quinta-feira, 21 de novembro de 2019

NOSSA FONTE, FUNDAMENTO, CONSISTÊNCIA E META FINAL


Missa de Cristo Rei do Universo. Palavra de Deus: 2Samuel 5,1-3; Colossenses 1,12-20; Lucas 23,35-43.

A figura de um rei tem quase nada a dizer ao nosso mundo moderno, mas no mundo bíblico ela se reveste de uma grande importância. O rei é o defensor do seu povo; é aquele que vai à frente do exército para lutar e proteger o seu povo. Neste sentido, ele é o promotor da paz. Além disso, o rei é responsável por garantir a justiça e o direito, o que significa não permitir que no seu reino haja injustiças que levem pessoas inocentes a sofrerem e a morrerem. Enfim, como nos ensina o Salmo 72, o rei é o defensor dos mais fracos: só ele pode salvar a vida dos indigentes, esmagar os opressores, libertar os prisioneiros e ter compaixão dos fracos. Este sentido bíblico da figura do rei deve iluminar a nossa celebração de hoje, dia em que a Igreja proclama Jesus Cristo, Rei do universo.  
Pode parecer muita pretensão nossa afirmar que Jesus Cristo é Rei “do universo”, uma vez que nós, cristãos, somos apenas um terço da humanidade. Por isso, precisamos entender essa verdade a respeito de Jesus a partir da Sagrada Escritura, quando o apóstolo Paulo afirma: “Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e todas têm nele a sua consistência” (Cl 1,16-17). Em relação ao mundo, em relação a tudo o que foi criado, Jesus Cristo desempenha o papel de fonte, fundamento, consistência e meta final. Portanto, só em Jesus Cristo é que nós encontramos a razão de ser da nossa existência, pois nele o Pai nos escolheu antes da criação do mundo (cf. Ef 1,4). Quando Jesus Cristo não ocupa o centro da nossa existência, perdemos o nosso fundamento, como uma construção que, por perder seu próprio alicerce, desaba. Nele ainda está também a nossa consistência, o nosso humano curado, redimido, integrado. Por fim, Ele é a nossa meta final, que é a comunhão definitiva com o Pai.
Apesar dessa verdade profunda da nossa fé, não apenas a maior parte da humanidade desconhece Jesus Cristo como muitos de nós, que supostamente já O conhecemos, não vivemos sob o seu domínio salvífico, no sentido de que não nos submetemos à sua verdade, não pautamos a nossa conduta segundo o seu Evangelho e não aceitamos sua “interferência” em diversos âmbitos da nossa vida. Quando muito, Jesus se tornou para não poucos cristãos, apenas um pronto-socorro nas horas críticas da vida. Portanto, há uma distância muito grande entre a declaração de que Jesus Cristo é rei do universo e o fato de que muitos cristãos não aceitam viver sob o domínio desse rei, sofrendo, em contrapartida, a dominação imposta pelo maligno ou por um mundo especializado em guiar cegos para o mesmo buraco em que ele se encontra.
A boa notícia é que todos nós, seres humanos, podemos dizer em relação a Jesus Cristo o que todas as tribos de Israel disseram em relação ao rei Davi: “Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne” (2Sm 5,1). Sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus Cristo assumiu em tudo a nossa condição humana, sofrendo ele mesmo nossas fraquezas e escolhendo livremente se submeter ao Pai, para nos livrar do círculo vicioso da desobediência que nos leva para a destruição e a morte. É por isso que Paulo afirma: “Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e os que estão no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1,19-20).  
Da mesma forma como todas as coisas foram afetadas pelo pecado e pela morte, a partir das pessoas que se deixaram dominar pelo mal, Deus Pai confiou ao seu Filho o poder de restaurar todas as coisas, reconciliando-as com sua própria verdade, devolvendo a cada uma delas o seu próprio fundamento e a sua consistência, realizando a paz pelo sangue da cruz de seu Filho. Desse modo, toda pessoa que escolhe livremente colocar-se sob o domínio espiritual de Cristo é como um enfermo que se deixa curar, um perdido que se deixa encontrar, um coração conflito que se deixa pacificar ou um condenado que se deixa absolver e salvar.
Eis, portanto, a cena central do Evangelho de hoje: dois homens estão condenados, junto com Jesus, à morte de cruz. Enquanto um deles ridiculariza o senhorio de Jesus, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (Lc 23,39), o outro reconhece tanto a necessidade de ambos serem salvos como também Aquele que é o único que tem o poder de realizar tal salvação: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reinado” (Lc 23,42), ao que Jesus lhe respondeu: “Em verdade eu te digo, ainda hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).
Essas palavras de Jesus revelam o verdadeiro sentido do seu reinado, do seu domínio salvífico sobre todo ser humano que escolhe livremente se submeter a ele: este Rei nos abre o caminho de volta ao paraíso, devolvendo-nos o estado psíquico e espiritual de pessoas reconciliadas, pacificadas pelo sangue de sua cruz. Essa é a realeza escandalosa de Jesus: em um mundo cheio de pessoas injustiçadas, Ele aceitou morrer como um injusto, mas a sua morte derramou sobre toda a humanidade o sangue da justificação, isto é, a graça de sermos declarados justos não devido à nossa vitória sobre o pecado, mas devido às palavras daquele que nos absolve das nossas culpas e nos livra das nossas condenações.  
            Eis, portanto, o nosso Rei! Um homem pacífico, não violento, que morreu experimentando a violência deste mundo, mas que ressuscitou e se assentou à direita do trono de Deus Pai, para restaurar todas as coisas, para reconciliar e pacificar todas as criaturas no céu e na terra. A Ele suplicamos: Senhor Jesus Cristo, tu és a minha fonte, o meu fundamento, a minha consistência e a meta final da minha vida. Olha para o nosso mundo, ferido pelas injustiças praticadas por inúmeros ‘reis’ terrenos dominados pela ganância, corrompidos pelo poder e submissos à escravidão do dinheiro. Estende sobre todos nós o teu senhorio, o teu domínio salvífico, libertando-nos do domínio destrutivo do mal, absolvendo-nos de todo tipo de condenação, reconciliando-nos com a nossa própria verdade e pacificando-nos interiormente. Enfim, restabelece o direito, a justiça e a paz sobre a face da terra; defende os mais fracos, salva a vida dos indigentes, esmaga os opressores e restaura toda a criação de Deus, conduzindo-nos todos ao teu Reino eterno. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A TAREFA DIÁRIA DE CONSTRUIR-SE COMO PESSOA

Missa do 33º dom. comum. Palavra de Deus: Malaquias 3,19-20a; 2Tessalonicenses 3,7-12; Lucas 21,5-19.

            Nenhum ser humano nasce pronto. Por isso, a vida confia uma tarefa a cada um de nós: construir-se como pessoa. Essa construção é diária e só estará terminada no momento da nossa ressurreição, quando Deus completar a obra que começou em cada um de nós.
            Diante da tarefa existencial de construir-se como pessoa, alguns se dispõem a arregaçar as mangas e a trabalhar. São pessoas que não se conformam com aquilo que o mundo lhes oferece, mas procuram separar aquilo que convém ao seu crescimento daquilo que não convém. Essas pessoas se dão ao trabalho de cavar fundo, dentro de si mesmas, até encontrar a rocha, o fundamento firme e seguro, sobre o qual devem realizar a construção de si. Mas há muitas outras pessoas que acham mais fácil levar a vida na base do “copiar e colar”: elas preferem viver como parasitas, encostando nos outros e se alimentando daquilo que é alheio, ao invés de lançarem suas próprias raízes e produzirem o alimento de que são capazes. São pessoas que, por medo ou por pura acomodação, não querem cavar fundo, mas improvisar a vida na base da artificialidade e da superficialidade.
            Seja para aqueles que se dão ao trabalho de se construir, seja para aqueles que não querem assumir tal tarefa, Jesus hoje faz um alerta: “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (Lc 21,6). Alguns poderiam perguntar: ‘Se tudo será destruído, então para quê construir alguma coisa?’. Essas palavras de Jesus se referiam ao Templo de Jerusalém, construção imponente e admirável, símbolo da “eternidade” de Deus no meio do seu povo. Mas Jesus profetiza a destruição daquele Templo de pedras, ocorrida no ano 70 d.C., justamente porque Jerusalém rejeitou Jesus, aquele que poderia salvá-la da destruição.
            Essa profecia de Jesus precisa falar também conosco. Existem situações em nossa vida que consideramos “garantidas”, como que “eternas”, em relação às quais depositamos toda a nossa confiança e segurança. Isso pode se referir a um relacionamento, a uma conquista profissional, à aquisição de um bem material, à modelagem ou à saúde do próprio corpo ou até mesmo a algum crescimento na vida espiritual. Tudo isso pode ser destruído, mas não por Deus, e sim por nós mesmos! A destruição daquilo que hoje consideramos importante pode já estar acontecendo ou sendo preparada, seja devido a atitudes erradas da nossa parte, seja também devido à falta de atitude!  
            Deus permitiu a destruição do Templo de Jerusalém para nos dizer que tudo aquilo que construímos tendo por base a mentira, a injustiça ou o prejuízo a outras pessoas será destruído. “Não ficará pedra sobre pedra”. Mas a destruição do Templo também indicava outra coisa na época de Jesus: o início do fim dos tempos. Nosso tempo neste mundo é finito, e temos de tomar consciência disso. Tanto a nossa história pessoal como a história da humanidade caminha para um desfecho, que a Sagrada Escritura chama de “Dia do Senhor”, o dia do Julgamento, dia em que Deus separará os bons dos maus, os justos dos injustos, e retribuirá a cada um segundo as suas obras, dia em que o fogo de Deus passará pela construção de cada um de nós, comprovando a sua verdade ou desmascarando a sua mentira (cf. 1Cor 3,11-15). Esse fogo do Julgamento de Deus é chamado pelo profeta Malaquias de “sol da justiça”: ele queimará a palha – imagem bíblica das pessoas injustas, que secaram por não estarem enraizadas em Deus, na Sua verdade e na Sua justiça –, mas para os que vivem segundo essa verdade e essa justiça, esse Dia trará a salvação definitiva.  
            Jesus nos orienta como nos preparar para esse Dia: 1) tomando cuidado para não sermos enganados por pessoas que, com suas palavras, tentarão nos desviar do verdadeiro Evangelho (v.8); 2) não nos desesperando diante de guerras e revoluções – “É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim” (Lc 21,9); 3) aprendendo a suportar perseguições que visam enfraquecer a nossa fé e a nossa esperança em Cristo (v.12) – segundo Jesus, “esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé” (Lc 21,13); 4) por fim, desenvolvendo em nós a capacidade de resistir ao ódio do mundo, pois ele rejeita o que não é seu. Essa resistência será possível se confiarmos nas palavras de Jesus: “Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (Lc 21,18-19). O mesmo Deus quer permitirá que as construções fundadas na mentira e na injustiça desabem, cuidará até das coisas mínimas daqueles que fizeram d’Ele o fundamento de suas vidas.  
            Eis, portanto, a atitude que nos é pedida em nossa construção diária como pessoas e como discípulos de Jesus, como homens e mulheres destinados ao Reino de Deus: permanecer firmes; perseverar! Perseverar significa ser paciente, ter fortaleza interior; apesar de tudo, seguir com firmeza, seguir em frente; tornar-se capaz de manter-se firme diante das dificuldades. Perseverar significa suportar a tensão própria da vida, não afrouxando, nem arrebentando diante das provações. O arco deve manter a sua tensão natural para que a flecha seja lançada e atinja o alvo, e o nosso alvo é a salvação em Cristo. Por isso, enquanto nos construímos como pessoas em meio às inseguranças e incertezas desse mundo, dizemos como Paulo: “Sei em quem depositei a minha fé, e estou certo de que ele tem poder para guardar o meu depósito, até aquele Dia” (2Tm 1,12).
            Enfim, não sejamos como alguns cristãos da Igreja em Tessalônica, que abandonaram a construção de si mesmos para viverem na ociosidade, na preguiça existencial, no comodismo e na resignação, pois, segundo o apóstolo Paulo, a vida tem uma regra: “Quem não quer trabalhar, também não deve comer” (2Ts 3,10): quem não aprofunda sua fé em Cristo não deve reclamar, quando for derrubado pela força dos ventos contrários; quem permite que a árvore da sua vida seja sugada diariamente por parasitas não deve chorar e se lamentar, quando essa mesma árvore secar definitivamente; enfim, quem não defende e não valoriza a construção de si mesmo não deve se revoltar, quando dela não sobrar mais pedra sobre pedra.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

CRER NA VIDA ETERNA FAZ TODA A DIFERENÇA NA VIDA TERRENA


Missa do 32º dom comum. Palavra de Deus: 2Macabeus 7,1-2.9-14; 2Tessalonicenses 2,16 – 3,5; Lucas 20,27-38.

No mundo em que vivemos, marcado por um forte materialismo, a maioria das pessoas busca apenas sobreviver. São poucos aqueles que pensam na vida para além do aqui e do agora. Aliás, as inseguranças e as incertezas são tão grandes hoje em dia que muitos já não fazem planos para o amanhã: vive-se apenas o hoje. No entanto, Jesus nos convida a lançar o olhar para além do aqui e do agora, e a verificar se a nossa esperança nele está reduzida somente à nossa sobrevivência neste mundo, ou se cremos e esperamos pela Vida eterna. “Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens” (1Cor 15,19). Se a nossa esperança não se apoia na verdade da ressurreição, nós nada entendemos a respeito da Vida que Jesus veio nos trazer.
Enquanto os saduceus ridicularizavam a fé na ressurreição, Jesus explicou que a ressurreição não é o reavivamento de um cadáver nem o prolongamento da existência presente. A vida eterna jamais será um perpetuar as desigualdades e injustiças desse mundo. Portanto, a vida dos ressuscitados não é um prolongamento da vida terrena, mas uma total transformação dela. Se nesta vida terrena nascemos corpo mortal, fraco e desprezível, ressuscitaremos corpo imortal, cheio da força e da glória de Deus (cf. 1Cor 15,43). Se nesta vida terrena cada um nasceu num lugar, numa cidade terrena, nós, cristãos, sabemos que “a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso” (Fl 3,20-21).
            Segundo o profeta Daniel, a fé na ressurreição é a fé na justiça de Deus. Se em nosso mundo terreno, muitas pessoas morreram injustamente enquanto outras, que fazem o mal e escapam constantemente das mãos da justiça, continuam impunes, desfrutando de uma vida boa, a ressurreição é o momento onde Deus separará os bons dos maus, os justos dos injustos, e retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta: “Muitos que dormem no pó da terra despertarão, uns para a vida eterna e outros para o horror eterno” (Dn 12,2). O próprio Jesus nos garantiu essa verdade, ao dizer: “Vem a hora em que todos os que repousam no sepulcro ouvirão a minha voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5,28-29).
            Todos nós já perdemos pessoas – parentes ou amigos – na morte. Além disso, conhecemos pessoas que, após a morte de um ente querido, deixaram de sorrir, de sonhar, de crer e de esperar, tornando-se amargas; algumas até romperam com Deus e com a Igreja. Mas Jesus, ao nos falar sobre a verdade da ressurreição, lembra algo essencial: “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele” (Lc 20,38). Para nós, essa ou aquela pessoa morreu, mas para Deus ninguém está morto: todos vivem porque Ele é o Senhor da vida e destinou cada ser humano à ressurreição e à Vida eterna. O apóstolo Paulo afirma também que “a esperança da vida eterna” nos foi “prometida pelo Deus que não mente” (Tt 1,2).
            A fé na ressurreição e na Vida eterna é algo que muda a nossa maneira de viver o tempo presente. Como os Macabeus, nós nos tornamos capazes de enfrentar e suportar injustiças porque cremos na justiça de Deus, que ressuscitará todos os Seus justos para a Vida. Além de relativizarmos situações de dor e de sofrimento, nós não nos enganamos com engadoras promessas de felicidade veiculadas pela propaganda de consumo e incentivadas pela concorrência desumana, sobretudo nos ambientes de trabalho, pois aspiramos “a uma pátria melhor, isto é, a uma pátria celeste” (Hb 11,16). Pelo fato de crermos na ressurreição e na Vida eterna, nós nos tornamos como Abraão que, ao entregar seu filho Isaac, dizia: “Deus é capaz também de ressuscitar os mortos”. Por isso, recuperou seu filho, como um símbolo (Hb 11,19).
            Isaac, o filho a quem Abraão tanto amava, foi poupado do sacrifício para dizer que nós não fomos apenas criados por Deus para esta vida terrena, mas que Ele, no momento da nossa morte, intervirá e nos destinará à ressurreição e à verdadeira Vida. O Deus que nos criou é também o Deus que nos salva da morte definitiva, ressuscitando-nos. Portanto, a nossa vida presente, apesar de estar marcada por situações de injustiça e sofrimento, deve ser vivida como uma caminhada confiante e alegre em direção à Vida eterna. O horizonte da ressurreição deve influenciar as nossas escolhas e decisões, os nossos valores e as nossas atitudes, dando-nos a coragem de enfrentar as forças da morte que dominam o mundo, pois “o que nós esperamos, conforme sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça” (2Pd 3,13).

            ORAÇÃO: Creio em Deus Pai, que não apenas nos chamou à existência, mas também nos prometeu a Vida eterna em seu Filho Jesus Cristo, e Deus não mente. Creio na justiça de Deus, justiça que significa separar os bons dos maus, os justos dos injustos, e retribuir a cada pessoa segundo a sua conduta, ressuscitando os que fizeram o bem para a Vida eterna e os que fizeram o mal para o julgamento.
            Creio em Jesus Cristo, morto pelos nossos pecados e ressuscitado para realizar a nossa justificação diante de Deus, ele cuja Palavra já nos faz passar da morte para a Vida e nos ensina a não temer o julgamento, pois não existe mais condenação para aqueles que creem no sacrifício redentor da Sua cruz. Cremos que Jesus virá, no momento da nossa morte, e nos levará para o seu Reino, transformando o nosso corpo fraco e mortal num corpo cheio da força e da glória de Deus.
             Creio no Espírito Santo, que ressuscitou Jesus dentre os mortos e também dará vida ao nosso corpo mortal. Creio na força do Espírito de Deus, de penetrar em nossos ossos secos e reavivar a nossa fé e a nossa esperança na ressurreição e na Vida eterna. Creio que o Espírito Santo renova a face da terra e é a garantia segura não somente de novos céus e de uma nova terra, onde habitará a justiça, mas garantia também da nossa própria ressurreição. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

SER FIEL À PRÓPRIA ESSÊNCIA


Missa de todos os Santos. Palavra de Deus: Apocalipse 7,2-4.9-14; 1João 3,1-3; Mateus 5,1-12a.

            A Sagrada Escritura afirma que nós, seres humanos, fomos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). Isso significa que dentro de cada um de nós existe algo sagrado, divino: é a nossa verdadeira essência. Sempre que vivemos a partir da nossa essência, do nosso sagrado, temos saúde e nos sentimos felizes, realizados. Porém, sempre que vivemos no sentido contrário à nossa essência, ao nosso sagrado, adoecemos, perdemos a paz e nos sentimos infelizes.
            O dia de todos os Santos nos convida a tomar consciência da nossa essência, do divino, do sagrado que habita o mais profundo de cada um de nós. Esse divino, esse sagrado fala conosco e pede para ser respeitado, reconhecido, desenvolvido. É verdade que nós levamos esse sagrado, esse divino, como que “em vasos de barro” (2Cor 4,7), ou seja, ele não é reconhecido e valorizado pelo mundo, que só enxerga aquilo que é exterior e superficial. Além disso, por sermos frágeis como “vasos de barro”, nós podemos fazer escolhas erradas e acabar por jogar fora o sagrado que nos habita. Sendo assim, a primeira pessoa que precisa tomar consciência do valor que carrega consigo somos nós mesmos.
            Uma das perguntas necessárias no dia de hoje é: como cuidar do divino, do sagrado, da santidade de Deus que nos habita, vivendo num mundo profano, que despreza e ridiculariza o sagrado? Esse cuidado passa pela nossa liberdade. Toda pessoa que quer ser fiel à sua essência divina precisa se lembrar do seguinte lema paulino: “Posso fazer tudo o que quero, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12). Sobretudo no mundo atual, cada um tem a liberdade de ser o que quer, de fazer o que quer; no entanto, a pessoa que deseja ser fiel à sua verdade interior, à sua essência, precisa discernir, separar o que convém à sua essência e o que não convém, o que respeita o divino nela e o que o ignora ou até mesmo atenta contra ele. Justamente porque o cuidado com a nossa santidade passa pela maneira como lidamos com a nossa liberdade é que Paulo volta a afirmar: “Posso fazer tudo o que quero, mas não me deixarei escravizar por coisa alguma” (1Cor 6,12).
            O Apocalipse nos fala da nossa essência divina como uma marca que recebemos em nossa consciência (cf. Ap 7,3). Numa época em que a maioria das pessoas acha mais fácil deixar-se levar por suas emoções cegas e por seus afetos desordenados, São João nos lembra que a nossa consciência precisa assumir o papel que lhe é próprio: administrar nossas emoções, ordenar nossos afetos, orientar a nossa liberdade segundo a verdade de Deus que nos habita, segundo a Sua voz, presente na essência divina que se esconde no mais profundo de nós e que pede para ser levada em conta nas nossas escolhas e decisões, se quisermos ser pessoas verdadeiramente saudáveis, felizes e realizadas. Além disso, João nos alerta para o fato de que, embora todo ser humano passe por muitas tribulações na sua vida terrena, toda pessoa que deseja ser fiel à sua vocação à santidade enfrentará tribulações muito mais intensas e dolorosas, tanto dentro quanto fora de si mesma (cf. Ap 7,14).  
            O mesmo apóstolo João nos ensina, na sua primeira carta, que a santidade é um processo nunca concluído, mas sempre em andamento: “Desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos” (1Jo 3,2). Se a nossa meta é nos tornarmos semelhantes à imagem do Filho de Deus, sabemos que nossa caminhada rumo à meta é feita de avanços, retrocessos, quedas, paradas e retomadas. Por isso, temos que caminhar mantendo os nossos olhos fixos em Jesus (cf. Hb 12,1). Ele foi humano como nós em tudo. Procurando nos comportar como Ele se comportou conseguiremos olhar o mundo com outros olhos: não como um lugar do qual devemos nos manter distantes ou nos defender, mas como o lugar que precisa receber a luz do divino que nos habita, o lugar onde existem pessoas que precisam ser salvas, que precisam tomar consciência de quem pertencem a Deus e são infinitamente amadas por Ele!
            Sendo verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, Jesus escolheu viver segundo a sua essência divina e nos indicou o caminho da santidade: aprender com os pobres, consolar os aflitos, tornar-se capaz de mansidão, comungar da fome e da sede de quem anseia por justiça, exercer a misericórdia (afetar-se pela dor do outro), cuidar da nossa essência (ser puro de coração), não se cansar de lutar pela paz e suportar ser perseguido por querer um mundo e uma Igreja mais justos, mais de acordo com os valores do Evangelho. Ser santo não significa tornar-se o que não se é, mas ser fiel ao que se é; não significa vestir-se com roupas “religiosas”, mas despir-se das vestes farisaicas que servem apenas para disfarçar o barro de que somos feitos.    

Pe. Paulo Cezar Mazzi

Algumas reflexões dos Santos para a nossa vida:

“Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras”
(São Francisco de Assis).

“Quanto mais escuridão se faz ao nosso redor, mais devemos abrir o coração à luz que vem do alto” (Santa Edith Stein).

“Tem sempre presente que a pele se enruga, que o cabelo se torna branco, que os dias se convertem em anos, mas o mais importante mão muda: tua força interior”
(Madre Teresa de Calcutá).

“A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”
(Santo Agostinho).

“Trabalha em algo, para que o diabo te encontre sempre ocupado”
(São Jerônimo).

“Quem diz verdades perde amizades”
(Santo Tomás de Aquino).

“Não se opor ao erro é aprová-lo; não defender a verdade é negá-la”
(Santo Tomás de Aquino).

“No entardecer da vida, seremos julgados sobre o amor”
(São João da Cruz).

“Pertence àquele que tem fome o pão que tu guardas; àquele que está nu a capa que tu conservas nos teus armários; àquele que está descalço, os sapatos que apodrecem em tua casa; ao pobre o dinheiro que tu tens guardado. Assim tu cometes tantas injustiças quantas as pessoas às quais poderias dar” 
(São Basílio Magno).

“Quando rezamos, falamos com Deus. Quando lemos a Sagrada Escritura, Deus fala conosco”
(São Jerônimo).

“Enquanto formos cordeiros, venceremos e, mesmo que sejamos circundados por numerosos lobos, conseguiremos superá-los. Mas se nos tornarmos lobos, seremos derrotados, porque ficaremos desprovidos da ajuda do pastor”
(São João Crisóstomo).

“Não há santos sem passado, nem pecadores sem futuro”
(Cardeal Van Thuan).

“Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças, nem vida nem alegria. Muito pelo contrário, porque chegarás a ser o que o Pai pensou quando te criou e serás fiel ao teu próprio ser”
(Papa Francisco).

“A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça” (Papa Francisco).

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

DEUS NÃO SE ENCONTRA NO ALTO DA MONTANHA DO NOSSO ORGULHO, MAS NO VALE DA NOSSA HUMILDADE.



Missa do 30º. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 35,15b-17.20-22a; 2Timóteo 4,6-8.16-18; Lucas 18,9-14.

            Primeiro Jesus nos ensinou a orar (cf. Lc 11,1-13); depois nos ensinou a sermos perseverantes na oração (cf. Lc 18,1-8); agora ele nos convida a repensar a maneira como nos colocamos diante de Deus na oração. Quando rezo, posso me colocar nas mãos de Deus como o barro se coloca nas mãos do oleiro, permitindo que o Oleiro divino me corrija, me aperfeiçoe, me transforme, fazendo de mim um vaso novo, uma pessoa nova. No entanto, também é possível colocar-se diante de Deus como uma pessoa que se vê perfeita, irrepreensível, que já amadureceu e, principalmente, que se julga superior às outras. Neste caso, o Oleiro não tem o que fazer, pois o barro endureceu na sua arrogância e autossuficiência, tornando-se uma estátua rígida, uma peça pronta, que está ali não para ser modelada, mas admirada ou mesmo “recompensada”.
            Segundo Jesus, todo encontro que temos com Deus na oração deveria nos fazer sair dele “justificados”, isto é, transformados. No entanto, às vezes essa transformação não acontece, e o problema não está em Deus, mas em nós, porque, ao invés de mergulhar de cabeça na água da piscina, nos dispusemos a molhar somente os pés; ao invés de permitir que o Médico tocasse nas nossas feridas mais profundas, nós quisemos que Ele nos desse somente um remédio para aliviar os sintomas da nossa doença; ao invés de nos despirmos diante d’Aquele que nos conhece por dentro, colocamos a melhor roupa e fizemos a melhor maquiagem para disfarçar – como se isso fosse possível – diante d’Ele aquilo que realmente somos.
            Assim como existem orações “perdidas” – orações que não nos transformam – existem também tratamentos “perdidos”, terapias jogadas fora, dinheiro desperdiçado em consultas médicas e tratamentos caros que não curam; inúmeras orações feitas em novenas, trezenas, missas, cultos, jejuns, quaresmas de São Miguel, cercos de Jericó etc.; devoções que nada modificam, nada transformam porque a pessoa se recusa a mergulhar no profundo de si mesma e a reconhecer seus erros e suas responsabilidades. São pessoas que mudam constantemente de médico, de terapeuta, de igreja, de religião, de crença, de parceiros(as), mas continuam sempre as mesmas, porque se recusam a mudar por dentro, se recusam a enfrentar seus fantasmas e a sofrerem a dor da transformação.
            Assim como a condição para ser curado é reconhecer e admitir que se está doente, a condição para sairmos da oração transformados é descer do pedestal da nossa arrogância. Da mesma forma como não se pode colocar mais nada num copo que já está cheio, a pessoa arrogante, que se julga justa e melhor do que as outras – como o fariseu na parábola – é alguém “impermeável” à graça de Deus. Por isso, Jesus nos propõe uma outra atitude – a do pecador na parábola: reconhecer a verdade de si mesmo perante Deus; permitir que Ele coloque a mão onde estamos feridos; aceitar as correções da sua Palavra; assumir verdadeiramente a responsabilidade diante das mudanças que são necessárias para a nossa vida; confrontar-nos com os nossos limites; enfim, reconhecer que precisamos ser salvos!    
            Jesus afirmou que “quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14). “Elevar-se” significa ser o que não se é, afastar-se da própria verdade, mentir para si mesmo e para os outros, trilhar um caminho de distanciamento de si mesmo, desligar-se das suas próprias raízes, rejeitar seus próprios limites, sua sombra, suas fraquezas. Ora, se é verdade que a força de Deus se manifesta justamente em nossa fraqueza (cf. 2Cor 12,9), elevar-se significa fechar-se à graça transformadora de Deus. Por outro lado, “humilhar-se” não significa diminuir-se, mas reconciliar-se com a própria verdade, acolher-se e aceitar-se como se é, tomar consciência do próprio tamanho e das próprias capacidades, voltar a ter contato com as próprias raízes, das quais recebemos a seiva do Espírito de Deus e a partir das quais recobramos a consciência da nossa força e da nossa capacidade de resistir aos ventos contrários. Humilhar-se significa compreender que o verdadeiro encontro com Deus na oração nunca se dará no alto da montanha da nossa soberba, do nosso orgulho ou da nossa arrogância, mas lá embaixo, no vale da nossa humildade, no confronto com as nossas feridas, com as nossas sombras e com os nossos medos.      
            Eis, portanto, uma oração que talvez seja necessária para cada um de nós neste momento:

            Senhor Deus, o mundo tem me incentivado a subir os degraus da escada do orgulho e da arrogância, para que eu me sinta forte, vencedor(a), inabalável e melhor que muitas outras pessoas. Mas sempre que me coloco assim diante de Ti, não há espaço para a Tua graça penetrar em minha alma. Deixo de ser barro em Tuas mãos e saio da oração do mesmo jeito que entrei, sem ser transformado(a).
            Teu Filho Jesus me convida a descer do alto da montanha da minha arrogância até o vale da minha humildade, onde posso voltar a dialogar com a minha verdade, reencontrar as minhas raízes e falar contigo a partir delas, a partir da minha verdadeira necessidade de ser curado(a), corrigido(a), transformado(a).
            Diante do Teu amor que tudo pode curar e transformar quero me despir da minha armadura de fariseu, de pessoa que não se reconhece necessitada de salvação, que não admite suas próprias fraquezas e se julga melhor do que as outras. Assim como o salmista, eu Te peço: “preserva-me do orgulho, para que ele nunca me domine” (Sl 19,13). Concede-me a graça e a coragem de ser humilde, de estar assentado sobre o chão da minha verdade, consciente da minha força e da minha fraqueza, da minha luz e da minha sombra, reconciliado(a) com a minha história de vida. Amém!    

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

SÓ QUEM NÃO PERDEU A ESPERANÇA CONSEGUE ORAR

Missa do 29. dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 17,8-13; 2Timóteo 3,14–4,2; Lucas 18,1-8.

“Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir” (Lc 18,1). As mãos de muitos cristãos se cansaram de elevar-se ao Céu, assim como os seus joelhos se cansaram de se dobrar na oração... Alguns abandonaram a vida de oração porque se cansaram de esperar por Deus; outros, porque Ele não atendeu aos seus pedidos. Quantos pais suplicaram a Deus pela cura do seu filho enfermo e não foram atendidos? Muitas pessoas não conseguem mais rezar porque sua alma foi tomada pela raiva em relação a Deus, uma raiva humanamente compreensível, uma vez que nós somos profundamente limitados para compreender os caminhos de Deus. Portanto, para muitas pessoas, antes de pensar em retomar sua vida de oração, trata-se primeiro de enfrentar sua raiva, sua revolta contra Deus; trata-se até mesmo de perdoar Deus, antes de voltar a dialogar com Ele na oração. 
Quando estava diante do túmulo de Lázaro, “Jesus ergueu os olhos para o alto e disse: ‘Pai, eu sempre me ouves’” (Jo 11,41-42). Quando nos ensinou a oração do Pai nosso, Jesus nos garantiu que o Pai sabe das nossas necessidades (cf. Mt 6,8). Portanto, sempre que nos colocamos em oração, devemos ter a profunda confiança de que o Pai nos ouve, porque somos Seus filhos e filhas. O Pai sempre nos ouve; no entanto, diante de um pedido nosso Ele às vezes diz ‘sim’; às vezes, ‘não’; às vezes, ‘ainda não’. Em outras palavras, nossa oração nunca funcionará como uma senha que digitamos para ter acesso aos bens que desejamos receber de Deus; nossa oração nunca será uma “queda de braço”, até que dobremos Deus à nossa vontade. Pelo contrário, muitas vezes nossa oração será uma “queda de braço” até que o nosso egoísmo ceda e dê lugar à vontade de Deus em nossa vida, Ele que faz com que tudo concorra para o bem e para a salvação dos Seus filhos e filhas; tudo, até mesmo o ‘não’ que nos diz (cf. Rm 8,28).   
“Minha alma espera pelo Senhor, mais que os vigias pela aurora” (Sl 130,6). Às vezes a nossa oração é uma interminável noite de espera. Aí está o exemplo da oração de Moisés: “enquanto Moisés conservava a mão levantada, Israel vencia; quando abaixava a mão, vencia Amalec. Ora, as mãos de Moisés tornaram-se pesadas... Aarão e Ur, um de cada lado sustentavam as mãos de Moisés. Assim, suas mãos não se fatigaram até ao pôr do sol, e Josué derrotou Amalec...” (Ex 17,11-13). Enquanto nossa oração é sustentada pela esperança, vencemos os desafios de cada dia; quando deixamos de esperar no Senhor e abandonamos nossa oração, passamos a ser vencidos... Portanto, nosso desafio na oração é aprender a esperar no Senhor e pelo Senhor. Na verdade, só consegue rezar quem tem esperança. Aqui são oportunas as palavras do salmista: “Os que esperam em ti não ficam decepcionados, ficam decepcionados os que negam sua fé por qualquer motivo” (Sl 25,3).
Além de falar da profunda necessidade de rezar sempre e nunca desistir, Jesus quer corrigir uma possível imagem errada que temos de Deus como se, ao invés de ser o Pai que conhece nossas necessidades, Ele fosse alguém alheio ao que nos acontece, insensível à nossa dor, surdo aos nossos apelos, desinteressado em relação às injustiças que atingem inúmeras pessoas em nosso mundo. Por quatro vezes no Evangelho aparece a expressão “fazer justiça” (vv.3.5.7.8). A súplica dessa viúva por justiça nos fala de pessoas que oram a Deus não por um capricho, não para pedirem coisas supérfluas, mas para pedir aquilo que é justo para se ter uma vida digna, uma vida que Deus quer para todo ser humano.  
Nosso país é profundamente injusto. Na última quarta-feira, o IBGE divulgou que em 2018 a renda média do 1% dos mais ricos subiu de R$ 25.593 para R$ 27.744, alta de 8,4%. Já entre os 5% mais pobres, o rendimento caiu 3,2%. Em outras palavras, aumentou ainda mais a desigualdade entre ricos e pobres, uma desigualdade que gera inúmeras injustiças sociais. Nossa oração tem espaço para clamar a Deus pelos que são injustiçados em nosso país? Assim como a viúva no Evangelho, quantas pessoas clamam por justiça no Brasil? Nós também somos cristãos tradicionalistas e conservadores, cuja prática religiosa se mantém alheia às injustiças sociais e cuja consciência religiosa se mantém anestesiada por meio de práticas devocionais intimistas e individualistas?
Eis a confiança de Jesus na oração: “E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (Lc 18,7-8). Deus fará justiça! Não duvidemos disso! O mesmo Deus que fez justiça ao seu Filho, ressuscitando-o, fará justiça a todos os que clamam por Ele! Mas Jesus nos pergunta: nossa fé saberá esperar em Deus? Nossa fé sobreviverá ao aparente silêncio de Deus e às injustiças dos homens? Nossa fé se manterá firme na oração, independente se estamos sentindo Deus ou não quando oramos? O Pe. Tomáš Halík, no seu livro A noite do confessor, afirma que “a força de Deus pode manifestar-se na nossa fraqueza, mas não na nossa indiferença, preguiça, amargura ou cinismo” (p.147). Em outras palavras, que nossa oração seja marcada pela nossa fraqueza não há problema algum – o apóstolo Paulo garante que “o Espírito socorre a nossa fraqueza” (Rm 8,26) quando oramos; o problema é quando deixamos de orar por termos nos tornado indiferentes a Deus, ou preguiçosos, ou amargos ou mesmo cínicos perante a vida e os acontecimentos!
Que as seguintes palavras da monja carmelita Ruth Borrows aprofundem a nossa compreensão acerca da oração: “O único desejo e propósito de Deus é dar-Se a mim... Não temos de persuadir Deus a ser bom para nós, temos apenas de nos entregar à bondade que nos cerca... A nossa comunhão com Deus não tem absolutamente nada a ver com estados de emoção, o que experimentamos ou não experimentamos na oração. Não tem em absoluto nada a ver comigo, exceto que eu a recebo. É obra totalmente de Deus, quando Ele toma posse de mim... Toda a minha preocupação é que Deus tenha o que Ele quer: a oportunidade de ser bom para mim quanto Ele desejar. E isso excede minha compreensão. Arrisquei meu tudo no Deus que nunca me decepciona” (Essência da oração, Ed. Loyola).


Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

MARIA, O SAGRADO DO FEMININO


Missa de Nossa Senhora Aparecida. Palavra de Deus: Ester 5,1b-2; 7,2b-3; Apocalipse 12,1.5.13a.15-16a; João 2,1-11.

A Sagrada Escritura nasceu num ambiente patriarcal, marcado fortemente pela figura e pela atuação masculina, em detrimento da figura feminina. Por isso, encontramos na Bíblia um número incontável de homens e ao mesmo tempo um número reduzido de mulheres que ajudaram a escrever a história da salvação. Uma das poucas figuras femininas mencionadas pelo Antigo Testamento apareceu na 1ª. leitura: Ester. Sendo portadora de uma beleza física incomparável e tendo um coração temente e voltado para Deus, Ester se coloca diante do rei para pedir pela vida de seu povo, os judeus, que estavam ameaçados de morte. Nossa Igreja recorda hoje a intercessão de Ester junto ao rei ao professar a sua fé na intercessão de Maria, a mãe de Jesus, invocada em nosso país como Nossa Senhora Aparecida.
 Tanto a sensibilidade de Ester (1ª. leitura) quanto a de Maria (Evangelho) nos falam da força do feminino que se coloca em diálogo com o masculino para dar um outro rumo à história humana, até mesmo no sentido de ampliar o horizonte de visão do masculino e lembrá-lo de que ele não é somente razão, mas também sentimento. Ao mesmo tempo, as figuras de Ester e de Maria nos remetem a inúmeras mulheres que hoje lutam por aquilo em que acreditam, mulheres que não entregam os pontos diante das dificuldades e dos problemas, que mantêm a casa em pé onde a presença masculina é fraca ou totalmente ausente.
No livro do Apocalipse a imagem da Igreja é retratada na imagem da mulher grávida, em dores de parto. Ela está revestida de sol, da luz da ressurreição, tendo o tempo debaixo dos pés, sinal que aponta para a eternidade, e sobre sua cabeça uma coroa, prêmio que Jesus prometeu a todos aqueles que perseverarem até o fim na sua fé. As doze estrelas remetem para os 12 apóstolos e as doze tribos de Israel – imagem da Igreja, do povo de Deus. Há um dragão que ameaça devorar o filho da mulher; é a presença do mal que ameaça devorar nossos sonhos e acabar com nossos esforços em trabalhar em favor da vida e da esperança. Mas podemos contar com a intervenção de Deus, que preserva o filho que nasce e protege a mulher do dragão: “Se nós trabalhamos e lutamos é porque colocamos a nossa esperança no Deus vivo, salvador de todos os homens, principalmente dos que têm fé” (1Tm 4,10).
Essa intervenção de Deus que protege e salva a criança do dragão nos lembra hoje da nossa responsabilidade em proteger as crianças que estão à nossa volta. Sabemos que inúmeras crianças são expostas ao mal em nosso mundo, seja por não terem pai ou mãe junto delas, seja porque seus pais não têm a consciência voltada para Deus e acabam eles mesmos expondo seus filhos ao mal: crianças expostas a palavrões e agressões, expostas à bebida, ao cigarro e a outras drogas, expostas à pornografia e ao abuso sexual, expostas à fome, às doenças, às guerras etc., crianças que estão crescendo sem nenhum tipo de educação religiosa, distantes de Deus e da fé.
O Evangelho nos coloca numa cena de casamento, imagem do desejo de Deus de unir-se a cada ser humano e de lhe conceder a verdadeira alegria, simbolizada pelo vinho (cf. Os 2,21-22). Acontece que, durante a festa de casamento, o vinho veio a faltar. Na prática, isto pode significar o desgaste provocado pela rotina; o descuido com as coisas pequenas; os ressentimentos acumulados, guardados e não enfrentados; as expectativas excessivas e idealizadas em relação ao outro...
Maria intercede junto a Jesus, mas ele a coloca no seu lugar: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). A hora de Jesus derramar o sangue da nova e eterna aliança entre o Pai e a humanidade será a hora da cruz. Mas Maria, com a sua intercessão, antecipa esta hora, aconselhando aos servos: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5). Se não há alegria em nós, se o vinho acabou, precisamos nos perguntar: Estamos vivendo a nossa vida segundo o que Jesus nos diz no Evangelho? Jesus nos manda encher as talhas de água, isto é, cuidar daquilo que caiu no descuido, voltar a encher aquilo que se esvaziou, tendo a certeza de que o vinho melhor, a alegria maior, sempre poderá nascer depois de uma crise ou de um sério desgaste. 
Por fim, a liturgia de hoje nos convida a pensar o lugar da mulher na Igreja. Duas palavras do Papa Francisco podem nos ajudar: “A família atravessa uma crise cultural profunda... O matrimônio tende a ser visto como mera forma de gratificação afetiva...” (EG 66). “Ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja... nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes...” (EG 103). 

Pe. Paulo Cezar Mazzi