quinta-feira, 20 de abril de 2017

RESPIRAR O SOPRO DO SENHOR RESSUSCITADO

Missa do 2º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,42-47; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31.

Na sua primeira aparição aos discípulos como Ressuscitado, Jesus quis mostrar-lhes as marcas da crucificação, presentes em seu Corpo glorificado. Essas chagas nos lembram que Jesus nos amou até o fim (cf. Jo 13,1). Além disso, elas nos ensinam que a ressurreição não consiste na transferência da alma para outro corpo, mas na glorificação daquele mesmo corpo que lutou em favor da vida, e nessa luta se feriu de morte. É por isso que nós, cristãos, cremos na “ressurreição da carne”. 
            As chagas do Senhor Ressuscitado nos remetem para as palavras do apóstolo Paulo: “Incessantemente e por toda a parte trazemos em nosso corpo as marcas da morte de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo” (2Cor 4,10). Quais chagas ou cicatrizes estão presentes em seu corpo, em sua alma, em seu espírito? Como você interpreta suas cicatrizes? Você se orgulha ou sente vergonha delas? Nossas marcas têm uma história; nossas cicatrizes têm um por quê. Embora vivamos na cultura do “esteticamente correto”, não é sensato tentar eliminar de nós aquilo que temos de mais autêntico, de mais humano, de mais nobre, que é a luta por um mundo melhor, pelo bem da nossa família, pela santificação da nossa Igreja, pela preservação do meio-ambiente, pela justiça em nosso ambiente de trabalho, pela defesa dos mais fracos.
            Por duas vezes, o Evangelho menciona que as portas do lugar onde os discípulos se encontravam estavam fechadas. O nosso Papa Francisco tem insistido que as portas da Igreja devem estar sempre abertas, seja para acolher aqueles que a procuram, seja para ir atrás daqueles que dela se afastaram ou que dela nunca se achegaram. Quando nos fechamos numa atitude defensiva em relação a um mundo que direta ou indiretamente ataca os valores do Evangelho, corremos o risco de falhar em nossa missão: “Sem experimentar o Senhor Ressuscitado entre nós, vivemos como uma igreja fechada, com medo do mundo... Com as ‘portas fechadas’ não se pode ouvir o que acontece lá fora. Não é possível captar a ação do Espírito no mundo... Uma Igreja sem capacidade de dialogar é uma tragédia, porque a missão de todo discípulo de Jesus é realizar o diálogo de Deus com o ser humano” (J.A. Pagola).
            O Senhor Ressuscitado nos comunica sua alegria, sua paz e seu Espírito. Assim como Ele, nós temos que enfrentar sérios obstáculos, seja na vivência da nossa própria fé, seja no anúncio do Evangelho em vista da salvação da humanidade. Por isso, precisamos acolher este sopro de Jesus Ressuscitado; precisamos viver deste sopro! Precisamos nos encher da sua alegria, da sua paz e da força do seu Espírito, mantendo no coração suas palavras: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33). Jesus não nos quer abatidos, desanimados ou intimidados em nossa fé por causa das feridas – as nossas próprias e/ou as da Igreja; o Ressuscitado nos ensina que a fé sempre será uma luta, um combate, e quem entra nesse combate sairá vitorioso e igualmente ferido.
            Eis, portanto, a correção de Jesus dirigida a Tomé e a cada um de nós hoje: “Não sejas incrédulo, mas crê!” (Jo 20,27). Sem a fé, não existe páscoa; sem a fé, ninguém passa da morte para a vida; ninguém ressuscita. Só a fé nos faz obter aquilo que cremos: a nossa salvação (cf. 1Pd 1,9). Tomé impôs condições para crer no Senhor Ressuscitado: “Se eu não vir... Se eu não puser o dedo (...), não acreditarei” (Jo 20,25). Quais são as condições que você costuma impor a Deus para crer? Se a ciência não comprovar, se a dor não passar, se o problema não desaparecer, se a cruz não for eliminada, se o sofrimento não for embora, se os absurdos não deixarem de existir... “não acreditarei”.
            Jesus disse a Tomé: “Felizes os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29). Felizes os que, mesmo não tendo todas as perguntas respondidas ou todos os problemas resolvidos, mesmo sendo expostos ao fogo das provações, continuam a caminhar, a crer e a confiar, suportando o processo necessário de purificação da própria fé (cf. 1Pd 1,7). Felizes os que, convivendo com pessoas que decidiram abrir mão da sua fé, continuam a declarar: “Eu sei em quem depositei a minha fé” (2Tm 1,12).
            Foi por causa da fé no Senhor Ressuscitado que os primeiros cristãos perseveraram na escuta da Palavra, na Eucaristia, na oração e na partilha fraterna, colocando em comum seus bens materiais, segundo as necessidades de cada um. Nessa mesma fé, tomavam a refeição diária com alegria e simplicidade de coração (cf. At 2,42-46). Quando cremos na ressurreição, cremos que a vida pode ser diferente, e por isso reagimos ao desânimo e à inconstância por meio da perseverança; reagimos ao egoísmo e ao individualismo através da partilha; reagimos à insatisfação crônica que não se sacia com coisa alguma através da alegria e da simplicidade de coração.
            Diferente de Tomé, nós não podemos ver nem tocar o Senhor Ressuscitado, mas podemos suplicar-Lhe hoje que nos conceda mais uma vez a sua alegria, a sua paz e o seu Espírito, cumulando-nos da força da sua ressurreição: Creio em ti, Ressuscitado, mais que São Tomé, mas aumenta na minh’alma o poder da fé! Guarda a minha esperança, cresce o meu amor. Creio em ti, Ressuscitado, meu Deus e Senhor!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 15 de abril de 2017

A IMPORTÂNCIA DO COMPORTAMENTO PASCAL

 Missa da Ressurreição do Senhor. Palavra de Deus: Atos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9.

            O Evangelho que anuncia a ressurreição de Jesus nos convida a entrar no seu túmulo, que agora se encontra vazio! O túmulo onde Jesus foi sepultado está vazio para sempre, porque Jesus vive para sempre, conforme suas próprias palavras enquanto Ressuscitado: “Eu sou... o Vivente; estive morto, mas agora estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho comigo as chaves da Morte e da região dos mortos” (Ap 1,18). Se Jesus ressuscitado tem as chaves da morte e da região dos mortos, isto significa que a morte não tem mais o poder de manter alguém trancafiado nela.
            Embora o túmulo vazio seja o primeiro sinal visível da ressurreição de Jesus, ele não é o sinal mais importante. O sinal mais importante são as aparições do Senhor Ressuscitado, aparições feitas “não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido, isto é, a nós, que comemos e bebemos com ele, após a ressurreição dos mortos” (At 10,40). Portanto, a nossa fé em Jesus Ressuscitado não se assenta simplesmente sobre o seu túmulo vazio, mas sobre a sua presença como Ressuscitado junto aos seus discípulos de ontem e de hoje. É essa presença que explica porque o túmulo está vazio!
            O túmulo onde Jesus foi sepultado está vazio porque Ele ressuscitou. E os nossos túmulos, também estão vazios? Nossa fé, nossa alegria e nossa esperança estão sepultadas, enterradas, ou ressuscitadas? São Paulo nos convida a viver como pessoas ressuscitadas. Viver como ressuscitado significa procurar “as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3,1). Na prática, isso significa que, diante de cada escolha, de cada decisão, eu devo me perguntar: a minha escolha, a minha decisão, vai me levar para o alto, para Deus, ou para baixo, me enterrando na morte? Viver como ressuscitado significa aceitar o fato de que nossa verdadeira vida “está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). Nós ainda não nos vemos plenamente ressuscitados, porque, embora desejemos ressuscitar, nem sempre queremos morrer para o nosso pecado, para aquilo que nos afasta de Deus. Isto significa que a Páscoa não é somente um dom do Pai para nós, mas também uma tarefa que temos que realizar todos os dias, até que Cristo, nossa vida, se manifeste e revele plenamente a glória da sua Ressurreição em cada um de nós (cf. Cl 3,4).
            Ao anunciar a ressurreição de Jesus, o apóstolo Pedro disse que Ele “andou por toda parte, fazendo o bem” (At 10,38). Portanto, a ressurreição de Jesus foi o “amém” do Pai à sua vida terrena. Aqui há um indicativo importante para a nossa vida, pois a nossa ressurreição futura tem muito a ver com a maneira como estamos vivendo nossa vida presente. Basta recordarmos o que o apóstolo João afirmou sobre o nosso necessário comportamento pascal: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14). Portanto, a experiência da Páscoa, o nosso passar da morte para a vida, é algo que pode ou não estar sendo vivido já agora, na maneira como tratamos as pessoas em nosso cotidiano.
            É muito corajosa esta afirmação bíblica: “Quem não ama permanece na morte”. Ela nos lembra duas coisas importantes. A primeira delas: o amor, a fé, a esperança são forças que nos ressuscitam, são atitudes cotidianas que nos fazem passar da morte para a vida. A segunda delas: quando decidimos não amar, não crer e não ter esperança decidimos nos manter dentro de algum tipo de túmulo; portanto, decidimos não ressuscitar. Esta decisão não nos permite experimentar a presença do Ressuscitado junto a nós. Além da grave consequência para nós mesmos, este tipo de atitude torna-se contratestemunho para o mundo: aqueles que nos veem têm muita dificuldade para crer que, de fato, o Senhor tenha ressuscitado; basta olhar para a maneira como lidamos com a vida e seus desafios.
            Ao encerrar esta reflexão, lembremos que a ressurreição foi obra do Pai na vida do Filho Jesus: “Deus o ressuscitou no terceiro dia” (At 10,40). E não somente isso: “Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos” (At 10,42). Assim, hoje, neste domingo pascal por excelência, pedimos que o Pai nos faça experimentar a presença de seu Filho ressuscitado junto a nós. Pedimos que este mesmo Pai nos confirme a todos debaixo da autoridade espiritual de seu Filho ressuscitado, a quem Ele concedeu o poder de salvar todo ser humano (cf. Jo 17,2). Enfim, que o Pai, na força do seu Espírito, faça resplandecer a luz da ressurreição de seu Filho sobre a face da terra, a fim de que todo ser humano dobre seus joelhos diante do Senhor Jesus, recebendo em seu nome o perdão dos pecados (cf. At 10,43) e reconhecendo que “não há mais condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo” (Rm 8,1).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

RECOMEÇAR, MOVIDOS PELA ESPERANÇA

Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,1.26-31a; Êxodo 14,15 – 15,1; Baruc 3,9-15.32 – 4,4; Romanos 6,3-11; Mateus 28,1-10.

            Esta é uma noite de vigília. Vigília tem a ver com espera; mais que isso, vigília tem a ver com esperança: nós esperamos pela luz do amanhecer; nós esperamos porque acreditamos que “nunca houve noite que pudesse impedir o nascer do sol e a esperança”. Para nós, cristãos, a noite escura é também um símbolo da nossa fé: nós não vemos a Deus, mas cremos na Sua existência e no Seu amor por nós. Mesmo nas nossas noites escuras, e sobretudo nelas, nossa fé precisa se mover, pois, como dia a Escritura, “nós caminhamos pela fé, não pela visão clara” (2Cor 5,7).
            Na noite em que foi liberto do Egito, Israel não conseguia enxergar claramente o que estava acontecendo. E ele só conseguiu atravessar o mar Vermelho porque era noite e, ao invés de ser amedrontado pelo mar, foi encorajado pela coluna de fogo, pela nuvem luminosa que o guiava, retirando-o do Egito e conduzindo-o para a Terra Prometida. Isso significa que só faz páscoa, só faz a passagem da morte para a vida quem aceita caminhar na noite escura da fé. A páscoa exige que você caminhe também quando é noite; que você confie e se deixe guiar por Aquele que vê o caminho que você não consegue ver, pois Ele vê do alto!
Na noite da páscoa, Israel foi liberto pelo Senhor das correntes da escravidão do Egito. Mas a passagem mais difícil nem sempre é livrar-se das correntes externas e sim das internas. Mais difícil do que quebrar correntes é ter a coragem de cortar aquele pequeno fio de ouro que nos mantém amarrados aos nossos erros, às falsas compensações que o pecado nos oferece. Mesmo que Deus nos faça passar de uma situação de morte para uma situação de vida, quantas vezes nós retrocedemos, jogando fora o dom recebido e voltando a nos tornar escravos de coisas, pessoas ou situações que nos afastam da nossa “terra prometida”?
Nesta noite de vigília pascal, São Paulo apóstolo nos lembra que, embora nenhum de nós tenha passado pelo mar Vermelho, todos nós passamos por uma outra água, muito mais salvífica: a água do batismo, a qual nos mergulhou na morte de Cristo para com Ele ressurgir numa vida nova. Cada vez que a Igreja nos oferece a oportunidade de renovar as promessas do nosso batismo, está nos convidando a atualizar a nossa identificação com Jesus Cristo por uma morte semelhante à sua, para que sejamos identificados com Ele por uma ressurreição semelhante à sua (cf. Rm 6,5). Assim, quando procuramos viver de maneira coerente com o nosso batismo, fazemos esse exercício cotidiano de nos considerar mortos para o pecado, mas vivos para Deus, semelhantes a seu Filho Jesus. 
Voltemo-nos para o Evangelho. Ele começa com essas palavras: “Depois do sábado” (Mt 28,1), isto é, depois do grande silêncio de Deus, que nada respondeu a Jesus quando perguntou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). “Depois do sábado” significa o recomeço da semana. Mas, como recomeçar a vida depois que a morte sepultou consigo as nossas esperanças?
            As duas mulheres que foram ver o sepulcro foram surpreendidas por um grande tremor de terra. Este tremor foi a intervenção de Deus na morte de seu Filho: o anjo do Senhor desceu e retirou a pedra que lacrava o sepulcro. Aquela pedra foi retirada não para que Jesus saísse, e sim para que as mulheres pudessem entrar e constatar que Ele não estava ali, pois havia ressuscitado: “Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava” (Mt 28,5-6).
Neste relato da ressurreição, vemos duas atitudes opostas: medo e alegria. O anjo e o próprio Jesus ressuscitado dizem às mulheres: “Não tenhais medo!” (Mt 28,5.10). Quais são os nossos medos? Medo de fracassar, medo da solidão, medo de ficar doente, medo de perder alguém, medo da violência, medo de morrer? Nós podemos ter motivos bastante concretos para ter medo, mas, como nos lembra o Papa Francisco, “quando tudo parece perdido, quando não resta ninguém... é aí, então, que Deus intervém com o poder da ressurreição. A ressurreição de Jesus é a intervenção de Deus Pai quando a esperança humana estava perdida. No momento em que tudo parece perdido, no momento de dor, no qual muitas pessoas sentem que precisam descer da cruz, é o momento mais próximo da Ressurreição... No momento mais sombrio, Deus intervém e ressuscita”.
O Senhor Ressuscitado nos convida à alegria! ‘Alegrem-se, porque eu ressuscitei para estar com vocês todos os dias!’ (cf. Mt 28,20). ‘Alegrem-se, porque a morte foi vencida!’ ‘Alegrem-se porque, aconteça o que acontecer, vocês nunca deverão se considerar vencidos ou mortos!’ ‘Alegrem-se porque toda lágrima será enxugada, todo luto será removido e toda morte será transformada!’. A alegria que Jesus nos traz com a sua ressurreição não tem razões humanas, isto é, ela não depende de condições humanas para surgir em nós. Essa alegria é um dom do Cristo ressuscitado e também fruto da nossa fé n’Aquele cujo amor se levanta acima de toda esperança humana que se perdeu. A Ele cada um de nós pode suplicar nesta vigília pascal: “Ressuscita-me, Senhor, pelo poder do teu amor!”
   

                                                                       Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 14 de abril de 2017

HÁ ALGUM PROPÓSITO NO SEU SOFRER?

Celebração da Paixão e Morte do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

Pense nessas duas perguntas: 
1) Como lidar com o sofrimento? 
2) Como evitar o sofrimento?
Qual delas tem mais importância para o mundo atual? E para você?
Embora o profeta Isaías não tenha falado diretamente de Jesus, nós podemos facilmente reconhecê-lo na sua profecia como um “homem familiarizado com o sofrimento” (Is 53,3). Ora, sabemos que Jesus nunca procurou o sofrimento para si, mas também não fugiu dele quando se deparou com pessoas que estavam sofrendo. Pelo contrário; Ele foi ao encontro das pessoas que sofriam.
Existem sofrimentos em nossa vida que são consequência de atitudes erradas que tomamos, assim como existem sofrimentos que são consequência não daquilo que nos acontece, mas da maneira como lidamos com aquilo que nos acontece. Além disso, existem sofrimentos que são consequência da nossa fidelidade a Deus, quando procuramos levar uma vida coerente, pautada na retidão e na justiça. Por isso, quando estamos vivenciando uma experiência de dor, precisamos nos perguntar o quanto aquela dor é responsabilidade nossa, o quanto é consequência de injustiças que existem em nossa sociedade e o quanto ela é consequência da nossa fidelidade a Deus.
É verdade que nós procuramos o quanto possível não sofrer. Para isso, nos apoiamos na medicina, na ciência, em filosofias de vida e em igrejas ou religiões que prometem um alívio, uma libertação do sofrimento, como se fosse realmente possível passar pela vida sem sofrer. Mas hoje a Palavra do Senhor nos convida a olhar para o sofrimento, procurando compreender o que ele pode nos dizer, ensinar, corrigir ou aperfeiçoar. Assim, o profeta Isaías nos apresenta a figura do Servo sofredor. “Diante dele, os reis se manterão em silêncio” (Is 52,15). O sofrimento costuma tirar as nossas palavras, pois não conseguimos “explicá-lo”. Além disso, quando vemos a maneira digna como alguém lida com a dor às vezes nos calamos, envergonhados pela maneira como lidamos com a nossa dor.  
Este homem, este Servo, “cresceu diante do Senhor, como raiz em terra seca” (Is 53,2). Eis algo surpreendente: é possível crescer também na dor! É possível crescer na aridez, na experiência do sofrimento! “Ele não tinha beleza, não tinha aparência que nos agradasse” (Is 53,2). Pois é. Deus muitas vezes nos fala por meio de acontecimentos desagradáveis! Assim, quando nos deixamos levar por uma sociedade que supervaloriza a estética, a aparência, e despreza aquilo que não tem beleza, acabamos por não conseguir enxergar Deus no rosto de alguém coberto de dores e cheio de sofrimentos.
Numa época onde as pessoas gostam de culpabilizar os outros pela sua infelicidade, uma época também de grande indiferença para com o sofrimento alheio, somos desafiados a nos dar conta da nossa parcela de responsabilidade no sofrimento que, de várias formas, atinge a humanidade: “ele foi ferido por nossos pecados, esmagado por nossos crimes” (Is 53,5). Ao invés de cobrarmos de Deus uma intervenção miraculosa, que erradique de uma vez por todas o sofrimento da face da terra, precisamos nos perguntar se estamos fazendo a nossa parte para não criar ou não alimentar situações injustas que continuem a causar sofrimento às pessoas.
Melhor do que ninguém, Jesus, o Servo Sofredor, pode nos ajudar a lidar com o sofrimento. Ele é agora o nosso intercessor diante do Pai, o intercessor “capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós” (Hb 4,15). Portanto, podemos estar certos de que nenhuma dor, nenhum sofrimento, nenhum absurdo pelo qual possamos passar é estranho ou desconhecido de Jesus. Com ele podemos aprender a não negar o nosso sofrimento, mas a apresentá-lo ao Pai na oração, de modo que, no fim, prevaleça não a nossa repulsa instintiva diante da dor, mas a submissão dessa repulsa diante da vontade de Deus, caso o sofrimento que nos cabe enfrentar esteja ali para a nossa correção, a nossa santificação ou para contribuir de alguma forma com a redenção da humanidade.
“Permaneçamos firmes na fé que professamos” (Hb 4,14). Ao invés de abandonar a fé, por causa de determinado sofrimento, precisamos aprender a nos abandonar nas mãos de Deus: “Em vossas mãos entrego o meu espírito, porque vós me salvareis, ó Deus fiel. Como um vaso espedaçado, a vós eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus. Eu entrego em vossas mãos o meu destino” (Sl 31,6.13.15.16). Quando conseguimos fazer esta entrega, acabamos testemunhando esta fé: “Fortalecei os corações, tende coragem, todos vós que ao Senhor vos confiais!” (Sl 31,25).
Uma vez que no domingo de ramos pudemos meditar diversos aspectos da Paixão do Senhor, hoje podemos considerá-la apenas sob um outro aspecto: o jardim. De fato, a narrativa da Paixão de Jesus começa e termina num jardim (cf. Jo 18,1; 19,41). No livro “A Cabana” há uma cena muito significativa, quando o Espírito Santo convida um homem, atingido por um grande sofrimento, a ir com Ele a um jardim. Ao chegarem, o homem vê que o jardim é uma confusão de cores; tudo misturado, confuso, e espantosamente bonito. O homem comenta consigo: “Que confusão!”. E o Espírito lhe responde: “É exatamente isso: uma confusão! Eu gostaria que você me ajudasse a limpar todo esse terreno. Há uma coisa muito especial que eu quero plantar aqui”. E imediatamente o Espírito Santo pega uma foice e começa a destruir aquele espetáculo de cores. Ele então explica ao homem: “Devemos arrancar as raízes de todas as plantas maravilhosas que estavam aqui. Caso contrário, elas prejudicarão as sementes que iremos plantar”. No final da tarefa, o Espírito Santo explica ao homem: “Este jardim é a sua alma. Esta confusão é você! Juntos, você e eu estamos trabalhando. Para você, parece apenas uma confusão, mas eu vejo um propósito no que estamos fazendo...” (pp. 117-126 do livro A Cabana).
Devolver ao nosso Planeta a sua identidade original de jardim é uma tarefa que exige de todos nós um pouco ou muito de sofrimento. Da mesma forma, permitir que Deus, o nosso agricultor, passe o arado da sua Palavra sobre a terra da nossa alma e plante nela as sementes de uma vida nova, certamente exige de nós o suportar sofrimento. Que o Senhor nos ensine a lidar melhor com o sofrimento. Que o nosso sofrer nunca seja sem propósito. Que, enfim, confiemos no propósito de Deus de fazer nascer uma nova vida no jardim da nossa alma...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 12 de abril de 2017

QUEM ESTÁ HOJE NECESSITADO DO MEU SERVIÇO?

Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

            A Palavra que acabamos de ouvir nos fala de duas páscoas: a páscoa dos judeus – onde se deu a passagem da escravidão no Egito para a liberdade na Terra Prometida – e a páscoa de Jesus – onde se deu a passagem da morte para a vida. Meditando sobre elas podemos nos dispor também a fazer a passagem que nos é proposta, ou seja, a nossa páscoa.
            Depois de um longo tempo de escravidão no Egito, o povo judeu foi liberto por Moisés, mas essa libertação não se deu sem dificuldades. Primeiro, foi preciso vencer as resistências do faraó (daí as dez pragas); depois, foi preciso vencer as resistências do próprio povo judeu (o medo do Faraó e a falta de fé em Deus). Desse modo, a páscoa dos judeus nos ensina que a passagem que Deus nos convida a fazer hoje, a passagem do medo para a fé, da escravidão para a liberdade, de uma situação de morte para uma situação de vida, vai exigir de nós empenho, esforço, perseverança. Sem dúvida que é Deus quem nos faz passar; é Ele quem nos convida a fazer a páscoa; mas essa passagem não é feita sem enfrentarmos as resistências que se encontram dentro e fora de nós.
            Na páscoa do Antigo Testamento um cordeiro deveria ser sacrificado ao cair da tarde; seu sangue marcaria as portas das casas e sua carne seria comida com pães sem fermento – por causa da pressa em fugir do Egito, e com ervas amargas – para lembrar a escravidão vivida naquele longo período. Hoje podemos nos perguntar: Existe um sinal que marca a nossa casa como uma casa cristã, como uma família que pertence a Deus? Além disso, o que temos sacrificado pelo bem da nossa família? Obviamente não se trata de filhos sacrificados em nome da felicidade dos pais, nem de pais sacrificados em nome da felicidade dos filhos. Trata-se da necessidade de que cada pessoa assuma a sua cota de sacrifício pelo bem da sua família, em particular, e da família humana.
            Os pães sem fermento, que na antiga páscoa simbolizavam a pressa em sair do Egito, na nova páscoa assume um outro aspecto: nós, cristãos, devemos ser pães sem fermento, isto é, pessoas sem maldade, sem injustiça, pessoas simples e humildes, porque Jesus foi sempre pão sem fermento, uma pessoa não inchada pelo orgulho, pela arrogância ou pela autossuficiência. Neste sentido, a Eucaristia, pão sem fermento, é um constante apelo para que nos desintoxiquemos do fermento da vaidade, do orgulho, da soberba, do fermento da mágoa, do ressentimento, da vingança, do fermento do individualismo e da indiferença para com o nosso semelhante.
            Esta noite nos coloca diante da última Ceia de Jesus. Ele quis celebrar esta Ceia porque sabia que havia chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai (cf. Jo 13,1), e quis deixar para os discípulos a imagem concreta do seu amor, amor que amou até o fim, amor que passou pelo mundo fazendo o bem, amor que quis estar entre os seus como amor que serve: “Eu vos dei o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,15). Isso significa que, cada vez que comemos o Corpo e bebemos o Sangue do Senhor, precisamos nos perguntar: “A quem eu preciso hoje lavar os pés? Quem está hoje necessitado do meu serviço? A quem eu sou hoje chamado a amar até o fim?”.
            Por meio da Eucaristia, a páscoa de Jesus se atualiza para nós, como afirmou o apóstolo Paulo: “Todas as vezes que comerdes desse pão e beberdes desse cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26). Todas as vezes que celebramos a Eucaristia, estamos proclamando que Jesus nos amou e se entregou por nós e estamos nos preparando para a nossa páscoa definitiva, para o momento em que ele virá nos buscar e nos fará passar deste mundo para o Pai. Enquanto essa páscoa definitiva não acontece, Jesus nos convida a viver como Ele, amando até o fim, ou seja, assumindo a atitude concreta de viver para o bem daqueles que estão à nossa volta .
Numa época onde muitas pessoas têm desistido de fazer o bem, seja por causa do individualismo, seja porque se cansaram, se desencantaram ou desacreditaram de que vale a pena trabalhar por uma sociedade melhor, consideremos a verdade dessas palavras: “Nada na natureza vive para si mesmo. Os rios não bebem sua própria água; as árvores não comem seus próprios frutos; o sol não brilha para si mesmo e as flores não espalham sua fragrância para si. Jesus não se sacrificou por si mesmo, mas para nós. Viver para os outros é uma regra da natureza. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros. Não importa quão difícil seja a situação em que você se encontra. Continue fazendo o bem aos outros” (autoria atribuída ao Papa Francisco).
É assim que Jesus nos quer: como “hóstias vivas”, como “sacramentos do Seu amor-serviço” pelo bem da sociedade humana e pela salvação das pessoas. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 7 de abril de 2017

TODA SITUAÇÃO PODE TORNAR-SE LUGAR E CAUSA DE SALVAÇÃO

Missa do domingo de ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 26,14 – 27,66.

Acompanhando a narrativa da Paixão de Jesus segundo São Mateus, nos deparamos com os seguintes sentimentos, atitudes e acontecimentos: traição, decepção, dispersão, negação, tristeza profunda, vontade do Pai, violência, fuga, choro amargo, suicídio, escolhas, cruz, abandono, ressurreição e fé.
Traição: “Um de vós vai me trair” (Mt 26,21). Judas traiu Jesus por dinheiro (30 moedas de prata). Ele se corrompeu. Muitas das pessoas em que depositamos nossa esperança de mudança no que diz respeito à Justiça e à Política em nosso País nos traíram, corrompendo-se por dinheiro. Além disso, muitos de nós já experimentamos a dor da traição no campo afetivo, assim como tantos de nós já traíram a confiança que alguém depositou em nós. A traição que Jesus sofreu por parte de Judas questiona a nossa fidelidade e as nossas atitudes corruptas na forma de ganhar dinheiro.
Decepção: “Vós ficareis decepcionados por minha causa” (Mt 26,31). Sempre que Deus não tira a cruz do nosso caminho, sempre que Ele não remove a nossa fraqueza e não nos impede de sofrer, nós ficamos decepcionados com Ele. A decepção dos discípulos em relação à fragilidade de Jesus na cruz precisa nos ajudar a rever as nossas expectativas exageradas e irrealistas quanto a nós mesmos, às pessoas e ao próprio Deus.
Dispersão: “Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão” (Mt 26,31). Uma vez que muitas famílias estão feridas pela desestruturação emocional e/ou financeira, o Estado está ferido pela corrupção e pela impunidade, as igrejas estão feridas pela fragilidade e/ou pela incoerência dos seus pastores, a Escola está ferida pela ditadura e/ou pela agressividade dos alunos, o meio ambiente está ferido pela ganância desmedida do agronegócio, a população brasileira se dispersa, se desorienta e se fragiliza cada vez mais. Essa dispersão só pode ser sanada se nos unirmos em vista do bem comum, da união dos nossos esforços em favor da justiça, da paz e da vida em nossa sociedade.   
Negação: “Tu me negarás três vezes”... “Ainda que eu tenha que morrer contigo, mesmo assim não te negarei”. E todos os discípulos disseram a mesma coisa (Mt 26,34-35). Como disse Oswaldo Montenegro, “Quantas mentiras você condenava? Quantas você teve que cometer?” (música A lista). Quantas atitudes nós condenávamos nos outros ontem e quantas estamos cometendo hoje, porque queremos sobreviver, porque não queremos estar por baixo, porque queremos vencer no jogo cotidiano do poder? Jesus conhecia os limites de Pedro e dos demais discípulos. Nós temos consciência dos nossos limites? O nosso desejo em sermos coerentes com o Evangelho é maior do que o nosso desejo de sobreviver numa sociedade pautada por contra valores?
Tristeza profunda: “Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo!” (Mt 26,38). A nossa cultura é marcada pela exigência de felicidade, ainda que seja uma felicidade mentirosa, aparente. Você se permite sentir tristeza? Você acolhe sua tristeza, sobretudo quando ela é fruto de escolhas que você fez em vista da sua retidão, da sua seriedade, da sua obediência à vontade de Deus? Você procura estar junto das pessoas que estão tristes, rezando por elas e procurando encorajá-las nas suas decisões difíceis?
Vontade do Pai: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, seja feita a tua vontade!” (Mt 26,42). Se muitas vezes nos causa sofrimento viver segundo a vontade de Deus, muito maiores são os sofrimentos que causamos a nós mesmos, aos outros e ao mundo quando decidimos fazer o contrário do que Deus orienta à nossa consciência. A maturidade de Jesus em ajustar-se à vontade do Pai questiona a imaturidade da nossa fé, quase sempre rasteira, presa aos caprichos do nosso ego, um ego mimado, que exige que todo mundo à sua volta esteja a serviço dos seus desejos.
Violência: “Guarda a espada..., pois todos os que usam a espada pela espada morrerão” (Mt 26,52). Por causa da impunidade em nosso País, cresce sempre mais em nós a intolerância, a raiva e o desejo de medidas extremas para se combater a injustiça e a violência, como a execução (extra-oficial) e a pena de morte (oficial). Eis um ensinamento de Jesus extremamente difícil de ser assimilado por nós: não devemos recorrer à violência, ainda que seja para defender uma causa justa. Os meios nunca justificarão os fins. Deus tem uma outra forma de fazer prevalecer a sua Verdade em nós: “Não pela força, não pelo poder, mas sim por meu espírito – disse o Senhor dos Exércitos” (Zc 4,6).
Fuga: “Então todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram” (Mt 26,56). Numa época de profundo individualismo como a nossa, a atitude mais “natural” diante das ameaças e dos perigos tem sido esta: “Salve-se quem puder!” Jesus nos convida a não fugir das nossas responsabilidades, a não fugir do confronto conosco mesmos, a não fugir da luta por uma sociedade mais humana e justa só por causa das ameaças de perseguição. O enfrentamento e não a fuga é o melhor caminho para se chegar à solução dos nossos problemas pessoais e sociais.
Choro amargo: “Pedro se lembrou do que Jesus tinha dito: ‘Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes’. E saindo dali, chorou amargamente” (Mt 26,75). O choro sempre é muito bem vindo, sobretudo quando expressa arrependimento. Não devemos ter medo de admitir nossos erros e chorar nossos pecados. Este tipo de choro nos liberta. Todos nós somos falhos. Nosso instinto de sobrevivência muitas vezes se sobrepõe à nossa fé e ao nosso desejo de fidelidade aos valores do Evangelho. O importante não é não tropeçar e cair, mas nos reerguer das nossas quedas e continuar o nosso seguimento a Jesus Cristo.
Suicídio: “Pequei, entregando à morte um homem inocente”. Eles responderam: “O que temos nós com isso? O problema é teu”. Judas jogou as moedas no santuário, saiu e foi se enforcar (Mt 27,4-5). Há uma diferença muito grande entre sentir-se culpado e sentir-se condenado. Judas, diferente de Pedro, não enxergou saída para a sua culpa, e jogou-se nos braços da autocondenação. Sem dúvida que o suicídio é sempre uma decisão individual, mas muitas vezes ele tem uma “ajuda” externa: o descaso dos outros diante do sofrimento psíquico do suicida, ao lhe dizerem “O problema é teu”. Não! O problema é de todos nós! Todos nós acabamos colaborando para a indiferença e o isolamento, dizendo àquele que está doente, desempregado, deprimido, desesperado etc.: “O problema é teu!” Nossa solidariedade e nossa atenção àqueles que estão à nossa volta podem, em muitos casos, impedir o suicídio de pessoas.
Escolhas: “Qual dos dois quereis que eu solte?” Eles gritaram: “Barrabás”. “Que farei com Jesus, que chamam de Cristo?” Todos gritaram: “Seja crucificado!” (Mt 27,21-22). Somos livres para escolher, mas quantas escolhas erradas já fizemos ao longo da vida? A escolha de Barrabás é a escolha do anti-heroi, amplamente promovida pela mídia atual, para a qual o bem é mal e o mal é bem. Além disso, é bom tomar consciência de que nem sempre nossas escolhas são entre algo bom e algo ruim, mas entre algo aparentemente bom e algo verdadeiramente bom. Estejamos mais atentos às nossas escolhas e não as façamos movidos unicamente pelos impulsos do momento, pela miopia das nossas emoções.
Cruz: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz!”... “A outros salvou... a si mesmo não pode salvar! Desça agora da cruz! e acreditaremos nele” (Mt 27,40.42). Eis uma exigência que muito frequentemente fazemos a Deus: ‘Tire a cruz da minha vida e eu acreditarei em Ti!’. É a nossa visão estreita da vida: ou Deus ou o sofrimento; se há um, não pode haver o outro. Precisamos nos lembrar de que a nossa experiência de cruz é o lugar onde Deus escolheu manifestar a força da Sua salvação, como afirmou Pe. Amedeo Cencini: “Depois que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar e causa de salvação. Ou seja, se um crime horrendo foi o contexto histórico escolhido por Deus ou por meio do qual o Pai nos salvou, isso quer dizer que qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação”. 
Abandono: “Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’” (Mt 27,46). Não há um ser humano que nunca se sinta abandonado por Deus em algum momento da vida, nem mesmo entre aqueles que creem. Os grandes santos passaram por momentos terríveis de aridez espiritual, nos quais constataram que o lugar de Deus neles era um imenso vazio. Não confundamos nossa sensação de vazio com abandono da parte Deus. Não sentir Deus conosco, sobretudo na hora mais extrema da dor, não significa que Ele não esteja ali, nos amparando e nos sustentando em Seus braços. 
Ressurreição: “(...) a terra tremeu e as pedras se partiram. Os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram!” (Mt 27,51-52). Eis a força redentora da morte de Jesus! Assim que o grão de trigo cai na terra e morre, começa a produzir fruto! A ressurreição da humanidade começou no exato momento em que Cristo morreu na cruz. Mesmo tendo que enfrentar situações de morte, podemos seguir pela vida com a plena confiança de que “se morremos com ele (Cristo), com ele viveremos” (2Tm 2,11). Além disso, podemos ter a certeza de que Jesus é o Senhor tanto daquilo que já morreu quanto daquilo que ainda vive em nós (cf. Rm 14,9)!
Fé: “Ele era mesmo Filho de Deus!” (Mt 27,54). Eis o motivo pelo qual estamos hoje iniciando a Semana Santa! Nós cremos no Filho de Deus, que se fez obediente até a morte de cruz para nos tirar das consequências destrutivas da nossa desobediência (cf. Fl 2,8; Rm 5,19). Nós cremos no Filho de Deus, que aceitou ser condenado na cruz para nos livrar de todo tipo de condenação (cf. Rm 8,1). Nós cremos no Filho de Deus, crucificado e ressuscitado, Ele que agora possui as chaves da morte e da região dos mortos (cf. Ap 1,18), para a todos conceder o perdão dos pecados e a participação na Sua ressurreição.  

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 31 de março de 2017

FÉ PARA ALÉM DO QUARTO DIA

Missa do 5º. dom. da quaresma. Palavra de Deus: Ezequiel 37,12-14; Romanos 8,8-11; João 11,1-45.

            Ao longo da vida, a morte costuma cruzar várias vezes o nosso caminho: morreu nosso animal de estimação, morreu uma pessoa que amávamos muito, morreu um conhecido; ouvimos falar de pessoas que morreram num acidente ou numa guerra, e também ouvimos falar de pessoas que se suicidaram. Além disso, as doenças, a fome, as drogas e a violência continuam fazendo morrer inúmeras pessoas, muitas delas precocemente. E sempre que a morte cruza o nosso caminho, nós acabamos por questionar Deus: “Aquele que abriu os olhos ao cego não poderia ter impedido que essa morte acontecesse?” (citação livre de Jo 11,37).
            Sim. Deus não somente poderia como realmente pode impedir todo e qualquer tipo de morte. Mas Ele, muitas vezes, não intervém, principalmente quando a morte ocorre como um processo natural de uma vida que biologicamente caminha para o seu fim. Na verdade, muito mais do que impedir a morte de acontecer, Deus escolheu manifestar a força do seu amor por nós abrindo as nossas sepulturas e nos fazendo viver, conforme a sua promessa: “Quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor” (Ez 37,13).
            Mesmo amando Lázaro e sabendo que ele estava gravemente enfermo, “Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava” (Jo 11,6). Nós temos pressa e queremos que Deus aja imediatamente, para impedir que a morte alcance aqueles que amamos. Mas pode acontecer que Deus demore “ainda dois dias” e escolha chegar tarde, quando, pelo menos aos nossos olhos, não haja mais nada que possa ser feito. Esta é uma verdade difícil de aceitar: Deus pode permitir a morte, seja para nos ensinar algo a respeito da verdadeira Vida, seja para manifestar a grandeza do seu amor, que é mais forte que a morte, amor que nos faz passar da morte para a vida.
            Marta e Maria poderiam ter chegado à seguinte conclusão: De que nos valeu o amor de Jesus, a sua amizade para com a nossa família? Da mesma forma, muitos hoje também poderiam questionar: De que nos valeram as nossas orações, as nossas esperanças em Deus? A verdade é que todos nós, que cremos, precisamos nos livrar de certa mentalidade mágica, ingênua, a respeito de Deus, mentalidade esta que nos faz criar expectativas exageradas e irrealistas em relação aos acontecimentos e à nossa própria finitude humana. Muitas vezes, diante de uma doença, precisamos ter a humildade de reconhecer que não se trata de esperar de Deus a cura, mas de colocar a nossa casa em ordem, porque está chegando a hora de partir, de nos encontrarmos definitivamente com Deus e entrarmos na verdadeira Vida.
            Jesus foi muito realista com seus discípulos: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais” (Jo 11,14-15). Para Jesus, a verdadeira fé nunca deve funcionar como garantia absoluta contra a dor, o sofrimento e a morte, mas como força de superação de tudo isso. A verdadeira fé é aquela que nos mantém em pé mesmo depois do terceiro dia, mesmo que seja o quarto dia e que aquilo que morreu já cheire mal, porque começou a apodrecer e não tem mais condições nenhuma de ser recuperado, de voltar a viver (cf. Jo 11,39-40).
Portanto, o Evangelho hoje nos convida a dirigir nossos olhos não para Lázaro, mas para Jesus; não para aquilo que morreu, mas para Aquele que afirmou ser a nossa Ressurreição e a nossa Vida (cf. Jo 11,25). Os mesmos olhos de Jesus, que choraram a morte de Lázaro, foram os olhos que se dirigiram ao céu para suplicar ao Pai pela sua ressurreição (cf. Jo 11,35.41). É neste sentido que o apóstolo Paulo nos lembra: “Embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça. E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8,10-11).
Ao iniciarmos esta última semana da quaresma, Jesus exclama com voz forte, na direção do túmulo de cada um de nós: “Vem para fora!” (Jo 11,43). Vem para fora do túmulo do seu medo, da sua raiva, do seu pessimismo, do seu desânimo, da sua acomodação! Vem para fora da sua tristeza, da sua depressão e do seu luto, porque a continuidade da sua vida não depende daquilo que morreu em você, mas da forma como você está lidando com essa morte! Vem para fora, porque há pedras que você pode me ajudar a remover e ataduras que você pode me ajudar a soltar, para que outros Lázaros voltem a viver. Vem para fora e ajude a proclamar ao mundo a minha palavra, que tem poder de fazer passar da morte para a vida todo aquele que a escuta e por meio dela crê em mim (cf. Jo 5,24.28-29).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

        Ressuscita-me – Aline Barros