sexta-feira, 20 de setembro de 2019

LIBERTOS, NÃO "POSSUÍDOS"

Missa do 25º. dom. comum. Palavra de Deus: Amós 8,4-7; 1Timóteo 2,1-8; Lucas 16,1-13.

As três maiores religiões do mundo atual são o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. As três têm em comum a crença num único Deus. Além delas, existem muitas outras religiões que não daria para nomear aqui. O que importa ressaltar é que, apesar da diversidade religiosa dos nossos tempos atuais, e apesar daqueles que não professam fé alguma, isto é, não praticam nenhuma religião, existe uma “religião” que se impõe sobre todos os habitantes da terra: a religião do Mercado, cujo “deus” é o dinheiro. Esse ídolo que tomou o lugar de Deus na consciência e nas atitudes de muitas pessoas é visto como tão essencial que tê-lo significa de certa forma estar “garantido”; não tê-lo significa estar literalmente “perdido”.
No entanto, a Sagrada Escritura nos alerta para as consequências desastrosas do culto ao “deus dinheiro”. Vamos lembrar aqui apenas um desses alertas: “Os que desejam enriquecer, caem em tentação e armadilhas, em muitos desejos loucos e perniciosos que afundam os homens na perdição e na ruína. A raiz de todos os males é a cobiça do dinheiro. Por se terem deixado levar por ela, muitos se extraviaram da fé e se atormentam a si mesmos com muitos sofrimentos” (1Tm 6,9-10). Eis, portanto, algumas consequências na vida de pessoas que têm uma dependência excessiva e doentia em relação aos bens materiais: ansiedade, insônia, depressão, suicídio, separação de casais, terceirização dos filhos, distanciamento dos pais em relação aos filhos, perda de valores como honestidade, fidelidade; inversão de valores (o bem aparente torna-se mais importante que o bem real), corrupção; enfim, a consciência é posta à venda, ou mesmo jogada no lixo.
Jesus quer que nos identifiquemos com o “administrador” que aparece na parábola que acaba de nos contar. Cada um de nós é administrador da própria vida, e embora vivamos num mundo marcado por um forte individualismo, Jesus nos convida a administrar os bens materiais no sentido de ajudar a diminuir as injustiças sociais. Para Jesus, tudo aquilo que acumulamos é fruto de injustiça. Quando entramos na dinâmica de ganhar sempre mais e de viver sempre melhor, o dinheiro termina substituindo Deus em nossa vida e exigindo de nós uma submissão absoluta. Com isso, deixamos de lado a solidariedade e passamos a dar prioridade aos nossos interesses particulares.
Mas, de onde vem essa “necessidade” de possuir mais? Ela nasce da nossa insegurança: queremos nos garantir na vida; queremos assegurar o nosso futuro. Mas cometemos um grave erro: quanto mais coisas possuímos, tanto mais cresce nossa preocupação. Na verdade, nós acabamos nos tornando pessoas “possuídas” pelo medo de perder o que ganhamos ou conquistamos. Então, para nos livrar dessa “possessão”, Jesus nos coloca diante de palavras que nos remetem para o Juízo Final: “Presta contas da tua administração” (Lc 16,2). “Todos nós compareceremos perante o tribunal de Deus” (Rm 14,10), quando, então, Ele nos perguntará como administramos a nossa vida terrena. Portanto, o destino do nosso futuro começa a ser construído agora, na maneira como estamos administrando a nossa vida presente.
Embora muitos desejem garantir seu futuro por meio do acúmulo de bens materiais, Jesus entende o futuro como sendo a nossa salvação. Se é verdade que nenhum homem pode salvar-se a si mesmo, pode, certamente, fazer algo em vista da sua salvação. É no momento presente que precisamos procurar pela nossa salvação futura, quando a morte nos fará passar da administração dos que Deus nos concedeu temporariamente para o bem verdadeiro, que é a Vida eterna, Vida que aparece simbolizada na parábola por uma casa. Quando tivermos deixado nossa casa terrena, necessitaremos ser acolhidos na casa celeste que, segundo Jesus, é a casa daquelas pessoas que nós ajudamos na terra.
Jesus quer que sejamos “espertos” em relação à nossa salvação. Neste sentido, ele nos faz uma provocação: “os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz” (Lc 16,8). Para ganhar dinheiro, algumas pessoas não medem esforços e sacrifícios, enquanto que nós, cristãos, para ganharmos a Vida eterna, parecemos não ter a mesma disposição em nos esforçar e nos sacrificar... Além disso, uma vez que todos nós vivemos num mundo onde o dinheiro é o motor principal da sobrevivência, Jesus nos lança um desafio: “Usem o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando ele acabar, eles receberão vocês nas moradas eternas” (Lc 16,9). Segundo Jesus, o dinheiro é “injusto” não quando conseguido de maneira ilícita, mas simplesmente por se tratar de dinheiro! Portanto, até para as pessoas honestas o dinheiro é um ídolo: ele prende o homem a seus bens materiais e alimenta seu egoísmo ou seu instinto de dominação. A única maneira de nos livrarmos do perigo das riquezas em relação à salvação é destiná-las às obras de caridade, socorrendo os necessitados.  
Eis, portanto, o alerta de Jesus para nós, que vivemos neste mundo profundamente materialista: todo dinheiro é “injusto” porque convida à posse e ao acúmulo, contrários à vontade do Pai. Assim como acumular nos torna inimigos de Deus e dos irmãos, a redistribuição nos faz amigos de Deus e dos irmãos. Toda pessoa que se dispõe a seguir Jesus não pode fazer qualquer coisa com o dinheiro: há um modo de ganhar dinheiro, de gastá-lo e de desfrutá-lo que é injusto, porque esquece os mais pobres! Lembremos, enfim, dessa verdade anunciada por São Basílio de Cesareia há séculos atrás: “Se cada um tirasse para si o que lhe é necessário e entregasse aos indigentes o que sobra, ninguém seria rico, ninguém seria pobre”.

ORAÇÃO:

Deus Pai, teu Filho Jesus nos ensinou a confiar em Ti, pois o pai sabe aquilo que o filho precisa. Vivendo neste mundo materialista, competitivo, desigual e injusto, quero te pedir principalmente duas coisas: afasta de mim a falsidade e a mentira; não te peço nem riqueza, nem pobreza, mas apenas que me concedas o meu pão de cada dia. Que eu não me torne uma pessoa materialmente tão rica que ache que não precisa de Ti; ao mesmo tempo, que eu não me torne alguém tão pobre e miserável que precise roubar para sobreviver.

Entrego em tuas mãos minhas necessidades materiais, emocionais e espirituais. Livra meu coração do apego exagerado e doentio ao dinheiro. Quero ser como teu Filho Jesus: uma pessoa atenta às necessidades dos pobres, dedicada a fazer a minha parte para que este mundo se torne menos desigual e menos injusto. Enfim, que eu jamais descuide da minha salvação, administrando minha breve vida neste mundo com o meu coração e minha consciência diariamente voltados para Ti e para a tua vontade. Amém!


Pe. Paulo Cezar Mazzi

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

QUANDO UM FILHO SE SUICIDA



            Até onde pode ir o controle dos pais sobre a vida dos filhos, isto é, sobre as escolhas que o filho decide fazer e as decisões que decide tomar? Não há dúvida de que pais que amam seus filhos fazem tudo – dão o sangue, a própria vida – pelo bem dos filhos. No entanto, os filhos aos poucos vão crescendo, ganhando certa independência e exigindo certa autonomia para fazerem suas próprias escolhas e tomarem suas próprias decisões. Nesse caso, o máximo que os pais podem fazer é confiar na educação que deram aos filhos e nos valores que lhes transmitiram, valores que formaram suas consciências e que os ajudarão na vida a escolher o bem e rejeitar o mal.
            A partir da adolescência, as mãos dos pais vão se sentindo pequenas demais para “conter” nelas o filho que foi gerado. São mãos que certamente estarão estendidas para ajudar o filho sempre que ele precisar, mas essas mesmas mãos não têm como funcionar na vida do filho como se fossem uma “redoma de vidro” capaz de reguardá-lo da vida e do mundo, mesmo porque o filho se sentiria sufocado dentro dessa redoma. Portanto, os pais precisam aceitar o fato de que naturalmente o filho saia de suas mãos, e comece a dar passos no caminho da sua própria vida, na construção de si mesmo como pessoa.
            Quando ocorre a tragédia do suicídio, inúmeras perguntam enchem a cabeça e o coração dos pais. Eles poderiam ter evitado que o filho se suicidasse? Eles falharam em alguma coisa em relação a ele? Na verdade, as perguntas que surgem e não param de gritar dentro do coração dos pais são uma tentativa de encontrar uma explicação para o suicídio do filho, uma explicação às vezes muito perigosa e destrutiva, porque pode encher o coração dos pais do veneno de uma culpa e de uma responsabilidade que eles não têm perante as escolhas e as decisões do filho.
            Nenhum filho é resultado daquilo que recebe dos pais, seja positivamente, seja negativamente. Todo filho é resultado daquilo que escolhe fazer com aquilo que recebe dos pais. Isso fica claro quando, de dois filhos, um cai nas drogas, o outro não; um vai para a criminalidade, o outro não; um suporta levar pancadas e não se quebra facilmente, o outro se quebra diante de qualquer abalo que sofre... Cada filho tem sua própria personalidade, sua liberdade e sua consciência...
            Por falar em consciência, eis aí um lugar onde ninguém pode entrar: somente a própria pessoa. Por mais que os pais orientem seus filhos, há em cada filho um espaço sagrado chamado consciência. Ali nós estamos sozinhos, mas ali também ouvimos duas vozes falarem conosco: a voz de Deus e a voz do mau espírito. Enquanto a voz de Deus sempre vai nos sugerir atitudes que favoreçam a vida para nós e para o mundo à nossa volta, a voz do maligno vai nos sugerir o contrário. A decisão final sempre será nossa porque, como afirmou Victor Frankl, “tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida”.
            No entanto, existe algo que pode comprometer a liberdade da pessoa: seu estado de saúde mental. O suicídio não é simplesmente um problema de falta de fé, de falta de Deus, mas um problema de saúde mental. Quando uma pessoa está com algum comprometimento na sua saúde mental, sua liberdade de escolha fica afetada, e ela não tem como ser totalmente responsabilizada por seus atos. Como alguém disse: a pessoa que se suicida quer acabar com a dor psicológica que está sentindo, não com a própria vida.
            Pais que tiveram que lidar com essa tragédia do suicídio de um filho precisam lembrar-se dessa palavra de Jesus: As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai” (Jo 10,27-29). As mãos dos pais nunca terão poder suficiente para impedir um filho de se suicidar, mas os pais cristãos podem confiar a vida de cada filho às mãos de Deus e de seu Filho Jesus, pois ninguém, nem mesmo o mal do suicídio, pode arrancar o filho dessas mãos, mãos que foram crucificadas, mãos que experimentaram a morte, mãos que ressuscitaram, mãos que têm consigo as chaves da morte, mãos às quais cada um de nós é chamado a se confiar diariamente.

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

FRANCIS



Por um desígnio que não entendemos, Deus Pai permitiu que você fosse associado literalmente à morte de Seu Filho Jesus. Assim como o Servo Sofredor, você foi fisicamente “esmagado pelo sofrimento” (Is 53,10). Assim como os grãos de trigo são triturados, assim seu corpo o foi, por meio dessa doença que atinge inúmeras pessoas, e você foi oferecido na patena de um leito de hospital como sacrifício vivo. E nós, assim como Jó (40,4), colocamos a mão sobre a boca porque ainda não sabemos verbalizar o significado daquilo que Deus está nos falando por meio da sua Páscoa.
Somos imensamente gratos a Deus pelo dom da sua existência e da sua vocação. O valor de uma vida não está ligado à duração dela, mas àquilo que dela se faz, e você escolheu fazer-se discípulo daquele que comungou profundamente com as dores da humanidade. Somos imensamente gratos pelo seu sorriso, pela sua humildade e simplicidade, pelo seu amor e respeito ao povo de Deus; sobretudo, somos gratos pelo seu testemunho de como lidou com a sua cruz.
Victor Frankl, depois de ficar um bom tempo desmaiado pela fome, pelo frio e pelos ferimentos causados pela violência que sofreu por parte dos soldados nazistas, recobrou a consciência e, ao sentir dor, pensou: “Se estou sentindo dor é porque ainda estou vivo. Se ainda estou vivo, posso continuar lutando pela vida”. Você agora não sente mais dor; suas lágrimas foram enxugadas e seu corpo foi retirado da cruz. Sua luta pela vida terrena terminou. Você pode agora ouvir essas palavras de Jesus: “Muito bem, servo bom e fiel! (...) Vem alegrar-te com o teu Senhor!” (Mt 25,21).   

Pe. Paulo Cezar Mazzi 

PARA DEUS, NENHUM FILHO SEU ESTÁ PERDIDO PARA SEMPRE


Missa do 24º. Dom. comum. Palavra de Deus: Êxodo 32,7-11.13-14; 1Timóteo 1,12-17; Lucas 15,1-32

            Um pastor tinha cem ovelhas, e uma se perdeu. Uma mulher tinha dez moedas, e uma se perdeu. Um pai tinha dois filhos, e um se perdeu. Quantas pessoas, aos nossos olhos, estão perdidas? Algumas, perdidas nas drogas, no alcoolismo; outras perdidas no erro, na mentira, na corrupção. Além disso, quantas coisas importantes se perderam dentro de nós? Alguns não conseguem encontrar mais dentro de si a fé, a esperança, a alegria, o sentido da vida, o caminho de volta para Deus... Quantas pessoas estão perdidas dentro de si mesmas, sentindo-se como que dentro de um labirinto, sem esperança de encontrar a saída do mesmo?
            As parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho perdido são um resumo da história da salvação: justamente porque ninguém de nós está garantido de não se perder em algum momento da vida, Deus Pai enviou seu Filho Jesus ao mundo com a missão de “procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Porque o coração do Pai e o coração do Filho são movidos pela misericórdia, eles são corações que ouvem o grito dos perdidos, e não descansam até que aquilo que estava morto volte a viver e aquilo que estava perdido seja reencontrado. Portanto, se é verdade que ninguém está garantido de não se perder, também é verdade que tudo aquilo que está perdido pode ser reencontrado.
“Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15,4). Neste mundo massificado em que vivemos, o individualismo, a correria do dia a dia e o excesso de informações podem nos tornar insensíveis à ovelha que se perdeu ou que está se perdendo. Quantas pessoas próximas de nós estão se isolando e dando sinais de que não estão bem, mas nós não temos tempo para percebê-las, para nos aproximar e ouvi-las... E, de repente, acontece o suicídio... Muitos pais passam a maior parte do tempo trabalhando fora para dar o melhor para seus filhos, e não se dão conta de que estão perdendo seus filhos para inúmeros lobos que falam com eles via Internet...
Mas como é possível que um pastor se dê conta de que, num rebanho de cem ovelhas, somente uma esteja ausente?! Esta “uma” ovelha fala da nossa unicidade: no coração de Deus, cada ser humano é único e não tem como ser substituído por outro. Todo ser humano é irrepetível e insubstituível na face da terra. Se hoje inúmeras pessoas sentem que não farão falta se deixarem de existir, precisamos ajudá-las a compreender o valor único que são; precisamos lembrá-las de que cada ser humano é uma palavra única, uma mensagem única de Deus, a ser comunicada ao mundo com a própria existência (cf. Papa Francisco, GE n.24).  
“E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e a procura cuidadosamente, até encontrá-la?” (Lc 15,8). Dentro da nossa casa interior há coisas que se perderam, seja porque não cuidamos delas, seja porque deixamos que o acúmulo, a desordem, a bagunça interior estejam nos impedindo de achá-las. Quantos de nós estamos precisando acender a luz da nossa consciência, varrer a nossa casa interior e procurar cuidadosamente onde foi que colocamos a fé, a esperança, a fidelidade, a honestidade, o perdão, o diálogo, o sentido da vida etc... Quantos de nós estamos procurando fora o que está dentro; estamos procurando longe o que está perto?
Por fim, o filho mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe” (Lc 15,12). Se os filhos só repartem a herança após a morte dos pais, para aquele filho seu pai havia morrido. Para quantas pessoas Deus morreu, porque as decepcionou, porque permitiu perdas na vida delas? Ou então, quantas vezes nós já dissemos: “Tal pessoa para mim morreu!”? O personagem central da parábola que Jesus conta não é o filho mais novo, nem o mais velho, mas o pai – retrato vivo de Deus! Quando o filho volta para casa, depois de ter perdido tudo e se tornado um farrapo humano, “seu pai o avistou, quando ainda estava longe, e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos” (Lc 15,20). E como se isso não bastasse, aquele pai “disse aos empregados: ‘(...) Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’” (Lc 15,22.24).
O apóstolo Paulo disse: “Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra: Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles!” (1Tm 1,15). Portanto, há um abraço à espera de cada um de nós: o abraço do Pai! Ele sabe onde estamos feridos; sabe onde nos perdemos: “Tu conheces cada um dos passos errados que dei na vida e recolhes cada uma das minhas lágrimas no teu coração” (citação livre do Sl 56,9). Ele enxerga o que está perdido dentro de nós. Cabe a cada um de nós termos a mesma atitude do filho mais novo: “vou me levantar e voltar para meu pai” (citação livre de Lc 15,18). Ao mesmo tempo, se ontem o Pai precisou dos braços, das mãos, dos pés e do coração do Filho Jesus “para procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10), hoje Ele precisa dos nossos! Hoje Deus Pai pergunta à consciência de cada um de nós o que perguntou à consciência de Caim: “Onde está teu irmão?” (Gn 4,9). ‘Onde está aquele que se perdeu? Trabalhe junto comigo para que juntos possamos trazer de volta à vida aquele que morreu e reencontrar aquele que se perdeu!’. Toda Eucaristia é um apelo de Deus, para que reconheçamos que aquele que se perdeu é nosso irmão, e a nossa alegria só será completa quando aquele que está morto voltar a viver, quando aquele que está perdido for encontrado. Por isso, ao comungar hoje, é bom que nos perguntemos: A quem eu devo procurar? Quem precisa ser encontrado por mim? Para quem eu devo ser nesta semana sacramento da misericórdia do Pai?

Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 7 de setembro de 2019

SER UM AUTÊNTICO DISCÍPULO DE JESUS


Missa do 23º. Dom. comum. Palavra de Deus: Sabedoria 9,13-18; Filêmon 9b-10.12-17; Lucas 14,25-33

“Este homem começou a construir e não capaz de acabar!” (Lc 14,30). Qual é a construção mais importante a se fazer na vida? A construção de uma casa? De uma profissão? De um relacionamento/casamento? De uma família? De um patrimônio?  A primeira construção a se fazer na vida é a construção de nós mesmos como pessoas. Ora, se temos que nos construir como pessoas, isso significa que não nascemos prontos. Ainda que tenhamos herdado algo dos nossos pais e do ambiente em que nascemos e crescemos, é tarefa nossa nos construir como pessoas, uma tarefa que não podemos transferir para os outros. Construir-se como pessoa é uma responsabilidade que a vida delega a cada um de nós.
            “Este homem começou a construir e não capaz de acabar!” (Lc 14,30). Jesus dirigiu essas palavras às grandes multidões que o seguiam (cf. Lc 14,25). Portanto, o que Jesus está nos dizendo é que muitos começaram a segui-lo com entusiasmo, mas não foram capazes de chegar até o fim. Abandonaram a fé pelo meio do caminho. Por qual motivo? Porque não calcularam “os gastos” dessa construção; porque esperavam que ela fosse menos custosa, que exigisse menos renúncia e sacrifício. Além disso, existe também o fato de que muitas escolhas feitas e muitas decisões tomadas o foram na base da emoção, não da reflexão, e emoção passa. Sendo assim, muitos iniciaram a construção de um relacionamento, de uma família, de uma profissão, de um trabalho voluntário, de uma espiritualidade, de sua própria santificação, mas não foram capazes de chegar até o fim porque não souberam lidar com a cruz que nada mais é do que a comprovação do quanto levamos a sério as nossas escolhas.
Às multidões que seguiam Jesus ontem, e a qualquer pessoa que se propõe a segui-lo hoje, Ele diz: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega... até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo... Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26-27.33). Da mesma forma que Jesus não se ilude com as multidões, porque Ele quer qualidade e não quantidade, Ele também não nos quer iludidos em relação a Ele. Toda pessoa que se dispõe a segui-Lo e a ser fiel ao Evangelho vai entrar em conflito: ora com as pessoas da sua própria família, ora com os contra-valores do mundo, ora até mesmo com alguns membros da Igreja, cuja necessidade de agradar os outros se torna mais importante do que ser fiel à justiça e à verdade.
A vida cristã não é e não tem que ser um constante martírio, mas o Evangelho de hoje quer nos tornar conscientes de que Jesus comporta enfrentar lutas e ter que lidar com adversários. Além disso, o Evangelho deixa claro que Jesus não aceita ser um remendo em nossa vida, muito menos um detalhe ou um enfeite. Por isso, nossa adesão a Ele tem que ser radical, profunda, inteira. “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Muitos iniciaram um caminho de fé com Jesus, mas depois desistiram, porque não aceitaram caminhar atrás de Jesus; queriam caminhar “na frente”, escolhendo por si mesmos o melhor caminho, o mais tranquilo, o menos sofrido. Como disse Pe. Zezinho: “Não querem Jesus, querem a parte suave de Jesus. Não querem o Cristo, querem a parte agradável do Cristo. Não querem a cruz, querem a parte menos dolorosa da cruz... Não querem a Bíblia, querem parte dela: a que prova que estão certos. Assim agem muitos cristãos. Assim talvez nós ajamos” (Cristo aos pedaços).
Jesus convida cada um de nós a fazer um caminho com Ele, o caminho da construção da nossa fé, da nossa cura, da nossa libertação, da nossa salvação, da nossa transformação... Se o alicerce dessa construção for o nosso ego, a busca do nosso constante bem estar, ela está fadada ao fracasso, porque acabaremos rejeitando tudo aquilo que exige de nós renúncia ou sacrifício, isto é, tudo aquilo que vai contra o nosso bem estar. O cristão só se mostra autêntico, verdadeiro, diante de uma situação de cruz, quando ele tem que escolher entre o seu bem estar, os seus interesses, e os interesses do Reino de Deus. Toda pessoa que quiser viver autenticamente segundo a verdade do Evangelho, terá que enfrentar determinados sofrimentos.  
“Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Assim escreveu Paul Eudokimov, um teólogo ortodoxo: “Os cristãos fizeram todo o possível para esterilizar o Evangelho; dir-se-ia que o submergiram num líquido neutralizante. Tudo o que impressiona, supera ou inverte é amortecido. Assim, uma vez convertida em algo inofensivo, esta religião nivelada, prudente e razoável, o ser humano não pode senão vomitá-la” (O amor louco de Deus). Também como disse Marcel More, “os cristãos encontraram uma maneira de sentar-se, não se sabe como, de modo confortável na cruz”. E quando na Igreja já não brilha mais a vida de Jesus, dificilmente se constata alguma diferença com o mundo. A Igreja “se converte em espelho fiel do mundo”, que ela reconhece como “carne da sua carne”. É em relação a esse perigo que Jesus quer nos alertar.
Carregar a cruz significa aceitar-se, acolher-se como se é, com suas fraquezas e contradições. Carregar a cruz significa assumir as consequências da nossa construção diária como pessoas. Carregar a cruz significa amar até o fim, ser fiel, sustentar até o fim a construção que iniciamos. Numa palavra, carregar a cruz e caminhar atrás de Jesus significa ir até o fim... “Não, não pares. É graça divina começar bem. Graça maior, persistir na caminhada certa, manter o ritmo... Mas graça das graças é não desistir. Podendo ou não podendo, caindo, embora, aos pedaços, chegar até o fim...” (Até o fim, poema de Dom Hélder Câmara).

 Pe. Paulo Cezar Mazzi

sábado, 31 de agosto de 2019

ENXERGAR A VIDA PARA ALÉM DO DESESPERO DO SUICÍDIO



“Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais” (1Reis 19,4). “Pereça o dia que me viu nascer, a noite que disse: ‘Um menino foi concebido! (...) Por que não morri ao deixar o ventre materno, ou pereci ao sair do ventre de minha mãe? (...) Porque foi dada a luz a quem o trabalho oprime, e a vida a quem a amargura aflige, a quem anseia pela morte que não vem, (...) a quem se alegraria em frente do túmulo, e exultaria ao encontrar a sepultura?’” (Jó 3,3.11.20.22). “Maldito o dia em que nasci! O dia em que minha mãe me gerou não seja abençoado!” (Jeremias 20,14).
Essas palavras nos colocam diante do profeta Elias, de Jó e do profeta Jeremias, três homens deprimidos, profundamente machucados no corpo e na alma, três figuras bíblicas que nos falam indiretamente do suicídio, isto é, do desejo de morrer, de não suportar mais viver. Nenhum deles se suicidou, mas os três nos revelam o quanto às vezes a vida se torna insuportável e, embora em todos nós exista um forte instinto de sobrevivência, às vezes o nosso emocional se desestrutura e adoece a tal ponto que passamos a procurar a morte como sinônimo de descanso, de alívio, de saída ou de libertação, em relação a um sofrimento psíquico que não suportamos mais enfrentar.
Não há explicações simples para o suicídio e as “razões” para tal atitude extrema são inúmeras. O que se sabe é que a pessoa que chega ao ponto de tirar sua própria vida não consegue mais distinguir-se do problema que está enfrentando, de modo que ela conclui que acabar consigo mesma é acabar com o problema. Ora, não existe vida sem problemas. Nenhum ser humano atravessa esta vida terrena sem ter que lidar com dor, tragédia, perda, sofrimento, frustração etc., e se não quisermos nos tornar pessoas suicidas, precisamos ter muito claro que uma coisa é eu ter um enorme problema, outra coisa é eu me ver como um enorme problema: todos nós temos problemas a serem resolvidos, mas ninguém de nós deve se ver como um problema a ser eliminado.
Victor Frankl, um judeu psiquiatra, foi levado pelos nazistas para um campo de concentração, assim como inúmeros outros judeus. Devido ao sofrimento humanamente insuportável nos campos de concentração, algumas pessoas ficavam loucas, enquanto outras se suicidavam. Mas Frankl começou a se perguntar: o que faz com que algumas pessoas aqui, apesar de todo o sofrimento a que são expostas, não enlouqueçam e não se matem? Aos poucos, ele foi descobrindo que essas pessoas tinham uma razão para se manterem vivas: elas tinham esperança de sobreviver a tudo aquilo e reencontrar alguém da família que não estava no campo de concentração. Em outras palavras, quando a nossa fé não se alimenta de esperança, nem mesmo ela suporta lidar com o sofrimento e corre o risco de perder o sentido.
Victor Frankl percebeu algo importantíssimo: nós nem sempre escolhemos que tipo de sofrimento entrará em nossa vida, mas sempre podemos escolher a maneira de lidar com ele. Em outras palavras, as circunstâncias externas podem ser extremamente desfavoráveis para mim: doença, desemprego, fim de um relacionamento, perda de alguém querido, violência, guerra, fome etc., mas nada fora de mim pode anular a minha liberdade de escolha e a minha responsabilidade perante a vida. Sempre caberá a mim escolher entre assumir o papel de vítima dos acontecimentos ou o papel de sujeito da minha história, enxergando naquele problema uma oportunidade para eu crescer, amadurecer, superar meus próprios limites e alargar a minha compreensão a respeito de mim mesmo e da própria vida.   
Jesus foi profetizado por Isaías não só como um “homem sujeito à dor, familiarizado com o sofrimento” (Isaías 53,3), mas mesmo como um homem “esmagado pelo sofrimento” (Isaías 53,10). E como foi que ele lidou com tudo isso? Ele disse: “Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome” (João 12,27-28). Olhando a maneira como Jesus lidou com o sofrimento, entendemos que ninguém nasce para sofrer, mas sofrer faz parte da vida de qualquer ser vivo. Ninguém nasce para viver a vida toda frustrado, mas enfrentar momentos ou situações de frustração é algo que acontecerá na vida de qualquer pessoa, independente da sua condição social ou da sua religião. Por isso, quando estamos diante de um problema ou desafio a ser enfrentado, a melhor coisa a fazer é dizer como Jesus: “foi precisamente para esta hora que eu vim”. Em outras palavras, trata-se de olhar a vida nos olhos e enfrentar aquilo que cabe a nós enfrentar. O sentido da vida não está em não sofrer, mas em dar sentido ao sofrimento que cabe somente a nós enfrentar. Se para uma pessoa que não crê, a vida só tem sentido se for plena de felicidade e isenta de qualquer tipo de sofrimento, para nós que cremos sempre será possível encontrar um sentido para nos manter vivos, apesar de todo e qualquer sofrimento que tenhamos que enfrentar.

Termino esta reflexão com algumas frases de Victor Frankl sobre as quais nos fará muito bem refletir:  
1. “Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida”.

2. “Quando a circunstância é boa, devemos desfrutá-la; quando não é favorável devemos transformá-la e quando não pode ser transformada, devemos transformar a nós mesmos”.

3. “Nada proporciona melhor capacidade de superação e resistência aos problemas e dificuldades em geral do que a consciência de ter uma missão a cumprir na vida”.

4. “Você não é produto das circunstâncias, você é produto das suas decisões”.

5. “Cada vez mais, as pessoas têm os meios para viver, mas não têm uma razão pela qual viver”.

Pe. Paulo Cezar Mazzi


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

FAZER A DIFERENÇA NO MUNDO DA INDIFERENÇA

Missa do 22º. dom. comum. Palavra de Deus: Eclesiástico 3,19-21.30-31; Hebreus 12,18-19.22-24a; Lucas 14,1.7-14.

            Comecemos nossa reflexão sobre a Palavra de hoje acolhendo um conselho do apóstolo Pedro: “Revistam-se todos de humildade em suas relações mútuas, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (1Pd 5,5). Por que “Deus resiste aos soberbos”? Porque num copo que já está cheio não é possível colocar mais nada. Pessoas arrogantes, orgulhosas e cheias de si não têm espaço para acolher Deus e sua Palavra. Sendo assim, Deus “concede sua graça aos humildes” porque no coração deles há espaço para Deus habitar; na consciência deles, há espaço para Deus falar. Enquanto os soberbos acham que “já sabem”, os humildes estão abertos a aprender; enquanto os soberbos presumem que “já chegaram”, os humildes têm consciência de que estão fazendo um caminho; enfim, enquanto os soberbos prestam culto a si mesmos, os humildes prestam culto a Deus.
            O primeiro ensinamento de Jesus no Evangelho de hoje é a respeito da HUMILDADE. Tendo sido convidado para uma refeição na casa de um dos chefes dos fariseus, “Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (Lc 14,7). Então nos deu este conselho: “Quando você for convidado, vá sentar-se no último lugar... Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14,10-11). A palavra “humildade” vem de “húmus”, terra, o que significa que a pessoa humilde tem os pés no chão. Ela conhece as suas raízes; tem consciência das suas forças e das suas fraquezas, da sua luz e da sua sombra. Por ter aprendido a amar aquilo que ela é, não se enche de angústia e não desperdiça seu tempo comparando-se com os outros. Ela não vive numa busca doentia de ser reconhecida e valorizada pelos outros, pois sabe da sua importância e do seu valor para Deus.
            Enquanto a humildade nos cura e nos liberta, a soberba e a arrogância nos adoecem e nos aprisionam. Inúmeras pessoas, por não terem resolvido dentro de si seu sentimento de inferioridade, gastam sua energia emocional, seu tempo e seu dinheiro tentando projetar-se acima dos outros. Afastando-se das suas próprias raízes, elas escolhem viver como folhas secas que vivem flutuando no vento da superficialidade. Mascaram sua insegurança sendo autoritárias; mascaram sua tristeza sustentando uma imagem superficial de felicidade; seu coração desconhece a serenidade, por estar sempre tomado pela ameaça de perder “o primeiro lugar”, ou de não alcançá-lo. “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende” (Eclo 3,30). “Pecado” significa “passar ao lado do alvo, estar fora de seu eixo”. O orgulhoso, soberbo ou arrogante, vive na ilusão em relação a si mesmo.  
            Eis, portanto, o conselho do Eclesiástico: “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios” (Eclo 3,20). Em 2013, o cantor Elton John disse a respeito do Papa Francisco: “O Papa Francisco é para a Igreja Católica a melhor notícia dos últimos vários séculos. Este homem, sozinho, foi capaz de reaproximar as pessoas dos ensinamentos de Cristo. Os não católicos, como eu, se levantam para aplaudir de pé a humildade de cada um dos seus gestos. Francisco é um milagre da humildade na era da vaidade”. Seja você também “um milagre da humildade na era da vaidade”. Lembre-se: “A humildade não te faz melhor que ninguém, mas te faz diferente de muitos”; “Ser humilde não é ser menos que alguém. É saber que não somos mais que ninguém” (frases anônimas).
            Depois de nos convidar à humildade, Jesus nos dá uma sugestão: “Quando você der uma festa, convide os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então você será feliz! Porque eles não podem lhe retribuir. Você receberá a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,13-14). Enquanto a maioria dos relacionamentos hoje é marcada pelo interesse, pela expectativa da retribuição, Jesus nos aponta o caminho da GRATUIDADE, ensinando-nos que “há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20,35). Ele próprio escolheu colocar-se junto com aos que não tinham lugar nos banquetes do mundo, porque Deus, apesar de amar a todos e não excluir ninguém, Ele tem um amor especial por aqueles que não têm lugar neste mundo.
Se você olhar com mais atenção ao seu redor, perceberá que há inúmeras pessoas que nunca são convidadas, que “não contam”; pessoas não somente excluídas do Mercado, mas às vezes até mesmo ignoradas pelas igrejas. Diante dessa “globalização da indiferença”, o Papa Francisco nos alerta: “A cultura do bem estar nos faz insensíveis ao grito dos demais”. O deus do nosso mundo é o Mercado, para o qual não interessam as necessidades dos pobres, mas unicamente a ganância dos mais ricos. No entanto, diz a música: “No banquete da festa de uns poucos, só rico se sentou. Nosso Deus fica ao lado dos pobres, colhendo o que sobrou”.
Exemplo concreto – No dia 16 de fevereiro deste ano, Ana Paula Meriguete e Victor Ribeiro, de Guarapari (ES), se casaram. Cinco dias após o matrimônio, eles ofereceram um jantar festivo a 160 pessoas carentes, entre crianças e seus familiares. A inspiração veio durante uma missa em que se entoou “O meu Reino tem muito a dizer“, de J. Thomaz Filho e Frei Fabreti. Um trecho do canto, inspirado no Evangelho de hoje, recorda: “Se uma ceia quiseres propor não convide amigos, irmãos e outros mais. Sai à rua a procura de quem não puder recompensa te dar, que o teu gesto lembrado será por Deus”. Se no começo o casal encontrou resistência de amigos que achavam a ideia “uma loucura”, cada vez mais pessoas se prontificaram a ajudá-los à medida que o tempo passava e eles se sentiam inspirados pela iniciativa. Victor comenta: “A gente começou a somar forças. Amigos levaram a música ao vivo, uma empresa emprestou as cadeiras, outra emprestou as toalhas, a decoração levou voluntários. Conseguimos pessoas para ajudar a preparar o jantar. No final, conseguimos algo muito melhor do que esperávamos”.
           
            ORAÇÃO: Cristo Jesus, nas festas e nos banquetes deste mundo não há lugar para inúmeras pessoas. Ensina-me a fazer como o Senhor fez: escolher colocar-me junto dessas pessoas; desintoxicar-me do veneno da soberba e da arrogância; tornar-me uma pessoa verdadeiramente humilde. Livra-me da angústia de não ser quem eu gostaria de ser. Concede-me a alegria de reconhecer, acolher e amar a pessoa que eu sou, com sua força e sua fraqueza, com sua luz e sua sombra. Que a minha relação com as pessoas não seja movida pelos interesses do meu egoísmo, mas por uma sincera gratuidade, procurando levar um pouco de felicidade àqueles que quase nunca a experimentam. Que os meus olhos enxerguem aqueles que o mundo ignora; que os meus braços abracem aqueles que o mundo rejeita; que os meus pés me aproximem daqueles em relação aos quais o mundo se mantém distante; que a minha breve vida neste mundo faça a diferença na vida daqueles que são diariamente tratados com indiferença. Amém!

Pe. Paulo Cezar Mazzi