quinta-feira, 23 de julho de 2015

A FOME (NÃO SÓ DE PÃO) E NOSSOS RECURSOS PARA SACIÁ-LA

Missa do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: 2Reis 4,42-44; Efésios 4,1-6; João 6,1-15.

A fome é uma das necessidades mais básicas do ser humano, uma necessidade que exige ser saciada. Quando não saciada, a fome faz com que o ser humano se torne agressivo, deixe de lado a noção de certo e de errado, e vá em busca de sobrevivência, chegando, inclusive, a roubar e matar, se preciso for, para saciar a sua fome. O filme “Ensaio sobre a cegueira” retrata muito bem essa realidade.   
Mas o ser humano não tem apenas fome de comida. A própria Escritura afirma que “o homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3; Mt 4,4). Assim, você tem hoje crianças bem nutridas e também bem servidas de estudo e de tecnologia, mas famintas de afeto, de diálogo, de limites, de presença e de autoridade dos pais. Você tem famílias que não passam fome, mas que estão desnutridas de diálogo, de proximidade e de afeto. Você tem pessoas que comem o tempo todo não porque têm fome, mas porque não sabem escutar a sua alma e interpretar a própria ansiedade...
Embora a fome seja, de fato, uma necessidade básica do ser humano, ela também é manipulada pela sociedade de consumo, a qual cria em nós necessidades artificiais, que não são verdadeiras necessidades. Desse modo, nós nos tornamos escravos do consumismo e colaboradores da cultura do desperdício. Nada nos preenche. Nada nos sacia, porque o nosso coração se tornou insaciável, e um coração insaciável nunca experimenta paz, nunca experimenta alegria.      
Ao ver a grande multidão que vinha ao seu encontro, Jesus perguntou a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (Jo 6,5). O evangelista João afirma que Jesus perguntou isso para colocar Filipe à prova, isto é, para ver como ele agiria diante de uma dificuldade. Hoje Jesus nos pergunta: ‘Como você entende e lida com suas necessidades?’ ‘Você é capaz de enxergar as necessidades das pessoas à sua volta?’ ‘Além do seu corpo, você procura também alimentar a sua alma e o seu espírito?’ ‘Você alimenta o seu relacionamento como é preciso ou tem o hábito de deixá-lo desnutrido?’
Filipe respondeu: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um” (Jo 6,7). Sem perceber, Filipe disse uma verdade: o dinheiro não basta. O material não sacia. O recurso principal de que cada um de nós dispõe não é material, mas humano, emocional, espiritual. O problema não é o dinheiro, mas a vontade, a disposição em usar os recursos que temos. Hoje em dia, para muitas famílias, a coisa mais fácil é dar coisas materiais aos filhos, mas a coisa mais difícil é dar-se aos filhos: dar sua presença, seu afeto, seus ouvidos, seu interesse, seu corpo, para que o filho possa brincar com os pais, e não com o novo brinquedo que os pais lhe compraram.
“Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes” (Jo 6,9). Geralmente, nós somos rápidos em detectar a nossa fome, mas lentos em perceber e valorizar os nossos recursos. Reclamamos daquilo que nos falta e não valorizamos aquilo que temos: nossos cinco pães e nossos dois peixes. “Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os... E fez o mesmo com os peixes” (Jo 6,11). Jesus nos ensina a reconhecer os recursos que temos e a agradecermos a Deus por eles todos os dias, reconhecendo também que “o pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada” (sabedoria popular).
Depois que todos foram saciados, Jesus ordenou: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!” (Jo 6,12). A nossa sobrevivência hoje depende disso: não desperdiçar! Não desperdiçar alimento, nem água, nem energia. Não desperdiçar tempo diante do computador ou do celular, quando podemos usar esse tempo para conviver com as pessoas que têm fome da nossa presença. Não desperdiçar a oportunidade de falar, de abraçar e de estar junto, enquanto isso é possível.
Se, no final do Evangelho, Jesus não aceitou ser coroado rei daquela multidão (cf. Jo 6,15), foi também para nos dizer que não podemos reduzir Deus a um mero provedor das nossas necessidades. O pão de cada dia é também fruto do nosso trabalho, responsabilidade nossa, e não deve ser esperado cair do céu enquanto nada fazemos para adquiri-lo. Nesta hora histórica de acentuado desemprego em nossas cidades, o que estamos fazendo em relação aos desempregados? Ainda outras reflexões necessárias: 1) O outro lado da moeda da fome é a alimentação errada: na mesa de muitos, a água foi substituída pelo refrigerante, e a comida caseira pela industrializada... 2) Tem se tornado um péssimo hábito engolir a comida sem saboreá-la, porque, enquanto comemos, visualizamos mensagens no celular ou teclamos com alguém...

Cinco pães e dois peixinhos (Quatro por Um)
https://www.youtube.com/watch?v=DHzsJ-dVvkY

                                                                       Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A NECESSIDADE DO CUIDADO

Missa do 16º. dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 23,1-6; Efésios 2,13-18; Marcos 6,30-34.

            Ao nascer, todo ser humano necessita de cuidados. Mas, na medida em que vamos crescendo, vamos também aprendendo a cuidar de nós mesmos, e, assim, nos tornamos menos dependentes do cuidado dos outros. Quando nos tornamos pessoas adultas, o ideal é que nós já soubéssemos cuidar de nós mesmos e também nos dispuséssemos a cuidar daquilo ou daqueles que a vida confia aos nossos cuidados. No entanto, existem muitos adultos infantilizados, que passam o tempo todo querendo ser cuidados e não se dispõem a cuidar de nada à sua volta, nem de ninguém...
            Na Bíblia, a imagem do cuidado tem um nome: “pastor”. Cuidar significa ser pastor. Ou, dizendo de outra maneira, ser pastor significa abraçar a missão de cuidar daquilo ou daqueles que a vida colocou sob os nossos cuidados. Isso explica a indignação de Deus para com os pastores de Israel: “Vós dispersastes o meu rebanho, e o afugentastes e não cuidastes dele” (Jr 23,2). A quem são dirigidas essas palavras hoje? A tantos pais (a tantas famílias), políticos, líderes religiosos, policiais, empresários, isto é, a muitos que têm alguém sob seus cuidados, mas está sendo infiel a essa missão.
            Se a humanidade hoje se assemelha a um imenso rebanho perdido, tomado pelo medo e pela angústia, é porque muitos pastores decidiram ir atrás daquilo que eles entendem ser sua própria felicidade, deixando o rebanho entregue a si mesmo. Sem dúvida que o pastor não pode esquecer o cuidado consigo mesmo. Não foi à toa que Jesus ordenou aos discípulos, que não estavam nem tendo tempo para comer: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31). Quantos casais, por exemplo, cuidam “excessivamente” do filho e se esquecem de cuidar do próprio relacionamento? Quantas mulheres vivem cuidando da casa e dos filhos, enquanto o marido ou companheiro cuida somente de si e dos seus interesses?
            O cuidado consigo mesmo é importante. Na última quarta, divulgou-se a notícia de que, nos últimos 12 anos, a AIDS diminuiu no mundo todo, mas aumentou no Brasil (especificamente, 40% entre jovens de 14 a 18 anos). Por quê? Porque os meninos abandonaram o uso do preservativo e deixaram para as meninas a “responsabilidade” de tomarem a “pílula do dia seguinte” depois da relação. Sem mencionar a questão moral, aqui nós temos, ao menos, dois problemas: a visão machista de que cabe à mulher evitar a gravidez, sem nenhum tipo de “sacrifício” da parte do homem, e a questão dos danos graves causados ao corpo das meninas com as pílulas do dia seguinte. É a geração que “sabe” fazer sexo, mas não sabe cuidar de si mesma...
Os textos bíblicos de hoje querem nos fazer refletir: quem está sob os meus cuidados? Qual realidade (meio ambiente, sociedade) ou quais pessoas a vida colocou sob os meus cuidados? Eu sei equilibrar meu tempo entre cuidar dos outros e cuidar de mim, ou me deixo “devorar” pelas necessidades dos outros? Jesus nunca aceitou “ser devorado” pelas pessoas. No entanto, ao ver uma numerosa multidão, “teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Compaixão significa sentir a dor do outro. Ela nos faz enxergar que, apesar do nosso cansaço, há algo que ainda podemos fazer pelo outro. Quando você tem compaixão, consegue mudar seus planos por causa da dor do outro; consegue esquecer por um momento de si para “focar” no outro, para ir atrás, resgatar e salvar aquilo ou aqueles que foram confiados aos seus cuidados.
Por fim, o apóstolo Paulo nos dá uma indicação importante sobre a atitude do pastor, daquele que cuida: do que está dividido, ele deve trabalhar no sentido de fazer uma unidade; colaborar para derrubar o muro de separação, que é a inimizade. Se trata do cuidado para com a paz. Como nos lembrou a oração da Campanha da Fraternidade 2005, “que a nossa segurança não venha das armas, mas do respeito. Que a nossa força não seja a violência, mas o amor. Que a nossa riqueza não seja o dinheiro, mas a partilha. Que o nosso caminho não seja a ambição, mas a justiça. Que a nossa vitória não seja a vingança, mas o perdão”. 
Duas considerações finais: 1) Jesus viu a numerosa multidão e sentiu compaixão. Como sentir compaixão hoje, se os nossos olhos estão frequentemente focados numa tela de celular e não enxergam quem está ao nosso lado? 2) A falta de descanso produz estresse e esgotamento. Se algumas pessoas estão estressadas e esgotadas é porque outras estão “excessivamente descansadas”, sem querer cuidar de nada à sua volta, a não ser dos seus interesses pessoais. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de julho de 2015

REMOVER A PELÍCULA DO INDIVIDUALISMO

Missa do 15º. dom. comum. Palavra de Deus: Amós 7,12-15; Efésios 1,3-14; Marcos 6,7-13.

            Há uma diferença entre o vidro de uma janela e um espelho. O vidro da janela te dá a possibilidade de enxergar para além de você, de ver as outras pessoas e de se tornar consciente do que acontece além do seu mundo particular. O espelho, por ter uma camada fina e prateada atrás do vidro, não te deixa ver além de si mesmo(a): tudo se resume em você e as suas necessidades, você e os seus desejos; os outros não existem.
         Ao chamar os doze e enviá-los em missão, Jesus está raspando aquela camada fina e prateada, que o individualismo colocou na janela dos nossos sentidos, e nos tornando conscientes de que o mundo à nossa volta é muito mais amplo do que as nossas necessidades e os nossos desejos egocêntricos. Para além da tela da nossa TV e do nosso computador/tablet/celular, existem pessoas reais precisando de nós. Para além das nossas necessidades e dos nossos desejos particulares, existe uma missão que nos foi confiada, uma missão que somente nós podemos realizar.  
            Quando o sacerdote Amasias tentou convencer o profeta Amós a exercer seu trabalho de profeta em outro lugar, ao invés de ficar incomodando a consciência do rei com suas profecias, Amós respondeu que sua profissão nunca foi ser um profeta, mas o próprio Deus lhe deu a ordem de profetizar para Israel (cf. Am 7,12-15). Enquanto a profissão consiste em trabalhar em algo para ganhar dinheiro e me sustentar, a vocação consiste em obedecer a um chamado de Deus e a compreender que o sentido da minha vida não está em apenas ganhar dinheiro para sobreviver, mas em ser uma presença de esperança, de alegria, de amor, de justiça e de paz para as pessoas às quais Deus me enviar durante minha breve existência neste mundo.
            Através do Papa Francisco, Jesus tem proclamado em alto e bom som a cada um de nós, católicos: ‘Eu quero minha Igreja em saída! Eu quero você enxergando a vida além de si e das suas necessidades! Eu te desafio a raspar a camada prateada de individualismo dos seus sentidos e se deixar afetar pela dor das pessoas à sua volta! Quero você como presença viva do meu Evangelho junto às outras pessoas. Quero você como uma presença de paz junto a quem se “habituou” com a violência; como uma presença de verdade e de justiça junto a quem se “acostumou” com a mentira e a injustiça; como uma presença do Deus vivo e verdadeiro junto a quem só se sente seguro a partir do dinheiro; como uma presença de família e de fidelidade junto a quem nunca experimentou um amor que ama até o fim; por fim, quero você como uma presença de cruz junto a toda pessoa que não aceita ter que lidar com a renúncia, com o sacrifício e com a dor’.
            A nossa presença junto às outras pessoas deve, segundo Jesus, provocar dois efeitos: conversão e cura. Todos nós precisamos de conversão. O Espírito Santo tem provocado nossa Igreja a passar por um processo de conversão pastoral, ou seja, a superar as estruturas ultrapassadas que não estão nos ajudando a ser uma presença viva do Evangelho junto às outras pessoas, sobretudo junto aos que sofrem. Por outro lado, todos nós precisamos de cura, e a cura vem pela remoção da película do individualismo que tem nos desumanizado e nos mantido afastados uns dos outros.
          O Evangelho termina mencionando que os discípulos curavam os doentes ungindo-os com óleo. A unção com esse óleo nos remete às palavras do apóstolo Paulo, quando afirma que o Pai nos abençoou com toda a bênção do seu Espírito em virtude de nossa união com Cristo (cf. Ef 1,3). Fortalecidos pelo Espírito Santo, somos enviados para anunciar às pessoas que, por meio de Jesus Cristo, Deus Pai nos escolheu para sermos santos e irrepreensíveis, e para vivermos a cada dia sob o seu olhar, no amor (cf. Ef 1,4). Cada ser humano deve se tornar consciente de que é uma pessoa redimida, absolvida, liberta e salva, pelo sangue de Cristo derramado na cruz: n’Ele as nossas faltas são perdoadas (cf. Ef 1,7). Nele também nós ouvimos a palavra da verdade, o evangelho que nos salva. Por fim, crendo no Evangelho, somos marcados com o selo do Espírito Santo, que é a garantia da nossa redenção (cf. Ef 1,13-14).
            Abracemos, portanto, a missão que o Pai confia a cada um de nós, por meio de seu Filho Jesus e na unção do Espírito Santo: CORAÇÃO ADORADOR (Banda Dom)

https://www.youtube.com/watch?v=A9dCaMwwPu4

                                                                       Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 2 de julho de 2015

ADMIRAÇÃO, ESCÂNDALO E ESPINHO

Missa do 14º. dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 2,2-5; 2Coríntios 12,7-10; Marcos 6,1-6.

       Admiração e escândalo são atitudes/emoções/sentimentos opostos. Enquanto a admiração desperta em nós o desejo de estar mais próximo de quem nos fala, de querer imitá-lo(a), o escândalo desperta em nós a rejeição e a repulsa em relação à pessoa que nos fala. Deus nos fala, seja por meio da Sua palavra, seja de quem nos anuncia a Sua palavra – o pregador ou a Igreja –, seja por meio da natureza, dos acontecimentos, de um(a) terapeuta ou da nossa consciência. Se Deus nos fala, é importante perceber quando é que nos admiramos e quando é que nos escandalizamos com Ele.  
Normalmente, a nossa admiração ou o nosso escândalo para com Deus depende do quê Ele nos fala: se nos fala o que gostamos de ouvir, nos enchemos de admiração; mas se nos fala o que precisamos, mas não queremos ouvir, nos escandalizamos, nos revoltamos e nos recusamos a continuar a ouvi-Lo. No caso do Evangelho de hoje, o que escandalizou os nazarenos não foi o quê Jesus disse, mas a pessoa do próprio Jesus; como diríamos hoje, um comedor de arroz e feijão como nós.
“E ficaram escandalizados por causa dele” (Mc 6,3). Quando é que ficamos escandalizados com Deus? Quando Ele se manifesta de maneira extremamente simples; quando se recusa a manifestar-Se glorioso e espalhafatoso. Nós ficamos escandalizados com Deus quando Ele – aparentemente – não se manifesta diante de tragédias humanas; quando Ele se recusa a tirar o espinho que está em nossa carne, a mancha que está comprometendo a beleza da nossa imagem... O que mais nos escandaliza em Deus é Ele ter escolhido nos salvar na carne humana de Jesus Cristo, cuja vida foi pautada pela simplicidade, pela pobreza e pela comunhão com a fragilidade humana.
“E (Jesus) ali não pôde fazer milagre algum... E admirou-se com a falta de fé deles” (Mc 6,5.6). Não há milagre onde não há fé, e não há fé porque não enxergamos Deus nas coisas pequenas e rotineiras da vida. Exigimos manifestações espetaculares para podermos crer. Por trás do escândalo dos nazarenos para com a pessoa de Jesus está um outro problema, um problema mais do que atual: é um tipo de fé que se escandaliza facilmente porque é uma fé feita de caprichos pessoais, uma fé que exige tratamento VIP da parte de Deus e da parte da Igreja.                 
            Quem abraça um serviço na Igreja movido – talvez de maneira inconsciente – por caprichos pessoais, jamais aceitaria a missão que Deus confiou a Ezequiel: falar a um povo “de cabeça dura e coração de pedra” (Ez 2,4). “Quer te escutem, quer não... ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (Ez 2,5). Os nossos caprichos pessoais nos levam a falar de Deus somente se houver um público garantido, uma plateia que nos escute com atenção, que concorde com o que pregamos e que nos aplauda no final da pregação. Afinal, o que está em jogo – aos nossos olhos – é a nossa imagem, e não admitidos que não nos admirem quando nos expomos em público. No entanto, na vocação de Ezequiel fica claro que o importante não é a pessoa que anuncia, mas a Palavra que deve ser anunciada: não importa se ela será acolhida e obedecida; o que importa é que ela seja dita, proclamada, anunciada, e fique na consciência das pessoas que a ouvirem.
              Numa época narcisista como a nossa, onde nos ensinam que a coisa mais importante que temos é a nossa imagem, como não nos escandalizar com um Deus que se recusa a tirar o espinho que temos na carne? “(...) foi espetado na minha carne um espinho..., a fim de que eu não me exalte demais. A esse propósito, roguei três vezes ao Senhor que o afastasse de mim. Mas ele me disse: ‘Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta’” (2Cor 12,7-9). Deus pode não querer remover alguma fraqueza nossa (e isso certamente pode nos escandalizar, nos deixar decepcionados com Ele!), porque é justamente pela brecha dessa fraqueza que a força d’Ele vai entrar e agir em nós, e, por meio de nós, naqueles que nos ouvem.  
              Algumas indicações da Palavra de Deus hoje: 1) Quando não queremos nos deixar questionar pela Palavra de Deus, começamos a questionar a pessoa que nos anuncia a Palavra. É uma defesa, uma resistência à conversão... 2) Para a sociedade da aparência, você precisa se tornar uma pessoa importante, notada, desejada. O que você é como pessoa não basta: precisa de um piercing, de uma tatuagem, de musculação, de uma mecha colorida no cabelo, de um adereço, de um corte de cabelo extravagante, de uma roupa sensual ou espalhafatosa... Enfim, você, natural, não é nada; você só é alguma coisa se estiver adornada(o) de algo artificial... 3) Você também se escandaliza, se decepciona com um Deus que não tira o espinho que há em sua carne, que não cancela a sua fraqueza e que não lhe transforma numa pessoa forte, impecável e inabalável?

Para a sua oração pessoal: MINHA GRAÇA TE BASTA (Adriana)

https://www.youtube.com/watch?v=nVAXa7mtx_o


                                                 Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 25 de junho de 2015

SER UMA PRESENÇA ATIVA NA IGREJA DE JESUS CRISTO

Missa de São Pedro e São Paulo. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 12,1-11; 2Timóteo 4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19.

            Em fevereiro de 2013 o Papa Bento XVI anunciou a sua renúncia como condutor humano da Igreja que Jesus fundou sobre os apóstolos. Essa renúncia chocou o mundo, abalou a fé de alguns e foi vista por outros como sinal nítido de uma Igreja falida. Como você, católico(a), sentiu essa renúncia? Foi preciso que o Papa Francisco entrasse em cena para que muitos pudessem entender a grandeza e a importância do gesto de Bento XVI em renunciar. Por amor à Igreja de Jesus Cristo, ele assumiu sobre si a incompreensão de muitos e feriu sua própria imagem.
            A sombra escura que momentaneamente a renúncia de Bento XVI jogou sobre a Igreja foi rapidamente substituída pela luz radiante de Francisco. Sua alegria, sua firmeza, sua simplicidade e coerência de vida têm contagiado a muitos, despertado a fé adormecida em tantas pessoas e feito a Igreja, que até então se sentia envolvida por um rígido e prolongado inverno, experimentar o florescer da primavera em si mesma.
            Contudo, precisamos ter os pés no chão. Assim como acontece com todo verdadeiro profeta, as palavras e as atitudes do Papa Francisco têm incomodado alguns dentro e fora da Igreja. As mesmas mãos que ontem o aplaudiam hoje lhe jogam pedras; os mesmos corações que hoje se encantam com ele amanhã o rejeitarão, porque Francisco, como verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, escolheu pautar sua vida e conduzir a Igreja segundo o Evangelho, enquanto a maioria das pessoas hoje, dentro ou fora das igrejas, pauta sua vida segundo a própria conveniência.   
            Os Atos dos Apóstolos narram um momento muito difícil para a Igreja: alguns de seus membros estavam sendo presos, torturados e mortos. Isso nos remete aos cristãos perseguidos e mortos em alguns países. Mas entre nós é muito comum “prender”, “torturar” e “matar” pessoas da Igreja por meio de críticas, sobretudo onde trabalhamos. Não é verdade que, muitas vezes, nós somos os primeiros a criticar a nossa Igreja? Quem de nós se preocupa em defendê-la diante das críticas dos outros? Nós vibramos quando o Papa Francisco diz que os que representam a Igreja não devem ter “psicologia de príncipe”, mas quantos de nós, católicos, criamos os filhos segundo essa psicologia? Quem de nós está disposto a assumir a simplicidade de vida de Francisco, de Jesus, do Evangelho?
            Jesus perguntou aos discípulos o quê as pessoas diziam sobre ele. Hoje essa pergunta pode ser traduzida de outra forma: como as pessoas vivem sua fé? Hoje a fé é vivida a partir do individualismo: Deus, sim; Igreja, não. Fé, sim; religião, não. Nada de vínculo com uma igreja; nada de compromisso com as necessidades pastorais da Igreja. No entanto, a Igreja existe para criar, alimentar e fortalecer o vínculo das pessoas com Jesus Cristo: o que ligar/desligar na terra será ligado/desligado nos céus (cf. Mt 16,19).  
            Enquanto Pedro foi escolhido por Jesus para ser a pedra sobre a qual Ele edificaria a sua Igreja (cf. Mt 16,18), Paulo foi escolhido para anunciar Jesus Cristo e o seu Evangelho a todos os povos (cf. At 9,15), uma missão que foi desempenhada em meio a muito sofrimento (cf. At 9,16). Apesar disso, Paulo, apoiando-se na graça de Deus, sempre se manteve fiel, a ponto de poder concluir: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7). “(...) o Senhor esteve ao meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente...” (2Tm 4,17).
            Na época em que vivemos há um combate a ser travado, não só em termos de sobrevivência, mas, sobretudo, em termos de fé, de espiritualidade, de defesa de valores e princípios que nos mantenham no caminho da justiça e da santidade. Há também uma corrida a ser completada, e, se por acaso tenhamos parado no acostamento do caminho da fé, precisamos retornar ao mesmo e continuar a caminhar. Por fim, há uma fé a ser guardada, defendida, atualizada, recuperada, a fé que nos faz vencer o mundo e perseverar na missão que nos foi confiada na Igreja, até que Cristo venha nos dar a coroa da justiça.    
            “Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” (At 12,5). Rezemos uns pelos outros, por nosso Papa Francisco, por nosso bispo Eduardo, pelos cristãos espalhados pelo mundo inteiro, sobretudo pelos que correm risco de morte... Que o Senhor se faça sentir ao nosso lado e que, apesar da nossa fragilidade humana, possamos fazer da nossa vida um anúncio integral do Evangelho para aqueles que convivem conosco. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 18 de junho de 2015

É PRECISO SAIR DA MARGEM DE SI MESMO(A)

Missa do 12º. dom. comum. Palavra de Deus: Jó 38,1.8-11; 2Coríntios 5,14-17; Marcos 4,35-41.

“Vamos para a outra margem!” (Mc 4,35). Eis o convite que Jesus nos faz hoje. Eis o desafio que Ele nos lança: ‘Vamos fazer a travessia! Está na hora de você sair da margem de si mesmo(a). Está na hora de enfrentar uma mudança que é necessária para a sua vida. Vamos! Eu vou com você! Eu estou com você nessa travessia!’, nos diz o Senhor Jesus.  
De qual travessia Jesus está falando? Daquela travessia que nos tira da nossa acomodação e da nossa adaptação a uma situação de vida pessoal e social injusta, doentia, indigna, desumana... “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia. E se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos” (Tempo de Travessia – Fernando Pessoa).
O que significa ficar à margem de nós mesmos? Significa desconhecer a nossa própria força, a nossa própria verdade; significa desconhecer o rosto do verdadeiro Deus e o Seu desígnio de amor e salvação para conosco e para com a humanidade; significa continuar a nos deixar oprimir, adoecer e manipular por pessoas e situações injustas que ferem a nossa dignidade de pessoas e de filhos de Deus.
A travessia é boa e necessária! A travessia tem um sabor pascal, um passar de uma situação de morte para uma situação de vida. Porém, toda travessia tem um risco, e esse risco se chama “tempestade”. Às vezes, a tempestade vem antes da travessia. Na verdade, muitas vezes nós só nos dispomos a fazer a travessia para a outra margem porque fomos atingidos por uma tempestade. Neste caso, a tempestade foi necessária para nos acordar, para nos despertar de uma vida construída na mentira e não na verdade. Quantas pessoas “acordaram para a vida” depois de um acidente, de uma doença, de um desemprego, de um fim de um relacionamento, e se redescobriram, e redefiniram suas prioridades, e voltaram a se sentir vivas de verdade?
Contudo, muitas vezes a tempestade se apresenta como um obstáculo à travessia. É quando a voz do medo fala conosco e tenta nos convencer de que é melhor não atravessar; é melhor continuar a tentar sobreviver na margem onde nos encontramos; é melhor não arriscar a buscar uma vida mais digna, mais plena. Sem dúvida, a voz do medo fala conosco do meio das nossas tempestades. Mas ela não é a única! “O Senhor respondeu a Jó do meio da tempestade...” (Jó 38,1). E o Senhor Deus disse ao mar agitado: “Até aqui chegarás, e não além” (Jó 38,11). Sim! Deus fala conosco do meio das nossas tempestades: ‘Vamos! Eu estou com você nessa travessia!’ Ao mesmo tempo, Ele declara que colocou um limite para a tempestade, para o mar que parece querer nos afogar: ‘Até aqui, e não além!’.
Quantas pessoas, no passado, sobreviveram às suas tempestades cantando em seus corações: “Se as águas do mar da vida quiserem te afogar, segura na mão de Deus e vai!”? Assim, hoje devemos segurar na mão de Deus enquanto fazemos a nossa travessia, gritando ao Senhor em nossa aflição e sendo libertos por Ele da nossa angústia, pois Ele tem o poder de transformar a tempestade em bonança e fazer as ondas do oceano se calarem (cf. Sl 107,28-29). Na medida em que resistimos às tempestades por meio da graça de Deus e fazemos a travessia que nos é proposta, vamos experimentando a verdade dessas palavras: “Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo” (2Cor 5,17).
Enquanto os discípulos eram consumidos pelo medo diante da tempestade, Jesus dormia na parte de trás da barca (cf. Mc 4,38). Não são poucas as pessoas hoje que só conseguem dormir com a ajuda de algum medicamento. O sono de Jesus é um sono de confiança, uma confiança que precisamos recuperar em nosso coração, na medida em que recordamos que o nosso Deus tem o poder de acabar com as guerras, de silenciar os tumultos e acalmar as tempestades criadas pelos próprios homens, pois Ele diz: “Tranquilizai-vos e reconhecei: Eu sou Deus, mais alto que os povos, mais alto que a terra!” (Sl 46,11).
Queremos aprender a ouvir o Senhor que nos fala do meio das nossas tempestades. Assim como os discípulos, nós também Lhe perguntamos: “(...) estamos perecendo e tu não te importas?” (Mc 4,39). ‘Minha família está perecendo, meu filho está perecendo, meu trabalho está perecendo, minha fé está perecendo, e tu não te importas?’ Sim, Senhor! Reconheço que ainda não tenho fé. Ainda vacilo diante da tempestade. Ainda não sei quem Tu és. Preciso silenciar e tranquilizar o meu coração para reconhecer-Te junto a mim, na constante travessia da vida. Preciso dizer à voz do medo em mim: “Silêncio! Cala-te!” (Mc 4,39). Preciso e quero sair da margem de mim mesmo, e me encontrar no centro do Teu coração, onde eu aprenda a Te louvar também na tempestade...
      
LOUVAREI NA TEMPESTADE (PG)
https://www.youtube.com/watch?v=3a7txTYuh9k 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 11 de junho de 2015

APESAR DE TUDO, O DOM DE NÓS MESMOS É NECESSÁRIO!

Missa do 11º. dom. comum. Palavra de Deus: Ezequiel 17,22-24; 2Coríntios 5,6-10; Marcos 4,26-34.

“Não julgue o dia pelo que você colheu, mas pelo que semeou” (Robert Loius Stevenson). Como você avalia a sua vida profissional? E a sua vida afetiva? E a sua espiritualidade? Como você avalia o seu trabalho voluntário na Igreja ou na sociedade? Como você avalia o seu esforço em formar seu filho ou em tornar o seu ambiente de trabalho mais justo e humano? Ao escrever “A alegria do Evangelho”, o Papa Francisco fez um alerta: “A ânsia moderna de chegar a resultados imediatos faz com que os agentes pastorais não tolerem facilmente tudo o que signifique alguma contradição, um aparente fracasso, uma crítica, uma cruz” (n.82). Quanto mais reduzimos a avaliação da nossa vida à obtenção de resultados imediatos, mais infelizes e frustrados no sentimos.
Muitos terrenos estão vazios, ociosos, sem nenhuma plantação, ou estão tomados pelo mato por um simples motivo: quem cuidava do terreno desistiu de semear. E por que desistiu? Porque se cansou de esperar; porque se deixou contaminar pela praga do imediatismo, da pressa, da ansiedade, da busca constante de resultados imediatos. Muitos abandonaram o terreno da sua espiritualidade por não suportar as demoras de Deus; por esquecer que a oração vale por si mesma e não pelo fruto que ela porventura possa produzir naquele que reza.
O coração do Evangelho de hoje se encontra nessas palavras: “O reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra, por si mesma, produz o fruto...” (Mc 4,26-28). O que Jesus está nos dizendo é: confie! Confie na fecundidade da graça de Deus! Confie na ação do Espírito Santo! Confie na força do Evangelho! Tenha esperança em Deus: Ele agirá e fará a semente da Sua palavra germinar e frutificar em você, apesar da sua fragilidade humana!
Nesta comparação que Jesus faz, fica claro que há algo que depende absolutamente de nós, assim como há algo que depende absolutamente de Deus. A você cabe acolher a semente da Palavra em si e também lançá-la no coração das outras pessoas. A Deus cabe fazer germinar e crescer a semente lançada. Depois que a semente foi lançada, a você cabe confiar, esperar e permitir que Deus faça em você, e no coração de quem você lançou a semente da Palavra, a obra de frutificar, confiando que é Ele, e somente Ele, quem dá o crescimento (cf. 1Cor 3,7).
Entre um dia e outro dia existe sempre uma noite. Durante a noite dormimos, nos desarmamos, nos entregamos. Deus nos convida a dormir e a confiar que, enquanto dormimos, Ele faz a obra: “Na conversão e na calma estava a vossa salvação, na tranquilidade e na confiança estava a vossa força” (Is 30,15). Quem desiste de confiar em Deus e se deixa consumir pela ansiedade, não experimenta a paz: “Os ímpios são como um mar agitado que não pode acalmar-se, cujas águas revolvem sargaço e lodo. ‘Para os ímpios não há paz’, diz o meu Deus” (Is 57,20).
Cada um de nós precisa cuidar da semente que é. Cada um de nós precisa ser fiel à sua fecundidade enquanto semente de Deus lançada no terreno da humanidade. Assim como o “grão de mostarda” (cf. Mc 4,31-32), podemos ser a menor de todas as sementes. Mesmo assim, devemos nos lançar à terra, devemos fazer de nós um dom para os outros, um dom para a humanidade: “O dom de nós mesmos é necessário” (Papa Francisco, A alegria do Evangelho n.279). É dos nossos pequenos gestos, das nossas pequenas atitudes que podemos fazer brotar o amor, a justiça, o respeito e a paz onde fomos semeados. Além disso, como cristãos, ‘somos chamados a acompanhar as pessoas em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam, suportando as longas esperas, cuidando do trigo e não perdendo a paz por causa do joio’ (citação livre de A alegria do Evangelho n.24).
Que a luz do Espírito Santo nos faça enxergar e nos alegrar pelas sementes que lançamos a cada dia no terreno da nossa vida pessoal, comunitária e social, livrando-nos de cair na armadilha do desânimo e do pessimismo só porque ainda não estamos vendo os frutos das sementes lançadas.

Para a sua oração pessoal: EU SOU UM JARDIM (Adriana)
https://www.youtube.com/watch?v=EXQxu0zIRxk  

                                        Pe. Paulo Cezar Mazzi