quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

POR QUE PRECISAMOS DE UM CORDEIRO?


Missa do 2º dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 49,3.5-6; 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34.

            Existem duas formas de entendermos a nossa existência nesse mundo. A primeira, como sendo fruto do puro acaso: nascemos acidentalmente, estamos onde estamos por mera coincidência e nossa existência não tem nada a dizer à humanidade. A segunda maneira é entender que nascemos por uma escolha divina: “o Senhor – ele que me preparou desde o nascimento para ser seu Servo” (Is 49,5). Nossa existência não é resultado do acaso, mas da vontade divina: Deus nos quis. Além disso, não existimos em função de nós mesmos; existimos “para”. Existe uma finalidade em nosso existir – “que eu recupere Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele” (Is 49,5). Portanto, não estamos onde estamos por acaso. A época em que nascemos, o lugar onde nos encontramos e a pessoa que somos tem algo a dizer ao mundo do nosso tempo. Como afirma com frequência o Papa Francisco, cada um de nós, com sua existência única, é uma missão, ou seja, nossa vida tem uma palavra única de Deus a ser comunicada à humanidade.
            É preciso valorizar a nossa presença no mundo e na Igreja. Depois de nós, eles terão se tornado melhores? Nossa presença e nossas atitudes terão ajudado o mundo e a Igreja a serem espaços de cura e de salvação, espaços onde as pessoas puderam encontrar-se com Deus e com sua salvação? Nossa existência terá feito a diferença ou apenas reproduzido estruturas injustas e doentias, tanto no mundo quanto na Igreja? É verdade que nenhuma pessoa tem o poder, sozinha, de mudar essas estruturas, mas cada um de nós pode tornar diferente o pequeno mundo à sua volta.
            No momento em que o profeta Isaías compreendia a sua existência apenas em função da salvação do seu povo (Israel), Deus alargou o horizonte de compreensão da sua vocação: “Não basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra” (Is 49,6). Nosso maior desafio é nos manter abertos ao que Deus quer de nós. Embora tenhamos a constante tentação em nos instalar e em nos cercar de seguranças, Deus muitas vezes permite que uma forte tempestade nos desenraíze e nos transporte para lugares e para junto de pessoas onde nunca imaginaríamos estar: é ali que somos chamados a germinar, florescer, frutificar, continuando a responder o nosso “Eis-me aqui” ao Deus que nos quer ali como sinal vivo do seu amor e do seu desejo em salvar todas as pessoas.  
            João Batista havia se tornado um forte líder espiritual em seu tempo. No entanto, quando Jesus se tornou adulto, foi batizado e iniciou a sua missão, João soube conduzir as pessoas para Jesus, afirmando: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Todo líder espiritual que conduz as pessoas para si mesmo, e não para Jesus, erra gravemente. Assim como João Batista, nós não somos o Caminho, mas a seta que indica o Caminho; nós não somos a Luz, mas a lâmpada chamada a se tornar portadora da Luz; nós não somos a Palavra, mas a voz chamada a fazer com que a Palavra chegue aos corações, especialmente daquelas pessoas que aguardam por uma palavra de consolo da parte de Deus.  
            Mas, que sentido hoje tem para as pessoas do nosso tempo anunciar Jesus Cristo como “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29)? Aqui precisamos recuperar o sentido bíblico do “cordeiro”. No momento principal da história de Israel – a noite da sua libertação do Egito – cordeiros foram sacrificados e o sangue deles foi passado nas portas das casas dos hebreus, para livrá-los da praga exterminadora, conforme lemos em Êxodo 12,1-14. Aqueles cordeiros eram uma prefiguração de Jesus, o Cordeiro de Deus que foi morto na cruz no exato momento em que os cordeiros eram preparados para se celebrar a Páscoa dos judeus.
Mas Jesus não é apenas um “Cordeiro”; ele é o Cordeiro “de Deus”. Numa época em que o povo de Israel lamentava: “não há mais nem chefe, nem profeta, nem príncipe, nem holocausto, nem sacrifício, nem oblação, nem incenso, nem lugar onde oferecermos as primícias diante de ti para encontrarmos misericórdia” (Dn 3,37-39), Deus ofereceu seu Filho como Cordeiro para resgatar a humanidade do abismo do seu pecado. Assim como providenciou um cordeiro para o lugar de Isaac, o filho único de Abraão (cf. Gn 22,13), Deus permitiu a morte de seu Filho na cruz para nos livrar da morte eterna a que o pecado nos condena.
Falar de Jesus como “Cordeiro de Deus” significa entender que nós precisamos ser salvos. Todo ser humano precisa ser salvo; salvo não só dos outros, não só das estruturas sociais injustas, não só do pecado social, mas também salvo de si mesmo, salvo do seu próprio pecado. Todo pecado gera morte, morte pessoal e social. E aqui está a grande diferença entre o sangue dos cordeiros, sacrificados sem saberem o por quê, e o sangue de Jesus: Ele ofereceu-se livre e conscientemente para tirar os pecados do mundo (leia Hebreus 9). Portanto, o sangue de Jesus é o sangue consciente do Filho de Deus que se oferece para resgatar a humanidade da condenação à morte por causa do pecado, pois “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22); sem alguém que me salve, eu não posso ser salvo; sem a mão do Filho estendida para mim, que me encontro no fundo do abismo do meu pecado, eu não posso, sozinho, subir desse abismo.  
            Uma última palavra. Jesus não tirou o pecado do mundo anulando em nós a liberdade ou possibilidade de pecar. Mesmo depois da morte redentora de Jesus na cruz, a humanidade continua livre para seguir o caminho que bem entender. A diferença é que nós agora podemos escolher romper com o círculo vicioso do pecado; nós agora podemos guiar nossa consciência pela voz do Filho e não mais pela voz do maligno. Como o próprio Jesus afirmou: “quem comete o pecado, é escravo (do maligno). Ora, o escravo não permanece sempre na casa, mas o filho aí permanece para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, sereis, realmente, livres” (Jo 8,34-36).

            PROFISSÃO DE FÉ NO CORDEIRO DE DEUS

            Creio em Deus Pai, que desde o ventre materno me chamou para a missão de resgatar e salvar pessoas para Ele. Abraço conscientemente a minha missão de “Servo(a) do Senhor”, na esperança de que minha presença no mundo e na Igreja faça com que ambos se tornem lugares de cura e de salvação, espaços onde Deus seja experimentado como Redentor de todo ser humano.
            Creio em Jesus Cristo, “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Creio no sangue redentor de nosso Senhor, o sangue que o Filho derramou conscientemente para livrar todo ser humano da condenação à morte por causa do seu pecado. Agarro-me à mão de Jesus, estendida na minha direção para retirar-me das profundezas do abismo do meu pecado.
Creio no Espírito Santo, força do Pai e do Filho que vem socorrer a minha fraqueza na luta contra o pecado. Entendo que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9,22); sem alguém que me salve, eu não posso sê-lo. Escolho seguir Jesus Cristo, na força do Espírito Santo, encontrando n’Ele a verdadeira libertação e conduzindo para Ele todos aqueles que ainda precisam ser libertos e salvos. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

DO BATISMO RECEBIDO ONTEM PARA A MISSÃO ABRAÇADA HOJE


Missa do Batismo do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 42,1-4.6-7; Atos dos Apóstolos 10,34-38; Mateus 3,13-17.

            Água. Sem ela, não existe vida; sem ela, nada do que vive sobrevive. Embora muitas pessoas dentre nós relativizem o problema do desmatamento na Amazônia, intensificado agressivamente a partir do início do novo governo, o qual, por sua vez, cumpre uma promessa de campanha de flexibilizar as leis de fiscalização ambiental, o desmatamento na Amazônia interfere diretamente na regulação das chuvas em nossa região. Sem a Amazônia, nossa região seria um imenso e triste deserto.
Água é vida. Sem ela, não apenas não existe vida, como também não existe cura. Enquanto o organismo de muitas pessoas está intoxicado com refrigerante ou bebida alcoólica, o que abre espaço para o surgimento de diversas doenças, a água nos desintoxica; ela devolve saúde ao nosso organismo, colaborando para: 1) regular a temperatura corporal; 2) combater acne, estrias e celulite; 3) melhorar o funcionamento dos rins; 4) prevenir o aparecimento de pedras nos rins; 5) facilitar a digestão; 6) diminuir o inchaço; 7) melhorar a circulação sanguínea; 8) ajudar a emagrecer.
Mas a cena do Batismo de Jesus nos fala de outra água; uma água “ungida” pelo Espírito de Deus; uma água capaz não apenas de lavar o corpo, mas de purificar o coração; uma água capaz de lavar a sujeira da nossa alma, de penetrar nas raízes mais profundas no chão árido da nossa vida e nos devolver fecundidade, isto é, despertar em nós a força adormecida da nossa fé, da nossa alegria e da nossa esperança, ajudando-nos a compreender que o sentido da vida não está no cimento da artificialidade de um mundo que exige de nós o cuidado doentio com a aparência, mas no chão descoberto da nossa essência, onde o Espírito Santo escolheu habitar, onde Deus cavou no mais profundo de nós e fez brotar ali a água viva da Sua presença, da Sua força, do Seu amor.
            Para a grande maioria de nós, o batismo se deu num momento da nossa vida onde não tínhamos ciência do que estava acontecendo. Não foi uma escolha nossa receber o batismo, mas dos nossos pais (ou avós?) e padrinhos: eles acreditaram que, apesar dos seus cuidados humanos para conosco, nós precisávamos ser confiados aos cuidados de Deus. Assim, eles quiseram que, desde pequenos, fôssemos mergulhados na água viva do Espírito de Deus, para que, desde os primeiros meses da nossa vida terrena, uma voz ressoasse em nossa consciência e nos acompanhasse por todos os dias, a mesma voz que Se pronunciou no batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17).
            A maior importância do nosso batismo, contudo, não está em lembrar-se de como ele se deu, mas do não esquecer-se do quê ele nos deu: a verdade da nossa filiação divina! Somos pessoas dignas de serem amadas pelo Pai! Antes de qualquer atitude nossa, antes de qualquer escolha ou decisão que pudesse nos tornar sujos, imundos, ou até mesmo indignos de sermos amados, Deus derramou a água pura do batismo sobre a nossa cabeça, para nos tornar conscientes de que Ele escolheu nos amar incondicionalmente. Antes de escrevermos qualquer palavra ou frase no livro da nossa vida terrena, Deus escreveu: “Você é meu filho amado”, “Você é minha filha amada”. Nenhuma atitude nossa tem força suficiente para apagar do livro da nossa vida esta verdade, nem mesmo a decisão que muitos, por estarem decepcionados com a Igreja, tomaram de rejeitar o próprio batismo, afirmando publicamente: “Não em meu nome!”.  
            Apesar da importância absoluta do batismo em nossa vida, ele não é um ponto final ou um ponto de chegada, mas um ponto de partida. A água do batismo, que foi derramada em nossa cabeça, pede para continuar a escorrer pelo chão da nossa existência. Com efeito, o apóstolo Paulo afirma que “todos os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). Portanto, o que torna verdadeiro e comprovado o nosso batismo não é o seu registro em um livro da Igreja, mas a sua vivência no livro da nossa vida diária; é aquela decisão nem sempre fácil de ser tomada: “quero conduzir minha vida a partir da voz do Espírito Santo em minha consciência e não a partir da voz do meu ego”. Viver segundo o Espírito que recebemos no batismo significa viver como Jesus: ele “foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder (no momento do batismo. A partir daí...). Ele andou por toda a parte, fazendo o bem...” (At 10,38).
Tomar consciência do próprio batismo significa tomar consciência da própria missão. Assumir a verdade do nosso batismo significa assumir nosso lugar na vida, na história da salvação. A voz do Espírito Santo nos convida a cada dia a assumir nossa missão, que é única e intransferível. Assim como o Servo de Deus, mencionado no texto do profeta Isaías, nossa missão consiste em “promover o julgamento” (Is 42,1), lembrando que “julgar” significa “separar”: o batizado tem consciência de que precisa aprender a separar, a distinguir a verdade da mentira, a justiça da injustiça, o que convém à sua salvação e o que não convém.
A atitude do batizado é a de não quebrar uma cana rachada nem apagar um pavio que ainda fumega; mas promover o julgamento para obter a verdade (cf. Is 42,3). Trata-se de agir com paciência e misericórdia, tanto consigo quanto com os outros, sobretudo com aqueles que “demoram” para se corrigir dos seus erros. Isso, porém, não significa não ter pulso, não ser firme e, muito menos, permitir que a pessoa continue a prejudicar os outros com suas atitudes. Toda intervenção de um batizado é sempre no sentido de fazer prevalecer a verdade, ainda que ela “machuque” ele mesmo ou aquele que está errando.
Enfim, consciente de que ele vive num mundo com valores invertidos, um mundo que diz crer em Deus, mas rejeita a verdade da sua Palavra, o batizado tem consciência de que sua missão será marcada pela ingratidão, pelo sofrimento e pela oposição de pessoas que não querem se confrontar com a verdade. Ciente disso, ele é convidado pelo Espírito de Deus a não desanimar, não se deixar abater, até que restabeleça a justiça no meio em que se encontra (cf. Is 42,4). Foi essa a consciência de Jesus em insistir em ser batizado por João: “nós devemos cumprir toda a justiça!” (Mt 3,15). Eis, portanto, a meta existencial de cada batizado: configurar-se ao Filho de Deus, esforçando-se diariamente em viver como uma pessoa justa, isto é, uma pessoa que deseja “ajustar-se” à vontade do Pai que convida cada filho Seu a viver segundo a verdade, o direito e a justiça.

ORAÇÃO: Deus Pai, em comunhão com Teu Filho Jesus humildemente me coloco diante do céu aberto do Teu coração, para suplicar pela água viva do Teu Espírito! Banha-me, Pai, nas Tuas águas! Aviva-me de novo! Derrama sobre o chão árido da minha existência a água viva do Espírito Santo.
Que a Sua graça desobstrua a minha fonte interior e faça voltar a jorrar a água viva da fé, da alegria e da esperança em minhas atitudes. Pronuncia mais uma vez a verdade do Teu amor para comigo e para com cada ser humano – “Tu és o meu Filho amado!”.
Quero assumir a verdade do meu batismo, deixando-me conduzir pelo Espírito Santo e assumindo o meu lugar na história da salvação. Quero abraçar a missão de restaurar a vida que se encontra ferida à minha volta, permanecendo firme na luta diária pelo restabelecimento da verdade e da justiça em nosso mundo. Por Jesus Cristo, Teu amado Filho, na comunhão com o Espírito Santo. Amém!  

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A LUZ DE CADA UM DE NÓS PODE VOLTAR A BRILHAR!



Missa da Epifania. Palavra de Deus: Isaías 60,1-6; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

            “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2). Onde encontrar Deus? Em qual igreja? Em qual religião? A “religião” que mais cresce no Brasil e no mundo é a das pessoas “sem religião”. Os adolescentes e jovens são o retrato mais fiel disso: a maioria deles não se identifica com nenhuma igreja ou religião. O motivo não é apenas a rejeição àquilo que é institucional; trata-se de algo muito mais sério: é a rejeição a uma Igreja mais preocupada em defender-se enquanto Instituição do quem em anunciar o Evangelho de modo que ele fale ao coração das pessoas do nosso tempo.
            Se hoje são poucas as pessoas que ainda se perguntam “Onde está Deus?” é porque muitos de nós cristãos deixamos de viver segundo o Evangelho; deixamos de ser uma estrela que brilha forte no céu escuro do materialismo, do consumismo, da massificação e da indiferença para com quem sofre. Enquanto a luz daquela estrela atraiu os magos do Oriente, a luz de muitos líderes religiosos hoje causa repulsa nas pessoas. Homens que pregam o espiritual, mas vivem como mundanos causam repulsa; pastores que transformam “pequenas igrejas em grandes negócios” causam repulsa; padres que dão prioridade ao seu bem estar e não cuidam do rebanho que lhes foi confiado causam repulsa; padres que desviam dinheiro de suas paróquias para suas contas particulares causam repulsa.
            O Documento de Aparecida, publicado há quase onze anos, pediu que nossas paróquias se transformassem em “centros irradiadores de vida”, mas algumas paróquias de nossa Diocese irradiam apatia, escândalo, contra-testemunho, agressão verbal àqueles que a frequentam, porque seus párocos estão doentes e perdidos dentro de si mesmos, sendo que alguns deles descuidaram do sentido da própria vocação e a Igreja se tornou para eles apenas um meio de sobrevivência; outros encontram na Igreja o espaço ideal para exercerem sua natural arrogância, sempre avessos à simplicidade de vida e à humildade propostas por Jesus e vividas por Francisco; outros, ainda, colocam em segundo plano o cuidado pastoral de suas paróquias e em primeiro plano o gosto pela fofoca, pela intriga e pela disputa suja de poder, cujo veneno produz tristeza e desencanto em nosso Clero – o que também explica o “apagamento” da própria estrela (sentido do ministério) na vida de alguns.
            “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?” (Mt 2,2). Onde se encontra Jesus e a luz do seu Evangelho? Ele se encontra em toda pessoa, igreja ou religião que vive segundo a vontade de Deus; Ele se encontra “em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: ‘E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo’” (Mt 2,5-6). “Assim como Deus escolheu Israel por ser o menor dentre os povos (cf. Dt 7,7), assim escolheu Davi, o menor entre os irmãos (cf. 1Sm 16,11). Deus escolhe as coisas que não são ‘para reduzir a nada aquelas que são’ (1Cor 1,28). Para encontrar o Senhor é preciso olhar onde ele se encontra. Ele se encontra na pessoa do ‘menor dos irmãos’ – Mt 25,40.45 (Pe. Pagola). Jesus se encontra na vida de todos aqueles que lutam por uma Igreja segundo a verdade e a justiça do Evangelho, a Igreja de Francisco. Jesus se encontra em todos aqueles que estão machucados por pessoas da nossa Igreja que vivem o oposto do que nos ensina o Evangelho. Jesus se encontra, sobretudo, naquelas pessoas e situações onde nenhuma igreja ou religião tem interesse em se fazer presente, e se queremos encontrá-Lo, precisamos mover os nossos pés na direção dessas pessoas e situações que pedem a nossa presença cristã.   
“Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande” (Mt 2,10). Vivendo em meio a muita escuridão – apagamento da fé, da esperança e do amor, em muitos corações; apagamento do sentido da vida, dos valores e dos ideais que um dia sustentaram sonhos e lutas por uma família melhor, por uma educação melhor, por um país melhor – somos chamados a fazer brilhar a luz do Evangelho em nossas atitudes, sabendo que nossa luz não depende de fatores externos, mas de disposições internas; mais do que isso, de uma convicção interna, ligada à nossa existência e à nossa vocação de cristãos: “Eu fiz de ti uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue aos confins da terra” (Is 49,6; At 13,47).
Ao se distanciarem do palácio de Herodes – lugar das trevas –, os magos voltaram a ver a estrela e se encheram de alegria. Muitos filhos podem voltar a sentir alegria se a luz da fé voltar a brilhar no coração de seus pais; muitas escolas e ambientes de trabalho podem voltar a sentir alegria se a luz da esperança, da verdade e do bem voltar a brilhar naqueles que ali são líderes. A luz pode voltar a brilhar em cada um de nós sempre que recuperamos e voltamos a cultivar nossos valores, sempre que voltamos a ser fiéis à nossa própria origem e missão, sempre que nos permitimos ser inundados pela luz que é o próprio Deus: “Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora” (Is 60,2-3). Não desprezemos a luz que somos! Não desacreditemos do poder da luz que nos habita, luz que deve chegar aos outros pela nossa conduta, muito mais do que pelas nossas palavras!  
Eis como se encerra o encontro dos magos com Jesus: “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11): ouro, porque Jesus é rei; incenso, porque Ele é Deus; mirra, porque Ele é humano. Outra forma de entendermos esses presentes: “O ouro, riqueza visível, representa aquilo que a pessoa tem; o incenso, invisível como Deus, representa aquilo que a pessoa deseja; a mirra, unção que cura as feridas e preserva da corrupção, representa aquilo que a pessoa é” (Pe. Pagola). Diante desses presentes, podemos nos perguntar: em relação a quem eu devo me fazer presente neste novo ano? Quais pessoas necessitam daquilo que eu tenho, daquilo que eu desejo e daquilo que eu sou?
Uma palavra final, a respeito da atitude dos magos de adorar Jesus; “O ser humano atual tem se tornado ‘incapaz de Deus’, incapaz de adoração. Deus foi reduzido ao ‘útil’. O que nos interessa é um deus que sirva aos nossos projetos individualistas. Assim Deus se converte num ‘artigo de consumo’ do qual eu disponho segundo as minhas conveniências. Para adorar a Deus é necessário sentir-se criatura infinitamente pequena diante d’Ele, mas infinitamente amada por Ele. A adoração é admiração. É amor e entrega. É abandonar nosso ser a Deus e permanecer em silêncio agradecido e alegre diante d’Ele, admirando seu mistério a partir de nossa pequenez... Os magos retornam ‘por outro caminho’, não mais pelo caminho de quem não conhecia o que buscava, mas pelo caminho de quem encontrou Aquele que procura o ser humano para salvá-lo. Eles, que antes olhavam para o céu, agora levam consigo um novo céu e uma nova terra, e os levarão para onde forem” (Pe. Pagola). 

Pe. Paulo Cezar Mazzi     

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

BÊNÇÃO NÃO É "BLINDAGEM"


Missa Maria, mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

            Quando um ano termina, é sempre uma tarefa arriscada avaliá-lo meramente como um “ano positivo” ou um “ano negativo”. A vida não se enquadra nessa matemática ingênua e superficial, segundo a qual o ano é visto como “bom” ou “ruim” a partir da soma dos acontecimentos: aconteceram mais coisas boas do que ruins, e vice-versa. Nossa vida não é definida a partir daquilo que nos acontece, mas a partir da forma como lidamos com o que nos acontece. Além disso, para aqueles que têm fé, é importante lembrar que “Deus faz com que tudo concorra para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28), o que significa que também as coisas ruins podem servir para a nossa correção, o nosso crescimento e a nossa salvação.
            Uma afirmação bíblica a respeito da Maria nos ilumina nesta passagem de ano: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Como filhos de Maria, somos convidados a revisar os acontecimentos que nos afetaram neste ano que termina e nos perguntar como lidamos com eles, ou o que eles nos ensinaram, ou ainda, o que Deus nos disse por meio deles. Deus fala conosco o tempo todo, assim como a vida nos ensina o tempo todo, mas somente quem tem a coragem de, como Maria, meditar, refletir em seu coração a sua forma de lidar com os acontecimentos, consegue aprender algo novo, em vista do seu crescimento humano e espiritual.
            Esta celebração de Maria, mãe do Filho de Deus, nos lembra também que “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva” (Gl 4,5-6). A Lei a que o apóstolo Paulo se refere é a Lei judaica (religiosa), uma Lei extremamente exigente, diante da qual todo ser humano se sentia condenado, justamente por não conseguir cumpri-la integralmente. Podemos alargar o sentido dessa condenação. Todos nós estamos sujeitos às incertezas deste mundo, sujeitos à violência, às tragédias, às doenças, às turbulências na vida financeira ou afetiva etc. Mas Paulo nos lembra que Cristo nos deu uma nova identidade: não somos mais escravos, mas filhos – “E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá - ó Pai!” (Gl 4,6).
            Jesus viveu num mundo injusto e desigual como o nosso, um mundo também marcado por conflitos e tragédias. No entanto, ele escolheu se manter interiormente livre; escolheu ser conduzido pelo Espírito de Deus que afirmava constantemente dentro dele: “Você é Filho, não escravo”; “Você nem sempre escolherá qual acontecimento atravessará seu caminho, mas sempre poderá escolher a forma de lidar com ele”. Se nós recebemos esse mesmo Espírito de Jesus, que comprova que somos “filhos de Deus”, já passou da hora de nos libertarmos de comportamentos que nos mantém escravos da superstição, do medo e da ignorância, escravos do celular e da internet, escravos da bebida, das drogas e da pornografia, escravos do consumismo e de uma vida vazia e superficial, escravos das cobranças do mercado e da expectativa dos outros, escravos da nossa dependência afetiva e do nosso sentimento de inferioridade etc.
            Diante do novo ano que se abre, podemos nos perguntar: o que há novo nele? Tudo, e também nada. Não somente cada ano que nasce, mas também cada dia que desponta, é sempre uma página em branco: as linhas estão ali, mas somos nós que decidimos o que vamos escrever. Escrever as mesmas coisas é sempre mais fácil; é a vida no piloto automático; é a síndrome de Gabriela – “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim”. Nada muda quando não nos damos ao trabalho de mudar. Nada melhora quando não nos esforçamos em melhorar. Nada se modifica quando não aceitamos corrigir atitudes que precisam ser corrigidas. Por isso, pedir a bênção de Deus para o novo ano significa também arregaçar as mangas e trabalhar no sentido da bênção que Deus, como Pai, quer dar a cada filho Seu na face da terra.
“O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). Bênção não é mágica. Não adianta eu pedir a bênção de Deus, mas não aceitar obedecer à Sua voz em minha consciência. Não posso esperar que a bênção de Deus funcione como uma “blindagem” contra todo tipo de dor, dificuldade ou sofrimento. A vida não poupa ninguém de dificuldade. A terra não é o céu. Esperar que a estrada de 2020 seja totalmente asfaltada, pista dupla, sem pedágio, sobre a qual deslizaremos tranquilamente, sem enfrentar nenhum tipo de contratempo, é não ter senso de realidade. Deus nos quer fortes, e não covardes. Deus nos quer maduros, e não mimados. Deus nos quer em comunhão com a dor que afeta o nosso próximo, e não indiferentes, fechados em nossa bolha chamada “individualismo”.
Termino esta reflexão com uma proposta de oração para esta passagem de ano:
Meu Pai, em comunhão com Maria santíssima deposito diante de Ti todos os acontecimentos que atingiram a mim e à humanidade neste ano. Nem tudo eu consegui refletir ou assimilar. Nem sempre eu vi Tua mão me conduzindo. Alguns dos meus sofrimentos foram frutos da minha teimosia em fazer as coisas do meu jeito, sem obedecer à Tua voz em minha consciência.
Concede-me um coração filial, sempre mais consciente da voz do Teu Espírito em mim, Ele que comprova que não preciso viver como escravo(a) de coisas que me adoecem e destroem, mas como alguém que sempre tem a liberdade de escolher como lidar com aquilo que me acontece. Liberta-me não só das correntes de ferro que me prendem ao erro, mas, sobretudo, daquele fio de ouro que não tenho a coragem de cortar, porque me oferece falsas compensações.
Hoje peço Tua benção, Pai, sobre mim e sobre toda a humanidade. Torna-nos fortes diante da adversidade, perseverantes diante das tribulações, firmes na fé diante das provações, alegres por causa da esperança, fiéis à cruz de Teu Filho Jesus, capazes de solidariedade para com os que sofrem, construtores da paz e confiantes na força da Tua verdade que prevalecerá sobre toda mentira que há no mundo. Em nome de Jesus, amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

É POSSÍVEL DEFENDER-SE DE HERODES


Missa da Sagrada Família. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-21; Mateus 2,13-15.19-23.

            Mesmo depois do nascimento de Jesus, mesmo depois que a luz brilhou nas trevas, o mundo continua sendo um lugar habitado pela escuridão e pela ação do mal. Jesus é uma proposta de paz da parte de Deus para a humanidade, uma oferta de salvação, não uma imposição. Por isso, enquanto alguns o acolhem, outros o rejeitam; enquanto alguns se deixam iluminar por sua verdade, outros mergulham ainda mais na própria escuridão.
            O Evangelho de hoje nos coloca diante de um momento difícil para a família de Nazaré: José precisa tomar sua esposa e seu filho e fugir para outro país (Egito), pois Herodes quer matar o menino. Essa cena infelizmente é muito atual! Algumas vezes nós já vimos nos noticiários milhares de famílias fugindo da guerra, da fome, da violência, da escravidão ou da perseguição religiosa. O Papa Francisco constantemente tem chamado a atenção do mundo para o fato de que o Mar Mediterrâneo se tornou um imenso cemitério, onde pais, mães e filhos morreram ou continuam a morrer afogados, ao tentarem encontrar possibilidade de vida digna em outros países.
            Diante de tragédias como essas, alguns perguntam onde está Deus. Por que Ele não põe fim às guerras, à fome, à violência, à morte de pais, mães e crianças inocentes? Mas aqui cabe outra pergunta: por que nós responsabilizamos Deus pelas atitudes homicidas dos Herodes do nosso tempo? O mesmo Deus que falou à consciência de José também fala à consciência dos Herodes de hoje. A diferença é que, enquanto alguns pais e mães estão atentos à voz de Deus e tomam atitudes para salvar suas famílias, os Herodes de hoje só escutam a voz da sua própria ganância, do seu desejo de poder, da sua loucura, da sua maldade e ambição, da sua paranoia.
            “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito!” (Mt 2,13). Quanto mais amamos algo, quanto mais algo é precioso, mais aquilo precisa ser defendido! Nós não podemos ser ingênuos e aceitar tudo o que o mundo nos apresenta como bom e útil para a nossa felicidade. Há muitas coisas más, tóxicas e destrutivas nos sendo oferecidas sob a aparência de bem, de atraente e de vantajoso. Por isso, nossa consciência precisa estar desperta, esclarecida pela voz de Deus nela, para podermos perceber o que de fato convém e o que não convém a nós e àqueles que nós amamos. Embora Deus seja o primeiro a querer o nosso bem e o bem da nossa família, cabe a cada um de nós “se levantar” e reagir, tomar atitudes concretas para salvar nossos valores, nosso bem mais precioso, seja o casamento, seja o filho, seja a saúde física e emocional, seja a fé, a alma.  
            Hoje as pessoas se deslocam com muito mais frequência e rapidez do que há tempos atrás.  A mobilidade humana é uma constante nos dias atuais. Contudo, enquanto alguns se deslocam fugindo da guerra, da fome ou da perseguição religiosa, muitos se deslocam movidos unicamente por interesse financeiro, pelo desejo de se alcançar uma vida próspera e estável, materialmente falando. Quem se desloca em vista de se afastar do mal e se aproximar do bem? Quem se desloca em busca de Deus e da salvação que Ele oferece? Quem se esforça em sair da sua preguiça espiritual, em vista de aprofundar sua fé e sua comunhão com Deus?
            Além disso, não pensemos apenas nos deslocamentos geográficos. O deslocamento psíquico, emocional e espiritual às vezes é muito mais exigente! Quantas pessoas mudam de casa, de trabalho, de curso, de relacionamento, de corte de cabelo, mudam o “look” (visual), mudam inclusive de igreja, de religião e de partido político, mas não enfrentam o Herodes que mora dentro delas? São pessoas que destroem seus próprios sonhos, que sabotam a si mesmas, que giram, giram, mas não saem do lugar, porque não se dão ao trabalho de fazer mudanças em si, porque não admitem que elas são Herodes (inimigas) de si mesmas, e acham mais fácil viver culpando Deus, o mundo, os outros, pela sua própria infelicidade.
            Outro alerta precisa ser feito, quando refletimos sobre nossa vida de família. Em muitos casos, Herodes mora dentro de nossas casas, e não fora. Herodes “interage” com os pais ou os filhos dependendo do que eles assistem na Netflix e na Internet; Herodes mora em algumas famílias, abusando sexualmente de crianças e adolescentes, agredindo-os verbal e fisicamente; Herodes também mora nas igrejas, seja nos ministros religiosos que abusam de menores (pedofilia), seja nos que se insinuam sexualmente para homens que estão nas pastorais das paróquias. Portanto, a melhor coisa que os pais têm a fazer é ensinar seus filhos desde pequenos a reconhecerem, se defenderem e se afastarem dos Herodes do nosso tempo!  
            Por fim, não menos importante do que fugir de Herodes, Deus nos orienta a reconhecer e a tratar nossas feridas familiares. Não há relacionamentos isentos de feridas, mas toda ferida pode ser tratada e curada. O primeiro passo é reconhecer a ferida; o segundo é comunicar a dor – a outra pessoa precisa tomar consciência da dor que estou sentindo, assim como, se for o caso, eu também preciso estar aberto para ouvir e me tornar consciente do quanto a feri; o terceiro passo é colocar remédio sobre a ferida, por meio do diálogo, do perdão, da reaproximação ou da mudança de atitude. Seja no livro do Eclesiástico, seja na carta de São Paulo aos Colossenses, o Senhor nos oferece pistas importantes a respeito da restauração dos nossos relacionamentos, do fortalecimento dos nossos vínculos e da superação das distâncias ou das atitudes que precisam ser modificadas em vista da nossa cura emocional.  
            Mudar é preciso. Deslocar-se é necessário. Tratar as feridas é a única possibilidade de cura para os nossos relacionamentos. Acolhamos os alertas que Deus nos faz quanto a tudo aquilo que ameaça machucar ou destruir o que mais amamos, ou roubar nosso bem mais precioso. Que em nossa casa cada um reconheça não apenas sua parcela de responsabilidade quanto ao que nela se vivencia diariamente, mas, sobretudo, sua potencialidade em mudar, em tornar-se melhor e em dedicar o melhor de si para revigorar a saúde emocional e espiritual de nossa família.

Pe. Paulo Cezar Mazzi    



terça-feira, 24 de dezembro de 2019

NOSSA CARNE REDIMIDA POR AQUELE QUE SE FEZ CARNE


Missa de Natal. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14; Lucas 2,1-14; João 1,1-5.9-14.  

                A Sagrada Escritura nos ensina que “Deus é Espírito” (Jo 4,24), mas o ser humano é “carne” (Is 40,6). Enquanto “Espírito” significa vida, força e imortalidade, “carne” significa aquilo que perece, envelhece, adoece e morre. “Carne” significa aquilo que apodrece, que se corrompe, que se estraga. Nós somos “carne”! Apesar dessa verdade nua e crua, o nascimento de Jesus Cristo foi anunciado por João com essas palavras: “E toda carne verá a salvação que vem de Deus” (Lc 3,6). Por isso, Santo Agostinho afirmou, em sua homilia de Natal: “Por tua causa Deus se fez homem. Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te libertarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te”.
            Natal é a festa da “Encarnação”, pois “a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Jesus, Palavra viva do Pai, por meio da qual tudo foi criado – “Tudo foi feito por ela” (Jo 1,3) – assumiu a nossa “carne”, isto é, a nossa condição humana. Ele assumiu a nossa carne, justamente para redimi-la, para libertá-la da estreiteza do seu egoísmo, da cegueira do seu horizonte fechado, do círculo vicioso do seu pecado e de todo tipo de opressão e injustiça a que o ser humano está exposto neste mundo. É por isso que o profeta Isaías proclama: “(...) para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1), e o Evangelho afirma a respeito do nascimento de Jesus: “Era a luz da verdade que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9).
            Quando os anjos anunciam aos pastores: “Hoje... nasceu para nós um salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11), estão afirmando que Jesus nasceu como salvador de todo ser humano. Ele não nasceu apenas para Maria e José, como também não nasceu apenas para o povo judeu; ele nasceu para todo ser humano, porque “a graça de Deus se manifestou, trazendo a salvação para todos os homens” (Tt 2,11), isto é, para todas as pessoas. Onde quer que exista uma “carne”, isto é, um ser humano ferido, violentado, injustiçado, fragilizado, desrespeitado, entristecido, sem esperança, é ali que Jesus quer se fazer presente, assumindo toda a sua situação de sofrimento para libertá-lo, redimi-lo, salvá-lo.           
            Se queremos celebrar verdadeiramente o Natal, precisamos nos lembrar deste conselho de Deus: “Não se esconda daquele que é sua própria carne” (Is 58,7), ou seja, não ignore o sofrimento daquele que é humano como você; não se torne indiferente às pessoas à sua volta; não se desumanize, pois o Filho de Deus se fez pessoa humana e veio devolver humanidade ao nosso coração, ferido pelo ódio, adoecido pelo rancor, endurecido pela maldade que há em nosso mundo. “Não esconder-se da sua própria carne” também significa olhar com coragem e sinceridade para si mesmo, para aquilo que em você é frágil, imperfeito, doente, deformado pelo mal, e acolher-se, reconciliar-se com sua própria história, dialogar com sua própria verdade, admitir sua absoluta necessidade de ser redimido, liberto, salvo.
            A manjedoura onde Jesus foi colocado após seu nascimento, “pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7), nos remete para tantas situações da nossa vida onde o ideal foi ocupado pelo real. Quantos ideais, quantos sonhos e quantos projetos nossos foram desfeitos, modificados, atropelados por acontecimentos que viraram a nossa vida do avesso? E, no entanto, Deus, ao permitir que Seu Filho nascesse naquela situação de total desamparo, está nos dizendo que Ele está conosco em toda e qualquer situação. Embora nem sempre consigamos perceber, Ele está nos acompanhando nas nossas noites escuras, conduzindo os acontecimentos de modo que tudo concorra para o nosso bem, segundo o Seu amor e seu desígnio de salvação para conosco. Portanto, justamente ali, onde pensamos “não haver lugar” para a vida nascer, para a esperança nos visitar, para a nossa situação se transformar, é ali que Deus nos surpreende com a sua Providência e nos revela que a luz sempre encontra uma forma de vencer as trevas.
Porque Jesus Cristo é “a luz da verdade que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9), nesta noite de Natal nós suplicamos por todas as pessoas e situações em nosso mundo que precisam ser iluminadas pela verdade da encarnação, para que cada ser humano experimente em sua própria “carne”, em sua própria condição de finitude, de fragilidade, de sofrimento e de morte, a graça da redenção, a certeza de ser infinitamente amado pelo Pai que enviou seu Filho para nos salvar.    
      
            ORAÇÃO: “Para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Deus da luz, em Ti não há trevas! Desce a nós, Pai das luzes! Visita-nos em nossas trevas. Visita especialmente todas as pessoas que se encontram na sombra escura da bebida e das drogas, do desemprego, da violência, da angústia, da depressão ou da falta de sentido para a vida. “Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas” (Is 9,4). Deus forte, Príncipe da paz, desarma o coração daqueles que promovem guerras; livra nosso mundo da violência do tráfico e do trânsito, da intolerância e da perseguição política e religiosa. Derruba os muros que levantamos e ensina-nos a construir pontes em nossas famílias, igrejas e ambientes de trabalho. “Nasceu para nós um salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Que a luz do Teu nascimento, Senhor Jesus, resplandeça sobre toda consciência e todo coração, de modo que nenhuma pessoa seja tomada pelo desespero, mas experimente a graça da Tua libertação e salvação. “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Habita em nós, Senhor Jesus! Toca em nossa carne, abraça nossa fragilidade mais profunda, reconcilia-nos com a nossa própria humanidade e liberta-nos de nós mesmos! Amém!  

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

OCUPE SEU LUGAR NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO!


Missa do 4º dom. do Advento. Palavra de Deus: Isaías 7,10-14; Romanos 1,1-7; Mateus 1,18-24.

Que lugar eu ocupo no mundo? Minha existência faz alguma diferença para a humanidade? Por mais que existam pessoas consideradas “importantes”, “absolutamente necessárias”, “insubstituíveis”, a verdade é que ninguém é o centro do mundo, ninguém é o centro do universo: todos nós somos mortais e, de certa forma, “substituíveis”; nem o mundo, nem a história da humanidade, começaram conosco ou tem em nós o seu eixo. Pode até ser que muita coisa dependa de nós nesse momento, mas quando viermos a faltar, a vida passará por um processo de adaptação e seguirá seu curso, assim como a história humana continuará a ser escrita por outras pessoas. Então, mais uma vez a pergunta: Minha existência faz alguma diferença para a humanidade?
No centro do Evangelho que hoje ouvimos está a figura de José, um homem que não teve qualquer palavra registrada na Sagrada Escritura, um homem silencioso e humilde, mas cuja presença na vida de Jesus – uma presença querida por Deus – nos ensina que cada um de nós ocupa um lugar importante, único e específico dentro da história da salvação. Enquanto as narrativas do nascimento e da infância de Jesus dão muito destaque à figura de Maria, o evangelista Mateus quis resgatar a figura de José, para nos falar da importância de compreendermos a nossa existência como uma vocação, como um convite a fazer da nossa vida uma “palavra de salvação” para o mundo.
            Assim como José, nós passamos por situações onde a vida parece virar de cabeça para baixo. Quando tudo estava caminhando segundo os nossos sonhos e projetos, um acontecimento estranho chegou e tirou o chão debaixo dos nossos pés, nos enchendo de medo, de raiva, de angústia e de incompreensão. É a nossa noite escura; é quando não entendemos mais o que está acontecendo e não conseguimos nos conectar com Deus, para receber uma mensagem Sua que responda às nossas perguntas. No entanto, apesar de estar com sua vida totalmente “desajustada”, o Evangelho afirma que José “era justo”. Não compreendendo a origem da gravidez de Maria, ele toma a decisão de abandoná-la em segredo. Fazendo assim, Maria não seria vista como adúltera, enquanto José seria visto como um homem irresponsável, que engravidou sua noiva e depois a abandonou.
A resposta que José não encontrou nos seus pensamentos embaralhados pelo medo, pela angústia, pela raiva e pela incompreensão, ele a encontrou quando conseguiu dormir, isto é, quando se desarmou. Como escreveu o Pe. Pagola, “acordado, consciente, o homem se defende, censurando aquilo que não quer. No sono, se desarma, e pode receber aquilo que Deus quer dar-lhe”. Quantas vezes rezamos “armados” em relação a Deus? Reclamamos das nossas feridas, mas não permitimos que Ele toque nelas; sofremos com determinadas situações, mas não aceitamos que Ele nos torne conscientes sobre a nossa responsabilidade em relação às mesmas. É verdade que Deus tem algo novo para nos dar, mas nossas mãos estão firmemente fechadas, assim como fechados estão os nossos pensamentos e também o nosso coração. E quanto mais nós estamos fechados, mais Deus precisa bater, quem sabe até nos “quebrar”, até abrir uma brecha através da qual fazer brilhar a Sua luz no meio da nossa sofrida noite escura...
Deus encontrou uma abertura na mente, na psique, na alma de José, e ampliou o seu horizonte de compreensão: se José não foi de modo algum “necessário” para o filho de Deus vir ao mundo, ele era “absolutamente necessário” para impor o nome ao Menino, isto é, para ajudá-lo a tornar-se consciente da sua própria identidade, para transmitir-lhe uma segurança emocional, para encaminhá-lo na vida e prepará-lo para a missão de salvar a humanidade. Eis aí, portanto, o lugar de cada um de nós na história da salvação: não somos salvadores das pessoas, mas colaboradores na salvação delas; não somos o personagem central na história da vida, mas sem a nossa presença e atuação, essa história fica gravemente prejudicada, incompleta.
Portanto, nós não somos a Mãe que gera o Filho de Deus, mas somos o “pai” que tem como tarefa sagrada amparar os inúmeros filhos de Deus que ainda não sabem seu próprio nome; crianças, adolescentes e jovens sem identidade ou com uma identidade profundamente frágil, confusa, fragmentada, adoecida; uma geração sem rumo e sem sentido para a vida, que não sabe o que significa “limite”, que não admite ser frustrada; uma geração que não sabe diferenciar o bem do mal, a justiça da injustiça; que só conhece a liberdade, mas não a responsabilidade...
“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa” (Mt 1,24). Eis aqui outro traço importante da “justiça” de José. Enquanto se debatia entre os seus projetos humanos e o projeto de Deus, José havia perdido a sua paz e se enchido de angústia. A partir do momento em que ele decidiu “ajustar” a sua vida à vontade de Deus, voltou a sentir paz, confiança, serenidade e clareza. Desse modo, ele “aceitou” receber Maria, grávida do Filho de Deus. À semelhança de José, nós somos convidados a nos tornar homens e mulheres “justos”, isto é, capazes de – não sem dor, não sem uma intensa luta interior – ajustar a nossa vida à vontade de Deus, abrindo-nos àquilo que Ele quer gerar em nós: uma vida mais ampla, mais profunda, mais livre, mais plena de sentido, uma vida que se torne “palavra de salvação” para a humanidade da qual fazemos parte.

ORAÇÃO: Pai, quero tornar-me consciente do meu lugar na história da salvação. Eu tenho meus planos e meus sonhos, mas sei que a minha realização está em abrir-me aos Teus planos e os Teus sonhos a respeito de mim e da humanidade. Muitas vezes eu resisto ao Teu querer e me fecho à Tua vontade porque tenho medo, porque quero manter o controle da minha vida em minhas mãos. Mas hoje o Senhor me convida a abrir mão desse controle; o Senhor me convida a dormir, a me desarmar, a permitir que o meu horizonte estreito e fechado se abra para algo novo, para algo muito maior que o Senhor tem para mim e para aqueles que o Senhor quer salvar por meio da minha humilde e breve existência neste mundo. Eu aceito ser Teu José. Eu quero ocupar o lugar que me cabe na história humana, para o bem da humanidade e para que a Tua salvação chegue onde ela ainda precisa chegar. Faça-se em mim o Teu querer. Sou Teu José! Em nome de Jesus, amém!     


Pe. Paulo Cezar Mazzi