sexta-feira, 29 de abril de 2016

FOCAR NO ESSENCIAL PARA RECUPERAR A PAZ

Missa do 6º. Dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos 15,1-2.22-29; Apocalipse 21,10-14.22-23; João 14,23-29.

            Na maior parte do tempo, temos a impressão de que a nossa vida funciona no “piloto automático”: ela se desenvolve dentro de uma rotina; rotina que nós nem sempre escolhemos, mas que nos é “imposta” pela realidade sócio-político-econômica – e por que não dizer também “religiosa”? – na qual estamos inseridos. Ora, viver no “piloto automático” de fato pode parecer mais fácil; no entanto, a vida nos surpreende com problemas e desafios que exigem de nós escolhas, decisões e tomadas de atitude, as quais nos obrigam a sair do “piloto automático” e assumir a responsabilidade que nos cabe pela direção da nossa própria vida.
            Um exemplo concreto: a Igreja de Jerusalém, até então funcionando no “piloto automático” de levar o Evangelho somente aos judeus, agora se vê “desorientada” com a conversão dos pagãos. E aí? Ela – a Igreja – deveria impor aos pagãos certas práticas religiosas que eram próprias dos judeus (circuncisão)? Buscando a orientação do Espírito Santo, os apóstolos se reuniram e concluíram que não deveriam impor coisa alguma aos pagãos, a não ser o essencial: manter-se fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo.
            Aqui temos uma luz importante: diante de tantas propostas/opiniões, e de tantos conselhos/apelos que nos são dirigidos diariamente, seja pelas pessoas, seja pela mídia, devemos orientar as nossas escolhas/decisões/tomadas de atitude por aquilo que é essencial: o Evangelho de Cristo. A nossa própria Igreja foi desafiada, desde a Conferência de Aparecida (2007), a abandonar as suas “estruturas ultrapassadas” que não estão mais ajudando as pessoas de hoje a terem um verdadeiro encontro com Jesus Cristo (DAp, n.365). Estamos caminhando neste sentido? Nós, como Igreja ou pessoalmente, estamos abertos aos apelos que o Espírito Santo nos tem feito nos tempos atuais?
            O livro do Apocalipse nos trouxe hoje uma imagem da Igreja, prefigurada na Jerusalém celeste: ela tem doze portas, sendo três para o norte, três para o sul, três para o leste e três para o oeste, o que significa uma Igreja aberta a todos os povos – aberta para ir aos outros, a todos os outros, e aberta para acolher a todos. No entanto, esta acolhida só será efetiva, como nos mostrou a 1ª. leitura, se a preocupação maior da Igreja for aproximar as pessoas de Deus, e não verificar em que medida essas pessoas estão dentro das normas* da Igreja.
            Jesus nos faz hoje uma confortadora promessa: ele estará conosco e nos dará a sua assistência por meio do Espírito Santo. Precisamos, como fizeram os apóstolos, pedir a orientação do Espírito Santo, a fim de nos libertarmos das exigências de tantas orientações que nos mantém sob o peso da culpa, do medo, da ignorância religiosa e da condenação diante de Deus, e orientar a nossa vida para aquilo que é essencial, para aquilo que nos ajuda a viver segundo o Evangelho ensinado por Jesus. Aliás, o próprio Jesus garantiu que o Espírito Santo nos recordará e nos ajudará a compreender o seu Evangelho no dia a dia da nossa vida.
            Quando reorientamos a nossa vida para o essencial, encontramos a paz que tanto procuramos e que o próprio Jesus quer que tenhamos. Ele disse: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”**. A paz que Jesus nos dá é Ele mesmo: “Ele é a nossa paz” (Ef 2,14). A paz de Jesus é a paz de quem prometeu ficar e caminhar conosco todos os dias, assistindo-nos com o seu Espírito. Então, verifique se o seu coração tem paz. Se não tem, é provável que você esteja focando não naquilo que é essencial para a sua salvação, mas no que é acidental, supérfluo e, portanto, totalmente desnecessário. Jogue isso fora e volte a focar no essencial.
          Por fim, Jesus nos diz hoje: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração”. Um coração perturbado e intimidado é um coração que se perde nas coisas urgentes, supérfluas e acidentais da vida, ao invés de cuidar do essencial. Jesus quer que você tenha um coração forte, animado pelo Espírito Santo e orientado pela verdade do Evangelho. Além disso, na sua convivência com as pessoas, tente perceber o quanto você perturba e intimida o coração delas por se prender a tantos detalhes, picuinhas e minúcias desnecessárias, ao invés de olhar para aquilo que é essencial na sua relação com elas.

*Obviamente, a questão não é: ou as normas, ou a essência do Evangelho. A questão é: em que medida esta ou aquela norma ajuda a viver segundo o Evangelho e em que medida se distancia da sua essência.

**Na última quinta-feira, os telejornais noticiaram um bombardeio num hospital da Síria, fazendo 24 vítimas e ferindo tantas outras. Por trás desta guerra absurda, que já dura cinco anos e matou até agora cerca de 500 mil civis, está o jogo de poder entre Estados Unidos e Rússia. Isso mostra que os presidentes desses dois países se distanciaram do essencial – a vida humana – e se perderam atrás de detalhes como petróleo, dinheiro (esses dois países também lucram muito com a venda de armas onde quer que existam guerras) etc.. Enquanto um cinegrafista filmava a catástrofe humanitária em que se encontra a cidade de Alepo, uma menina bem pequena que passava por ali, conduzida por uma mulher, olhou para câmera e perguntou: “O que foi que nós fizemos?”...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O AMOR, QUANDO VERDADEIRO, SUPORTA SER MACHUCADO

Missa do 5º. dom. da páscoa. Palavra de Deus: Atos 14,21b-27; Apocalipse 21,1-5a; João 13,31-33a.34-35.

Algumas pessoas desistiram de amar. Os motivos podem ser vários. Eu posso ter sido traído no meu amor; posso ter dado demais e recebido de menos, ou nada recebido; posso ter sido violentado no meu amor; posso ter sofrido uma grande injustiça e me deparado com um mal tão grande que aquilo me fez desacreditar que vale a pena amar. De fato, Jesus disse que o mal crescerá de tal modo no mundo que o amor vai se esfriar no coração de muitas pessoas. Mas aquele que perseverar até o fim, aquele que decidir amar até o fim, esse será salvo (cf. Mt 24,12-13).
Enquanto algumas pessoas desistiram de amar, outras nunca aprenderam a amar, porque nunca fizeram a experiência de serem amadas. Seja por causa de uma extrema pobreza ou da desestruturação familiar, seja por causa das drogas e da violência dentro de casa, da ausência de um ou de ambos os pais, muitas crianças cresceram ou estão crescendo sem se sentir de fato amadas. As escolas, as salas de aula, os professores conhecem de perto as consequências disso.  
            Jesus nos convida a recuperar o amor. Ele é a única força capaz de salvar uma pessoa. O amor é a única experiência que faz com que o ser humano creia em Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8). Aliás, a Escritura afirma que cada ser humano foi amado por Deus antes mesmo de existir (cf. Ef 1,4). O simples fato de existirmos deveria ser a primeira “prova” de que somos amados. A existência de nenhum ser humano é fruto de um acidente ou do acaso, mas fruto de um desejo de Deus, que ama cada ser humano e por isso o chamou à existência.     
Ainda que tenhamos desistido de amar, ou que nunca tenhamos feito a experiência de sermos amados, Jesus nos convida a olhar para ele: “amem-se uns aos outros com eu amei e amo vocês”. Como foi que Jesus nos amou? Ele nos amou com um amor que ama até o fim (cf. Jo 13,1), com um amor que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,7). O amor de Jesus pelo ser humano é um amor incondicional: ‘Eu não vou te amar se você for bom e justo, se for obediente e correto, se isso ou aquilo. Amo você pela pessoa que você é, porque meu Pai criou você digno de ser amado. Amo você não porque você merece o meu amor, mas porque precisa dele para crescer e para desenvolver como pessoa e como filho de Deus’.
            O amor de Jesus por nós é um amor capaz de sofrer por aquele que ama, é um amor capaz de suportar a cruz, capaz de morrer para si mesmo para que possamos viver. Ouvimos agora a pouco uma verdade bíblica muito séria: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). Muitas pessoas só vão se abrir para o amor de Deus quando enfrentarem uma situação de dor. Além disso, o nosso amor só é verificado como verdadeiro pela maneira como nós lidamos com a dor.
            O nosso grande desafio como discípulos de Jesus é não desistir de amar por causa da dor que as pessoas ou o mundo possa nos causar. E nós só conseguiremos isso olhando para Jesus, que mesmo sendo rejeitado por uma parte da humanidade, amou até o fim, na sua cruz, cada ser humano. Madre Teresa de Calcutá conseguiu seguir Jesus tão de perto, na sua maneira de amar, que ela disse: “O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque”.
            Este é o amor de Jesus por nós: um amor que se machucou duramente na cruz para nos resgatar. É igualmente este amor que Jesus nos convida a reavivar dentro de nós, um amor que, sofrendo e se machucando diariamente, pode devolver à humanidade a fé no Deus que é amor, no Deus que nos prometeu criar um novo céu e uma nova terra, enxugar a lágrima de todos os olhos, eliminar para sempre a morte, o luto, o choro e a dor, e fazer novas todas as coisas. Diante dessas palavras, “dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5), renovemos a nossa fé.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 15 de abril de 2016

ESCUTAR SIGNIFICA DEIXAR-SE CUIDAR

Missa do 4º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos 13,14.43-52; Apocalipse 7,9.14b-17; João 10,27-30.

Você consegue escutar? Seus ouvidos estão abertos ou fechados? Estão livres ou ocupados? Você tem conseguido ouvir seu próprio interior? Você tem interesse em ouvir a pessoa que convive com você? Você é capaz de ouvir Deus?
Ninguém escuta no barulho. Nós só conseguimos escutar quando silenciamos. Silenciar significa ter a coragem de afastar-se do barulho exterior, e também ter paciência, até que o nosso barulho interior se acalme e possamos voltar a ouvir Deus. “Se hoje você escutasse a sua voz!” (Sl 95,7), diz o salmista, convidando-nos a escutar o Senhor, que a cada dia, na sua Palavra, quer nos trazer a paz, nos curar, nos reorientar, nos animar, nos salvar.
Jesus, o Pastor que deseja nos conduzir para as fontes de água da vida (cf. Ap 7,17), disse: “As minhas ovelhas escutam a minha voz” (Jo 10,27). Escutar a voz do pastor é a única coisa que mantém uma ovelha junto daquele que pode cuidar dela. Assim, entendemos que escutar significa deixar-se cuidar. Enquanto você aceita ouvir Deus, ele pode cuidar de você. A partir do momento em que você decide não mais ouvir Deus, ele não tem mais como cuidar de você. 
Escutar também tem a ver com liberdade. A ovelha é essencialmente livre. Nada a mantém presa ao pastor: nenhuma corda, nenhum cabresto, nenhuma coleira. A única coisa que vincula a ovelha ao pastor é a voz dele. Deus, o Pastor, sabe que precisamos ouvir a sua voz para termos vida, mas ele respeita a nossa liberdade: “Ouve, meu povo, eu te conjuro, oxalá me ouvisses, Israel! (...) Mas meu povo não ouviu minha voz, Israel não quis obedecer-me; então os entreguei ao seu coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos! (Sl 81,9.12-13).
A ovelha que livremente decide não mais ouvir a voz do seu Pastor coloca-se numa situação de autodestruição. Quantas feridas se abriram em nós, ou quantas feridas nós abrimos nos outros e na sociedade, unicamente por não querermos mais ouvir Deus? Quantos erros cometemos e quanto sofrimento causamos a nós e aos outros porque não quisemos mais ser cuidados por Deus e passamos a seguir os impulsos do nosso próprio egoísmo? Quanta dor e quanta injustiça poderiam ser eliminadas da nossa vida pessoal e social se cada um decidisse voltar a escutar Deus?      
Quando Paulo e Barnabé se deram conta de que os judeus não queriam escutar a Palavra, decidiram dirigir-se aos pagãos. Mas, antes disso, deixaram bem claro: quem rejeita a Palavra (decidindo não escutar Deus), considera-se indigno da vida eterna; quem acolhe a Palavra (decidindo obedecer a Deus), abraça a fé e destina sua existência à vida eterna (cf. At 13,46.48).
Pertencendo a este imenso rebanho que é a humanidade, cada um de nós precisa perguntar-se: Quem eu tenho escutado? Que tipo de voz interior tem guiado minha consciência e meu coração? Eu tenho permitido que Jesus, o Cordeiro, seja de fato o meu Pastor e conduza a minha vida para as fontes de água da vida? Minha vida está sendo conduzida por Deus ou tem sido arrastada de um lado para outro, segundo a desorientação do meu coração? Como está a minha capacidade de escuta na convivência com as pessoas? Como pai/mãe, escuto meus filhos? Como filho(a), escuto meus pais? No ambiente de trabalho, escuto as pessoas que convivem comigo?
O pastor simboliza o cuidado. Todos os dias, a vida coloca pessoas e situações sob os nossos cuidados. Estamos cuidando? Estamos sendo verdadeiros e bons pastores? Jesus fala das mãos; das suas mãos e também das mãos do Pai. Na medida em que procuramos nos colocar nas mãos de Jesus, podemos ter essa firme confiança: ninguém e nenhuma situação podem nos arrancar das mãos de Jesus. O Pai, que quis confiar cada um de nós aos cuidados de Jesus, é maior que todos. Assim, às mãos de Jesus e às mãos do Pai confiamos a vida de cada ser humano, sobretudo das ovelhas feridas, dispersas, descuidadas, porque seus pastores deixaram de cuidar delas para cuidarem apenas de si mesmos.
No final desta reflexão, lembremos as palavras do salmista: “Eu me desvio como ovelha perdida: vem procurar o teu servo!” (Sl 119,176). Pai, sabemos que o teu Filho foi enviado por ti para procurar e salvar o que estava perdido (cf. Lc 19,10). Descerra os nossos ouvidos, para que possamos ouvir e obedecer à sua voz de Pastor, que deseja nos conduzir para as fontes de água da vida. Muitos se desviam de ti, Senhor, pelo enfraquecimento da fé, pelas injustiças sofridas, pelo crescimento da maldade no mundo. Vem nos procurar, Pai! Precisamos ser reencontrados e reconduzidos. Traze-nos de volta às tuas mãos. Temos consciência de que cada um de nós é também um pastor, porque o Senhor confiou pessoas e situações aos nossos cuidados. Por isso, te pedimos: fortalece também as nossas mãos, para que elas não desistam de procurar e salvar aqueles que se extraviaram. Suscita no meio de nós – nas famílias, nas escolas, nas empresas, nos hospitais, nas creches, nos presídios, nas igrejas, no campo da política e da economia – pastores segundo o teu coração (cf. Jr 3,15). Devolve-nos a todos, Pai, às mãos redentoras de teu Filho Jesus. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 7 de abril de 2016

EU NUNCA ME ARREPENDI DE TER CHAMADO VOCÊ

Missa do 3º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos 5,27b-32.40b-41; Apocalipse 5,11-14; João 21,1-19.

            O primeiro encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos havia se dado à beira da praia. Jesus havia passado por eles e feito o convite: “Sigam-me e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mt 4,19). O Evangelho de hoje, ao narrar a terceira vez em que Jesus ressuscitado aparece aos discípulos, nos coloca novamente à beira da praia, onde Jesus encontra seus discípulos tentando pescar (vs.3.4). Ora, o que levaria esses discípulos, que haviam recebido de Jesus a missão de pescar homens, isto é, de salvar pessoas, voltarem a fazer o que faziam antes de se tornarem discípulos: pescar peixes? Apesar de Jesus ressuscitado já lhes ter aparecido duas vezes, eles parecem que ainda estavam paralisados na morte da cruz.
            Não é assim que também acontece conosco? Quando algo muito ruim nos acontece, no desempenho da missão que abraçamos, surge em nós uma enorme saudade do passado, e junto com ela, a tentação de ignorar tudo o que fizemos até agora e voltar, quem sabe, à estaca zero: ‘Talvez tivesse sido melhor para mim não ter me casado, não ter aceito este emprego, não ter tido filhos, não ter abraçado este serviço na Igreja’. ‘Talvez teria sido melhor para mim ter seguido por um outro caminho, não ter me envolvido tanto na luta por uma sociedade melhor, não ter colocado tanta esperança em Deus’.  
            Mas, quando tentamos voltar a pescar, isto é, voltar a ser a pessoa que éramos antes de termos conhecido Deus e abraçado o Seu projeto a nosso respeito, percebemos que as coisas não funcionam mais. Trabalhamos a noite toda e não pescamos nada (v.3). Parece que desaprendemos pescar. O dia vai amanhecer novamente e nos lembrar de que estamos no mesmo lugar, na mesma situação, enroscados no mesmo problema, paralisados na mesma dor.
            No entanto, quando o dia amanhece, Alguém está em pé, na beira da praia, e nos observa. Por saber o que se passa dentro de nós, ele nos oferece a sua Palavra como orientação para lidarmos com aquilo que no momento nos mergulha no sentimento de derrota e no desânimo: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis” (Jo 21,6). Na medida em que confiamos na sua Palavra e nos deixamos orientar por ela, a situação começa a mudar. Como disse o salmista: “Se à tarde vem o pranto visitar-nos, de manhã vem saudar-nos a alegria... Transformastes o meu pranto em uma festa... Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 30,6.12.13).  
            Aquele que está em pé, porque vivo e ressuscitado, e nos oferece a sua Palavra como luz para o nosso caminho, “é o Senhor!” (Jo 21,7). Ele já havia falado conosco outras duas vezes, para comprovar a sua presença como ressuscitado junto a nós, mas parece que ainda não nos deixamos convencer. Parece que achamos que, se Jesus ressuscitou, não teria por que nós continuarmos a enfrentar problemas em nossa vida no dia a dia. Mas esta terceira aparição de Jesus após a ressurreição quer nos ensinar que ele não desiste de nós, assim como não quer que desistamos da missão que abraçamos em nome dele.  
            Ao se dar conta de que aquele homem em pé, na margem, era Jesus ressuscitado, Pedro se veste, pois estava nu, e mergulha no mar. Este gesto dá a entender que Pedro precisava urgentemente ir ao encontro de Jesus e não queria chegar nu diante dele. Pedro não quis esperar até que a barca chegasse à margem. Havia dentro dele uma necessidade enorme de estar diante do Senhor ressuscitado, quem sabe para dizer: ‘Eu quase joguei tudo pro alto, Senhor; quase desisti da minha vocação. Que bom que o Senhor não desistiu de mim!’.
            De fato, esta terceira aparição de Jesus aos discípulos parece ter como motivo principal recuperar a fidelidade e o amor de Pedro pela missão que Jesus lhe havia confiado. Depois que os discípulos comem com Jesus, ele faz questão de conversar com Pedro: “Tu me amas?... Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15.16.17). Se, no momento da cruz, a fidelidade e o amor de Pedro para com Jesus haviam se quebrado, Jesus lhe oferece agora a oportunidade de refazer o caminho e de responder novamente ao seu chamado.
            Jesus termina o diálogo com Pedro refazendo o convite: “Siga-me” (Jo 21,19). Hoje o Senhor ressuscitado nos dirige a mesma palavra: Siga-me! Você sabe agora quem está seguindo: não um fracassado na cruz, mas um vitorioso ressuscitado; não um deus morto, mas o Filho do Deus vivo. Você sabe agora que nenhuma noite dura para sempre e que, em cada amanhecer, eu estarei esperando por você, para retomarmos juntos a missão de trabalhar pela salvação das pessoas. Siga-me diariamente e a cada momento, não só quando me sentir vivo e ressuscitado a seu lado, mas também quando achar que estou morto dentro de você. Siga-me, mantendo a fidelidade à missão que lhe confiei, sabendo que você pode contar com a minha Palavra para orientá-lo(a) nas horas de indecisão. Siga-me, mesmo depois de cada tropeço, de cada queda, de cada pecado seu. Siga-me, porque, apesar das suas fragilidades, eu jamais me arrependi de tê-lo(a) chamado para o meu serviço. Siga-me, não exigindo nem provas, nem garantias. Siga-me apenas confiando no meu amor por você e nos dons que eu lhe dei, para que você possa verdadeiramente ajudar a cuidar das ovelhas do meu rebanho. Hoje eu lhe digo apenas isso: siga-me!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 31 de março de 2016

PRECISAMOS REENCONTRAR AS NOSSAS MÃOS

Missa do 2º. dom. da Páscoa. Palavra de Deus: Atos 5,12-16; Apocalipse 1,9-11a.12-13.17-19; João 20,19-31.  

A leitura dos Atos dos Apóstolos nos mostrou que a presença de Jesus ressuscitado no meio da sua Igreja fez com que Pedro e os demais apóstolos se tornassem uma presença de cura e de ressurreição junto ao povo. Essa presença de cura nos faz lembrar de uma constatação nada positiva de uma senhora, a respeito de alguns médicos atuais. Ela dizia: “Os médicos perderam as mãos”. Em que sentido? No sentido de que alguns médicos, durante a consulta, não chegam sequer a tocar no paciente (alguns, inclusive, nem olham para o rosto do paciente), seja porque não querem, seja porque estão com pressa – há uma fila enorme de pessoas esperando ser atendida. Portanto, o diagnóstico é dado pelo ouvir e, às vezes, olhar o paciente sem, contudo, tocá-lo.  
Se isso é verdade, tal verdade infelizmente não se aplica somente a alguns médicos. Quantos de nós também perdemos as mãos e não nos demos conta disso? Quando foi a última vez que sua mão tocou em alguém? Em quem? Com qual intenção? Sejamos sinceros! Nossas mãos deslizam frequentemente e com facilidade na tela do nosso celular, mas não encontram jeito para tocar na pessoa que está ao nosso lado, principalmente se a pessoa em questão não tem beleza, não é da nossa cor, nem do nosso sangue, ou está em dificuldade, doente, depressiva, enlutada...
 No domingo de Páscoa, Jesus ressuscitado encontra a sua Igreja de portas fechadas, por medo dos judeus. Seja por medo, seja por individualismo ou por comodismo, nossas portas estão cada vez mais fechadas para o outro. O bom é que essas portas fechadas não impedem Jesus de entrar. Ele entra para nos trazer a sua paz, a alegria da sua vitória sobre a morte. Mas, porque seu corpo está agora glorificado, ele precisa nos mostrar as mãos e o lado, marcados pela cruz, para que possamos reconhecê-lo.
            Jesus foi um homem que nunca perdeu as mãos. Suas mãos perdoaram, curaram, ensinaram, levantaram, encontraram, fortaleceram, redimiram, salvaram. Mesmo agora, após a ressurreição, ele mostra as suas mãos chagadas, feridas, e diz a cada um de nós: “Não tenha medo... Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos” (Ap 1,17.18). Se temos nos fechado atrás da porta do medo, da indiferença, do desânimo ou da tristeza, Jesus tem a chave para abri tais portas e nos fazer sair para reencontrar a coragem, a solidariedade, o ânimo e a alegria.  
            “(...) Caí como morto a seus pés, mas ele colocou sobre mim a sua mão direita” (Ap 1,17). Quantas pessoas estão caídas à sua volta, sentindo-se mortas na fé e na esperança? Você tem colocado sua mão sobre elas, para que voltem a se sentir vivas? As mãos de Jesus ressuscitado são mãos chagadas, que carregam as marcas de quem se feriu para salvar, de quem foi ferido porque amou até o fim. Só quem se deixa “machucar” pelas exigências do Evangelho pode ser uma presença de cura e de ressurreição junto a quem está ferido ou sentindo-se morto.  
             “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). Jesus ressuscitado nos envia para as portas fechadas, para encontrar aqueles que estão atrás dessas portas e precisam recobrar o sentido de viver. Jesus ressuscitado também nos envia para os “Tomés” de hoje, para as pessoas que estão descrentes em relação à Igreja, à Justiça, à Política, e até mesmo em relação à Humanidade. Precisamos nos aproximar com humildade das pessoas que estão feridas em sua fé. Muitas delas deixaram de crer porque nós, cristãos, também perdemos as nossas mãos: elas estão frequentemente limpas, hidratadas e perfumadas, e sempre mais distantes da dor alheia. Não é de admirar que, quando falamos de Jesus Cristo, não sejamos levados a sério e nossa pregação não reconduza para a fé tantos “Tomés” de hoje.
            O Evangelho de hoje termina dizendo: “... estes (sinais) foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A fé não nasce do ver, nem do tocar, mas do ouvir o anúncio sobre Jesus Cristo (cf. Rm 10,17), o rosto visível da misericórdia do Pai. A nossa missão é justamente esta: ser uma presença viva do Evangelho junto àqueles que não creem ou cuja fé está desfalecida. Na medida em que reencontrarmos as nossas mãos e as reabilitarmos para tocar nas chagas dos crucificados de hoje, nossa presença será como a dos apóstolos no início da Igreja: uma presença de cura e de ressurreição.

                                                           Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 23 de março de 2016

DESDE JÁ RESSUSCITADOS, MAS NÃO AINDA TOTALMENTE

Missa do domingo de Páscoa. Palavra de Deus: Atos 10,34a.37-43; Colossenses 3,1-4; João 20,1-9.

            “Povo meu, vocês ficarão sabendo que eu sou o Senhor, quando eu abrir seus túmulos, e de seus túmulos eu tirar vocês. Colocarei em vocês o meu espírito, e vocês reviverão” (Ez 37,13-14). Esta promessa de Deus foi feita aos israelitas enquanto prisioneiros na Babilônia (a partir de 587 a.C.). A prisão daquele povo era comparada a um túmulo, do qual Deus o tirou, permitindo que voltasse ao seu país e reconstruísse a sua vida novamente (a partir de 538 a.C.).
Quando somos tirados, pela graça de Deus, do túmulo do medo, da ameaça, da angústia, do sofrimento, ou mesmo quando ajudamos pessoas a saírem do túmulo do desânimo, da opressão ou de uma determinada injustiça, ali se experimenta uma espécie de ressurreição: volta-se a viver, recupera-se o sentido de viver.
Mas a ressurreição de Jesus, garantia da nossa futura ressurreição, não foi um simples “voltar a viver”. Foi uma vida totalmente nova, onde o corpo está agora glorificado, e Jesus pode estar com os discípulos de uma maneira nova, comunicando-lhes a paz e o dom do Espírito (cf. Jo 20,21-22), deixando-se tocar por eles (cf. Jo 20,27), abrindo-lhes a inteligência para compreenderem melhor as Escrituras (cf. Lc 24,45), fortalecendo-lhes a fé e confirmando-os na missão de levar a alegria do Evangelho a cada ser humano (cf. Mt 28,16-20).
A ressurreição de Jesus é a única razão para termos fé (cf. 1Cor 15,14). Mas não só isso. A nossa esperança em Cristo vai além desta vida terrena e tem por objetivo a vida eterna (cf. 1Cor 15,19). Desde que Cristo ressuscitou, cada um de nós aguarda o momento em que ele virá para transformar o nosso corpo, exposto à dor e à morte, e torná-lo semelhante ao seu corpo glorioso (cf. Fl 3,20-21). O momento da nossa ressurreição será o momento em que o nosso imperfeito será substituído pelo perfeito de Deus, as nossas perguntas mais profundas serão respondidas e nós deixaremos de ver de maneira confusa e passaremos a ver face a face (cf. 1Cor 13,10.12).    
A Escritura nos disse hoje que o mesmo Pai que ressuscitou Jesus “o constituiu juiz dos vivos e dos mortos” (At 10,42), o que significa que todo ser humano, cada um de nós, está destinado a encontrar-se com Cristo no momento da sua própria ressurreição: “os que fizeram o bem, ressuscitarão para a vida; os que fizeram o mal, ressuscitarão para a condenação” (Jo 5,29). Portanto, a fé na ressurreição de Cristo e em nossa própria é a fé na justiça de Deus; é quando o Pai retribuirá a cada pessoa conforme as suas atitudes (cf. 2Cor 5,10).
A ressurreição foi o “Amém” do Pai à vida de Jesus. O “mundo” daquela época disse “não” a Jesus, matando-o numa cruz. Mas o Pai disse “sim” a cada palavra e a cada atitude de Jesus, ressuscitando-o! Da mesma forma, tantas pessoas que foram rejeitadas pelo mundo atual, por denunciarem as injustiças que muitos cometem por causa da ganância em relação ao dinheiro, serão acolhidas por Deus em seu Reino (cf. Mt 5,10). Por isso, não se angustie ou se deprima se as pessoas dizem “não” à sua fé e à sua conduta segundo o Evangelho. Deus lhe dirá “sim”, no momento da sua ressurreição!
Hoje, ao celebrarmos a Páscoa de Jesus, ao proclamarmos que Ele vive e está ressuscitado no meio de nós, somos convidados a nos esforçar “por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus” (Cl 3,1). A ressurreição de Jesus já nos alcançou, e a sua força já atua em nós por meio do Espírito Santo, convidando-nos a sair dos nossos túmulos. No entanto, ela também precisa ser buscada por nós todos os dias, por meio da nossa fé e das nossas atitudes, fazendo com que a alegria do Evangelho chegue às pessoas que, por algum motivo, se encontram dentro de algum túmulo.
Uma última palavra. Todo e qualquer tipo de libertação, todo e qualquer tipo de milagre que Deus possa realizar hoje na vida de alguém é e sempre será temporário. Por mais que creiamos na força da ressurreição, ela começa nesta vida pela fé, mas só nos abraçará totalmente no momento da nossa morte. Qualquer tentativa de “antecipar” a experiência da ressurreição da nossa parte será sempre forçada e artificial. A ressurreição é obra do Pai em Jesus e em cada ser humano que nele crê. Clamemos por Ele, para nós e para toda e qualquer pessoa que necessita ser ressuscitada! Esperemos com toda a confiança pela nossa ressurreição! Preparemo-nos a cada dia para ela! Renovemos a nossa fé em Cristo ressuscitado e em nós como pessoas destinadas à ressurreição, por obra e graça do Pai!


Pe. Paulo Cezar Mazzi

terça-feira, 22 de março de 2016

COLOCAR NA CRUZ DO OLEIRO CADA PEDAÇO DO NOSSO VASO DESPEDAÇADO

Sexta-feira da Paixão do Senhor. Palavra de Deus: Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1 – 19,42.

            Que o mundo seja mal, disso não temos dúvida; não o mundo enquanto criação de Deus, mas o mundo enquanto ferido pelo pecado do ser humano, sobretudo o pecado da ambição e da intolerância. “Este” mundo é mal. Basta considerarmos o alto nível de violência urbana, os ataques terroristas, a perseguição aos cristãos, a situação dos refugiados que tentam fugir das guerras civis e das perseguições religiosas, o trânsito nas estradas e o tráfico de drogas que, no Brasil, matam mais do que numa guerra.
Que o mundo seja mal, disso não temos dúvida. Mas que Deus seja bom e somente bom, disso nós muitas vezes também chegamos a duvidar. Quem de nós, atingido pelo sofrimento que há no mundo, não questiona Deus? Quanta raiva pode estar guardada dentro de você em relação a Deus, porque Ele “permitiu” que o câncer tirasse alguém de você, que um filho seu sofresse abuso sexual ou que fosse morto por causa de um celular, de um acidente ou de uma bala perdida, porque sua família se desestruturou e seus sonhos se encontram despedaçados?
É verdade que algumas das nossas dores e dos nossos sofrimentos aparecem em nossa vida por causa de determinadas atitudes nossas. Mas toda dor e todo sofrimento que vêm “do nada” e que, sem pedir licença, nos despedaçam como um vaso – “tornei-me como um vaso espedaçado” (Sl 31,13) – quebram não somente a nós, mas também a imagem que até então tínhamos de Deus. E hoje, nesta sexta-feira da paixão do Senhor, precisamos trazer para a cruz de Cristo esses pedaços: os nossos próprios pedaços e também os pedaços que sobraram da nossa fé, da imagem que tínhamos de Deus e que agora não conseguimos mais reconstruí-la.
Quem esteve na cruz ontem? Quem está na cruz hoje? Alguém desfigurado, tão desfigurado “que não parecia ser um homem ou ter um aspecto humano” (Is 52,14). Este homem “não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse” (Is 53,2). Aqui começa a quebra da nossa imagem de Deus. Nós gostaríamos que Ele sempre se manifestasse em nossa vida na aparência da beleza, da saúde, da alegria, da prosperidade etc. Mas, às vezes, Deus vem a nós na aparência de algo que não nos agrada. Não nos agrada a doença, nem a dificuldade financeira, nem o conflito, nem a crise, nem a dor. Mas Deus pode se manifestar a nós nessas situações. Temos conseguido reconhecê-Lo?
Por trás de algo que não nos agrada existe uma verdade: “A verdade é que ele tomava sobre si as nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores... Ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes” (Is 53,4.5). A verdade é que você e eu, apesar de sermos filhos de Deus, não nascemos blindados contra a dor, nem vamos passar por este mundo sendo constantemente poupados de sofrimento. A verdade é que você e eu também cometemos pecados, e nossos pecados produzem dor e sofrimento na sociedade. A verdade é que a religião existe não para nos manter o mais distante possível da dor, mas para nos capacitar a estar junto de quem se encontra hoje crucificado, seja pelos seus próprios erros, seja pelos erros de outros.
A cruz de Cristo é lugar de redenção: “Ele, na verdade, resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores” (Is 53,12). Justamente porque temos que lidar com a nossa própria cruz, além de estarmos junto à cruz de nossos irmãos, devemos permanecer firmes na fé que professamos, a fé que nos garante que Jesus é nosso intercessor junto do Pai, capaz de se compadecer de nossas fraquezas. Sua cruz se tornou o “trono da graça”, do qual nos aproximamos especialmente hoje, para alcançarmos a misericórdia e o auxílio do Pai (cf. Hb 4,15.16), para nós e para todos os que se encontram crucificados.  
Sendo um ser humano como nós, Jesus “aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu” (Hb 5,8). Porque o nosso ego sempre quer se impor, exigindo ser atendido nos seus caprichos, obedecer a Deus sempre nos custará, sempre exigirá de nós algum tipo de sofrimento. Mas este é um sofrimento bom, libertador, redentor, porque nos ajuda a libertar o mundo do egoísmo e da ambição do coração humano.  
Diante da narrativa da Paixão de Jesus que acabamos de ouvir, somos convidados a colocar junto à Sua cruz não somente o nosso, mas todos os vasos espedaçados que conhecemos, tendo nos lábios e no coração as palavras do salmista: “Tornei-me como um vaso espedaçado... A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu entrego em vossas mãos o meu destino; libertai-me do inimigo e do opressor!” (Sl 31,13.15-16).
           
 Para a sua oração pessoal: 
            
            http://letras.kboing.com.br/eros-biondini/todo-teu/

                                                                                                                                                                              Pe. Paulo Cezar Mazzi