sexta-feira, 26 de agosto de 2016

QUAL É O SEU TAMANHO?

Missa do 22º. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,19-21.30-31; Hebreus 12,18-19.22-24a; Lucas 14,1.7-14.
            
       O nosso país acabou de encerrar as Olimpíadas. Em nossa memória talvez tenham ficado nomes e imagens de atletas que ganharam medalhas de ouro, de prata ou de bronze. Mas quem se lembraria dos outros atletas, daqueles que ficaram em quarto ou em quinto lugar? Quem se lembraria daqueles que ficaram em último lugar? Além disso, é importante perguntar-se: Como eu lido com a derrota, numa competição? Mais ainda: O quanto eu vivo a minha vida num permanente estado interior de competição, cobrando de mim mesmo a medalha de ouro em tudo o que eu faço, não admitindo o segundo ou o terceiro lugar e não permitindo jamais a hipótese de ocupar o último lugar?
            Não há dúvida de que é muito importante nós procurarmos dar o melhor de nós naquilo que fazemos. Mas como é perigosa essa engrenagem chamada ‘competição’, que move a nossa sociedade. Ela nos convence de que ou nós ocupamos o primeiro lugar, ou nós simplesmente não existimos aos olhos do mundo. E aí nós passamos a medir o nosso valor pela quantidade de curtidas nas redes sociais em relação a algo que publicamos, por exemplo. Já não nos basta estar vivos e com saúde. Nós precisamos impressionar, impactar. Não admitimos passar despercebidos num ambiente. Ficamos tristes, angustiados e deprimidos quando não nos aplaudem ou quando não nos elogiam, quando, então, temos que admitir que não somos o centro do mundo, mas apenas uma pessoa entre tantas outras.      
             “Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (Lc 14,7). A busca pelos primeiros lugares faz sérios estragos na alma das pessoas, além de sérios estragos na família, no ambiente de trabalho, na sociedade e também nas igrejas. Ela nos torna egoístas, interesseiros e corruptos. Ela endivida pessoas desnecessariamente, tirando-lhes a paz. Ela nos distancia de Deus, pois “é aos humildes que ele revela os seus mistérios” (Eclo 3,20). Ela é o combustível do carreirismo na nossa Igreja. Ela adoece gravemente a nossa alma, como afirma a Escritura: “para o mal do orgulhoso não existe remédio” (Eclo 3,30).  
            Jesus nos conhece por dentro e sabe que todos nós estamos intoxicados pelo veneno do orgulho, da arrogância, da soberba. Ele nos propõe um caminho de desintoxicação desse veneno: “Quando você for convidado, vá sentar-se no último lugar” (Lc 14,10). Liberte-se da cobrança da sociedade sobre você e da fome insaciável do seu ego em querer o tempo todo ser reconhecido e aplaudido. O seu valor está naquilo que você é como pessoa, e não naquilo que você possui e procura ostentar para os outros. A sua cura está no diálogo e na reconciliação com a sua sombra, com aquilo que em você é fraco e imperfeito, mas que faz parte da sua personalidade e pede para ser integrado em você. Não se torture querendo ocupar o primeiro lugar o tempo todo. Escolha livremente o último lugar. Ali você encontrará a paz que o seu coração procura. Quanto mais você se aproximar da humildade, mais estará próximo da sua verdade, e somente ela pode te realizar como pessoa. Desça do salto alto do orgulho, da soberba, da arrogância. Permita-se ficar descalço. Sinta a terra (húmus) sob os seus pés. Entre em contato com a sua verdadeira origem. Encontre a sua verdadeira medida. Enxergue o seu verdadeiro tamanho, pois, como alguém disse, “ser humilde é ser do tamanho que se é”.
            Neste último final de semana de agosto, mês vocacional, celebramos o dia do catequista. Eis uma reflexão oportuna:

Às quartas-feiras, milagre

            Jacinto perguntou a Gabriela: “Que fez de bom, hoje?” “Fiz um milagre”, respondeu ela. “Foi na catequese”. “E como foi que fez o milagre?”, perguntou o menino. “Temos uma catequista que está muito doente. Não pode fazer nada sozinha, somente falar e sorrir. Ela falava dos milagres de Jesus. E nós, catequizandos, lhe dissemos: ‘Não é verdade que existam milagres. Porque se existissem, Deus já teria te curado’. Mas ela respondeu: ‘Meu milagre são vocês! Porque me levam a passear, nas quartas-feiras, empurrando minha cadeira de rodas’. Compreendeu?”, perguntou Gabriela a Jacinto. “Fazemos milagres todas as quartas à tarde”. “Não parece que a vida é também um milagre?”, perguntou o menino. E Gabriela respondeu: “Não. A vida é para fazer milagres!”.
            Gabriela tem razão, a vida é para fazer milagre, às quartas, às quintas e aos domingos. A vida não é para sentar-se esperando que Deus faça milagres espetaculares, não é para limitar-se a confiar que Ele resolva nossos problemas, mas para começar a fazer este pequeno milagre que Ele colocou já em nossas mãos, o milagre de amar-nos e ajudar-nos. Que é mais milagroso, devolver a vista a um cego ou a felicidade a um amargurado? Multiplicar os pães ou saber reparti-los bem? Mudar água em vinho ou o egoísmo em fraternidade? Se nos dedicássemos a construir pequenos milagres na metade do tempo que gastamos em sonhá-los espetacularmente, o mundo já estaria caminhando melhor.
            E o milagre de amar podem fazê-lo todos, crianças e grandes, pobres e ricos, sãos e enfermos. Prestem bem atenção: a um homem podem privá-lo de tudo, menos de uma coisa: de sua capacidade de amar. Um homem pode sofrer um acidente e não poder nunca mais andar. Porém, não existem acidentes que nos impeçam de amar... Não existem correntes que aprisionem o coração, a não ser as do próprio egoísmo...

Texto resumido de José Luís Descalzo

Nossa gratidão, admiração, respeito e oração por todos os catequistas!

                                                                                                                                                                                Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

DEUS RECOLHE CADA UMA DAS NOSSAS LÁGRIMAS

Missa da Assunção de Nossa Senhora. Palavra de Deus: Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab; 1Coríntios 15,20-27a; Lucas 1,39-56.  
           
            Na música “A lista”, Oswaldo Montenegro sugere que você faça uma lista dos amigos, dos sonhos, de tantas coisas que ontem compunham o quadro da sua vida e que hoje não estão mais presentes, se perderam, se modificaram, deixaram de existir, deixaram de ter sentido. Quantas coisas vão ficando para trás em nossa existência? Quantas peças do imenso quebra-cabeça que é a nossa vida vão se perdendo ao longo do caminho? Elas poderão um dia ser recuperadas? Nossa vida voltará um dia a ser recomposta? A Assunção de Maria, a sua elevação em corpo e alma ao céu, nos diz que sim. Tudo aquilo que vivemos na terra será recolhido por Deus no céu. 
            Talvez não exista palavra mais apropriada para falar da Assunção de Maria, e da nossa própria, que a palavra RECOLHER. Melhor ainda: SER RECOLHIDO. Por mais que tenhamos a sensação de que muitas das nossas palavras, das nossas atitudes, dos nossos esforços, das nossas lutas, das sementes que lançamos ao longo do nosso caminho simplesmente tenham se espalhado e ficado perdido(a)s num passado que não mais voltará, a Palavra de Deus afirma que tudo isso será recolhido por Deus no momento da nossa morte. Aliás, o próprio Salmo 55,9 afirma que Deus conhece todos os nossos passos errantes e recolhe em Seu odre cada uma das nossas lágrimas!
            Uma imagem disso está no livro do Apocalipse. Uma Mulher está grávida, pronta para dar à luz, e um Dragão se coloca diante dela, pronto para devorar o Filho, tão logo nasça. Assim que o Filho nasce, Deus intervém, recolhe o Filho junto de Si e leva a Mulher a um lugar seguro, onde se sinta salva do Dragão. Esta cena não se refere apenas a Maria, que gera Jesus, o qual é resgatado da morte pelo Pai no momento da ressurreição e levado para junto de Si no momento da Ascensão. Esta cena se refere a cada um de nós e às nossas famílias: aquilo que geramos com tanto custo, em meio a tantas lágrimas, e que está ameaçado pelo dragão da violência, da injustiça, do sofrimento, do absurdo e da morte, será recolhido por Deus. E tudo aquilo que Deus RECOLHE é também por Ele TRANSFORMADO.
            Assim como o Pai recolheu o corpo de seu Filho morto na cruz e o transformou num corpo glorificado na ressurreição, assim como Ele recolheu Maria em corpo e alma ao céu, segundo o dogma da Assunção que celebramos hoje, assim Deus recolherá todas as nossas lutas, todos os nossos sonhos, todas as nossas lágrimas, e os transformará numa vida nova, como diz a Escritura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias (primeiros frutos de uma colheita) dos que morreram... Em Cristo todos reviverão” (1Cor 15,20.22).
            Neste final de semana em que se encerram as Olimpíadas, recordemos que a vida é, sem dúvida, um desafio, uma luta; não somente uma luta pela sobrevivência, mas uma luta para alcançar aquilo que esperamos, para realizar os nossos sonhos, para ajudar o mundo a ser melhor, para ajudar as pessoas a viverem com sentido; enfim, uma luta para manter viva a nossa fé. O sentido da nossa luta está nessas palavras do apóstolo Paulo: “Se nós trabalhamos e lutamos, é porque pomos a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, sobretudo dos que têm fé” (1Tm 4,10). E ainda: “Os atletas se abstém de tudo; eles, para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível” (1Cor 9,25).
            Ao encerrarmos a Semana da Família, o Evangelho nos coloca diante de duas mulheres que humanamente não poderiam estar grávidas, mas que estão por obra de Deus na vida de suas famílias, porque acreditaram nas Suas promessas. A visita de Maria à sua prima Isabel convida nossas famílias a se visitarem mutuamente, a compartilharem tanto os momentos de alegria quanto os momentos de tristeza. Que à semelhança de Maria, cada um de nós, no seio de sua família, possa proclamar a força do braço do nosso Deus, que RECOLHE a luta, a dor, o empenho, as lágrimas da nossa família por uma sociedade melhor, por um mundo redimido, e TRANSFORMA tudo isso segundo o Seu desígnio de vida e de salvação para a família humana.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O FOGO E A DIVISÃO SÃO NECESSÁRIOS EM NOSSA VIDA

Missa do 20º. Dom. comum. Palavra de Deus: Jeremias 38,4-6.8-10; Hebreus 12,1-4; Lucas 12,49-53.

“Eu vim lançar fogo sobre a terra” (Lc 12,49). De que “fogo” Jesus está nos falando? O fogo é uma das imagens bíblicas do Espírito Santo. Assim como o fogo purifica o ouro, a prata, o metal, assim o Espírito Santo nos purifica a partir de dentro, do coração, onde se escondem as nossas maiores “sujeiras” (cf. Mc 7,20-23). E assim como o fogo dobra o que é duro – basta lembrar o duro metal que se torna flexível quando em contato com o fogo – assim o Espírito Santo é capaz de dobrar a dureza do nosso coração, do nosso ego, endurecido na sua obstinação.  
Hoje, encerrando a semana da família e celebrando o dia dos pais, pedimos a Jesus que faça descer o fogo do Espírito Santo sobre cada casa, cada família e sobre o coração de cada pai, purificando as famílias da sujeira dos desentendimentos, das agressões físicas e verbais, dobrando a dureza dos corações endurecidos pela raiva e pelo ressentimento, libertando o coração do pai da agressividade que machuca a si mesmo e aos outros, rompendo com as correntes que o mantém prisioneiro da depressão, da bebida, da droga, do adultério, da desonestidade (corrupção) e da falta de fé.
“Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer a divisão” (Lc 12,51). De que “divisão” Jesus está nos falando? O Espírito Santo é chamado pelo próprio Jesus de “Espírito da Verdade” (Jo 16,13). A verdade incomoda e tira a paz, porque questiona e desmascara a injustiça quem cometemos. A verdade chuta para longe as nossas muletas e nos obriga a andar com as nossas próprias pernas. O Espírito da Verdade não se interessa pelas nossas reclamações, não se deixa enganar pelas nossas desculpas e não aceita ser submetido a nenhum tipo de chantagem da nossa parte. Não é por acaso que Ele não é aceito por nós, quando nos mantemos no nível do nosso ego, como afirma o apóstolo Paulo: “O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus” (1Cor 2,14).
Mas, em que sentido a família hoje, e especialmente o pai, precisam dessa “divisão” que Jesus veio trazer com a verdade do Evangelho? A palavra de Jesus precisa penetrar em nós “até dividir alma e espírito” (Hb 4,12), nos tornando conscientes daquilo que preferimos ignorar em nós: as verdadeiras intenções do nosso coração. O Espírito da Verdade precisa penetrar em nossa casa, “dividir” a nossa família e revelar a mentira das falsas compensações que costumamos dar para a nossa vida afetiva/sexual/financeira/social. Só a verdade do Espírito Santo pode fazer o marido e a mulher se confrontarem com sinceridade e se responsabilizarem mutuamente pela qualidade de vida que se vive dentro de casa. Os pais precisam da força do Espírito Santo para educarem seus filhos na verdade e ajudá-los a se convencerem de que nós “nada podemos contra a verdade, mas só temos poder em favor da verdade” (2Cor 12,8).
Olhando mais uma vez para a figura do pai, hoje pedimos a Jesus que conduza os pais a essa transformação tão necessária: que “o homem psíquico” que habita em cada um deles diminua, para que cresça “o homem espiritual” (1Cor 2,15); que eles desejem ser habitados pelo Espírito Santo e se deixem curar e salvar pela “verdade que liberta” (Jo 8,32); que o pai tenha a coragem de ser uma presença que “divide”, que “separa”. Em que sentido? Segundo uma reportagem de Folha de São Paulo* (27/06/2016), 2 em cada 3 menores infratores não têm pai dentro de casa. O pai pode, com a sua efetiva presença paterna, “separar” o filho do mundo do crime. Além disso, a presença afetiva e firme do pai tem a função de “dividir” o filho homem em relação à mãe e “separá-lo” dela, a fim de que ele desenvolva de maneira saudável a sua identidade masculina.  
Três palavras finais para as famílias, especialmente para o pai; a primeira, da Sagrada Escritura; as duas últimas, do Papa Francisco: 1) “Empenhemo-nos com perseverança no combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus... Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia...” (Hb 12,1.2). 2) “Deus coloca o pai na família, para que, com as características preciosas da sua masculinidade, esteja próximo da esposa, para compartilhar tudo, alegrias e dores, dificuldades e esperanças. E esteja próximo dos filhos no seu crescimento: quando brincam e quando se aplicam, quando estão descontraídos e quando se sentem angustiados, quando se exprimem e quando permanecem calados, quando ousam e quando têm medo, quando dão um passo errado e quando voltam a encontrar o caminho; pai presente, sempre” (A Alegria do amor, 177). 3) “Querer formar uma família é ter a coragem de fazer parte do sonho de Deus, a coragem de sonhar com Ele, a coragem de construir com Ele, a coragem de unir-se a Ele nesta história de construir um mundo onde ninguém se sinta só” (A Alegria do amor, 322).
* Levantamento feito com 1.500 jovens entre 12 e 18 anos de idade. Eles cometeram delitos em São Paulo. 42% deles, além de não terem o pai dentro de casa, não têm contato com o mesmo. Segundo o Promotor Eduardo Del Campo, uma família funcional e presente é o primeiro sistema de freios que um jovem terá sobre suas condutas. O outro sistema de freio é a escola. Aqui o problema é a evasão escolar: apenas 57% dos adolescentes infratores estudam. Ainda segundo a reportagem, especialistas dizem que a derrocada de um adolescente – a ponto de levá-lo para o crime – começa quando ele perde os vínculos positivos e passa a sofrer privação emocional. Na ausência do pai ou da mãe, é preciso que exista uma espécie de “padrinho”, para oferecer este vínculo positivo ao adolescente.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

HOMENS E MULHERES DE ESPERANÇA

Missa do 19º. dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 18,6-9; Hebreus 11,1-2.8-19; Lucas 12,32-48.
     
A palavra “esperança” percorreu todos os textos bíblicos que acabamos de ouvir. Os hebreus, escravos no Egito, esperaram pela “noite da libertação” (Sb 18,6), e essa esperança os ajudou a se manterem não somente vivos, mas também firmes em sua fé (cf. Sb 18,6). Ao mesmo tempo, a esperança que alimentava aquelas pessoas se traduzia numa atitude de vida: elas eram solidárias umas para com as outras, solidárias nos mesmos bens e nos mesmos perigos (cf. Sb 18,9).
O salmista, por sua vez, nos lembrou de que os olhos do Senhor se dirigem para “os que o respeitam, e que confiam esperando em seu amor” (Sl 33,18). Por isso, o salmista declara: “No Senhor nós esperamos confiantes, porque ele é nosso auxílio e proteção!” (Sl 33,22a) e suplica: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos” (Sl 33,22b).
Já a carta aos Hebreus nos lembrou de que a fé é sempre portadora de esperança e a esperança, por sua vez, é consequência da fé: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera” (Hb 11,1). Se eu tenho fé e esperança em Deus, como Abraão teve, sou capaz de me dispor a caminhar com Ele sem exigir que me diga exatamente para onde Ele quer me conduzir e o que pretende fazer da minha vida. Se eu tenho fé e esperança em Deus posso suportar viver como estrangeiro neste mundo, ‘morando em tendas’, isto é, não me fixando onde não tenho que me fixar e não pretendendo me assegurar com posses materiais indevidas, uma vez que estou esperando pela minha morada definitiva, preparada pelo próprio Deus. Por fim, se eu tenho fé e esperança em Deus sou capaz de lhe ‘sacrificar o meu Isaac’, isto é, sou capaz de continuar a crer e a esperar em Deus, amá-lo e servi-lo, mesmo que Ele me tire aquilo que de mais precioso já me concedeu.
Por fim, Jesus nos convidou a viver a nossa vida dessa maneira: “Sejam como pessoas que estão esperando seu senhor voltar” (Lc 12,36). Concretamente, o que isso significa? Significa que a vida nos foi dada para ser administrada e não simplesmente aproveitada, usufruída, e o mesmo Senhor, que nos deu a vida e nos capacitou para sermos administradores fiéis e prudentes, nos pedirá contas se realmente cuidamos daqueles que foram confiados aos nossos cuidados ou se passamos a vida nos servindo deles para os nossos próprios interesses.  
Ora, se a palavra “esperança” aparece como eixo da liturgia desse final de semana, precisamos nos perguntar: Eu ainda alimento esperança dentro de mim? De que maneira? Onde se assenta a minha esperança: nos meus recursos intelectuais / emocionais / materiais ou na graça de Deus para comigo? Eu espero em Deus e pelo seu socorro, pela sua providência, pela sua justiça? A minha esperança no Pai que deseja me dar o Reino me faz livre em relação aos bens materiais (cf. Lc 12,33-32)? Essa esperança também me faz solidário para com as pessoas?
Neste primeiro final de semana do mês vocacional celebramos a vocação do padre. O número de padres é muito pequeno, diante da necessidade de evangelização. Mas o padre ainda é uma presença necessária no mundo atual? Sim. O padre é uma presença necessária para ajudar a humanidade a ter esperança, a não deixar de lutar e de esperar pela sua libertação, a aprender a usar a força da esperança para se manter em pé diante das dificuldades. O padre é uma presença necessária para lembrar às pessoas de hoje que somos todos cidadãos do céu e não podemos fixar nossa morada neste mundo, e se temos bens materiais, eles devem sejam usados para socorrer os pobres. Enfim, o padre é uma presença necessária para ajudar a humanidade a esperar pelo seu Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Ao celebrar a vocação sacerdotal neste final de semana, nós, padres / bispos / pastores, ou seja, ministros de Deus, podemos fazer uma autocrítica a partir das leituras bíblicas que ouvimos. Como ministro de Deus, eu sou um homem de esperança? Eu comungo dos perigos/sofrimentos do meu povo, ou somente dos seus bens, das suas conquistas e das suas alegrias? Uma recente pesquisa revelou que a maior causa de desistência do ministério sacerdotal por parte de alguns padres é a falta de fé. Eu sou um homem de fé? Cuido da minha fé tanto quanto cuido da minha saúde e do meu bem estar? Sustentado pela fé, Abraão aceitou residir “como estrangeiro na terra prometida, morando em tendas” (Hb 11,9). Minha casa é uma ‘tenda’, uma morada simples e provisória, ou, por me achar rei, fiz ou pretendo fazer dela meu palácio particular? “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12,34). Aquilo que dá sentido à minha vida e me realiza verdadeiramente como pessoa é servir a Deus atendendo pessoas, visitando doentes, ministrando sacramentos ou desfrutando dos benefícios que a ‘vida de padre’ me oferece? Jesus deixou claro que o administrador fiel e prudente é aquele que dá “comida a todos na hora certa” (Lc 12,42). Eu estou servindo o povo que me foi confiado ou estou servindo-me dele para sustentar um estilo de vida do tipo “bon vivant” (expressão francesa que significa “boa vida” ou que qualifica determinado indivíduo como “amante dos prazeres da vida”)? “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!” (Lc 12,48). Aquilo que se exige de mim, como de qualquer ministro de Deus, é a decência, decência não só quanto ao comportamento moral, mas também na maneira como eu administro o dízimo e as ofertas da ‘minha’ igreja... Rezemos uns pelos outros. Nós, ministros de Deus, estamos precisando mais do que nunca de conversão.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 29 de julho de 2016

SOLTE AS MÃOS DA BARRA DE SEGURANÇA

Missa do 18º. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiastes 1,2;2,21-23; Colossenses 3,1-5.9-11; Lucas 12,13-21.

O Pe. Henri Nouwen, falecido em 1996, sempre admirou os trapezistas, pela coragem de fazerem o que fazem. Num dia, ao elogiar pessoalmente um deles chamando-o de “herói”, o trapezista lhe respondeu: “Eu não sou herói. Herói é quem me segura pelas mãos, quando eu solto a barra de segurança do meu trapézio”. No seu livro “Transforma meu pranto em dança”, ao relatar esse fato sob o título ‘Agarrar e soltar’, Henri Nouwen conclui que é assim que devemos fazer com relação a Deus: precisamos nos soltar das nossas barras de segurança para que Ele possa nos levar para lugares mais altos...
No mundo em que vivemos a nossa segurança se chama “dinheiro”. Apesar de ser uma falsa e ilusória segurança, nós nos agarramos a ela de uma forma tão doentia que nos tornamos gananciosos como este homem da parábola contada por Jesus, um homem profundamente egoísta, para quem a vida sempre gira em torno de si (“meus celeiros”, “meu trigo”, “meus bens”), da sua satisfação pessoal (“Descansa, come, bebe, aproveita” – Lc 12,19). 
“Mestre, diga ao meu irmão que reparta a herança comigo” (Lc 12,13). Por que a divisão de uma herança normalmente causa divisão numa família? Por que nós temos medo de ficar sem a nossa parte na herança? Por que nós, com tanta facilidade, nos agarramos ao dinheiro e nos tornamos pessoas gananciosas? Porque nós achamos que ‘precisamos nos garantir’. Nós temos medo de ficar desamparados na vida, assim como temos medo de ficar dependentes do favor ou da compaixão dos outros. Nós não soltamos da barra do trapézio do dinheiro porque achamos que ninguém nos estenderá a mão e, sem a ‘segurança’ do dinheiro, nós despencaremos e nos arrebentaremos no chão da vida.   
Jesus nos deixa claro que “a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12,15). A sua felicidade, a sua paz, a sua força e, sobretudo, a sua salvação não dependem daquilo que o seu dinheiro pode comprar. Talvez você já tenha sentido inveja das pessoas que têm dinheiro. Quanta ilusão achar que essas pessoas são felizes, ou que têm paz, ou que se sentem realizadas como ser humano. Pelo contrário: quanta tristeza, quanto vazio, quanta solidão, quanta desunião há no coração e na casa dessas pessoas. Os celeiros delas podem até estar cheios, mas há um vazio dentro delas que nada preenche. Não é de admirar que muitas delas recorram com tanta frequência à bebida, às drogas e, em muitos casos, ao suicídio.   
“Tomem cuidado contra todo tipo de ganância” (Lc 12,15). Por nos oferecer uma segurança ilusória, o dinheiro costuma tomar o lugar de Deus em nossa vida. Nós continuamos a crer em Deus, mas somente da boca para fora. Enquanto nossa boca diz: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Sl 23,1), nosso coração tem uma outra “certeza”: ‘O dinheiro é meu pastor; com ele no bolso, nada haverá de me faltar’. E se for preciso mentir, trapacear, me corromper ou sacrificar valores sagrados como saúde, família e religião para consegui-lo, eu o farei sem nenhum peso de consciência. Afinal de contas, eu preciso me garantir’.    
O convite de Jesus hoje no Evangelho poderia ser traduzido dessa maneira: ‘Solte as mãos da barra do trapézio da ganância. Seu apego ao dinheiro tem colocado você dentro de uma prisão. Quanto mais você deseja possuir coisas, mais você se torna uma pessoa possuída, isto é, sem paz, sem verdadeira alegria, atormentada pelas dívidas, escrava de um consumismo insaciável, torturada por preocupações. “Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Mesmo de noite não repousa o coração” (Ecl 2,23). Solte-se da sua barra de segurança e se agarre às minhas mãos. Eu quero conduzir você para lugares mais altos. Aprenda comigo a buscar as coisas do alto, onde está a sua verdadeira vida. Faça morrer a sua ganância, que é uma idolatria (cf. Cl 3,1.5). Reconheça que somente Eu sou o teu Senhor e nenhum bem você pode encontrar fora de mim (cf. Sl 16,2). Solte-se dessa barra de segurança. Quanto mais você insiste em se agarrar a ela, mais será dolorido o momento em que a vida tirar você “à força” daí. Dê uma orientação fraterna ao seu dinheiro. Há muita gente necessitada à sua volta, pessoas que não são naturalmente pobres, mas feitas assim por causa da injustiça, da ganância e da corrupção que marcam o mundo atual. Abra o celeiro do seu coração aos necessitados. Socorrê-los é a sua verdadeira garantia de salvação junto a mim’ (cf. Mt 25,31-46).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 22 de julho de 2016

VOCÊ ACREDITA QUE AINDA VALE A PENA REZAR?

Missa do 17º. dom. comum. Palavra de Deus: Gênesis 18,20-32; Colossenses 2,12-14; Lucas 11,1-13.
           
Como anda a sua vida de oração? Quais as alegrias que você já experimentou na sua oração? Quais as decepções? Nós podemos comparar a oração como um rio. Você é convidado(a) a entrar neste rio e flutuar nele, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo até a presença de Deus. Mas, quantas vezes você entra neste rio, entra em oração, e ao invés de se deixar conduzir pelo Espírito, abraçando a vontade de Deus, você começa a nadar contra a corrente, opondo resistência ao Espírito, porque quer que prevaleça a sua vontade e não a vontade de Deus? Quando você faz isso, acaba por transformar a sua oração num tormento. Isso distancia você da oração.
O texto de Gn 18,20-32 nos coloca diante da oração de Abraão, uma oração que revela três atitudes importantes: humildade, “atrevimento” e insistência: “Estou sendo atrevido em falar ao meu Senhor” (Gn 18,27)... “Abraão tornou a insistir...” (Gn 18,30). Jesus, depois de ensinar seus discípulos a rezar, também sublinha a importância de insistir com Deus na oração. Enquanto muitas pessoas rezam até se cansar, ou quem sabe até se ‘decepcionar’ com Deus, Jesus nos diz que devemos pedir até receber, buscar até encontrar, bater até a porta se abrir (cf. Lc 11,9). Somente quando rezamos de maneira humilde, “atrevida” e insistente é que descobrimos o quanto a força da oração pode em nossa vida.
Assim se expressa o salmista em relação à oração: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma” (Sl 138,3). Quantas pessoas têm perdido o seu vigor e definhado na sua vida espiritual porque deixaram de gritar a Deus, deixaram de rezar? O salmista pede concretamente: “Completai em mim a obra começada... Ó Senhor... eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos!” (Sl 138,8). A oração é necessária para que Deus complete a obra que começou em você. Quanto menos tempo você dedica à oração, quanto menos você se coloca nas mãos de Deus por meio da oração, mais inacabado(a) você se sente.
“Senhor, ensina-nos a rezar...” (Lc 11,1). Como os discípulos, nós sentimos que nossa vida de oração precisa melhorar. Nós necessitamos da oração porque necessitamos de Deus, e somente na oração podemos nos abrir a Deus; somente na oração podemos nos deixar amar e cuidar por Deus. De fato, a primeira palavra da oração que Jesus nos ensinou é “Pai”. Nós não somos órfãos, nem estamos sozinhos neste mundo. Deus é o Pai de cada um de nós e cuida de cada um de nós! E a oração nada mais é do que confiar-se aos cuidados do Pai, deixar-se cuidar por Ele!
Jesus insiste nesta imagem de Deus como Pai, ao exemplificar que se os pais – humanos e imperfeitos – dão coisas boas aos filhos, muito mais “o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!” (Lc 11,13). Por que o Espírito Santo, e não saúde, prosperidade, sucesso, vitória etc? Porque “nem só de pão vive o homem” (Mt 4,4); porque somos cidadãos do céu e devemos buscar as coisas do alto (cf. Fl 3,20; Cl 3,1); porque devemos pedir a Deus não ‘migalhas’, não bens transitórios, mas o Seu maior bem, o Seu maior dom, a Sua maior bênção: o Espírito Santo, sem O qual nada podemos.
Uma última consideração: Sabe qual é o critério para verificar se sua oração foi boa ou se ela atingiu o seu objetivo? A oração é boa não quando você sai dela sentindo-se melhor – embora isso também possa acontecer –, mas quando ela ajuda você a encontrar e abraçar a vontade do Pai a seu respeito...

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ACOLHER DEUS E SUA BÊNÇÃO

Missa do 16º. dom. comum. Palavra de Deus: Gênesis 18,1-10a.; Colossenses 1,24-28; Lucas 10,38-42.

            Deus passou pela tenda de Abraão. Jesus passou pela casa de Marta e de Maria. Quando foi a última vez que Deus passou pela sua casa, pela sua vida? Você estava em casa? Você o recebeu? De que maneira?
            Talvez você responda que nunca recebeu a visita de Deus. Será mesmo? Aqueles três homens que passaram diante da tenda de Abraão não tinham nenhum crachá de identificação, do tipo: “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo”; ou então “Representantes do Deus Altíssimo”. Abraão acolheu aqueles três homens simplesmente como homens, como peregrinos que precisavam ser acolhidos, que precisavam comer, beber e descansar um pouco, antes de prosseguirem a viagem. Mas Abraão foi tão generoso, tão gratuito na sua forma de acolher que, para surpresa sua, recebeu uma bênção pela qual esperou a vida toda: “Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano e então Sara tua esposa terá um filho” (Gn 18,10).
            Essa inesperada visita de Deus a Abraão serve de questionamento para nós: estamos acolhendo Deus, que de forma inesperada e surpreendente nos visita por meio de pessoas e de acontecimentos? Deus nos visita nas coisas mais comuns do dia a dia, e quando O acolhemos como Ele deve ser acolhido, nossa rotina se transforma completamente, como aconteceu com Abraão. No livro do Apocalipse, Jesus afirma: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta eu entrarei, cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Procure perceber se é Jesus que não tem passado pela sua casa, pela sua vida, ou se é você que não tem aberto a porta para ele.         
            A porta da casa de Marta e de Maria foi aberta para Jesus. No entanto, dentro da casa as duas irmãs o acolheram de maneira diferente: enquanto Maria se sentou aos seus pés para ouvir sua palavra, Marta continuou ocupada com seus afazeres. Não há dúvida de que nós temos muito mais de Marta do que de Maria. Estamos sempre e muito ocupados, embora seja verdade que muitos também se ocupam em nada fazer, levando uma vida de parasitas e sobrecarregando os que estão à sua volta.
            A Marta que habita em nós tem um apelido: “urgência”. Nós temos muitas urgências, e na medida em que gastamos tempo com essas urgências, não encontramos tempo para o que é essencial. Mas aí está a advertência de Jesus: “Marta, Marta, você se preocupa e se agita com tantas coisas. No entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só” (Lc 10,41-42). “Pouca coisa é necessária”... Pouca coisa é necessária para você ser feliz, para recuperar seu casamento, para reeducar seu filho, para reencontrar sua paz, para se reconciliar com aquela pessoa, para redescobrir a sua fé... Enquanto você continuar a gastar toda a sua energia correndo atrás daquilo que pensa ser suas urgências e descuidar daquilo que é essencial, sua vida continuará a ser consumida pela angústia e pela inquietação, e você continuará a adoecer.
            “Maria escolheu a melhor parte” (Lc 10,42). Diante de Jesus, que se encontrava naquele momento em sua casa, Maria fez uma escolha: escolheu se sentar aos seus pés e escutá-lo. Há quanto tempo você não pára para ouvir Deus? Há quanto tempo você não se senta aos pés d’Ele, para ouvir sua Palavra? Santo Agostinho, São Francisco de Assis e Santo Inácio de Loyola só pararam para ouvir Deus quando ficaram doentes, e quando O ouviram, mudaram completamente de vida, porque compreenderam o que era essencial.
            Todos os dias, nós precisamos fazer uma escolha: escolher viver a partir do urgente ou viver a partir do essencial. Aquilo que é urgente nos fecha em nós mesmos; não temos tempo para ninguém, a não ser para os nossos interesses. Mas o essencial nos convida a acolher as pessoas que passam diante da nossa tenda. Na medida em que nos esquecemos de nós e nos doamos aos outros, experimentamos algo novo, a nossa visão se alarga e nos abrimos àquilo que Deus quer realizar em nós.
            Diante das tarefas diárias que nos aguardam, aprendamos a fazer como Maria: antes de mais nada, coloquemo-nos em oração como quem se coloca em atitude de acolhida – estamos ali para acolher Deus, para acolher sua Palavra, para acolher a sua bênção, preparada para nós naquele dia. Somente depois de termos ouvido o Senhor e recebido a sua bênção é que podemos nos ocupar das nossas tarefas, sabendo que o resultado dos nossos esforços naquele dia dependerá muito menos daquilo que fizermos e muito mais daquilo que permitimos que Deus faça em nós, durante a oração.

Pe. Paulo Cezar Mazzi