sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O VINHO NOVO SERÁ SURPREENDENTEMENTE MELHOR DO QUE O ANTIGO!

Missa do 2º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 62,1-5; 1Coríntios 12,4-11; João 2,1-11.

“Houve um casamento em Caná da Galileia” (Jo 2,1), e neste casamento Jesus manifestou aos discípulos “a sua glória, e seus discípulos creram nele” (Jo 2,11). Para entendermos o significado deste primeiro sinal que Jesus realiza para testemunhar que Ele é o Messias, o Salvador prometido ao mundo, precisamos retomar a leitura do profeta Isaías.
Num momento de grande desolação, quando a cidade de Jerusalém se sentia abandonada, não amada por Deus, ela ouviu d’Ele: “(...) por amor de Jerusalém não descansarei, enquanto não surgir nela, como um luzeiro, a justiça e não se acender nela, como uma tocha, a salvação... Não mais te chamarão ‘Abandonada’, e tua terra não mais será chamada ‘Deserta’; teu nome será ‘Minha Predileta’ e tua terra será a ‘Bem-Casada’, pois o Senhor agradou-se de ti e tua terra será desposada... Como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus” (Is 62,1.4.5).
Todo ser humano carrega em si o desejo de ser amado. No entanto, é cada vez maior o número de pessoas em nosso mundo que se sentem não-amadas nem pelos homens, nem por Deus. O sentimento de solidão é cada vez mais frequente, além do fato de que nem toda pessoa casada se sente feliz, da mesma forma como nem toda pessoa não casada se sente infeliz. No caminho da busca por amor há muitos desencontros, feridas, decepção e até mesmo descrédito em relação ao próprio amor. Contudo, desde os primeiros profetas, a imagem do casamento sempre foi utilizada como símbolo da união do ser humano com Deus, símbolo não só do amor de Deus por todo ser humano, mas também da Sua dedicação incansável em fazer com que a vida de cada ser humano seja abraçada pela justiça e pela salvação.
Não por acaso, Jesus realiza o seu primeiro sinal como Salvador numa festa de casamento. “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3), disse Maria a Jesus. O vinho não é apenas vinho: o vinho é amor e alegria, fé e esperança, força e sentido de vida. O vinho é a alegria da salvação de Deus, prometida a toda a humanidade; o vinho é a resposta de Deus à alma do ser humano, que tem sede de sentido de alegria verdadeira. A falta de vinho nas bodas de Caná remete para a falta de Deus no coração de inúmeras pessoas hoje, a falta de alegria e paz em muitas famílias, a falta de saúde e proteção para inúmeras crianças e adolescentes, a falta de respeito para com a vida humana, a falta de fé e de esperança em nosso próprio coração...
Diante da intercessão de Maria, Jesus responde: “Mulher, (...) minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Quase todas as vezes que a palavra “hora” aparece no Evangelho de João, se refere à hora da cruz, à hora em que o mundo reconhecerá Jesus como Salvador, como Aquele que nos amou até o fim, como o Esposo da Igreja e Esposo da alma de todo ser humano. A hora da cruz é a hora em que Jesus “entregará o Espírito” e o derramará como vinho novo nas talhas do coração humano. Em Caná ainda não era a “hora” de Jesus derramar o Espírito, mas Maria pediu uma antecipação dessa hora, e Jesus a atendeu.
Essas foram as palavras Maria aos servos da festa daquele casamento: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5). A atitude de Maria nos questiona: nós viemos ao mundo para servir ou para sermos servidos? Nós nos deixamos afetar pela realidade que nos cerca, pelo que acontece à nossa volta? Não precisamos fazer muito esforço para lamentar a falta de vinho novo em nossa vida, mas quantos de nós nos dispomos a ter uma atitude proativa e encher nossas talhas de água? Sem dúvida que o vinho novo jamais poderá ser produzido por nós, mas seu surgimento certamente depende da nossa colaboração: como os servos daquele casamento, nós devemos obedecer à orientação de Jesus e encher nossas talhas de água (cf. Jo 2,7-8).   
“O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho... Chamou então o noivo e lhe disse: ‘(...) tu guardaste o vinho melhor até agora!’” (Jo 2,10-11). Nas bodas de Caná, o vinho melhor chegou no final, quando não se esperava mais nada, a não ser o fim da festa. Muitos de nós estamos convencidos de que a vida é assim mesmo: tudo começa bem e acaba mal; tudo se desgasta com o tempo; tudo vai aos poucos perdendo o sentido. É assim com os nossos relacionamentos, com os nossos sonhos e projetos, com a nossa vida profissional e até mesmo com a nossa fé, com a nossa própria vocação. O encanto inicial não resiste ao desgaste da rotina e, cedo ou tarde, se converterá em desencanto.
No entanto, há algo surpreendente no Evangelho de hoje! O melhor veio depois! A alegria depois da crise foi infinitamente melhor e mais significativa do que a alegria antes da crise. E é assim porque o vinho novo é símbolo do Espírito Santo, cuja graça tudo transforma e tudo renova. Quanto a nós, sempre poderemos experimentar a alegria do vinho novo na medida em que fizermos tudo o que Jesus nos disser, enchendo nossas talhas de água na certeza de que o milagre da transformação é e sempre será um trabalho conjunto entre a graça de Deus e as nossas atitudes.

Oração: Senhor Jesus, és o Esposo não somente da Igreja, mas da alma humana, alma que tem sede de sentido, de alegria e de salvação. Olha para a falta de vinho que existe no coração da humanidade, em nossas famílias e comunidades, e em tua própria Igreja. São inúmeras as pessoas que se sentem abandonadas e não-amadas. Derrama sobre o coração de cada uma delas o dom do teu Espírito, pois somente Ele pode nos fazer experimentar verdadeiramente o amor de Deus e a alegria da Sua salvação.
Seguindo o conselho de Tua Mãe, Maria Santíssima, a exemplo dos servos daquele casamento, queremos aprender a fazer tudo o que o Senhor nos disser. Nos comprometemos a encher nossas talhas de água, a fazer a nossa parte para que, onde o vinho antigo acabou, onde quer que exista ausência de alegria e de esperança, de justiça e de fraternidade, nós possamos colaborar para o surgimento do vinho novo, da transformação que o próprio Deus quer para o bem e a salvação de cada ser humano.
Enfim, Senhor, que nenhuma crise, nenhum desencontro, nenhuma ferida ou dificuldade nos faça perder a esperança de que o vinho novo sempre surgirá e sua alegria será abundantemente superior a tudo aquilo que até hoje experimentamos, pois o Teu Espírito continua a renovar a face de terra e nós cremos no Seu poder de reavivar a nossa Igreja, curar nossas feridas e transformar nossas tristezas em verdadeira e profunda alegria. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

POR QUE O BATISMO É ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO?


  Missa do batismo do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 42,1-4.6-7; Atos dos Apóstolos 10,34-38; Lucas 3,15-16.21-22.
            
        No diálogo que teve com Nicodemos, Jesus deixou claro que existem dois tipos de nascimento: um, da terra; outro, do céu; um, de baixo; outro, do alto; um, o nascimento segundo a carne; outro, o nascimento segundo o Espírito (cf. Jo 3,3-6).
Todo ser humano nasce de baixo, nasce segundo a carne, porque nasce da relação de um homem com uma mulher. Ora, quando a Sagrada Escritura chama o ser humano de “carne”, ela quer afirmar que ele é mortal, finito, perecível, passível de destruição e de aniquilamento. Além disso, o apóstolo Paulo, ao falar sobre a ressurreição, isto é, sobre a nossa destinação à vida eterna, afirma que “a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus” (1Cor 15,50). Portanto, todos nós, depois de termos nascido da carne, precisamos de um segundo nascimento, que é o nascimento operado por Deus, através do Espírito Santo. Isso nos faz compreender a absoluta importância do Batismo.
            Hoje, ao celebrarmos a festa do batismo de Jesus, poderíamos nos perguntar: Por que Jesus precisou ser batizado, se Ele já existia em Deus antes de vir ao mundo e assumir a nossa carne, isto é, a nossa condição mortal? Na verdade, Jesus não precisou ser batizado; Ele quis ser batizado, seja para nos falar da necessidade do batismo para a nossa salvação, seja para santificar as águas por meio das quais se realiza o batismo. De fato, São Máximo de Turim afirmou: “Cristo foi batizado não para ser santificado pelas águas, mas para santificá-las”.
            Como o Evangelho de hoje deixou claro, antes de Jesus começar seu ministério já existia um tipo de batismo: o batismo de João. No entanto, o próprio João revelou a superioridade do batismo de Jesus ao afirmar: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu... Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). Aqui podemos lembrar algo muito simples: a água tem o poder de lavar, de limpar, mas o fogo tem o poder superior de purificar. Por exemplo, a prata ou o ouro podem ser lavados o quanto forem, mas somente passando pelo fogo é que ambos perdem todas as suas impurezas. O fogo tem um poder superior ao da água para purificar o ouro e a prata. Além disso, o fogo tem o poder de transformar até mesmo o metal mais duro.
            Quando João Batista compara o seu batismo na água ao batismo de Jesus no fogo, ele está falando do Espírito Santo, que nos é dado no batismo como Aquele que opera em nós o nascimento do alto, Aquele cujo fogo nos purifica, nos santifica e nos transforma, quando nos deixamos conduzir por Ele. De fato, após o batismo realizado por João, Jesus se colocou em oração, e, “enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba” (Lc 3,21-22). O que São Lucas quer nos mostrar é que Jesus não recebeu o Espírito Santo da água, isto é, do batismo de João, mas do alto, do céu, que se abriu sobre Ele enquanto rezava.
            Conosco acontece algo novo. A partir do momento em que Jesus, ao ser batizado, santifica as águas, elas se tornam para nós o sinal visível da graça invisível do Espírito Santo. De fato, o próprio Jesus compara o Espírito Santo à água, mas O chama de “água viva” (cf. Jo 7,37-39), isto é, água capaz de transmitir a vida do alto, a vida eterna! Mas, atenção! O batismo não é algo mágico. Não basta receber o Espírito Santo no batismo e já estamos automaticamente destinados à vida eterna. Como muito bem afirma o apóstolo Paulo, “todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). Paulo poderia ter afirmado: “todos os que são batizados são filhos de Deus”, mas preferiu colocar, no lugar de “ser batizado”, a expressão “ser conduzido” pelo Espírito Santo.
            Inúmeras pessoas já foram batizadas, mas quantas delas aceitam ser conduzidas pelo Espírito Santo? Aliás, cada um de nós, batizados, precisa fazer um sério exame da sua vida de batizado. Para isso, o profeta Isaías nos dá uma grande ajuda, ao mostrar como é o comportamento de uma pessoa que se deixa conduzir pelo Espírito de Deus: “Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra” (Is 42,3-4). Também podemos lembrar aqui como foi a vida de Jesus após o batismo: “Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele” (At 10,38).
            Uma coisa é ter sido batizado; outra coisa é procurar viver segundo a verdade do próprio batismo. Viver segundo o Espírito Santo recebido no batismo é ser paciente e tolerante consigo e com os outros; é pautar sua vida pela verdade e buscar em todas as coisas a verdade; é lutar incansavelmente pela justiça; enfim, é fazer o bem onde quer que se encontre e sempre que possível.
Mas há um outro aspecto muito importante, quando se fala do nosso batismo: nossa relação com Deus Pai. O fato de Jesus, após o batismo, se colocar em oração é algo fundamental para a nossa vida de batizados: todo filho de Deus vive numa absoluta dependência espiritual do Pai. São Lucas é o evangelista que mais destaca o quanto Jesus valorizava e cultivava sua vida de oração. Não por nada, foi durante sua oração após o batismo que o Pai declarou: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (Lc 3,22). O que essas palavras significam? Elas falam da nossa verdadeira origem. Nossa origem não é terrena, mas celeste! Nossa referência de vida não é a terra, mas o céu. Quem nos amou primeiro e nos chamou à vida não foram os nossos pais terrenos, mas o nosso Pai do Céu. A força que nos anima e nos faz enfrentar com coragem as dificuldades da vida não está em nossa carne, mas no Espírito que nos habita!  
            A cena final do batismo de Jesus – sua oração ao Pai e a confirmação de que Ele é Seu Filho amado – é um convite para que diariamente nos coloquemos em oração e voltemos a ouvir a voz do nosso Pai, que nos confirma como filhos Seus e nos confia uma missão sagrada: “Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas” (Is 42,6-7). Que a água viva do Espírito Santo renove a graça do batismo que um dia recebemos. Que o Seu fogo queime nossas impurezas e nos transforme na imagem do Filho único de Deus, cuja festa do batismo celebramos hoje. Assim seja. 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

ONDE ENCONTRAR DEUS?

Missa da Epifania do Senhor. Isaías 60,1-6; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12.

“Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos” (Is 60,2). Apesar de todas as luzes artificiais que o mundo acende para nos manter distraídos, iludidos, a verdade é que a humanidade vive momentos de grande escuridão – as guerras, a violência nas cidades, as doenças, o desemprego, a fome, o aquecimento global, a desestruturação das famílias etc. Essa escuridão atinge até mesmo a nossa fé. Hoje fala-se de um “eclipse de Deus”, uma espécie de sentimento de “ausência de Deus”, de um grande silêncio por parte de Deus, um silêncio que leva muitos ao abandono da fé e à desistência em buscá-Lo. Não são poucas as pessoas em cujo coração se apagou a luz da fé.
Mas o nascimento de Jesus foi o cumprimento da profecia de Isaías: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,6). De fato, no dia de Natal ouvimos o Evangelho afirmar que Jesus é “a luz da verdade que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9), e, no entanto, essa luz ainda não chegou a todas as pessoas, além do fato de que muitos a rejeitam, por terem se habituado a viver na escuridão.
A festa que celebramos hoje fala da manifestação de Jesus a todos os povos como “luz do mundo”. Se é verdade que “a terra está envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos”, também é verdade que àqueles que acolhem a verdade do Evangelho são referidas essas palavras: “sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti” (Is 60,2). Se ao longo do seu ministério Jesus foi rejeitado por muitos do seu povo (os judeus), Ele foi reconhecido e acolhido como Salvador por muitos pagãos, aqui representados pelos magos do Oriente.
 “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2). Esses magos são a imagem de cada um de nós, quando perguntamos por Deus, quando nos sentimos mergulhados numa noite escura que parece nunca terminar, e, de repente, no meio da noite escura surge uma pequena luz, um pequeno sinal de que Deus está conosco e nos convida a caminhar, a buscar, a nos mover. Esses magos nos ensinam que as perguntas são muito importantes, pois somente quem leva a sério as perguntas da sua alma se coloca na busca da verdade; somente quem está insatisfeito com a escuridão sai em busca da luz.
Mas, onde encontrar Deus? Onde encontrar Aquele que é a verdadeira luz? “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira” (Santo Agostinho). O caminho para encontrar Aquele que é a luz da verdade passa pela escuridão da nossa própria alma. Assim como Jacó, somente quando ficamos sozinhos conosco mesmos, somente quando paramos de fugir de nós mesmos e das nossas perguntas, e travamos uma sofrida luta com Deus no meio da nossa noite escura, é que finalmente encontramos a verdade que nos liberta (cf. Gn 32,23-33).
Os magos só encontraram Jesus porque foram persistentes em sua busca, foram fiéis ao caminho indicado pela estrela. Essa mesma estrela serve de questionamento para nós. Como podemos nos tornar um sinal de fé para inúmeras crianças e adolescentes, hipnotizados pela luz da tela do próprio celular, cuja vida espiritual está atrofiada por falta de cultivo? Como podemos ser luz para tantas pessoas que convivem conosco e se mostram avessas à nossa Igreja ou ao próprio cristianismo? A luz dessa estrela nos ensina que a luz do nosso testemunho cristão precisa sair de dentro das nossas igrejas e chegar àqueles que estão nas periferias existenciais, àqueles que se encontram doentes, desempregados, às famílias em conflito, às crianças expostas à violência e a abusos, aos adolescentes e jovens dependentes químicos etc.  
            O Evangelho de hoje nos convida, como Igreja, a prestar atenção às perguntas das pessoas, a ouvir suas inquietações, sua insatisfação, sua angústia. Alguns teólogos já afirmaram que nós, enquanto Igreja, estamos dando respostas a perguntas que as pessoas não nos fazem, ao mesmo tempo em que não queremos ouvir, não queremos nos deixar questionar por suas perguntas. Jesus nos provoca a sair debaixo da luz artificial das nossas falsas seguranças religiosas e a ir com Ele aonde quer que exista alguém na escuridão da sua desorientação, alguém que esteja lutando com Deus na noite escura da sua fé, alguém que teve a coragem de levar a sério a inquietação da sua alma, a insatisfação do seu coração. Se não fizermos isso enquanto Igreja, teremos perdido o sentido da nossa própria missão.
Finalmente, quando encontraram Jesus, os magos tiveram duas atitudes: o adoraram e lhe ofereceram presentes. Adorar significa, antes de tudo, respeitar Deus, colocar-se humildemente diante da Sua presença misteriosa, não apropriar-se d’Ele como se fosse um objeto sagrado que pudéssemos usar a nosso favor. Adorar significa dar menos espaço às palavras e mais ao silêncio, em nossa oração; significa desarmar-se, substituindo o medo pela confiança, permitindo que Deus possa tomar posse de nós e nos inundar com a Sua graça, que tudo transforma. 
Depois de adorar Jesus, os magos “abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes” (Mt 2,11). Segundo Pe. Silvano Fausti, o ouro, riqueza visível, representa aquilo que temos; o incenso, invisível como Deus, representa aquilo que desejamos; a mirra, bálsamo que cura as feridas e preserva da corrupção, representa aquilo que somos, pessoas expostas à dor e à morte. Que ao oferecer a Deus diariamente aquilo que temos, desejamos e somos como pessoa, nós possamos nos tornar um presente para a humanidade, convidando cada pessoa a oferecer a Deus o presente do seu tempo para a oração diária, o presente do seu esforço em viver na justiça e na santidade; o presente da sua renúncia a tudo aquilo que desagrada a Deus e do seu sacrifício em viver segundo o Evangelho de Seu Filho Jesus.


Oração: Ó luz do Senhor, que vem sobre a terra, inunda meu ser, permanece em nós! Senhor Deus, sobre todos os povos que vivem na escuridão da violência, da fome, das doenças e das injustiças sociais fazei brilhar a luz da vossa face! Visitai-nos nas noites escuras da nossa fé, e devolvei-nos o sentido da vossa presença. Voltai a vossa face para nós e salvai-nos!

Ó luz do Senhor, que vem sobre a terra, inunda meu ser, permanece em nós! Senhor Jesus Cristo, sois a luz da verdade que ilumina todo ser humano. Dissipai as trevas da nossa cegueira espiritual e iluminai-nos com a verdade do vosso Evangelho. Fazei de nós uma luz para aqueles que convivem conosco, sobretudo para aqueles de quem precisamos nos tornar próximos e ajudá-los a saírem da escuridão em que se encontram.


Ó luz do Senhor, que vem sobre a terra, inunda meu ser, permanece em nós! Espírito Santo, vós sois a Luz que vem do Alto. Sem a vossa luz, tudo em nós é escuridão. Iluminai o nosso caminho, fazei irradiar a vossa luz em nossas casas, escolas, locais de trabalho, igrejas e comunidades. Ensinai-nos a doar o melhor daquilo que temos, desejamos e somos, para o bem e a salvação da humanidade e para a glória de Deus, nosso Pai. Em nome de Jesus, amém! 

 Pe. Paulo Cezar Mazzi

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O NOVO E A PAZ SÓ PODEM VIR DE DEUS

Missa Maria, mãe de Deus. Palavra de Deus: Números 6,22-27; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21.

            Nada mais velho e desgastado do que a frase “Ano novo, vida nova”. Por que é tão difícil ter ou experimentar uma vida nova? Porque o “novo” não pode nascer fora de nós; ele só pode vir de dentro; ele precisa ser desejado, cultivado, gestado dentro de nós. O “novo” é uma tarefa que pede de nós determinação, constância, perseverança, dedicação, persistência, e tudo isso dá trabalho. Além disso, nós, que desejamos tanto ter uma vida nova, somos pessoas apegadas aos nossos velhos hábitos; somos pessoas viciadas na maneira como vemos a nós mesmos e aos outros. E romper com hábitos, vícios ou manias dá muito trabalho...
            Sendo assim, nós escolhemos repetir o erro de tentar costurar remendo novo numa roupa velha, e isso, segundo Jesus, não funciona (cf. Mt 9,16). Ao invés de nos despirmos de atitudes e comportamentos viciados, que não respondem mais aos desafios que a vida está nos apresentando, nós corremos o tempo todo atrás de remendos. Colocamos remendos nos nossos relacionamentos, em nossa vida profissional, no cuidado com a nossa saúde, no lidar com o nosso pecado e até mesmo em nossa vida de fé, e, no entanto, esses remendos não transformam aquilo que gostaríamos que fosse transformado.  
            O adjetivo “novo” é a palavra que mais se repete no livro do Apocalipse. O novo, como nos ensina este livro bíblico, só pode vir de Deus, conforme Ele mesmo diz: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). O novo, para nascer em nós, exige que esvaziemos nossas gavetas, onde guardamos nossas mágoas e nossos ressentimentos, e abramos espaço para que Deus possa agir em nós. O novo exige silêncio, revisão de vida, exame de consciência, confronto conosco mesmos. O novo exige que nos perguntemos: O que está bom em mim e precisa ser mantido? O que não está bom em mim e precisa ser modificado? Se eu tenho consciência de que há algo que precisa ser mudado em mim, na minha vida, quais os passos que eu efetivamente preciso dar, quais as atitudes que eu efetivamente preciso tomar, para que a mudança aconteça?
            Maria sempre foi uma pessoa que teve a coragem de refletir sobre a sua existência. Diante de cada acontecimento, ela parava e questionava: o que esse acontecimento quer me dizer? O que eu devo aprender, corrigir ou confirmar em minha vida, a partir daquilo que está acontecendo? Se é verdade que o tempo não pára, nós precisamos aprender a parar, fazer pequenas pausas diárias, refletir sobre aquilo que a vida está nos dizendo e, se preciso for, rever e reorientar os nossos passos. Precisamos ter a coragem de sair do piloto automático e assumir o trabalho de escolher qual direção dar à nossa vida...
            E por falar em direção, é importante nos lembrar de um alerta da Palavra de Deus: “O Senhor desfaz os planos das nações e os projetos que os povos se propõem. Mas os desígnios do Senhor são para sempre, e os pensamentos que ele traz no coração, de geração em geração vão perdurar” (Sl 33,10-11). Sejam quais forem os nossos sonhos ou projetos para este novo ano, é importante colocá-los diante de Deus e pedir que Ele nos guie, que Ele disponha nossos dias segundo a Sua vontade, que Ele intervenha e modifique tudo aquilo que precisa modificar, em vista do Seu desígnio de nos salvar. Enfim, que Deus seja o piloto e nós o co-piloto, jamais o contrário. Afinal, Ele sabe melhor do que nós não somente qual é o destino da nossa viagem, mas também qual percurso é o melhor, qual caminho deveremos percorrer este ano, em vista do nosso crescimento, da nossa conversão e da nossa salvação.
Antes que comece a agitação, a correria das nossas atividades, antes que comecemos a escrever nas páginas em branco do livro deste novo ano, é importante pedir a bênção de Deus (cf. Nm 6,24-26). Não se trata de pedir – e muito menos de esperar – que Deus nos proteja da vida, mas que Ele nos dê forças para olhar a vida nos olhos e enfrentar aquilo que temos que enfrentar. Não se trata de iniciar este ano tendo o coração preenchido pelo medo e tomado pela preocupação, mas preenchido pelo Espírito de Deus, tomado por Sua força, Sua coragem, Sua determinação.
Foi por isso que o apóstolo Paulo contrapôs a figura do escravo à figura do filho. O escravo vive preso ao medo; o filho lança-se com coragem diante da vida (cf. Gl 4,7). Se há alguma mudança ou transformação que esperamos para este novo ano, ela depende em muito da maneira como vamos escolher viver nossa vida: como escravos, que usam como desculpa suas próprias correntes, para não fazer aquilo que sabem que têm que fazer, ou como filhos, que se deixam conduzir pelo Espírito que os anima a lutar e a criar condições para as mudanças ou transformações aconteçam em sua vida.
O dia 1º. de janeiro é o Dia Mundial da Paz. Há inúmeras situações sociais que impossibilitam a paz entre nós: guerras, violência, injustiças, desemprego, agressões, abusos, doenças etc. No entanto, assim como o novo só pode vir de Deus, o mesmo se dá com a paz: “Quero ouvir o que o Senhor irá falar. É a paz que ele vai anunciar, a paz para o seu povo e seus amigos, para os que voltam ao Senhor seu coração” (Sl 85,9). Só um coração que diariamente se volta com sinceridade para Deus pode experimentar a paz e se tornar portador de paz para os outros. O contrário também é verdade: “Os ímpios são como um mar agitado que não pode acalmar-se, cujas águas revolvem sargaço e lodo. ‘Para os ímpios não há paz’, diz o meu Deus” (Is 57,21). Quem não se coloca diariamente na presença de Deus e não descansa n’Ele, nunca encontra paz. Quem se deixa engolir pela agitação do mundo e se permite ser arrastado como folha seca levada pela desorientação da vida moderna ao invés de cultivar suas raízes em Deus, sentirá diariamente sua vida como uma represa cheia de água suja, dentro da qual tudo está perdido e confuso, sem nenhuma clareza.
Entreguemos ao Senhor o ano que se inicia: “Senhor, ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria... Saciai-nos a cada manhã com vosso amor e exultaremos de alegria todos os dias. Alegrai-nos pelos dias que sofremos e pelos anos em que passamos na dor. Que a vossa bondade esteja sobre nós e nos conduza. Tornai fecundo o nosso trabalho e confirmai em cada um de nós a vossa obra de salvação. Por Cristo, nosso Senhor, Amém!” (cf. Sl 90,12.14-15.17).

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O NECESSÁRIO CUIDADO COM AS NOSSAS RAÍZES


Missa da Sagrada Família de Nazaré. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,3-7.14-17a; Colossenses 3,12-21; Lucas 2,41-52.

            Uma das marcas do nosso mundo atual é a rejeição à instituição. Rejeita-se instituições como o Estado, a Escola, o Casamento, a Família, a Religião Tradicional. Mas, por que rejeita-se tudo isso? Porque rejeita-se o vínculo, o compromisso. As pessoas querem ser livres; não querem se prender a nada e não admitem ser orientadas a partir de fora, a partir de cima ou a partir de alguém que não sejam elas próprias e seus interesses. No entanto, essa rejeição parece gerar na humanidade um forte sentimento de desamparo, de orfandade: por rejeitar suas próprias raízes, as pessoas deixam de ser árvores que resistem aos ventos contrários e se comportam como folhas secas levadas pelo vento da desorientação. Por rejeitarem qualquer tipo de “norte”, as pessoas vivem desnorteadas.
            Hoje, ao celebrarmos a Sagrada Família de Nazaré, a Palavra de Deus nos convida a olhar para as nossas raízes, a cuidar dessas raízes, sem as quais nós tombamos diante de qualquer vento contrário. Nenhum ser humano nasce sem raízes, sem família; nenhum ser humano nasce como uma folha solta. Todos nós nascemos a partir de uma árvore chamada “família”. Com certeza, não é uma família ideal, porque família ideal não existe, mas é a família a partir da qual Deus nos chamou à existência e nos confiou a missão de restaurar a família humana.
            Neste imenso jardim que é a humanidade, não existe apenas um tipo de árvore, assim como não existe apenas um tipo de família. Em algumas famílias existem pai, mãe e filhos; em outras, apenas a mãe/ou o pai e os filhos; em outras, o marido e a esposa, mas nenhum filho; em outras, dois homens ou duas mulheres que escolheram viver juntos e adotar um filho etc. Em meio a essa grande diversidade familiar, nós, cristãos, somos desafiados a anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, que não veio para os justos, mas para os pecadores; que não veio apenas aspergir água benta sobre as famílias tradicionais, mas veio, sobretudo, curar as feridas das famílias desestruturadas, pois ele mesmo disse: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10).
            Segundo o livro do Eclesiástico, o cuidado com as nossas raízes começa com o cuidado para com os nossos pais. Assim como os pais não escolhem seus filhos, os filhos também não escolhem seus pais. A vida nos deu uns aos outros, como pais e filhos. Nosso grande desafio é abandonar nossas ilusões e nossas expectativas exageradas em relação aos outros, para acolher e aprender a amar o outro como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse. A cura das raízes da nossa família passa pela aceitação e pelo perdão: o outro nos amou como conseguiu nos amar; ele nos deu o que conseguiu nos dar. Agora cabe a cada um de nós fazer seu próprio caminho, assumir a responsabilidade por si mesmo, ao invés de passar a vida culpando os outros pela nossa infelicidade. Nenhuma pessoa é o resultado daquilo que recebeu dos seus pais, mas o resultado daquilo que ela decidiu fazer com aquilo que recebeu dos seus pais.    
            Segundo o apóstolo Paulo, cada pessoa da família é responsável pelo bom funcionamento da mesma: “Esposas, sede solícitas para com vossos maridos... Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais... Pais, não intimideis os vossos filhos, para que eles não desanimem” (Cl 3,18-21). Quando cada um faz a sua parte, ninguém se sobrecarrega. Portanto, se alguém está esgotado ou sobrecarregado, alguém está folgando e se omitindo, o que gera desequilíbrio emocional na família. Neste sentido, a família deve ser o lugar da correção mútua, o lugar onde se enfrenta com coragem os problemas e se dá nome ao que se sente; onde, mais do que ficar procurando o culpado pelo mal estar, cada um se pergunta o que está fazendo para ajudar com que o mal estar seja superado.
            Enfim, o Evangelho de hoje nos traz uma dura revelação: toda e qualquer família tem seus momentos de desencontro, de dor, de angústia. A fé, a religião, a crença em Deus são valores fundamentais para que uma família não tombe diante dos ventos contrários, mas esses valores jamais funcionarão como uma redoma de vidro, poupando a família de sofrimentos. Não existem relacionamentos sem conflitos; não existe amor sem dor, renúncia ou sacrifício; não existem sonhos sem algum tipo de pesadelo; enfim, nenhuma família atravessa o mar da vida sem enfrentar algumas tempestades.    
            Estamos diante da perda e do reencontro do menino Jesus no templo, em Jerusalém. Talvez não seja coincidência que essa perda tenha se dado quando Jesus estava com doze anos; portanto, no início da adolescência. Esse período marca uma etapa de crise no relacionamento entre pais e filhos, o início de uma certa reivindicação de independência por parte dos filhos. No entanto, aqui poderíamos mencionar a forte contradição que existe na vida de muitos filhos que, apesar de já serem jovens ou adultos, ainda permanecem na adolescência da sua vida emocional: não admitem obedecer aos pais, mas vivem às custas dos mesmos, jamais assumindo a responsabilidade para com a própria vida.
            Quando Maria questionou Jesus a respeito da sua permanência no templo, ele também a questionou: “Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). O que Jesus faz aqui é demarcar o terreno: o filho precisa seguir o caminho para o qual nasceu; precisa abraçar a missão para a qual foi chamado à existência, e, para isso, precisa romper com a dependência familiar, precisa deixar o conforto do colo paterno/materno e se lançar com coragem na vida, se quiser se tornar um verdadeiro adulto, uma pessoa que assumirá o papel de sujeito da sua história e que dará efetivamente sua contribuição para o bem da família humana.
            Mas há uma outra verdade por trás da pergunta de Jesus a Maria: o filho não pertence aos seus pais terrenos; ele pertence, sobretudo, ao Pai do céu. Da mesma forma como é importante cuidarmos das nossas raízes familiares, dos nossos vínculos afetivos, é igualmente importante cuidarmos das nossas raízes espirituais, da nossa pertença a Deus. Muito mais do que aos nossos pais terrenos, é a Ele que devemos a nossa existência, a nossa razão de ser, e todos nós um dia deixaremos a nossa casa terrena para estar na casa do nosso Pai, pois a nossa família de sangue um dia dará lugar à nossa família espiritual.
           
Oração: Deus Pai, as raízes da minha existência estão em Ti. Abençoa os meus pais e avós. Abençoa as minhas raízes terrenas. Quero me reconciliar com as minhas raízes, com a minha história de vida. Agradeço-Te pelos pais que me geraram e me amaram como puderam me amar. Guarda-os na Tua bênção e na Tua paz!
Senhor Jesus, ensina-me a assumir a responsabilidade para com a minha própria vida. Diante de qualquer ferida do meu passado, ensina-me a olhar para o meu presente e entender que o meu destino depende das decisões que eu tomo hoje, e não das coisas que me aconteceram ontem. Que eu me torne uma pessoa madura emocional e espiritualmente, assumindo o meu lugar na história da salvação.
Divino Espírito Santo, derrama o Teu bálsamo sobre as raízes da minha família. Cura nossas feridas, perdoa nossos pecados, transforma nossos desencontros em reencontros. Visita todas as famílias da terra e preenche o coração de cada uma delas com a Tua consolação, a Tua alegria, a Tua luz e a Tua paz. Que todos nós possamos, em comunhão contigo, trabalhar pelo resgate da família humana. Amém!  

Pe. Paulo Cezar Mazzi            
             

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

SOB A LUZ DAQUELE QUE É A VERDADEIRA LUZ


Missa do Natal do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 9,1-6; Tito 2,11-14; Lucas 2,1-14.

            Oito séculos antes de Jesus nascer, Isaías fez uma profecia: “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Embora tal profecia originalmente dissesse respeito ao nascimento do filho de Acaz, rei de Israel (cf. Is 7,10-15), ela foi aplicada ao nascimento de Jesus, seja pelo evangelista São Mateus (cf. Mt 1,22-23), seja pelo evangelista São Lucas: “Graças ao misericordioso coração do nosso Deus, o sol nascente vem nos visitar, para iluminar os que se encontram nas trevas e nas sombras da morte” (Lc 1,78-79).
            Natal é a festa da luz porque Jesus é “a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano” (Jo 1,9). E, no entanto, são inúmeras as pessoas em nosso mundo que não foram alcançadas por essa luz, seja porque muitos de nós, cristãos, não vivemos como “filhos da luz” (Ef 5,8-9) – isto é, não damos testemunho do Evangelho –, seja porque tais pessoas se habituaram tanto com a escuridão que se sentem como morcegos, agredidas pela luz que tenta se aproximar delas, e, portanto, a rejeitam. Mas, mesmo diante da forte rejeição ao Evangelho no mundo atual, a missão de cada um de nós é a mesma do anjo do Senhor, na noite de Natal, isto é, fazer chegar ao coração das pessoas que convivem conosco esta verdade: “nasceu para vocês um Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc 2,11).
            O que precisa ficar claro, nesta noite/neste dia de Natal é que Jesus não nasceu para Maria, nem para José, nem apenas e tão somente para o povo judeu; Ele nasceu para cada ser humano; nasceu como Salvador de cada ser humano, como afirma o apóstolo Paulo: “A graça de Deus se manifestou trazendo a salvação para todas as pessoas” (Tt 2,11). Portanto, a festa do Natal não é uma festa simplesmente cristã; ela deveria ser entendida e celebrada como festa para toda a humanidade, porque Jesus foi dado por Deus como um presente para toda a humanidade.
            Ao narrar o nascimento de Jesus, São Lucas detalha que “Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). “Não havia lugar” para Jesus nascer. Quantas pessoas sentem que, para elas, “não há lugar” neste mundo? E, no entanto, Deus quis que seu precioso Filho nascesse como Salvador de todas as pessoas que se sentem “sem lugar”. Desse modo, o Natal é o anúncio de que, “onde não há lugar, onde tudo parece esgotar-se e é condenado a crescer em meio às ameaças e às intempéries das situações humanas” (Pe. Adroaldo), é ali que Jesus escolheu se manifestar como Salvador. “Na Gruta, Jesus teve sua preferência e escolheu o seu ‘lugar’, o lugar entre os mais pobres, vítimas daqueles que se fazem donos dos lugares” (Pe. Adroaldo).
            Esta breve reflexão sobre o “lugar” onde Jesus nasceu – mais exatamente, sobre o fato de que “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7) –, é oportuna para nos lembrarmos dessas belas palavras da música “Lugares”, composta por Walmir Alencar: “O mesmo Deus e Senhor hoje passa aqui; a nossa história também que tocar com a mesma força e poder, incansável amor, que procura a quem transformar, que transforma a quem encontrar. Hoje em minha vida, onde eu estiver, Ele continua a passar. Incansavelmente insiste em me visitar; em meu coração quer ficar”. Neste sentido, poderíamos também recordar aqui as palavras do poeta Angelus Silesius (1624): “Ainda que Cristo nasça mil vezes em Belém, se Ele não nascer dentro de ti, tua alma ficará perdida”.
            Enfim, queridos irmãos, nesta noite/neste dia de Natal, acolhamos a proclamação do evangelista São João: “E a Palavra de Deus se fez pessoa humana e habitou entre nós” (Jo 1,14). Jesus nasceu porque Deus tem algo a dizer à humanidade e Ele veio dizê-lo não a partir de cima ou de longe; veio dizê-lo a partir de baixo, colocando-Se junto a nós, ao nosso lado, porque é “Deus conosco” (Mt 1,23). Jesus é “Deus conosco”; encontra-se junto a nós, em nossas lutas, dores, sofrimentos e esperanças. Ouçamos o que Ele tem a nos dizer não somente com sua Palavra, mas também a partir da sua imagem no presépio: “nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho...; seu nome é Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz” (Is 9,5). Sigamos seus Conselhos, busquemos abrigo debaixo da sua Força, confiemos a Ele nosso Futuro e nossa esperança, trabalhemos com Ele na promoção da justiça e da Paz.
Ainda diante do presépio, contemplemos seus personagens bíblicos: MARIA – Foi a partir do seu “sim” que o Filho de Deus se fez pessoa humana no seu ventre e veio ao mundo como luz que ilumina todo ser humano (cf. Jo 1,9). Ao dizer: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra!” (Lc 1,38), Maria nos convida a permitir que a Palavra de Deus se encarne em nossa história, realizando tudo aquilo que Deus quer transformar e renovar. JOSÉ – Foi durante um sonho que José entendeu a sua vocação de pai adotivo de Jesus (cf. Mt 1,20-21). José nos ensina a ouvir a voz de Deus em nossa consciência e a ocupar o nosso lugar na história da salvação. Assim como ele, nós não somos o personagem principal dessa história, mas o nosso lugar é único e também necessário, para que Deus continue a salvar a humanidade hoje. PASTORES – Por meio desses pastores Deus revela o sentido do Natal: Ele enviou o seu Filho “para procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10) porque Jesus é “o Astro das alturas que veio nos visitar, para iluminar os que se encontram nas trevas e na sombra da morte estão sentados” (Lc 1,78-79). Hoje cada um de nós é convidado a se tornar portador dessa luz do Natal, levando-a especialmente a todos aqueles que se encontram numa situação de escuridão, de abandono ou de exclusão. ANJO – Na noite de Natal, o anjo do Senhor envolveu os pastores em sua luz e lhes anunciou a grande alegria do nascimento do Salvador (cf. Lc 2,9-10). O anjo do Senhor aponta para a nossa vocação de mensageiros do Evangelho. Santa Teresa de Calcutá dizia: “Talvez você seja o único Evangelho que seu irmão lê”. ESTRELA – Ela foi responsável por guiar os Magos do Oriente até Jesus (cf. Mt 2,1-2). Cada um de nós precisa cuidar e valorizar a pequena luz que guarda em si: a luz da fé, da bondade, da retidão de comportamento, da fidelidade, do serviço em favor da justiça; a luz da humildade, aquela luz que, de alguma forma, faz com que a pessoa que convive conosco sinta o desejo de se voltar para Deus. Por fim, os MAGOS – A busca deles por Jesus foi uma busca sofrida e marcada pela persistência, pela perseverança. Da mesma forma, nós também temos que atravessar noites escuras em nossa busca por Deus, levando no coração a Palavra que diz: “Caminhamos pela fé, não pela visão clara” (2Cor 5,7).

Pe. Paulo Cezar Mazzi    

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

ESTAMOS GRÁVIDOS DO QUE?

Missa do 4º. dom. do advento. Palavra de Deus: Miqueias 5,1-4a; Hebreus 10,5-10; Lucas 1,39-45.  

            A cena final do nosso tempo de Advento é o encontro de duas mulheres grávidas: Isabel e Maria. Segundo as possibilidades humanas, nenhuma delas poderia estar grávida: Isabel, além de idosa, era estéril até então; Maria era virgem. No entanto, ambas estão grávidas “porque para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). A esperança que nos moveu até aqui, neste final de Advento, não é – e jamais poderá ser – uma esperança baseada na força e nas possibilidades humanas, mas uma esperança que se assenta na fé, na firme convicção de que Deus age de maneira surpreendente e faz, na vida daqueles que n’Ele esperam, muito além do que podemos pedir ou imaginar (cf. Ef 3,20).
            Isabel e Maria: duas mulheres pobres e humildes, vazias de vaidade, cheias do Espírito de Deus! Essas duas mulheres bíblicas contrastam fortemente com inúmeras mulheres do nosso tempo, mulheres que se alimentam de futilidade e de vazio; mulheres que perderam o bom senso no vestir e no falar; mulheres que consentem ser tratadas como objetos de consumo, não só no lançamento de produtos, mas, sobretudo, nas letras de música e nos bailes funk. Além disso, enquanto cresce cada vez mais o número de mulheres que dizem: “meu corpo, minhas regras”, Isabel e Maria dizem, cada uma com sua plena liberdade e sua consciência de fé: “meu corpo, meu santuário, no qual eu escolhi abrigar um filho e gerar uma bênção de Deus para que a humanidade se torne melhor”.
            A saudação de Maria comunicou alegria e paz a Isabel, de modo que a criança pulou de alegria em seu ventre. Os bebês que estão sendo gerados no ventre materno ouvem tudo o que se fala no ambiente em que a mãe se encontra. Esses bebês são tocados pela alegria ou pelo medo, pela rejeição, pela agressão? O que nossas palavras comunicam? Se Isabel e Maria se encontraram pessoalmente, a maioria dos nossos encontros e das nossas conversas atualmente é feita por meio das redes sociais. Nós estamos comunicando a alegria e a consolação do Espírito Santo às pessoas, ou estamos apenas compartilhando vídeos e mensagens fúteis, vazios, desprovidos de valores humanos e cristãos, boatos, mentiras, notícias falsas, pornografia e tantas outras coisas que, além de não edificarem as pessoas, ainda colaboram para que a elas se distanciem da graça do Espírito Santo (cf. Ef 4,29-30)?
            O Evangelho se iniciou dizendo que Maria dirigiu-se apressadamente à casa de sua prima Isabel, logo após saber que esta, já em idade avançada, se encontrava grávida (cf. Lc 1,39). Essa atitude de Maria nos lembra algo muito importante: alguém precisa da nossa presença. Foi isso que moveu Maria a visitar Isabel e permanecer com ela até o final da sua gravidez (cf. Lc 1,56). Se nós nascemos e se estamos vivos é por uma única razão: alguém neste mundo precisa de nós. É isso que nos faz feliz, que dá sentido à nossa vida: saber que alguém precisa de nós, alguém que está sozinho, deprimido, doente, esquecido, sem esperança e sem alegria. E sempre que nos fizermos presente junto a essa pessoa, a vida, a alegria, a esperança e a fé despertarão dentro dela.
             A visita de Maria a Isabel e a consequente alegria que marcou o encontro dessas duas mulheres nos provocam e nos desafiam e celebrar o Natal de uma maneira nova, diferente, verdadeira, até mesmo revolucionária! O Natal não pode ser uma mentira em nossa vida! Neste sentido, são muito bem vindas as proféticas palavras do Pe. Pagola: “O Natal é uma mentira quando você crê que Deus quis compartilhar a nossa vida para restaurar o humano e, ao mesmo tempo, você colabora com a desumanização da nossa sociedade, atentando de alguma maneira contra a dignidade das pessoas. O Natal é uma mentira quando você crê no Deus que se entregou ate a morte para defender e salvar o ser humano, mas você passa a vida sem fazer nada por ninguém. O Natal é uma mentira quando você canta e celebra a paz nas festas de final de ano, mas não faz nada para ajudar com que desapareçam as causas dos conflitos que ferem a nossa sociedade. O Natal é uma mentira quando você dá presentes aos filhos, familiares e amigos, mas não se esforça por se fazer presente junto a eles, oferecendo-lhes sua compreensão e sua ajuda gratuitamente” (tradução livre).  
            Uma última palavra: “Ao entrar no mundo, Cristo afirma: ‘Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo... Por isso eu disse: Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’... É graças a esta vontade que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (Hb 10,5.7.10). No ventre de Maria já está sendo formado o corpo de Jesus, um corpo que o próprio Jesus oferecerá livre e diariamente para a salvação da humanidade, uma oferenda que se consumará na cruz. Como entendemos o nosso corpo? Como administramos nossa liberdade, nossos afetos, nossa sexualidade? Nós permitimos que o nosso corpo seja reduzido a um laboratório onde experimentamos sensações provocadas por uma múltipla variedade de bebidas, drogas e relações sexuais sem qualquer outro critério que não seja o orgasmo? Maria e seu Filho Jesus nos convidam a tornar o nosso corpo sacramento da presença de Deus no mundo, uma presença que se coloca junto para ajudar, servir, amparar, defender, consolar... É isso que fará com que o Natal seja celebrado como algo verdadeiro, seja para nós mesmos, seja para aqueles junto aos quais tivermos a coragem de nos fazer presentes.

Pe. Paulo Cezar Mazzi