sexta-feira, 25 de julho de 2014

A IMPORTÂNCIA DO DISCERNIMENTO

Missa do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 3,5.7-12; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-52.

            Se perguntarmos às pessoas: “Quais são as ‘coisas’ mais importantes ou mais valiosas da sua vida?”, podemos receber várias respostas: ‘Minha saúde, meus filhos, minha esposa, meu marido, minha família, meu trabalho, minha fé, Deus’ etc.. Mas essas respostas podem ser somente teóricas, ditas “da boca para fora”, sendo que, no coração, o mais valioso para a pessoa pode ser o seu dinheiro, a sua beleza, a sua satisfação sexual, o seu carro, a sua moto, a sua projeção na sociedade etc..
            Existe uma pergunta que nos ajuda a perceber quais são os valores mais importantes da nossa vida, e a pergunta é: “O que enche o meu coração de alegria?”. A alegria indica onde está o nosso coração, o quê ou quem é o nosso tesouro, a nossa pérola preciosa. Jesus disse que o homem que encontrou o tesouro escondido no campo o manteve escondido e, “cheio de alegria” (Mt 13,44), ele foi, vendeu todos os seus bens para comprar aquele campo. “Cheio de alegria”... Quando foi a última vez que você se sentiu assim? O que deixa você alegre? É uma alegria que vem de dentro ou que depende das coisas de fora? É uma alegria duradoura ou passageira?  
            As parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa (cf. Mt 13,44.45) nos falam do valor do reino dos céus. Mas como pensar em “reino dos céus” numa época materialista como a nossa, onde o que vale é o momento presente, o que vale é “comer e beber, já que amanhã vamos morrer” (cf. 1Cor 15,32)? Você acredita na existência do “reino dos céus”? Essa expressão diz alguma coisa a você? Nas duas parábolas, os dois homens venderam “todos os seus bens” (cf. Mt 13,44.46) para adquirir aquilo que era um bem maior. Você é capaz de abrir mão de alguma coisa para estar com o seu coração mais perto do reino dos céus? Se você não tem consciência de que o reino dos céus significa a sua salvação, não será capaz de abrir mão de coisa alguma, muito menos de tudo, para entrar nele...
            Olhemos para o rei Salomão. Quando Deus lhe disse: “Pede o que desejas e eu te darei” (1Rs 3,5), Salomão não pediu longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de seus inimigos. Ele pediu “um coração compreensivo, capaz de... discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9). E o texto bíblico diz que “esta oração de Salomão agradou ao Senhor” (1Rs 3,10). Nossas orações agradam a Deus? O que costumamos pedir ao Senhor em nossa oração? Hoje em dia, as orações mais comuns que sobem ao céu das diversas igrejas e religiões contemplam a saúde, o trabalho, a proteção contra os inimigos etc. Há alguém que se preocupe em pedir ao Senhor um coração justo, condição indispensável para entrar no reino dos céus?
            Salomão pediu ao Senhor um coração capaz de discernir, de separar o bem do mal, o que presta do que não presta. Este talvez seja o nosso pedido mais raro na oração: discernimento. A necessidade de discernimento apareceu na última parábola sobre o reino dos céus: “Uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo” (Mt 13,47). Depois, os homens se sentam, “recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam” (Mt 13,48). A rede pode significar tudo o que os nossos olhos veem, tudo o que os nossos ouvidos ouvem, tudo o que os nossos sentidos captam. Nós não podemos ser um esgoto que engole tudo o que é jogado nele. Precisamos usar o filtro do discernimento para separar, para ficar com aquilo que nos aproxima do reino dos céus, o que contribui para o nosso crescimento humano e espiritual, o que nos aproxima da verdade que nos liberta, e para jogar fora o que nos distancia de tudo aquilo que não contribui para a nossa salvação.
            Muito se tem falado sobre a “mudança de época” que estamos vivendo, onde parece haver uma rejeição a tudo o que é velho e uma aceitação cega a tudo o que é novo. Aqui também é preciso haver discernimento. Jesus diz que a pessoa que se abre ao reino dos céus aprende que há valores que não podem ser perdidos, como também valores que precisam ser resgatados em sua vida (coisas velhas). Da mesma forma, é preciso acolher a novidade do Espírito presente nessa mudança de época em que estamos vivendo, uma novidade que nos desafia a rever os nossos conceitos e a alargar o nosso horizonte de compreensão de Deus e do seu Reino, não nos esquecendo de que “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus” (Rm 8,28); tudo contribui para quem deseja ter um coração justo e ser um sinal vivo do reino dos céus no mundo dos homens... 

                                                                                                                            Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O RESULTADO DA COLHEITA DEPENDE DO QUÊ?

Missa do 16º. dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 12,13.16-19; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-30.36-43.

            Nós gostaríamos de nos sentir somente fortes, mas às vezes temos que nos deparar com a nossa fraqueza. Nós gostaríamos de nos ver somente como vencedores, mas às vezes temos que admitir que também somos perdedores. Nós desejaríamos ser somente santos, mas temos que reconhecer que também somos pecadores. Nós desejaríamos ser habitados somente pela luz, mas temos que reconhecer que também somos habitados pela sombra, pela escuridão. No campo do nosso coração, nós esperávamos encontrar somente trigo, mas nele também existe joio, como o Evangelho acabou de nos mostrar.
            Numa sociedade narcisista como a nossa, onde vivemos preocupados com a nossa imagem, onde gastamos tempo e dinheiro, além de energia física e emocional, para que os outros nos vejam fortes, belos, felizes, vencedores etc., Jesus “puxa o nosso tapete” e nos faz cair na real: ‘Reconheça o joio que há em você. Não ignore a presença do mal que habita também o seu coração, e não só o coração dos outros. Aprenda a dialogar com a sua sombra, pois ela faz parte de você’.
            “Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?” (Mt 13,27). Esta é a pergunta que todo ser humano faz: de onde vem o mal? Se Deus existe e se Ele é bom, porque permite também a existência do mal? O filme “Malévola” trabalha questões semelhantes: O que faz com que uma pessoa boa se torna má? Existe possibilidade de uma pessoa má tornar-se boa? “Malévola” nos ensina que, por trás de toda pessoa má, existe sempre uma ferida, um amor que parecia verdadeiro, mas que se revelou como mentiroso, traidor.
   No campo do mundo em que vivemos, é nítido o aumento do joio e a diminuição do trigo. Sobretudo no Brasil, onde a impunidade fala mais alto do que a justiça, vamos nos convencendo de que “o crime compensa”: compensa ser joio, compensa ser desonesto(a) e corrupto(a). Além disso, a causa do aumento do joio também se encontra na desestruturação familiar. Muitas crianças, apesar de nascerem como boas sementes, aos poucos tornaram-se joio porque nunca fizeram a experiência de serem amadas de verdade. Elas crescem ferindo os outros porque estão repassando as feridas que sempre receberam dentro de casa.
  Contudo, aquilo que explica nem sempre justifica. Nós não somos o resultado do meio em que crescemos e nem do meio em que vivemos. Por trás da parábola do joio e do trigo está o mistério da liberdade humana. Dois filhos são criados pelos mesmos pais: um se torna dependente químico, o outro não. Duas crianças crescem no meio da violência de uma favela: uma se torna assassina, a outra não. As duas receberam os mesmos “estímulos”, vivenciaram a mesma pobreza, cresceram no mesmo ambiente, mas cada uma decidiu lidar de maneira diferente com aquilo que recebeu porque, como compreendeu Victor Frankl, nós não somos o resultado do que os outros fizeram conosco; nós somos o resultado do que decidimos fazer com aquilo que fizeram conosco.
  O joio e o trigo existem em todos os campos, assim como no coração de todo ser humano. A questão é: o que eu quero cultivar em mim? A tentação que temos é a de arrancar o joio de uma vez por todas (cf. Mt 13,28). Mas Jesus diz: “Não! (...) Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,30). Não se trata de eliminar da nossa vida a ferida, a doença, a dor, a sombra, a fraqueza, mas de entender o que elas estão querendo nos dizer. Não se trata de jogar pessoas fora da nossa vida só porque descobrimos que elas são falhas – quem de nós não o é? Não se trata de pensar em cometer suicídio, uma vez que não é correto nos identificar com a doença ou com o mal que está em nós. Nós somos mais do que eles.   
            Para quem não suporta reconhecer o joio que carrega dentro de si, talvez seja útil refletir nessas palavras de Oswaldo Montenegro: “Quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você?” (Música A lista). Para quem não aceita reconhecer aquilo que Jung chama de “sombra” – tudo aquilo que rejeitamos em nós, e que, no entanto, faz parte de nós! – talvez seja bom pensar na fala de um homem que decidiu mudar de religião, justificando: “Na religião em que eu estava só me ensinavam a ser bom, mas eu preciso também dar vazão ao mal que existe em mim”. São palavras que chocam, mas que nos ajudam a reconhecer que trigo e joio habitam juntos o coração de todos nós.   
             Invoquemos o Espírito de Deus. Ele “vem em socorro da nossa fraqueza” (Rm 8,26). Somente Ele “penetra o íntimo dos corações” (Rm 8,27). Ele conhece o nosso joio e o nosso trigo. Ele pode nos ajudar a sermos mais tolerantes conosco mesmos e com as outras pessoas. Ele pode nos ensinar a trabalhar a favor do nosso amadurecimento, confiando que o joio nunca conseguirá sufocar o trigo, porque cada um de nós, cada ser humano, foi semeado no campo do mundo como uma boa semente de Deus!

                                                                                                                                                                             Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 10 de julho de 2014

CORAÇÃO ARADO OU IMPERMEABILIZADO?

Missa do 15º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23.

            Você conhece algum “homem de palavra” ou alguma “mulher de palavra”? Você confia na palavra das pessoas? Você é uma pessoa de palavra, isto é, você sustenta aquilo que diz? Você vive de acordo com aquilo que fala aos outros? Essas perguntas servem apenas para constatar que existe hoje um grande descrédito em relação à palavra humana, um descrédito tal que nós já não nos interessamos em ouvir o que os outros têm a nos dizer, assim como também não nos preocupamos em sustentar o que dizemos.
            Se a palavra humana está em descrédito, Deus compara a verdade da sua Palavra com o efeito da chuva sobre a terra: ela irriga, fecunda a terra e faz germinar a semente. Desse modo, Deus afirma: “(...) a palavra que sair da minha boca... não voltará para mim vazia; antes, (...) produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la” (Is 55,11). Do mesmo modo, ao enviar o profeta Jeremias para anunciar a Palavra ao povo de Israel, Deus afirma: “(...) eu estou vigiando sobre a minha palavra para realizá-la” (Jr 1,12).
            Ao comparar a Palavra de Deus com a chuva (Isaías) ou com a semente (Jesus), a liturgia de hoje nos convida a recobrar a confiança naquilo que Deus nos fala: sua Palavra tem o poder de nos fazer passar da morte para a vida, de nos corrigir, nos converter, nos curar, nos transformar e nos salvar. Contudo, a Palavra de Deus não é mágica: assim como a semente só pode germinar se for acolhida pela terra, assim a Palavra precisa da nossa colaboração para produzir seus efeitos em nós, e colaboração significa: obedecer à Palavra, ajustar nossa vida, nosso comportamento de acordo com o que Deus nos fala. Estamos dispostos a fazer isso?
             Antes de a terra receber a semente, ela precisa ser arada. “Arar” significa, de uma certa forma, “machucar” a terra. Às vezes, nós estamos tão fechados à Palavra de Deus que é preciso que um arado passe sobre o terreno do nosso coração, para que possamos receber a semente que é a Palavra. É quando algo nos obriga a parar, a rever a nossa vida, a escutar o que Deus está há tempos tentando nos dizer, mas nunca paramos para ouvi-Lo. Santo Agostinho, São Francisco de Assis e Santo Inácio de Loyola só pararam para ouvir Deus quando ficaram doentes...
            O salmo que hoje meditamos afirma, a respeito de Deus: “transborda a fartura onde passais, brotam pastos no deserto” (Sl 65,12-13). Onde nós permitimos que a Palavra de Deus “passe”, isto é, toque, questione, nos confronte com a sua verdade, ali ocorre uma transformação. Mas essa transformação pode ser abortada por nós de duas maneiras: ou não queremos que a Palavra mexa em determinada área da nossa vida, do nosso comportamento, ou não temos paciência em esperar pelo processo de transformação, o qual comporta o tempo da gestação e as dores do parto...
            Jesus deixou claro que Deus semeia sua Palavra em todos os tipos de terreno, porque Ele “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Mas Ele respeita a liberdade do coração humano. Ele entra onde nós permitimos. A semente da sua Palavra respeita o tipo de terreno que há dentro de nós. Por isso, citando o profeta Isaías, Jesus disse: “o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade” (Mt 13,15). A expressão “coração insensível” também pode ser entendida como “coração impermeabilizado”. Quantos de nós, ouvindo a pregação da Palavra de Deus, nos “protegemos”, nos “defendemos” dela porque não queremos mudar nossas atitudes?
            “Eles ouviram de má vontade”. Nós não sabemos ouvir. Nossos ouvidos estão sempre ocupados (fones). Além disso, no momento em que Deus poderia nos falar na missa ou no culto, alguns estão distraídos com o seu celular, jogando ou trocando mensagens, sem se dar conta de que por trás disso está o maligno, roubando o que foi semeado em seu coração (cf. Mt 13,19). Nós nos tornamos superficiais: recebemos diariamente uma enxurrada de informações e não aprofundamos nada. Como não nos aprofundamos na Palavra de Deus, nossa fé varia de acordo com as circunstâncias: com a mesma intensidade com que nos alegramos ao ouvir a Palavra no domingo, nos entristecemos ao nos deparar com problemas ou dificuldades durante a semana, como se a nossa fé fosse “bipolar” (cf. Mt 13, 20-21). Por fim, nós temos uma vida cheia: estamos sempre ocupados em trabalhar, seja para sobreviver, seja para prosperar. Nossas prioridades são o nosso estômago, os nossos bens materiais e o nosso lazer. Não é prioridade nossa a escuta/meditação da Palavra de Deus (cf. Mt 13,22).
             Apesar de todos esses obstáculos, existe em cada um de nós um espaço de terra boa. Mais do que um lugar ou um espaço, a terra boa é uma atitude de vida, atitude que consiste em ouvir, acolher a Palavra, meditar sobre ela, deixar-se interpelar por ela, perguntar-se: O que Deus está me dizendo por meio dessa Palavra? O que essa Palavra me faz dizer a Deus? A Palavra não é um livro, um folheto, mas uma Pessoa que fala conosco. Confiemos na força que a Palavra de Deus tem de converter e curar cada um de nós, uma conversão e uma cura que se dão até onde permitimos que a Palavra penetre e permaneça em nós. Respeitemos o tempo de gestação da semente. Não avaliemos nosso dia a dia pelo que estamos conseguindo colher, mas, sobretudo, pelo que estamos semeando e permitindo que a graça de Deus semeie em nós. Abramos espaço na terra do nosso coração; acolhamos a semente da Palavra; reguemos o terreno com a nossa oração diária e confiemos, aguardando pelo germinar/frutificar da Palavra em nós. 

                                                                                                                                                                                  Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 4 de julho de 2014

DESCANSA EM MIM

Missa do 14º. dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 9,9-10; Romanos 8,9.11-13; Mateus 11,25-30.

 “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Quais são os nossos fardos? Existe o fardo de estar sozinho(a), mas também existe o fardo de se estar com alguém (relacionamento problemático, conflituoso). Existe o fardo do trabalho, o qual exige de nós sempre mais eficiência e resultado, mas existe também o fardo do desemprego. Existem os fardos dos conflitos que vivenciamos no contato com o mundo, mas existem também os fardos dos nossos conflitos interiores. O outro pode ser um fardo para mim, mas não posso me esquecer de que eu mesmo sou, de certa forma, o meu fardo. Daí o conselho do apóstolo Paulo: “Cada um examine sua própria conduta... Pois cada qual carregará o seu próprio fardo” (Gl 6,5).  
No Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus não nos promete uma vida sem fardos, mas nos convida a revermos a raiz do nosso cansaço: o que é, de fato, que tem nos pesado, nos esgotado? Talvez nós estejamos carregando fardos desnecessários, criados ou alimentados por nós mesmos, como o fardo de um passado não aceito, de uma dor não digerida, de uma ofensa não perdoada; o fardo de sermos explorados pelos outros simplesmente porque não temos a coragem de lhes dizer “não”, nos esquecendo de que as pessoas nos tratam como nós permitimos ser tratados por elas. Então, lembre-se disso: existem fardos que você não precisa carregar.
Mas vamos analisar um outro tipo de fardo... Certa vez, alguém viu uma menina bem pobre carregando seu irmãozinho nas costas, e perguntou-lhe: “Ele não é pesado?” A menina respondeu: “Não! É meu irmão!” Quando falamos de fardos, a primeira ideia que nos vem à mente é nos livrarmos deles, jogá-los fora. Quando o relacionamento pesa, quando os pais idosos pesam, quando os filhos pesam, quando os valores como a integridade, a retidão, a fidelidade, o ideal de amar até o fim pesam, o mundo também nos pergunta: “Isto não está pesado? Você não gostaria de jogá-lo fora, de livrar-se desse fardo?” Se você consegue enxergar a pessoa além do “peso” que ela agora está sendo na sua vida, você também dirá: “Não! É meu marido! É minha esposa! São meus pais! São meus filhos! É a minha família! É o meu trabalho! São os meus valores!”
Por que Jesus tocou nessa questão do fardo com as pessoas que estavam à sua volta? Porque elas viviam oprimidas pela forma como os fariseus interpretavam a religião. O próprio Jesus já havia descrito os líderes religiosos da sua época como pessoas que “amarram pesados fardos e os põem sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos nem com um só dedo se dispõem a movê-los” (Mt 23,4). Jesus não veio nos propor uma religião light, soft, de “baixas calorias espirituais”, de um mínimo ou de nenhum compromisso com Deus e com a Igreja. Ele mesmo disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, (...) pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,29-30). Há um jugo a ser carregado, há um fardo a ser suportado: o jugo ou o fardo da vivência do Evangelho em nosso dia a dia, de viver segundo o espírito (vontade de Deus) e não segundo a carne (nosso egoísmo), cf. Rm 8,9.13.
Muitos estão cansados: cansados fisicamente (trabalho), psicologicamente (relacionamentos) e também espiritualmente (na fé e na esperança). Mas de novo precisamos nos lembrar de que por trás de uma pessoa cansada, sobrecarregada, há alguém folgado. É preocupante o comportamento da geração moderna: não aceita nenhum fardo. Tudo lhes pesa, menos ficar horas a fio na internet. Quebram emocionalmente diante de qualquer coisa que lhes represente um peso, um problema, uma dificuldade. São crianças, adolescentes e jovens que exigem tudo dos outros e não estão dispostos a dar nada de si. Fica a pergunta: eles nasceram assim, ou foram criados assim?  
“Cada um examine sua própria conduta... Pois cada qual carregará o seu próprio fardo” (Gl 6,5). Se você se sente cansado(a), esgotado(a) ou mesmo explorado(a) pelos outros, analise se esse fardo não é consequência de você não saber / não ter a coragem dizer “não”, de colocar limites, de não permitir ser sugado(a) / esgotado(a) / explorado(a) pelos outros. Jesus disse: “(...) aprendei de mim, que sou manso e humildade de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). A mansidão e a humildade de Jesus nos convidam a pararmos de cair na armadilha da mania de grandeza, a reconhecer que nós não somos o centro do mundo, a termos consciência das nossas capacidades, mas também dos nossos limites.
Reze sua vida diante do Evangelho de hoje com a música “Descansa em Mim” (Walmir Alencar):  

http://www.vagalume.com.br/walmir-alencar/descansa-em-mim.html

                                                                                                                                                                             Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 26 de junho de 2014

IGREJA CONFIGURADA A CRISTO, NÃO AOS FARISEUS

Missa de São Pedro e São Paulo. Palavra de Deus: Atos 12,1-11; 2Timóteo 4,6-8.17-18; Mt 16,13-19.

            A época em que vivemos é marcada pela rejeição a toda e qualquer instituição. Rejeita-se instituições como o Estado, a Família, a Escola, a Igreja etc. Por que essa rejeição a toda e qualquer instituição? Porque as pessoas hoje querem fazer suas escolhas e tomar suas decisões segundo aquilo que lhes convém, e não segundo aquilo que determinada instituição afirma ser o certo, o correto. Um exemplo concreto: um jovem, homossexual assumido, que quando criança foi católico, e depois, ao entrar para a adolescência/juventude passou por algumas igrejas evangélicas, há tempos atrás postou no seu Face uma espécie de “convocação” para os demais jovens, no sentido de criarem uma religião sem igreja; literalmente, como ele mesmo expressou, “uma religião sem doutrina”.
            Nós poderíamos comparar as instituições às raízes de uma árvore. A geração de hoje rejeita raízes porque não admite ficar “agarrada” a isso ou àquilo: ela quer seguir pela vida como uma folha livremente levada pelo vento. Mas aqui se esconde uma ironia, ou mesmo uma contradição: a mesma pessoa que não admite ser “conduzida” por uma instituição, aceita ser “conduzida”, para não dizer “arrastada”, pelo vento das circunstâncias do momento. Além disso, quem corta a ligação com as suas raízes acaba tombando diante de qualquer vento contrário. O resultado é o que estamos vendo hoje: pessoas fragilizadas, desorientadas, sem referência, que facilmente tombam diante de qualquer vento que lhes sopre contrário.         
            Ao comparar Pedro a uma pedra e ao afirmar: “sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18), Jesus deixou claro que todos nós precisamos de um alicerce sobre o qual construir a nossa vida; todos nós precisamos de raízes a partir das quais possamos enfrentar os ventos do mundo que sopram contrários a nós. Mas aqui se esconde um problema: a pedra-Igreja, fundada por Jesus sobre os apóstolos, se pulverizou ao longo dos tempos em inúmeros fragmentos, de modo que hoje as pessoas que procuram por uma raiz, por um fundamento para a sua fé, têm inúmeras opções, e o que faz com que elas se agreguem a esta ou àquela igreja não consiste na pergunta: “Qual é a Igreja de Jesus Cristo?”, mas sim na pergunta: “Em qual igreja eu me sinto melhor?” 
Além desse subjetivismo/individualismo das pessoas, existe a questão da perda de “consistência” da pedra-Igreja. Ela perdeu boa parte da sua credibilidade quando acreditou poder garantir a sua autoridade por meio de títulos, de vestimentas e de alguns sinais externos que, ao invés de fazer com que a Igreja se revestisse de Cristo (cf. Gl 3,27), fez com que ela se travestisse de farisaísmo (cf. Mt 23,5-7), desfigurando em si mesma a imagem do seu Fundador, que disse: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Mais ainda: para resistir aos ataques do mundo, pareceu mais prudente à Igreja adotar como raiz a lei e não a graça, a letra e não o Espírito, de modo que ela passou a ser mais identificada como discípula dos fariseus do que como discípula de Jesus Cristo, que embora não tenha vindo abolir a Lei (cf. Mt 5,17), deixou claro que a Lei está a serviço da comunhão das pessoas com o Pai e não a comunhão das pessoas com o Pai a serviço da Lei (cf. Mc 2,27; Mt 23). Neste sentido, o Papa Francisco aponta para a desproporção em que nas nossas pregações falamos mais da lei que da graça, mais de Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra de Deus (A Alegria do Evangelho, n.38).
Não há como negar que as atitudes do Papa Francisco têm devolvido credibilidade e autoridade moral à nossa Igreja. Além de insistir que “o verdadeiro poder é o serviço”, Francisco afirma que “há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida” (A Alegria do Evangelho, n.43). Noutras palavras, diz Francisco: não podemos “tornar pesada a vida dos fiéis”, nem “transformar a nossa religião numa escravidão”.
Meditemos sobre o símbolo das chaves que Jesus entrega a Pedro: “Eu te darei as chaves do reino dos céus” (Mt 16,19). As chaves podem abrir ou fechar. Segundo o Papa Francisco, a Igreja deve ser “uma mãe de coração aberto... uma Igreja com as portas abertas (para) sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas... A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai... Todos devem participar de alguma forma da vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e sem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer” (A Alegria do Evangelho, ns.46 e 47).   
Se hoje estamos reunidos para celebrar as duas colunas da nossa Igreja – São Pedro e São Paulo – não é tanto para nos colocarmos na defesa desta Igreja enquanto instituição, mas muito mais para que cada um de nós se reconheça como chamado a ser uma “pedra viva” (1Pd 2,5) na Igreja que Jesus fundou sobre os apóstolos, no seio da qual Ele é a pedra principal (cf. Ef 2,20). Na medida em que cada um de nós decide viver com fidelidade sua vocação de construtor da Igreja de Jesus Cristo como espaço de acolhida, de cura, de reorientação, de resgate, de conversão etc., nós nos tornaremos um sinal vivo que aponta para Jesus Cristo, a rocha inabalável sobre a qual todo ser humano pode agarrar-se e eleger como verdadeiro alicerce para a sua vida, neste mundo onde “tudo que é sólido desmancha no ar” (Marshall Berman).


                                                      Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 21 de junho de 2014

O MEDO HUMANO E O CONSENTIMENTO DIVINO

Missa do 12º. dom. comum. Palavra de Deus: Jr 20,10-13; Rm 5,12-15; Mt 10,26-33.

            No Evangelho de hoje, ouvimos Jesus dizer por três vezes “Não tenham medo!” (Mt 10,26.28.31). O medo é um dos nossos instintos mais primitivos: temos necessidade de nos defender de algo ou de alguém que nos ameaça. Do quê ou de quem você sente medo hoje? Tememos pela nossa saúde, pelo nosso emprego, pela nossa sobrevivência. Tememos pelos nossos filhos e pela nossa família. Tememos pela nossa vida, ameaçada pelos bandidos e pela violência sempre crescente. Tememos pelo nosso futuro. Tememos perder coisas e pessoas. Tememos pela nossa velhice. Tememos, enfim, pela morte.
Ao mesmo tempo em que Jesus nos ensina que grande parte do nosso medo provém da nossa falta de confiança em Deus, ele nos faz um alerta: ‘Se é para ter medo, tenham medo de perder a integridade de vocês, o caráter, os valores, a honra, a honestidade, a vergonha na cara; tenham medo de ser tornarem pessoas permissivas, corruptas, adúlteras, imorais, injustas, indiferentes ao sofrimento alheio; numa palavra, tenham medo de perder a alma, a salvação de vocês’.
            Por que Jesus tocou na questão do medo? Porque, ao enviar seus discípulos em missão, para anunciarem o Evangelho a todas as pessoas, alertou-os: “Eis que eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos” (Mt 10,16). Essa é a condição de todo verdadeiro cristão no mundo, desde a época de Jesus até hoje: ser um cordeiro no meio de lobos; ser uma pessoa íntegra num ambiente corrupto; ser uma pessoa justa numa sociedade injusta; ser uma pessoa solidária num mundo marcado pela indiferença para com o sofrimento alheio.
            Embora em alguns países, sobretudo aqueles dominados pelo fundamentalismo islâmico, os cristãos são perseguidos e mortos apenas por se declararem cristãos, nos países do Ocidente você não incomoda ninguém por ser cristão(ã) – isso é uma opção individual, à qual você tem direito – mas você incomoda quando, por ser cristão(ã), se opõe àquilo que é injusto na sociedade. É quando você, em nome do Evangelho, precisa colocar o dedo na ferida, dar nomes aos bois e denunciar ou questionar o que há de injusto no ambiente em que se encontra é que passa a sentir na pele a ameaça dos lobos com quem convive no dia a dia, inclusive se dando conta de que alguns que você considerava cordeiros eram, na verdade, lobos em pele de cordeiro.
            Sentindo-se ameaçado por pessoas que viviam “espalhando o medo em redor” (Jr 20,10), o profeta Jeremias colocou a sua causa nas mãos de Deus, Aquele que conhece o coração de cada homem e sabe distinguir o justo do injusto, e proclamou a sua fé, dizendo: “(...) o Senhor está ao meu lado como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (Jr 20,11). Da mesma forma, Jesus nos convida a confiar no Pai: se nenhum pardal, pássaro sem valor algum no mercado, cai por terra, isto é, morre “sem o consentimento do vosso Pai”, tenham a confiança de que o Pai não cuidará de vós, que “valeis” para Ele “mais do que muitos pardais”! (cf. Mt 10,29.31).
            Existem situações reais que nos ameaçam? Sim! Primeiro, porque a vida humana vale hoje tanto quanto os pardais, ou seja, nada; mata-se por qualquer motivo e também sem nenhum motivo. Segundo, porque o mundo odeia quem procura viver como Jesus viveu (cf. Jo 15,18). Contudo, nós precisamos colocar o nosso medo em diálogo com a palavra-chave que Jesus usou para falar da nossa confiança no cuidado que o Pai tem para conosco: CONSENTIMENTO. O Pai conhece tudo da minha vida; sabe até quantos fios de cabelo eu tenho na cabeça. Nada me atingirá, sem o consentimento d’Ele. Essa confiança foi expressa pelo Papa Francisco, quando um repórter lhe perguntou a respeito da sua segurança: ele disse que não sente medo, que sabe que ninguém morre de véspera (entrevista ao Fantástico em 29/07/2013).
            A palavra “consentimento” diz claramente que a nossa vida está nas mãos do Pai, não nas mãos dos homens, assim como a vida do cordeiro está nas mãos do seu Pastor e não nas garras dos lobos que o rodeiam. Por isso, Jesus diz: “Não tenhais medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma!” (Mt 10,28). A questão, porém, é saber se nós acreditamos que temos uma alma e que ela não pode ser tocada pelas mãos de nenhum ser humano. A questão é saber se nós nos preocupamos em cuidar da nossa alma da mesma forma como nos preocupamos em cuidar do nosso corpo. Se há alguém que representa perigo para a nossa alma somos nós mesmos, na medida em que a mantemos afastada de Deus. Neste sentido, vale a pena lembrar de que quem, por descuido da sua fé, não tem medo de perder Deus, já perdeu tudo, inclusive sua alma.
            Jesus termina este Evangelho nos alertando que sempre chega o momento em que a nossa fé sai do âmbito pessoal e é questionada pelos outros. É quando temos que “sair de cima do muro” e dizer no quê consiste a nossa fé. “(...) todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens... Aquele, porém, que me negar diante dos homens....” (Mt 10,32-33). Só consegue se declarar verdadeiro cristão e discípulo de Jesus Cristo quem se libertou do medo de ser criticado, rejeitado, marginalizado e mesmo perseguido pelos outros. No fundo, a verdadeira ameaça à nossa fé não vem de fora (dos outros), mas de dentro (de nós mesmos): é quando ao invés de sentirmos um saudável orgulho em sermos reconhecidos como “pessoas de Deus”, sentimos vergonha em sê-lo.
            A título de conclusão, recordemos as palavras do papa Francisco aos jovens, no final da JMJ, ano passado: “Tenham a coragem de ir contra a corrente... Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da Sua misericórdia e do Seu amor”.

                                                                                                                                                 Pe. Paulo Cezar Mazzi



sábado, 14 de junho de 2014

1 + 1 = 3

Missa da Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Êxodo 34,4b-6.8-9; 2Cor 13,11-13; Jo 3,16-18.

      Na matemática dos homens, 1 + 1 = 2, mas na matemática de Deus, 1 + 1 = 3. Existe o Pai, existe o Filho, e o amor ou a comunhão que une o Pai ao Filho e o Filho ao Pai se chama Espírito Santo.
            Nós só tomamos consciência das três Pessoas divinas no Novo Testamento, como Paulo acabou de mencioná-las: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13,13). Porém, desde o Antigo Testamento, desde o início da Sagrada Escritura, Deus fala de Si mesmo usando o plural e não o singular. Por exemplo, ao criar o ser humano, Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança” (Gn 1,26). Da mesma forma, quando visita Abraão, Deus aparece na figura de três homens (cf. Gn 18,1-16).
           Na música “Índios”, o grupo Legião Urbana cantava: “Quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três...”. Mais importante do que “entender” o que a Igreja chama de “mistério” da Santíssima Trindade, trata-se de compreender o que esse “mistério” tem a dizer para a nossa vida hoje. 1 + 1 = 3: existo eu, existe você e existe o nosso relacionamento. A partir do momento em que eu e você começamos a construir um relacionamento, a questão não é mais saber o que convém a mim ou o que convém a você, mas o que convém ao nosso relacionamento. Se alguma coisa parece ser conveniente apenas a mim, ou apenas a você, mas não é conveniente para o nosso relacionamento, ela, na verdade, não é conveniente.
    O Pai ama o Filho, e no Filho ama toda a humanidade: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Jesus, por sua vez, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). E, como celebramos em Pentecostes, “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Dizendo de outra maneira, por amor a nós, o Pai nos deu o Filho como nosso Salvador. O Filho, por sua vez, nos deu o Espírito Santo como Consolador. O Espírito Santo, por sua vez, nos coloca em comunhão de amor com o Pai e o Filho. Quem crê nesse amor e se deixa amar experimenta a vida eterna, mas quem não crê e não se deixa amar, experimenta a solidão eterna.  
   A comunhão de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo contrasta com a solidão e o individualismo do mundo moderno. Ao tentarem criar comunhão com outras pessoas, muitos se frustraram, se machucaram, foram traídos, se desencantaram, e acabaram por se isolar, por medo de novas desilusões. Na última quinta-feira se comemorou o dia dos namorados. Muitos meninos dizem que hoje não há menina que “preste”, enquanto muitas meninas dizem o mesmo em relação aos meninos. Em meio a esse mútuo desencanto, algumas pessoas decidiram pautar sua vida pelo lema “melhor sozinho do que mal acompanhado”, enquanto outras se identificaram com as palavras de Erasmo Carlos, na música “Mesmo que seja eu”: Filosofia é poesia, é o que dizia minha avó: “Antes mal acompanhada do que só”. Você precisa de um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja eu.  
  Muitos relacionamentos fracassaram ou estão fracassando porque cada um dos parceiros está buscando apenas aquilo que convém para si, e não para o seu relacionamento. O mundo em que vivemos nos ensina a sermos pessoas egocêntricas: “EU quero ser feliz”, “EU vou atrás da MINHA felicidade”. Além disso, como vivemos dentro da cultura do BEM ESTAR, desaprendemos a lidar com a dor, nos esquecendo de que amar dói, como disse Madre Teresa de Calcutá: “O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque”.
          “Quando ainda era noite” Moisés levantou-se e “subiu ao monte Sinai” (Ex 34,4). Ao mesmo tempo, “o Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés” (Ex 34,5). É assim que acontece a nossa comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito nós: nós subimos a Eles, por meio da oração, e Eles descem a nós. Estando na presença de Deus, “Moisés curvou-se até o chão” (Ex 34,8). Diante do quê ou de quem nos curvamos, ou estamos curvados? Curvar-se significa admitir a nossa pequenez diante de um mistério que nos ultrapassa. Ali, prostrado por terra na presença de Deus, Moisés disse: “Peço-te, caminha conosco... perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua” (Ex 34,9). Hoje nos curvamos diante do mistério da Santíssima Trindade e pedimos que, apesar das nossas falhas e pecados quanto ao amor, quanto aos nossos relacionamentos, sejamos acolhidos como propriedades do Pai, do Filho e do Espírito Santo, nas mãos dos Quais podemos ser curados das nossas feridas e libertos das amarras do nosso egocentrismo. 

                   Pe. Paulo Cezar Mazzi