sexta-feira, 27 de maio de 2016

ERGA A MARRETA E GOLPEIE FIRMEMENTE A ROCHA

Missa do 9º. dom. comum. Palavra de Deus: 1Rs 8,41-43; Gl 1,1-2.6-10, Lc 7,1-10.

            “Diga uma palavra, e o meu empregado ficará curado” (Lc 7,7). O Evangelho que acabamos de ouvir nos coloca diante de um belo exemplo de fé no poder da palavra de Jesus. “Basta uma só palavra, e o milagre acontecerá. Basta uma só palavra, e a vitória virá”, diz a música “Basta uma só palavra”, do Ministério Amor e Adoração. Como anda a sua fé na Palavra? Pra você, basta a Palavra, ou é preciso mais algumas coisas, tipo: ver, sentir e tocar pessoalmente em Jesus para só então poder crer?
            Engano nosso achar que a Palavra é mágica. Não basta ter a Bíblia em casa. Não basta ler a Bíblia. Não basta saber de cor trechos bíblicos. A Palavra não é mágica. Se há algo “mágico” aqui, neste relato do Evangelho, é a fé de um estrangeiro no poder da palavra de Jesus. A Bíblia não é um livro de História, nem de Ciência; ela é um livro de Fé, que foi escrito por homens e mulheres de fé, para edificar a fé de quem lê ou escuta suas palavras. Portanto, sem a fé, a Palavra permanece uma letra morta, incapaz de produzir vida. Só a fé nos faz experimentar o poder redentor de cada palavra contida na Sagrada Escritura.
Eis a fé do centurião que pediu a Jesus a cura para o seu empregado: “... eu também estou sob a autoridade de oficiais superiores, e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: Vá, e ele vai; e a outro: Venha, e ele vem; e ao meu empregado: Faça isso, e ele o faz” (Lc 7,8), ao que Jesus respondeu: “... nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé” (Lc 7,9). A fé deste homem estrangeiro é a fé na autoridade da palavra de Jesus. Dizendo de outra maneira, a Palavra de Deus não é uma palavra fraca, mas forte, tão forte que o próprio Deus pergunta: “Não é a minha Palavra... como uma marreta que despedaça a rocha?” (Jr 23,29). Reflita sobre isso: embora a Palavra de Deus tenha a força de uma marreta capaz de despedaçar a rocha, a sua fé é a mão que levanta a marreta e desfere o golpe sobre a rocha...
Crer na autoridade da palavra de Jesus significa submeter-se a esta autoridade. Esta foi a grandeza da fé deste homem estrangeiro. Nós, que anunciamos a Palavra de Deus em cada celebração, em cada encontro de catequese ou dos nossos grupos pastorais, corremos um sério risco de nos “acostumarmos” a tal ponto com a Palavra, que já sabemos o que dizer a respeito dela, e, desse modo, acabamos não nos colocando sob a sua autoridade. Além disso, precisamos considerar o que Jesus disse: “... nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé” (Lc 7,9). ‘Nem mesmo entre vocês, evangélicos ou católicos, encontrei tamanha fé na minha palavra’. Às vezes, uma pessoa que consideramos “pagã” pode ter mais fé em Deus do que nós, que nos consideramos cristãos...   
O Evangelho de hoje nos colocou diante de uma oração de intercessão: um homem manda um pedido a Jesus para que cure um empregado seu. Nós oramos pelos outros ou só por nós mesmos? Nossa oração costuma ir além dos nossos interesses pessoais, para suplicar a Deus pelas necessidades de outras pessoas? Nós confiamos que, de onde Jesus está, à direita do Pai, ele pode dizer uma palavra capaz de curar, de libertar e de salvar a pessoa por quem estamos orando?  
            Uma última questão. “Senhor, (...) eu não sou digno de que entres em minha casa...” (Lc 7,6). Em toda missa nós retomamos estas palavras do centurião, instantes antes de nos aproximarmos da Eucaristia. Quem é digno de comungar? Ninguém, nem mesmo quem preside a Eucaristia. Nós não somos dignos de receber Jesus, mas, antes da comunhão, lembramos o que Ele mesmo disse: “A minha palavra purificou vocês” (cf. Jo 15,3). A palavra de Jesus nos purifica na medida em que permitimos que ela nos corrija e nos recoloque no caminho da justiça e da verdade. Que possamos, em cada celebração eucarística, receber com humildade a palavra de Deus, que é sempre capaz de nos salvar (cf. Tg 1,21).   

Para a sua oração pessoal: Basta uma só palavra (Ministério Amor e Adoração)
https://www.youtube.com/watch?v=UzY6dELqZA4

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 20 de maio de 2016

SEMPRE PRECISAMOS REVER A NOSSA IMAGEM DE DEUS

Missa da Santíssima Trindade. Palavra de Deus: Provérbios 8,22-31; Romanos 5,1-5; João 16,12-15

Deus não tem imagem. Por quê? Porque, da mesma forma que nenhum recipiente poderia conter dentro de si toda a água do oceano, assim também nenhuma imagem que pudéssemos fazer de Deus poderia conter ou expressar tudo aquilo que Ele é. Deus não tem imagem porque Ele é sempre mais e sempre maior do que aquilo que podemos experimentar ou imaginar. Deus não tem imagem porque Ele é surpreendente: Ele sempre se manifesta em nossa vida de um modo que nunca poderíamos imaginar.  
Embora Deus não tenha imagem, todo ser humano forma, ao longo da vida, alguma imagem de Deus dentro de si. Enquanto algumas dessas imagens aproximam a pessoa daquilo que Deus é, outras afastam. Enquanto algumas dessas imagens ajudam a curar e libertar pessoas, outras colaboram para adoecê-las e aprisioná-las no medo ou na ignorância. Cada um de nós imagina Deus de uma forma, mas quantas ideias erradas nós formamos a respeito de Deus? Além disso, quantas pessoas desistiram de crer em Deus porque a nossa linguagem sobre Ele é – e sempre será – imperfeita e limitada?      
A melhor forma de nos aproximarmos do mistério da Santíssima Trindade, deste Deus que, embora sendo o único e verdadeiro Deus, se revelou a nós como Pai, Filho e Espírito Santo, é fazer como foi pedido a Moisés, quando tentou se aproximar do mistério da sarça ardente: “Não se aproxime daqui; tire as sandálias dos pés porque o lugar em que você está é uma terra santa” (Ex 3,5). Antes de nos aproximarmos do mistério de Deus – mistério porque Ele sempre nos transcende – precisamos ficar descalços, isto é, precisamos esvaziar a nossa mente e o nosso coração de tudo aquilo que julgamos já saber a respeito de Deus, para que Ele nos dê o verdadeiro conhecimento de Si. ‘Tirar as sandálias’ também significa saber que Deus não é um ídolo do qual possamos nos apropriar e usar em nosso benefício, mas três Pessoas a serem acolhidas em nossa casa interior: a pessoa do Pai que nos criou, a pessoa do Filho que nos salvou e a pessoa do Espírito Santo que nos marcou para o dia da redenção final.  
O Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas, mas um único Deus. Eles estão sempre juntos, unidos na mesma missão de conduzir o ser humano à verdadeira Vida. São três pessoas diferentes, mas um respeita o outro, um ajuda o outro, porque um ama o outro. Isso tem algo importante a nos dizer, já que a dificuldade de convivência com as pessoas tem nos levado cada vez mais a optar por ficarmos sozinhos. Nós passamos a evitar estar juntos para não nos machucar. Até mesmo a nossa fé passa a ser vivida assim: em casa, separada de uma comunidade, porque já nos decepcionamos não poucas vezes com algumas pessoas da igreja.  
Talvez a imagem da nota musical nos devolva o desejo de voltar a viver em comunhão com as pessoas. Cada um de nós é como uma nota musical. Sozinhos, não produzimos música alguma, mas também sem nós falta uma nota para que a música fique boa, agradável e completa. Nós sofremos muito e gastamos muita energia emocional tentando mudar os outros, mas o melhor seria que procurássemos amar as pessoas como elas são. Deus nos ama assim, como somos, e no Seu amor procura nos ajudar a crescer, melhorar e amadurecer todo o nosso potencial.
Se temos enfrentado muitas tribulações em nossos relacionamentos, saibamos enxergar tais tribulações como oportunidades para exercitarmos a perseverança no amor, uma perseverança que comprovará em nós a virtude, a força do Espírito de Deus em nós. Esta virtude comprovada, por sua vez, nos abrirá para uma esperança que não decepciona, porque ela nasce do amor do Pai e do Filho que foi derramado em nosso coração por meio do Espírito Santo (cf. Rm 5,3-5).
Nós ainda não somos capazes de compreender muitas coisas, nem a nosso respeito, nem a respeito dos outros e, sobretudo, nem a respeito de Deus. Mas Jesus disse que o Espírito da Verdade nos conduzirá à plena verdade. Peçamos ao Espírito Santo que apague/delete todas as imagens erradas que possamos ter de Deus dentro de nós. Que Ele nos abra ao verdadeiro conhecimento do Deus único, nos fazendo experimentar a presença viva do Pai e do Filho em nós. Que Ele também restaure nossos relacionamentos e nos ajude a respeitar o mistério de Deus presente em cada pessoa, amando-a como ela é e ajudando-a a se tornar aquilo que é chamada a ser como ser humano e como filho(a) de Deus.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 13 de maio de 2016

RESPIRAR O AR RENOVADO DO ESPÍRITO

Missa de Pentecostes. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 2,1-11; 1Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23.

Se uma casa permanece por muito tempo com suas portas e janelas fechadas, tudo ali começa a se estragar, a se deteriorar. Se nos encontramos num ambiente fechado, sem que o ar ali dentro se renove, logo começamos a nos sentir sufocados. O ar que respiramos parece estar carregado; carregado não só de poluição, mas de pessimismo, de incerteza, de preocupação. Além disso, para algumas pessoas o ar está carregado de medo, de ameaça, de dor, de desespero, de tristeza e de morte.             
               Nós precisamos de ar, de fôlego, de respiro, mas isso não só no sentido físico; também nossos relacionamentos, nossas ideias, nossa fé, nossa esperança, nosso amor precisam de um ar novo, precisam ser oxigenados. Hoje somos convidados a abrir nossas portas e janelas interiores e exteriores para receber o sopro de Jesus ressuscitado, que nos comunica o dom do Espírito Santo. Nosso barro – nossa fragilidade humana – precisa receber este sopro, para que voltemos a nos sentir vivos a partir de dentro. Nossos ossos secos – nossa vida cansada e nossa esperança desgastada – precisam receber este sopro do Espírito, para nos reerguer e nos reanimar.
            Jesus nos ensinou que o Espírito Santo é um dom a ser pedido ao Pai na oração (cf. Lc 11,13). No entanto, para que pedimos este dom? Para que desejamos o Espírito Santo? A Escritura nos ensina que o Espírito Santo nos é dado como força para socorrer a nossa fraqueza, como fecundidade para curar a nossa esterilidade, como defesa e proteção no combate que temos de travar contra o mal em nós e à nossa volta. Mas não é só isso. O Pai nos concede o seu Espírito não para tudo dê certo em nossa vida, mas para que a nossa vida se abra ao Seu desígnio de salvação.
            Por isso, tão importante quanto pedir o Espírito Santo é estar disposto a deixar-se conduzir por Ele. Às vezes, precisamos chegar ao ponto de permitir que Ele nos “acorrente” e nos leve onde não queremos ir, mas onde precisamos ir, para o nosso bem ou para o bem de outras pessoas. Nosso grande desafio é nos tornar obedientes ao Espírito Santo e não ficar opondo resistência ao que Ele nos diz ou nos impulsiona a fazer. De que adiantaria o Espírito Santo ser este ar puro que tudo renova e a tudo devolve vida, se insistimos em permanecer com nossas portas e janelas fechadas, por medo da mudança que o Espírito Santo quer operar em nós?
              Hoje caberia muito bem um pedido de perdão ao Espírito Santo por tantas coisas que foram e ainda são feitas em nossa Igreja, tendo como motivação de fundo o desejo de poder, a ambição e a vaidade que cada um de nós carrega dentro de si. Tanto ontem como hoje, quantos absurdos e contra-testemunhos nascidos do jogo de poder, do carreirismo, das eleições meramente humanas, da mentira, da injustiça, do roubo, da corrupção e da perseguição foram – e alguns ainda são – cometidos “em nome” do Espírito Santo? Quando agimos assim, nos esquecemos de que o Espírito Santo é o Espírito da Verdade e jamais compactua com o nosso pecado.       
O dia de Pentecostes foi interpretado por Pedro como o cumprimento da profecia de Joel: “Derramarei o meu Espírito sobre toda carne...” (Jl 3,1). O desejo de Deus é que todo ser humano seja abraçado, transformado e reavivado pelo seu Espírito. Assim, pedimos hoje, neste dia de Pentecostes, que o Espírito Santo derrame sua força sobre toda pessoa que se encontra enfraquecida física, emocional ou espiritualmente. Que Ele ajude cada um de nós a olhar a vida nos olhos, a enfrentar aquilo que cabe a nós enfrentar, sem medo, mas com coragem. Pedimos ao Espírito Santo que penetre na alma de todos os que estão caídos no desânimo ou que foram derrubados pelas injustiças humanas, para que reajam e se coloquem em pé diante dessas situações. Que Ele toque com a Sua unção na língua e no coração de todos nós, cristãos, para que anunciemos as maravilhas de Deus na língua em que cada pessoa possa entender e se abrir para a fé no Senhor Jesus. Pedimos que o fogo do Espírito Santo não somente transforme as armas de guerra em instrumentos de paz, mas que também converta o nosso coração de pedra e o torne capaz de perdoar e de crer na força transformadora do amor. Que Ele confirme o selo da Sua presença em nosso coração e renove em nós a consciência de que somos pessoas destinadas à ressurreição e, justamente por isso, nos dispomos a viver os nossos breves dias aqui colaborando com a Sua obra de renovar a face da terra...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 5 de maio de 2016

SÓ SERÁ ELEVADO AQUELE QUE SOUBE SE INCLINAR

Missa da Ascensão do Senhor. Palavra de Deus: Atos 1,1-11; Efésios 1,17-23; Lucas 24,46-53.

            Tanto o texto dos Atos dos Apóstolos como o Evangelho de hoje nos falam da despedida de Jesus em relação a seus discípulos: Ele deve voltar para o Pai e de lá enviar o Espírito Santo prometido. A Ascensão (elevação) de Jesus ao Céu nos lembra que viver também significa despedir-se. Sempre chega o momento em que temos que nos despedir. A criança se despede da infância para entrar na adolescência; o adolescente se despede para entrar na juventude; o jovem também se despede para entrar na vida adulta; o adulto, por sua vez, se despede para entrar na velhice; o idoso, enfim, se despede para entrar na Vida definitiva.
            Ora, toda despedida dói e causa medo. Sentimos dor por aquilo que temos que deixar, e também sentimos medo porque não sabemos o que nos espera naquela nova etapa da vida. Mesmo assim, a despedida é necessária, porque a vida nos chama a crescer, a ir em frente, a atingir a nossa plenitude humana e espiritual. Mesmo sabendo que os discípulos estavam apreensivos, Jesus foi preparando este momento de subir para o Pai, deixando claro que essa partida era necessária para que ele pudesse nos enviar o Espírito Santo prometido.
            Por mais estranho que pareça, a verdade é que Jesus subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai para estar ainda mais perto de nós! A carta aos Hebreus afirma que Jesus entrou no céu para ser o nosso intercessor diante do Pai (cf. Hb 9,24). Além disso, o apóstolo Paulo afirma que Deus Pai ressuscitou Jesus dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, bem acima de toda autoridade, colocando tudo debaixo de seus pés. Desse modo, devemos crer que nenhuma força que se oponha a nós na terra tem mais poder sobre nós do que Jesus (cf. Ef 1,20.22). Portanto, todos os dias precisamos colocar-nos debaixo do poder salvador de Jesus Cristo.  
            Neste dia da Ascensão de Jesus ao céu, nós recebemos uma promessa: “Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1,11). A ligação entre Jesus e sua Igreja, entre a Cabeça da Igreja (Jesus) e seu Corpo (nós, membros desse Corpo), é tão profunda e verdadeira que Jesus, antes de voltar para o Pai, enviou Maria Madalena para anunciar aos discípulos: “Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Jesus quer que nós estejamos também um dia onde Ele se encontra agora (cf. Jo 17,24): na plena comunhão com o Pai, no Céu.
              Nós cremos no Céu? Nós desejamos e temos esperança de estar no Céu com Jesus? A maioria das pessoas vive hoje como se o Céu não existisse. Ora, quem não tem esperança do Céu acaba por permitir que sua vida seja consumida pelo desespero aqui na terra. Quem não tem medo de perder o Céu já perdeu tudo (cf. Mc 8,36-37). Quem despreza o Céu está se privando da verdadeira e profunda alegria que só pode vir de Deus, pois Jesus comparou a entrada no Céu à entrada na alegria de Deus: “entra na alegria do teu Senhor!” (Mt 25,21).           
            Não nos esqueçamos de que crer, esperar e desejar o Céu significa também esforçar-nos por tornar a terra um lugar melhor, mais justo, mais humano, mais parecido com o Céu: “Quem não faz nada para mudar este mundo não crê num mundo melhor. Quem não luta contra a injustiça não crê num mundo mais justo. Quem não faz nada para mudar a terra não crê no céu” (J. A. Pagola).
O mesmo Jesus que se elevou ao Céu sempre se inclinou sobre o ser humano caído, ferido, desprezado e perdido. Antes da elevação, deve existir o inclinar-se. Esta é a missão que Jesus confia a cada um de nós: inclinar-nos para elevar os que estão caídos à nossa volta; despedir-nos de toda atitude de soberba, de arrogância, de elevação artificial e mentirosa, esvaziar-nos do nosso ego tão inflado, para sermos, de fato, um sinal do Céu para quem se encontra nos abismos que foram cavados pelos homens na terra.
            Preparemo-nos desde já para Pentecostes. Especialmente nesta semana, peçamos ao Pai o dom do Espírito Santo (cf. Lc 11,13). Esvaziemo-nos de nós mesmos; reconheçamos a nossa pobreza, a nossa miséria, o nosso nada, a nossa fraqueza, e peçamos pelo socorro do Espírito Santo. Humilhemo-nos debaixo da poderosa mão do Pai, pois a Sua graça resiste aos soberbos, mas é concedida aos humildes (cf. 1Pd 5,5); supliquemos que Ele se compadeça de nós e nos conceda uma presença renovada do Espírito Santo. Peçamos ao Espírito Santo, que sonda as profundezas do coração humano (1Cor 2,10), que visite as nossas profundezas, bem como aqueles que se encontram nas profundezas da sociedade humana, concedendo a todos nós a força de nos elevarmos com Cristo e sermos, uns para os outros, uma presença do Céu já aqui na terra.

                                                         Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 4 de maio de 2016

RECONCILIAR-SE CONSIGO MESMO


Não é coisa do outro mundo entrar em briga consigo mesmo! Há gente que se desgasta batendo de frente com sua imagem no próprio espelho. Entrar em conflito com os sinais de envelhecimento, rejeitando os cabelos brancos e as rugas na testa parece uma reação natural de quem só se enxerga pelo lado de fora. Debruçar-se sobre os erros do passado, vai deixando a pessoa sem forças para investir no presente e desencorajada na construção do futuro.
Um dos importantes segredos do bem viver é cultivar a reconciliação consigo mesmo. Dizer “sim” ao que sou é dispor-se a integrar tudo o que faz parte de minha história: capacidades e forças, fraquezas e conflitos, medos e tendências depressivas, potencialidades e debilidades. Aceitar-se como se é, sabendo que Deus nunca nos procura onde deveríamos estar, mas onde estamos, nem como deveríamos ser, mas como somos. Este é o primeiro passo de reconciliação.
Aceitar-se não significa acomodar-se, mas querer superar-se partindo do primeiro degrau onde nos é possível colocar os pés. Quando nos sonhamos ideais, sem aceitar-nos no real, terminamos nos tornando eternos insatisfeitos. Aceitar-nos é começar pelo real, percorrendo degrau por degrau na grande ascensão de uma vida rica de sentido.
Para fazer este caminho de reconciliação, preciso olhar com olhos de amor para aquilo que não gosto em mim, para aquilo que me põe em desconforto com minha auto-imagem. Isto não se faz por um decreto imediato, mas por um processo permanente de resgate da esperança que somos para nós mesmos, baseados na credibilidade de Deus que nos ama primeiro.
Eu não sou os meus defeitos! Eu não sou minhas sombras e pecados! Carrego comigo a “imagem e semelhança de Deus”, como uma vida em projeto. Esta imagem não fica enterrada por um mal que acontece em mim, nem por um defeito apontado por alguém. Eu sou muito mais do que pareço, muito melhor do que pensam e muito maior do que meu tamanho. “Sou o que sou diante de Deus!” E diante d’Ele não existem desenganados, mas sempre possibilidades de mais vida.
Reconciliar-se consigo mesmo não é um exercício de um dia para a vida toda. É um processo da vida toda a ser reassumido cada dia. Mesmo quando acreditamos que já nos reconciliamos conosco mesmos, sempre aparecem fraquezas que nos irritam, que gostaríamos de negar. Neste momento, devemos novamente dizer “sim” a tudo o que está dentro de nós.
Dentro desta perspectiva damos razão às palavras de São Francisco: “Irmãos, comecemos hoje tudo de novo, porque até agora, pouco nada fizemos.” Esta convicção não é um lance de pessimismo. Ao contrário, é um grito de esperança naquele potencial de vida nova e surpreendente que carregamos conosco e não podemos sufocar com o comodismo e a mediocridade.
Para nossas sombras há sempre uma luz maior para dissipá-las!
Para nossos defeitos há sempre qualidades melhores para superá-los!
Para nossas cruzes há sempre uma ressurreição garantida em Cristo!

http://www.paroquiasantoantoniodopartenon.org/index.php/paroquia/mensagem-do-paroco/290-reconciliar-se-consigo-mesmo

sexta-feira, 29 de abril de 2016

FOCAR NO ESSENCIAL PARA RECUPERAR A PAZ

Missa do 6º. Dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos 15,1-2.22-29; Apocalipse 21,10-14.22-23; João 14,23-29.

            Na maior parte do tempo, temos a impressão de que a nossa vida funciona no “piloto automático”: ela se desenvolve dentro de uma rotina; rotina que nós nem sempre escolhemos, mas que nos é “imposta” pela realidade sócio-político-econômica – e por que não dizer também “religiosa”? – na qual estamos inseridos. Ora, viver no “piloto automático” de fato pode parecer mais fácil; no entanto, a vida nos surpreende com problemas e desafios que exigem de nós escolhas, decisões e tomadas de atitude, as quais nos obrigam a sair do “piloto automático” e assumir a responsabilidade que nos cabe pela direção da nossa própria vida.
            Um exemplo concreto: a Igreja de Jerusalém, até então funcionando no “piloto automático” de levar o Evangelho somente aos judeus, agora se vê “desorientada” com a conversão dos pagãos. E aí? Ela – a Igreja – deveria impor aos pagãos certas práticas religiosas que eram próprias dos judeus (circuncisão)? Buscando a orientação do Espírito Santo, os apóstolos se reuniram e concluíram que não deveriam impor coisa alguma aos pagãos, a não ser o essencial: manter-se fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo.
            Aqui temos uma luz importante: diante de tantas propostas/opiniões, e de tantos conselhos/apelos que nos são dirigidos diariamente, seja pelas pessoas, seja pela mídia, devemos orientar as nossas escolhas/decisões/tomadas de atitude por aquilo que é essencial: o Evangelho de Cristo. A nossa própria Igreja foi desafiada, desde a Conferência de Aparecida (2007), a abandonar as suas “estruturas ultrapassadas” que não estão mais ajudando as pessoas de hoje a terem um verdadeiro encontro com Jesus Cristo (DAp, n.365). Estamos caminhando neste sentido? Nós, como Igreja ou pessoalmente, estamos abertos aos apelos que o Espírito Santo nos tem feito nos tempos atuais?
            O livro do Apocalipse nos trouxe hoje uma imagem da Igreja, prefigurada na Jerusalém celeste: ela tem doze portas, sendo três para o norte, três para o sul, três para o leste e três para o oeste, o que significa uma Igreja aberta a todos os povos – aberta para ir aos outros, a todos os outros, e aberta para acolher a todos. No entanto, esta acolhida só será efetiva, como nos mostrou a 1ª. leitura, se a preocupação maior da Igreja for aproximar as pessoas de Deus, e não verificar em que medida essas pessoas estão dentro das normas* da Igreja.
            Jesus nos faz hoje uma confortadora promessa: ele estará conosco e nos dará a sua assistência por meio do Espírito Santo. Precisamos, como fizeram os apóstolos, pedir a orientação do Espírito Santo, a fim de nos libertarmos das exigências de tantas orientações que nos mantém sob o peso da culpa, do medo, da ignorância religiosa e da condenação diante de Deus, e orientar a nossa vida para aquilo que é essencial, para aquilo que nos ajuda a viver segundo o Evangelho ensinado por Jesus. Aliás, o próprio Jesus garantiu que o Espírito Santo nos recordará e nos ajudará a compreender o seu Evangelho no dia a dia da nossa vida.
            Quando reorientamos a nossa vida para o essencial, encontramos a paz que tanto procuramos e que o próprio Jesus quer que tenhamos. Ele disse: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”**. A paz que Jesus nos dá é Ele mesmo: “Ele é a nossa paz” (Ef 2,14). A paz de Jesus é a paz de quem prometeu ficar e caminhar conosco todos os dias, assistindo-nos com o seu Espírito. Então, verifique se o seu coração tem paz. Se não tem, é provável que você esteja focando não naquilo que é essencial para a sua salvação, mas no que é acidental, supérfluo e, portanto, totalmente desnecessário. Jogue isso fora e volte a focar no essencial.
          Por fim, Jesus nos diz hoje: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração”. Um coração perturbado e intimidado é um coração que se perde nas coisas urgentes, supérfluas e acidentais da vida, ao invés de cuidar do essencial. Jesus quer que você tenha um coração forte, animado pelo Espírito Santo e orientado pela verdade do Evangelho. Além disso, na sua convivência com as pessoas, tente perceber o quanto você perturba e intimida o coração delas por se prender a tantos detalhes, picuinhas e minúcias desnecessárias, ao invés de olhar para aquilo que é essencial na sua relação com elas.

*Obviamente, a questão não é: ou as normas, ou a essência do Evangelho. A questão é: em que medida esta ou aquela norma ajuda a viver segundo o Evangelho e em que medida se distancia da sua essência.

**Na última quinta-feira, os telejornais noticiaram um bombardeio num hospital da Síria, fazendo 24 vítimas e ferindo tantas outras. Por trás desta guerra absurda, que já dura cinco anos e matou até agora cerca de 500 mil civis, está o jogo de poder entre Estados Unidos e Rússia. Isso mostra que os presidentes desses dois países se distanciaram do essencial – a vida humana – e se perderam atrás de detalhes como petróleo, dinheiro (esses dois países também lucram muito com a venda de armas onde quer que existam guerras) etc.. Enquanto um cinegrafista filmava a catástrofe humanitária em que se encontra a cidade de Alepo, uma menina bem pequena que passava por ali, conduzida por uma mulher, olhou para câmera e perguntou: “O que foi que nós fizemos?”...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O AMOR, QUANDO VERDADEIRO, SUPORTA SER MACHUCADO

Missa do 5º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos 14,21b-27; Apocalipse 21,1-5a; João 13,31-33a.34-35.

Algumas pessoas desistiram de amar. Os motivos podem ser vários. Eu posso ter sido traído no meu amor; posso ter dado demais e recebido de menos, ou nada recebido; posso ter sido violentado no meu amor; posso ter sofrido uma grande injustiça e me deparado com um mal tão grande que aquilo me fez desacreditar que vale a pena amar. De fato, Jesus disse que o mal crescerá de tal modo no mundo que o amor vai se esfriar no coração de muitas pessoas. Mas aquele que perseverar até o fim, aquele que decidir amar até o fim, esse será salvo (cf. Mt 24,12-13).
Enquanto algumas pessoas desistiram de amar, outras nunca aprenderam a amar, porque nunca fizeram a experiência de serem amadas. Seja por causa de uma extrema pobreza ou da desestruturação familiar, seja por causa das drogas e da violência dentro de casa, da ausência de um ou de ambos os pais, muitas crianças cresceram ou estão crescendo sem se sentir de fato amadas. As escolas, as salas de aula, os professores conhecem de perto as consequências disso.  
            Jesus nos convida a recuperar o amor. Ele é a única força capaz de salvar uma pessoa. O amor é a única experiência que faz com que o ser humano creia em Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8). Aliás, a Escritura afirma que cada ser humano foi amado por Deus antes mesmo de existir (cf. Ef 1,4). O simples fato de existirmos deveria ser a primeira “prova” de que somos amados. A existência de nenhum ser humano é fruto de um acidente ou do acaso, mas fruto de um desejo de Deus, que ama cada ser humano e por isso o chamou à existência.     
Ainda que tenhamos desistido de amar, ou que nunca tenhamos feito a experiência de sermos amados, Jesus nos convida a olhar para ele: “amem-se uns aos outros com eu amei e amo vocês”. Como foi que Jesus nos amou? Ele nos amou com um amor que ama até o fim (cf. Jo 13,1), com um amor que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,7). O amor de Jesus pelo ser humano é um amor incondicional: ‘Eu não vou te amar se você for bom e justo, se for obediente e correto, se isso ou aquilo. Amo você pela pessoa que você é, porque meu Pai criou você digno de ser amado. Amo você não porque você merece o meu amor, mas porque precisa dele para crescer e para desenvolver como pessoa e como filho de Deus’.
            O amor de Jesus por nós é um amor capaz de sofrer por aquele que ama, é um amor capaz de suportar a cruz, capaz de morrer para si mesmo para que possamos viver. Ouvimos agora a pouco uma verdade bíblica muito séria: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). Muitas pessoas só vão se abrir para o amor de Deus quando enfrentarem uma situação de dor. Além disso, o nosso amor só é verificado como verdadeiro pela maneira como nós lidamos com a dor.
            O nosso grande desafio como discípulos de Jesus é não desistir de amar por causa da dor que as pessoas ou o mundo possa nos causar. E nós só conseguiremos isso olhando para Jesus, que mesmo sendo rejeitado por uma parte da humanidade, amou até o fim, na sua cruz, cada ser humano. Madre Teresa de Calcutá conseguiu seguir Jesus tão de perto, na sua maneira de amar, que ela disse: “O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque”.
            Este é o amor de Jesus por nós: um amor que se machucou duramente na cruz para nos resgatar. É igualmente este amor que Jesus nos convida a reavivar dentro de nós, um amor que, sofrendo e se machucando diariamente, pode devolver à humanidade a fé no Deus que é amor, no Deus que nos prometeu criar um novo céu e uma nova terra, enxugar a lágrima de todos os olhos, eliminar para sempre a morte, o luto, o choro e a dor, e fazer novas todas as coisas. Diante dessas palavras, “dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5), renovemos a nossa fé.

Pe. Paulo Cezar Mazzi