sexta-feira, 19 de julho de 2019

ESCOLHER NÃO DESCUIDAR DO ESSENCIAL

Missa do 16º. dom. comum. Palavra de Deus: Gênesis 18,1-10; Colossenses 1,24-18; Lucas 10,38-42.

Numa época em que não existia Internet, o sobrinho de um padre foi estudar no exterior. Seja por se encontrar num país onde não conhecia ninguém, seja porque seus estudos lhe provocavam muitos questionamentos a respeito da sua fé, aquele jovem escreveu uma carta ao seu tio padre, pedindo que fosse o seu diretor espiritual, com quem ele pudesse mensalmente partilhar suas dúvidas e orientar-se quanto à sua vida espiritual. Acontece que o seu tio padre era um homem extremamente ocupado, envolvido em muitos trabalhos pastorais. Mas, diante da carta do seu sobrinho, o padre pensou: “Se eu dedicasse meu tempo somente para cuidar das coisas urgentes, não teria tempo para cuidar daquilo que é essencial, e orientar meu sobrinho quanto à vida espiritual é essencial!”
A vida moderna é cheia de “urgências”. Nós somos cobrados 24 horas por dia, seja na vida profissional, seja nos estudos, seja no próprio dia a dia. Embora seja verdade que entre nós existam aquelas pessoas que estão sempre “muito ocupadas em não fazer nada” (2Ts 3,11) – quanto tempo você perde diariamente distraindo-se na Internet? – a maioria das pessoas vive ocupada, atarefada, agitada, com pressa, como Marta. Aliás, como se não bastasse o tanto de coisas que temos para fazer, a própria Internet nos trouxe novas “urgências”: ler notícias, ver fotos, assistir vídeos, responder mensagens etc. Desse modo, ao invés de terminarmos o nosso dia silenciando o coração, revisando em nossa mente como vivemos aquele dia, de que forma Deus falou conosco, se vivemos ou não segundo a vontade d’Ele, ou colocando em Suas mãos aquilo que ficou para ser resolvido no dia seguinte, nós deixamos tudo isso de lado para dar uma última olhada no celular...
            O Evangelho nos coloca duas questões: 1) Quantas coisas que o mundo nos apresenta como “urgências” na verdade não têm nada de urgente, porque não são necessidades verdadeiras, porque verdadeiramente aquilo não nos diz respeito, porque nós não precisamos daquilo para termos paz e sermos felizes? 2) Quantos de nós já não conseguem mais diferenciar aquilo que é urgente daquilo que é essencial? Diante da reclamação de Marta, de que Maria não a estava ajudando nas tarefas de casa, mas sentada aos pés de Jesus para escutar sua Palavra, Jesus respondeu: “Maria escolheu a melhor parte” (Lc 10,42). Eis o segredo para quem não quer se perder nas urgências da vida moderna: escolher cuidar do essencial. E aqui se encontra uma dica para a nossa vida de oração: sentar-se diariamente aos pés do Senhor para ouvi-Lo, para nos colocar em Suas mãos como barro nas mãos do Oleiro, não é uma questão natural, espontânea; é uma questão de escolha.
            Ao chamar a atenção de Marta, Jesus lhe disse: “Pouca coisa é necessária, até mesmo uma só” (Lc 10,42). Nos faria bem escrever essas palavras – “Pouca coisa é necessária” – e colocá-las na porta do nosso guarda-roupa ou onde guardamos nossos calçados; na parte de cima da tela do nosso computador ou da nossa TV, enquanto assistimos a inúmeras propagandas ou navegamos por horas em inúmeros Sites... Se os pais estivessem convencidos de que “pouca coisa é necessária”, o que seria modificado na forma de criar e educar seus filhos? A mesma coisa se diga a respeito dos casais, quanto ao relacionamento conjugal; dos padres e dos leigos, quanto ao trabalho pastoral, e assim por diante... Nosso mundo está cada vez mais adoecido e desumanizado justamente porque a maioria de nós se perdeu em coisas urgentes e não sabe mais identificar o único necessário, o essencial.
            Se o Evangelho nos fala de Maria sentada aos pés de Jesus para escutá-lo, o texto do Gênesis nos fala de Abraão, “sentado à entrada da sua tenda no maior calor do dia” (Gn 18,1). Se Abraão fosse como nós, cujos olhos se fixam na tela do celular sempre que “sobra um tempinho”, ele não teria visto três homens passarem em frente à sua tenda. Mas ele os viu, e fez questão de que parassem, descansassem e, inclusive, almoçassem com ele. Abraão esqueceu-se de si e dos seus problemas, e foi extremamente generoso para com aqueles homens, preparando um verdadeiro banquete para eles. Tudo isso por quê? Por pura generosidade, por gratuidade, por não viver voltado para o próprio umbigo, por esquecer-se de si e dos seus problemas e deixar-se afetar pela necessidade dos outros, por abrir espaço na sua vida para acolher a visita de Deus, ainda que Abraão não soubesse de maneira alguma que Deus estava ali, naqueles três homens!           
            Para sua surpresa, durante o almoço O visitante pergunta por Sara e faz a Abraão uma promessa: “Voltarei a ti no próximo ano; então tua mulher Sara terá um filho” (Gn 18,10). Fazia 24 anos que Abraão estava caminhando com Deus, esperando pelo cumprimento dessa promessa, e eis que Deus o visita num dia inesperado, numa hora inesperada, de um modo inesperado, e lhe traz o presente tão sonhado! Da mesma forma que Jesus encontrou gratuidade no coração de Maria, Deus a encontrou em Abraão. Nem Maria, nem Abraão agiram de maneira planejada, calcudada, interessada. Os dois foram surpreendidos por uma visita e os dois deixaram de lado a si mesmos para darem atenção à visita, e foram abençoados por Deus. Não estaria faltando para a maioria de nós hoje essa atitude de gratuidade, este esquecer-se de si mesmo para olhar para o outro, para enxergar o outro que cruza o meu caminho, para perder tempo com alguém que nem conhecemos, mas que precisa de um pouco do nosso tempo?
            As “urgências” do mundo moderno nos tornaram pessoas sem tempo para o essencial, pessoas incapazes de gratuidade, porque tudo o que fazemos é em vista de um retorno, de um resultado, de algum benefício para nós. O mesmo Jesus que encontrou acolhida na casa de Marta e de Maria dirá, ao chegar à cidade de Jerusalém: “Ah! Se neste dia também você conhecesse Aquele que pode te trazer a paz! (...) Deitarão você e a seus filhos por terra, porque você não reconheceu o tempo em que foi visitada!” (Lc 19,42.44). Quantas vezes Deus visita a nossa casa (interior), mas nós não estamos em casa!? Jesus disse: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). A questão não é se Jesus nos visita; a questão é se estamos abrindo a porta para ele e acolhendo-o como Maria o acolheu, como o essencial da sua vida.

            Pe. Paulo Cezar Mazzi   

quinta-feira, 4 de julho de 2019

NÃO APENAS NASCIDOS, MAS ENVIADOS


Missa do 14º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 66,10-14c; Gálatas 6,14-18; Lucas 10,1-12.17-20.

Existem duas maneiras de entendermos a nossa existência e o nosso estar no mundo. A primeira é acidental, fruto do acaso, desprovida de sentido. A segunda é fruto de um chamado, de uma escolha e de uma missão; portanto, portadora de um sentido. Segundo o Evangelho que acabamos de ouvir, nós não apenas nascemos, não apenas passamos a existir, mas fomos enviados ao mundo. Enviados para que? “O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir” (Lc 10,1). O lugar onde cada um de nós se encontra é o lugar onde o próprio Jesus devia se encontrar. Nós moramos onde o próprio Jesus devia morar; estudamos e trabalhamos onde ele próprio devia estudar e trabalhar; convivemos com as pessoas com as quais ele próprio devia conviver.
Além de tomarmos consciência de que somos enviados para a missão de trabalhar com Jesus pela salvação da humanidade, devemos estar cientes de que somos enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3). O grande perigo aqui é o de assumirmos uma atitude de constante defesa em relação ao mundo. Nossa missão não é nos defender do mundo, mas salvá-lo, curá-lo, resgatá-lo. Se Jesus nos alerta para a nossa condição de cordeiros em meio aos lobos é no sentido de que devemos ser prudentes, não ingênuos; devemos ter senso de realidade e estar preparados para enfrentar perigos e dificuldades em nossa missão; principalmente, devemos tomar o grande cuidado de não nos transformarmos em lobos apenas por uma questão de sobrevivência neste mundo.  
“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós” (Lc 10,6). Nossa missão é sermos uma presença de paz num mundo agitado, angustiado e sem paz. Nossa missão é levarmos uma palavra de conforto a toda pessoa abatida, uma palavra de orientação a toda pessoa perdida e desorientada, uma palavra de esperança a toda pessoa que se entregou ao desespero... Mas aqui é importante lembrar que nós só podemos comunicar a paz aos outros na medida em que o nosso coração vive segundo a vontade de Deus, pois é essa conformidade da nossa vida à vontade de Deus que nos enche de paz. Ao mesmo tempo, Jesus nos mostra que é possível que algumas pessoas não desejem a nossa paz. Neste caso, não devemos nos preocupar; ela voltará para dentro do nosso coração. O fato de alguém rejeitar o bem que eu poderia lhe oferecer não me torna desprovido deste bem; ele permanece comigo, para que eu possa oferecê-lo a outra pessoa.    
“Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’” (Lc 10,11-12). Jesus quer nos tornar conscientes de que nem todos os doentes desejam ser curados; nem todos os mortos desejam ressuscitar; nem todos os que se extraviaram desejam ser reconduzidos. Nós precisamos estar preparados para o fato de que nem todos querem ser salvos daquilo que os está destruindo. Há pessoas que, por motivos que não entendemos, passaram a se identificar com sua doença, com sua morte, com sua desorientação. Devemos respeitá-las em sua liberdade de consciência, mas também devemos “sacudir a poeira dos nossos pés”, no sentido de não nos contaminarmos com essa atitude de enterrar-se vivo, de recusar-se a alimentar a própria esperança e de dar sentido à própria existência.   
“Os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: ‘Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome’. Jesus respondeu: (...) não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu’” (Lc 10,18.20). Embora nós não tenhamos escolhido nascer e vir ao mundo, mas fomos escolhidos e enviados para ele com uma missão específica, o nosso ego tem a mania de querer se apropriar de algo que não é dele; ele quer ser reconhecido e aplaudido pelo sucesso da missão que desempenhou. Ora, nós não somos a fonte, mas apenas o canal por onde a água da fonte chega às outras pessoas; nós não somos homens e mulheres com super-poderes, mas apenas homens e mulheres que carregam o poder do Evangelho em vasos de barro. Portanto, este grande perigo sempre nos acompanhará; o perigo da vaidade, da autopromoção, do anunciar a si mesmo, do conduzir as pessoas para si e não para Deus.
O apóstolo Paulo nos ensina a evitar este erro tão grave, ao testemunhar: “Quanto a mim, que eu me glorie somente da cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo... eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,14.17). Se é verdade que cada um de nós é um enviado de Deus ao mundo, também é verdade que a nossa missão será bem sucedida somente se aceitarmos exercê-la como homens e mulheres crucificados. Todo cristão, todo verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, é um crucificado. Como o apóstolo Paulo, ele carrega em seu corpo não medalhas de honra ao mérito, não anéis ou coroas de reconhecimento, mas as marcas de Jesus crucificado. Portanto, como nos ensina o profeta Isaías, não caiamos no erro de esperar por consolações terrenas. A nossa verdadeira consolação virá da Jerusalém do alto, onde definitivamente “a mão do Senhor se manifestará em favor de seus servos” (Is 66,13.14).
Encerremos, meditando essas palavras de Santa Madre Teresa de Calcutá: “Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de interesseiro. Seja gentil assim mesmo. Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo. Seja honesto e franco assim mesmo. O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra. Construa assim mesmo. O bem que você faz hoje, pode ser esquecido amanhã. Faça o bem assim mesmo. Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode não ser o bastante. Dê o melhor de você assim mesmo. Veja você que, no final das contas, é tudo entre você e Deus. Nunca foi entre você e os outros” (Assim mesmo – poema resumido)

Pe. Paulo Cezar Mazzi

domingo, 30 de junho de 2019

FÉ PARA ALÉM DO ESCÂNDALO

                        Vivemos uma época de muitos escândalos, seja no campo da política (corrupção), seja no campo da moral (adultério, promiscuidade), seja no campo da religião (contra testemunho). Por serem muitos e praticamente cotidianos, os escândalos já não nos escandalizam mais; tornaram-se parte da nossa rotina, como se a exceção se tornasse regra. Contudo, justamente ao falar à sua Igreja, Jesus fez um alerta muito sério a respeito dos escândalos: “Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria se lhe pendurassem ao pescoço uma pedra pesada e fosse precipitado nas profundezas do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem!” (Mt 18,6-7).
                        O que Jesus entende por “escândalo”? Escândalo não é aquele acontecimento ou fato que deixa você admirado(a) ou chocado(a), mas aquilo que pode destruir sua fé. No caso específico do capítulo 18 de São Mateus, Jesus tem como preocupação as pessoas que estão na Igreja e ainda têm uma fé frágil, não amadurecida, não provada na crise, uma fé que pode facilmente quebrar-se, desencantar-se, decepcionar-se. Neste caso, Jesus adverte as pessoas que estão há mais tempo na Igreja e, logicamente, aqueles que ocupam nela alguma função de liderança: se nossas atitudes erradas forem conscientes e intencionais, e mesmo depois de sermos corrigidos, continuarmos a errar de modo a provocar a perda de fé em outras pessoas, seria muito melhor para nós sofrermos um acidente e morrermos tragicamente do que ter que responder perante Deus pela perda da fé do nosso irmão.   
                        Dentro desse contexto, Jesus faz uma afirmação muito séria: “É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem!” (Mt 18,7). Nós podemos entender este “é necessário” de dois modos: primeiro, no sentido de que é impossível que não haja escândalos quando se trata de pessoas. Todo ser humano tem seu ponto fraco e ninguém está garantido de nunca cair. Mas há também um segundo sentido: todo escândalo que envolve pessoas de igreja provoca uma crise de fé e esta crise é necessária para que a fé se comprove como madura e verdadeira e não como ingênua e do tipo “fogo de palha”. Neste sentido, diante do escândalo da divisão na Igreja de Corinto, Paulo afirma: “É preciso que haja até mesmo cisões entre vós, a fim de que se tornem manifestos entre vós aqueles que são comprovados (na fé)” (1Cor 11,19).
                        É muito interessante quando o evangelista Marcos narra para nós a visita de Jesus a Nazaré, o lugar onde ele cresceu. Enquanto Jesus, na sinagoga, faz uma espécie de homilia, interpretando aquilo que ele entendeu da Sagrada Escritura, Marcos diz: “E estavam chocados (escandalizados) por sua causa” (Mc 6,4), escandalizados não pelo que Jesus falava, mas por ser quem era: como se diria hoje, um “comedor de feijão e arroz” como eles. Ou seja, os nazarenos estavam escandalizados pelo fato de o Filho de Deus ser um deles, alguém que não aparentava nada de extraordinário. E Marcos termina seu relato afirmando que Jesus “admirou-se da falta de fé deles” (Mc 6,6). Em outras palavras, a nossa exigência de sinais espetaculares para crer é tão alta que Jesus chega a se escandalizar com a imaturidade da nossa fé!
                         Na verdade, os discípulos se escandalizaram algumas vezes com Jesus, principalmente quando ele falou da necessidade de passar pelo sofrimento de cruz. Pedro foi o primeiro a se escandalizar com isso (cf. Mc 8,32), mas, depois, todos os outros discípulos também ficaram escandalizados com Jesus (cf. Mc 9,32). Esse escândalo foi registrado também pelo evangelista João: “A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele” (Jo 6,66). E foi justamente no momento em que Jesus foi preso que “todos os seus discípulos, abandonando-o, fugiram” (Mt 26,56). Esta é uma verdade muito séria, sobre a qual precisamos refletir: a Cruz nos escandaliza; o Crucificado nos escandaliza; a Igreja crucificada nos escandaliza, e tudo isso acontece porque nossa fé não é uma fé amadurecida; é uma fé que não suporta crise.   
                        A palavra “crise” está ligada ao “crisol”, objeto que é submetido a altas temperaturas para derreter metais e também para purificar a prata e o ouro que são colocados dentro dele. Portanto, todo metal que passa pelo crisol sai dele purificado. Eis porque o livro do Eclesiástico diz: “pois o ouro se prova no fogo, e os eleitos, no cadinho (ou crisol) da humilhação” (Eclo 2,5). Uma fé que não passa por crise é como uma árvore que cresceu sem enfrentar nenhum vento contrário: seu tronco é frágil e ela tomba com a maior facilidade, quebrando-se por quase nada. A grande e profunda crise pela qual Jó passou praticamente destruiu todas as imagens que ele tinha de Deus, de modo que, depois da crise e tendo amadurecido na sua fé, ele disse a Deus: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te veem” (Jo 42,5), ou seja, Jó só conseguiu ter uma compreensão mais profunda e real de Deus depois de ter enfrentado um longo período de crise de fé.  
                        Tudo o que foi escrito aqui não é para que você aceite os escândalos como algo totalmente normal, mas para que evite cair em dois tipos de erro: o primeiro é abandonar seu caminho de santificação e se tornar também causa de escândalo, levando alguém a perder a fé por causa de algum contra testemunho seu; o segundo erro é você acabar jogando fora o bebê junto com a água do banho, o que significa generalizar, concluindo que ninguém presta e que o melhor a fazer é pular fora do barco. Se nossa Igreja, por ter pessoas à sua frente, tem sido machucada por alguns escândalos, lembre-se de que Jesus, ao falar com São Francisco de Assis por meio da imagem do Crucificado, no século XII, disse-lhe: “Reconstrua a minha Igreja, pois ela está em ruínas”, e o disse numa época em que representantes dessa mesma Igreja estavam sendo motivo de escândalo. Jesus poderia ter dito a São Francisco: “Pule fora desse barco; saia dessa Igreja”, mas não; Ele disse: “Reconstrua a minha Igreja”. É o que hoje Ele está dizendo a mim e a você.

                        Pe. Paulo Cezar Mazzi       

quinta-feira, 27 de junho de 2019

RECONSTRUIR A IGREJA DE CRISTO OU PULAR FORA DESTE BARCO?

Missa de São Pedro e São Paulo. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 12,1-11; 2Timóteo 4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19.

            Hoje, festa dos apóstolos São Pedro e São Paulo, é um dia muito oportuno para refletirmos sobre aquilo que professamos em nossa fé: “Creio na santa Igreja católica”. Muitas pessoas hoje se recusam a afirmar que a Igreja católica é “santa”, justamente por causa dos muitos escândalos que são noticiados, ora com relação à conduta moral de alguns de seus representantes, ora com relação às acusações de desvio de dinheiro e enriquecimento pessoal dos mesmos. Como afirma muito bem o Pe. José Pagola, nós vivemos hoje uma inversão de papéis: de uma Igreja que julga (e, muitas vezes, condena) o mundo, passamos a um mundo que julga (e, muitas vezes, condena) a Igreja.
            Por que nós, católicos, ainda afirmamos que cremos “na santa Igreja católica”? Porque “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra, para apresentar a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5,25-27). A santidade da nossa Igreja não vem dela mesma, isto é, não vem do fato de que nós, católicos, sejamos pessoas isentas de erros e de pecados, mas do fato do único sacrifício de Cristo na cruz em favor da humanidade e da sua própria Igreja: “somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb 10,10).
            Voltemos, então, para esta afirmação: de uma Igreja que julga e condena o mundo, passamos para um mundo que julga e condena a Igreja. Mas aqui também podemos afirmar outra mudança: de uma Igreja que julgava estar acima do bem e do mal, passamos a uma Igreja que hoje está tendo que reconhecer seus erros, suas doenças e, sobretudo, a omissão e a conivência de alguns de seus líderes em relação a padres e bispos que, apesar de terem um dia sido consagrados a Deus, se portam dentro da Igreja como padres e bispos mundanos. Neste sentido, precisamos lembrar as sábias palavras de Santo Agostinho: “Há pessoas que estão dentro (da Igreja), mas vivem como se estivessem fora; há pessoas que estão fora (da Igreja), mas vivem como se estivessem dentro”.
            Em matéria de escândalos, não há como tapar o sol com a peneira, mas também é preciso lembrar o que Jesus disse justamente à sua Igreja: “É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem!” (Mt 18,7). Quando Jesus afirma “é necessário” está dizendo que “é impossível” que não haja escândalos, quando se trata do ser humano. Ou seja, todos nós somos passíveis de erro, de pecado e de provocar escândalos, lembrando que, para Jesus, escândalo é toda atitude nossa que leve uma pessoa a perder a fé (cf. Mt 18,6).
Ora, cada vez que o mundo divulga a notícia de um “escândalo” em nossa Igreja, nós, católicos, precisamos analisar como reagimos a isso: somos capazes de distinguir entre a Igreja e a pessoa que erra, ou temos o hábito de jogar fora o bebê junto com a água do banho? Além disso, precisamos estar atentos a outra verdade: o mundo, enquanto pessoas que têm interesses e condutas totalmente opostos ao Evangelho, tem a clara intenção de desacreditar a Igreja, justamente porque ela, enquanto presença profética, denuncia tudo aquilo que nas sociedades atuais fere a vida e a dignidade do ser humano, colabora para a destruição do meio ambiente, para a inversão de valores, para a desestruturação das famílias etc.   
            O Evangelho de hoje nos convida a olhar para as raízes da nossa Igreja: ela não nasceu da vontade de um homem; não nasceu da decisão que uma pessoa tomou de “abrir”, de “fundar” uma igreja ou de “criar” uma religião; ela nasceu da escolha que Jesus fez de Pedro e dos demais apóstolos: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16,18). O apóstolo Paulo, por sua vez, nos ensina que a nossa Igreja nasceu da vontade do Pai, do sacrifício do Filho e da ação do Espírito Santo, ao aconselhar os presbíteros de Éfeso: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho: nele o Espírito Santo constituiu vocês como guardiães, para apascentarem a Igreja de Deus, que ele adquiriu para si pelo sangue do seu próprio Filho” (At 20,28). Portanto, nossa Igreja nasceu da cruz, do sacrifício do Filho, do fato de o Pai permitir que Jesus morresse na cruz “para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,52).
            Portanto, quem somos nós, católicos? Segundo o apóstolo Paulo, nós somos membros da família de Deus. Estamos edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual é Cristo Jesus a pedra principal. A meta é que todos nos tornemos habitação de Deus, por meio do Espírito Santo (cf. Ef 2,19-22). Individualmente, cada um de nós é chamado a combater o bom combate da fé, a terminar o caminho que iniciamos, de seguimento de Jesus Cristo, e a guardar, isto é, a manter viva e firme a nossa fé (cf. 2Tm 4,7). No entanto, enquanto Igreja, nós temos duas missões: uma interna e outra externa. A missão interna é nos reconhecer como membros do Corpo de Cristo, no sentido de que, “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Cor 12,26); se um membro se afasta e corre o risco de esfriar na fé, devemos ir em busca dele (cf. Mt 18,12), pois não é da vontade do Pai que nenhuma dessas pessoas, cuja fé está fragilizada, se perca (cf. Mt 18,14).
            Por fim, enquanto católicos, temos uma missão externa. A razão de ser da nossa Igreja não é ela mesma, mas a salvação da humanidade. Jesus não fundou a nossa Igreja sobre os apóstolos para que ela fosse reverenciada pelo mundo, mas para ser sacramento de salvação para uma humanidade ferida e desorientada como a nossa hoje em dia. Justamente por isso, o Papa Francisco insiste que a nossa Igreja deve ser sempre uma “Igreja em saída”: “A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai” (EG 47)... Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49). Cabe a cada um de nós, católicos, fazer da nossa Igreja “um hospital de campanha após a batalha” (Papa Francisco, setembro de 2013), uma Igreja dedicada em cuidar das feridas de seus fiéis e sempre disposta a sair para encontrar os que foram machucados, excluídos ou que se afastaram. Se nós, católicos, não estamos dispostos a ser uma presença de cura, um Evangelho vivo para aqueles que estão fora da nossa Igreja, não há razão alguma para continuarmos a nos identificar como católicos.   
            Uma palavra final, para aqueles que estão decididos a abandonar a Igreja católica por causa dos escândalos de alguns de seus líderes: Jesus, ao falar com São Francisco de Assis por meio da imagem do Crucificado, no século XII, disse-lhe: “Reconstrua a minha Igreja, pois ela está em ruínas”. É o que hoje Ele está dizendo a mim e a você...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 21 de junho de 2019

VOCÊ É CAPAZ DE DAR SENTIDO À SUA CRUZ?

Missa do 12º. dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 12,10-11; 13,1; Gálatas 3,26-29; Lucas 9,18-24.

            Crise: palavra que suscita em nós uma espécie de repulsa, porque entendemos “crise” como algo totalmente desagradável, negativo e indesejado. No entanto, todo ser humano passa por momentos de crise. Ouvimos falar de crise financeira, crise política etc., mas a crise principal e que pede a nossa atenção é a crise existencial, ou a crise de sentido de vida. Jesus teve que enfrentar essa crise e nós também temos.
            Quando estamos vivenciando uma crise existencial ou de sentido de vida, nos fazemos perguntas do tipo: É este o caminho que eu devo seguir? Vale à pena este sacrifício? Devo mudar minhas escolhas? Que sentido tem esse sofrimento? Não estaria na hora de abandonar tudo isso e ir atrás da minha felicidade? A vida tem algum sentido? A cruz tem algum sentido? Embora nem sempre temos respostas para todas essas perguntas, Santo Inácio de Loyola nos oferece uma indicação muito importante: quando não estamos bem, não devemos tomar decisões importantes, porque normalmente estamos sendo aconselhados pelo mau espírito, pela tristeza, pelo cansaço, pelo esgotamento, pelo pessimismo etc. Se tomarmos alguma decisão que mude fortemente a direção da nossa vida, podemos vir a nos arrepender mais tarde, e talvez não haja mais como desfazer o erro que cometemos.
            Jesus, como qualquer ser humano, passou por momentos de crise, de questionamento a respeito de quem ele era e de qual era a sua missão, de qual era o sentido da sua vida. Onde ele foi buscar resposta? Em Deus, na oração: “Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: ‘Quem diz o povo que eu sou?’” (Lc 9,18). Essa pergunta de Jesus revela a crise interior que ele estava vivenciando. Seu coração estava cheio de questionamentos. E Jesus entendeu que ninguém melhor que o Pai para ouvi-lo; ninguém melhor que o Pai para ajudá-lo a entender o que estava se passando com ele.
            Após ouvir o Pai na oração, Jesus quis ouvir seus discípulos, tanto a respeito de como o povo o via, como a respeito de como os próprios discípulos o viam. Aqui o Evangelho nos oferece uma pista muito importante: as únicas pessoas que podem nos ajudar a nos manter fiéis à nossa própria verdade são aquelas que nos conhecem mais intimamente. Quando nos sentimos perdidos, precisamos tomar muito cuidado com quem conversamos, isto é, quem procuramos para nos orientar e para nos ajudar a reencontrar nossa bússola ou o nosso GPS interior. A Internet atualmente está cheia de “gurus”, de “conselheiros” que são guias cegos, pessoas com claros sinais de problemas mentais, mas que se acham capazes de opinar corretamente sobre política, religião e vida afetiva, e são seguidas fanática e cegamente por milhões, nas redes sociais.     
            Quando Jesus questionou seus discípulos a respeito de como o viam, Pedro disse: Tu és “o Cristo de Deus” (Lc 9,20). Ótimo! A resposta de Pedro veio de encontro ao que Jesus havia entendido na sua oração: Ele é o Ungido de Deus, o Salvador de todo ser humano. No entanto, imediatamente após a resposta de Pedro, “Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém” (Lc 9,21) porque, enquanto Pedro e os outros discípulos entendiam a missão de Jesus como destinada ao brilho, à fama, ao sucesso e a uma vitória bombástica, Jesus havia entendido, no seu diálogo com o Pai, que o seu caminho seria marcado por dor, sofrimento, rejeição, violência, morte e, somente depois, ressurreição. Eis a grande diferença entre Jesus e a maioria das pessoas: enquanto Jesus busca, na sua espiritualidade, encontrar-se com a sua verdade, a maioria busca uma espiritualidade da fuga de si mesmo, do não confronto com seus medos, seus traumas e suas feridas. Enquanto Jesus busca em Deus força para lidar com a sua cruz, nos buscamos anestésicos cada vez mais potentes para não sentirmos a dor que a nossa cruz nos causa.
            Jesus jamais aceitou ser uma droga que nos mantenha inconscientes a respeito daquilo que somos chamados a enfrentar. Jesus nunca admitirá que nós transformemos seu Evangelho em livro de autoajuda, em receita barata de felicidade egoísta e individualista, em manual de como se livrar de todo tipo de dor, de sofrimento e de cruz. É por isso que ele diz: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9,23-24).
                 Seria Jesus um masoquista, uma pessoa que sente prazer em sofrer? Seria Deus Pai um sádico, alguém que sente prazer em causar sofrimento aos seres humanos. Não! Se há alguém doente nessa história não é Jesus, nem o Pai, mas a nossa sociedade, que insiste em rejeitar a vida com suas perdas, dores, sofrimentos e cruzes, para tentar criar um mundo onde não haja nenhum tipo de perda, de dor, de sofrimento, de cruz. O sentido da vida não está em não sofrer, mas em dar um sentido ao sofrimento que cabe somente a nós enfrentarmos. Jesus entendeu, na sua oração, que cabia somente a ele dar sentido à cruz que deveria enfrentar, e isso dissipou o mal estar que sua crise estava lhe causando.
Eis, portanto, o convite de Jesus a cada ser humano: não fuja de si mesmo; vá de encontro à sua verdade; não se faça de vítima, implorando que as pessoas sintam pena de você; não viva reclamando, achando que isso fará a vida “pegar mais leve” com você; acolha a vida com tudo o que ela tem de alegria e tristeza, vitória e derrota, luz e sombra, perda e ganho, altos e baixos; não se desvie da dor ou da cruz que cabe somente a você enfrentar, porque aquilo diz respeito justamente ao seu crescimento, ao seu amadurecimento, à sua redenção e à sua libertação.    

            Oração: Deus Pai, dentro de cada um de nós há uma pergunta existencial que pede para ser respondida: “Que sentido tem a vida?”, ou então: “Que sentido tem essa cruz, esse sofrimento?” Hoje eu entendo que o Senhor nunca aceitou ser um remendo em nossa vida, uma resposta fácil para perguntas que são sérias e dolorosas, porque estão em nós para nos abrir à Tua verdade e nos revelar o sentido verdadeiro da nossa existência.
            Principalmente quando temos que lidar com algum tipo de cruz, é ali que Teu Filho nos pergunta: “Quem eu sou para você? O que você espera de mim?”. Peço-Te a graça de não me acovardar diante da minha cruz e de não fugir daquelas perguntas que são essenciais para que eu viva conscientemente a minha vida e saiba dar sentido à minha própria dor.
Que a graça do Teu Espírito me liberte de todo tipo de vitimismo, de autopiedade, e me ajude a compreender que, se eu nem sempre posso escolher o tipo de cruz que atravessa o meu caminho, sempre posso escolher a maneira como lidar com essa cruz, e é essa liberdade de escolha que faz de mim sujeito da minha história, a exemplo de Teu Filho Jesus. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quarta-feira, 19 de junho de 2019

JESUS – CORPO DOADO, SANGUE DERRAMADO



Palavra de Deus: Gênesis, 14,18-20; 1Coríntios 11,23-26; Lucas 9,11b-17

Todo ser humano sente fome, porque todo ser humano depende de “algo” que está fora dele para viver. A fome nos diz que ninguém de nós é autossuficiente e que nós precisamos uns dos outros para viver. O alimento que sacia a nossa fome só chega à nossa mesa porque inúmeras pessoas que nunca iremos conhecer trabalharam para que a nossa fome fosse saciada. Mas a fome que o ser humano carrega dentro de si não é só de pão. A própria Escritura diz: “O homem não vive somente de pão” (Dt 8,3; Mt 4,4). Alguns têm fome de justiça, outros têm fome de paz; alguns têm fome de saúde, de alegria, de esperança; outros têm fome de um lugar no mercado de trabalho; alguns têm fome de perdão; outros têm fome de se sentirem amados. Além disso, da mesma forma, assim como existem crianças e adultos subnutridos, existem também crianças e adultos bem alimentados, mas “subnutridos” no que diz respeito à educação, à maneira de tratar os outros, à falta de sensibilidade para com a dor dos outros...
Jesus sempre foi alguém capaz de compaixão, isto é, ele deixava-se afetar pelo sofrimento do outro. No entanto, nós temos a tendência a agir como os discípulos, que disseram a Jesus: “Despede a multidão, para que possa ir aos povoados e campos vizinhos procurar hospedagem e comida, pois estamos num lugar deserto” (Lc 9,12), ao que Jesus respondeu: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9,13). Se Jesus nos manda dar de comer a quem tem fome, é para nos lembrar de que o problema da fome não é a falta de alimento, mas o desperdício de alimento. O Brasil é o quarto produtor mundial de alimentos, produzindo 25,7% a mais do que necessita para alimentar a sua população (FAO). Além disso, por ano são jogadas no lixo 41 mil toneladas de alimentos em nosso país (http://www.bancodealimentos.org.br/o-desperdicio-de-alimentos-no-brasil/). Isso nos faz lembrar as palavras do Papa Francisco, “A comida que se joga fora é como se fosse roubada aos pobres”.
O desperdício de comida no Brasil mostra que não é verdade que “só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Lc 9,13). Assim como é verdade que no Brasil não faltam recursos – o que falta é vontade política, assim também é verdade que não nos faltam recursos para agir com compaixão para com quem sofre – o que nos falta é vontade; o que nos falta é olhar a vida para além do nosso umbigo ou da tela do nosso celular; o que nos falta é tirar os fones de ouvido, ainda que seja por um momento, para ouvir o pedido de socorro de pessoas à nossa volta; o que nos falta é nos permitir sentir um saudável sentimento de culpa pela fome que também existe perto de nós.
“Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão. Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Lc 9,16-17). Os cinco pães e os dois peixes nos dizem que Deus nos dá diariamente os recursos de que precisamos para nos ajudar mutuamente, para resolvermos os nossos problemas, inclusive dentro de casa, no relacionamento com as pessoas. Na verdade, não falta pão, falta doação; falta a vontade de tomar a decisão de “partir” e de “distribuir” aos outros aquilo que temos a tendência de guardar somente para nós. 
            As mesmas mãos que se abrem e se estendem para receber o Corpo de Cristo precisam se abrir e se estender para o irmão que cruza o nosso caminho. Se na Eucaristia nós comungamos o “corpo entregue” de Jesus e o seu “sangue derramado”, isso significa que, assim como Jesus, devemos viver também para o bem dos outros, como se Jesus continuamente nos dissesse: “Eu me dou a você para que você possa continuar dando-se aos outros”. Em outras palavras, cada um de nós, que comunga do Corpo e do Sangue de Cristo, é chamado a ter a disposição de oferecer-se a Deus como Seu Filho se ofereceu, vivendo sua vida neste mundo como Jesus viveu a d’Ele: como “corpo doado” e “sangue derramado” em favor da salvação da humanidade.
            Enfim, lembremo-nos de que o pão nasce do “sacrifício” dos grãos de trigo que se entregam para serem triturados, assim como o vinho nasce do “sacrifício” das uvas que se entregam para serem esmagadas. Pão e vinho, Corpo e Sangue de Jesus, alimento de vida eterna, convite a não fugirmos daqueles sacrifícios que são necessários serem abraçados, enfrentados, em vista da nossa edificação e do bem da família, da Igreja e da sociedade humana.

Pe. Paulo Cezar Mazzi



quinta-feira, 13 de junho de 2019

TRÊS PESSOAS, NÃO UMA; PONTES, NÃO MUROS; COMUNHÃO, NÃO ISOLAMENTO


Missa da Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Provérbios 8,22-31; Romanos 5,1-5; João 16,12-15.


            O que nós, seres humanos, temos construído mais: muros ou pontes? Nós construímos muros quando nos sentimos ameaçados, quando queremos nos proteger, nos distanciar, nos isolar, não sermos incomodados, perturbados etc. Nós construímos pontes quando queremos nos aproximar, criar laços, conviver, estar com os outros, nos envolver com o que acontece à nossa volta. Se pararmos para observar o mundo em que vivemos, o mundo que estamos ajudando a construir, vamos perceber que nele há muito mais muros do que pontes: há muito mais medo do que confiança, muito mais separação e isolamento do que convivência e comunhão, muitos mais ódio do que tolerância, muito mais inimizade do que amizade, muito mais indiferença do que compaixão para com quem sofre...
            Onde estão esses muros? Eles estão, em primeiro lugar, dentro das casas, no seio das famílias: pessoas que habitam sob o mesmo teto, mas não dialogam, não partilham seus sentimentos, não se dão conta do que se passa com o outro, cada um com o olhar hipnotizado na tela de um celular, computador, smartfone etc. Além disso, esses muros estão em nosso ambiente de trabalho, onde tentamos sobreviver em meio a antipatias, inimizades, armadilhas, trapaças etc. Esses muros estão em nossa própria comunidade de fé, onde não nos importamos em saber quem é e como está a pessoa que se sentou ao nosso lado. Esses muros estão até mesmo nas redes sociais, lugar onde expressamos nosso ódio e nossa intolerância em relação àqueles que pensam diferente de nós.
            Embora muitas pessoas estejam convencidas de que, para sobreviver no mundo de hoje, muros são muito mais necessários do que pontes, profissionais da saúde (médicos, psiquiatras, psicólogos etc) e pessoas que lidam com o espiritual (padres, pastores etc) constatam que nunca como hoje as pessoas estiveram tão doentes: depressivas, ansiosas, com distúrbios mentais, sem esperança e sem sentido para a vida. Em outras palavras, os muros favorecem o surgimento de doenças em nós, ao passo que as pontes podem nos trazer cura.
            Os textos bíblicos que ouvimos hoje nos falam da “casa” de Deus, uma casa onde habitam três Pessoas; o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nesta “casa” não existem muros, nem fora, muito menos dentro dela; pelo contrário, nela só existem pontes. Em primeiro lugar, há uma ponte eterna que sempre ligou o Pai ao Filho e o Filho ao Pai: uma ponte chamada Espírito Santo. O Pai ama o Filho; o Filho ama o Pai, e o amor que os une, que os mantém em comunhão, é o próprio Espírito Santo, amor que, como afirma hoje o apóstolo Paulo, foi derramado em nossos corações! (cf. Rm 5,5).
            Deus nunca foi muro; Ele sempre foi ponte. Deus nunca foi só; Ele sempre foi Pai que nos criou, Filho que nos salvou e Espírito Santo que nos sustentou. Justamente por isso, ao criar o ser humano, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26), e não “Faço... à minha imagem...” (Ele usou o plural, não o singular). Além disso, Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Não é bom quando deixamos de construir pontes e passamos a construir muros. Não é bom quando nos isolamos, nos mantemos distantes das pessoas, nos fechamos em nosso quarto, em nossa casa, em nosso mundo virtual, como se não fizéssemos parte da humanidade e como se estivéssemos totalmente protegidos do que acontece lá fora.
            Justamente pelo fato de Deus ser ponte e não muro, Ele enviou seu Filho ao mundo, para procurar e salvar todo ser humano que estava perdido. O Filho, por sua vez, após ter concluído a obra da redenção do ser humano, voltou para o seio do Pai e de lá nos enviou o Espírito Santo, para ser o nosso Consolador, Aquele que nos sustenta com Sua força, até que possamos concluir o nosso caminho na terra, atravessar a ponte e chegar à “casa” celeste, onde habitam o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Portanto, segundo o apóstolo Paulo, essa é a nossa condição atual: apesar das tantas tribulações que temos neste mundo, “estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo” (Rm 5,1). Por isso, podemos entender essas tribulações como um processo de amadurecimento espiritual, “sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança; e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,3-5).
            Assim como a Sagrada Escritura nos revelou que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, ela também nos revelou que a história da salvação, na qual estamos incluídos, é feita de três etapas ou três tempos: no Antigo Testamento encontramos a revelação do Pai, o tempo em que o Pai fala com a humanidade a partir do povo de Israel; no Novo Testamento encontramos a revelação do Filho, o tempo em que o Filho forma a Igreja a partir dos apóstolos, para dar continuidade à Sua obra de redenção em favor da humanidade. Por fim, ainda no Novo Testamento, após a volta de Jesus ao Pai (Ascensão), temos a revelação do Espírito Santo e o início do tempo em que Ele atua na Igreja e no mundo, para completar a obra que o Pai e o Filho começaram em cada um de nós. É neste sentido que Jesus afirma que o Espírito Santo nos “conduzirá à plena verdade” (Jo 16,13). Nós já conhecemos a verdade do Evangelho, mas a “plena” verdade daquilo que somos chamados a ser só nos será revelada quando pudermos contemplar a face do Pai, do Filho e do Espírito Santo na eternidade (cf. 1Cor 13,12).
Ao final desta reflexão sobre a Santíssima Trindade, contemplemos esta representação simbólica dela e procuremos nos perceber no seio da mesma:

    
                       
A Trindade Misericordiosa envolve a criatura humana por todos os lados. O sentimento do Pai é de ternura e cuidado, seu rosto se aproxima e beija o rosto inerte da pessoa ferida. Ele revela seu amor misericordioso no calor do abraço, que acolhe e regenera o ser humano. O Filho revela o Deus Amor-serviço, que se põe aos pés da humanidade decaída para restaurá-la, e revela o caminho do serviço como caminhada para a vida. Em Jesus, Deus se abaixa para estar mais perto da miséria do ser humano. O Espírito Santo, figura que desce do alto e se aproxima do ferido, tanto pode ser a figura de uma pomba, de chamas ou de mãos que trazem vida. Beija a pessoa e lhe transmite o Sopro de vida. A Pomba de fogo voa sobre o ser humano caído e o aquece.

            Pe. Paulo Cezar Mazzi