sexta-feira, 17 de abril de 2015

LIBERTOS DA IGNORÂNCIA QUE NOS ADOECE E QUE TAMBÉM PODE NOS DESTRUIR

Missa do 3º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 3,13-15.17-19; 1Jo 2,1-5a; Lucas 24,35-48.

            O que leva uma pessoa a passar pela vida fazendo mal a si mesma e/ou aos outros? O que leva alguém a passar a vida inteira acorrentado a um vício? O que faz com que um relacionamento que tem tudo para dar certo dê errado? O que explica a atitude fanática de matar pessoas em nome de Deus ou em nome do dinheiro? O que está por trás dessa inversão de valores em que vivemos e que faz com que rejeitemos o bem e escolhamos o mal? A resposta para todas essas perguntas é uma só: a IGNORÂNCIA.
            Esta foi a denúncia do apóstolo Pedro ao povo judeu, após a ressurreição de Jesus: “Vós rejeitastes o santo e o justo e pedistes a libertação para um assassino... Vós agistes por ignorância... Arrependei-vos e convertei-vos...” (At 3,14.17.19). Quantas coisas erradas já fizemos na vida, ou ainda estamos fazendo, por ignorância, porque ignoramos o nosso valor, a nossa capacidade, a nossa verdade, ou porque ignoramos o valor e a capacidade das pessoas que convivem conosco? Quantas coisas ignoramos a respeito de nós mesmos, das outras pessoas e do próprio Deus?
Uma conhecida parábola descreve as consequências da ignorância em nossa vida: um jovem passa por um circo, vê um elefante enorme amarrado por uma das patas a uma pequena estaca e se pergunta por que o elefante, com toda a sua força física, não rompe a corda e não se liberta daquela vida aprisionada... É quando alguém lhe explica que, desde filhote, o elefante cresceu amarrado àquela estaca: ele só permanece preso ali porque desconhece, ou seja, IGNORA a força que tem. Assim como esse elefante, muitas pessoas passam sua vida amarradas a uma estaca chamada droga, relacionamento doentio, situação injusta, condição indigna etc., porque IGNORAM/desconhecem a força que têm...
Mais uma vez, o Senhor Jesus ressuscitado vai ao encontro dos discípulos e vê o coração deles tomado por preocupações e dúvidas. Por que as preocupações e as dúvidas encontram mais espaço em nosso coração do que a confiança, a fé, a alegria e a esperança? Porque ignoramos/desconhecemos não só a presença do Ressuscitado junto a nós, como ignoramos/desconhecemos que somos portadores da verdade e da força da ressurreição em nosso coração. Por que muitas vezes nosso coração está cheio de culpa e vivemos nos condenando e nos punindo – muitas vezes de maneira inconsciente –, devido a pecados que cometemos? Porque ou ignoramos/desconhecemos, ou nos esquecemos de que “temos junto do Pai um defensor, Jesus Cristo, o justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados...” (1Jo 2,1-2).   
No livro do profeta Oséias encontramos o retrato de um país destruído pela ignorância, retrato que se encaixa perfeitamente não só no Brasil, mas em tantos outros países da atualidade: “Não há sinceridade nem bondade, nem conhecimento de Deus na terra. Juram falso, assassinam, roubam, cometem adultério, usam de violência e acumulam homicídio sobre homicídio... Meu povo está sendo destruído por falta de conhecimento” (Os 4,1-2.6), ou seja, por ignorância.
No âmbito pessoal, o nosso maior problema não é a ignorância em si, mas o fato de que aprendemos a usar a ignorância como forma de sobrevivência, isto é, como desculpa para não nos trabalhar, para não enfrentar os verdadeiros conflitos que estão levando à ruína nosso relacionamento, para não nos desinstalar da sala da nossa casa e da frente da TV ou do computador, onde recebemos “atualizações” diárias de uma ignorância inteligentemente programada pelos meios de comunicação para nos manter “domesticados”, como aquele elefante preso a uma estaca por uma corda.
            Jesus ressuscitado “abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras...” (Lc 24,45). Até que ponto você deseja conhecer a verdade que é capaz de te libertar (cf. Jo 8,32)? Até que ponto você deseja que seja retirado dos seus olhos o véu que impede você de ver a vida como realmente ela é (cf. 2Cor 3,12-16)? Até que ponto você está disposto(a) a jogar fora a muleta da sua ignorância e ter a coragem de parar em pé sobre suas próprias pernas, ao invés de continuar a responsabilizar os outros pela sua infelicidade? 
            Senhor Jesus, hoje venho a ti com a minha ignorância. Embora ela tenha se tornado uma boa desculpa para eu não fazer as mudanças que preciso fazer, eu reconheço que preciso ser liberto(a) dela, Senhor. Preciso ter a coragem de tirar o véu, de jogar fora a muleta, de assumir atitudes concretas para não continuar mais a destruir a minha vida e a vida dos outros por causa da minha ignorância. Abre a minha inteligência, Senhor. Torna-me consciente do meu valor, da minha dignidade e da força da Tua ressurreição em mim. Torna-me também consciente do valor e da dignidade das outras pessoas. Que eu possa ajudá-las a reconheceram a força que carregam dentro de si, para se libertarem das amarras pessoais e sociais que as mantém prisioneiras de sofrimentos que, aos Teus olhos, são totalmente injustos e desnecessários. Retira-nos a todos da ignorância, Senhor, para que nenhum povo caminhe mais na direção da sua própria destruição. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi  

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DOS FERIMENTOS EM FAVOR DA VIDA NASCE A RESSURREIÇÃO

Missa do 2º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 4,32-35; 1João 5,1-6; João 20,19-31.

            Um dos ditados populares mais conhecidos é este: “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Na época atual, as pessoas que procuram por Deus querem senti-Lo. Se elas escolhem esta ou aquela igreja, esta ou aquela religião, é porque ali elas “sentem” a presença de Deus. Mas, como sentir um Deus que não podemos ver? Como nossa fé pode – e na verdade, deve – ir além do “ver” e do “sentir”, já que o apóstolo Paulo afirma que nós, cristãos, “caminhamos pela fé e não pela visão” (2Cor 5,7)?  
            No mesmo dia em que ressuscitou, Jesus encontrou seus discípulos “ao anoitecer” e com as “portas fechadas”. Esse “anoitecer” representa a sombra escura que tomou conta do coração dos discípulos por causa da morte de Jesus na cruz. Esse “anoitecer” também fala das noites escuras da nossa fé, quando não sentimos mais a presença de Deus, justamente porque não enxergamos os sinais dessa presença junto a nós. Isso faz com que fechemos as nossas portas, porque nos sentimos intimidados diante de um mundo que cada vez mais duvida da existência de Deus.
            Neste tempo pascal o Cristo ressuscitado entra em nossas noites escuras e atravessa nossas portas fechadas para nos dizer: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Os conflitos e as tribulações continuarão a se fazer presentes em nosso caminho de fé. Continuaremos a ser provados severamente (cf. Sl 118,18), mas nosso coração pode estar em paz porque Jesus venceu o mundo, o mal e a morte. Para provar isso, ele “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20). Por que as marcas dos ferimentos na cruz ainda estão presentes num corpo já glorificado, transformado pela ressurreição? Para nos lembrar de que, da mesma forma como o nosso corpo carrega agora as marcas da morte de Cristo, esse mesmo corpo carregará também as marcas da sua ressurreição (cf. 2Cor 4,10). Além disso, são as nossas feridas, nascidas da nossa luta por um mundo melhor, que podem fazer com que esse mesmo mundo ressuscite.     
           Ao ouvir o testemunho dos discípulos a respeito do encontro que eles tiveram com Jesus ressuscitado, Tomé não acreditou: “Se eu não vir a marca dos pregos..., se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20,25). Assim como Tomé, cada ser humano precisa ter o seu encontro pessoal com Jesus. Mas aqui existem dois perigos: o primeiro consiste em cairmos no erro de exigir de Jesus revelações particulares, tratamento VIP, reduzindo a nossa fé à satisfação de algum capricho ou à exigência de um “tratamento diferenciado”, porque nos julgamos pessoas “importantes / especiais”. O segundo perigo é nos esquecermos de que a fé vem da pregação da palavra de Cristo (cf. Rm 10,17), isto é, a fé nasce em nós a partir dos ouvidos e não dos olhos. Neste sentido, o próprio João termina seu Evangelho afirmando que tudo aquilo que ele escreveu “foi escrito para que vocês acreditem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham a vida em seu nome” (Jo 20,31).
            Para a nossa geração, bombardeada por tantas imagens, vale o alerta de Jesus a Tomé: “Acreditaste porque me viste? Felizes os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29). O que mantém a minha fé viva não é a imagem que eu vejo, mas a Palavra que eu leio/ouço e medito. Além disso, é a Palavra de Deus, lida ou ouvida e meditada, que me ajuda a interpretar aquilo que eu vejo, percebendo a presença escondida de Deus nos acontecimentos do dia a dia.      
            Jesus fez questão que Tomé tocasse nas suas feridas, ao mesmo tempo que o repreendeu: “Não sejas incrédulo, mas fiel” (Jo 20,27). Nossas mãos vivem tocando a tela de um celular, mas não tocam na pele de quem convive conosco. Nossos olhos se voltam constantemente para a tela de um celular, mas não se dirigem para olhar o rosto de quem convive conosco. Parece que nos esquecemos de que nós precisamos ser tocados para saber que existimos. Por outro lado, é preciso também nos questionar sobre a maneira como tocamos no outro – se é com respeito ou como quem se apossa de um objeto a ser utilizado, de um bem qualquer a ser consumido. 
            Não tenhamos medo de enxergar as nossas feridas e também as feridas de quem convive conosco ou cruza o nosso caminho. As mãos e o lado de Jesus crucificado e ressuscitado nos ensinam que ninguém ama e serve sem se ferir, mas é justamente desses ferimentos que nasce a ressurreição para o mundo. Assim como os primeiros cristãos, contagiados pela alegria da ressurreição de Jesus, não consideravam como próprias as coisas que possuíam, “mas tudo entre eles era posto em comum” (At 4,32) – até mesmo “o dinheiro... era distribuído conforme a necessidade de cada um” (At 4,34-35) –, que possamos nos sensibilizar com as necessidades materiais, humanas, afetivas ou espirituais das pessoas que convivem conosco na família, no trabalho, na escola/faculdade, na própria igreja...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 4 de abril de 2015

O PAI TAMBÉM RESSUSCITARÁ A NÓS!

Missa do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos dos Apóstolos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9.

            Por ocasião da morte de Lázaro, Jesus disse aos discípulos: “Lázaro morreu. Por causa de vocês, alegro-me de não ter estado lá, para que vocês creiam” (Jo 11,14-15). Ao dizer “alegro-me por não ter estado lá”, Jesus afirma que permitiu a morte de Lázaro, para que a fé dos discípulos e a nossa não fosse cancelada diante da morte. Assim como Jesus permitiu a morte de Lázaro, Deus Pai permitiu a morte de seu Filho Jesus, assim como permitiu a morte de tantos que amamos, assim como um dia permitirá a nossa morte. Esta é uma verdade difícil de aceitarmos: crer em Deus não nos impede de morrer, nem de ficarmos doentes, ou de perdermos o emprego, de sofrermos um acidente, de perdermos alguém que amamos, de experimentarmos quedas, fraquezas ou fracassos em nossa trajetória de vida.
            Toda a nossa fé só se baseia numa única verdade: Cristo ressuscitou. Justamente por isso, o apóstolo Paulo afirma que, se Cristo não houvesse ressuscitado, nós não teríamos no quê acreditar; nossa fé seria vazia, desprovida de razão; nós não teríamos onde nos agarrar. Porém, Paulo faz um alerta sobre o que significa crer que Jesus ressuscitou: “Se temos esperança em Cristo (ressuscitado) somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens” (1Cor 15,19). Se a nossa fé no Cristo ressuscitado serve de esperança somente para as coisas presentes – a superação de uma dificuldade, a solução de um problema, a cura de uma enfermidade, a melhora na vida profissional etc. – nós não entendemos nada a respeito da ressurreição, uma vez que ela diz respeito à verdadeira Vida, à vida eterna.     
            Sim. A fé no Cristo ressuscitado tem repercussões para esta vida presente também. “Porque Ele vive, eu posso crer no amanhã. Porque Ele vive, temor não há”, diz a música. Porque Cristo vive, depois de ter enfrentado a morte de cruz, eu posso lidar a minha cruz de uma maneira diferente. Porque Cristo vive, eu posso seguir pela vida sabendo que nada poderá me separar do amor de Deus, manifestado na pessoa de seu Filho Jesus (cf. Rm 8,37-39). Porque Cristo vive, eu posso suportar minhas provações crendo que Deus tem o poder de ressuscitar os mortos, e nessa minha fé Deus me devolve, de maneira transformada, tudo aquilo que eu entreguei em Suas mãos (cf. Hb 11,17-18). Porém, se eu não creio que Cristo ressuscitou, me torno como aquelas pessoas que cedem à injustiça e à maldade do mundo, por não acreditarem que exista um prêmio para a santidade, uma recompensa para quem vive segundo a justiça (cf. Sb 2,22).    
            Justamente porque Cristo ressuscitou o apóstolo Paulo nos convida a nos esforçar por “alcançar as coisas do alto, onde Cristo está” (Cl 3,1-2). Viver como ressuscitados, ou como filhos destinados à ressurreição, exige de nós um esforço para não nos corromper, para não nos desviar do caminho da salvação aberto por Jesus, um esforço diário para não reduzir nossas esperanças às promessas mundanas de felicidade. Esse esforço se torna maior ainda quando tomamos consciência de que a nossa vida de ressuscitados “está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,3). “Vida escondida” significa que a nossa fé na ressurreição de Cristo e na nossa própria ressurreição não vai retirar do caminho da nossa vida todas as dificuldades, mas vai nos dar a certeza de que nós seremos unidos ao triunfo de Cristo sobre todo tipo de dor, de fracasso e de morte.
             Neste domingo de Páscoa, nós temos duas palavras que testemunham que Jesus ressuscitou: a primeira é a “palavra” do túmulo vazio (cf. Jo 20,1-9); a segunda é a palavra daqueles que Deus escolheu para serem testemunhas de seu Filho ressuscitado: os que comeram e beberam com ele depois que ressuscitou dos mortos (cf. At 10,40-41). Diante do túmulo vazio cabem algumas perguntas: nosso túmulo está vazio ou nele ainda está sepultada a nossa esperança? Você já desenterrou a sua fé, diante da proclamação de que Jesus Cristo ressuscitou? Você diariamente retira a pedra da entrada do seu túmulo, para que Deus possa fazer vir para fora, ressuscitar, aquilo que morreu em você?
            Deus é sempre muito discreto. Foi discreto ao enviar Jesus ao mundo e foi discreto ao ressuscitá-lo dos mortos. Por estarmos contaminados pelo barulho e por manifestações espalhafatosas, extravagantes, acabamos por desprezar os sinais da ressurreição de Cristo em nossa vida e na vida da humanidade; acabamos por não crer nem na ressurreição de Jesus, nem na nossa futura ressurreição, nos esquecendo da Escritura que diz: Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14). Ressuscitando Jesus, Deus nos deu a esperança da vida eterna, e Deus não mente (cf. Tt 1,1-2).      
            Ainda que em muitos de nós forças como a fé e a esperança estejam morrendo ou tenham morrido, lembremos das palavras do apóstolo Paulo: “Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (Rm 14,9). Permitamos que Ele seja Senhor e Redentor não somente daquilo que ainda vive em nós, mas também daquilo que porventura tenha morrido ou esteja morrendo. Nosso Redentor vive! Por isso, podemos crer no amanhã. Nosso Redentor vive! Peçamos que ele nos erga do pó e nos coloque em pé, como homens e mulheres ressuscitados!
           
Para sua oração pessoal: MEU REDENTOR VIVE! (Aline Brasil)
https://www.youtube.com/watch?v=lRh0PFbwmwM

Pe. Paulo Cezar Mazzi

A MÃO DE DEUS E A NOSSA TRABALHANDO JUNTAS, NO SENTIDO DA RESSURREIÇÃO

Missa da Vigília Pascal. Palavra de Deus: Gênesis 1,1.26-31; Êxodo 14,15–15,1; Isaías 55,1-11; Romanos 6,3-11; Marcos 16,1-7.

            Numa época em que Nabucodonosor, rei da Babilônia, havia destruído praticamente tudo em Jerusalém, levando prisioneiros para a Babilônia os hebreus que sobreviveram à guerra; numa época em que esses sobreviventes diziam: “Os nossos ossos estão secos, a nossa esperança está desfeita. Para nós tudo está acabado” (Ez 37,11), Deus revelou a um homem, por meio do seu Espírito, qual era o seu projeto original para a humanidade. Assim nasceu o livro das origens, o Gênesis, livro que se abre com a criação do ser humano, descrevendo-o como imagem e semelhança de Deus, diferenciado na sua sexualidade como homem e mulher, dotado da capacidade de submeter a terra e dominá-la – no sentido de cuidar dela –, um ser humano cujas mãos carregam em si a benção da fecundidade. Mas, algo deu errado. Como disse muito bem o Legião Urbana na música “Índios”, “nos deram espelhos, e vimos um mundo doente”. O ser humano fabricou “espelhos”, através dos quais passou a ver a si mesmo, a Deus, ao próximo e à natureza de maneira distorcida. Ele se deixou submeter e dominar por seus instintos, por suas paixões, por sua ganância, pela tecnologia e pelo consumismo. Consequentemente, tornou-se uma pessoa estéril, vazia, superficial, colorida por fora e cinza por dentro. E ainda que esse cinza possa ter cinquenta tons, é sempre cinza.
            Pareceria que a leitura do Gênesis só serviria para nos deixar com saudade de uma realidade que nunca vivemos e nunca iremos viver... Mas “o desígnio do Senhor permanece para sempre” (Sl 33,11). O próprio Jesus afirmou que todas as coisas que existem serão renovadas, no sentido de recuperarem a sua verdade original (cf. Mt 19,28). Além disso, o próprio Deus declara, no livro do Apocalipse: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Seja no sentido particular, seja no sentido social ou mesmo global, nós podemos estar na mesma situação de desolação em que o autor do Gênesis se encontrava, na Babilônia. O fato é que Deus quer abrir nossos olhos, nossos ouvidos e nosso coração, para recobrarmos a consciência do seu desígnio para a humanidade: “Sim, eu conheço os desígnios que formei a vosso respeito..., desígnios de paz e não de desgraça, para vos dar um futuro e uma esperança” (Jr 29,11).
            Mas como enxergar um futuro e uma esperança, quando nos encontramos como os hebreus na noite da páscoa, tendo atrás de nós um exército inimigo que avança cada vez mais e à nossa frente um mar impossível de ser atravessado? De fato, segundo o Apocalipse, o mar representa o mal que ameaça engolir a todos no mundo em que vivemos. Quando Moisés se viu sem saída, Deus lhe ordenou: “Estende o braço sobre o mar e divide-o”... ‘Moisés estendeu a mão sobre o mar, e durante toda a noite o Senhor fez soprar um vento leste muito forte; e as águas se dividiram’ (Ex 14,21). O que deve ficar claro para nós nesta noite é o que sempre foi claro para os hebreus: quem faz é Deus. A obra da salvação é d’Ele e não nossa. É Ele quem faz sair, faz entrar, faz caminhar, faz passar. Só existe Páscoa (passagem) porque o Senhor abre uma passagem onde ela não existe, e nos faz passar ali. Mas também é preciso que se diga que só existe passagem porque nós decidimos confiar no Senhor e passar. De que adiantaria Deus abrir o mar em dois, se nós insistíssemos em ficar na margem de cá, sem fazer a travessia tão necessária para a vida nova que o Senhor quer para nós?
De fato, ao narrar a passagem pelo Mar Vermelho, o autor do Êxodo insiste na palavra “mão”. Durante toda aquela noite, a mão de Moisés e a mão do Senhor trabalharam juntas (cf. Ex 14,21.26.27.28). E este foi o resultado, ao amanhecer: “Naquele dia, o Senhor livrou Israel da mão dos egípcios, e Israel viu os egípcios mortos nas praias do mar e a mão poderosa do Senhor agir contra eles” (Ex 14,30-31). Somente quando nossas mãos se unem às mãos do Senhor e trabalham juntas na mesma direção dos seus desígnios é que conseguimos nos livrar das mãos do mal que hoje nos persegue e nos ameaça de inúmeras formas.
 Contudo, ao ouvir a narrativa do Êxodo, podemos questionar Deus como o salmista questionou: “O Senhor não nos dará mais o seu favor?... Deus esqueceu-se de ter piedade?... Eu confesso que é esta a minha dor: a mão de Deus não é a mesma; está mudada!” (Sl 77,8.10.11). Por que não vemos hoje a mão de Deus agindo com tanta “eficácia” em nossa história e na história da humanidade? O profeta Isaías nos oferece uma resposta para essa pergunta: “Não, a mão do Senhor não é muito curta para salvar... Antes, foram os vossos pecados que criaram um abismo entre vós e Deus... As vossas mãos estão manchadas de sangue... vossos lábios falam mentiras e vossa língua profere maldade” (Is 59,1-3). É Deus que pouco se importa com a humanidade hoje em dia, ou é a humanidade que teima em se manter distante do alcance da mão de Deus?
Ainda que muitos insistam em tentar viver não orientados nem protegidos pela mão do Senhor, Ele faz esse convite indistintamente a todo ser humano: “Todos vós que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro” (Is 55,1). A graça é de graça: para recebê-la, basta ter sede, basta ter fome; não é preciso dinheiro, não é preciso mérito, não é preciso ter uma vida irrepreensível. No entanto, é preciso se dispor a buscar o Senhor todos os dias: “Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto” (Is 55,6). Além disso, é preciso compreender que a forma de a mão de Deus agir sobre nós muitas vezes nada tem a ver com as nossas expectativas: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos” (Is 55,8). Mesmo não compreendendo a maneira de Deus agir em nosso favor ou em favor da humanidade, é importante confiar na sua palavra, pois Ele garante: “... a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (Is 55,11).
Que efeito a palavra de Deus quer produzir em nós, sobretudo nesta noite? Justamente o efeito da passagem da morte para a vida, pois esta é a verdadeira Páscoa, a Páscoa do Novo Testamento, a Páscoa de nosso Senhor Jesus, da qual participamos por meio do nosso batismo, o sacramento que nos identificou com Jesus Cristo na sua morte para que possamos ser identificados com ele na sua ressurreição (cf. Rm 6,5). Viver segundo o batismo que recebemos, cujas promessas renovaremos também nesta noite, significa “crucificar o nosso velho homem”, no sentido de nos esforçar a cada dia para morrer para o nosso pecado e procurar viver para Deus (cf. Rm 6,6.11), nos deixando conduzir pelo seu Espírito (cf. Rm 8,14), o qual é a garantia da nossa própria ressurreição (cf. Rm 8,11; Ef 1,13-14; 4,30).
Diante da paixão, morte e sepultamento de nosso Senhor, que celebramos ontem, nossas mãos, impotentes para mudar tantas situações, só se sentem capazes de trazer para Jesus perfumes para ungir o seu corpo, como Maria Madalena, Maria, a mãe de Tiago, e Salomé fizeram no primeiro dia da semana, antes de nascer o sol (cf. Mc 16,1-2). Assim como elas, nos sentimos incapazes de rolar a pedra da entrada do túmulo (cf. Mc 16,3-4), pedra que simboliza a incapacidade das nossas mãos em abrir, no meio da morte, uma passagem para a vida. Mas essa pedra já foi retirada pela mão de Deus. A mesma mão, que ajudou Moisés a dividir o mar em dois, é a mão que move Jesus para fora do túmulo, para fora da morte. É essa mão que hoje nos acompanha e nos conduz para a Galileia, para o encontro com o Cristo ressuscitado, que vai à nossa frente, nos ajudando a abrir novas passagens, até que tenhamos acesso à plena vida que Deus quer para todo ser humano.
É verdade que ‘ainda é noite’; a luz da ressurreição ainda não chegou a todos os corações. Justamente por isso, o Evangelho nos confia a missão de sermos ‘sentinelas da Manhã’, proclamando que Jesus ressuscitou, irradiando por meio de nossas atitudes a alegria do Evangelho. Se o mal cheiro da morte ainda se faz sentir em tantos ambientes, precisamos levar em nossas mãos o perfume da ressurreição, o bom odor de Cristo, a certeza de que tudo está destinado à ressurreição; tudo está destinado a ser restaurado em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado (cf. Ef 1,10; Cl 1,19-20). Enfim, seguindo o conselho da primeira carta de São Pedro, que possamos nos humilhar debaixo da poderosa mão de Deus, para que no momento oportuno Ele nos exalte, nos levante, nos ressuscite. Coloquemos n’Ele toda a nossa preocupação, sabendo que é Ele que cuida de nós! (cf. 1Pd 5,6-7).  

Para a sua oração pessoal: 
A MÃO DE DEUS (Pe. Fábio de Melo)

Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 31 de março de 2015

BEBER O CÁLICE CUJO REMÉDIO PODE NOS CURAR

Sexta-feira da Paixão do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 52,13–53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1–19,42.

            O dia de hoje é chamado de “sexta-feira da paixão do Senhor”. “Paixão” significa “ser passível de sofrimento”. Na verdade, tudo o que Deus criou é passível de sofrimento. Porém, a diferença entre nós, seres humanos, e as demais criaturas, é que elas não têm consciência do sofrimento, enquanto nós temos. Isso significa que temos a capacidade de dar um sentido para o nosso sofrimento. Além disso, é importante entender que “ser passível” de sofrimento não significa “sofrer de maneira passiva”. Muito pelo contrário; nós somos chamados a ter uma atitude ativa diante do sofrimento, a exemplo de Jesus que, como acabamos de ver, estava “consciente de tudo o que ia acontecer” (Jo 18,4) e, diante da reação defensiva de Pedro, corrigiu-o por meio dessas palavras: “Não vou beber o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18,11).
            Como você lida com o cálice do seu sofrimento? Você tem consciência de que a cruz nem sempre é uma opção? A cruz de Cristo nos diz claramente isto: a questão não é se eu e você vamos ter que enfrentar algum tipo de cruz – todo ser humano enfrenta isso; a questão é como vamos lidar com a nossa cruz. Lembrando ainda a psicologia de Victor Frankl, nós podemos não ser responsáveis pelo sofrimento que estamos passando, mas somos responsáveis pela forma como lidamos com ele. Alguns fogem do sofrimento por meio da bebida, das drogas e do suicídio por não tolerarem de modo nenhum a cruz chamada “frustração”, “perda”, “não”. E você? Qual a sua capacidade de tolerância em relação a essas coisas? Ainda que instintivamente todos nós fujamos do sofrimento, sempre vai chegar a hora de nos deparar com uma dor que não escolhemos, mas que faz parte daquele capítulo da nossa história de vida.  
            O profeta Isaías é muito claro ao dizer que o sofrimento é sempre feio e desagradável: “Tão desfigurado ele estava, que não parecia... ter um aspecto humano... Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse” (Is 52,14; 53,2). O sofrimento nos causa repulsa. No entanto, o fruto dele é extremamente benéfico para nós: “suas feridas, o preço da nossa cura” (Is 53,5). Conheço um casal que já estava em vias de separação, quando, então, ele descobriu que tinha um câncer. Durante o tratamento, ela se manteve próxima dele o tempo todo. O câncer foi vencido e hoje quem olha para esse casal fica admirado ao ver o amor que um manifesta ao outro. A cruz do câncer salvou o casamento deles, na medida em que fez os dois redescobrirem o amor um pelo outro.
            Não é prudente termos tanta pressa em passar adiante o cálice que o Pai nos dá para beber. Apesar de amargo, esse cálice pode conter o único e verdadeiro remédio para nos curar da ferida do egoísmo, do narcisismo, do vício, do pecado, de atitudes nossas que estão levando nossa vida pessoal, familiar, profissional ou espiritual para a morte. O sofrimento não é a morte. A morte é a não aceitação de nenhum tipo de sofrimento, atitude que nos torna covardes diante da vida.  
            O dia de hoje convida você a entregar a sua dor aos pés da cruz de Cristo. Talvez neste momento você esteja se sentindo como o salmista: “... tornei-me como um vaso espedaçado” (Sl 31,12), espedaçado porque você se confiou a mãos erradas, ou por que descuidou de si mesmo(a). Seja como for, este é o momento de você recolher seus pedaços e apresentá-los diante da cruz de Cristo, dizendo: “A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio... Eu entrego em vossas mãos o meu destino; libertai-me do inimigo e do opressor” (Sl 31,15-16).
            Da mesma forma, o autor da carta aos Hebreus nos convida a permanecer “firmes na fé que professamos” porque “temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas” (Hb 4,14.15), capaz de compreender nossa raiva, nossa ódio, nossa repulsa diante de tantas cruzes impostas injustamente sobre os ombros de tantas pessoas, pois Ele mesmo experimentou a raiva, o ódio e a repulsa dos homens. Somos convidados a nos aproximar da cruz não como o lugar da derrota do Filho de Deus, mas como o lugar que se tornou para nós o trono da graça: “Aproximemo-nos... com toda a confiança do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4,16).
            Ao contemplarmos a imagem de nosso Senhor morto na cruz, lembremos de como ele enfrentou a dor, o sofrimento, a cruz. Além de ter vivido tudo isso de maneira consciente e livre, Jesus questionou a violência injusta que existe no mundo: “Por que me bates?” (Jo 19,23). Ele também deixou claro a Pilatos que a sua vida sempre foi vivida sob a autoridade do Pai e que, sobretudo naquele momento de ir para a cruz, sua vida estava nas mãos do Pai e não nas mãos de nenhum ser humano (cf. Jo 19,11). Por fim, suas últimas palavras na cruz foram: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Assim como Jesus, que possamos dizer, na hora da nossa morte: ‘Consumei a missão que o Pai me confiou; combati o bom combate, terminei minha missão, guardei a fé (cf. 2Tm 4,7); fui fiel até à morte (cf. Ap 2,10); amei até o fim (cf. Jo 13,1).
            Uma palavra final: “Ao que feriram de morte, hão de chorá-lo, como se chora a perda de um filho único... Naquele dia, haverá um grande pranto em Jerusalém” (Zc 12,11). Permita-se chorar no dia de hoje. Chore por toda dor que ainda há no mundo, sobretudo pelos crucificados do nosso tempo. Chore por si mesmo(a), por seus pecados. Chore pela sua covardia diante da sua dor e, principalmente, pela covardia e individualismo que, diferente do Maria e do discípulo amado, não permitem que você esteja aos pés da cruz de quem sofre. Que essas lágrimas desobstruam a sua sensibilidade para a dor do outro e lavem seus olhos, para que você possa enxergar melhor Cristo em tantos que estão à sua volta.  

                                                Pe. Paulo Cezar Mazzi

EUCARISTIA: REMÉDIO GENEROSO E ALIMENTO PARA OS FRACOS


Missa da Ceia do Senhor. Palavra de Deus: Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

               Assim afirma o salmista a respeito de Deus: “Os vossos passos são fecundos; transborda a fartura onde passais, brotam pastos no deserto” (Sl 65,12-13). Onde Deus põe os pés, ou seja, por onde Deus passa, a miséria se converte em fartura, o deserto se transforma em terra fértil, a morte é mudada em vida. Como entender, então, o fato de que a passagem do Senhor pela terra do Egito tenha ferido de morte “todos os primogênitos, desde os homens até os animais” (Ex 12,12), conforme ouvimos na narrativa da Páscoa do Antigo Testamento? Ao passar pela terra do Egito, o Senhor Deus fez justiça ao seu povo, libertando-o do poder opressor do Faraó.
              A praga exterminadora atingiu quase todas as famílias, com exceção daquelas em que havia o sangue do cordeiro assinalado na porta da casa. Hoje, quais são as pragas exterminadoras que estão atingindo as famílias? A porta da nossa casa está aberta a qual tipo de praga exterminadora? Temos nos preocupado em assinalar a porta da nossa casa com o sangue do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo? O sangue de Jesus significa o seu amor por nós e por nossa família: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Em nossa casa, nos esforçamos por nos amar uns aos outros como Jesus nos ama, até o fim?
                  Nesta noite da Ceia do Senhor, nós não só recordamos a Páscoa do Antigo Testamento como também nos preparamos para celebrar a Páscoa do Novo Testamento, contemplando a atitude de Jesus quando chegou “a sua hora de passar deste mundo para o Pai” (Jo 13,1). Assim como os discípulos, nos assentamos à mesa da Eucaristia recordando as palavras do apóstolo Paulo: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão... Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice...” (1Cor 11,23.25). Antes de ser entregue por Judas (cf. Jo 13,11), Jesus tomou a iniciativa de ele mesmo se entregar a nós, no pão e no vinho, para que todas as vezes que comermos desse pão e bebermos desse cálice possamos proclamar que ele morreu porque nos amou até o fim. Uma vez que sua morte foi uma Páscoa, a passagem dele deste mundo para o Pai, em cada Eucaristia proclamamos a morte e a ressurreição de Jesus “até que ele venha” (1Cor 11,26) para nos fazer assentar com ele à mesa do banquete no Reino de Deus.  
                Você tem ocupado o seu lugar nesta mesa? Existe alguma “condição” para que você possa comer o Corpo e beber o Sangue do Senhor? Segundo o próprio Jesus, a condição mais necessária é a fé: “Em verdade vos digo que, em Israel, não achei ninguém que tivesse tal fé. Mas eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa do Reino dos Céus... enquanto os filhos do Reino serão postos para fora...” (Mt 8,10-12). Muitos que não comungam em nossas missas poderão ser os primeiros a se assentarem à mesa do Reino dos Céus, porque têm uma vivência mais próxima do Evangelho, enquanto nós, que comungamos, poderemos ser postos para fora, na medida em que nossa vivência não é tão coerente com o Evangelho.  
Hoje, em nossas igrejas, não são poucas as pessoas que não comungam. Isso nos preocupa? O apóstolo Paulo afirma que a decisão de comungar ou não deve partir da consciência da pessoa (cf. 1Cor 11,28-29). A nós, Igreja, cabe formar bem a consciência das pessoas quanto ao significado do Corpo e do Sangue do Senhor. São corajosas e questionadoras essas palavras do Papa Francisco: “A Eucaristia... não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (A Alegria do Evangelho, n.47). Na última ceia, Jesus se entregou como “remédio generoso” e como “alimento para os fracos” também a Judas e a Pedro, mesmo sabendo que, após a ceia, o primeiro iria traí-lo e o segundo iria negá-lo...
              “(...) vós estais limpos, mas não todos” (Jo 13,10). Se há algo que deve nos afastar da mesa da Eucaristia é a nossa atitude de não querer seguir o exemplo que Jesus nos deu: “Se eu, o Senhor e mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15). Muitos de nós comungamos, mas muitos de nós não estamos nem um pouco dispostos a lavar os pés uns dos outros. Comungamos o Corpo e Sangue daquele que veio para servir, mas não nos dispomos a assumir nenhum tipo de serviço em favor do Evangelho e do bem comum da sociedade.
                O mesmo Jesus, que nesta noite abraça a sua hora de passar deste mundo para o Pai nos amando até o fim, “passou por este mundo fazendo o bem” (At 10,38). Que a nossa comunhão com o Corpo e o Sangue do Cordeiro torne os nossos passos fecundos, para ajudarmos a transformar o deserto num jardim, a morte em vida. Que possamos passar por este mundo fazendo o bem, ajudando a marcar a porta da casa de cada família com o Sangue do Cordeiro de Deus, para que nenhuma pessoa seja atingida pela praga exterminadora do pecado pessoal e social.

                                                                    Pe. Paulo Cezar Mazzi

segunda-feira, 30 de março de 2015

ORAÇÃO A PARTIR DAS “SETE PALAVRAS” DE JESUS NA CRUZ

ORAÇÃO A PARTIR DAS “SETE PALAVRAS” DE JESUS NA CRUZ

1.   “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34)

A primeira palavra que Jesus pronuncia na cruz é “Pai”. Jesus sempre sentiu Deus muito próximo de si, como um verdadeiro Pai. Mesmo com a proximidade da cruz, Jesus disse aos discípulos: “Eis que chega a hora... em que vocês se dispersarão cada um para o seu lado, e me deixarão sozinho. Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Diante desta primeira palavra de Jesus, queremos rezar por todas as pessoas que se sentem órfãs, sozinhas, sem ninguém por elas. Rezamos também por todas as pessoas que precisam de perdão, seja da parte dos homens, seja da parte de Deus. Rezamos ainda por todos aqueles que precisam se dispor a perdoar. PAI NOSSO (3X) AVE MARIA (3X) GLÓRIA AO PAI...

2.   “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43)

A segunda palavra de Jesus é uma palavra de libertação, de absolvição. Um homem, condenado à morte como Jesus, recebe dele a declaração de que não está condenado diante de Deus. De fato, “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê, já está condenado...” (Jo 3,17-18). Também o apóstolo Paulo declara que “não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8,1). Rezamos, neste momento, por todas as pessoas que se sentem condenadas por sua própria consciência, pelos outros ou pelo mundo em que vivemos. Rezamos especialmente pelos que se sentem condenados por uma doença ou por um vício. Peçamos ao Espírito Santo que conceda ao coração de todo ser humano, especialmente dos cristãos, a firme convicção de que são homens e mulheres salvos por Cristo e em Cristo. PAI NOSSO (3X) AVE MARIA (3X) GLÓRIA AO PAI...

3.   “Mulher, eis aí teu filho”; “Filho, eis aí tua mãe” (Jo 19,26.27)

A terceira palavra de Jesus declara Maria como Mãe de todo discípulo seu, de todo aquele que segue Jesus até o fim e permanece com ele, sobretudo na hora da cruz. A presença de Maria aos pés da cruz é um convite a cada um de nós: precisamos estar aos pés da cruz uns dos outros. Como ensina o apóstolo Paulo, devemos nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (cf. Rm 12,15). A hora em que precisamos estar mais presentes na vida das pessoas é na hora em que elas estão fazendo uma experiência de cruz. Ao nos dar Maria por Mãe, Jesus também quer nos lembrar de que Deus jamais se esquece de nós em nossas aflições: “Por acaso uma mulher se esquecerá do seu filhinho?... Ainda que isso acontecesse, eu jamais me esqueceria de você. Eis que eu gravei seu nome na palma da mão” (Is 49,15-16). Aqui queremos rezar por todas as pessoas que estão sofrendo, especialmente por aquelas que se sentem esquecidas por Deus. Rezamos também para que o Senhor nos coloque em pé diante da cruz, numa atitude de força e de solidariedade para com quem sofre. PAI NOSSO (3X) AVE MARIA (3X) GLÓRIA AO PAI...

4.   “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,45)

A quarta palavra de Jesus é uma súplica pela presença do Pai. Assim como Jesus, quantas vezes não sentimos o Pai perto de nós, principalmente na hora da dor, na experiência do sofrimento... Assim como Jesus, nossa fé algumas vezes entra em crise, e a imagem que temos de Deus se quebra em inúmeros pedaços, porque não conseguimos entender o que está nos acontecendo. Entretanto, o próprio Jesus nos ensinou a confiar incondicionalmente no Pai: Ele conhece cada uma das nossas necessidades (cf. Mt 6,25-34). Nenhum fio de cabelo cai da nossa cabeça sem o consentimento do Pai (cf. Mt 10,28-31). Por isso, como o salmista, podemos proclamar: “O Senhor é meu pastor; nada me falta... Mesmo que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal eu temerei, pois estás junto a mim: teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo(a)” (Sl 23,1.4). Rezamos agora por nós e por todas as pessoas que precisam reencontrar Deus no meio dos acontecimentos. Pedimos ao Espírito Santo que nos dê discernimento para perceber a face do Pai que se volta para nós, sobretudo nas noites escuras da nossa crise de fé. Que a nossa confiança se fortaleça e se renove no Deus e Pai de nosso Senhor Jesus, que nos consola em toda e qualquer tribulação. PAI NOSSO (3X) AVE MARIA (3X) GLÓRIA AO PAI...
 
5.   “Tenho sede” (Jo 19,28)

A quinta palavra de Jesus se refere à sede. Mesmo se declarando à samaritana como fonte de água vida (cf. Jo 4,13-14), Jesus se une à sede que todo ser humano tem de vida, de justiça, de felicidade e de paz. Ele mesmo declarou: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6). Quantas pessoas desejam ardentemente por justiça? Além disso, todo ser humano traz dentro de si uma sede profunda de Deus: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2). “A ti estendo os meus braços, minha vida é terra sedenta de ti” (Sl 143,6). Diante da sede de Jesus, rezamos por todas as pessoas injustiçadas, por todos aqueles expostos à violência do mundo em que vivemos. Clamamos ao Pai que derrame a água viva do seu Espírito sobre toda carne, sobre o coração de toda pessoa que anseia por vida, por amor, por alegria e por paz. Também pedimos que o Senhor nos torne mais conscientes e responsáveis quanto ao uso da água, da energia e dos recursos naturais, para que não haja desperdício desses bens tão preciosos para a vida não só de todo ser humano, mas de toda criatura. PAI NOSSO (3X) AVE MARIA (3X) GLÓRIA AO PAI...

6.   “Tudo está consumado” (Jo 19,30)

A sexta palavra de Jesus se refere à consumação, ao término de toda a obra de salvação que Ele veio realizar em favor de cada ser humano. Jesus foi fiel ao Pai do início ao fim. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Nós começamos muitas coisas, mas não terminamos, porque desistimos delas no meio do caminho. No mundo de hoje as pessoas não se preocupam mais com a fidelidade, uma fidelidade que significa amar até o fim. No livro do Apocalipse, Jesus diz: “Seja fiel até o fim, e eu te darei a coroa da vida” (Ap 2,10). A Timóteo, o apóstolo Paulo faz este convite: “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado” (1Tm 6,12). Por sua vez, o mesmo apóstolo testemunha a respeito de si mesmo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7). Desse modo, queremos rezar neste momento por todas as pessoas enfraquecidas em sua fé. Pedimos ao Espírito Santo que venha em socorro da fraqueza delas e nossa, e nos conceda uma fé renovada, capaz de tudo crer, tudo suportar, tudo desculpar e tudo esperar. Mesmo diante das dificuldades, tribulações e provações, que possamos combater todo desânimo, todo pessimismo, sabendo que tudo podemos n’Aquele que nos fortalece, tudo podemos em Jesus Cristo, iniciador e consumador da nossa fé.  PAI NOSSO (3X) AVE MARIA (3X) GLÓRIA AO PAI...

7.   Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46)

A sétima e última palavra de Jesus na cruz se refere à sua entrega incondicional ao Pai. Jesus já havia dito aos discípulos: “Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). A violência e as injustiças do mundo podem nos ferir fisicamente, mas não podem matar em nós a fé, a esperança e o amor. Jesus quer que tenhamos a mesma confiança que Ele teve no Pai, quando declarou: “As minhas ovelhas escutam a minha voz...; eu lhes dou a vida eterna e elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão. Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos, e ninguém pode arrebatar coisa alguma das mãos do Pai” (Jo 10,27-29). Neste momento vamos rezar por todas as pessoas que foram arrebatadas de suas famílias por meio de uma doença, de um acidente ou da violência. Sabemos que elas estão nas mãos do Pai. Que suas famílias recebam o conforto de Deus e a certeza de reencontrá-las na ressurreição. Nas mãos do Pai colocamos também todas as nossas preocupações diárias, sabendo que é Ele quem cuida de nós (cf. 1Pd 5,7). PAI NOSSO (3X) AVE MARIA (3X) GLÓRIA AO PAI...



Pe. Paulo Cezar Mazzi