitam; é preciso sofrer pela causa do Evangelho, lutar e sofrer para restabelecer a verdade e a justiça na terra, sabendo em quem depositamos a nossa fé.
            Sofrendo por causa do Evangelho, o apóstolo Paulo disse: “sei em quem depositei a minha fé” (2Tm 1,12). Nós devemos saber em quem colocamos a nossa fé: no Senhor ressuscitado, que a cada domingo se coloca junto a nós, como se colocou junto aos seus discípulos, para nos falar a partir das Escrituras e partir o pão para nós. Nós colocamos a nossa fé no Senhor Jesus, que está junto do Pai como nosso Defensor: ainda que em nossa fraqueza possamos cometer algum pecado, Ele nos liberta da condenação do pecado e nos concede o Seu perdão (cf. Lc 24,47; 1Jo 2,2). Nós colocamos a nossa fé no Cristo ressuscitado que hoje abre a nossa inteligência para que possamos entender as Escrituras (cf. Lc 24,45) e termos a consciência de que o sofrimento que atinge a nossa fé e a nossa esperança não é um sofrimento inútil, mas necessário para a ressurreição nossa e de toda a humanidade.

Oração: Senhor Jesus, seguindo o teu exemplo, quero abraçar o meu “é preciso”. Se for preciso sofrer pela causa do teu Evangelho, se for preciso sofrer para ajudar as pessoas à minha volta a ressuscitarem, quero abraçar esse sofrimento com alegria, na certeza de que ele será acompanhado pela tua graça, pela consolação do Espírito Santo em mim. Abra a minha inteligência, Senhor! Concede-me o entendimento da Sagrada Escritura. Faz-me acolher com fé sincera e profunda a verdade do teu Evangelho, que é força de salvação para todo aquele que crê. Tua Palavra é espírito e vida, Palavra de vida eterna, portadora de ressurreição, Palavra que faz passar da morte para a vida aquele que a acolhe na fé. (cantando) Tu que abres as portas, Tu que abres os caminhos, Tu que abres os mares, abre também pra mim! Tu que amas os fracos, Tu que encontras os perdidos, Tu que dissipas a morte, vem dissipá-la em mim! Vem dissipá-la em mim, Senhor. Vem dissipá-la em mim. Vem dissipá-la em mim, Senhor. Vem dissipá-la em mim... Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me, Senhor, pelo poder do Teu amor! Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me, Senhor! Ressuscita-me! Ressuscita-me, Senhor! (Pe. Fabio de Melo, Abrindo mares).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 5 de abril de 2018

FERIDAS QUE GERAM RESSURREIÇÃO PARA A HUMANIDADE

Missa do 2º. dom de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 4,32-35; 1João 5,1-6; João 20,19-31.

            No domingo de Páscoa, Jesus encontrou seus discípulos atrás de portas fechadas, tomados pelo medo. É uma imagem muito atual e que expressa o estado de espírito de muitos de nós: portas fechadas, por causa do medo. Sem dúvida, o medo da violência tem nos levado a fechar as portas das nossas casas. Mas há um outro fator que tem feito muitas pessoas fecharem a porta do seu coração para Deus: a falta de fé. Por terem enfrentado uma situação de cruz, ou pelo fato de Deus não intervir para impedir uma determinada situação de cruz na humanidade, muitas pessoas fecharam a porta para a fé: para elas, não tem sentido crer num Deus que não impede a cruz na história humana.
É possível que muitos de nós também hoje estejamos com nossas portas fechadas, trancados em nosso medo, cansaço, desgaste, abatimento ou desânimo. Mas é consolador saber que as nossas portas fechadas não são impedimento para que o Senhor ressuscitado entre e nos diga: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). Jesus, ao dizer isso, mostrou suas mãos e o seu lado, feridos na cruz. Suas mãos e o seu coração lutaram e se feriram, para devolver ao ser humano a vida, a justiça e a paz que vêm de Deus. E as nossas mãos, como estão? São mãos que lutam para que o mundo se torne mais justo? Quem luta em favor da vida, da justiça e da paz tem sua vida marcada por conflitos...
“A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). O primeiro dom da Páscoa é a paz, a paz daquele que lutou e venceu o mundo, a paz daquele que tem em seu Corpo ressuscitado as marcas da cruz, mas esse mesmo Corpo se encontra agora transfigurado, glorificado, para nos dizer que mesmo quando nos ferimos ao promover ou defender a vida, essas feridas se converterão em fonte de ressurreição para a humanidade. O segundo dom da Páscoa é o Espírito Santo: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O Espírito Santo é a promessa da nossa ressurreição, a força do Alto que nos envia para a missão de testemunhar Jesus Cristo ressuscitado e o seu Evangelho como força de salvação para todo aquele que crê. Jesus ressuscitado quis que o Espírito Santo se colocasse junto a cada um de nós como Defensor e Consolador.
            Quando o Senhor ressuscitado teve seu primeiro encontro com os discípulos, Tomé não estava presente, e ao ouvir falar que Jesus havia ressuscitado, duvidou: “Se eu não vir..., não acreditarei” (Jo 20,26). Quais são as condições que nós costumamos impor a Deus para crer? Na verdade, Tomé simboliza a necessidade que cada um de nós tem de fazer uma experiência pessoal com o Senhor ressuscitado. Sua fé, enfraquecida pela cruz, é o retrato da nossa fé, muitas vezes cansada, desgastada, uma fé até mesmo humilhada e ridicularizada pelo mundo atual. Jesus fez questão de encontrar Tomé oito dias depois da Páscoa, não somente por causa dele, mas por causa de cada um de nós, que também vacilamos em nossa fé. E foi pensando em cada um de nós que Jesus disse a Tomé: “Acreditaste, porque me viste? Felizes os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29).
Feliz aquele que não reduz a sua fé àquilo que pode ver, tocar, sentir e comprovar. Feliz aquele que não duvida do testemunho daqueles que comeram e beberam com o Senhor após a sua ressurreição (cf. At 10,40-41). Feliz aquele que escolheu sustentar-se na vida não a partir das coisas que vê, mas a partir daquilo que crê. Feliz aquele que, mesmo não tendo todas as perguntas respondidas, continua a caminhar. Feliz aquele que, mesmo não tendo todos os problemas resolvidos, continua a confiar. Feliz aquele que acolhe o Evangelho como palavras que foram escritas na fé do evangelista e para suscitar a fé no coração daquele que lê, fé na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus, o único no qual temos Vida (cf. Jo 19,31).    
Segundo o apóstolo João, nossa vida cristã sempre será vivida dentro de um combate com o mundo, um combate onde ou vencemos o mundo ou somos vencidos por ele. O “mundo” é tudo aquilo que trabalha contra a vida, a justiça e a paz que Deus quer para a humanidade. Em primeiro lugar, precisamos aceitar o fato de que a nossa fé sempre será uma luta, um combate, e quem trava esse combate sairá vitorioso, mas também ferido. Em segundo lugar, nossa fé precisa ser defendida diante de um mundo que a combate e a deseja eliminar. Não nos esqueçamos de que “a vitória que vence o mundo é a nossa fé” (1Jo 5,4): sem a força da fé, “a vida facilmente se torna um arco cuja corda está arrebentada e do qual nenhuma flecha pode ser lançada” (Henri Nouwen).  
Por fim, neste segundo domingo da Páscoa, somos convidados a ter como exemplo a comunidade dos primeiros cristãos, cujas mãos aprenderam a trabalhar na direção oposta à do mundo, não acumulando, mas partilhando: “Entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). Tudo o que eles possuíam “era distribuído conforme a necessidade de cada um” (At 4,35). As mãos dos primeiros cristãos estavam construindo um mundo diferente porque o coração deles era movido pela fé na ressurreição do Senhor Jesus. Que assim também as nossas mãos testemunhem a nossa fé no Senhor ressuscitado e nos ajude a viver a vida presente sob a luz da nossa futura ressurreição.

Oração: “Senhor Jesus, entra em minha vida, mesmo quando as portas estiverem fechadas pelo meu medo diante do mundo e pela minha descrença na tua ressurreição. Dá-nos a tua paz, que é a vitória sobre o mundo. Segura minhas mãos com as tuas mãos feridas, para que as minhas tenham a coragem de se abrirem para partilhar e, se preciso for, de se ferirem na luta em favor de um mundo mais justo. Infunde em mim a força do teu Espírito diante dos conflitos, para que eu possa experimentar a força da fé que me faz vencer o mundo e não ser vencido(a) por ele. Quero viver a minha vida como o Senhor viveu a sua, isto é, trabalhando pela ressurreição da humanidade. Creio em ti, Ressuscitado, mais que São Tomé, mas aumenta na minh’alma o poder da fé! Guarda a minha esperança, cresce o meu amor. Creio em ti, Ressuscitado, meu Deus e Senhor!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 31 de março de 2018

SOMOS PESSOAS PORTADORAS DA SEMENTE DA RESSURREIÇÃO

Missa do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9.

            Enquanto existe vida, existe esperança. Enquanto existe vida, é possível lutar: lutar para vencer uma doença, para superar uma dificuldade; lutar para que se faça justiça, para que nos defender de algo que nos ameaça. Enquanto nos sentimos vivos, nós lutamos; enquanto nos sentimos vivos, não perdemos a esperança. Mas quando chega a morte, não há mais esperança. Quando chega a morte, nos sentimos definitivamente vencidos. Não há mais porque lutar. Não há mais pelo quê esperar. 
Aos olhos dos discípulos, Jesus havia sido definitivamente vencido pela morte. Mas dois acontecimentos devolveram vida e esperança aos discípulos: o túmulo vazio e o encontro com Jesus Ressuscitado. Neste domingo de Páscoa, portanto, nós temos duas “palavras” que testemunham que Jesus ressuscitou: a primeira é a “palavra” do túmulo vazio (cf. Jo 20,1-9); a segunda é a palavra daqueles que Deus escolheu para serem testemunhas de seu Filho ressuscitado: os que comeram e beberam com Ele depois que ressuscitou dos mortos (cf. At 10,40-41).
Segundo o apóstolo Paulo, toda a nossa fé se baseia numa única verdade: Cristo ressuscitou! Se Ele não houvesse ressuscitado, nós não teríamos no quê acreditar; nossa fé seria vazia, desprovida de sentido; nós não teríamos onde nos agarrar (cf. 1Cor 15,14). Porém, o apóstolo nos esclarece o que significa crer que Jesus ressuscitou: “Se temos esperança em Cristo (ressuscitado) somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens” (1Cor 15,19). Se a nossa fé no Cristo ressuscitado serve de esperança somente para as coisas presentes, como a superação de uma dificuldade, a solução de um problema, nós não entendemos nada a respeito da ressurreição, uma vez que ela diz respeito à verdadeira Vida, à Vida Eterna.    
            Sim! A fé no Cristo ressuscitado também tem repercussões para esta vida presente. Se a morte nos iguala a todos – no sentido de que todo ser humano morre –, a única coisa que nos diferencia é a nossa fé na ressurreição. Quem crê na ressurreição não apenas enxerga a morte de uma outra forma, como também vive sua vida de uma outra forma. “Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã”. Porque Cristo vive, depois de ter enfrentado a morte de cruz, eu posso lidar a minha cruz de uma maneira diferente. Porque Cristo vive, eu posso seguir pela vida sabendo que nada poderá me separar do amor de Deus, manifestado na pessoa de seu Filho Jesus (cf. Rm 8,37-39). Porque Cristo vive, eu posso suportar minhas provações crendo que Deus tem o poder de ressuscitar os mortos, e nessa minha fé Ele me devolve, de maneira transformada, tudo aquilo que eu entreguei em Suas mãos (cf. Hb 11,17-18). Porém, se eu não creio que Cristo ressuscitou, me torno como aquelas pessoas que cedem à injustiça e à maldade do mundo, por não acreditarem que exista um prêmio para a santidade, uma recompensa para quem vive segundo a justiça (cf. Sb 2,22).   
A boa notícia da Páscoa é que “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que adormeceram... Em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15,20.22). “Primícias” significam “os primeiros frutos de uma colheita”. Na ressurreição de seu Filho, o Pai iniciou a grande colheita que nos dá a certeza de que um dia seremos recolhidos por Ele, isto é, que seremos ressuscitados. Por isso, dizemos com o salmista: “Não morrerei, mas, ao contrário, viverei, para contar as grandes obras do Senhor!” (Sl 118,17). E uma vez que cremos na ressurreição de Cristo, devemos nos esforçar “por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus” (Cl 3,1-2). Devemos viver com o coração voltado para o alto, como pessoas que, embora tenham que lidar diariamente com a cruz, são pessoas portadoras da semente da ressurreição.
Toda semente guarda uma vida escondida dentro de si. Desse modo, o apóstolo Paulo afirma que a nossa verdadeira vida “está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). “Vida escondida” significa que a nossa fé na ressurreição de Cristo e na nossa própria ressurreição não vai retirar do caminho da nossa vida todas as dificuldades, mas vai nos dar a certeza de que nós seremos unidos ao triunfo de Cristo sobre todo tipo de dor, de fracasso e de morte. De fato, nós ainda não nos vemos plenamente ressuscitados, porque diariamente temos que fazer a nossa páscoa, a nossa passagem do pecado para a santidade, das trevas para a luz, da mentira para a verdade, e nem sempre estamos dispostos fazer essa passagem. Isso significa que a Páscoa não é somente um dom do Pai para nós, mas também uma tarefa que temos que realizar todos os dias, até que Cristo, nossa vida, se manifeste e revele plenamente a glória da sua ressurreição em cada um de nós (cf. Cl 3,4).  
No campo do coração de cada pessoa que encontrarmos neste Tempo Pascal, lancemos a semente da ressurreição! Diariamente encontramos pessoas que desistiram de buscar as coisas do alto e passaram a viver arrastadas pelas coisas da terra, pessoas que desistiram de crer na força da Páscoa, desistiram de se esforçar em fazer a passagem da morte para a vida porque esta passagem se apresenta, à primeira vista, humanamente impossível. Mas a Ressurreição de Cristo nos ensina que a Páscoa não é obra nossa, e sim obra de Deus em nós! É Ele quem nos faz passar! A fé na ressurreição nunca é a fé naquilo que você pode fazer, mas sempre é a fé naquilo que Deus pode fazer em você.

Oração: Visita, Senhor, o meu túmulo. Pronuncia sobre o meu vazio a Palavra da ressurreição! Reaviva a minha fé em Teu Filho ressuscitado. Que a minha esperança em teu Filho Jesus não seja somente para esta vida presente, mas, sobretudo, para a Vida Eterna! Devolve-me a fé na ressurreição de Teu Filho e na minha futura ressurreição. Que ao final da minha existência terrena eu seja recolhido(a) junto com teu Filho ressuscitado e possa contemplar-Te face a face na glória do Teu Reino. Ensina-me, Pai, a buscar as coisas do alto; ensina-me a viver com o meu coração voltado para Ti. Enfim, Senhor, onde quer que a Tua mão me coloque neste mundo, que eu germine e frutifique como uma semente portadora de ressurreição. Por teu Filho ressuscitado, Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 30 de março de 2018

ONDE HÁ CHEIRO DE MORTE, LEVE O PERFUME DA RESSURREIÇÃO!

Missa da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,1.26-31a; Êxodo 14,15 – 15,1; Baruc 3,9-15.32 – 4,4; Romanos 6,3-11; Marcos 16,1-7.

Na noite de quinta-feira santa, nós começamos a fazer, com Jesus, a nossa Páscoa. Somos “pessoas pascais”, pessoas convidadas por Deus a fazer a passagem da morte para a vida. É a Palavra do Senhor que nos abre o caminho, para que possamos passar. Quando Israel estava no exílio da Babilônia (séc. VI a.C.), e não via mais como passar da morte para a vida, Deus dirigiu a sua Palavra àquele povo para lembrá-lo de que Ele é o Criador: Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, os abençoou, tornou-os capazes de fecundidade, capacitou o ser humano para o trabalho e lhe garantiu a sobrevivência na terra alimentando-o com todos os vegetais. “E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Se nós hoje contemplamos essa imagem do Paraíso, não é para sentirmos saudade de um passado que não voltará mais, mas para termos a esperança de um futuro que será criado por Deus, que tem por desígnio restaurar todas as coisas em seu Filho Jesus (cf. Ef 1, 9-10; Cl 1,19-20).
Justamente porque somos pessoas pascais, o Senhor hoje se dirige a nós e nos convida a nos levantar das nossas quedas, do nosso desânimo, da nossa falta de esperança, e nos pôr a caminho: “Diga aos filhos de Israel que se ponham em marcha” (Ex 14,15). O texto bíblico que ilumina especialmente esta noite de Páscoa é a libertação de Israel do Egito, uma libertação sofrida e obtida graças à parceria entre Moisés e Deus, uma forma de nos tornar conscientes de que nós só podemos ser libertos quando nos dispomos a fazer a nossa parte, confiando que Deus fará a d’Ele para nos retirar da situação de escravidão e morte e nos levar para uma situação de liberdade e vida.
A passagem pelo mar Vermelho nos lembra que não existe passagem sem luta, sem enfrentar o medo e a dor. Mas nós nunca estamos sozinhos nesta passagem: Deus está conosco! É Ele quem nos faz passar! Como fez com Israel, Ele se coloca junto a nós, na imagem da nuvem, tenebrosa para os egípcios, mas luminosa para os israelitas. Sempre que você se propõe a passar da morte para a vida, vai sentir-se perseguido por uma nuvem de medo e de ameaça, tentando convencê-lo de que a passagem não vai dar certo, a travessia não vai funcionar. Não preste atenção a essa nuvem tenebrosa que está atrás de você. Mantenha o seu olhar na nuvem luminosa, que é o próprio Deus a lhe dizer: ‘Confie em mim. Eu te ajudo a atravessar!’ Se Deus nos convidou a fazer a passagem da escravidão para a liberdade, da morte para a vida, devemos crer que Ele abrirá o caminho e nos fará passar. O nosso Deus nunca começa uma obra e depois a abandona pela metade (cf. Fl 1,6).
Nenhum texto bíblico do Antigo Testamento evidenciou tanto o poder de Deus em salvar o seu povo como a narrativa do Êxodo. No entanto, a memória deste acontecimento não foi suficiente para fazer Israel caminhar confiante e humildemente com o seu Deus. Depois que se instalou na Terra Prometida e começou a ter uma vida repleta de bem estar, Israel afastou-se de Deus e esqueceu-se de onde veio. Como consequência, perdeu a Terra e voltou a ser escravo de um outro povo. Na amarga experiência do exílio, Israel se deu conta de que “todos os que seguem (praticam) a sabedoria (Palavra) viverão; todos os que a abandonam morrerão” (Br 4,1). Contudo, Deus não abandonou seu povo no exílio, mas o convidou a arrepender-se e a voltar-se para Ele como fonte de salvação: “Volte atrás, Jacó!... Caminhe na luz da minha Palavra! Não entregue aos outros a sua glória!” (Br 4,2-3). Este é, também, o alerta do Senhor para nós: aquilo que conquistamos com tanto sacrifício, aquela passagem que foi realizada com tanta luta e tanto sofrimento, pode ser cancelada porque descuidamos de manter nossa fidelidade diária a Deus e nossa obediência à sua Palavra...
Embora nenhum de nós tenha passado pelas águas do mar Vermelho, o apóstolo Paulo nos recorda nesta Vigília Pascal que todos nós passamos pelas águas do Batismo. Para a maioria de nós, isso aconteceu quando éramos crianças, para nos lembrar que a salvação que o batismo nos dá é graça de Deus e não mérito nosso. Ser batizado significa ser mergulhado na morte de Cristo. Como nos ensina o apóstolo, nossa tarefa diária consiste em morrer para o pecado e viver para Deus, em Cristo Jesus, tendo consciência de que o Batismo nos identificou a Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, para nos assemelharmos a Ele também na sua ressurreição. Essa será a etapa final da nossa Páscoa.
            Finalmente, o Evangelho desta noite nos fala do que aconteceu no primeiro dia da semana, após o sepultamento: algumas mulheres foram comprar perfumes para ungir o corpo de Jesus. O perfume simboliza o amor que é mais forte que a morte; simboliza a fé na vida eterna, imagem da alma que não morre com o corpo, mas que sobe (exala) até Deus. Se é verdade que cada dia que nasce nos lembra que somos mortais (a imagem do túmulo), há um sinal que diz que a morte não é mais um ponto final na vida humana (a grande pedra que impedia o acesso ao corpo de Jesus foi retirada). Aquela pedra não foi retirada por alguém de fora, mas por Alguém de dentro do túmulo, Alguém que todos pensavam que estava morto para sempre.
A pedra que nos mantinha a todos fechados em nossos túmulos, aprisionados para sempre na morte, foi retirada! Dentro do túmulo não há mais uma vida que terminou na morte, um sonho de que desfez para sempre, uma luz que se apagou definitivamente. Dentro do túmulo há um jovem – imagem da vida que se renova – dizendo que Jesus de Nazaré, que foi crucificado, ressuscitou! Portanto, esta noite de Páscoa nos convida a retirar a pedra do túmulo do nosso desânimo, do nosso abatimento, túmulo que representa tantas atitudes nossas por meio das quais nos enterramos vivos, morremos antes da hora, abandonamos os nossos valores, pensando que ficar dentro de um túmulo seja melhor do que sair e enfrentar a vida e correr o risco de sermos machucados.
“Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele irá à vossa frente, na Galileia. Lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito” (Mc 15,6-7). O Evangelho da Vigília Pascal poderia nos colocar em contato com Jesus Ressuscitado (o que será feito nos dois próximos domingos), mas ele nos coloca, primeiro, diante de um túmulo vazio, túmulo que nos lembra que crer na ressurreição não significa crer que não vamos morrer, ou que vamos ser poupados de sofrimento, mas significa crer que vamos vencer a morte e o sofrimento. O nosso sofrer e a nossa morte não são a negação da ressurreição, mas o lugar existencial onde experimentaremos a nossa própria ressurreição (cf. 2Cor 5,2-4).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 28 de março de 2018

VOCÊ TAMBÉM JÁ FOI ALCANÇADO (A)

Adoração da Cruz. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

            A ciência e a tecnologia nos prometem um mundo e um futuro sem dor, um mundo e um futuro onde não haverá mais acidentes (tudo será controlado por computadores, inclusive os carros), onde as doenças não serão apenas curadas, mas mesmo impedidas de se manifestarem, graças à manipulação genética. Sonha-se com um mundo e um futuro onde – quem sabe – a própria morte será eliminada! No entanto, o mesmo ser humano que busca formas de não sofrer e de não morrer, produz sofrimento e morte; o mesmo ser humano que sente repulsa da cruz produz situações de cruz para si mesmo e para o seu semelhante.
            A liturgia desta tarde de sexta-feira santa nos coloca diante da Cruz. Ela não é um símbolo inofensivo. Na verdade, a Cruz sempre provoca uma reviravolta em nossa maneira de compreender Deus e a própria vida. Ela nos lembra que os caminhos que Deus usa para nos salvar são muito diferentes do que aqueles que imaginamos. Além disso, quando pensamos que o sentido da nossa vida está em ter sempre boa saúde, superar todas as dificuldades, obter todas as respostas, resolver todos os problemas e sermos bem sucedidos em tudo o que fazemos, a Cruz fere o nosso orgulho e abate a nossa autossuficiência, nos lembrando de que nenhum ser humano se salva por sua própria força.
Mas há um lado positivo em tudo isso. Ao derrubar nosso orgulho e nossa autossuficiência no chão, ao desmontar os nossos esquemas, a Cruz nos faz enxergar que até mesmo quando fracassamos aos olhos dos homens, até mesmo quando descemos no mais fundo do poço, justamente ali pode ser dar a nossa redenção, a nossa cura, a nossa salvação. Como escreveu o Pe. Amedeu Cencini, “desde que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar e causa de salvação”. Desde que Cristo sofreu e morreu na cruz, toda dor que você sofre e toda morte que você enfrenta podem se tornar experiências de redenção, de cura e de salvação para você e para a humanidade.
Nesta tarde, nós não olhamos apenas para a Cruz, mas, sobretudo, para o Crucificado: “Tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse” (Is 53,2). Porque somos influenciados pela cultura da aparência, nós desviamos o olhar de tudo o que é feio, de tudo o que nos lembra fraqueza, imperfeição, dor, envelhecimento e morte. Mas o Crucificado nos ensina que também fazem parte da vida o deficiente, o fraco, o imperfeito, aquilo que consideramos feio, desprezível e sem importância. Se nós queremos ser curados, precisamos aprender a ouvir as nossas feridas, e não fazer de conta que elas não existem. Se nós queremos um mundo melhor, precisamos ouvir o grito dos crucificados, e não ignorá-los.
  O Crucificado “era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos... A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores” (Is 53,3.4). A verdade é que nós achamos que o sofrimento do outro é problema dele e não nosso. A verdade é que nós sempre achamos que as coisas ruins podem acontecer com os outros, nunca conosco. A verdade é que nós esperamos que Deus “funcione” para nós como blindagem diante de todo tipo sofrimento. A verdade é que nós, muito diferente de Jesus, procuramos afastar de todas as maneiras o cálice da dor, esquecendo-nos de que este cálice pode conter o remédio amargo para nos curar, a correção necessária para nos resgatar e nos devolver ao caminho da justiça, da santidade e da salvação. A verdade é que muitos de nós estamos criando as futuras gerações num mundo de mentiras, onde não há dor, nem luta, nem sacrifício, nem frustração, nem morte, um mundo onde tudo é fácil: basta fazer manha, fazer chantagem, fazer corpo mole, e as dificuldades desaparecerão.  
            Ao profetizar a sua morte de cruz, Jesus havia dito: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). O que nos atrai para o Crucificado é a sua atitude de recolher em si toda dor, todo sofrimento, toda morte, e entregar tudo ao Pai, o único que pode transformar a dor em alegria, a morte em vida. O que nos atrai para o Crucificado é reconhecê-Lo como o Divino Pontífice, a ponte que foi estendida entre o céu e a terra, para reconciliar o homem com Deus. Havia um abismo que separava a humanidade de Deus (cf. Is 59,1-2), mas sobre este abismo foi deitada a Cruz do Crucificado. Por isso, o autor da carta aos Hebreus nos convida: “Permaneçamos firmes na fé que professamos. Com efeito, temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas... Aproximemo-nos então, com toda a confiança, do trono da graça,  para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4,14-16).
            A Cruz tornou-se para nós o trono da graça, porque Aquele que nela esteve crucificado agora está vivo e ressuscitado diante do Pai, intercedendo por nós dia e noite (cf. Hb 7,24-25). Ainda que, como Ele, nós às vezes nos sintamos como um vaso despedaçado pelo sofrimento, podemos dirigir confiantemente nossa oração ao Pai, como Jesus mesmo rezou: “A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu entrego em vossas mãos o meu destino; libertai-me do inimigo e do opressor! Mostrai serena a vossa face ao vosso servo e salvai-me pela vossa compaixão!” (Sl 31,15-17).
                Ao finalizar esta reflexão, podemos nos perguntar: qual é o alcance da Cruz de Cristo? Por quem Ele morreu? Quem a sua morte redimiu? Pela graça de Deus, ele sofreu a morte em favor de todos” (Hb 2,9). Todo ser humano está salvo pela Cruz de Cristo porque todo ser humano foi “alcançado” pela redenção realizada na Cruz. Foi isso que o apóstolo Paulo compreendeu, ao declarar: “eu também já fui alcançado por Cristo Jesus” (Fl 3,12). Uma vez que nós todos fomos alcançados pela força redentora da Cruz de nosso Senhor Jesus, que possamos viver com a mesma disposição de fé e a mesma consciência que o apóstolo Paulo viveu: “Tudo considero como algo sem valor em comparação ao conhecimento de Jesus Cristo. Quero ganhar a Cristo e ser achado nele. Quero conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição de entre os mortos” (Fl 3,8-11).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 27 de março de 2018

DISCÍPULOS DO CORDEIRO

Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

            A liturgia desta noite nos fala da preparação de duas páscoas: a páscoa do Antigo Testamento, quando o Senhor Deus passou pela terra do Egito e convidou seu povo (Israel) a fazer a passagem da escravidão para a liberdade, e a Páscoa do Novo Testamento, quando Jesus abraçou a sua hora de passar deste mundo para o Pai, oferecendo a todos os que n’Ele creem a possibilidade de passarem da morte para a vida. Duas páscoas muito diferentes, mas com um personagem central comum a ambas: o cordeiro.  
            Na páscoa do Antigo Testamento, Deus ordenou às famílias dos hebreus: “Cada um tome um cordeiro por família, um cordeiro por casa” (Ex 12,3). “Tomareis um pouco do seu sangue e untareis os marcos e a travessa da porta, nas casas em que o comerdes” (Ex 12,7). “E comereis às pressas, pois é a Páscoa do Senhor, isto é, a ‘passagem’ do Senhor! Naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei todos os primogênitos” (Ex 12,11-12). O pano de fundo dessa atitude de passar o sangue do cordeiro nas portas das casas vem de uma prática muito antiga dos pastores que, ao terem que percorrer os campos com seus rebanhos, sacrificavam um cordeiro e levavam um pouco do seu sangue à frente, como que abrindo o caminho, na esperança de que esse sangue afugentasse algum tipo de praga que pudesse ferir o rebanho de morte.
            O sangue que os hebreus passaram nas portas de suas casas recordava, antes de mais nada, o sangue de inúmeros hebreus que o Egito derramou, por meio da escravidão, de trabalhos forçados, de violência e de morte, para impedir que se multiplicasse e crescesse (cf. Ex 1,8-16). Mas esse sangue já remetia para o sangue de Jesus na cruz, o verdadeiro Cordeiro que morreria para reunir todos os filhos de Deus dispersos (cf. Jo 11,52). O fato é que o sangue nas portas das casas tornou-se um sinal de proteção para os hebreus: “O sangue servirá de sinal nas casas em que estiverdes. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora quando eu ferir a terra do Egito” (Ex 12,13).
            Diante da páscoa do Antigo Testamento, nós precisamos nos perguntar: quais são as pragas que hoje ameaçam exterminar nossas crianças e nossos jovens? Quais são as pragas que podem exterminar o casamento, a família, as escolas, nossas cidades, nosso mundo? Qual sinal precisamos ter em nossa casa para que o espírito maligno reconheça que pertencemos a Deus e não atente contra nós? Mais do que as portas das nossas casas, é a porta da nossa consciência que precisa ser assinalada com o sangue de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, sangue que é expressão do seu amor por nós: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Quando nos dispomos a amar até o fim aqueles ou a missão que o Senhor nos confiou, o espírito exterminador não encontra espaço para se alojar em nós.
            Deus havia dado uma ordem aos hebreus: “Este dia... haveis de celebrar, por todas as gerações, como uma memória perpétua” (Ex 12,14). Enquanto o povo de Israel se preparava para celebrar a páscoa, Jesus começou a preparar a “sua” Páscoa: “Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Antes de seu corpo ser doado e seu sangue ser derramado na cruz, “o Senhor Jesus tomou o pão (...), partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em minha memória’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em memória de mim’ (1Cor 11,25).
            A Páscoa que Jesus celebra com seus discípulos é infinitamente superior à páscoa do Antigo Testamento, pois ele é o Cordeiro que se oferece livre e conscientemente para a salvação não só do povo de Israel, mas de toda a humanidade. Enquanto inúmeros cordeiros morreram sem saberem o porquê, ao longo dos séculos, Jesus é o Cordeiro que decide livremente nos amar até o fim, tornando-se “corpo doado e sangue derramado” em favor da nossa salvação. Seu sangue é um sangue consciente, e justamente por isso, capaz de operar a redenção eterna, como está escrito: “não com o sangue de bodes e bezerros, mas com o seu próprio sangue, ele entrou no Santuário uma vez por todas, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12).
            Agora a pouco, cantávamos no salmo: “O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor”. A nossa comunhão com o sangue do Senhor significa a nossa comunhão com o seu amor que ama até o fim, uma comunhão que nos convida a fazer de nós mesmos “hóstias vivas”, homens e mulheres que façam da sua existência uma “vida para”, cristãos que se tornem “corpo doado e sangue derramado”, para a salvação da humanidade. Foi por isso que Jesus, na última Ceia, realizou o lava-pés, como acabamos de ouvir no Evangelho: Ele “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (Jo 13,4-5). Ao final desse gesto, disse aos discípulos: “Se eu, o Senhor e mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15).
            Nós, cristãos, somos discípulos do Cordeiro; somos cordeiros vivendo no meio de lobos (cf. Lc 10,3), cordeiros chamados a não se corromperem em lobos como forma de sobrevivência, mas a testemunharem a vitória do Cordeiro que, depois de ter sido sacrificado na cruz, encontra-se agora em pé, à direita do trono de Deus, ressuscitado e vitorioso (cf. Ap 5,6); somos cordeiros chamados a oferecer o nosso sangue, no sentido de trabalhar e lutar pela redenção da humanidade, ajudando a poupar inúmeras casas, famílias, pessoas, de todo tipo de espírito exterminador; enfim, somos cordeiros que nesta noite de preparação para a Páscoa se alimentam do Corpo e do Sangue do nosso Pastor, proclamando a sua morte redentora em favor da humanidade, até que Ele venha para realizar a Páscoa definitiva conosco (cf. 1Cor 11,26).

Pe. Paulo Cezar Mazzi