terça-feira, 7 de abril de 2020

FAZER A PASSAGEM É SEMPRE NECESSÁRIO


Missa da Ceia do Senhor. Êxodo 12,1-8.11-14; 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.


A nossa vida é feita de passagens: passamos da infância para a adolescência, da adolescência para a juventude, da juventude para a idade adulta, da idade adulta para a velhice, e um dia chegará o momento de passarmos deste mundo para o Pai. A leitura do Êxodo nos fala da páscoa dos hebreus, quando o Senhor Deus passou pela terra do Egito, fazendo justiça e libertando seu povo do sofrimento e da escravidão. Nós não estávamos lá, mas esta primeira páscoa também diz respeito a nós. Assim como o povo de Israel, nós também necessitamos ser libertos, necessitamos passar da doença para a saúde, do desemprego para o emprego, da solidão para a comunhão, da mágoa para o perdão, da tristeza para a alegria, da morte para a vida.
As famílias dos hebreus não foram atingidas pelo espírito exterminador porque marcaram as portas das suas casas com o sangue de um cordeiro. Aquele sangue prefigurava o sangue de Jesus, que seria derramado na cruz. Nesta noite, suplicamos ao Pai que o sangue precioso de Seu Filho proteja nossas famílias, para que não sejam atingidas pelo espírito do mal, que age no mundo; suplicamos que o sangue do Cordeiro de Deus cubra todas as casas, todas as famílias, a vida de cada ser humano, para nos libertar a todos da ameaça do novo coronavírus.
Contudo, é importante termos consciência de que o sangue na porta não é um sinal mágico. Sangue é sinônimo de sacrifício. Jesus derramou seu sangue na cruz porque amou até o fim. Nossas casas, nossas famílias só podem ser poupadas do extermínio quando nos dispomos a nos sacrificar por aqueles que amamos; quando, a exemplo de Jesus, nos dispomos a amar até o fim. O que tem sido sacrificado em nossa casa pelo bem da família? O que nossa família em particular está disposta a sacrificar pelo bem da família humana?
Dentro da celebração da Páscoa dos hebreus, Jesus celebrou a sua Última Ceia com seus discípulos: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Ao nos dar o seu Corpo e o seu Sangue na Eucaristia, Jesus nos convida a fazer a difícil passagem de quem desistiu de amar para quem decidiu amar até o fim. Jesus nos convida a uma constante atitude pascal para com as pessoas, o que significa amar até o fim aqueles que Deus confiou aos nossos cuidados. Além disso, ao nos fazer assentar à mesa da Eucaristia, Jesus nos convida a fazer também a difícil passagem de quem espera ser servido pelos outros para quem decide servir aos outros: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15).
Muitos de nós comungamos, mas nem todos nós estamos dispostos a lavar os pés uns dos outros. Comungamos o Corpo e Sangue daquele que veio para servir, mas não nos dispomos a assumir nenhum tipo de serviço em favor do Evangelho e do bem comum da sociedade. Devemos reconhecer que somos pessoas que comungam do sacrifício de Cristo, mas que às vezes achamos que não vale a pena nos sacrificar pela sociedade humana, pela verdade e pela justiça. Por isso, precisamos manter os nossos olhos fixos naquele que nos deu o exemplo, naquele que “amou até o fim”.
Enquanto o evangelista João resumiu a vida de Jesus nas palavras “amou até o fim” (Jo 13,1), o apóstolo Paulo descreveu a pessoa de Jesus como “Corpo doado e Sangue derramado” (cf. 1Cor 11,24-25). Como trigo que se inclina para ser colhido e feito pão, como o cacho de uva se oferece para ser colhido e feito vinho, assim Jesus quis deixar, na Última Ceia, a lembrança do que foi a sua passagem pela terra: uma vida doada aos outros, uma vida que se inclinou sobre as feridas e sobre os sofrimentos dos outros. Assim devemos fazer se queremos ser reconhecidos como discípulos de Jesus Cristo. 
Nossa vida cristã é chamada a testemunhar o Senhor Jesus, morto e ressuscitado para a salvação de todo ser humano. Todas as vezes que comemos do Corpo e bebemos do Sangue do Cordeiro de Deus, estamos proclamando que Ele morreu por nós, que venceu a morte em nosso lugar; estamos proclamando que Ele nos amou até o fim; estamos pedindo que o seu Sangue esteja nas portas da nossa casa, para proteger a nossa família; estamos assumindo com Ele o serviço em favor dos que necessitam de nós; enfim, estamos aguardando a sua vinda definitiva, na esperança de sermos introduzidos no banquete do Reino de Deus. 
Concluindo, nesta noite rezamos por todas as pessoas que precisam de Páscoa, que precisam que o Pai passe por suas vidas, por suas casas, derramando novamente o sangue precioso de seu Filho, o Cordeiro de Deus, para que o mal não prevaleça sobre essas famílias. Nesta noite, comendo espiritualmente do mesmo pão e bebendo espiritualmente do mesmo cálice, anunciamos ao mundo a morte redentora de Jesus em favor de todos os homens, e proclamamos que Ele virá um dia para concluir a passagem de cada ser humano deste mundo para o Pai. Nesta noite, enfim, nos comprometemos a passar: passar pelas casas, pelas famílias, pela vida de tantas pessoas que precisam redescobrir em si mesmas a força da Páscoa, a força do Deus que, em seu Filho Jesus Cristo, nos faz passar da morte para a vida.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 2 de abril de 2020

TODA SITUAÇÃO, POR MAIS ABSURDA QUE SEJA, É LUGAR DA SALVAÇÃO DE DEUS


Missa do domingo de ramos. Palavra de Deus: Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11; Mateus 26,47 – 27,54.

Muitos filmes já foram feitos para retratar a Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. E nós, diante desses filmes, sempre fomos expectadores. Mas nesse ano fomos jogados para dentro do filme: o novo coronavírus impôs uma forma mais intensa e real de cruz na vida de todos nós. Estamos vivendo o nosso momento de “paixão”, isto é, de sofrimento, de padecimento através da tristeza, do medo, da angústia e do sentimento de solidão.   
Os textos bíblicos que ouvimos hoje nos dizem que precisamos aprender com Jesus a partir da maneira como ele se posicionou diante da dor, do sofrimento, da cruz. Jesus foi alguém que aprendeu a ouvir Deus no sofrimento: “Ele me desperta cada manhã, para ouvir como um discípulo” (Is 50,4). Isso fez de Jesus uma pessoa capaz de “dizer palavras de conforto à pessoa abatida” (Is 50,4). Há muitas pessoas abatidas à nossa volta, precisando de uma palavra de conforto, e nós podemos lhes oferecer essa palavra na medida em que aprendemos a ouvir Deus a partir da nossa própria experiência de cruz.
O apóstolo Paulo afirmou que Jesus esvaziou-se da sua divindade até adquirir um aspecto humano (cf. Fl 2,6-9). Porque se humanizou, se expôs ao sofrimento. A ameaça de contaminação pelo novo coronavírus nos esvaziou das nossas falsas seguranças e revelou que a vida não está sob o nosso controle, como pensamos que estivesse. Agora temos que admitir que somos passíveis de adoecer, de sofrer e de morrer. Nem o dinheiro, nem a tecnologia, nem a ciência e nem mesmo a fé pode nos impedir de sermos atingidos pela morte.
A dor da morte começou a atingir Jesus muito antes da Cruz, logo após a última Ceia. “Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, com uma grande multidão armada de espadas e paus” (Mt 26,47). Judas, decepcionado com Jesus – pois esperava que ele fosse um líder político que libertaria, por meio da violência, o povo de Israel da dominação imposta pelo Império Romano – o entrega. Quais expectativas temos em relação a Deus? Como lidamos com as decepções? Judas desistiu de esperar em Jesus. E nós?
Um dos que estavam com Jesus tentou impedi-lo de ser preso usando uma espada. “Jesus, porém, lhe disse: ‘Guarda a espada na bainha! pois todos os que usam a espada pela espada morrerão’” (Mt 26,52). Quantos de nós acreditamos que a violência é a única forma de frear a violência em nosso país e no mundo? Quantos de nós desistimos de acreditar na força do bem e passamos a acreditar que o mal só pode ser combatido por meio de um mal mais forte?  
“Então todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram” (Mt 26,56). Em todos nós fala mais alto o instinto de sobrevivência. Quando nos sentimos ameaçados, desistimos até mesmo dos valores mais sagrados. Nós também defendemos a ideia de que é melhor um covarde vivo do que um herói morto. Quem de nós acha que jamais abandonaria Jesus precisa rever sua convicção e se perguntar se ela resistirá à ameaça contra a sua própria vida.
O primeiro julgamento de Jesus é religioso, diante do sumo sacerdote. Para acusar Jesus, ele se apoia em duas falsas testemunhas (cf. Mt 27,59). Quantas injustiças são hoje cometidas baseadas na mentira? Quantos advogados e juízes se afastaram da verdade para defender aquilo que lhes é mais conveniente? Quem de nós ainda acredita na Justiça? Quem de nós consegue ser verdadeiro e sincero nas coisas corriqueiras do dia a dia? Para quantos de nós a conveniência, sobretudo financeira, é muito mais importante do que a honestidade, a verdade?
“Pedro começou a maldizer e a jurar, dizendo que não conhecia esse homem! E nesse instante o galo cantou. Pedro se lembrou do que Jesus tinha dito: ‘Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes’. E saindo dali, chorou amargamente” (Mt 27,74-75). Pedro é mais um exemplo de luta pela sobrevivência. Temendo ser preso por ser discípulo de Jesus, nega conhecê-lo. Ele escapa da prisão, mas fica preso na mentira, na negação e, pior ainda, na culpa. Nós ainda somos capazes de sentir culpa? O sentimento de culpa é importante quando nos leva à revisão das nossas atitudes e ao arrependimento. Reconhecendo sua covardia, Pedro “chorou amargamente”. Sempre há esperança para uma pessoa que é capaz de chorar amargamente pelos erros que cometeu.  
“Então Judas, o traidor, ao ver que Jesus fora condenado, ficou arrependido e foi devolver as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: ‘Pequei, entregando à morte um homem inocente’. Eles responderam: ‘O que temos nós com isso? O problema é teu’” (Mt 27,3-4). Assim como Pedro, Judas também se arrependeu. Mas, diferente de Pedro, ele não foi capaz de se perdoar, nem confiou no perdão que certamente receberia de Jesus. Diante do triste suicídio de Judas precisamos nos dar conta de que esse problema é de todos nós. Nosso mundo está doente. Os transtornos mentais são cada vez mais comuns entre nós. Jamais podemos dizer a essas pessoas: “O problema é teu!”. O suicídio é um problema social, de todos nós. Oremos pelos que se suicidaram, bem como pelas famílias que sofrem profundamente com essa triste lembrança.   
“Pilatos bem sabia que eles haviam entregado Jesus por inveja” (Mt 27,18). Estamos agora diante do segundo julgamento de Jesus: o julgamento político. No interrogatório feito por Pilatos aparece o verdadeiro motivo da condenação de Jesus: a inveja que os sumos sacerdotes tinham de Jesus. A inveja pode nos levar a matar ou a desejar a morte de alguém. Ela está em todo lugar, sobretudo nos ambientes de trabalho, na política e mesmo nas igrejas e religiões. A inveja é fruto do nosso sentimento de inferioridade. Como não gostamos de nos sentir inferiores, ao nos compararmos com outras pessoas e nos sentirmos menos do que elas, desejamos ter o que elas têm e ser o que elas aparentam ser. Por não conseguirmos isso, ficamos com raiva e não suportamos que o outro, que aparentemente é mais do que nós, continue a “mexer” com o nosso sentimento de inferioridade. Daí o desejo de que ele deixe de existir.
“O governador tornou a perguntar: ‘Qual dos dois quereis que eu solte?’ Eles gritaram: ‘Barrabás’” (Mt 27,21). A escolha de Barrabás é a escolha do anti-herói. Ela reflete a inversão de valores que também marca fortemente o nosso tempo. O anti-herói está na moda. É moda defender o errado e desprezar o certo. Barrabás era “famoso”. Ser bom, ser correto, ser humilde e justo não torna ninguém famoso. Pelo contrário, famosos são os que matam, os que roubam, os que fazem guerra, os que têm uma vida vazia, pautada na aparência, mas sem nenhuma consistência interior, sem uma verdadeira essência. A multidão identificou-se com Barrabás, não com Jesus. Com que tipo de pessoa você se identifica atualmente?
“Pilatos viu que nada conseguia e que poderia haver uma revolta. Então mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão, e disse: ‘Eu não sou responsável pelo sangue deste homem. Este é um problema vosso!’” (Mt 27,24). Lavar as mãos significa tornar-se indiferente ao sofrimento dos outros; não responsabilizar-se por nada nem por ninguém. No entanto, nossa indiferença para com a desgraça alheia acaba por atrair a desgraça sobre nós. Precisamos reconhecer que a morte que a nossa indiferença “provoca” nos outros atinge a nós com a mesma intensidade e violência.
“Com ele também crucificaram dois ladrões, um à direita e outro à esquerda de Jesus” (Mt 27,38). O inocente está condenado entre os condenados. Aquele que não tinha pecado leva consigo o pecado de todos nós e sofre a nossa própria condenação. Quantas pessoas se sentem condenadas? Quantos estão condenados, se não a morrer, a viver uma vida sem dignidade, sem alegria e sem esperança? Toda pessoa que se sente condenada precisa saber que “não há mais condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo” (Rm 8,1).  
“As pessoas que passavam por ali o insultavam... ‘Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama! Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus’’ (Mt 27,39.43). Insultos e ironia. Para aquelas pessoas, não bastava que Jesus tivesse sofrido agressões físicas; era preciso machucá-lo com palavras, machucá-lo em sua fé, confiança e esperança em Deus. Será que nós já pensamos, a respeito de uma pessoa que passa por um grande sofrimento: ‘De que valeu ela confiar em Deus? De que valeu ela ser fiel a Deus?’.  
“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’” (Mt 27,46). Jesus expressa em sua oração o sentimento de abandono da parte de Deus. Quando o sofrimento se torna por demais intenso e cruel, não conseguimos sentir Deus junto a nós. Certamente, muitos enfermos pelo novo coronavírus se sentiram ou se sentem assim. O lugar de Deus neles foi ocupado por um vazio insuportável, por um amargo sentimento de abandono. No entanto, Deus está ali onde sofremos, nos sustentando, sofrendo conosco, embora não O sintamos. Nessa hora, precisamos professar nossa fé como o salmista: “Guardei a minha fé mesmo dizendo: ‘É demais o sofrimento em minha vida!’” (Sl 116,1).  
“E eis que a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram. Os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram!” (Mt 27,51-52). O céu que se rasga de alto a baixo e o terremoto que abala a terra fazendo as pedras se partirem são a resposta visível de Deus à oração de seu Filho. Deus intervém, revelando que a morte de seu Filho provoca a libertação definitiva daqueles que estavam presos na morte. Começa a ressurreição dos justos! Aquele que morreu venceu a morte e nos abriu o caminho para a nossa ressurreição!
                Vendo tudo o que tinha acontecido, o oficial e os soldados reconheceram: “Ele era mesmo Filho de Deus!” (Mt 27,54). Vendo a maneira como você lida com sua experiência de cruz, as pessoas podem ser sacudidas em sua fé adormecida, se abrirem para Deus e reconhecerem você como um verdadeiro filho de Deus. Nesta semana, voltemos o nosso olhar para nosso Senhor crucificado, lembrando que Ele “pela graça de Deus, provou a morte em favor de todas as pessoas” (Hb 2,9). Não nos esqueçamos: “Depois que Cristo morreu na cruz, toda situação, inclusive a mais frágil e trágica ou a aparentemente falimentar e maldita, pode tornar-se lugar e causa de salvação. Ou seja, se um crime horrendo foi o contexto histórico escolhido por Deus ou por meio do qual o Pai nos salvou, isso quer dizer que qualquer cenário histórico é ideal para se viver a própria história pessoal de salvação” (Amedeo Cencini).  

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 26 de março de 2020

SEPULTURAS ABERTAS


Missa do 5º dom. quaresma. Palavra de Deus: Ezequiel 37,12-14; Romanos 8,8-11; João 11,1-45.

            A pandemia do novo coronavírus tem nos colocado diante da realidade da morte. Segundo site da BBC, até na manhã do dia 26 deste mês o novo coronavírus havia deixado 22.038 mortos em todo o mundo, sendo que 487.985 pessoas estão infectadas em todo o mundo. Exatamente diante desse contexto, a Palavra de Deus nos traz uma promessa: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas... e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor” (Ez 37,12-13). A ciência e a tecnologia têm os seus limites. A inteligência e o poder humanos têm os seus limites. O dinheiro tem os seus limites. Esse limite se chama “sepultura”. Ali está – ou estava? – o ponto final da história de cada ser humano.
            Quando o povo de Israel se sentia morto em sua esperança, no exílio da Babilônia, Deus lhe enviou o profeta Ezequiel para ressuscitá-lo na fé e na esperança. A sepultura será aberta, o que foi enterrado será desenterrado, o que morreu ressuscitará! De fato, com a ascensão de Ciro, o rei persa, o poder destrutivo da Babilônia foi desfeito e o povo de Israel pôde voltar à sua terra, reconstruir o seu país e voltar a viver. Foi, sem dúvida, uma espécie de ressurreição.
            Mas a profecia de Ezequiel não se resumia a uma simples retomada da vida terrena. Ela apontava para algo muito maior, algo que só pudemos conhecer e experimentar na pessoa de Jesus Cristo, nosso salvador. Desse modo, o Evangelho nos fala do amor de Jesus por três irmãos: Marta, Maria e Lázaro, um amor tão profundo que a doença de Lázaro é comunicada a Jesus com essas palavras: “Senhor, aquele que amas está doente” (Jo 11,3). De muitas partes do mundo tem subido ao céu essa oração. Muitos estão doentes; muitos estão com câncer; muitos estão contaminados com o covid 19; muitos estão adoecidos mentalmente... Talvez a nossa oração hoje seja esta: “Senhor, a humanidade, a qual tanto amas, está doente!”  
            As doenças nos impõem uma urgência. Precisamos rapidamente de cura! A ciência e a medicina trabalham na urgência de encontrarem um tratamento, uma cura, uma vacina para o covid 19. Mas, apesar da urgência da cura para Lázaro, “Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava” (Jo 11,6). Essa estranha atitude de Jesus nos ensina que nossas urgências não têm o poder de pressionar Deus. Ele age no tempo certo, no momento exato, momento estabelecido segundo o seu desígnio de amor e salvação para cada ser humano. Além disso, Jesus permite que Lázaro morra para nos dizer que ele não veio alterar o curso natural da vida. “Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens” (1Cor 15,19).   
            Nossa fé e nossa esperança em Cristo não podem parar na morte, nem muito menos serem enterradas dentro de uma sepultura. Cristo tem, sem dúvida, o poder de curar, de intervir e de impedir a morte, mas, ainda que Ele decida não fazê-lo, nós continuaremos a crer e a afirmar que a nossa esperança n’Ele vai muito além de uma cura física, muito além de alguns anos a mais que Ele nos permita viver neste mundo. Nossa esperança em Cristo é a ressurreição, a vida eterna! Eis porque Jesus disse abertamente aos seus discípulos: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais” (Jo 11,14-15). Jesus não impediu a morte de Lázaro por nossa causa, para que quando a morte atingir o nosso corpo, ela não atinja a nossa alma, a nossa fé e a nossa esperança em Cristo!
            “Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias” (Jo 11,17). Para um judeu conhecedor da Sagrada Escritura, a esperança durava, no máximo, até o terceiro dia após a morte (cf. Os 6,2). O “quarto dia” é o sepultamento definitivo da esperança. Quantos de nós estamos vivendo o “quarto dia” naquilo que diz respeito ao relacionamento afetivo ou à intervenção de Deus em alguma situação de crise, de sofrimento, de destruição? Para quantas pessoas na face da terra o “quarto dia” já aconteceu? A morte da pessoa amada, o fim do casamento, a sequela provocada por um acidente são fatos consumados... São marcas que jamais serão apagadas da suas histórias de vida.     
            No entanto, Aquele que fala conosco no Evangelho de hoje é o mesmo que disse a Marta: “Teu irmão ressuscitará... Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá” (Jo 11,23.25). Não há “quarto dia” que impeça Jesus de agir. Não há acontecimento nesta vida que não tenha sido alcançado pela morte e ressurreição de nosso Senhor. Assim, Jesus pergunta a respeito da sepultura de Lázaro: “Onde o colocastes?” Responderam: “Vem ver, Senhor”. E Jesus chorou (Jo 11,34-35). Hoje somos nós que precisamos dizer a Jesus onde sepultamos nossa fé e nossa esperança; onde enterramos nossos sonhos e nossa alegria. Precisamos levar Jesus até nossas sepulturas e permitir que Ele chore diante delas. Sim, Jesus chora junto com a humanidade que chora. Jesus chora a morte não só de tantos inocentes, mas também daqueles que morreram por terem levado uma vida autodestrutiva. Mas as lágrimas de Jesus têm o poder de penetrar o chão duro da nossa existência e despertar dentro dele a vida que adormece profundamente, a vida que precisa ser acordada!  
Ao chegar diante do túmulo de Lázaro, Jesus disse: “Tirai a pedra!”... Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me escutas...”. Tendo dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43). Jesus nos convida hoje a retirarmos a pedra, a abrirmos uma passagem para que a ressurreição da nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor aconteça. Sua palavra precisa de alguma abertura da nossa parte, para que possa chegar àquilo que enterramos dentro de nós. Ao mesmo tempo, Ele nos envia ao mundo para que possamos dizer às pessoas que decidiram se enterrar vivas: “Venham para fora!” Hoje Jesus diz à Itália e aos inúmeros outros países atingidos pelo coronavírus: “Venha para fora!” Venha para fora o teu amor, a tua solidariedade! Venha para fora a tua consciência de ser frágil e mortal! Venham para fora as tuas lágrimas e o teu cuidado com a própria vida e com a vida do teu semelhante!
Ao final desta reflexão, recordemos essa verdade tão importante, revelada pelo apóstolo Paulo: nosso corpo está “ferido de morte por causa do pecado”, mas nosso espírito “está cheio de vida, graças à justiça”, isto é, graças à justificação que Cristo nos concedeu na sua cruz. Enquanto estivermos neste mundo terreno, teremos que lidar com a doença e a morte, mas não nos deixaremos abater, pois cremos na força do Espírito Santo que nos habita. “E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8,11).

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 19 de março de 2020

A CEGUEIRA INTENCIONAL NÃO PODE SER CURADA


Missa do 4º dom. quaresma. Palavra de Deus: 1Samuel 16,1b.6-7.10-13a; Efésio 5,8-14; João 9,1-41.

“Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece” (Jo 9,41). Existe um “não poder” ver, um “não conseguir” enxergar; mas também existe um “não querer” enxergar, um “não admitir” a verdade a respeito daquilo que a vida está tentando nos fazer ver há tempos. Existe uma cegueira que é proposital em nós: preferimos não ver para não nos comprometer. Essa cegueira é praticamente impossível de ser curada, porque não se trata de não poder, mas de não querer ver.
Este relato da cura de um cego de nascença nos revela que a cura da nossa cegueira começa pela correção da visão distorcida que temos em relação ao sofrimento, interpretando que quando Deus permite que uma pessoa sofra, é porque ela pecou: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?” (Jo 9,2). Na época de Jesus, havia uma mentalidade que afirmava que era possível a uma criança pecar antes de nascer, quando ainda estava no ventre de sua mãe. Jesus corrige essa visão distorcida, ao dizer: “Nem ele, nem seus pais pecaram” (Jo 9,3).
Ao fazer barro e colocar sobre os olhos do cego, Jesus nos diz que a cura da nossa cegueira começa quando aceitamos mudar a nossa maneira de ver as coisas, quando aceitamos nos colocar como barro nas mãos de Deus, nosso Oleiro, que pode nos fazer enxergar além das aparências: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,9). A pandemia do coronavírus é um barro que está sendo colocado sobre nossos olhos, olhos habituados a ver somente aquilo que lhe interessa e lhe oferece alguma vantagem; olhos que agora precisam enxergar e admitir a verdade de que somos todos iguais e todos mortais.
O Evangelho nos fala de visões que se chocam: de um lado, os fariseus, que veem Jesus como “um homem que não vem de Deus, porque não guarda o sábado” (Jo 9,16), e os judeus, que veem Jesus como “um pecador” (Jo 9,24); de outro, o homem que era cego e que vê Jesus como “um profeta” (Jo 9,17), como “um homem que veio de Deus” (Jo 9,33). Qual visão nós temos a respeito de Deus, de Jesus, da Igreja, da política etc.? Quantas pessoas estão cegas pelo fanatismo e pela ignorância? Quantas pessoas são doutrinadas por líderes políticos ou religiosos, por pseudos-filósofos, por youtubers etc.? Uma das coisas que nos ajuda a enxergar, a ampliar nossa visão a respeito da vida, é a leitura. Apesar de a geração nova não gostar de ler, a quarentena imposta pelo coronavírus é uma grande oportunidade de fazermos leituras que ampliem e aprofundem nossa visão a respeito de nós mesmos e da vida.
O conflito entre os judeus e o homem que era cego fez com que este fosse expulso da comunidade religiosa (cf. Jo 9,34). Quando começamos a enxergar melhor as coisas, passamos a enfrentar conflitos com pessoas que até então nos impunham a sua maneira de ver. Mas existem certos rompimentos que são necessários e que, embora nos causem sofrimento no momento, acabam nos fazendo bem. Quando começamos a ver com um pouco mais de profundidade, entendemos que precisamos nos afastar de pessoas e de hábitos que são nocivos, que nos adoecem, por nos oferecerem uma visão distorcida da realidade.
Assim como Jesus conversou com o homem que havia sido expulso da comunidade, ele nos pergunta se estamos dispostos a continuar aprofundando a nossa visão, compreendendo melhor a nós mesmos, os outros e a própria vida. Jesus nos convida a aceitar o desafio de permitir que certos acontecimentos quebrem com a imagem que temos de Deus, uma imagem distorcida, incorreta, que precisa ser reformulada porque não está sendo suficiente para sustentar a nossa fé frente aos acontecimentos do mundo atual.
Jesus afirmou que a verdade do seu Evangelho provoca uma reviravolta, fazendo com que “os que não veem vejam e os que veem se tornem cegos” (Jo 9,39). Os fariseus, que se julgavam ter uma visão esclarecida a respeito de tudo, não aceitam enxergar Jesus como salvador, coisa que o cego de nascença enxergou não somente com seus olhos físicos, mas também com os olhos da sua fé. Desse modo, um relato que começou acusando um cego de nascença de ser pecador terminou relevando que o pecado não consiste em ter nascido cego (Jo 9,2-3), mas em insistir em não ver, em não querer enxergar (Jo 9,40-41).
Concluindo nossa reflexão, o Evangelho de hoje deixa claro que a cegueira física – que pode ser curada por Jesus – não é consequência do pecado. Já a cegueira da falta de fé é consequência de um pecado de obstinação e, portanto, não pode ser curada. Desse modo, precisamos tomar para nós a pergunta dos fariseus: “Porventura também nós somos cegos?” (Jo 9,40). Nós também somos pessoas obstinadas em nossa visão estreita e, muitas vezes, míope a respeito da realidade? Até que ponto nós queremos ver? Até que ponto queremos viver como filhos da luz, guiando-nos na vida pela bondade, pela justiça e pela verdade? (cf. Ef 5,8-9). Jesus hoje toca em nossos olhos e nos convida a nos lavar, a mergulhar nas águas da Sua verdade para que possamos começar a ver, a enxergar com outros olhos a nós mesmos, aos outros e a realidade à nossa volta.
           
            Oração: Senhor Jesus, minha visão a respeito da vida algumas vezes é estreita e superficial. Amplia a minha capacidade de ver, de enxergar e de compreender as coisas. Senhor, eu quero aprender a ver em profundidade. Lava meus olhos nas águas da tua Verdade, para que eu veja o que preciso ver, em vista do meu bem, do meu crescimento, e em vista da minha colaboração para que outras pessoas deixem de serem guiadas por outros que têm uma visão distorcida e mal intencionada. Ajuda-me a ver, Senhor, para além das aparências. Ilumina-me com a tua Luz, para que eu caminhe na vida como filho(a) da luz, vivendo segundo a bondade, a justiça e a verdade. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 12 de março de 2020

QUE RESPOSTAS TEMOS DADO À NOSSA SEDE MAIS PROFUNDA DE SENTIDO E DE VIDA?


Missa do 3º dom. quaresma. Palavra de Deus: Êxodo 17,3-7; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-42.

            Sede: uma necessidade básica, fundamental, que exige ser satisfeita. Israel sente sede no deserto (cf. Ex 17,3); uma mulher samaritana vai ao poço de Jacó, por volta do meio dia, e encontra Jesus “sentado junto ao poço”, pois Ele contém em si uma água não apenas capaz de saciar temporariamente a sede, mas capaz de dar vida eterna a quem dela beber. E Jesus pede à mulher: “Dá-me de beber” (Jo 4,7). Esse pedido de Jesus é uma provocação à mulher samaritana e a nós: Do quê temos sede? Qual é o nosso anseio mais profundo? Que respostas temos dado à nossa sede?
A sede que o ser humano tem não é somente no sentido de satisfazer suas necessidades básicas ou de sobrevivência, como ter uma casa para morar, uma pessoa para amar, um emprego digno, um salário justo. Nós também temos sede de justiça, de paz, de respeito; temos sede de afeto, de amor, de proximidade e de intimidade; temos sede, sobretudo, de sentido de vida; enfim, temos sede de Deus: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2). Neste mundo árido em que vivemos, de relacionamentos secos, sem afeto e sem profundidade, nós estamos procurando poços que nos ofereçam um pouco de água, isto é, estamos procurando por pessoas que sejam profundas e possam nos oferecer um pouco de água, um pouco de sentido.
Jesus disse à mulher samaritana: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4,10). Jesus é o dom de Deus para todo ser humano; Ele é fonte de água viva, a única água capaz de saciar a sede mais profunda que o ser humano traz em si, mas muitos desconhecem o dom que Jesus é. Muitos continuam a beber de uma água que não sacia: a água do consumismo, das drogas, de uma sexualidade compulsiva e adúltera; a água do materialismo, de uma vida pautada na aparência, na vaidade, bebendo do vazio e sentindo-se sempre mais vazios. O suicídio não é um grito de desespero de quem não encontrou neste mundo água alguma que pudesse saciar sua sede de sentido de vida?   
“A mulher disse a Jesus: ‘Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la’. Disse-lhe Jesus: ‘Vai chamar teu marido e volta aqui’. A mulher respondeu: ‘Eu não tenho marido’” (Jo 4,16-17). Jesus é nossa fonte de água viva e nos oferece gratuitamente da sua água: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37); “Que o sedento venha, e quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22,17). A única condição é reconhecer que a resposta que temos dado à nossa sede está errada; é uma resposta que não responde, uma compensação que não compensa, um vazio que não nos preenche, um remendo incapaz de cobrir o buraco que há em nossa alma.
“Eu não tenho marido” – eis a verdade daquela mulher samaritana. Ela já havia se casado cinco vezes, e o homem com quem morava agora não era seu marido. Todos esses homens foram uma tentativa daquela mulher preencher o seu vazio, mas ela continuava sentindo-se vazia. Quem é o nosso marido? Nosso marido é Deus; o Esposo da nossa alma é Cristo. Enquanto nosso coração não centrar-se em Deus e não deixar-se amar e curar por Ele, nós continuaremos a nos prostituir, a mendigar afeto, a nos vender por um pouco de carinho, de atenção e de segurança. Enquanto não nos abrirmos para que Deus possa derramar o seu amor em nossos corações (cf. Rm 5,5), nós continuaremos a beber de águas contaminadas, sujas, poluídas, que nos adoecerão sempre mais.   
“Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?’” (Jo 4,28-29). Venham ver um homem que me ajudou a me encontrar com a verdade! Venham ver um homem que me libertou das minhas mentiras! Venham ver um homem que me convenceu a respeito dos meus erros, dos meus enganos, dos meus pecados! Venham ver um homem que me ajudou a dialogar com a minha sede e lhe dar uma resposta mais profunda! Venham ver um homem que não me julgou, nem me condenou, mas me acolheu na minha sede mais profunda de sentido de vida!
“Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’” (Jo 4,39). Muitas pessoas à nossa volta estão perdidas, desorientadas, sedentas. Como a mulher samaritana, somos chamados a conduzir essas pessoas para Jesus, a anunciar-lhes que Jesus é a fonte de água viva; só Ele tem a resposta para as nossas perguntas mais profundas. Nossa missão é sermos canais que possibilitem com que a água viva do Evangelho de Jesus chegue ao coração sedento das pessoas do nosso tempo, de modo que também elas possam dizer o que os samaritanos disseram àquela mulher: “(...) nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42). Jesus é verdadeiramente o Esposo da nossa alma, o Salvador não somente dos judeus, não somente dos samaritanos, mas de toda pessoa que tem sede de vida e de salvação.

ORAÇÃO: “Assim como a corça suspira pelas águas correntes, assim suspira minha alma por vós, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo!” (Sl 42,2-3). A ti, Senhor Jesus, “estendo meus braços, minha vida é terra sedenta de ti!” (Sl 143,6). Ó Jesus, tu és o Esposo da minha alma, eu te procuro. “Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra árida, esgotada, sem água” (Sl 63,2).
Diante da verdade do teu Evangelho, eu reconheço que tenho dado respostas erradas à minha sede de sentido, de afeto e de felicidade. Livra-me das minhas mentiras, Senhor! Tu és a única e verdadeira fonte de água viva para todo ser humano sedento de perdão, de libertação e de salvação. Derrama sobre nós a água vida do teu Espírito! 
Reconduz o nosso coração para o Pai e para o Seu infinito amor. Que todos nós possamos conduzir as pessoas do nosso tempo para Ti, a fim de que cada uma delas reconheça que Tu és verdadeiramente o Salvador do mundo, o único capaz de saciar a nossa sede de sentido e de vida. Amém.

Pe. Paulo Cezar Mazzi

quinta-feira, 5 de março de 2020

SOMENTE UMA VIDA DOADA PODE TRANSFIGURAR O NOSSO MUNDO


Missa do 2º dom. quaresma 2020. Palavra de Deus: Gênesis 12,1-4a; 2Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9.

            Nosso rosto expressa nosso estado de espírito: se estamos alegres ou tristes, animados ou desanimados, firmados na esperança ou entregues ao desespero, confiantes em Deus ou sentindo-nos abandonados a nós mesmos, tudo isso fica visível em nosso rosto. Além disso, nosso corpo também fala: nossa postura e nosso estado de saúde física expressam como estão nossas emoções.
            Antes de presenciarem a transfiguração de Jesus, antes de verem seu rosto e seu corpo radiantes de luz, Pedro, Tiago e João estavam desfigurados devido a medo, preocupação, angústia e até mesmo a um certo desânimo. Jesus lhes havia advertido a respeito do sofrimento de cruz que o esperava em Jerusalém (cf. Mt 16,21), além de torná-los conscientes de que, se quisessem ser seus discípulos, eles também teriam que renunciar a si mesmos, tomarem cada um a sua própria cruz e segui-Lo (cf. Mt 16,24). Essas palavras de Jesus jogaram um banho de água fria nos discípulos, a ponto de deixá-los desfigurados.
            Mas não são apenas os sentimentos “negativos”, por assim dizer, que nos desfiguram, isto é, que fazem nosso rosto e nosso corpo expressarem pessimismo perante a vida. No mundo de hoje há situações concretas que desfiguram a vida de muitas pessoas, como doenças, desemprego, fome, violência, drogas, perda de sentido da vida, conflitos, separações, luto etc. Contudo, Jesus quer chamar a nossa atenção para a maneira como lidamos com esses problemas, além de nos convidar a ser uma presença de transfiguração na vida das pessoas que estão desfiguradas à nossa volta.
            A transfiguração de Jesus se deu sobre uma alta montanha. Essa alta montanha não se refere somente a um lugar, mas a uma atitude: desde o Antigo Testamento, a montanha se tornou o lugar onde o homem encontra Deus. Jesus, ao subir à montanha com Pedro, Tiago e João, quis ensiná-los a interpretar os acontecimentos da própria vida à luz de Deus. Diante de todo acontecimento que nos perturba, tira a nossa paz e nos enche de angústia, precisamos nos colocar na presença de Deus e pedir a sua luz, sabendo que Ele faz com que tudo concorra para o nosso bem quando o amamos (cf. Rm 8,28). Até mesmo as coisas ruins podem servir aos propósitos de Deus em vista da nossa salvação!
             Na medida em que, como Jesus, buscamos em Deus uma interpretação mais profunda para a situação que estamos enfrentando, uma luz começa a surgir dentro de nós e vai tomando conta de tudo, modificando o nosso estado emocional e físico. Desse modo, o nosso rosto, que antes expressava medo e angústia, agora irradia paz e confiança. Essa luz que transfigurou Jesus serviu para que os três discípulos enxergassem que, por detrás da desfiguração que Jesus sofreria na cruz, estava a transfiguração da ressurreição. Isso significa que não devemos nos assustar com situações que num primeiro momento nos desfiguram – elas são como dores de parto, para fazerem vir à luz o nosso melhor, para que em meio à nossa maior escuridão brilhe a luz da presença de Deus que tudo transforma.  
            Embora não entendessem ao certo o que estava acontecendo, Pedro, Tiago e João foram envolvidos por uma nuvem luminosa. Essa imagem já apareceu no Antigo Testamento como sinal visível da presença de Deus junto ao seu povo, quando este saiu do Egito em direção à Terra Prometida. A nuvem luminosa ia à frente do povo, clareando e indicando o caminho (cf. Ex 13,21). Pela transfiguração de Jesus, Deus quer nos ensinar que uma existência feita dom, como a de Jesus, não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de colocar a sua vida ao serviço dos irmãos.
            Estando os três discípulos envolvidos pela nuvem luminosa, a voz de Deus se pronuncia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Escutai-o!” (Mt 17,5). Só existe um caminho que torna possível transformar nossa desfiguração em transfiguração: escutar Jesus. Devemos escutá-lo, seja quando nos fala a partir nossas das vitórias – momentos de transfiguração – seja quando nos fala a partir dos nossos fracassos – momentos de desfiguração; seja quando nos fala enquanto Crucificado como quando nos fala enquanto Ressuscitado.
            O próprio Jesus, vendo os discípulos muito assustados, caídos com o rosto por terra, “chegou perto deles e, tocando-os, disse: ‘Levantai-vos e não tenhais medo’” (Mt 17,7). Não devemos ter medo quando enfrentamos momentos de desfiguração, pois Jesus nos toca para infundir em nós força e confiança. Como cristãos, continuaremos a ser atingidos pela sombra escura da desfiguração que pesa sobre todos os homens, mas não temos medo e não desanimamos, porque mantemos os nossos olhos fixos na meta da nossa vida cristã, que é o encontro com Cristo transfigurado. Ele, que “não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho” (2Tm 1,10), “transfigurará nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, pela força que lhe dá poder de submeter a si todas as coisas” (Fl 3,21). É nessa verdade que repousam a nossa fé e a nossa esperança, princípios da nossa transfiguração espiritual.

            Oração: Senhor Jesus, hoje Tu me convidas a subir contigo à montanha, para apresentar a Deus aquilo que desfigura a minha vida e a vida da humanidade. Perdoa-me pelas vezes em que minha fé e minha esperança se desfiguraram ao me deparar com a cruz que cabia a mim enfrentar. Ainda que eu tenha que caminhar em meio a situações de escuridão, que a luz gloriosa da Tua face resplandeça sobre mim e me mantenha firme na certeza de que a doação da minha vida em favor da humanidade é fundamental para que ela seja transfigurada. Que a nuvem luminosa da presença do Pai se faça sentir na vida de toda pessoa que se encontra desfigurada neste momento. Que a Tua voz de Ressuscitado possa ecoar em mim e, por meio de mim, em todas as situações que necessitam conhecer a vida e a imortalidade do Evangelho. Com firme confiança eu aguardo pela Tua vinda gloriosa, momento em que meu corpo humilhado será transfigurado e conhecerá a verdade da ressurreição e da vida eterna. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi