quinta-feira, 20 de novembro de 2014

ENXERGAR PARA ALÉM DA TELA DO CELULAR

Missa de Cristo Rei – Palavra de Deus: Ezequiel 34,11-12.15-17; 1Coríntios 15,20-26.28; Mateus 25,31-46.

            “E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz...” (Legião Urbana, Metal contra as nuvens). Chegamos a mais um final de um ano litúrgico. Todo final é carregado de esperança. Quando lemos um livro ou assistimos a um filme ou novela, esperamos que o final nos traga respostas, decifre o mistério, faça justiça – no sentido de que a verdade prevaleça sobre a mentira, a luz prevaleça sobre a escuridão, a morte prevaleça sobre a vida, o bem prevaleça sobre o mal.  
            Se agora vemos as coisas de maneira confusa, no final veremos face a face; se agora as peças do quebra-cabeça da vida estão espalhadas, no final elas se encaixarão perfeitamente umas nas outras; se agora temos que lidar com muitos desencontros, no final haverá o grande encontro; se agora tudo parece estar misturado – a verdade com a mentira, a justiça com a injustiça, o bem com o mal – no final haverá uma separação: “Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros...” (Mt 25,32).
            Nesta cena do Evangelho, conhecida como julgamento final, separar significa fazer justiça: “Eu farei justiça entre uma ovelha e outra” (Ez 34,17). Ainda que estejamos acostumados com a injustiça e a impunidade, a Sagrada Escritura garante que, no final, “todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10). Sim, mas o que significa fazer o bem ou fazer o mal numa sociedade como a nossa, onde os valores estão invertidos, onde aquilo que é o bem passa a ser rotulado de mal, e aquilo que é o mal passa a ser propagandeado como sendo o bem? (cf. Is 5,20).
            Para Jesus, fazer o bem ou fazer o mal se traduz concretamente na forma como nos envolvemos com a dor humana, isto é, se somos solidários ou indiferentes com quem sofre: “Vinde, benditos de meu Pai!... Pois eu estava com fome e me destes de comer... Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que fizestes!... Afastai-vos de mim, malditos!... Pois eu estava com fome e não me destes de comer... Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!” (Mt 25,34.35.40.41.42.45).   
            O envolvimento com a dor alheia começa pelos olhos, chega ao coração e se concretiza nas mãos (atitudes). Tanto os que estavam à direita como os que estavam à esquerda de Jesus lhe perguntaram: “Quando foi que te vimos com fome...?” (Mt 25,37.44). A nossa geração se permite ser afetada pela dor alheia? Como nos envolver com a dor de quem está ao nosso lado, se nossos olhos estão, a maior parte do tempo, fixos na tela do nosso celular? Se é verdade que o que os olhos não veem o coração não sente, como o nosso coração pode ser afetado pela dor do outro, se a única coisa que os nossos olhos veem são os nossos “selfies”*?
            Numa época em que a prioridade dos pastores (líderes políticos e religiosos) deixou de ser cuidar do rebanho e passou a ser cuidar de si, inclusive às custas do rebanho, Deus disse: “Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas... vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersadas num dia de nuvens e escuridão...” (Ez 34,11.12). As nuvens e a escuridão do individualismo e do narcisismo nos fecham em nós mesmos, nos fazem girar doentiamente em torno dos nossos caprichos e desejos, enquanto aqueles que a vida confiou aos nossos cuidados vão se dispersando pelos descaminhos deste mundo. Não é por acaso que aumenta o número de pessoas que se sentem perdidas, extraviadas, quebradas, doentes e injustiçadas...
            Prestemos atenção aos verbos que traduzem a atitude de Deus para com a dor humana: procurar, reconduzir, enfaixar, fortalecer, vigiar, fazer justiça... Ontem, essas palavras se encarnaram na pessoa de Jesus Cristo. Hoje, nós somos chamados a encarná-las em nossa vida de cristãos, acolhendo este convite de Deus: “Preciso das tuas mãos para continuar a abençoar; preciso dos teus lábios para continuar a falar; preciso do teu corpo para continuar a sofrer; preciso do teu coração para continuar a amar; preciso de ti para continuar a salvar” (Michael Quoist, Oração do sacerdote numa tarde de domingo). Na medida em que cada um de nós assumir a sua vocação de batizado, de filho do Pai que comunga da dor humana e irmão do Filho que está presente em cada ser humano que sofre, poderemos colaborar para que a nossa história não esteja mais pelo avesso assim, sem final feliz...   
           
* Selfie significa autoretrato, foto de si mesmo(a). 

                                                                       Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DESENTERRE SEU TALENTO!

Missa do 33º. dom. comum. Palavra de Deus: Pr 31,10-13.19-20.30-31; 1Tessalonicenses 5,1-6; Mateus 25,14-30.

Muitas vezes ouvimos dizer que os consumidores estão mais exigentes, ou que o mercado exige maior qualificação profissional, ou que as empresas estão exigindo resultados, eficiência, metas etc. EXIGÊNCIA tem se tornado, de fato, uma das palavras mais usadas no mundo atual, palavra que ecoa dentro de nós não só como “cobrança”, mas às vezes também como “ameaça”: se eu não alcançar o resultado, se eu não atingir a meta exigida, serei punido(a) ou dispensado(a).
Da mesma forma, o Evangelho que acabamos de ouvir parece estar em pleno acordo com o mercado, exigindo de nós a produção de resultados, o alcance de metas, a multiplicação dos talentos que recebemos e em relação aos quais precisaremos um dia prestar contas a Deus. Mas, o que é um talento? Na época de Jesus, o talento era uma moeda que valia mais ou menos dois quilos de ouro, segundo a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). Jesus usa o talento de forma simbólica: ele representa todo e qualquer tipo de dom que Deus concedeu a cada ser humano. Dessa forma, o apóstolo Paulo pergunta: “O que é que você possui que não tenha recebido (de Deus)?” (1Cor 4,7).
O dom não é algo gerado ou produzido por nós, mas algo recebido de Deus, algo que Deus nos confia para ser trabalhado, cultivado, desenvolvido, amadurecido. Portanto, a primeira intenção de Jesus é nos tornar conscientes dos dons que Deus nos deu, da capacidade que temos de crescer, de nos superar, de transcender, de fazer o bem a nós mesmos, aos outros e ao mundo à nossa volta, como aparece na imagem da mulher forte, mencionada no livro dos Provérbios: “(...) com habilidade trabalham as suas mãos... Abre as suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre” (Pr 31,19-20).
Enquanto muitas pessoas ignoram seus próprios talentos, isto é, desconhecem sua força e seu valor, outras avaliam o talento dos outros pela aparência do pacote que contém o talento. E aqui há surpresa e decepção. Surpresa porque, não poucas vezes, os dois quilos de ouro estão embrulhados num jornal – é o caso daquelas pessoas para as quais não damos importância e que nos surpreendem com atitudes de educação, de respeito, de inteligência, de sensibilidade, de honestidade, de caráter, de retidão de consciência, de humanidade etc. Decepção porque, algumas vezes, o pacote é encantador e enche os nossos olhos, mas quando o abrimos, dentro dele há apenas dois quilos de bijuteria e nada de ouro. Como disse o livro dos Provérbios, “o encanto é enganador e a beleza é passageira” (31,30).
O apóstolo Paulo nos faz um alerta: “(...) não durmamos como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios” (1Ts 5,6), o que significa: vejamos se estamos desenvolvendo todo o nosso potencial (vigilância). Além disso, estejamos sóbrios, acordados, conscientes de quem somos e do bem que podemos fazer ao outros (sobriedade). Trata-se, portanto, de trabalhar nossos talentos e de fazê-los crescer, como agiram os dois primeiros servos da parábola contada por Jesus (cf. Mt 25,16-17).
Quando assumimos a tarefa de nos trabalhar, de colaborar com o nosso crescimento e amadurecimento, de forma a nos tornarmos melhores e ajudarmos a melhorar o mundo à nossa volta, experimentamos uma profunda alegria dentro de nós, uma alegria que vem de Deus, que nos vê caminhar na direção daquilo que Ele mesmo nos propôs como meta de crescimento humano e espiritual (cf. Mt 25,21.23). O triste é que algumas pessoas escolhem passar pela vida sem nada fazer, querendo apenas consumir e usufruir. O máximo de esforço que fazem é cavar um buraco e enterrar o talento que receberam. Dessa forma, cada um precisa se perguntar: Por que escondi o meu talento? Por que o enterrei? Onde o enterrei? Quantos talentos meus estão enterrados debaixo da raiva, da mágoa, do ressentimento, da desnecessária espera do reconhecimento e do aplauso dos outros?
“Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais” (Mt 25,21.23). Jesus deixa claro que trabalhar, no sentido de multiplicar os talentos, é uma questão de ser fiel a si mesmo, à própria verdade, à própria essência. Não se trata de nos tornarmos uma outra pessoa, mas de nos tornarmos a pessoa que fomos chamados a ser quando Deus nos criou. Como diz a música Tocando em frente (Almir Sater): “Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”.
O servo que enterrou no chão o talento que recebeu de Deus foi chamado de “mau e preguiçoso” (Mt 25,26). Ser uma pessoa má não se restringe simplesmente em fazer o mal, mas também em não fazer o bem que tem condições de fazer. Olhe à sua volta. Olhe para dentro da sua igreja ou comunidade: o quanto ela poderia fazer a mais pelo Reino e pelo bem de muitas pessoas, mas não faz porque nela há muitos que, seja por preguiça, comodismo ou individualismo, não fazem o bem que poderiam fazer? Olhe para a sua rua, bairro ou cidade: quanta sujeira, quanto descuido com o meio ambiente, quanto desperdício de água e de energia, quantos bens públicos depredados porque você também está se deixando contaminar pela doença da maldade e da preguiça? Olhe para as pessoas à sua volta: quantas delas você despreza e ignora porque, apesar de serem verdadeiras pepitas de ouro, estão “embrulhadas” num jornal?
Uma palavra final: trabalhar para multiplicar os talentos que recebemos de Deus é algo que nos custa, e às vezes nos custa muito. Se você está cansado(a), desiludido(a) e acha que não vale mais a pena cultivar os verdadeiros valores na sua vida, reflita sobre essas palavras de Martin Valverde, na música SEGUE: Custa para você poder seguir? Custa para você? Tuas forças já não dão? E tua fé, já não pode mais? Segue! Embora sinta que já não consegue mais, segue! Embora já não Me sinta junto de você, segue! Você sabe a Quem está servindo; verá ao final uma linda luz, o rosto de Jesus que vem. Ele traz uma coroa para você, por ter seguido, por ter chegado. Segue, vamos! Segue orando! Segue! Segue n’Ele confiando! Tua oração Ele já olhou, apesar da tua pequena fé. Embora você sinta que está se afogando, segue irmão! Falta pouco para ver tua obra terminar, para que você veja tua fé vencer e tuas lágrimas serem convertidas em alegria. Você chegará! Você chegará! Segue! (minha tradução)
 
 Pe. Paulo Cezar Mazzi


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O LUGAR ONDE DEUS ESCOLHEU HABITAR

Missa da Basílica do Latrão. Palavra de Deus: Ezequiel 47,1-2.8-9.12; 1Cor 3,9c-11.16-17; João 2,13-22.

Hoje a nossa Igreja convida os católicos do mundo todo a se voltarem para a Basílica do Latrão, em Roma. A partir do século IV, esta Basílica se tornou a primeira catedral do mundo e por muito tempo foi considerada a Igreja-mãe de Roma. Ainda que as comunidades católicas estejam espalhadas por diversas partes do mundo, a Basílica do Latrão nos lembra que todos nós somos pedras vivas (cf. 1Pd 2,5) da única Igreja fundada sobre os apóstolos e que tem Jesus Cristo como pedra principal (cf. Ef 2,22). A expressão “pedra viva” nos fala, primeiramente da firmeza da nossa fé (imagem da pedra) no único Salvador dos homens, Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo. Em segundo lugar, somos pedras “vivas” na medida em que nos tornamos habitação de Deus por meio do Espírito Santo (cf. Ef 2,22).
Quando Salomão construiu o Templo em Jerusalém, se encheu de orgulho e disse: “Sim, eu construí para ti uma morada, uma residência em que habitas para sempre” (1Rs 8,13). Pobre Salomão! Pobres de nós, que nos orgulhamos quando conseguimos reformar ou construir uma igreja, achando que aquela construção ‘garante’ a presença de Deus para sempre no meio de nós! Pobres de nós, padres, que às vezes ficamos fechados em nossas igrejas, agarrando-nos a 1 ovelha que quis ficar conosco, ao invés de termos disposição e coragem de sair das nossas igrejas para ir atrás das 99 ovelhas que se afastaram e se extraviaram, por não terem feito uma verdadeira experiência de Deus enquanto estavam dentro das nossas igrejas.
A construção de templos se multiplica diariamente em nosso país, desde os “templos” que funcionam em garagens de casas particulares até os “mega templos” que abrigam multidões de pessoas. A presença dessa multiplicidade de “templos” é ambígua: por um lado, aparenta ser uma presença de Deus onde as igrejas históricas não conseguiram – ou não tiveram interesse – em chegar; por outro lado, essa multiplicidade está destruindo a imagem de Deus no sacrário da consciência humana, na medida em que a Sagrada Escritura é ali banalizada, manipulada, distorcida e colocada a serviço dos sonhos de consumo dos que frequentam tais “templos”, sonhos que jamais se tornarão realidade porque Deus nunca aceitou ser um ídolo manipulado pela pregação de quem quer que seja.
Segundo o profeta Ezequiel, Deus quer que a Sua presença no meio dos homens seja como um templo, do interior do qual sai um rio de água que, por onde passa, converte a morte em vida: “Aonde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver... haverá vida aonde chegar o rio. Nas margens junto ao rio... crescerá toda espécie de árvores... Seus frutos servirão de alimento e suas folhas de remédio” (Ez 47,9.12). Essa imagem de uma água que sai do Templo e cura quem está fora dele contrasta com a reportagem de capa da revista evangélica Ultimato, intitulada: “A igreja está tão doente quanto o mundo” (setembro-outubro de 2013, edição 344). A revista constata que as igrejas, na sua maioria, adotaram a linguagem do mundo para ser verem cheias de “fiéis”, e estão tendo que abrir mão de parte de suas doutrinas, se desejam que esses mesmos “fiéis” permaneçam dentro delas.
Que tipo de água as igrejas estão oferecendo para seus fiéis: uma água que eles PREFEREM beber ou uma água que eles PRECISAM beber? Que tipo de rio escorre das nossas igrejas: um rio que leva vida e ou que produz morte naquele que dele bebe? Quantas pessoas chegam doentes a uma igreja e encontram no sacerdote, no pastor ou no líder da comunidade alguém tão ou mais doente do que elas, alguém que se aproveita das suas feridas e da sua carência para lhes oferecer não uma cura, mas um momento de compensação, por meio de carícias ou de uma relação sexual, atitude que abre uma ferida ainda mais profunda na pessoa? Sim! Cabe ressaltar que este tipo de atitude algumas vezes também se dá em consultórios de diversos profissionais da área da saúde.
Para a Sagrada Escritura, a verdadeira habitação de Deus é o corpo de cada ser humano (cf. 1Cor 3,16-17; Jo 2,21). Sabemos que um corpo sadio depende de uma mente sadia. Quantas pessoas estão com o corpo definhado, caminhando pelas ruas como “zumbis”, porque sua mente foi esburacada pelo crack? O que tem adoecido a mente de tantos adolescentes e jovens a ponto de sentirem prazer em fotografar ou filmar o próprio corpo nu e postar na internet? O que leva algumas pessoas casadas a exporem a parte mais íntima do seu corpo diante da câmera do computador, para a pessoa que está conectada com elas na internet possa se masturbar?       
        Se muitos de nós estamos aderindo a atitudes permissivas, o problema não se encontra do nosso pescoço para baixo, mas do nosso pescoço para cima. Nós trocamos a voz da nossa consciência pela voz da mídia, que reduz a sexualidade humana ao erótico. Essa mesma mídia se escandalizou há dois anos atrás, quando a atleta Lolo Jones (Olimpíadas de Londres-2012) declarou ser virgem aos 30 anos de idade. Sendo ridicularizada pelas colegas, ela afirmou que competia por medalhas e que, se quisesse fama, teria aparecido nua. “Eu não corro para ser a pessoa mais famosa do mundo. Se eu quisesse isso, (...) faria um vídeo de sexo ou algo assim para ganhar fama”, completou a atleta. Na mesma linha desta atleta, inúmeros jovens em diversos países estão aderindo a uma atitude de vida em relação ao namoro e à própria sexualidade chamada: EU ESCOLHI ESPERAR. Confira isso nos seguintes sites: http://euescolhiesperar.com/ e https://www.youtube.com/watch?v=YxwzEGY0jbc
Ao ver o Templo de Jerusalém profanado por comerciantes, Jesus usou de uma saudável e necessária agressividade para expulsar todos dali, com um chicote na mão e dizendo bem alto: “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2,16). Hoje essas palavras devem ser gritadas à consciência de pessoas “influentes” da nossa sociedade – alguns políticos, médicos, empresários, delegados, juízes etc., que pagam crianças e adolescentes para satisfazerem suas fantasias sexuais. Essas palavras também precisam ser gritadas à consciência de todos os líderes religiosos, muitos dos quais ornamentam suas casas e seus templos com ouro, prata, mármore, vitral, lustres etc., mas se mantém longe de pessoas cujos corpos estão violentados, subalimentados, consumidos pelo álcool e inúmeras outras drogas, pessoas desempregadas ou subempregadas, cuja referência de família se perdeu ou nunca existiu.
Algumas questões finais...
1) “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá... vós sois esse santuário” (1Cor 3,17). Como você está em relação à pornografia na internet, ou em relação à bebida, ao cigarro e a outras drogas?  Você pensa em tatuar ou já tatuou seu corpo? Que tipo de tatuagem você fez? Que sentido ela tem para você? Quanto tempo seu corpo fica paralisado/anestesiado diante de um computador ou de um celular, ao mesmo tempo em que você afirma não fazer nenhuma atividade física por falta de tempo?
2) “Tirai isso daqui!” (Jo 2,16). Que tipo de desintoxicação você precisa se dispor a fazer, não só em relação ao seu corpo, mas também em relação à sua alma, ao seu espírito, à sua vida emocional? Sugestão de música para sua oração: PURIFICA-ME (Tony Allysson) 
3) “O zelo (cuidado) por tua casa me consumirá” (Jo 2,17). Você dedica tempo para cuidar da sua vida espiritual da mesma forma como encontra tempo para cuidar do seu físico? Você ajuda a cuidar e a preservar o meio ambiente? Você faz algo para restabelecer a dignidade do corpo do seu próximo que, por estar desempregado, subempregado ou viciado nas drogas, definha a cada dia?  
4) “Haverá vida aonde chegar o rio” (Ez 47,9). Mentalize seu próprio corpo ou o corpo de alguém que está doente, violentado, faminto, explorado sexualmente ou escravo da dependência química das drogas. Clame a Deus, “fonte de água viva” (Jr 2,13), para que a Sua água escorra por este corpo, banhando cada célula, irrigando cada neurônio, para que onde ali houver morte, a vida possa renascer... 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

domingo, 2 de novembro de 2014

A MASSACRANTE FELICIDADE DOS OUTROS

Há no ar um certo queixume sem razões muito claras. Converso com mulheres que estão entre os 40 e 60 anos,todas com profissão, marido, filhos, saúde, e, ainda assim, elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem. De onde vem isso? 
Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: 'Eu espero acontecimentos, só que quando anoitece é festa no outro apartamento'. Passei minha adolescência com a mesma sensação de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite.
É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho... As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas... Então, fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando, na verdade, a festa lá fora não está tão animada assim!
Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados.
Pra consumo externo, todos são belos, sexy, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores, enfim, campeões em tudo! Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia - e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta: 'Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça’. Mas tem. 
Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores? Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé?
Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista. As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento...  

Martha Medeiros (Texto resumido) 


A PERDA DA TERCEIRA PERNA

       Preste atenção a estas palavras: “Eu anseio pela minha morte, mas ela não vem; eu a procuro como quem procura um tesouro; eu me alegraria se estivesse diante do meu túmulo e exultaria se encontrasse minha sepultura” (citação livre de Jó 3,20-22). Assim como Jó, você alguma vez já desejou morrer? Você conhece alguém que procura a morte como quem procura um tesouro? O que faria com que uma pessoa não apenas desejasse sua própria morte, mas que a provocasse, por meio do suicídio?
       De janeiro a setembro deste ano, nove pessoas se suicidaram em Jaboticabal (SP). As causas para o suicídio podem ser muitas, mas há uma que vem se acentuando cada vez mais: a incapacidade em lidar com a frustração. Nós estamos nos tornando cada vez mais intolerantes em relação à frustração. Parece que tudo tem que funcionar na hora em que queremos; tudo e todos têm que estar em função da satisfação das nossas necessidades. Neste sentido, é preocupante ver como muitos pais e avós criam seus filhos e netos fazendo de tudo para não frustrá-los, procurando satisfazer as suas vontades. Desse modo, eles se tornarão pessoas despreparadas para a vida, pois quem é que vai passar pela vida sem nunca ser frustrado nos seus desejos, nos seus sonhos, nas suas expectativas ou nas suas vontades?
        Por mais que não gostemos de ouvir “não”, a vida muitas vezes vai dizê-lo a nós, esvaziando a nossa bola, cortando o nosso barato e jogando um balde d’água fria em cima do fogo do nosso desejo. E aí? Vamos apelar feio e tirar a nossa própria vida, ou vamos aproveitar a oportunidade para aprendermos a dura lição de lidar com a frustração? Apesar de toda a beleza da sua plumagem, o pavão estava triste e foi reclamar com o Criador: “Por que não fui criado também com os pés e a voz bonitos?” E o Criador respondeu: “Porque ninguém pode ter tudo”. 
        Esta é a verdade que estilhaça o espelho do nosso narcisismo: ninguém pode ter tudo. Além disso, se queremos ter os pés no chão, se queremos acolher a vida como ela é e não como gostaríamos que fosse, se queremos viver a vida por inteiro, precisamos aprender a lidar com perdas. Perder é uma das maiores frustrações que existe. Muitas pessoas se suicidam por não suportarem o rompimento de uma relação, quando a outra pessoa deixa claro que nós não somos necessários para ela como ela o é para nós.
        Se você está vivendo uma situação de perda, reflita sobre essas palavras de Clarice Lispector: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Esta terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta... Estou desorganizada porque perdi o que não precisava?” (do livro A paixão segundo G.H., pp.11-12).
         Esta é uma das lições mais importantes que a vida nos dá: quando perdemos a nossa “terceira perna”, temos a oportunidade de aprender a andar e a nos sustentar em pé com as nossas próprias pernas. Além disso, se você se sente vítima do destino e acha que os outros são muito mais felizes do que você, ou que as coisas dão certo para todo mundo, menos para você, leia o texto de Martha Medeiros, intitulado "A massacrante felicidade dos outros". 

                                     Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

IMPORTA VIVER ANTES DE MORRER, ASSIM COMO NÃO MORRER ANTES DA HORA

Missa dos fiéis defuntos. Palavra de Deus: Jó 19,1.23-27a.; Romanos 5,5-11; João 6,37-40.

“Eu tenho medo de não mais ser lembrado” – palavras do livro que virou filme: A culpa é das estrelas. O dia de finados nos convida a nos lembrar daqueles que recentemente ou há muito tempo partiram desta vida. Depois que morrermos, nós seremos lembrados por alguém? Por quanto tempo? Silvia Schmidt escreveu: “Eu tive que aceitar as minhas fragilidades, os meus limites, a minha condição de ser mortal, de ser atingível, de ser perecível. Eu tive que aceitar que a VIDA sempre continuaria com ou sem mim, e que o mundo em pouco tempo me esqueceria” (Eu tive que aceitar). Ao nos fazer lembrar daqueles que morreram, o dia de hoje também nos faz um questionamento: quantos não são mais lembrados por nós, apesar de ainda estarem vivos entre nós? Quantos idosos, solitários em suas casas ou nos asilos, não são lembrados por seus filhos e netos?
Jó acabou de nos dizer: “Gostaria que minhas palavras... fossem escritas e... cravadas na rocha para sempre!” (Jó 19,23-24). Sim, em praticamente todos os túmulos encontramos gravados em placas de metal ou no mármore os nomes de pessoas que faleceram. Mas o que Jó quis que fosse gravado na rocha para sempre é uma certeza de fé que devemos ter, quando tomamos consciência de que um dia vamos morrer: “Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne verei a Deus” (Jó 19,25-26).
Enquanto nossa vida é feita de inúmeras incertezas, a morte é nossa única certeza. Mas a fé nos convida a olharmos para além da morte, a olharmos para o nosso Redentor, que está vivo, o Senhor Jesus, que nos resgata e nos arranca das mãos da morte. Mesmo que a nossa pele seja destruída na morte, nós veremos a Deus, e O veremos com o nosso corpo, que se tornará um corpo glorificado (cf. Fl 3,20-21). Por isso, disse o salmista: “Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor!” (Sl 27,14).
A esperança à qual se refere o salmista não é uma esperança ilusória, mas uma esperança que não nos decepciona, porque está garantida pelo Espírito Santo, O qual ressuscitou Jesus e ressuscitará também a cada um de nós. Desse modo, o apóstolo Paulo nos convida a não temermos a morte, nem o momento do nosso encontro com Deus, pois já estamos reconciliados com o Pai, por meio do sangue de seu Filho derramado na cruz. No momento da nossa morte, Deus nos espera como Pai, mais do que como Juiz (cf. Rm 5,5-11).
Quando morre alguém da nossa família, dizemos: “Eu perdi meu pai, minha filha, minha irmã, meu avô...” No entanto, Jesus nos garante que Ele não perderá nenhum daqueles que o Pai confiou aos Seus cuidados. A morte pode arrancar de nossas mãos pessoas que amamos, mas o Pai confiou cada um de nós às mãos e aos cuidados de seu Filho Jesus Cristo que, por ter vencido a morte, nos faz esta promessa: ‘Eu não vou perder nenhum daqueles que o Pai me confiou. Além disso, vou ressuscitá-los no último dia’ (citação livre de Jo 6,39).
Antes que chegue o nosso “último dia”, precisamos rever como temos vivido cada um dos nossos breves dias neste mundo. Dalai Lama disse que o que mais chama a sua atenção é que as pessoas hoje, obcecadas em ganhar dinheiro, “vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido”. Já Cora Coralina nos alerta sobre o perigo de morrermos antes da hora, ao escrever: “Eu sei que algum dia alguém terá que me enterrar, mas eu não vou fazer isso comigo”. Da mesma forma, Albert Schweiter disse: “A tragédia não é quando um ser humano morre; a tragédia é aquilo que morre dentro da pessoa enquanto ela ainda está viva”.
Refletir sobre a morte, neste dia de finados, pode nos ajudar a valorizar cada momento que vivemos na vida, sabendo que ele é único e nunca mais se repetirá. Assim, da mesma forma como iniciamos esta reflexão citando palavras do livro A culpa é das estrelas, assim também podemos terminá-la, mencionando uma parte do “Elogio Fúnebre” de Hazel Grace a Augustus Waters, dois jovens atingidos pelo câncer: “Queria mais números do que provavelmente vou ter, e, por Deus, queria mais números para o Augustus Waters do que os que ele teve. Mas, Gus, meu amor, você não imagina o tamanho da minha gratidão pelo nosso pequeno infinito. Eu não o trocaria por nada nesse mundo. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados, e sou muito grata por isso”. Sejamos gratos pelos “pequenos infinitos” que vivemos na companhia daqueles que já partiram, sabendo que um dia iremos reencontrá-los na eternidade de Deus, onde nossos dias não serão mais numerados... 

                                    Pe. Paulo Cezar Mazzi 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O QUE MOVE VOCÊ É A NECESSIDADE OU O AMOR?


Missa do 30º. dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 22,20-26; 1Tessalonicenses 1,5c-10; Mateus 22,34-40.

Existem duas forças que nos movem na vida: a necessidade e o amor. A necessidade é uma força que nos impulsiona na direção de algo que julgamos essencial para a nossa sobrevivência. Neste sentido, a necessidade é sempre um olhar para nós mesmos, um olhar para um vazio que julgamos ter e que sentimos a necessidade de preencher. Já o amor é uma força que nos impulsiona na direção de algo por aquilo que ele é, e não por aquilo que ele pode nos oferecer. O amor nunca se vê como um vazio a ser preenchido, mas como algo que transborda de si mesmo e quer se doar ao outro.       
Duas afirmações bíblicas precisam ser relembradas aqui. A primeira: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). A segunda: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho...” (1Jo 4,10).  Quando João afirma que “não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou”, está dizendo que não fomos nós que tomamos a iniciativa de amar a Deus, mas foi Ele quem tomou a iniciativa de nos amar. Portanto, o nosso amor a Deus sempre será uma resposta a um amor que já recebemos d’Ele.
Se o primeiro mandamento consiste em amar “o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22,37), precisamos considerar o fato de que muitos não se sabem amados por Deus, assim como muitos não se sentem amados por Ele. Se é verdade que toda criança, ainda no ventre materno, se pergunta se ela será amada ao nascer, quantas pessoas receberam uma resposta negativa a essa pergunta, desde a sua primeira infância? Todo ser humano quer um amor que tenha pele, que possa ser tocado, experimentado, mas a fé nos diz que o amor de Deus por nós existe e permanece em nós, independente se o sentimos ou não.
Para amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento, é preciso reconstruir a imagem de Deus que se quebrou na dor de um grande sofrimento. Quem de nós conseguiria amar a Deus depois que Ele permitiu que alguém da nossa família morresse de câncer, de acidente ou vítima da violência social? Quem de nós conseguiria amar a Deus depois da perda do emprego, do fim do casamento, do desmantelamento dos nossos sonhos, do fracasso dos nossos projetos? Quantos de nós, quando se colocam em oração ou quando vão a uma igreja, procuram por Deus por amor, e não por necessidade, porque desejam estar na presença d’Ele e não porque precisam de alguma coisa d’Ele?...
Do outro lado da moeda do amor, está a pessoa do nosso próximo. Segundo o livro do Êxodo, o próximo é, sobretudo, o estrangeiro, a viúva, o órfão, os pobres – pessoas fragilizadas, desprotegidas, que estão mais expostas ao sofrimento. Embora a cultura do individualismo tenha feito uma separação entre Deus e o próximo, para a Sagrada Escritura não existe um amor a Deus que ignore o próximo. Além disso, para uma geração como a nossa, que em nome do amor trai, mente, adultera, não se importando em destruir famílias ou relacionamentos alheios, o apóstolo Paulo deixa bem claro: “Quem ama não pratica o mal contra o próximo” (Rm 13,10).
Para Jesus, o nosso amor para com o próximo é tão importante quanto o nosso amor para com Deus. Por isso, aqui também cabem algumas perguntas: a força que me move na direção da outra pessoa é a minha necessidade ou o meu amor? Eu vejo o outro como alguém que pode preencher o meu vazio ou alguém com quem eu posso compartilhar o amor que transborda em mim?
Uma última questão: por que é mais fácil – se é que é – amar a Deus e não ao próximo? Porque o próximo tem pele, e a pele do próximo nem sempre é da mesma cor que a nossa, ou seja, o outro é outro e não um prolongamento de nós mesmos. Dizer que o outro tem pele também significa reconhecer que ele tem rosto e corpo concretos, e seu rosto e corpo, além de mudarem com o tempo, podem nos comunicar que o amor que existia inicialmente – se é que de fato existia – foi substituído pela necessidade, e nós já não somos necessários para essa pessoa. Se isso acontecer, lembre-se de que a força do seu amor continuará viva dentro de você, uma vez que ela vive do amor com que Deus te ama, e não da necessidade que o outro possa ter ou não de você.

Pe. Paulo Cezar Mazzi