sexta-feira, 18 de agosto de 2017

PESSOAS DE VONTADE FRACA NÃO EXPERIMENTAM O CÉU

    Missa da Assunção de Nossa Senhora. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a;12,1-6a.10ab; 1Coríntios 15,20-26.28; Lucas 1,39-56.  

            Ao enviar seu Filho para nos salvar, Deus Pai formou-lhe um corpo (cf. Hb 10,5), e esse corpo foi formado, tecido, gerado dentro de um outro corpo, o corpo de Maria. Ora, uma vez que o corpo de Maria se tornou o primeiro sacrário, o “lugar” sagrado onde foi gerado “o Santo, o Filho de Deus” (cf. Lc 1,35), nossa Igreja professa a fé na elevação de Maria em corpo e alma ao céu após a sua morte como sinal de consideração da parte de Deus para com o corpo de Maria, o “lugar” onde se deu a encarnação de Seu Filho como salvador da humanidade.
Essa declaração de fé, por parte da nossa Igreja, na elevação de Maria em corpo e alma ao céu, nos fala do quanto o nosso corpo é sagrado para Deus, e isso contrasta com aquilo que vemos hoje: o corpo humano agredido pela violência, profanado pelo erotismo, exposto – devido a muitas injustiças sociais – à fome, à dor e ao sofrimento, explorado pela ganância do mercado, desprezado quando perde a beleza e o vigor, atacado por doenças, jogado ao mar por traficantes de pessoas, arruinado pela bebida, pelo cigarro e outras drogas etc.
            A elevação de Nossa Senhora em corpo e alma ao céu nos ensina, primeiramente, que precisamos recuperar o valor, a sacralidade do corpo humano, tendo atitudes que favoreçam o cuidado, a proteção e a preservação da vida e da dignidade das pessoas, sobretudo daquelas que estão mais expostas às injustiças sociais. Nós não podemos ser indiferentes aos corpos definhados pelo crack que diariamente cruzam as ruas das nossas cidades, como se aquilo que não nos dissesse respeito. Nós, seres humanos, somos membros deste grande corpo que é a humanidade: “se um membro sofre, todos os outros devem compartilhar seu sofrimento” (cf. 1Cor 12,26); se um membro é agredido, violentado, desrespeitado por algum tipo de injustiça, todos devem sentir essa dor e posicionar-se ativamente contra ela.   
Mas a Festa de hoje nos traz uma outra indicação importante. O destino de Maria é o destino de todo ser humano: ser elevado até Deus. No sentido existencial e espiritual, podemos entender a elevação de Maria ao céu como a necessidade de orientarmos a nossa vida pelo ideal de alcançarmos o céu, isto é, de alcançarmos a salvação, nossa e da humanidade. Neste sentido, são muito oportunas as palavras do Pe. W. C. Viana, quando afirma que “mover os pés na direção de um ideal não é papel da inteligência, mas da vontade”. Isso significa que aquilo que nos empurra para baixo e nos derrota como pessoas não é o fato de podermos ter uma inteligência fraca, mas sim uma vontade fraca. Tanto Jesus, quanto Maria e os Santos sempre foram pessoas que procuraram exercitar a sua vontade e torná-la forte, decidida na direção do ideal a que foram chamados. Pessoas de vontade fraca não se elevam, não experimentam o céu, não alcançam seus ideais; pelo contrário, empurram a si mesmas para baixo, enterram-se, distanciam-se do céu, abandonando seu ideal mais sagrado.     
A celebração de hoje é uma boa oportunidade de nos tornar conscientes de que Deus não nos quer “rasteiros”, pessoas que, por preguiça e comodismo, desistem de crescer, de ser melhores e de tornar melhor o mundo à sua volta, pessoas que se habituam a nivelar tudo por baixo, a fazer o mínimo e também a aceitar o mínimo, a viver na mediocridade e a serem tratadas de maneira medíocre pelos péssimos políticos e pelos fracos líderes que temos hoje. Deus nos quer elevados e não rebaixados, saudáveis e não adoecidos, capazes de pensar e decidir, e não sendo pensados e decididos por guias cegos, por homens injustos e corrompidos. Deus nos quer pessoas ativas e não passivas, sujeitas da sua história e não vítimas daquilo que lhes acontece; pessoas capazes de exercitar não somente o corpo, mas também a mente, por meio da leitura e da reflexão; enfim, pessoas que aprendam a ir além da reação emocional frente aos acontecimentos, dando-se ao trabalho de refletir sobre o quê os acontecimentos estão nos dizendo sobre nós mesmos, sobre o nosso presente e sobre o nosso futuro.
                Hoje nós também estamos celebrando o encerramento da Semana da Família. Embora cada vez mais as famílias estejam delegando para as escolas, para a mídia e para a rua/o mundo a “educação” dos seus filhos, nós sabemos perfeitamente que “educação vem do berço”. Como afirma o Papa Francisco na Amoris Laetitia, “a educação integral dos filhos é um direito essencial e insubstituível que (os pais) estão chamados a defender e que ninguém deveria pretender tirar-lhes. A escola não substitui os pais; serve-lhes de complemento” (n.84). “Os pais necessitam também da escola para assegurar uma instrução de base aos seus filhos, mas a formação moral deles nunca a podem delegar totalmente” (n.263). “O fortalecimento da vontade e a repetição de determinadas ações constroem a conduta moral” (n.266).
A família precisa se tornar o lugar onde um ajude o outro a exercitar a sua vontade como capacidade de tomar posição diante daquilo que lhe acontece. Nós, cristãos, igrejas, educadores, pensadores, líderes, médicos, psicólogos, formadores de opinião, precisamos conscientizar pais e filhos da importância de ajudarem-se mutuamente a se tornarem pessoas determinadas, capazes de enfrentar com uma vontade decidida os problemas que possam surgir. Famílias com vontade fraca serão sempre jogadas para baixo e arrastadas para o fracasso. Numa época onde as pessoas querem tudo, menos aquilo que deveriam querer, aquilo que são chamadas a desejar e pelo qual lutar – o céu – que possamos ajudar as famílias a reencontrarem os verdadeiros valores e a educarem a própria vontade para alcançarem o céu como sinônimo da realização, do bem e da felicidade que Deus quer para todo ser humano.

P.S. Como foi realizada a Semana da Família em nossas comunidades? Quais famílias foram “contempladas” com as atividades que realizamos? Quais famílias não conseguimos atingir, seja por falta de “material” humano, seja por causa de uma visão pastoral fechada, habituada a cuidar das famílias convencionais e desinteressada ou desencorajada de se fazer próxima de famílias “não-convencionais”, daquelas que estão “fora” das normas da Igreja e até mesmo do ideal proposto por Deus na Sagrada Escritura?
As seguintes palavras do Papa Francisco valem por si só como autocrítica na maneira como nos colocamos pastoralmente junto das famílias: “Quero assinalar a situação das famílias caídas na miséria, penalizadas de tantas maneiras, onde as limitações da vida se fazem sentir de forma lancinante... Nas situações difíceis em que vivem as pessoas mais necessitadas, a Igreja deve pôr um cuidado especial em compreender, consolar e integrar, evitando impor-lhes um conjunto de normas como se fossem uma rocha, tendo como resultado fazê-las sentir-se julgadas e abandonadas precisamente por aquela Mãe que é chamada a levar-lhes a misericórdia de Deus” (Amoris Laetitia, n.49). “Compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade: uma Mãe que, ao mesmo tempo que expressa claramente a sua doutrina objetiva, não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada... Jesus espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura” (Amoris Laetitia, n.308).

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

AQUILO QUE TE DESAFIA É TAMBÉM AQUILO QUE TE TRANSFORMA

Missa do 19º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 19,9a.11-13; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33.

            A vida é como um imenso oceano, e ninguém atravessa o oceano da vida sem ter que lidar com algum tipo de tempestade. Embora a nossa tendência natural seja fugir de problemas, desviar de tempestades, o Evangelho de hoje nos convida a ser realistas e a tomar consciência de que Jesus veio ao mundo não para impedir que as tempestades nos atinjam, mas para nos ajudar a lidar com elas, a atravessá-las e a prosseguir a nossa travessia neste mundo.
            Hoje celebramos o dia dos pais e a abertura da Semana Nacional da Família. Quais tempestades o pai ou as famílias enfrentam hoje? Em algumas famílias, a tempestade é a própria ausência do pai – ele está preso, ou foi morto, ou nunca se fez presente. Em outras famílias, a tempestade é a presença nociva do pai alcoólatra, viciado em droga, violento etc. E não são poucas as tempestades que atravessam a alma do pai: o desemprego, o salário cada vez mais diminuído, a constante ameaça de perda do emprego, o medo de não conseguir educar os filhos ou mantê-los longe das drogas, a angústia em relação ao futuro, a constante exposição à violência etc.
            Jesus se fez presente na hora mais sombria da noite – às três da manhã – quando seus discípulos estavam atormentados de medo por causa da tempestade. Nós, padres e cristãos em geral, nos esforçamos em nos fazer presentes junto das pessoas que se encontram no meio de uma tempestade? Um padre, um católico, um cristão que não tem essa preocupação em estar junto de quem enfrenta uma tempestade torna-se uma pessoa insignificante para a sociedade, para o mundo. Não é à toa que alguns de nós insistimos em recorrer a vestes e a liturgias ultrapassadas para tentar combater a nossa insignificância perante o mundo de hoje, uma insignificância provocada e alimentada por nós mesmos. O Evangelho de hoje é muito claro: o lugar da Igreja de Jesus Cristo, o lugar de quem quer que deseje ser reconhecido como discípulo de Jesus Cristo, é junto das pessoas que estão enfrentando tempestades como a doença, o luto, o desemprego, a violência, a fome, as drogas, a depressão, a angústia, o medo, a falta de sentido etc.
            O encontro do profeta Elias com Deus no Horeb é um convite a pensar no relacionamento que os homens de hoje têm com Deus. O pai atual ainda é um homem que procura por Deus? Assim como Elias, o pai (ou a pessoa) que hoje quiser encontrar-se com Deus precisa atravessar o vento impetuoso da sua raiva (ou das suas emoções), lidar com o terremoto, isto é, com o abalo das suas certezas humanas, dialogar com o fogo da sua ira (ou das suas paixões), até encontrar-se com o silêncio do seu próprio coração, até sentir a brisa leve da escuta de si mesmo, onde ali habita Deus.
            A ausência do pai não é algo que marca apenas a maior parte das famílias brasileiras; ela também se faz sentir sempre mais em nossas igrejas. Antes de culparmos tantos homens pelo seu (aparente) desinteresse pela Igreja, é muito mais necessário e honesto da nossa parte perguntar a nós mesmos se a nossa linguagem sobre Deus chega ao coração das pessoas de hoje, especialmente dos homens. Se cada vez menos homens se identificam com a nossa Igreja, não é também porque a nossa postura como Igreja não lhes diz nada? Não é também porque nossas comunidades têm um rosto cada vez mais feminino e pouco masculino? O que dizer, por exemplo, de certas vestes adotadas para as equipes de liturgia, vestes de caráter feminino, que acabam por afastar os homens da proclamação da Palavra? O que dizer de tantos padres efeminados, que ao invés de se paramentarem de maneira sóbria para a celebração, se travestem com pompa e circunstância, com suas rendas e seus fios dourados, portando-se de maneira pouco ou nada masculina nas celebrações? Se os homens de hoje fossem pessoas naturalmente desinteressadas por Deus, nós não os veríamos cada vez mais cruzando as ruas das nossas cidades para irem a outras igrejas.
            Ainda uma palavra precisa ser dita em relação às tempestades que enfrentamos na vida. “Deus respondeu a Jó, do meio da tempestade” (Jó 38,1). Assim como fez com Jó, Deus também fala conosco “do meio” das nossas tempestades. O que Ele pode estar falando com você, neste momento? O que Deus pode estar querendo te dizer no meio da tempestade pela qual você passa agora? Do meio da tempestade, Jesus disse aos discípulos: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27). “Sou eu”; ‘Eu estou aqui, com você!’ “Sou eu!” ‘Sou teu Salvador, teu Senhor, teu Redentor! Coragem! Não seja uma pessoa fraca na fé. Fortaleça-se na fé! Enfrente o que você precisa enfrentar! Aprenda com a adversidade. Compreenda que aquilo que te desafia é também aquilo que te transforma! Quem não enfrenta desafios não cresce, não amadurece, mas permanece infantil, fraco e imaturo diante da vida. Todo desafio é também uma oportunidade para você se transformar numa pessoa melhor’.
            Por fim, uma pequena advertência. Deus disse ao povo de Israel: “Porque semeiam vento, colherão tempestade!” (Os 8,7). Existem tempestades que surgem em nossa vida por responsabilidade nossa, por causa de atitudes erradas, injustas, equivocadas. Por isso, antes de reclamarmos das tempestades que enfrentamos, procuremos perceber se temos alguma responsabilidade naquilo que está nos acontecendo e se, por acaso, não somos aquele tipo de pessoa que tem mania de fazer tempestade em copo d’água, dramatizando tudo.
Rezemos por nossas famílias e, em especial, pelos pais:


        (Oceanos – onde meus pés podem falhar – Mariana Ava) 


Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CONFIGURAR-SE A CRISTO: UMA TAREFA PARA TODA A VIDA

Missa da Transfiguração do Senhor. Palavra de Deus: Daniel 7,9-10.13-14; 2Pedro 1,16-19; Mateus 17,1-9.    

            Com o tempo, a ação do sol desfigura a pintura das casas e dos edifícios. Não muito diferente, também em nós a ação do tempo nos desfigura estética, física e mentalmente. A maneira como muitas pessoas atuam na natureza tem feito com que esta seja desfigurada. No final do ano passado, o Congresso Nacional desfigurou totalmente as 10 medidas contra a corrupção. A violência desfigura a vida das nossas cidades. Mas a violência nasce de uma outra desfiguração: a desigualdade social, produzida pela má distribuição de renda e pela falta de vontade/seriedade política em nosso país. As drogas, especialmente o crack, desfiguram rapidamente a vida de inúmeras pessoas. Sabemos também que, no Brasil, o Executivo, o Legislativo e boa parte do Judiciário encontram-se desfigurados pela corrupção.
            Os exemplos de desfiguração, além de serem muitos, têm tornado a nossa realidade escura, triste, sombria. Mas, justamente nesse contexto de escuridão, de desfiguração, hoje nós olhamos para nosso Senhor Jesus transfigurado, cujo rosto brilha como o sol e cujas vestes estão brancas como a luz (cf. Mt 17,2). Assim como ele quis que três discípulos seus testemunhassem sua transfiguração, assim ele quer que nós tenhamos o seu Evangelho “como lâmpada que brilha em lugar escuro, até clarear o dia e levantar-se a estrela da manhã em vossos corações” (1Pd 1,19). Jesus nos convida a não permitir que o mundo apague a nossa luz, que as dificuldades que possamos enfrentar e as injustiças que possamos sofrer, ainda que nos desfigurem fisicamente, não desfigurem a nossa fé, a nossa alegria, a nossa esperança, os nossos sonhos.
Nós precisamos ter uma reação positiva diante da desfiguração que existe à nossa volta. Para isso, o Pai nos fala da importância de ouvirmos seu Filho: “Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: 'Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!'” (Mt 17,5). Se é verdade que nós diariamente nos deparamos com situações de desfiguração, situações que parecem escurecer tudo à nossa volta, precisamos buscar a presença de Deus na oração, permitir que a “nuvem luminosa” da sua presença nos envolva, certos de que “as montanhas se derretem como cera ante a face do Senhor de toda a terra” (Sl 96,5). Portanto, diante do Deus que é luz, toda sombra, toda escuridão, toda desfiguração se desfazem; tudo é transfigurado.
Vivenciando a experiência da transfiguração, Pedro disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui” (Mt 17,4). Todos nós precisamos de momentos de transfiguração, mas não podemos nos iludir quanto a isso: assim como aconteceu com Jesus, a transfiguração não é um estado permanente em nós; há momentos em que nos sentimos transfigurados e há momentos em que estamos desfigurados. Mais importante do que desejarmos estar o tempo todo transfigurados, é nos darmos conta daquelas atitudes que colaboram para a transfiguração ou para a desfiguração. Colabora para a nossa transfiguração o diálogo, o encontro, o perdão, a reconciliação, sinceridade, a verdade, a oração, o contato com a Palavra de Deus que nos reanima. Por outro lado, colabora com a nossa desfiguração o isolamento, a separação, o distanciamento, a mentira, a falsidade, a falta de oração, o afastamento nosso em relação à Palavra de Deus.
            Uma outra forma de entender o significado da transfiguração de Jesus para a nossa vida é nos tornar conscientes de que somos chamados por Deus a nos configurar a seu Filho Jesus: “Pois aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8,29). O nosso contato diário com o Evangelho deve nos ajudar a buscar continuamente a nossa configuração com Jesus, conscientes de que essa configuração é uma tarefa que dura a vida toda, pois sempre teremos algo desfigurado em nós e que precisa ser transfigurado. Aqui podem nos ajudar as palavras do Irmão Roger Schutz: “Viva aquilo que você entendeu do Evangelho. Por menor que seja, viva-o!” Na medida em que nos esforçamos por viver aquilo que aprendemos do Evangelho, vamos nos configurando sempre mais a Jesus Cristo.    
A transfiguração é a nossa lenta transformação em Cristo. Há momentos em que nos parecemos mais com Jesus, assim como há momentos em que nos distanciamos da configuração com ele. Precisamos ter paciência, colaborar com a graça de Deus e retomar a cada dia o nosso ideal, a vocação para a qual fomos chamados. A oração e a meditação diária do Evangelho, a comunhão com a Eucaristia, a frequência ao sacramento da reconciliação e, sobretudo, o contato com os pobres, com as pessoas desfiguradas pelas injustiças sociais, vão operando em nós essa lenta transformação em Cristo, em pessoas transfiguradas e capazes de transfigurar o ambiente em que nos encontramos. Também neste sentido, hoje, 06 de agosto, somos convidados a orar intensamente pelos cristãos perseguidos no mundo, especialmente no Oriente Médio.
Neste primeiro final de semana de agosto, mês vocacional, rezamos pelos padres e pelas vocações sacerdotais. Assim como acontece com outras instituições, também a nossa Igreja tem sido desfigurada pelas atitudes de alguns padres, seja na forma como conduzem sua afetividade, seja na forma como lidam com um dinheiro que não lhes pertencem e ao qual deveriam administrar de maneira honesta e justa. O padre, mais do que qualquer outra pessoa, é chamado a configurar-se a Cristo e a ser uma presença de transfiguração no seio da Igreja e da sociedade humana. Rezemos pela conversão daqueles que estão se desfigurando no seu ministério e pela perseverança daqueles que têm lutado por configurar-se a Jesus Cristo, colaborando assim com a transfiguração da própria Igreja.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 28 de julho de 2017

SEM ENCANTO, SEM PAIXÃO, NÃO EXISTE RENÚNCIA

Missa do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Reis 3,5.7-12; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-52

            Um homem encontra um tesouro escondido no campo. “Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44). Um outro homem, que procurava pérolas preciosas, encontra uma de grande valor. Certamente ele também ficou muito feliz ao encontrar essa pérola. E então, cheio de alegria, “ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (Mt 13,46).
            Jesus nos apresenta esses dois homens como símbolos de pessoas que se encantaram por Deus, que se encantaram com o estilo de vida proposto pelo Evangelho. E ao descrever esses dois homens como pessoas cujo coração se encheu de alegria ao encontrar um bem precioso, Jesus nos faz alguns questionamentos: Quando foi/quando é que o seu coração se encheu/se enche de alegria? O quê fez ou faz você se sentir tão feliz a ponto de ter a coragem de “vender tudo” para “ter” aquilo, de se sacrificar o quanto for necessário para “estar perto” daquilo? Há alguma coisa, alguma situação ou alguma pessoa que faça você se sentir vivo por dentro, que encha seu coração de alegria, que faça você se encantar pela vida atualmente?
            Digamos mais uma vez: esses dois homens, mencionados na parábola por Jesus, são pessoas que se apaixonaram por Deus e pela causa do Evangelho. Ora, “paixão”, no sentido positivo e saudável do termo, é uma força que move o nosso interior, e aqui é possível afirma que quem não vive apaixonado, quem não tem paixão, está morto interiormente. Não é impressionante o número de pessoas à nossa volta que não vivem, mas apenas vegetam? Não é preocupante a quantidade de pessoas sem encanto, sem alegria, sem vida interior? Não é um contratestemunho homens e mulheres que ontem se encantaram por Deus, pela Igreja, pela vida consagrada, pela causa do Evangelho, mas hoje não expressam alegria; pelo contrário, deixam transparecer desencanto, tristeza, desânimo, mau humor e irritação? Não é questionador o fato de que algumas pessoas que ontem renunciaram a tantas coisas para caminharem com Deus, hoje renunciam às coisas de Deus, fazendo mal feito o seu trabalho, para logo poderem estar junto de coisas ou de pessoas que, de fato, lhes dão alegria?
            Jesus quer aqui nos lembrar que ninguém se sacrifica por algo que não vale à pena. Ninguém renuncia a coisa alguma, se o seu coração não estiver voltado para algo que para ele é precioso, algo que lhe dá sentido e alegria, algo que o faz sentir-se verdadeiramente vivo. Um marido só é capaz de renunciar a outras mulheres se o seu coração mantiver o encanto por sua esposa (e a mesma coisa vale para a esposa). Uma pessoa só renuncia a um ato de corrupção, como, por exemplo, enriquecer-se ou adquirir bens de maneira fácil e rápida (ainda que desonesta), se na sua consciência a sua salvação for um valor maior do que aquilo que o dinheiro lhe promete dar nesta vida terrena. E se cada vez mais os nossos valores se invertem e damos prioridade ao “ser feliz” ao invés de “ser bom”, ou “ser correto”, ou “ser justo e íntegro”, ou ainda “ser fiel”, não há tesouro escondido nem pérola preciosa que nos façam vender qualquer coisa que seja, não há apelo espiritual que nos faça renunciar aos apelos carnais, não há valor eterno que nos faça abrir mão de pseudo-valores transitórios (pseudo é sinônimo de falso, enganador, mentiroso).
             O problema da nossa fé, da nossa vida espiritual é que Deus é um “tesouro escondido”, no sentido de que Ele não é um bem visível, não é um valor considerado como importante no mundo de hoje; quando muito, Deus é visto apenas como uma bijuteria nos dias atuais, “algo” que, se ainda serve para alguma coisa, serve de enfeite, de adereço, jamais Alguém que tem que estar no centro da vida das pessoas, muito menos ainda Alguém que se ache no direito de nos dizer o que é certo e o que é errado, de dizer como devemos lidar com o nosso dinheiro, com a nossa sexualidade e com a nossa liberdade.
            Mas a questão não é como o mundo de hoje vê Deus; a questão é como você O vê. A questão é saber se você tem consciência de que Deus é um tesouro escondido que só pode ser achado dentro do seu coração, e não fora. A questão é saber se você é capaz de dar prioridade às coisas de Deus na sua vida, se você disciplina a sua vontade no sentido de abrir mão e de renunciar a tudo aquilo que na sua vida neste momento está sendo incompatível com a verdade de Deus. A questão é se você aceita o fato de que, embora você deva sim testemunhar a sua fé ao mundo, o seu relacionamento com Deus deve ser íntimo e profundo, algo que só pode ser alimentado por você e por mais ninguém.
Enfim, que possamos considerar ainda três indicações importantes da Palavra de Deus para a nossa vida:
1) O diálogo que Deus teve com o rei Salomão, por meio de um sonho, nos ajuda a entender que o nosso maior tesouro, a nossa maior riqueza, é que o nosso coração se torne compreensivo, capaz de governar/cuidar/administrar a si mesmo, antes de querer governar/cuidar/administrar os outros; que ele se torne um coração capaz de discernir/distinguir entre o bem e o mal; enfim, que ele se torne um coração sábio para praticar a justiça (cf. Sb 3,9.12). Além disso, é importante ter consciência de que se o nosso sonho/desejo não é aquilo que de fato precisamos para sermos felizes, Deus não nos vai concedê-lo. Por fim, precisamos nos questionar até que ponto as nossas atitudes trabalham contra aquilo que nós mais desejamos, sonhamos e pedimos a Deus.
2) Quando aprendemos a renunciar ao que é transitório, ilusório, passageiro, mentiroso e corrupto, para alcançar aquilo que é permanente, verdadeiro e eterno, Deus faz com que tudo contribua para o nosso bem (cf. Rm 8,28). Porém, quando nossos valores estão invertidos, nada contribui para o nosso bem; pelo contrário, tudo contribui para o nosso fracasso, a nossa falta de paz, a nossa confusão e até mesmo a nossa destruição.
3) Jesus hoje convida você a trazer a rede da sua consciência e do seu coração para a praia, para a luz, para um momento de revisão, no qual você possa se sentar e separar o que presta do que não presta (cf. Mt 13,47-48). Essa rede pode significar também os nossos sentidos – olhos, desejos, provocações, tudo aquilo que pede a nossa atenção, as verdadeiras e as falsas necessidades, que o mundo nos apresenta como propostas de felicidade. Porque “nem tudo que reluz é ouro”, é preciso saber separar, distinguir, discernir o que presta do que não presta, o que de fato convém e o que não convém à nossa salvação. Isso pode nos ajudar a colocar em ordem as nossas prioridades, reencontrando a nossa alegria, a nossa paixão, aquela força que nos move a partir de dentro e que nos faz sentir que estamos verdadeiramente vivos.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A INSUBSTITUÍVEL E NECESSÁRIA TAREFA DE CULTIVAR-SE

Missa do 16º. dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 12,13.16-19; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-30.36-43.

            Como anda sua tolerância em relação ao mal? Como anda sua capacidade de conviver com realidades afetadas pelo mal sem com isso tornar-se uma pessoa má? Enquanto algumas pessoas gostariam de encontrar uma forma de separar todo tipo de maldade e eliminá-lo para sempre da sociedade humana, outras acabam por abandonar o cultivo do bem em si mesmas e se deixam corromper pelo mal, quase que como uma forma de sobrevivência no mundo moderno.
            Jesus, como qualquer ser humano, teve que se deparar com o problema do mal na sociedade humana. Não só isso. Ele certamente foi questionado por muitas pessoas a respeito da existência do mal. Como é possível acreditar na existência de um Deus que é bondade, amor, justiça e verdade, se convivemos todos os dias com situações marcadas pela maldade, pelo ódio, pela injustiça e pela mentira? Como continuar acreditando que vale a pena cultivar trigo em nós e à nossa volta, quando o joio parece crescer sempre mais e fazer-se prevalecer sobre o trigo, neste vasto campo que é o mundo?
Eis uma verdade que precisa ser considerada, se quisermos entender por que o joio tem crescido tanto no mundo de hoje, ao mesmo tempo em que o trigo parece diminuir cada vez mais: “Se todo mal que chegasse a nós fosse interrompido em nós por meio do perdão, o mal no mundo já teria diminuído bastante” (Pe. Sidney Fabril). Se toda semente de joio que o mundo joga em nós fosse barrada pelo cultivo do trigo em nós mesmos, o joio que há no mundo já teria diminuído, e muito.
            A primeira orientação que Jesus nos dá nesta parábola é no sentido de não sermos ingênuos, mas realistas: o mal é uma realidade e está presente como possibilidade dentro do coração de todo ser humano. Portanto, em todos os ambientes, em todas as áreas profissionais, em todas as igrejas e religiões, em todos os povos, raças e culturas, é possível encontrar pessoas que, por diferentes motivos, deixaram de cultivar o bem e permitiram que a erva daninha do mal tomasse espaço no terreno da sua alma. Portanto, não sejamos ingênuos: quem acha que não corre o risco de se tornar uma pessoa infiel, desonesta, injusta ou corrupta, ainda não conhece bem os espaços da sua alma.
            A segunda orientação que Jesus nos dá diz respeito à nossa tarefa de nos cultivar como trigo, mesmo tendo que conviver diariamente com o joio. Por mais joio que possa haver no meio do trigo, ele continua a crescer e amadurecer como trigo. Contudo, se é assim na natureza, nem sempre é assim conosco, seres humanos. É muito comum encontrar pessoas que sempre justificam seus erros, sua má conduta, sua vontade fraca, seu vício, sua consciência corrompida etc., colocando a culpa nos outros (família ou sociedade). Sem dúvida que todos nós somos influenciados pelo meio em que vivemos, mas somos nós que escolhemos qual semente vamos cultivar diariamente no solo da nossa vida.
            A grande verdade da parábola do joio e do trigo é esta: nós somos os únicos responsáveis por aquilo que cultivamos dentro de nós. O cultivo de si mesmo é uma tarefa que cabe à própria pessoa e não pode ser terceirizada. O cultivo da interioridade da esposa é tarefa dela, não do marido, e vive-versa. O cultivo da interioridade dos filhos é tarefa deles, não dos pais, e vice-versa. O cultivo da interioridade dos alunos é tarefa deles mesmos, não dos professores, e vice-versa... E por falar em cultivo, o maior desafio hoje em dia é despertar nas pessoas o desejo de quererem cultivar-se como trigo.
            Nós não nascemos prontos e ainda não estamos prontos; a cada dia estamos nos fazendo, nos cultivando. Até o momento da morte temos a possibilidade de escolher nos cultivar como joio (pessoas que se deixam corromper) ou como trigo (pessoas que lutam para se manter íntegras). Para aqueles entre nós que estão cansados de cultivar-se, talvez desanimados por terem que conviver diariamente com o joio, é importante lembrar que ficar reclamando do joio que existe à nossa volta não nos leva a lugar nenhum. “Importa cuidar do trigo e não perder a paz por causa do joio”, nos ensina o Papa Francisco. Importa investir nossas energias no cuidado e no cultivo do trigo e não gastá-la numa contínua reclamação estéril por causa do joio.
            Eis um fato concreto. Perguntado sobre qual será sua reação se em agosto a Câmara dos Deputados rejeitar a acusação de corrupção passiva de Michel Temer, o Procurador Rodrigo Janot declarou que vai aceitar a decisão da Câmara “com a maior naturalidade possível. Eu fiz o meu trabalho. Cada um faz o seu” (Folha de Londrina, 18/07/2017). O trabalho do trigo é amadurecer como trigo e não se degenerar em joio. Cada um faz o seu trabalho. Cada um cultiva dentro de si aquilo que considera como valor. Algumas pessoas insistem em degenerar a sociedade humana, semeando o joio da corrupção por onde passam. Outras insistem em construir uma sociedade menos corrompida, menos degenerada nos seus valores. Cada um de nós tem que continuar o seu trabalho de cultivar-se como trigo, apesar do joio que cresce à nossa volta.
            Um cuidado que devemos ter, diante dessa parábola contada e explicada por Jesus, é não confundir a proibição de se arrancar prematuramente o joio com o risco de danificar o trigo como sinônimo de relativismo, no sentido de achar que tanto faz cultivar-se como joio ou como trigo; no fim da vida, seremos todos colhidos por Deus, como se fôssemos todos “farinha do mesmo saco”. A parábola afirma justamente o contrário: no momento da colheita, Deus separará o joio do trigo, e destruirá o joio no fogo. Portanto, a necessidade de distinguir o joio do trigo no nosso dia a dia continua não somente válida como também necessária para a nossa salvação. No momento da colheita, seremos questionados a respeito do nosso esforço em buscar nossa integridade, do nosso esforço em não nos corrompermos como pessoas.
            Embora a tarefa de cultivar-se seja exigente, abracemo-la com alegria e esperança, na certeza de que não estamos sozinhos nesse cultivo: o Espírito Santo vem em socorro da nossa fraqueza (cf. Rm 8,26). Além disso, a parábola deixa claro que Deus acredita no trigo que há em nós. Ora, se Ele acredita, nós também precisamos acreditar! Nosso humano, apesar de frágil, guarda em si o potencial de cultivar-se, um potencial talvez confundido ou até mesmo sufocado pelo joio e que, por isso mesmo, precisa ser resgatado, exercitado, acreditado. Enfim, que cada um de nós tenha consciência do joio e do trigo que carrega dentro de si. Sejamos humanos conosco mesmos e com os outros, não desanimando por causa do joio, mas renovando a cada dia a decisão de nos cultivar como trigo.

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O NECESSÁRIO DIÁLOGO ENTRE A EFICÁCIA DA SEMENTE E A QUALIDADE DO TERRENO

Missa do 15º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 55,10-11; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-9.

            Perguntemos aos professores e educadores se ainda acreditam na sua missão de educar, de formar a consciência das novas gerações e de ajudá-las a darem uma resposta de justiça, bondade e verdade a um mundo cada vez mais ferido pela injustiça, maldade e mentira... Perguntemos aos pregadores do Evangelho se ainda acreditam na sua missão de converterem corações de pedra em corações de carne, de despertarem nos seus ouvintes o desejo de se levantarem das sombras da morte e de caminharem na direção da luz da vida... Perguntemos aos pais ou responsáveis pelas crianças de hoje se ainda acreditam na sua missão de anunciar ideais e de propor valores a uma geração que escolhe fechar-se em si mesma, atrofiando-se nas suas emoções e não indo além dos interesses do seu próprio ego...
            Toda atitude de ensinar, todo esforço em falar, em anunciar uma palavra, toda tentativa de educar, corrigir, e formar é um SEMEAR. Dizendo de outra forma, todo professor, educador, pai, mãe, pregador do Evangelho, todo responsável por orientar alguém na vida é um SEMEADOR. Se nós perguntarmos aos inúmeros semeadores de hoje se eles ainda acreditam na sua missão de semear, provavelmente muitos deles nos dirão que não. Semear tornou-se uma missão profundamente ingrata, frustrante, decepcionante, porque parece que as sementes são cada vez mais “desperdiçadas” em terrenos ruins, fechados, impenetráveis, terrenos que parecem preferir conviver sempre mais com pedras e espinhos, rejeitando a possibilidade de produzirem frutos como bondade, justiça, paz, esperança, mudança, transformação, amadurecimento etc.
            Este é o grande engano dos semeadores: entristecer-se pelos frutos que ainda não vieram ao invés de alegrar-se pelas sementes que já conseguiram lançar no coração das pessoas que lhe são confiadas. E, se considerarmos a bendita cobrança por “resultados” à qual estamos cada vez mais habituados, ficará difícil manter-se na missão de semear. Isso explica o cansaço, a decepção, a perda de sentido e até mesmo a desistência de tantos semeadores, cujo terreno do próprio coração deixou de receber a semente da fé e da esperança, e passou a ser coberto pela erva daninha do desânimo.
            Jesus foi o grande Semeador, e como tal, passou por momentos de crise e de forte questionamento da sua missão. Ele também chegou ao ponto de se perguntar se ainda havia sentido em semear, em apostar no ser humano, em perder tempo tentando ajudar pessoas a repensarem sua maneira de ver a si mesmas, os outros, a vida, o mundo e o próprio Deus. Jesus viveu momentos fortes de decepção com o ser humano, mas uma coisa o ajudou a não abandonar sua missão de Semeador: a fé na força da semente. Ele sabia perfeitamente que Deus disse a respeito da força da sua Palavra, pelo profeta Isaías: “a palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (Is 55,11). Essa convicção sempre fez Jesus avançar e aprofundar-se na sua missão de Semeador. E Ele semeou por toda parte, em todo tipo de terreno, semeou abundantemente sua Palavra, na certeza de que qualquer coração que a acolhesse passaria por uma transformação, ainda que mínima.    
            Este é o grande ensinamento da parábola do semeador: Deus é abundante na sua graça e na sua misericórdia; Ele quer salvar a todos, e por isso deseja que a sua Palavra chegue a todos: aos que estão abertos e aos que estão fechados, aos que creem e aos que não creem, aos justos e aos injustos, aos santos e aos pecadores etc. Este mesmo Deus, generoso e abundante no semear a sua semente, procura por semeadores generosos, não mesquinhos, muito menos preguiçosos, semeadores que se desacomodem e coloquem seus pés também, e, sobretudo, nos terrenos cheios de pedras e de espinhos, ou seja, que se coloquem junto das pessoas que aparentemente estão mais fechadas à Palavra, que demonstram aversão, antipatia ou que fazem críticas ácidas à Igreja e a seus ministros (algumas vezes, com razão). Esses terrenos também necessitam da semente do Evangelho; essas pessoas são as que mais precisam ser visitadas pela pessoa do semeador.
            A parábola do semeador necessita urgentemente de uma releitura em nossa Igreja, uma vez que muitos de nós, semeadores, estamos cada vez mais colocando condições para o nosso semear, escolhendo terrenos que consideramos bons, porque há ali garantia de retorno para o nosso trabalho. É preocupante perceber o quanto muitas vezes nos negamos a colocar os pés em terrenos pedregosos e espinhosos, sujeitando-nos a suar o rosto somente se e quando houver garantia de que nosso trabalho não será em vão, a ilusória garantia de que nenhuma das nossas sementes será desperdiçada, além da pretensiosa garantia de que colheremos o quanto antes os frutos das sementes que lançamos.
            Jesus hoje procura por semeadores que se disponham a colocar seus pés também no terreno espinhoso do luto, tornando-se acessíveis quando são chamados a um funeral, ocasião mais do que oportuna para se lançar a semente da esperança e da fé na ressurreição no coração de pessoas que dificilmente são alcançadas pela nossa ação pastoral. Jesus também procura por semeadores que não se esquivem de colocar seus pés no terreno espinhoso da dor, visitando pessoas enfermas, deprimidas, enlutadas, desempregadas, machucadas afetivamente; justamente ali nós encontramos corações arados pelo sofrimento, verdadeiros “terrenos rasgados”, à espera da semente de uma palavra de conforto, de ânimo, de coragem, de direção, de retomada do sentido da vida.
            Enfim, o Evangelho nos convida, primeiramente, a reavivar o sentido da nossa missão de semeadores. Assim como Jesus, somos chamados constantemente a “sair a semear”, procurando desinstalar-nos e colocar-nos junto das pessoas nos mais diferentes caminhos da vida, tendo consciência de que não nos cabe, como semeadores, responder pela qualidade do terreno, mas pela fidelidade em lançarmos a semente no momento oportuno e também no inoportuno, na esperança de que ela pode nos surpreender e germinar onde jamais imaginaríamos que isso acontecesse. A nós cabe “deixar cair” a semente da qual somos portadores, “desperdiçando” a Palavra com generosidade e abundância, sem a preocupação com os resultados. Além disso, o Evangelho nos convida a todos a uma revisão do tipo de terreno que somos, pois cada um de nós é responsável pelas pedras e pelos espinhos que deixa acumular ou crescer no terreno da sua alma. Embora a Palavra de Deus seja viva e eficaz, realizando aquilo que diz, ela não é algo mágico; sua eficácia depende em muito da nossa colaboração, do nosso remover os obstáculos que estão impedindo a graça de Deus agir e nos transformar a partir de dentro.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 7 de julho de 2017

FARDOS E CANSAÇOS QUE NÃO NOS DIZEM RESPEITO

Missa do 14º. dom. comum. Palavra de Deus: Zacarias 9,9-10; Romanos 8,9.11-13; Mateus 11,25-30.

Este é o convite de Jesus para nós hoje: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Uma reclamação muito comum em nossos dias é esta: “Estou cansado(a)”. Estamos cansados do quê? Qual é a causa do nosso cansaço? Existe o cansaço próprio do trabalho, sobretudo braçal, além do cansaço do transporte. Nas grandes capitais, por exemplo, há trabalhadores que gastam cerca de quatro horas por dia no trânsito, para ir e vir do trabalho. Outros não se cansam tanto fisicamente, mas mentalmente: são pessoas que trabalham com números, dados, informações, metas e cobranças, muitas delas esgotadas a ponto de terem que recorrer a tratamentos psiquiátricos.
Mas existe um outro lado da moeda quando falamos de cansaço. O que dizer de uma geração que parece que “nasceu cansada”? O que dizer dos filhos que cresceram recebendo tudo da mão dos pais e que nunca têm disposição para ajudar? O que dizer também de pessoas adultas que vivem “folgando” em cima dos outros? Aqui precisamos ter senso crítico e nos lembrar de uma verdade muito simples, quando falamos de cansaço e de sobrecarga: por trás de uma pessoa cansada ou sobrecarregada, sempre existe uma outra (ou várias) folgada(s). Neste caso, o cansaço é fruto da falta de atitude de quem se deixa sobrecarregar, muitas vezes agindo assim por medo de perder o afeto do outro.
  Ao nos convidar a depositar n’Ele o nosso cansaço, o nosso fardo, Jesus também disse: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). A mansidão e a humildade do coração de Jesus podem nos ensinar a nos livrar de fardos inúteis e de cansaços desnecessários. Jesus sempre escolheu viver na humildade e na simplicidade. Além disso, ele nunca aceitou ser empurrado pelas pressões externas. Todas as cobranças e exigências do mundo à sua volta eram “filtradas” em seu coração, um coração que procurava se colocar diante do Pai todos os dias, e ali ele separava aquilo que parecia ser urgente daquilo que de fato era essencial.
Aquilo que nos adoece, porque consome nossas energias e nos esgota interiormente, é justamente a falta de humildade e de simplicidade. Nós nos deixamos envolver por uma rede de complexidade desnecessária e perdemos a simplicidade de vida. A tecnologia nos prometeu simplificar a vida, mas o que temos é uma vida cada vez mais complicada, com os nossos olhos, a nossa mente e o nosso coração cada vez mais ocupados, sobrecarregados de mensagens, de informações, de estímulos, de apelos consumistas e de “cobranças”. Tudo isso nos esgota, nos deixa irritados e profundamente insatisfeitos, sem paz interior.  
O caminho da cura e da libertação passa pela reaproximação da humildade e da simplicidade de vida, por recuperar aquilo que é essencial, na certeza de que precisamos de muito pouco para ser felizes. É uma questão de não mais nos permitir ser jogados de um lado para outro, por causa da nossa desordem interior, desperdiçando energia com a soberba, o orgulho, a vaidade, a arrogância e a preocupação em aparentar ter. Ao invés disso, somos convidados por Jesus a tomar sobre nós o seu jugo, o que significa abraçar o Evangelho como norma de vida, pautando a nossa existência pela simplicidade do coração de Deus, do Pai que escolheu revelar-se aos humildes e simples de coração.
É verdade que também em nossa vida espiritual existe um certo cansaço. Muitas vezes sentimos que nossa fé e nossa esperança estão cansadas, esgotadas. Contudo, o salmista agora a pouco nos lembrava de que o Senhor é misericórdia, piedade, amor, paciência e compaixão. “O Senhor é muito bom para com todos; sua ternura abraça toda criatura... Ele sustenta todo aquele que vacila e levanta todo aquele que tombou” (Sl 145,9.14). Justamente quando o cansaço espiritual nos faz vacilar e tombar diante das dificuldades, devemos nos voltar para o nosso Deus, pois “Ele dá força ao cansado e revigora o enfraquecido. Mesmo os jovens se cansam e se esgotam...; mas os que põem a sua esperança no Senhor renovam suas forças, abrem asas como as águias, correm e não se esgotam, caminham e não se cansam” (Is 40,29-31).
Como cristãos, como discípulos de Jesus Cristo, somos convidados não somente a nos refugiar no seu coração manso e humilde, mas também a nos fazer extensão do Seu coração, procurando levar uma palavra de conforto às pessoas cansadas e abatidas, pessoas esgotadas em sua esperança por causa de uma sociedade desumanizada como a nossa, pessoas sobrecarregadas pelo descaso e pela indiferença de um sistema financeiro que privilegia o lucro e a obtenção de resultado em detrimento da pessoa humana. Mesmo tendo que sobreviver nessa economia desumana e anticristã, não deixemos que o nosso coração se desumanize e se esgote, afastando-se da humildade e da simplicidade do coração de Jesus.
  
Nas asas do Senhor – Eros Biondini


Pe. Paulo Cezar Mazzi