sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

PREOCUPAR-SE, SIM, MAS COM O QUÊ?

Missa do 8º. dom. comum. Isaías 49,14-15; 1Coríntios 4,1-5; Mateus 6,24-34.
             
            A expressão do rosto está séria, a testa franzida, o sono alterado; a pessoa se ausenta do presente e divaga, pensando no futuro; se irrita com facilidade, quase não tem senso de humor, sente-se frequentemente infeliz... Estamos falando da pessoa excessivamente preocupada. Mas, se existem pessoas exageradamente preocupadas, existem outras que não se preocupam nem com o mínimo necessário, como por exemplo: a sua colaboração para que o ambiente familiar ou profissional seja bom, o seu cuidado para que o meio ambiente seja recuperado ou preservado, a sua conduta justa para que a sociedade se liberte do mal da corrupção etc.
            Normalmente, nossas preocupações estão associadas às nossas necessidades. O problema é que o mundo moderno criou em nós necessidades que não são primárias, essenciais, mas secundárias, supérfluas, artificiais, e essas ‘necessidades’ passaram a atropelar o nosso tempo, desviar o nosso foco, roubar o nosso dinheiro e exigir constantemente a nossa atenção. Desse modo, não basta que você tenha o que comer, mas ‘onde’ e ‘o que’ você come; não basta que você tenha o que vestir, mas ‘que roupa’ você veste; não basta que seu filho possa estudar, mas ‘em qual escola’ ele estuda etc. Assim, neste mundo preocupado com futilidades e dominado pelo consumismo, onde quem pode mais chora menos, nós vamos simplesmente seguindo o fluxo, nos enchendo de preocupações desnecessárias que comprometem a nossa saúde, os nossos relacionamentos e a nossa espiritualidade.
            Para dar conta de sobreviver a tantas preocupações, alguns recorrem a psiquiatras, psicólogos e medicamentos; outros se refugiam na bebida e nas drogas; alguns desistem de sobreviver e se suicidam; outros surtam. Mas existem aqueles que têm o bom senso de se questionarem: ‘O que eu estou fazendo com a minha vida?’ ‘Quais são as minhas verdadeiras prioridades?’ ‘Com o que eu devo realmente me preocupar?’ Quando você faz isso, consegue interromper o círculo vicioso da preocupação, começa a se desintoxicar do medo, da ansiedade e das falsas ameaças que as preocupações desnecessárias lhe impõem e passa a ter mais qualidade de vida.
            Deus hoje está questionando aquelas preocupações que surgem em nós como consequência da falta de fé e de confiança no Seu amor por nós, quando nos sentimos abandonados e esquecidos por Ele: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti” (Is 49,15). Na verdade, frequentemente nós nos distraímos diante de inúmeras preocupações inúteis, e acabamos perdendo a consciência de que só em Deus a nossa alma pode encontrar repouso, porque d’Ele é que nos vem a salvação (cf. Sl 62,2). Por isso, ao invés de nos consumirmos de medo e de ansiedade, precisamos reaprender a esperar sempre no Senhor e abrir diariamente o nosso coração na Sua presença (cf. Sl 62,9), colocando em Suas mãos nossas preocupações, pois é Ele quem cuida de nós (cf. 1Pd 5,7).
            Cuidas de mim, sei que tu cuidas de mim, Senhor... Ainda que eu ande pelo vale, e o atravesse à sombra da morte, cuidas de mim, cuidas de mim. Mesmo que eu não queira a Tua presença, mesmo que eu me afaste de Ti, cuidas de mim, cuidas de mim. Teu amor é como a rocha que não se quebra jamais. Teu amor é como o sol a nascer toda manhã... (Pe. Fábio de Melo, Cuidas de mim).
            O que nos preocupa hoje? Preocupa-nos a impunidade, o descaso de tantos políticos e juízes com a Justiça? Preocupa-nos a violência em nossa sociedade? Preocupa-nos a falta de fé, de testemunho, de simplicidade e de coerência evangélica em diversos líderes da nossa Igreja? Não nos desesperemos, nem deixemos de crer na justiça de Deus e na verdade do seu Espírito, como disse o apóstolo Paulo: “Aguardai que o Senhor venha. Ele iluminará o que estiver escondido nas trevas e manifestará os projetos dos corações. Então, cada um receberá de Deus o louvor que tiver merecido” (1Cor 4,5). Portanto, confiemos na justiça e na verdade de Deus; elas prevalecerão sobre a injustiça e a mentira que hoje ditam as regras no coração de muitas pessoas e em não poucos setores da nossa sociedade.     
            No final do seu Evangelho, Jesus nos convida a nos ocupar com algo realmente importante, fundamental: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). Que a nossa preocupação seja ter uma conduta adequada a Deus e ao seu Reino, deixando-nos cuidar pelo Pai e amando os irmãos. Se procurarmos viver o nosso dia a dia segundo a vontade do Pai, certamente experimentaremos o Seu cuidado para conosco em todas as nossas necessidades. Afinal, Ele é o Pai não só do nosso hoje, mas também do nosso amanhã. A cada dia, Deus nos dará a força necessária para o peso daquele dia, para que aprendamos a viver da confiança n’Ele.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

É MEU INIMIGO OU É MEU IRMÃO?

Missa do 7º. dom. comum. Palavra de Deus: Levítico 19,1-2.17-18; 1Coríntios 3,16-23; Mateus 5,38-48.

            Todos os dias nós vemos e sentimos os efeitos da agressão: o Governo nos agride como povo brasileiro, dificultando que a Justiça puna os políticos corruptos; inúmeras empresas continuam a agredir o meio ambiente; alguns líderes agridem seus subordinados por meio de humilhações e ameaças; alunos agridem seus professores; filhos e pais se agridem mutuamente; por meio do contratestemunho, líderes religiosos agridem a fé dos seus fiéis; o fanatismo religioso agride inúmeras pessoas mundo afora... Como nós estamos lidando com a agressão nossa de cada dia?  
            Sempre que somos agredidos, seja em que sentido for, nosso instinto de defesa reage imediatamente, e a nossa resposta instintiva é “olho por olho, dente por dente”: chega de impunidade! Chega de tolerância! Chega de fazer papel de bobo! Já passou da hora de revidar, de dar o troco, de pagar com a mesma moeda, de fazer o outro beber do mesmo veneno que ele destila contra nós. No entanto, Jesus nos lança um desafio: “Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado!” (Mt 5,39). “Não enfrentar” significa “não revidar”, não usar as mesmas armas do mal para combatê-lo. “Não enfrentar” significa não permitir que a pessoa que te agride determine a tua reação para com ela.
            Jesus não é a favor da impunidade, muito menos da passividade perante o mal. O mal que existe dentro de nós e em nossa sociedade precisa ser combatido, mas combatido com inteligência, firmeza, determinação e sabedoria. A agressão é uma bomba que precisa ser desarmada. Além disso, Jesus quer nos lembrar de que toda pessoa que nos agride e nos fere foi antes agredida e ferida por alguém. Por isso, não tem sentido cuidar de uma ferida abrindo uma ferida ainda maior naquele que nos fere. A agressão é um grito, um pedido de ajuda de alguém que, ou foi profundamente ferido na sua necessidade de ser amado, ou nunca soube o que significado ser amado. Não se luta contra o mal quando se destrói as pessoas. Deve-se combater o mal, mas sem buscar a destruição do adversário.  
            As orientações que o Senhor nos dá hoje, do tipo “não tenha no coração ódio contra seu irmão”, “não procure vingança, nem guarde rancor”, “ame teu próximo”, “ame teu inimigo e reze por quem te persegue”, todas elas têm um único motivo: “Sejam santos porque eu, o Senhor Deus de vocês, sou santo” (Lv 19,2). O que a santidade de Deus tem a ver com a raiva ou a ira que sentimos quando somos agredidos por alguém? Deixemos o próprio Senhor nos responder: “Não executarei o ardor de minha ira,... porque eu sou Deus e não um homem, eu sou santo no meio de ti” (Os 11,9). A santidade do nosso Deus manifesta-se pela Sua misericórdia que perdoa, ao passo que nós, seres humanos, costumamos dar livre curso à nossa ira.     
            Embora tenhamos sido criados à imagem e semelhança de Deus, há uma diferença muito grande entre a maneira como Deus lida com a ira e a maneira como nós lidamos. Deus sente ira, mas Ele tem, segundo a terminologia hebraica do Antigo Testamento, “um respiro longo”, isto é, Ele dialoga com o que sente e respira longamente, fazendo a Sua ira dissipar-se, ao invés de usá-la contra aquele que pecou. Nós, ao contrário, costumamos fazer duas coisas: ou explodimos em nossa ira, agredindo o nosso próximo, ou a implodimos dentro de nós, agredindo a nós mesmos. Precisamos aprender com Deus a “alongar o nosso pavio”, a “respirar longamente”, dissipando o nosso sentimento de ira de modo que, ao invés de agredir a pessoa que nos fez mal, tomemos a atitude de procurar corrigi-la com firmeza, mas também com mansidão.    
            Dois apelos da Palavra de Deus se tocam hoje: “Sejam santos porque eu, o Senhor Deus de vocês, sou santo” (Lv 19,2) e “Sejam perfeitos como o Pai de vocês que está no céu é perfeito” (Mt 5,48). Deus é Santo, no sentido de ser separado da realidade profana do mundo. Se não queremos perder a nossa identidade de filhos de Deus, precisamos aprender a nos separar (no sentido de “não compactuar com”) da violência, da intolerância e da agressividade que hoje marcam o cotidiano do nosso mundo. A santidade de Deus nos habita por meio do Espírito Santo, conforme ouvimos hoje do apóstolo Paulo: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá, pois o santuário de Deus é santo, e vós sois esse santuário” (1Cor 3,16-17). Não nos destruamos a nós mesmos e aos outros por meio do embrutecimento do nosso caráter.
            No final do Evangelho, Jesus nos convida a buscar a nossa perfeição como filhos de Deus. Essa perfeição não consiste numa vida sem falhas, sem pecado ou sem retrocesso, mas numa vida que vai se abrindo diariamente à graça de Deus, de modo que a obra que Ele começou em nós possa chegar aos poucos à sua conclusão. Aprendamos a enxergar a humanidade como o nosso Pai celeste a enxerga. “Deus derrama o sol e a chuva sobre todos porque reconhece a todos como filhos, na esperança de alguém que O reconheça como Pai e aceite os outros como irmãos. Deus não tem inimigos; tem filhos, os quais estão na minha vida para que eu os ame como irmãos” (J.A. Pagola).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

RELACIONAR-SE OU ISOLAR-SE?

Missa do 6º. dom. comum. Eclesiástico 15,16-21; 1Coríntios 2,6-10; Mateus 5,17-37.

            Uma das grandes características do nosso tempo é o individualismo: cada um por si, cada um fechado em si, voltado unicamente para os seus interesses pessoais. Essa atitude faz com que nós olhemos para as pessoas não como elas são, mas como nós gostaríamos que elas fossem; não por aquilo que elas são como seres humanos, mas por aquilo que podemos lucrar, ganhar ou saborear com elas. Consequentemente, na medida em que a pessoa não corresponde às nossas expectativas ou não preenche mais as nossas necessidades, nós a descartamos, excluindo-a da nossa rede particular de relacionamentos. 
A verdade é que ninguém vive só. Mesmo que eu não queira me relacionar com pessoa alguma, eu não sobrevivo sozinho. Basta considerar, por exemplo, que o alimento que me mantém vivo só chegou a mim porque passou pelas mãos de outras pessoas... A verdade é que a vida supõe relação, convivência, e, com exceção do marido ou da esposa, do namorado ou da namorada, toda e qualquer outra pessoa que está presente em nossa vida não foi escolhida por nós, mas foi-nos dada para conviver. Contudo, se na maioria dos casos nós não escolhemos com quem conviver, sempre podemos escolher como conviver, como lidar com o outro.
“Diante de ti, Ele (Deus) colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir” (Eclo 15,17-18). Se você não pode escolher como a outra pessoa vai tratá-lo, você sempre pode escolher como deseja tratá-la. Além disso, é importante lembrar que os outros tratam você como você permite. Portanto, ao invés de viver reclamando porque alguém te explora, pergunte-se porque você se deixa explorar pela pessoa...
Conviver, relacionar-se, significa ser afetado pelo outro. Toda pessoa com quem convivemos nos afeta, isto é, provoca em nós sentimentos ou de acolhida, ou de rejeição, ou de aproximação, ou de afastamento. Quando Jesus afirma que “todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo” (Mt 5,22), ele não está nos culpando pelo sentimento de raiva ou de cólera. Na verdade, nós não escolhemos sentir raiva ou cólera, mas a situação que estamos vivendo com tal pessoa pode desencadear em nós tal sentimento. O que Jesus está nos lembrando é que é nossa responsabilidade lidar com o que sentimos e não permitir que tal sentimento nos aprisione dentro dele e determine a nossa maneira de lidar com a pessoa; no caso, decidir excluí-la do nosso coração.
Consideremos o altar da nossa igreja: ele é o lugar onde se renova o sacrifício de Jesus por nós, o lugar onde Jesus continua nos amando até o fim, até o ponto de entregar seu Corpo e seu Sangue para fortalecer a nossa comunhão com as pessoas e curar as feridas dos nossos relacionamentos. Mas isso não se dá de maneira mágica, sem a nossa colaboração. Cabe a nós primeiro fazer o que está ao nosso alcance para nos reconciliar com o nosso irmão, para somente depois buscar a nossa comunhão com o Senhor (cf. Mt 5,23-24). Caso contrário, cada vez que nos aproximarmos do altar, o Senhor nos perguntará: “Onde está teu irmão?” (Gn 4,9). Como você está lidando com o seu ressentimento em relação a ele? Como você está usando a liberdade que Eu te dei de escolher entre construir ou destruir, fazer viver ou fazer morrer o relacionamento com tal pessoa?
No v.28, Jesus fala do olhar para a pessoa com o desejo de possuí-la. Os olhos são a janela ou a porta de entrada do nosso coração. Antes de a pessoa passar a habitar dentro de nós, ela é acolhida pelos nossos olhos. Mas a questão é: como vemos as pessoas? Nós enxergamos os outros como seres humanos ou como objetos para o nosso consumo particular, para o nosso lucro, para o nosso interesse momentâneo, ou ainda, para as nossas fantasias sexuais? Tudo aquilo que vemos, automaticamente provoca em nós um sentimento: “me atrai”, ou “não me atrai”, ou ainda “me é indiferente”. Quando nos sentimos atraídos por alguém, isto não é escolhido por nós. De novo é preciso lembrar: eu não escolho o que sentir, mas escolho como lidar com o que estou sentindo.
Outra característica dos tempos modernos é a infantilização das emoções. Embora sejamos adultos e racionais, nós nos deixamos arrastar por nossas emoções como crianças que fazem birra, se jogam no chão ou ficam agressivas sempre que suas vontades não são satisfeitas. Deixando de lado a nossa consciência, passamos a nos mover na vida unicamente pelo critério “isso me satisfaz”, “isso me agrada”, não nos dando ao trabalho de questionar: “isso me convém?”, “isso convém ao meu relacionamento, ao meu estado de vida, à minha salvação?”. O que Jesus está nos propondo é amadurecer afetivamente; colocar em diálogo nosso coração com a nossa consciência; nossas emoções, instintos e desejos com a nossa razão.  
“Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno” (Mt 5,29). Não existe crescimento sem poda. Quem nunca diz não a si mesmo e aos seus desejos, quem nunca se nega uma experiência de prazer, quem sempre quer ganhar tudo, experimentar tudo, gozar tudo será sempre uma pessoa emocionalmente infantilizada, e uma pessoa emocionalmente infantilizada é alguém incapaz de fidelidade, incapaz de constância e de seriedade, incapaz de administrar uma casa, uma família, incapaz de amadurecer num relacionamento.   
 “... o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus” (1Cor 2,10). Deixemos o Espírito de Deus esquadrinhar nossa consciência e nosso coração, nossos pensamentos e sentimentos, nossos instintos e desejos mais escondidos. Peçamos que Ele cure as feridas dos nossos relacionamentos, nos ajudando a derrubar muros e construir pontes, purificando o nosso olhar, de modo que possamos nos ver uns aos outros como partes do mistério de Deus, como pessoas que carregam o Sagrado dentro de si, pessoas que valem por aquilo que são e não por aquilo que podem servir aos interesses de alguém. Enfim, que o Espírito do Senhor nos auxilie a atingir a consciência da nossa liberdade interior não só diante do que os nossos olhos captam no mundo exterior, mas, sobretudo, diante dos afetos do nosso mundo interior, muitos deles ainda incompreensíveis para nós mesmos.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

PRESENÇA DIFERENCIADA

Missa do 5º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 58,7-10; 1Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16. 

            # SOMOSTODOSCHAPE. Muito provavelmente você viu em algum lugar esta afirmação, por ocasião da tragédia com o avião da Chapecoense, e compartilhou da ideia. Existem muitas diferenças entre os povos, as raças, as culturas e as religiões: diferenças quanto ao aspecto físico, à língua, à maneira de entender a vida e à maneira de se conceber Deus. Mas nós, que vivemos na era da globalização, temos nos acostumado a ver essas diferenças diminuírem, se diluírem, se apagarem, de tal forma que elas até mesmo parecem deixar de existir. As pessoas são diferentes, mas a globalização faz com que hoje todos sejam alcançados pelas mesmas notícias, seduzidos pelas mesmas propagandas, doutrinados pelas mesmas ideias, de modo que, embora sejamos diferentes quanto ao aspecto físico, à linguagem, à visão de mundo, à fé e a tantas outras coisas, todos hoje estamos adotando um estilo de vida paganizado, ou seja, um estilo de vida onde a nossa FÉ só pode ser vivida e manifestada de modo que ela NÃO DESTOE DO CONJUNTO.
            No mundo globalizado em que vivemos está proibido ser SAL da terra e LUZ do mundo. #SOMOSTODOSMCDONALDS, #SOMOSTODOSCOCACOLA, #SOMOSTODOSREDEGLOBO,
#SOMOSTODOSAFAVORDOABORTO, #SOMOSTODOSGAYSOUAFAVORDACULTURAGAY, e assim por diante. Numa sociedade onde os valores se corrompem e a vida perde rapidamente o sabor, você está proibido de ser o sal que preserva da corrupção e que dá sabor/sentido à vida. Numa época em que as pessoas se habituaram a viver na escuridão, como cegos que se deixam conduzir por outros cegos, sem questionar para onde estão sendo conduzidos, você está proibido de ser luz que destoa dessa escuridão e sinaliza para Aquele que é a verdadeira luz: Jesus Cristo.
            Nós, cristãos, não somos melhores do que ninguém. Somos limitados, falhos e passíveis de erro, como qualquer outro ser humano. Mas, na visão de Jesus, nós, cristãos, discípulos Seus, SOMOS uma PRESENÇA DIFERENCIADA na sociedade humana. Jesus nos quer exatamente assim: fiéis à nossa essência de SAL e LUZ, pessoas que estão no mundo sem ser do mundo, pessoas que comunguem das alegrias e das esperanças, das dores e dos sofrimentos humanos, fazendo ecoar, principalmente com a nossa conduta diária, a alegria do Evangelho. Portanto, não deixe que o seu sal se estrague ou que sua luz se apague por você aderir ao paganismo do mundo moderno. Aprenda a analisar tudo o que lhe é proposto e a ficar somente com aquilo que contribui para que o sabor e a luz do Evangelho de Cristo permaneçam vivos dentro de você e sejam comunicados àqueles que deles tanto necessitam. Lembre-se de que você, como sal e luz, é uma missão neste mundo. Não renuncie a esta missão só para não destoar na onda de degradação em que vive o nosso mundo.       
            Da mesma forma como o sal deve ser colocado na comida e a luz deve iluminar os que estão no ambiente, a nossa PRESENÇA cristã é necessária FORA das nossas igrejas. Da mesma forma como não tem sentido pescar em aquário, não tem sentido dar testemunho da nossa fé somente dentro da igreja. É no seio da família, no local de trabalho, no ambiente de estudo, na vida cotidiana e, sobretudo, nas periferias existenciais – situações onde se encontram pessoas expostas à degradação física, psicológica, moral e espiritual –, é ali que o nosso sal e a nossa luz são necessários. O problema é o medo, a timidez, o sentimento de inferioridade, a acomodação, a preguiça espiritual e, mais do que tudo, o não querer destoar para não ser rejeitado ou criticado que nos atrofia e nos fecha em nós mesmos; é isso o que faz com que permaneçamos com a nossa consciência anestesiada, cuidando da única ovelha que ficou conosco ao invés de ir atrás das 99 que se extraviaram.  
            O profeta Isaías nos recorda que a nossa primeira forma de estar na sociedade como sal e luz é a maneira como vivemos: “Reparta o pão com o faminto... Quando você encontrar um nu, cubra-o, e não despreze aquele que é humano como você... Se você (...) deixar os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se você acolher de coração aberto o indigente e prestar todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a sua luz e sua vida obscura será como o meio-dia” (Is 58,7.8.9.10). Por outro lado, o apóstolo Paulo nos convida a viver a nossa vocação de sal da terra e luz do mundo a partir da nossa fraqueza (cf. 1Cor 2,1-5). As nossas falhas, imperfeições e limitações não são um impedimento ao anúncio do Evangelho, mas são como que frestas por meio das quais a luz de Cristo pode passar e chegar àqueles para os quais devemos ser um Evangelho vivo.
            Enfim, quanto mais pessoas ao seu redor aderem consciente ou inconscientemente ao #SOMOSTODOSPAGÃOS, que você possa manter viva a sua consciência de ser fiel à própria essência, não somente cuidando do sal e da luz que é, mas inserindo-se no seio da humanidade de forma que a sua PRESENÇA DIFERENCIADA ajude a devolver gosto e sentido à vida das pessoas, contribuindo também para que elas possam aderir livremente Àquele que veio como luz para iluminar todo ser humano (cf. Jo 1,9): Jesus Cristo.

Pe. Paulo Cezar Mazzi
           



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ESSA TÃO SONHADA E DESEJADA FELICIDADE

Missa do 4º. dom. comum. Palavra de Deus: Sofonias 2,3; 3,12-13; 1Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12a.

            Algumas pessoas se casam porque querem ser felizes. Outras se separam pelo mesmo motivo. Algumas pessoas decidem ter filhos porque desejam ser felizes. Outras decidem não tê-los pelo mesmo motivo. Para experimentar momentos de felicidade, muitas pessoas bebem e se drogam; outras, compram, consomem e procuram prosperar financeiramente, mas, no fim de tudo, essa tal felicidade parece sempre escapar por entre os dedos, e o lugar dela acaba sendo ocupado pelo vazio, pela angústia, pela tristeza, pela falta de sentido...
            Como dizia o grupo Titãs, na música “Comida”, nos anos 80, “a gente não quer só dinheiro; a gente quer dinheiro e felicidade. A gente não quer só dinheiro; a gente quer inteiro e não pela metade”. Este é o fato: nós queremos inteiro e não pela metade. Esta é a verdade: o ser humano não busca unicamente satisfazer suas necessidades básicas como alimento, abrigo, segurança, afeto... Na alma de cada um de nós há um anseio por felicidade, um anseio que se expressa em perguntas do tipo: Onde eu posso ser feliz? De que maneira minha vida pode encontrar sentido? Como eu posso me sentir uma pessoa realizada?
            O mundo em que vivemos nos oferece falsas respostas para a nossa pergunta a respeito da felicidade, procurando nos convencer de que nós só seremos felizes quando todos os nossos desejos forem satisfeitos. Mas, quantas vezes você já fez a experiência de ter alcançado algo que tanto desejava e, depois disso, perceber que não era bem isso que queria? Aquilo não te preencheu e você chegou à conclusão de que ainda falta algo, algo que não te pode ser dado pelo que você come, nem pelo que você veste, nem pelo que você compra, nem pelo que você goza, nem pelo que você constrói...
            Dizem que às vezes a vida nos vira do avesso só para nos mostrar que a felicidade vem de dentro para fora. Jesus, no Evangelho de hoje, está fazendo justamente isso: virando do avesso a nossa compreensão de felicidade. Segundo Jesus, a felicidade começa a nascer em nós quando nos tornamos “pobres em espírito” (v.3), isto é, pessoas cuja única segurança, única esperança e único apoio é Deus, pessoas que reconhecem sua própria fraqueza, miséria e imperfeição, e que sabem da absoluta necessidade que têm de serem salvas por Deus. Daí o conselho do profeta Sofonias: “Procure ser uma pessoa humilde e justa, e coloque sua esperança unicamente no Senhor” (citação livre de Sf 2,3).
            Jesus também vira do avesso a nossa compreensão de felicidade ao afirmar que felizes são os que choram (v.4), os que têm fome e sede de justiça (v.6), os que são perseguidos por se esforçarem em se comportar de maneira justa (v.10), segundo os valores do Evangelho (v.11): são pessoas que compreenderam que a felicidade não está em não experimentar nenhum tipo de DESOLAÇÃO ao longo da vida, mas em suportar certas desolações aguardando a verdadeira e única CONSOLAÇÃO que só pode vir do Deus da Verdade e não das mentiras do mundo.
            Por fim, para a nossa geração, cada vez mais convencida de que a nossa sobrevivência neste mundo depende de abandonarmos atitudes como ser humilde, misericordioso, puro de coração e pacífico, Jesus nos ensina que somente recuperando esses valores é que nós, particularmente, e a humanidade como um todo, reencontraremos o caminho para a felicidade. Portanto, cuidado com pessoas que, querendo consolar você, querendo ver você bem, dizem aquilo que você mais gostaria de ouvir: “Deus quer que você seja feliz”, mas a “felicidade” proposta supõe que você se feche no seu próprio egoísmo, que você faça os outros sofrerem com a sua decisão, que você abandone sua própria cruz e se afaste da verdade de Deus para a sua vida.     
            Numa sociedade de contra valores como a nossa, precisamos desconfiar das inúmeras propagandas e propostas de felicidade que nos são apresentadas. Ao invés de recebermos passivamente e sem reflexão tudo aquilo que os meios de comunicação despejam dentro de nós como se fôssemos uma espécie de “esgoto”, precisamos usar o FILTRO da nossa consciência, orientada pela Palavra de Deus, para separarmos o que presta do que não presta, o que realmente convém e o que não convém à nossa felicidade, tendo muito claro esta verdade: “Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante” (1Cor 1,27-28).
            Por fim, lembre-se de que a sua felicidade não depende de você não ter nenhum problema ou de não experimentar nenhuma frustração, mas da forma como você lida com seu problema, com sua frustração; ela não depende de você não sentir nenhum tipo de dor ou de tristeza, mas de você procurar dialogar com tais sentimentos e entender por que eles estão ali e o que eles estão querendo te dizer; ela não depende da quantidade de “amigos” que você tem nas redes sociais e de quantas “curtidas” aquilo que você publica recebe, mas da pessoa que você é no convívio real com os outros e dos valores que norteiam a sua consciência. Mais do que procurar o tempo todo ser feliz, procure fazer alguém feliz, e você encontrará a felicidade que procura.


Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ESCOLHAS ATUALIZADAS

Missa do 3º. dom. comum. Palavra de Deus: Isaías 8,23b–9,3; 1Coríntios 1,10-13.17; Mateus 4,12-23.

Passou o tempo das festas – Natal e Ano Novo. A grande maioria dos trabalhadores que estavam de férias já retornou ao trabalho, e aqueles que puderam viajar já estão de volta. Aos poucos a vida vai retomando o seu curso e vamos mergulhando de novo no mar da rotina do nosso cotidiano. Mas eis que Jesus se coloca junto ao mar da nossa vida! Ele está junto a nós porque escolheu iniciar seu caminho de salvação não na capital (Jerusalém), mas numa periferia chamada “Galileia dos pagãos” (Mt 4,15), um lugar insignificante, sem importância política, nem religiosa, uma região habitada por pessoas consideradas ignorantes, perdidas.
Jesus convida cada um de nós a visitar a sua periferia existencial, aquela área da nossa vida que consideramos insignificante, mas que precisa ser acolhida e cuidada por nós. Ao mesmo tempo, Ele nos convida a levarmos a Sua luz aonde ela ainda não chegou. Para isso, cada um de nós precisa “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20). É por meio de cada um de nós que a Igreja poderá “estar sempre onde fazem mais falta a luz e a vida do Ressuscitado” (EG 30), nos lembra o Papa Francisco.  
Se a liturgia da semana passada nos tornou conscientes de que a nossa existência neste mundo não é fruto do acaso, mas de uma escolha e de um chamado por parte de Deus, o Evangelho de hoje confirma esta verdade ao nos colocar diante das palavras de Jesus: “Sigam-me e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mt 4,19). Este chamado espera de nós uma RESPOSTA, resposta que deve ser dada não somente num determinado momento, mas que pede para ser ATUALIZADA a cada dia da nossa vida. Assim como os aplicativos do nosso celular exigem atualização para que funcionem bem, assim a resposta que damos ao chamado de Deus necessita ser atualizada, para que a escolha que fizemos ontem preencha de sentido a nossa vida hoje.
            Mas aqui nos deparamos com uma questão importante: uma das características da geração moderna é a dificuldade em fazer escolhas que sejam definitivas. Seja no campo profissional, afetivo ou mesmo da fé, as pessoas hoje mudam suas escolhas quase que com a mesma facilidade com que trocam de roupa. Muitos fatores colaboram para essa troca: o desgaste, a rotina, a decepção – causada muitas vezes por uma expectativa exagerada ou irreal daquilo que a pessoa escolheu – o surgimento de algo aparentemente melhor, mais vantajoso, mais lucrativo, mais sedutor, algo que prometa resultados mais rápidos e ofereça uma satisfação maior para a pessoa.
            Embora a geração de hoje ache normal “ROER A CORDA” sempre que o preço das escolhas feitas se mostre exigente e muitas pessoas não queiram dar-se ao trabalho de atualizar suas escolhas, isto é, atualizar a resposta que deram ao chamado de Deus, cada um de nós é convidado por Jesus a segui-lo de maneira madura, apoiando-nos na escolha que Ele fez de nós e na fecundidade que nos concedeu de produzirmos frutos, sabendo que esses frutos permanecerão na medida em que nossas escolhas se ENRAIZAREM no chão do definitivo e não mais patinarem sobre o terreno do provisório.
Jesus nos chama a ajudá-lo na missão de “pescar pessoas”, isto é, salvá-las. Nesse imenso mar da vida conhecemos inúmeros jovens mergulhados nas bebidas e nas drogas, homens e mulheres mergulhando cada vez mais no adultério, famílias se afogando na desestruturação, pessoas mergulhadas em dívidas devido ao consumismo, gente se afogando no vício dos jogos, pessoas mergulhadas no sofrimento e na dor, bairros ou cidades mergulhadas na violência, países mergulhados em guerra civil, inúmeras pessoas se afogando na pornografia enquanto navegam na internet etc.
          Antes de lançarmos as redes, contudo, o apóstolo Paulo nos convida a tomar consciência de que redes rompidas não servem para pescar. Portanto, devemos superar as divisões que existem entre nós. “Será que Cristo está dividido?” (1Cor 1,13), pergunta o apóstolo. O centro da nossa fé deve ser o Evangelho, e não a pessoa do pregador do Evangelho. Além disso, ao procurarmos viver como portadores da mensagem do Evangelho aos outros, devemos confiar muito mais na força própria da cruz de Cristo do que na sabedoria das nossas palavras. A cruz de Cristo tem sua força própria! Isso significa que “não poderemos jamais tornar os ensinamentos da Igreja uma realidade facilmente compreensível e felizmente apreciada por todos; a fé conserva sempre um aspecto de cruz”, nos lembra o Papa Francisco (EG 42).
            Hoje é o momento de atualizarmos a nossa resposta ao chamado que recebemos de Jesus. “Um dia escutei teu chamado, divino recado batendo no coração. Deixei deste mundo as promessas e fui, bem depressa, no rumo da Tua mão! Tu és a razão da jornada, Tu és minha estrada, meu Guia, meu Fim. No grito que vem do Teu povo Te escuto de novo chamando por mim! Embora tão fraco e pequeno caminho sereno, com a força que vem de Ti. A cada momento que passa revivo esta graça de ser Teu sinal aqui! Tu és a razão da jornada...”.


Pe. Paulo Cezar Mazzi             

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

VOCÊ É UMA MISSÃO

Missa do 2º. dom. comum. Isaías 49,3.5-6; 1Coríntios 1,1-3; João 1,29-34.

            Por que você nasceu? Por que você existe? Segundo a Biologia, no momento da ejaculação 300 milhões de espermatozóides correm para fecundar o óvulo, mas somente um consegue, o que significa que você foi uma escolha da vida entre trezentos milhões de outras possibilidades. Então, por que a vida escolheu você e não outra pessoa? A resposta a essa pergunta nos é oferecida hoje pela Palavra de Deus: “Ele (o Senhor)... me preparou desde o ventre materno para ser seu servo” (Is 49,5). No princípio de tudo, no princípio da existência de cada um de nós não está o acidente, o acaso, a coincidência, mas o desejo de Deus, a escolha que Ele fez de cada um de nós. Ele nos escolheu para uma missão.
            Quando o Papa Francisco escreveu “A Alegria do Evangelho”, teve a felicidade de usar uma expressão maravilhosa: “Eu sou uma missão nesta terra e por isso estou neste mundo” (EG 273). Você nasceu não apenas porque tem uma missão; você é uma missão; sua existência neste mundo é única e vai deixar uma marca única de Deus para a humanidade. Deus escolheu você para ser um servo Seu. Perceba que a palavra “servo” se repetiu três vezes na primeira leitura. Para os tempos atuais, não é uma palavra simpática, mas vista de maneira negativa, depreciativa. No entanto, aos olhos de Deus ela se reveste de um importante significado: ser servo é ser escolhido e preparado para a missão de reconduzir as pessoas para a verdade, para a luz, para a libertação, para a salvação.      
            Fica fácil perceber que a palavra “servo” se encontra dentro da palavra “serviço”. Jesus é, por excelência, o “Servo” do Pai e quis que nós seguíssemos o seu exemplo, ao dizer: “Eu estou no meio de vocês como aquele que serve” (Lc 22,27). No entanto, no mundo atual, muitas pessoas desenvolveram a habilidade de perverter o “serviço” em “cargo” (poder). Desse modo, na nossa e em outras igrejas, muitos ambicionam cargos, mas poucos desejam servir. Essa ambição frequentemente se apresenta travestida de “amor à Igreja”, quando, na verdade, é amor ao próprio ego, amor a uma necessidade doentia de ocupar um cargo, de sentir-se superior, de servir-se dos outros para realizar o seu projeto pessoal de vida.     
            Por decepção com as pessoas ou com o mundo; por cansaço, por esgotamento ou por não ver “resultados” em sua missão, infelizmente muitos deixaram de servir; se tornaram pessoas até mesmo amargas, descrentes, desencantadas em relação à própria missão. Se você às vezes se sente assim, medite sobre essas palavras da Santa Madre Teresa de Calcutá: “O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra. Construa assim mesmo... O bem que você faz hoje, pode ser esquecido amanhã. Faça o bem assim mesmo. Dê ao mundo o melhor de você,
mas isso pode não ser o bastante. Dê o melhor de você assim mesmo. Veja você que, no final das contas, é tudo entre você e Deus. Nunca foi entre você e os outros”.
            Os textos bíblicos de hoje também nos colocam diante de outro servo de Deus: o apóstolo Paulo. Ele tinha a consciência de ser chamado a ser apóstolo pelo próprio Deus e não por uma ambição pessoal ou pela escolha dos homens. E ele nos disse uma coisa muito importante: nós, cristãos, fomos chamados pelo mesmo Deus a uma vida de santidade, santidade que significa pertencer a Deus e não ao mundo; santidade que significa procurar pautar a nossa vida pelo Evangelho e não pelo “todo mundo faz isso”.
            Por fim, o Evangelho nos coloca diante do testemunho de João Batista em relação a Jesus. Esse testemunho nos lembra que a nossa missão é ser, com todos os nossos limites e imperfeições, um sinal que aponta constantemente para Jesus Cristo, ajudando com que as pessoas do nosso tempo se encontrem com “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O problema é que designar Jesus como “Cordeiro” não diz muito ao nosso mundo atual. Por isso, temos que recordar que, assim como o cordeiro pascal esteve presente no momento em que os hebreus foram libertos da escravidão do Egito (cf. Ex 12,1-28), assim Jesus é o Cordeiro que nos faz realizar a nova e definitiva Páscoa, a passagem da escravidão, onde deixamos de viver submetidos ao domínio do pecado, para uma vida que se deixa conduzir pelo Espírito de Deus, Espírito que sustentou Jesus em sua missão e que hoje sustenta a nós, discípulos Seus.  
            Se o pecado ainda se faz presente no coração de cada um de nós e nas estruturas da nossa sociedade, é porque a nossa luta contra ele segue como uma tarefa diária, como diz a carta aos Hebreus: “(...) deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós. Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa” (Hb 12,1-2). Renovemos a nossa adesão ao Espírito Santo, com O qual Jesus nos batizou. Retomemos a cada dia a consciência da missão viva que somos como pessoas e a fidelidade ao serviço que o Senhor nos chamou a realizar, para que a Sua salvação chegue aos confins da terra (cf. Is 49,6).

Para a sua oração pessoal: Coração adorador (Banda Dom)


Pe. Paulo Cezar Mazzi