quinta-feira, 6 de agosto de 2020

NÃO RETROCEDER DIANTE DOS VENTOS CONTRÁRIOS

Missa do 19. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13a; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.

 

            Estamos no mês vocacional. Depois de termos celebrado a vocação sacerdotal, no domingo passado, hoje celebramos a vocação paterna, meditando na figura do pai no seio da família. Exatamente hoje a Palavra do Senhor nos fala sobre dois tipos de tempestade: aquela que aconteceu no coração do profeta Elias e aquela que aconteceu com os discípulos, durante a travessia no mar. Isso significa que toda vocação tem seus momentos de tempestade. Toda pessoa que foi chamada por Deus a uma missão tem que lidar com tempestades dentro de si mesma (Elias) e também com tempestades que acontecem no seio da Igreja (discípulos) e da sociedade humana.    

            Assim como aconteceu com o profeta Elias, às vezes a nossa alma transforma-se num mar agitado. Nós desejamos e precisamos nos encontrar com Deus, mas não o conseguimos de maneira imediata, pois Ele não está no furacão dos nossos afetos desordenados e das nossas emoções cegas e descontroladas. Deus também não está no terremoto da nossa raiva intensa e do nosso ódio contra tudo aquilo que consideramos errado e pensamos que deva ser destruído. Enfim, Deus também não está no incêndio da nossa intolerância e do nosso desejo de eliminarmos de uma vez por todas nossas imperfeições e sermos ouro ou prata totalmente puros. Somente quando silenciamos o barulho provocado pelo furacão, pelo terremoto e pelo incêndio que nos habitam, é que podemos encontrar o Senhor e ouvi-Lo na brisa suave do seu Espírito.  

            Assim como Elias, o pai é um homem às vezes perdido dentro de si mesmo, perdido na sua própria tempestade interior, um homem que deve enfrentar seus furacões, terremotos e incêndios interiores, um homem chamado a ter a coragem de silenciar e de ouvir o murmúrio de uma brisa suave, de ouvir a voz de Deus, vivendo sua vocação paterna não mais a partir da sua carne, dos seus instintos egoístas, mas a partir do Espírito Santo que torna o seu espírito humano capaz de domínio de si mesmo. Como fez com Elias, Deus confiou ao pai a missão de purificar a fé da sua família e de dar à sua casa a firmeza e a confiança necessárias para resistir às tempestades da vida.

            Justamente porque nossa vocação nunca é vivida de maneira individualista, mas comunitária e social, o Evangelho nos fala das tempestades que se fazem presentes na Igreja e na sociedade humana. Recentemente, o Papa Francisco afirmou que em um mundo doente como o nosso, a Igreja não pode pretender ser totalmente saudável. Em outras palavras, as tempestades que afetam o mundo, afetam também a nossa Igreja. As doenças e os conflitos que atingem a humanidade atingem também a nós, cristãos. Os ventos contrários que atentam contra a vida das pessoas também sopram contra a Igreja de Jesus Cristo, na tentativa de silenciar a voz do Papa Francisco, dos bispos e de todos os cristãos que se colocam na defesa da vida, da ecologia e contra uma economia que produz morte.   

            Enquanto a barca dos discípulos, imagem bíblica da Igreja, “era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário, Jesus... veio até os discípulos, andando sobre o mar” (Mt 14,24-25). O mesmo Jesus que caminha sobre as águas agitadas e não afunda nelas é aquele que estava em oração ao Pai, por si e pelos seus discípulos de todos os tempos. Isso significa que somente a oração nos capacita lidar com as tempestades; somente a força da oração nos faz atravessar as tempestades sem sermos tragados por elas. Assim como Elias, assim como Jesus, é na oração que podemos silenciar nossas tempestades e voltarmos a ouvir a voz de Deus.

            Àqueles discípulos, que gritavam de medo, Jesus disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27). Jesus quer que nós o reconheçamos junto a nós, em nossas tempestades. Se a voz do medo fala conosco, em nossas travessias e na vivência diária da nossa vocação, a voz da coragem precisa falar mais alto. Quando não superamos esse medo, nossa vocação acaba ficando comprometida. Portanto, assim como Pedro, nós também estendemos nossa mão a Jesus e gritamos: “Senhor, salva-me!” (Mt 14,30). E Jesus prontamente aceita a fraqueza da nossa fé e nos estende a mão todas as vezes que nós caímos ou nos afundamos. “Jesus oferece, pois, à sua Igreja, a vitória sobre as forças do mal e a segurança nas provações, mas pede como condição essencial uma confiança sem hesitação” (Missal dominical, p.769).

            Na Bíblia, o mar representa o mal, cuja força grandiosa tudo domina, uma força ameaçadora para todos nós. Na vida do pai, na vida de cada um de nós, da nossa Igreja, das nossas comunidades e da sociedade humana, o mal é uma realidade presente que precisa ser enfrentada. O mal quer nos fazer acreditar que a travessia para a outra margem não é possível, não dará certo. Ele sempre procura nos manter paralisados no medo e no desânimo, tirando do nosso horizonte a perspectiva da mudança. Mas Jesus continua a nos encorajar e a nos incentivar a fazer a travessia, mantendo os olhos fixos nele, que vem ao nosso encontro nas horas mais sombrias da nossa vida e nos entende a sua mão, para que possamos enfrentar os ventos contrários e chegar à outra margem, à meta que está no horizonte da vocação de cada um de nós.     

             “Senhor, salva-me!” (Mt 14,29). Esse é o grito que o pai e cada um de nós hoje dirige a Jesus. Que o Senhor nos salve de afundarmos na falta de fé; que Ele nos salve de ficarmos paralisados no medo e no desânimo; que Ele salve cada pai  e cada família de serem tragados pelo mal que há no mundo; que Ele salve a nossa Igreja, especialmente o Papa Francisco, nossos bispos, nossos padres, enfim, todos os cristãos. “O vento pode soprar o quanto quiser; a montanha jamais se curva diante dele” (provérbio chinês). Que nós não nos curvemos diante dos ventos contrários, mas diante do Senhor Jesus, o Filho de Deus, que silencia nossas tempestades e navega conosco, levando-nos com segurança e firmeza até o outro lado.

 

            Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 31 de julho de 2020

O SONHO DE DEUS

Missa do 18. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,1-3; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21.

 

            No mundo em que vivemos, comer e beber tem um preço. Isso significa que a saciedade da fome e da sede depende do dinheiro que uma pessoa tem. Habituados com a economia capitalista, a qual faz a sociedade girar em torno do dinheiro, nós ficamos admirados com essas palavras: “Vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga” (Is 55,1). Deus compara a salvação que Ele oferece a todos os povos a um banquete farto de comida e de bebida, e a condição para participar desse banquete não é ter dinheiro, mas simplesmente ter fome e ter sede: a comida e a bebida ali servidas são gratuitas, porque nenhum homem pode comprar a sua salvação perante Deus.

            “No banquete da festa de uns poucos, só rico se sentou. Nosso Deus fica ao lado dos pobres, colhendo o que sobrou”, diz a música. Deus não aprova as desigualdades sociais. Ele não comunga da indiferença que anestesia a nossa consciência e nos faz pensar que é normal que, enquanto uns poucos se fartam e desperdiçam, muitos não tenham meios para suprir suas necessidades básicas. O sonho de Deus é trazer para a mesa do seu Reino todos os povos, em especial todas as pessoas excluídas dos banquetes terrenos. O sonho de Deus é que todos os homens se sentem à Sua mesa e possam saciar sua fome e sua sede de salvação juntos, reencontrando a fraternidade perdida e restabelecendo a comunhão que foi prejudicada por separações sem sentido.

            Jesus compartilha desse sonho do Pai. Justamente no deserto, num lugar onde não se planta e não se colhe, num lugar onde o dinheiro não pode comprar nada, ele realiza o banquete de uma partilha que consegue saciar cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. Esse banquete se deu no deserto porque Jesus havia se retirado ali para vivenciar sua tristeza pela morte de João Batista, ocorrida durante o banquete do aniversário de Herodes. Mas sua tristeza acabou dando lugar ao sentimento de compaixão pela multidão que o seguiu: “Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14,14).

            Jesus é uma pessoa que vivencia seus sentimentos, vivencia sua dor. Ao mesmo tempo, ele não fica fechado na sua dor, mas abre-se à dor e às necessidades da multidão que procura por ele. Dessa forma, o dia caminha para o seu término, quanto, então, os discípulos lhe fazem a proposta: “‘Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!’ Jesus, porém, lhes disse: ‘Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!’” (Mt 14,15-16). Normalmente, nossa tendência é nos livrar de possíveis problemas. Diante das situações, calculamos nossos recursos, percebemos nossos limites e procuramos “tirar o time de campo”, antes que as coisas fiquem complicadas.

            “Despede as multidões” é uma forma de dizer que cada um tem que se virar com seus problemas; cada um precisa dar conta de sobreviver como pode. Jesus tem uma outra forma de ver as situações críticas; ele enxerga nelas uma oportunidade de exercitar a criatividade, de ampliar nossa compreensão a respeito de nós mesmos e da vida. “Eles não precisam ir embora”. Nós não precisamos nos tornar indiferentes ao sofrimento das pessoas à nossa volta só para voltarmos a ter paz. Nós não precisamos nos ocupar unicamente com nosso bem estar pessoal, sem nos importar com o sofrimento à nossa volta. Em uma palavra, nós não precisamos fugir das dificuldades; podemos enfrentá-las.  

Diante do desafio de Jesus – “Dai-lhes vós mesmos de comer!” – os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17). Jesus nos provoca a reconhecer e valorizar nossos recursos. Mesmo no deserto, símbolo de uma situação onde nos sentimos impotentes para mudá-la, é possível fazer alguma coisa; basta ativar nossas pequenas capacidades e potencialidades; basta que cada um coloque em comum aquilo que guarda consigo. “Tudo o que as pessoas tinham, foi colocado à disposição de todos. Esta atitude desencadeia o prodígio: a generosidade se contagia e realiza o ‘milagre’. Quando os bens imprescindíveis para a vida são monopolizados, provoca-se a miséria, a fome, e a morte. Libertado do monopólio, o pão, imprescindível para a vida, chega a todos sem ter que pagar um preço por ele” (Pe. Adroaldo).

Jesus “pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Mt 14,19-20). Assim como os discípulos de Jesus fizeram ontem, assim somos chamados a fazer hoje: usar nossas mãos para fazer chegar a todas as pessoas o alimento que sacia a fome e a sede de vida e de salvação. Se o sonho do Pai e do Filho é que toda a humanidade se assente à mesa do banquete do Reino, nossas mãos sempre terão trabalho a fazer, até mesmo numa situação de deserto, até mesmo na escassez de solidariedade e compaixão próprias de um tempo marcado pelo individualismo, como o nosso.

 

ORAÇÃO*: Senhor, Tu me envias a falar de Ti como de um lar aberto no qual esperas todos os Teus filhos para a mesa posta, para um banquete que Tu mesmo preparas e no qual abundam comidas e bebidas deliciosas. Contudo, muitos rejeitam tal convite.

Procuro explicar que o Teu sonho é trazer para a Tua mesa todos os Teus filhos e filhas, para que reencontrem a fraternidade perdida, para a comunhão que foi prejudicada por separações sem sentido, como o puro e o impuro, o santo e o pecador.

Teu Reino não é um cume ao qual subir penosamente, ou que se conquiste por méritos e esforços, mas um presente imerecido, que faz transbordar de gozo e de gratidão. Teu Filho se assentou para comer com os pecadores e excluídos, provocando um escândalo ao nos dizer: “Meu Pai é assim! Meu Pai é festa, banquete, dança, mesa partilhada!”

Teu amor e Teu perdão são como um pão oferecido gratuitamente. O Senhor prometeu cuidar das nossas necessidades e provê-las a cada dia, mas nós continuamos a desconfiar disso e a nos encher de preocupação e ansiedade pelo que comer e beber, pelo que vestir e consumir.

Ao tomar os pães e os peixes em Suas mãos, Teu Filho elevou os olhos ao céu, para orientar o nosso olhar para Ti, de quem tudo recebemos. A seguir, pronunciou a bênção, para devolver aquele alimento à sua verdadeira natureza, que é o de circular, dividir-se, gerar vida, energia, convivialidade. A carência foi vencida pela generosidade e pela gratuidade.

Mas nós, diante de tal situação, dizíamos: ‘Não temos’, ‘isto é pouco’, ‘despede-os’, ‘que vão eles próprios comprar’. Diante de qualquer imprevisto, olhamos para nós mesmos, medimos nossas próprias forças e nos angustiamos, ao invés de olharmos para Ti, Deus nosso Pai, que és o manancial inesgotável de todo dom.      

Como o salmista, hoje dizemos: “Em Ti esperam os olhos de todos e no tempo certo Tu lhes dás o alimento: abres a Tua mão e sacias todo ser vivo com fartura” (Sl 145,15-16).

 

*Ir. Dolores Aleixandre, Revela-me Teu nome – imagens bíblicas para falar de Deus, Paulinas.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 23 de julho de 2020

O REENCANTO POR DEUS

Missa do 17. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 3,5.7-12; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-52.

 

            Existe no ar um certo desencanto pela vida, um desencanto pelos valores, pelos ideais, pelos sonhos. Esse desencanto está presente até mesmo onde menos deveria estar, que é no coração das pessoas “religiosas”, isto é, das pessoas que acreditam em Deus, que acreditam ter uma vocação, uma missão. E aqui pode acontecer algo muito perigoso: justamente as pessoas que têm a missão de provocar no ser humano o encanto pela vida, o encanto por Deus e por Seu projeto em favor da humanidade, se tornaram incapazes de encantar os outros, porque não conseguem encantar nem a si mesmas.

            Jesus, o Filho, sempre foi uma pessoa encantada pelo Pai, encantada pela vida que o Pai deseja para todo ser humano. Ele nos fala desse encanto no Evangelho de hoje, por meio de duas parábolas: a do tesouro escondido e a da pérola preciosa. Um homem “encontra um tesouro escondido no campo... Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44). Um outro homem “encontra uma pérola de grande valor... Ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (Mt 13,46). O que é esse tesouro? O que é essa perola? São imagens para falar de uma profunda experiência de Deus. Pessoas que se encontraram com Deus foram tocadas a partir de dentro; elas passaram a enxergar a vida com outros olhos, porque compreenderam quais são os verdadeiros valores, quais são os ideais que dão sentido à sua própria vida.

            Muitas pessoas nasceram ouvindo falar de Deus, isto é, nasceram numa cultura tradicionalmente cristã, mas são poucas as pessoas que até hoje fizeram uma experiência de Deus, que tiveram um encontro profundo com Ele. Para muitos, Deus é uma palavra gasta, um conceito vazio, um personagem do passado e distante, que nada diz para os dias atuais. Essas pessoas não sabem que o encontro com Deus é algo sempre transformador, porque sua luz abre horizontes novos e sua força nos encoraja e nos enche de confiança! Para muitos de nós, Deus ainda permanece como um tesouro ignorado, embora enterrado exatamente no chão da nossa alma. Embora Ele seja uma pérola preciosa, nós o vemos como uma bijuteria, uma pequena peça colorida, perdida e misturada com tantas outras no mosaico da nossa existência.

            Justamente por não estarmos encantados por Deus e por seu projeto a nosso respeito, falta-nos vontade para relativizar as outras coisas e colocá-Lo no centro da nossa existência. Se eu não me encanto por um valor, jamais abrirei mão de qualquer coisa por causa desse valor, jamais tomarei a decisão de vender tudo para comprar o campo onde se esconde o tesouro, ou para comprar a pérola preciosa. Seguirei pela vida sem experimentar a alegria que esses dois homens experimentaram.  

            Jesus, com essas duas parábolas, está nos fazendo uma pergunta: o que Deus significa para nós? E a resposta não se encontra em nossos lábios, mas na maneira como vivemos o nosso dia a dia. Portanto, a pergunta é: Eu estou encantado pela minha vida, pela minha existência, pela minha vocação? Eu sinto alegria quando me envolvo com a causa do Reino de Deus, ou a única coisa que me dá um pouco de alegria é me envolver com coisas do mundo? Eu me sinto atraído para a oração, para estar na presença de Deus, ou, pelo contrário, sinto cada vez mais repulsa em relação à vida espiritual? Todos aqueles que um dia se sentiram atraídos para Deus precisam pedir a graça de voltarem a se sentir assim, de voltarem a se encantar com a vida de fé.

            Jesus nos oferece, no final do Evangelho, uma última parábola, para nos ajudar a revisar os nossos valores, para nos fazer examinar melhor como está a nossa relação com o Pai: “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam” (Mt 13,47-48). Nós não temos nos dado a esse trabalho de separar o que presta do que não presta. Pelo contrário, temos engolido tudo. Diariamente, uma infinidade de coisas entram pelos nossos olhos e pelos nossos ouvidos, e passam a habitar nossos pensamentos e sentimentos, nos distanciando do tesouro que habita o nosso interior e ofuscando o nosso olhar, de modo que não mais consigamos enxergar a pérola preciosa que é a presença de Deus em nós. Falta-nos discernimento, o que significa separar o que convém daquilo que não convém, o que nos aproxima de Deus daquilo que nos afasta d’Ele.

            Salomão pediu a Deus o dom do discernimento: “Dá ao teu servo um coração compreensivo, capaz de discernir entre o bem e o mal” (citação livre de 1Rs 3,9). O discernimento é como uma bússola interna, que nos guia a partir de dentro, que não nos deixar virar um joguete nas mãos do mundo desorientado em que vivemos. O discernimento nos faz enxergar que nem tudo o que está na rede da nossa vida presta: há coisas que precisamos jogar fora; há pessoas e situações em relação às quais precisamos nos afastar, colocar limites; há imagens de Deus que foram se enroscando na rede da nossa espiritualidade que mais atrapalham que ajudam em nossa vida de fé.

 

ORAÇÃO: Senhor, necessito encontrar-me contigo, na Tua verdade. Necessito descobrir o tesouro que Tu és no profundo de mim mesmo, a pérola preciosa que o meu coração busca, aquilo que dá sentido à minha vida e me enche de alegria e de entusiasmo.

Senhor, quando foi que eu fiz uma verdadeira experiência de Ti? Quando foi que eu me encantei por Ti, por Teu Reino, por Teu projeto em favor de todo ser humano? Quando foi que eu experimentei a alegria interior de abrir mão de tudo somente para estar contigo, na Tua vontade?

Ainda que eu tenha me afastado da profundidade de mim mesmo, Tu continuas a habitar em mim como um tesouro escondido. Ainda que eu tenha relativizado tantos valores, Tu continuas a ser a pérola preciosa cujo valor é absoluto em minha vida, jamais relativo.

Hoje quero parar, sentar-me, recolher-me, para analisar a rede da minha vida, esta rede repleta de apelos, de pensamentos e desejos, onde tudo está confuso e misturado. Concede-me o dom do discernimento, a graça de separar o que tem valor e o que não tem, de modo que eu dê prioridade somente àquilo que conformará minha vida à Tua vontade.

Desse modo, eu experimentarei a cada dia a alegria de que verdadeiramente Tu fazes com que todas as coisas que me acontecem sirvam para o meu bem e para a minha salvação, segundo o Teu projeto de amor para comigo. Em nome de Jesus, na graça do Espírito Santo. Amém!    

 

             Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 17 de julho de 2020

PACIÊNCIA E TOLERÂNCIA EM RELAÇÃO AO JOIO; CONFIANÇA EM RELAÇÃO AO TRIGO

Missa do 16. dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 12,13.16-19; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-29.36-43.

 

Há uma incômoda presença no mundo: a presença do mal. Na imensa plantação de trigo, há uma incômoda presença: a presença do joio. Na imensa beleza da perfeição do trigo, há uma incomoda presença: a da imperfeição do joio. Há, portanto, uma incômoda verdade: a verdade de que, no campo que é o mundo, não existe somente o bem, mas também o mal, da mesma forma que, no campo da alma de cada um de nós, não existe somente o bem (trigo), mas também o mal (joio).

Como lidar com essa realidade? A proposta do momento tem sido a intolerância, o fanatismo, a intransigência. Pessoas que se julgam ser puro trigo se apresentam para eliminar do campo da política e da sociedade aquilo que elas consideram como puro joio. Essa intolerância com o joio é fruto do fanatismo, e o fanatismo nos faz cegos e intransigentes. O outro, que pensa diferente de mim, que professa uma fé diferente, que tem opiniões políticas diferentes, que vive uma sexualidade diferente, tem que ser eliminado, para o bem da humanidade!

Não é essa a atitude que Jesus nos propõe no Evangelho que acabamos de ouvir. “Os empregados perguntaram ao dono do campo: ‘Queres que vamos arrancar o joio?' O dono respondeu: ‘Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!’” (Mt 13,28-30). “Deixar crescer um e outro” significa que não nos cabe eliminar por nós mesmos aquilo ou aqueles que julgamos serem a causa do mal na Igreja, na sociedade, na humanidade. Significa que temos que aprender a exercitar a tolerância, a paciência; tolerância e paciência com os outros e conosco mesmos. Ninguém está pronto. Nenhum ser humano já está definido como joio (pessoa má) ou como trigo (pessoa boa). Todos nós estamos em processo; todos nós estamos cultivando o campo da nossa existência, e ainda não claro se o que prevalecerá nesse campo será o joio ou o trigo.

Jesus quis nos contar a parábola do joio para nos ensinar que não existe uma religião pura, uma igreja pura, um partido político puro, uma pessoa pura. Em todo ser humano e em todas as estruturas humanas existem o bem e o mal, o perfeito e o imperfeito, o “já” e o “ainda não”, a capacidade e o limite, a força e a fraqueza. Nossa tentação sempre é a de eliminar um dos polos, ficando somente com o outro. Mas isso, além de ser impossível, nos tornaria “aleijados”, soberbos, arrogantes, convencidos de que já estamos prontos.  

“A atitude sábia de deixar o ‘trigo e o joio crescerem juntos’, nos remete precisamente ao que temos de fazer com o nosso próprio ‘joio’: aceitá-lo, acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como nosso, sem reduzir-nos a ele e sem nos deixar determinar por ele. A aceitação do ‘joio’ nos humaniza, pois nos faz descer de nosso pedestal egóico – feito de exigência, perfeccionismo e de complexo de superioridade – e aproximar-nos de nosso ser verdadeiro. Às vezes, no mal que queremos extirpar, há um bem que não sabemos descobrir” (Pe. Adroaldo Palaoro, sj). Portanto, a pergunta que cada um de nós precisa se fazer não é: “O que eu faço com o joio que há em mim?”, mas “O que eu quero fazer com o joio que há em mim?”. Querer arrancar totalmente o mal do mundo e de nós mesmos geralmente nos leva a causar um mal ainda maior.

Ao permitir que joio e trigo cresçam juntos no mesmo campo, Jesus nos convida à confiança: o joio nunca impedirá o trigo de crescer e de amadurecer, e quando as espigas de trigo estão maduras, distinguem-se claramente do joio! Não precisamos ter medo de que o mal prevalecerá sobre o bem. Não precisamos dizer a Deus o que Ele tem que fazer! Deus confia na boa semente de trigo que cada ser humano é. O mal não tira o sono de Deus. O mal não leva Deus a ficar deprimido, a Se sentir fracassado em relação ao ser humano ou a ficar pessimista em relação a ele.

Enquanto nós costumamos nos encher de pessimismo por causa da quantidade de joio no campo do mundo, Deus mantém o Seu olhar confiante e amoroso sobre cada espiga de trigo que cresce e amadurece sob o sol da Sua misericórdia: “A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente... Dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração... Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores” (Sabedoria 12,16.17.18)

O tempo presente é o tempo de nos cultivar como trigo até o momento da colheita. “A colheita é o fim dos tempos... (quando) o Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo... Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,39.41-43). O Pai confiou ao seu Filho a tarefa de julgar, isto é, de separar o joio do trigo. O Filho, por sua vez, nos convida a confiar na força do trigo que há em cada um de nós, lembrando que o joio que há no outro sempre será oportunidade para que eu reconheça o joio que há em mim.

Enfim, em nosso processo de crescimento e de amadurecimento, não nos esqueçamos de que “o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza” (Rm 8,26). Ele é o princípio do bem em nós. Ele nos faz pacientes e tolerantes com o joio que há em nós e nas outras pessoas. O Espírito Santo “intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis... É sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos (cristãos)” (Rm 8,26-27). Aqui está mais um motivo para não nos tornarmos pessimistas ou nos sentirmos fracassados: por conhecer a boa semente que somos, o Espírito Santo intercede constantemente ao Pai, para que a verdade do trigo prevaleça em cada um de nós, apesar do joio que carregamos conosco. Entreguemos ao Espírito Santo nosso processo diário de amadurecimento, pedindo-Lhe a graça da paciência, da tolerância e da confiança em relação à semente de trigo que cada um de nós é.

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 10 de julho de 2020

A FENDA NO CIMENTO

Missa do 15. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-9.

 

            Para se comunicar conosco, Deus se fez Palavra. Sua Palavra tem o poder de curar-nos, de corrigir a direção da nossa vida para não cairmos num abismo; sua Palavra tem o poder de nos fazer passar da morte para a vida, isto é, de ressuscitar-nos, de devolver-nos esperança e sentido para a vida. Além disso, em seu Filho Jesus a Palavra do Pai se fez pessoa humana e veio habitar entre nós (cf. Jo 1,14). Assim, Jesus se tornou “Evangelho”, isto é, Palavra portadora de salvação. Como afirma o apóstolo Paulo, o Evangelho é “força de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16). Por fim, Deus testemunha o poder da sua Palavra por meio do exemplo da chuva: “como a chuva irriga e fecunda a terra, fazendo-a germinar, assim a Palavra que sair de minha boca produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (citação livre de Is 55,10.11).

            Atualmente nós temos inúmeros meios de fazer a Palavra de Deus chegar às pessoas, mas onde estão os frutos dessa Palavra? Que “resultados” estamos vendo, seja em nós, que nos alimentamos diariamente da Palavra, seja nas outras pessoas? Teria a Palavra de Deus perdido sua força de nos impactar, por ter-se tornado tão conhecida e tão repetitiva em nossa vida cristã? Ou será que, apesar de Deus continuar a enviar diariamente sua Palavra como chuva capaz de irrigar a terra árida do nosso coração, o chão da nossa vida foi cimentado pela descrença e pelo pessimismo, tornando-se indiferente ao que Deus nos fala?

            Enquanto a sociedade em que Jesus viveu era rural, e a imagem da semente na terra falava profundamente ao coração do povo que o ouvia, a nossa sociedade é quase que totalmente urbana, onde o cimento, o metal o plástico e o aço parecem ter contribuído para nos tornar pessoas “cimentadas”, blindadas, impermeáveis à penetração da Palavra de Deus no chão da nossa vida. Desse modo, quando a chuva/Palavra nos visita, não toca no chão árido da nossa alma, mas “bate” no cimento e escorre para os bueiros das nossas cidades, cuja vida se encontra sufocada pelo materialismo e pelas novas tecnologias, incapazes de converterem nossa aridez em fecundidade.

            Às vezes, a natureza nos surpreende! Em meio ao chão cimentado, em meio às pedras, uma planta ou uma árvore conseguiu ali nascer. Como aquilo foi possível?! Aquilo foi possível porque o vento ou algum pássaro fez com que uma semente caísse numa fenda, possibilitando o contato da semente com a terra. Esses pequenos sinais de uma vida que brota em meio ao cimento são um questionamento para nós. Existe em nós alguma fenda por meio da qual a fecundidade da Palavra de Deus possa penetrar e começar a germinar em nós um processo de cura, de transformação, de reavivamento? Se nós costumamos reclamar da aridez da nossa vida de fé, seria importante nos perguntar se temos, de fato, consentido que Deus penetre no profundo da nossa alma e deposite ali a semente da sua fecundidade.

            Jesus nos convida a revisar o terreno da nossa alma, isto é, a maneira como ouvimos a Palavra de Deus. Talvez sejamos pessoas muito superficiais: ouvimos de maneira desatenta a Palavra; não dedicamos tempo suficiente para refletir sobre ela, o que faz com que essa Palavra fique na superfície de nós mesmos, e o maligno venha e roube o que foi semeado, tão facilmente como um pássaro come uma semente que está na superfície do terreno (cf. Mt 13,4.19). Não nos esqueçamos de que o maligno trabalha constantemente para dificultar o nosso contato com a Palavra de Deus.

            Continuando a chamar a nossa atenção para a superficialidade com que podemos viver nossa relação com Deus, Jesus nos lembra da semente que cai entre as pedras: elas até começam a germinar, mas quando o calor do sol as atinge, murcham e secam, por não terem raízes (cf. Mt 13,5-6.20-21). O nosso é um tempo onde a maioria das pessoas não cultiva raízes, ou seja, não tem interesse em aprofundar nada. Essa rejeição a criar raiz é a rejeição a conhecer a si mesmo, a confrontar-se com sua verdade; é também a rejeição a comprometer-se com as exigências da Palavra de Deus. Se a Palavra funciona na vida da pessoa como autoajuda, ótimo, mas se questiona suas atitudes e, principalmente, se lhe faz sofrer a rejeição por parte do mundo, a pessoa passa a rejeitar a Palavra.

            Outro tipo de pessoa que ouve a Palavra de Deus é como a semente que cai no meio de espinhos: “os espinhos cresceram e sufocaram as plantas” (Mt 13,7). E aqui Jesus é muito claro em explicar que não existe nada mais oposto a Deus do que escolher apoiar-se nas riquezas, nos bens materiais (cf. Mt 13,22). No mundo em que vivemos, globalizado pelo mercado capitalista, todos nós trazemos esse conflito interior entre viver segundo os valores do Evangelho ou viver segundo os contravalores propostos pelo mercado. O resultado é simples: restringimos Deus ao âmbito pessoal, privado, e não permitimos que a sua Palavra questione nossas escolhas políticas, nossa conduta profissional e nossa forma de lidar com o dinheiro e com a sexualidade.

            Ao visitar conosco o terreno da nossa vida, Jesus quer nos ajudar a reconhecer a fenda que há em todos nós e que pode se tornar o espaço onde a semente da sua Palavra possa ser lançada e começar a germinar ali a fecundidade do Espírito Santo. Nenhum ser humano é somente um tipo de terreno. No campo da nossa alma há certamente muitas pedras e muitos espinhos, mas há também terra boa, um espaço talvez nem visto por nós mesmos, mas enxergado por Deus (cf. Mt 13,8.23). Ele não apenas confia na força transformadora da sua Palavra, mas confia também em nossa capacidade de sermos melhores, de sermos profundos, de acolhermos a sua graça e produzirmos o bom fruto da justiça, da bondade, da verdade e da solidariedade no campo do nosso mundo.   

            Ao acolhermos hoje a semente da sua Palavra, lembremos que todo sofrimento em lançar sementes, mesmo que em meio às lágrimas, será recompensado com a colheita dos frutos que alegrará o nosso coração (cf. Sl 126,5-6). Toda semente que permitimos que Deus lance em nosso terreno, assim como toda semente de bondade e de esperança que lançamos nos terrenos onde nos encontramos, age em nós e no coração das pessoas como dores de parto, uma dor de parto acompanhada pelo Espírito Santo, cuja graça tudo muda e cuja fecundidade tudo transforma (cf. Rm 8,22-23).  

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

 


sexta-feira, 3 de julho de 2020

DE ONDE VÊM O CANSAÇO E O ESGOTAMENTO?


Missa do 14. dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 9,9-10; Romanos 8,9.11-13; Mateus 11,25-30.

            Um sociólogo coreano chamado Byung-Chul Han escreveu um livro intitulado “Sociedade do cansaço”, por meio do qual nos torna conscientes da atitude doentia que temos tido em relação a nós mesmos, no sentido de nos tornarmos escravos de cobranças internas; cobranças de desempenho, de obtenção de resultados sempre melhores em todas as áreas da vida; cobranças em sermos eficientes o tempo todo, o que acaba por gerar em nós cansaço, esgotamento.
            Existem cobranças externas: enquanto o mercado nos cobra resultado, eficiência e aprimoramento profissional, a propaganda de consumo nos cobra a aquisição de bens materiais como garantia de felicidade. Para sustentar esse sistema constante de cobranças, surgiram as palestras motivacionais – a Internet nos oferece uma infinidade de vídeos “motivacionais” – cujo objetivo é nos convencer de que “nós podemos tudo”; é só uma questão de disciplina e de esforço diários. E então, sem nos darmos conta, as cobranças que antes eram externas passam a ser internas: nós passamos a ser carrascos de nós mesmos, não respeitando mais os nossos limites, uma vez que o suficiente nunca é alcançado.
            A nós, uma geração de pessoas sobrecarregadas, esgotadas, cansadas, escravas de si mesmas, Jesus hoje dirige essas palavras: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Diferente de nós, Jesus foi uma pessoa que sempre procurou se definir a partir de dentro e não de fora, não da expectativa ou da cobrança dos outros. Isso fez dele uma pessoa livre, alguém que se movia a partir dos seus valores e das suas convicções pessoais. Constantemente procurado por muitos, Jesus sabia retirar-se, fosse para o seu momento de oração, fosse para o seu momento de descanso. Numa palavra, Jesus jamais permitiu-se “ser devorado” pelas necessidades das pessoas que o procuravam.
            Hoje somos convidados a descansar nele o nosso fardo, isto é, a reavaliar as nossas urgências e a questionar as nossas cobranças internas. Nossas energias físicas e emocionais estão sendo gastas de maneira equilibrada, correta, ou estão sendo desperdiçadas? Os objetivos que estamos almejando dizem respeito à nossa verdade, à nossa vocação, ou estão sendo impostos a partir de fora, por pessoas que constantemente usufruem do nosso desgaste? As metas que nos propomos, seja para a vida profissional, afetiva ou espiritual, estão respeitando os nossos limites, ou estão colaborando para nos desumanizar e para nos adoecer?
A pandemia puxou o freio de mão da humanidade. O Papa Francisco afirmou que não foi a pandemia que nos adoeceu; nós já estávamos doentes. A pandemia apenas revelou que o nosso estilo de vida é doentio, porque nele não há lugar para o humano, para o encontro, para o transcendente, para a vida interior, para a oração. Tudo é cronometrado; tudo está em função de produzir resultados e ser eficiente. Pois bem, antes que nos jogássemos num abismo, a pandemia puxou o nosso freio de mão e nos fez parar, refletir, reavaliar os nossos valores e questionar se nós ainda estamos percebendo a diferença entre aquilo que é supérfluo e aquilo que é essencial.  
Além de nos convidar a descansar nele, Jesus nos propõe: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). Não existe vida sem jugo, sem fardo, sem objetivo a alcançar. Todos nós somos convidados a um esforço: o esforço em crescer, amadurecer, superar-se, tornar-se aquilo que cada um foi chamado a ser, a partir da sua própria vocação. O jugo de Jesus é o seu Evangelho, proposto como caminho de humanização e de amadurecimento para todos nós. E ao nos propor o seu jugo, o seu fardo, Jesus nos convida a aprender dele, aprender com a sua humildade e a sua mansidão. A humildade significa o amor e o respeito à nossa própria verdade. A mansidão, por sua vez, significa “força suavizada; ela não é a atitude medíocre daqueles que se sentem anulados pela presença violenta do outro. É força que não provém da violência externa, mas de uma transformação interna” (Pe Adroaldo).
Vivendo num mundo “onde imperam a prepotência, a agressividade, a vingança, o ataque e o desafio preventivo, o amedrontamento, a extorsão e a imposição violenta como meios habituais para conseguir os fins que se pretendem”, o que faz com que “a vida e as relações se convertam num campo de batalha contínua, como se fosse uma manada de lobos disputando o cordeiro” (Pe. Adroaldo), podemos aprender com Jesus a nos recusar a viver assim, pois cremos que a mansidão é a força interna que destrói os carros e os cavalos de guerra e quebra o arco os guerreiros (cf. Zc 9,9-10), isto é, daqueles que querem nos sugar para dentro da espiral da violência como forma de sobrevivência.
Enquanto Jesus nos convida a recuperar valores como humildade e mansidão, o apóstolo Paulo nos convida a analisar se estamos vivendo a partir da carne ou a partir do espírito, deixando claro que “se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Rm 8,13). A carne é o nosso egoísmo humano, para o qual nada é o bastante. Quando nos deixamos arrastar por ele, caímos no esgotamento. O espírito é a voz interior de Deus, nos convidando a manter o foco no essencial e não nos perder no supérfluo. Cabe a cada cristão submeter a fome insaciável do seu ego ao equilíbrio e ao bom senso do seu espírito; ele é quem nos dá a medida certa para não nos tornarmos presas do cansaço e do esgotamento que nos desumanizam.
Finalizando, que saibamos identificar a nossa agitação. Ela nos indica que estamos sendo dirigidos a partir de fora, das expectativas, cobranças e pressões que o mundo nos impõe. Ao nos convidar a descansar nele, Jesus nos provoca a nos dirigir a partir de dento, respeitando nossa própria medida, nos reconciliando conosco mesmos e recebendo diariamente a vida como dom, não como fardo.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 26 de junho de 2020

IGREJA: CRISTO JUNTO A TODO SER HUMANO


Missa de São Pedro e São Paulo. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 12,1-11; 2Timóteo 4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19.

“Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18). Neste dia em que celebramos os apóstolos São Pedro e São Paulo, chamados de “as duas colunas” da Igreja de Cristo, precisamos nos perguntar se a Igreja ainda hoje tem alguma importância para o mundo. A Igreja que Jesus fundou sobre os apóstolos é necessária para a humanidade? Se sim, em que sentido?
A Igreja é tão necessária para a humanidade quanto procura fazer-se próxima desta, o que significa dizer também que a Igreja é vista como desnecessária tanto quanto se mantém distante dos dramas que marcam a história humana no mundo atual. “Talvez este tempo de edifícios eclesiais vazios ponha simbolicamente em evidência o vazio escondido nas Igrejas e o seu possível futuro – se não fizermos uma séria tentativa de mostrar ao mundo um rosto do Cristianismo completamente diferente. Estivemos demasiado preocupados em converter o ‘mundo’ (o ‘resto’), e menos preocupados em convertermo-nos a nós mesmos; e isto não significa apenas ‘melhorarmo-nos’, mas passar radicalmente de um estático ‘ser cristãos’ a um dinâmico ‘tornar-se cristãos’” (Pe. Thomás Halick, “O sinal”).
Essas palavras do Pe. Thomás Halick, interpretando o sinal das nossas igrejas vazias neste tempo de pandemia, nos provocam uma séria revisão de vida, seja no sentido particular, enquanto cristãos, seja no sentido comunitário, enquanto Igreja. Jesus não construiu a Igreja a partir dos apóstolos para ser uma Instituição em função de si mesma, mas, sim, para ser “um hospital de campanha após a batalha, cuidando das feridas de seus fiéis e saindo para encontrar os que foram machucados, excluídos ou que se afastaram” (Papa Francisco, março de 2013). Quanto mais próximos nós, cristãos, enquanto Igreja viva, nos colocamos junto aos homens e mulheres do nosso tempo, com suas preocupações e inquietações, com sua sede de sentido e de orientação, mais cumprimos a nossa missão e mais a Igreja tem sentido em ser e existir.
A pergunta que hoje se coloca é: a Igreja está aberta ou fechada à humanidade? “No dia anterior a ter sido eleito Papa, o cardeal Bergoglio citou um trecho do Apocalipse em que Jesus está à porta e bate. E acrescentou: hoje, Cristo está batendo a partir do interior da Igreja e quer sair. Devemos aprender a ampliar radicalmente os limites da nossa visão da Igreja. Cristo trespassou aquela porta que havíamos fechado com medo dos outros. Atravessou a parede que tínhamos erigido à nossa volta. Abriu um espaço cuja amplitude e profundidade nos obrigaram a olhar em volta” (Pe. Thomás Halick, “O sinal”).
Às vezes, as coisas precisam ser viradas do avesso, para enxergarmos a verdade que está diante dos nossos olhos. Um dia antes de sua eleição papal, Francisco virou do avesso Apocalipse 3,20 e teve a coragem de nos fazer enxergar que Cristo está do lado de dentro da Igreja batendo à porta e querendo sair, isto é, exigindo que a sua Igreja se desacomode, saia de si mesma e caminhe na direção das pessoas, colocando-se junto de todos aqueles que necessitam do sal, da luz e do fermento do Evangelho em suas vidas! Portanto, precisamos estar conscientes de que a insignificância da Igreja para as pessoas do nosso tempo é diretamente proporcional à distância que nós, enquanto Igreja, mantemos em relação a essas mesmas pessoas e seus dramas humanos.  
A liturgia de hoje nos coloca diante de dois homens que passaram por um processo de transformação, ao se encontrarem com Jesus Cristo e seu Evangelho. Simão, um pecador de peixes, tornou-se Pedro, chamado por Jesus a ser um pescador de homens e a confirmar seus irmãos na firmeza da fé. A ele Jesus confiou as chaves do Reino: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19). A missão de Pedro, da Igreja e de cada um de nós, cristãos discípulos de Jesus, consiste em ajudar a humanidade a se desligar daquilo que a adoece e destrói e ligar-se àquilo que lhe confere vida e salvação. Neste sentido, também cada um de nós precisa tornar-se consciente do quê precisa se desligar e ao quê precisa se ligar, se conectar, para não ser adoecido, nem destruído.
Um outro homem, cuja vida passou por uma longa transformação, foi Paulo. De grande perseguidor da Igreja e dos cristãos, Saulo foi alcançado por Jesus e transformado no seu maior apóstolo, tendo como missão levar o Evangelho da salvação aos povos pagãos: “Para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a todo custo. E, isto tudo, eu faço por causa do Evangelho” (1Cor 9,22-23). Através da pessoa de Paulo, Jesus nos mostra que todos nós podemos passar por um processo de transformação; todos nós podemos aprender a nos colocar junto das pessoas do nosso tempo e fazer algo em vista da salvação das mesmas; todos nós podemos, não obstante nossa fragilidade humana, nos tornar um Evangelho vivo para aqueles que convivem conosco.  
Enfim, vivendo numa época de forte questionamento e de rejeição a todo tipo de instituição, tendo consciência de que alguns líderes da nossa Igreja atentaram contra a sua credibilidade perante o mundo, que cada um de nós, cristãos, possa reavivar a sua fé em Jesus Cristo, filho do Deus vivo, sabendo que essa mesma fé pode até estar cansada, abatida, desfigurada e sem sentido, às vezes, mas Jesus continua vivo e absolutamente necessário para quem necessita ser salvo e encontrar um sentido para sua vida. Que o testamento espiritual do apóstolo Paulo – “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7) nos sirva de inspiração e nos ajude a tornar a Igreja de Jesus Cristo presente no coração da humanidade, junto a todo ser humano que o Pai quer salvar.   

Pe. Paulo Cezar Mazzi